Mostrando postagens com marcador amor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador amor. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

E se... Uma história de amor (Vana Comissoli)

vana12


Para meus muito amados Philippe e Fernanda: tudo dará certo.


Aeroportos sempre me dão a sensação de entrar num formigueiro que começa a pegar fogo e teria que enfrentar este sufoco nas quatro nas próximas horas. Não suporto este bulício de gente que sabe para onde vai enquanto eu sei o local, mas não muito bem o objetivo.
Gosto mesmo é das chegadas. Os beijos dos apaixonados – jovens na relação -; os selinhos bobos que os casais antigos trocam como se fossem irmãos, mas ainda assim cheios de carinho permanente; a festa das crianças sendo recebidas ou sua total alienação nos abraços apertados que sufocavam dados por avós ou tios cuja existência conheciam por nomes planos em fotografias com cenários obscuros. Até mesmo a remota distancia dos homens de negócios esperados por pessoas absolutamente desconhecidas com cartazes nas mãos onde estaria seu nome ou mais impessoal ainda: nome de suas empresas. Felizmente os poucos astros da TV e futebol que encontrei, ninguém os estava assediando ou tendo delírios paranoicos com sua presença, por mais que arrastassem seu séquito de serviçais prontos a atenderem os desejos do amo num simples estalar de dedos. Fui poupada.
O que faço aqui? – me pergunto não mais podendo fugir da indagação que me corrói. Estarei fugindo, ou tentando escapar? Pela primeira vez atravessar o oceano, ser uma estrangeira, caminhar em terra alheia. Para uma sulista de meu país ir aos territórios cisplatinos não é exatamente uma viagem portentosa, éramos quase crias deles e fronteira uma linha invisível que não conseguia realmente nos separar, quase nem nos distinguia. Mais difícil era ir ao norte, muito mais distante e oneroso.
Eu o conhecera há escassos três meses e enquanto esteve no Brasil vivemos uma relação entre delicada e tórrida que derrubou todas minhas imensas barreiras, poderosas fronteiras onde meus guardas não permitiam travessia sem passaporte e muitas vezes revisado.
- O que? Estás louca! O sujeito é europeu e vais atrás? – Essa é minha mãe apavorada com o que considerava uma atitude impensada e infantil. Arriscadíssima. – Não sabes nada deste homem, nem sequer se existe de verdade! E se for um serial killer? E se for sequestrador? E se...
Deixei minha mãe falando sozinha. Eu tinha 39 anos e três casamentos ou pseudo casamentos de merda. De merda mesmo: o primeiro diabo carreguei nas costas, outro empurrei com a barriga e o último se borrou de medo de assumir compromisso se escafedendo na primeira esquina que encontrou. Depois disso tinha resolvido que ninguém mais dormiria na minha cama, só motel e cueca no encosto da cadeira. Chega! Bati a porta e joguei fora a chave por 2 anos, 7 meses e 21 dias.
- Que tremenda viagem! Vai fundo que pode não aparecer outra. E se ele for de fé, ficas por lá? – era minha irmã mais moca.
- Quem me dera uma paixão como esta, aventureira e em outra língua. Adoro francês. – era minha melhor amiga revirando os olhos e pondo Piaf no som. – E se...
- Loucura! Estás doente da cabeça! – minha mãe de novo, de novo e de novo.
Muita gente buzinando no ouvido só dá estrago, comecei a me indagar, o que não tinha feito nenhuma vez até a brotação dos E se... Fui flecha certeira até começarem.
Michel... Seria mesmo Michel seu nome? E se fosse uma alcunha? E se fosse casado? E se... E se... E se...
Agora era tarde para perguntar, a passagem para aquela terra distante e estranha ardia na minha bolsa. Existiria de verdade o tal país ou só em contos de fadas, em postais impessoais?
Tinha tempo, claro que cheguei adiantadíssima para o embarque. E se eu perdesse o avião? E se o “teto” fechasse? Teto... Essa coisa nebulosa bem diferente do que se tem casa para dar segurança e refúgio. Eu estava disposta a sovar durante cerca de doze horas num avião, na classe econômica onde os bancos são para tortura. E se tivesse trombose?
E se esquecesse da língua alienígena? Meu país é de proporções continentais, mas com pequenas nuances regionais perfeitamente identificáveis, podemos nos entender tranquilamente. Este povo europeu vivem em países quase do tamanho de minha cidade e outros até menores, falam trezentas línguas bifurcadas, sei lá em quantos dialetos arcaicos onde não se entende bulhufas.
Nos últimos três meses depois da partida de Michel eu frequentara um curso intensivo daquela língua que me embaralhava o pensamento embora tenha soado tão sedutora e “caliente” ao meu ouvido nos três meses antes desses três meses. Tudo três? Dou-me conta disso e aumenta a quantidade de suor em minhas mãos. Bom ou mau augúrio este monte de três? Não é número par, não dá casal. Devia ter trazido meu livro de numerologia. Esqueci, quase me esqueci de por calcinha na mala só pensando na fartura de roupas novas com as quais pretendia seduzir Michel. De íntimo só camisola. Lembrei a tempo das calcinhas e me desabalei a comprar as mais sexys que consegui encontrar às quase 10 da noite no shopping fechando. Muita sorte a vendedora ter ficado fissurada na minha história de paixão com a qual sonhava, é óbvio. Baixou as prateleiras todas, só não saí com a loja nas costas por que tinha medo de me perder do outro lado do mundo e não poder pagar hotel. Se... Qualquer coisa desse errado.
Estes três meses tão iguais e diferentes que faziam viés, trevas e luz antes deste aeroporto azul me pareceram a realização de sonhos muitas vezes sonhados em noites brancas. Eles eram reais mesmo pela Internet me trazendo as conversas ternas, saudosas e tórridas. Mas e se?... Se na terra distante ele fosse frio como a neve que lá caía e eu nunca tinha visto?
E se...
Olhei o relógio e fui para o portão de embarque. O céu não estava lá estas coisas e rezei. Na minha terra podia me por de joelhos diante de tudo que era santo, orixá e anjos, o Brasil tem destas maravilhas, mas lá... E se lá todos fossem ateus? Aqui até quem dizia que era tinha seu patuá escondido, seu “vai com Deus”. Coisas nossas, mas lá...
Chovia torrencialmente em São Paulo e o tal de “teto” sumira, tínhamos que esperar até que desse as caras novamente. E se a chuva voasse com o avião? Com certeza não seria um bom augúrio, era recado dos deuses: vais dar com os burros n’água. Não podia me preocupar com isso agora, também poderia ser uma limpeza na minha vida, precisava pensar positivamente e me concentrar para não ficar andando de um lado para outro, além de segurar as mãos que queriam ficar se esfregando sem parar.
Afinal embarcamos. Quando a comissária de bordo nos recebeu já foi na língua mãe dela, ou seja me deu um frio danado na barriga, eu entrara em outro mundo. E se não conseguisse entender nada? Entendi e pude escolher minha janta, mas louca de medo, estava tão nervosa. E se eu vomitasse? Procurei não pensar que minha próxima conexão seria em Paris. Ai meu Deus! E se perdesse as malas? Paris... Sonho de todo brasileiro e meu em especial por décadas, mesmo que seguisse viagem era Paris, La France. U lá lá!
Dormi um pouco, abri os olhos, dormi de novo toda torta. Esses bancos da classe econômica são mesmo de lascar. Resolvi dar uma espiadinha pela janela que nos obrigavam a manter fechada, mas nunca fui muito disciplina mesmo, não gosto de ordens irreversíveis. Eram 2 da madrugada. Espiei. Ai, socorro, eu atravessei o mundo! Duas da manhã e o sol está nascendo. Uma emoção colossal me assaltou e chorei, bem que queria sair gritando e falando de minha felicidade e surpresa por ter atravessado o mundo, sonho que já abandonara, se realizando. Meu Michel... Se nada der certo já me deste esta sensação louquíssima de felicidade imensa. Chorei mais um pouco, segurei por que estava prestes a começar a fungar e a vontade era de soluçar atirada no chão. Quase não dormi mais, não podia acreditar, estava sobre o Atlântico e isso é inenarrável. Milhões de borboletas, grilos, libélulas (adoro libélulas) na barriga e todos em movimento.
Aterrissamos e me senti o papa, cheia de necessidade de beijar o chão. Não dava tempo, corri para a alfândega louca de medo do extravio de malas, de não localizar o embarque e me perder neste imenso aeroporto francês. Quando pensava “francês” quase desmaiava, era mesmo eu ali, toda sorriso e engasgo.
Outro avião. Já estava me cansando deles, mas agora seria rápido. Na Europa tudo é logo ali, pelo menos era o que me diziam não sendo bem verdade, mas meu destino final era mesmo logo ali, não precisava pensar na França e na Alemanha que tem mais cara de país pelo tamanho. Pelo menos de minha ideia de país. Que longos e tortuosos limites! E se... E se... Todos “se” que ouvira e outros que criara. Nem sei se me lembrava direito da cara de Michel ou se o que via era resultado de sonho, de memória antiga que não se apagara. Nunca lembrava direito do rosto de meu pai que morreu quando ainda era menina.
E se Michel esquecesse o horário de minha chegada?
E se lá fosse um trânsito dos infernos como São Paulo e se atrasasse?
E se ele tivesse desistido desta brasileira de tantas raízes que não tinha mais nenhuma? E se...
Tinha o suplício de esperar as bagagens ainda. Não sei o que fazem para sempre ser tão lento, é por que não é no deles que arde. Uma vontade danada de gritar que estava ali para me casar e era brasileira sem entender nada de nada desses erres todos que falavam, cheios de us pelo meio, cheio de biquinhos que encantariam a qualquer um, mas agora não. Ia carregada, ficaria três (de novo o 3?) meses, a experiência que faríamos para uma vinda definitiva.
Agora o tremor das mãos, da fala, se instalou forte, estava com tudo ajeitado no carrinho de bagagem e pronta para atravessar a última fronteira que me poria diante de Michel: a porta automática da sala de desembarque. E se ele não me quisesse mais?
E se...
Lá estava ele, lindo como nunca, aquele sorriso arrasador. Que se danem todos que disseram que não era isso tudo. Os braços abertos que se fecharam em torno de mim enquanto seu beijo morno punha lágrimas em nossos olhos.
E se... Se desse certo?...


Vana Comissoli

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Causa sine qua non (Fernando Bastos)

 








Andava sempre de olhar afundado como uma garotinha que fizera traquinagem na sala de aula. Algumas vezes cheguei a suspeitar que fora violentada na infância, ou que fosse lésbica, dado sua habitual distância que mantinha dos homens que a abordavam.


Ana Maria era o oposto de Mariana. Ela, gelo, minha mulher, fornalha. Até hoje tenho complexo de Bentinho, aquele do Dom Casmurro. Por mais que Mariana defenda a tese de que não me corneia, estou sempre com um pé atrás. Às vezes faz hora extra no escritório de advocacia, e sabe lá o que acontece nessas ocasiões. Amo Mariana, mas Aninha me incendeia. Comecei a namorar Mariana quando eu tinha 20 e ela 17. Mariana morava com a avó e uma irmã. Gêmea. No dia seguinte, da minha primeira noite com a então namorada Mariana, quando fui lavar o rosto, levei meu primeiro susto. Como Mariana podia estar no banheiro saindo de toalha, se havia dormido comigo e a deixei no quarto antes de descer as escadas?


Aninha percebeu meu espanto e, timidamente, sem me olhar na cara, disse Não sou Mariana, sou Ana Maria, a irmã gêmea dela. Mariana, para de brincadeira, falei, como conseguiu chegar aqui antes de mim? E, sem deixá-la responder, abracei-a e apertei aquele
corpo ainda molhado sob a toalha felpuda. Estou falando sério, disse ela, Por favor, vovó pode acordar e nos ver...Mariana não me falara nada sobre a gêmea. Fazia parte do jogo. Ela gostava de jogos. Eu adorava vencê-los. A cópia se afastou e foi para o quarto, segurando
a toalha de banho com as mãos rente aos seios. Quis possuí-la, mas o fiz só com os olhos. Despedi-me do tornozelo bem moldado, e da sola branquinha do pé, antes dela entrar no quarto e fechar a porta para terminar de se secar.


Casei com Mariana, a avó morreu, a gêmea ficou morando conosco, Mariana se formou em direito, e, depois de um ano de casamento, começou a fazer hora extra. Não me preocupava com os serões de Mariana. Quanto mais tarde chegava, mais eu aproveitava os momentos para saborear a visão daquele corpinho, defendido sumariamente por uma camisola de algodão que ia até a metade das robustas coxas, deitada sobre o sofá, lendo Clarice. Com o tempo, ela foi perdendo aquele medo de animalzinho selvagem, e deitava em meu colo para lhe acariciar a cabeça. Quando sentia o perigo, levantava, dizia que ia ao banheiro, depois voltava para me dar boa noite, a uma distância segura, olhando-me obliquamente.


No finalzinho do outono passado, houve um Congresso de advogados na capital. Minha mulher voltaria no domingo. Na sexta, comecei a preparar o cenário. Vinho Cabernet, a lareira acesa, um filme romântico, o convite. Hesitante, largou o livro, e sentou-se ao meu
lado no sofá. Puxei o cobertor, e nos enfiamos debaixo dele. Nem deu a metade do filme, e ela já estava bêbada. Eu sabia que estava errado, mas a carne é fraca. Os primeiros códigos de Lei já proibiam esse tipo de relação. O judaísmo, maior influenciador sobre nossa cultura, avisa em Levítico 18,18: “não tomarás a irmã de tua mulher,...descobrindo a sua nudez...”.
Mandei à merda a lei de Deus, abracei-a, sob pretexto de esquentá-la, e ela concordou. Em dez minutos, sumiram nossas roupas, e ela galopava sobre mim, no tapete da sala. Seu moreno corpo rebrilhava as cores do fogo da lareira, dando-lhe um aspecto sobrenatural. Coloquei um travesseiro sob seu quadril. Suas unhas arranhavam minhas costas, mas não me incomodei. De repente ela começou a falar obscenidades, que jamais havia sonhado que pudesse dizer. Levei-a para seu quarto, e deitamos em sua cama, na esperança de acordar antes que minha mulher chegasse da farra.


No meio da madrugada, uma réstia de luz trespassou a fresta da porta. Lentamente, um vulto de mulher assomou na penumbra, como uma hetera, que chega em casa depois dos compromissos. Cheirava a bebida e perfume masculino. Sem dizer uma palavra, deitou entre nós e me beijou.






 

 

 

 

sábado, 8 de setembro de 2012

Eu aceito (Thiago Daniel)

Eles se olharam
Por algum tempo
Depois se beijaram

Logo se encontraram
Em um estado
Nada esperado
Era como o céu e o seu lindo sol
E o anel que ele lhe deu
Brilhava
Enquanto na mão dela ele colocava
Então começou
Uma bela canção
Ele a pegou pela mão
Como não devia deixar de fazer

“Vamos dançar”

Eles dançaram a noite toda
Mesmo sem saber
Dançar direito
Ele dava um passo
Ela dava um, dois
Pisavam nos pés
Ambos sem jeito
Mas se quer saber
Levar pisão no pé
Se for pra ser feliz
Até eu aceito

sábado, 23 de junho de 2012

Insanidade (Marcio E. Ochner)

Olhos que avistam dois momentos entre vidros,
Nele a reprodução da minha face.
Jogo-me num instante à eternidade do tempo,
Que se consumeem pensamentos, tedioso,oxidoem vazios.

Nunca achei que fosse tola de acreditar,
De que eu abandonaria o seu colorido,
Você é a luz que enche minhas noites.
És minha inspiração nos dias, em que, não passa de um momento escuro,

Sei que isso logo passa,nesse momento, ficarei dias sem nota-la,
Mais juro que tentarei enxerga-la doutra maneira,
Mais o que sinto, não posso deixarde expressar,
Parece ser pouco, somente para quem nunca teve algo,
é...
Você é meu todo...
Minha insanidade.

Carta para: Cintia P. Ochner

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Em nome da Fé (Fernando Bastos)

Guerras e momentos de paz, ódio e amor, abandono e caridade fazem parte de nosso mundo orientado sobretudo por conceitos religiosos. Essa dicotomia que ora produz homens e mulheres santos, ora assassinos pode começar a se tornar compreensível se entendermos seus textos “sagrados”.

Vamos dirigir nosso olhar para os dois grandes livros, responsáveis por ditar regras de comportamento em mais da metade do planeta: a Bíblia e o Corão. Ambos trazem versos confortadores e amorosos. “Amai-vos uns aos outros” é um pedido cristão e a sura 4,36 (Corão) declara: “Tratai com benevolência vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro...”. É espantoso que duas religiões que sustentam esses versos de amor tenham sido causadoras de cruzadas, guerras santas, inquisições, e atos de terrorismo em nome da fé que seus devotos seguem.

Expandindo nosso olhar sobre as escrituras, veremos que nem só de amor e perdão nos “falam” aquelas páginas. A Bíblia traz em Deuteronômio 17,2 a sentença de morte para quem adora outro deus (quem tem outra religião). Em cima disso foi possível a Santa Inquisição, liderada pela Igreja, onde milhares foram mortos. O Corão ensina na sura 4,89 como tratar os que não seguem Alá: “capturai-os e então, matai-os, onde quer que os acheis”. Assim como papas autorizaram a morte na fogueira de hereges, os terroristas do 11 de setembro  tinham apoio da fé para o ato que cometeram.

Esse talvez seja o grande mal na religião: ensina que devemos dar a mão ao próximo, desde que ele acredite naquilo que acredito. Não há tolerância e respeito a pensamento diferente. É mais importante crer do que ser. A salvação é questão de crença e não de caráter. Agora podemos entender um pouco porque uma crença pode ao mesmo tempo motivar alguém a acolher um desvalido, bem como inspirá-lo a botar tudo pelos ares.

Fernando Bastos, cartunista e escritor.

domingo, 4 de setembro de 2011

Necessário (Tiago Nascimento)

Eu só preciso de um instante
tenho tanto pra falar
nada de importante.
Eu só preciso de um romance
que embeveça o olhar
de todos os passantes.

Triste vida burocrática;
muito a se dizer
poucas as palavras.
Doce agonia monossilábica;
saudades de ser
infante, adolescente ou nada!

Eu só preciso de uma chance!
Quero respirar e ter
prazer de novo.
Eu até aceito um novo romance
ou ao menos ver você
de volta ao jogo...

Tiago Carpes do Nascimento; jesuscristohumano@gmail.com

domingo, 12 de junho de 2011

Ah, o amor (Fernando Bastos)

Ah, o amor!


Quantos disparates em torno dele. Filósofos, poetas, amantes e cientistas, todos tentam decifrá-lo. O escritor Gustave Flaubert tem uma preciosa descrição do amor em seu livro Madame Bovary, conforme o pensamento da personagem principal:


“O amor devia surgir de repente,
com grande tumulto e fulgurações - tempestade dos céus que cai
sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e
arrebata para o abismo o coração inteiro.”


Mas isso não creio que ainda é amor, mas paixão, você concorda?
Muitos, com efeito, fazem confusão entre paixão e amor. A paixão segundo os cientistas tem prazo de validade, dura no máximo uns dezoito meses. O amor do qual eu falo, é para a vida toda. Já o amor romântico, do jeito que conhecemos hoje, esse que envolve casais, e os entorpece como se tivessem sob efeito do ópio é coisa recente na história humana, que veio a reboque do amor cortês, surgido no ocidente, no século doze da era comum. Poetas trovadores - na Alemanha chamados “minnesingers”, cantores do amor - cantavam nas tabernas, nas ruas, praças e castelos o amor cortês, aquele amor impossível, do cavaleiro pela dama inalcançável. Era o amor pelo simples prazer de amar. Não importava levar a amada para a cama; antes, seduzi-la e embriagar-se nesse enlevo, e mostrar-se fiel a ela, dando a própria vida por ela, se fosse o caso. Sim, claro que o amor existia bem antes disso, todavia, era diferente, amava-se e ao mesmo tempo desejava-se a posse do corpo, além da alma. Antes do amor cortês, o amor não se realizava sem a consumação carnal. Diferente do amor romântico, que desejava-se a alma, sem se importar com o ato sexual.


Alguns especialistas sugerem que não há o amor pelo outro, mas, o desejo de estar no amor. Amamos o amor, não alguém. Em certa medida, eles estão certos, pois só assim para explicar porque muitos amantes sofrem uma vida ao lado de seu objeto de amor, que o agride e humilha. De fato, muitos amantes oprimidos pelo parceiro nem de longe sonham em terminar a relação, pois não conseguem se imaginar sem esse objeto de amor por mais que ele os machuque. Mesmo infelizes, continuam a não querer se desligar daquele envolvimento amoroso doentio e penoso.


E quando questionados por que não se afastam dele, respondem: “Não posso, pois o amo mais que tudo, e sem ele a vida não teria sentido”. Ama quem? A pessoa ou o “estar-no-amor”? Aqueles que conseguem romper essa corrente que os liga de forma mórbida ao parceiro agressor, poderão experimentar, num futuro não tão distante, se se permitirem uma chance a si mesmos, uma nova vida, muito mais decente e digna, seja ao lado de outra pessoa, em novo romance, ou mesmo sozinhos, pelo tempo que acharem melhor.


O amor puro e verdadeiro existe, mas é raro. Nisso acreditam os sábios que perscrutaram as sutilezas do amor desde a aurora da humanidade. Segundo eles, o amor verdadeiro não aprisiona, liberta. Não deseja possuir o outro, ser dono do outro, e sim, tornar-se parceiro do outro, e vê-lo feliz. Quem ama mesmo, não diz, você é minha ou você é meu, posto que pessoas não são objetos. Quem ama diz: “você é seu, você é sua”. Sua o quê? Sua própria identidade, seu próprio “eu”. Ninguém pode ser você, a não ser você mesmo, bem como é um grande equívoco dizer que fulano ou ciclana me completa. Ninguém pode completá-lo, torná-lo inteiro, a não ser você mesmo.


Fernando Bastos, cartunista e escritor

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Valentine's Day (Sônia Pillon)

 Da janela da varanda, o vidro está banhado pela água da chuva. Os pingos escorrem um após o outro, rapidamente, enquanto o céu cinzento, os relâmpagos e os ventos uivantes sacodem as folhas das árvores. Acho que tão cedo não vou esquecer dessa chuvosa tarde de verão. Que coincidência irônica, pensei. O mau tempo parece combinar com o meu estado de espírito, como se solidarizasse com a minha dor, lancinante, dilacerante...


 A água que escorre pela vidraça se confunde com as lágrimas que insistem em cair pelo meu rosto, involuntariamente, por mais que eu as tente reprimir, por mais que eu não queira derramá-las. Chorar para que? Odeio me sentir assim, refém das próprias emoções! Não combina comigo. Não combina com a vida que escolhi para mim.


 Hoje todos estão comemorando o Valentine's Day, e o meu coração está apertado desde que acordei. O que mais vi foram flores, flores e mais flores, embaladas em belos ramalhetes, ou em vasos enfeitados... Casais apaixonados sorrindo pelas ruas. Um ar de felicidade no ar, acintoso, ferino. Até a minha vizinha da frente recebeu rosas vermelhas. Logo ela, que só pensa em trabalho?! E eu é que tive de receber a entrega!... Não é ironia demais?...


 E pensar que no ano passado, no Valentine's Day, eu estava transbordando de felicidade ao lado dele, naquele inesquecível jantar à luz de velas, saboreando aquela comidinha chinesa e bebendo aquele vinho rosè, que venceu as minhas últimas resistências... Como esquecer a magia daquela noite, e de tantas outras em que nos entregamos àquela tórrida paixão, esquecendo o mundo ao redor?...


 Ah!... No início, ficava contando as horas, os minutos e os segundos de cada dia, que pareciam intermináveis, até ele tocar a campainha. Bastava um olhar, um toque, e um turbilhão de emoções tomava conta de nossos corpos e de nossas almas... Tudo parecia tão perfeito naquela época!...


 Claro que esse idílio não poderia durar para sempre. Quando a gente se conheceu, e se  envolveu, acreditava que todas as diferenças podiam ser superadas. Mas não é o que todo mundo pensa quando está cego pela paixão?


 Mas logo vieram os ciúmes, as  brigas, as cobranças de um lado e de outro... No começo eu até que tolerava aquele futebol todo o santo domingo. Mas com o tempo ele passou a se ausentar o dia todo. Eu ficava em casa, vendo televisão. Que tédio! Depois ele começou a sair sozinho nos sábados também... Aquele bafo de cerveja quando voltava para casa, sempre bem tarde e super cansado... Estava na cara que tinha mais alguém na jogada... Foi a decisão mais difícil da minha vida, mas não dava mais!...


 A chuva continua caindo lá fora, porém com menos intensidade. Fico olhando distraída o movimento dos carros, enquanto imagens em flashback tomam conta dos meus pensamentos por alguns minutos. Ainda há nuvens no céu, mas lá no fundo já dá para ver o arco-íris se formando. Respiro fundo e solto o ar lentamente. Enxugo as lágrimas e fico admirando as cores do arco-íris. Amanhã acho que vou dar uma passada no shopping. Estou precisando dar uma repaginada no meu visual.


Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Sem Olhar Pra Trás (Sônia Pillon)

Durante muito tempo fui uma pessoa dócil e boazinha, daquelas que não conseguem dizer um “não”. Na escola, perdi a conta das vezes que abri mão do meu lanche para os colegas e segui com fome. Deixava de brincar no parque, quando criança, para não sujar as roupas, e de sair com as amigas para ir aos bailes da escola, na adolescência, para não preocupar meus pais.

Enquanto as meninas da minha idade se ocupavam com as roupas da moda e maquiagens, geralmente ficava em casa. Quando não estava estudando, me refugiava na literatura, que me permitia viajar pelos lugares mais distantes e viver as mais loucas aventuras.

Conheci Leônidas, o meu primeiro namorado, quando tinha 18 anos. Eu era tímida e insegura como uma Gata Borralheira, e ele, exatamento o contrário! Me acostumei que ele decidisse sobre minhas roupas, os filmes que assistíamos, os amigos e os lugares que visitávamos. Apaixonada, aceitava suas imposições sem protestar, com medo de perdê-lo.

Depois que me formei em Pedagogia na Unerj, comecei a trabalhar com educação infantil. Queria atuar também no ensino médio, mas Leônidas me fez desistir da idéia. Nos casamos seis meses depois da formatura, e a partir daí conheci o inferno! As crises de ciúme de Leônidas, que antes me envaideciam, por considerar uma prova de amor, passaram a me sufocar. - Por que você se atrasou hoje, Catarina? Quem era aquele cara com quem você estava falando na saída da escola? Inútil negar que tinha um amante!

Ele passou a me bater. Foi nessa época que os meus sorrisos desapareceram dos lábios. As surras que eu sofria deixavam marcas profundas no rosto, no pescoço e no corpo, mas atingiram principalmente a minha alma, durante 10 longos e intermináveis anos!...

Uma manhã acordei de um pesadelo terrível: Leônidas tinha me matado com sete tiros, e eu estava estendida no chão, em meio a uma enorme poça de sangue. Suando frio e aos prantos, naquele momento decidi que cometeria um crime perfeito. “Quem tem de morrer é ele!”, pensei. Comecei a planejar a forma de matá-lo. Ele era cardíaco e hipertenso, e nunca ligou para dieta. Estava vinte quilos acima de seu peso e relaxava nos horários de tomar o remédio. Era sempre eu que o alcançava os comprimidos!...

A noite chegou e me esmerei no jantar. Preparei leitão assado, salsichão, e salada de maionese, que ele adorava! Ele comeu até se fartar, sem ligar para o excesso de calorias que estava ingerindo.

Como previ, de repente ele começou a ficar vermelho, com falta de ar, e a reclamar de forte dor no peito. Ele me fazia sinal para que alcançasse o remédio, mas eu não movi nenhum músculo sequer! Com os olhos arregalados, ele continuou com as mãos estendidas, agora com um olhar de quem tinha entendido tudo, estrebuchando até cair morto.

Ao constatar que tinha me livrado dele, gritei e toda a vizinhança me acudiu. Eu soluçava, me jogava no chão e me abraçava ao seu corpo, aparentando desespero. “Coitada!”, diziam. “Ela adorava aquele desgraçado, apesar de tudo!”, pensavam.

Três meses se passaram. Já estava na hora da segunda parte do plano. A própria família de Leônidas me aconselhou a viajar para um retiro, para me curar da "depressão"!... Cheguei em casa e preparei as minhas malas, apressadamente. Lembrei que na Suíça, agora, é inverno. Retirei cuidadosamente o quadro de Di Cavancanti, acionei o segredo do cofre, peguei os dólares e fui embora para sempre, sem olhar para trás!...

Sônia Pillon

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Ser e o Viver (Tiago Nascimento)

Viver é isso

Partir e chegar

Encontrar e deixar

Sentir saudade, fome, medo e frio

 

Viver é pensar

Desenhar um futuro

Planejar

Construir castelos na areia do mar

 

Viver é preciso

Sentir pena também

E amar, e sorrir, e ficar

Ser o que faz alguém sonhar

Ser o que faz alguém deixar de chorar

Ser.

terça-feira, 29 de março de 2011

Fechando o Verão... (Inacio Carreira)

“Amou daquela vez como se fosse a última”, alerta a música popular. Foi o que ele fez, sempre fazia isto, tanto porque nesta vida não se tem certeza de nada quanto por, sempre, procurar dar o melhor de si. Fazer com que sua companheira quisesse repetir a experiência mais uma vez, e outra, e ainda mais tantas. Muitas. Um sorriso malicioso iluminou seu rosto.


Não fosse essa danada chuva e tudo ficaria melhor. Ainda é março, mas o verão já foi, hoje é outono e o tempo não sabe disso? Ou Tom Jobim é que ignorou, dando-se licença poética para escrever a letra? “Águas de março fechando o verão...” que nada. Parece que estão, sim, essas águas, abrindo a temporada de resfriados, pneumonias, maruins, dengue... e da venda dos baratos e efêmeros guarda-chuvas de 4,99 real.


Sim, sim, a terra precisa ser molhada, o historiador grego Heródoto dizia que o Egito - um longo e estreito oásis - é (era) uma dádiva do Nilo. Agora viajei longe... Egito... As coisas para eles não estão bem, também. Nem no Japão. Nem... porra, o mundo todo está uma merda... Com tendências a piorar. Será que foi mesmo a última vez que fiz amor? Tem séria possibilidade de ser, sim... Afinal, saio para a rua e tenho que enfrentar enchentes, trânsito parado, assaltos, enxurradas, barreiras... Não só o homem está em guerra, a natureza também está em guerra contra o homem.


Desvia daqui, pula ali, escorrega, levanta... Parece que estava sendo filmado numa dessas abomináveis pegadinhas que infestam tudo, da televisão à internet. Pegadinhas... Ele gosta de pegadinhas, sim, mas de outro tipo. Novamente a lembrança da mulher, que tem a felicidade de poder ficar um pouco mais na cama, ninho que ainda deve conservar o calor que irradiaram: trabalha somente à tarde, se voltar cedo passa pelo serviço dela. Passa? Já não sabe mais.


Das ruas sobe um cheiro nauseante, misto de cemitério e latrina, água parada e esgoto, lixão e beira de linha de trem. De que adiantou tomar banho? Essas partículas vão grudar em sua roupa, seu cabelo, entrar em seus pulmões mais do que as partículas subatômicas que os técnicos insistem não apresentarem perigo à vida.


Viajou novamente. Mais longe, ainda. Que bom seria “erguer no patamar quatro paredes sólidas”, com o perdão de Chico Buarque, isolar-se do mundo e esperar a poeira baixar. Mas não dá. A vida é pra ser vivida, será que alguém disse isto? Se não disse, ele inaugura a frase. Parece boa. Divagar, divagar... Ter que andar rápido e, ainda assim, divagar. Para não pirar. Não marear. Não chorar. Não voltar correndo e se enfiar embaixo da cama, talvez o único lugar na casa, se não cair muita coisa em cima.


Porque foi pensar isso agora? Não consegue prosseguir, volta correndo para verificar. Lembrou que perto, bem perto, viu viaturas da Defesa Civil. Bombeiros. Mutirões. Os versos do “amou daquela vez como se fosse a última” não saíam de sua cabeça. Premonição. Pesadelo. Peste de coisa ruim que é pensar, pensar, pensar...


Ao chegar ao que fora sua casa, entra nos escombros em busca da companheira, é difícil se orientar, tudo fora do lugar, lugar fora do lugar, lutar contra o quê? Buscava, demente, a lógica dos desenhos dos tijolos, dos blocos, dos azulejos... No que fora o quarto do casal, um ruído seco desvia. Busca-se no avesso do espelho e não se vê.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Mulheres (Tiago Nascimento)

Mesmo que a noite seja escura

Uma noite não dura para sempre

Logo a mãe vem e lhe assegura

Homem, filho, medo não sente.

E conforme o tempo vai passando

Rapaziada já sabe o que quer

Estará pela vida toda buscando

Substituir essa mãe, por outra mulher.





Minha homenagem para todas as mulheres. As mães, as esposas e as outras.

Tiago Nascimento
jesuscristohumano@gmail.com

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Ela vai viajar... (Inacio Carreira)

Para Lily Farias


Acordou com um pressentimento estranho... E se não desse certo? Vái-te, coisa ruim, afasta esse pensamento medonho... Afinal, que mal tem sair um pouco de casa? Ver o mundo? Ela, apesar dos 45 anos bem vividos (dentro de suas perspectivas de mundo), nunca saíra de sua cidade natal. Seu torrão querido e mais todos os lugares comuns com que normalmente designamos o “marco geodésico” onde fomos colocados no mundo, dados à luz, o que também são lugares comuns.


Quarenta e cinco anos... 45 anos... Os dez primeiros foram ocupados em aprender a colocar o corpo em equilíbrio, movimentá-lo, fazer dos tartamudeios um discurso inteligível, no mínimo para as gentes que com ela conviviam, que as demais não contavam; cheirar, provar, ingerir o maior número possível de coisas ao alcance das mãos, aprovando e reprovando as texturas e sabores, conforme o acúmulo de suas experiências sensoriais. Conseguiu. Com muito custo. Depois, dos 11 aos 20, mais ou menos, aprendeu a desenhar o nome, ler de “carreirinha” e fugir dos meninos e “dessa gurizada fidamãe” que queriam, a toda força, torná-la mulher. Muitos conseguiram, por vezes ela se deixava pegar, fazendo parte do jogo e tirando, sim, embora negasse ao padre, algum prazer do resultado. Graçasadeus nunca ficou prenhe, isto ninguém podia lhe jogar na cara. Não era como umas e outras que, a partir dos 12, 13 anos, colecionavam filhos, um de cada cor, conforme o grupo de turistas ou caminhoneiros que passavam pela sua pequena Miraflor. Elas, as moças miraflorenhas (somente depois dos 40 soube que as chamavam assim) eram bonitas, fruto da miscigenação (até hoje ela não sabe o significado desta palavra) entre noruegueses, chineses e mamelucos. Não, não vou explicar como se juntaram gentes tão diferentes nesse pedaço de mundo, daria um livro desse tamanho, nem te conto... Essa beleza exótica, que misturava pele alva, cabelos lisos e olhos claros, na maioria das vezes, era estonteante. Quantas promessas, a quanta proposta ela fez ouvidos moucos, pensando no seu “pedacinho de chão”, como dizia, fazendo graça e deixando os convidadeiros com mais vontade de fazer propostas, de levar “recuerdos de Miraflor”. Mas ela não! Tanto que, quase aos 21, juntou pertences, esperanças e “uns arrepios que começavam no alto da espinha e iam até onde nem te conto” com um tal Jão, que veio de algum lugar, filho de quem com ninguém sabe. Apesar das credenciais pouco atrativas, Jão era diferente. Viera de outros lugares, andara por outros mundos, tinha um quê de sedutor que fazia com que ela se esquecesse de tudo, até que havia coisas a serem descobertas, coisas a serem nominadas, saberes a serem sabidos. Ela ficou sendo, a partir de então e durante 25 anos seguintes, a mulher do Jão. E seus dias resumiam-se a arranhar a terra para depositar sementes, arranhar a terra para expulsar ervas daninhas, arranhar a terra para buscar, das entranhas, as raízes que alimentavam a ela e aos seus. Mas, em primeiro lugar, ao Jão. Até que ele (com quem também não procriou, talvez culpa dela, talvez dele, que nunca se soube tivesse deixado mulher cheia) um dia não voltou. Veio o feitor dizer de sua queda, de sua desdita, de seu sumiço na terra que ela tanto arranhava, e que feriria tanto na busca de seu Jão até que o sangue regasse as raízes, suas unhas transformadas em goivas, seus olhos transmudados em cascatas, seu pensamento somente lá. Na terra de Jão. Sacudiu a cabeça, mandando os pensamentos para outro canto, e fez-se bonita, tanto quanto podia, tanto quanto ele a elogiava. Meias ¾, rasteirinha (pode ser longe, fica cansativo ir de saltinho), a saia de pregas que a vizinha, quando engordou, doou para ela, a camiseta do time do coração de Jão e o boné da empresa. Sim, o boné da empresa é que a identificaria no ponto de ônibus, onde depois de uma viagem de mais de 30 minutos, quando descesse, um ex-colega de seu defunto preferido a esperaria, para levar ao campo santo. A terra do Jão. Para onde ela ia agora, visitar o lugar onde depositaram os despojos, chorar sua saudade, levar – talvez – uma de suas raízes para plantar bem onde ele estava, e que as raízes encontrassem seu homem e dele se nutrissem. Ela voltaria no próximo ano, e no outro, e até quando tivesse vida, para nutrir-se indiretamente da seiva daquele que a fizera tão feliz.


Quarenta e cinco anos sem sair do lugar onde nascera. Esperava retornar breve, o mais breve possível, talvez naquela mesma noite, que ficar no mundo tanto tempo não é fácil, não.


Inacio Carreira
associação beneficente novo amanhã / comunidade terapêutica
www.novoamanha.org.br

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Mielinização (Tiago Nascimento)

Saber saber saber.
Os processos de mielinização estão quase se encerrando.
Meus anos passam lentamente, mas parece que fazem várias eras que não vejo o meu amor.
Preciso do seu carinho, do seu beijo, do seu leite.
Vem.
Preciso aprender a te reconhecer nos rostos diferentes que pouco a pouco vem me visitar.
Não precisa ter 50 anos pra começar a esquecer.

As brigas melhores que participei, eu perdi...

E dizem: Necessário se faz
saber ser o que você é.
Mas quem sou eu?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Crime passional em dois atos (Sônia Pillon)

Ato I

O sangue estava empoçado em volta dos corpos do casal. Quinze facadas se sucederam e calaram o choro, os gritos e a infelicidade da mulher. Uma faca de ponta afiada estava no meio dos corpos. O último ato: a faca ensanguentada depois da auto-degola do marido.
Ato II

Almas separadas, corpos unidos. A morte chegou e levou a dor.



______________________________________________
Sônia Pillon é jornalista e escritora. Nascida em Porto Alegre (RS), está há 14 anos radicada em Jaraguá do Sul (SC). Publicado na revista virtual Letras Et Cetera, em 21 de dezembro de 2010. Produzido originalmente em fevereiro de 2008.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Dona Esperança (Sônia Pillon)

Sônia Pillon


 

Sentada no piso frio da calçada de uma das principais ruas da capital, dona Esperança podia ver todos que passavam na altura da cintura. Desde os mais apressados, a caminho do trabalho ou de casa, carregando os filhos ou sacolas pela mão, até os que passavam sem a mínima pressa, arrastando os pés. Os cabelos semi-grisalhos, as rugas profundas, a obesidade e a aparência geral de desleixo não são um mero artifício para pedir esmolas. Ela realmente está ali para mostrar seus pés disformes, cheios de feridas, que de tão grandes chocam os passantes mais sensíveis.

Ao mesmo tempo que causa olhares de repulsa em alguns, ou de indiferença, em outros, é com a piedade dos passantes que ela conta para sobreviver. Para ela, que se apega àquela vida miserável com unhas e dentes, sem ao menos entender a razão, algumas poucas moedas podiam significar um café com leite, acompanhado de um sanduíche, nos dias de maior sorte, ou mesmo um pão com manteiga para aplacar a fome. Uma fome que atravessava suas entranhas e chegava até a alma. Fome de vida, de alegria, de um prazer que há muito deixou de ter!...

E pensar que já foi uma mulher bela, disputadíssima pelos ricos clientes do bordel, há décadas atrás. Chegou a ser leiloada numa grande festa privè, promovida por um manda-chuva político. Naquela época, não faltavam jóias e dinheiro, e até ganhou uma casa bem confortável, de um figurão que tinha caído de amores por ela. E chegou também a ser pedida em casamento por um farmacêutico cinquentão. Tímido, viúvo e apaixonadíssimo, ele queria fazer dela sua esposa.

- Esperança, você é a esperança da minha vida! Case comigo e seja a mãe dos meus filhos!

Mas ela ria, ria... Imagina se ela, no auge dos seus 20 anos, iria se enfiar atrás de um balcão de farmácia, quando tinha o mundo a seus pés?!... Que simplório!, pensava.

Mas o tempo foi passando, e as noitadas, as bebedeiras e as sucessivas doenças venéreas começaram a deixar suas marcas naquele corpo, até então perfeito. Aos poucos, foi perdendo tudo o que tinha, inclusive aqueles que considerava amigos. Todos fugiram como ratos num naufrágio!...

Mas foi o crack que a levou definitivamente para o fundo do poço. Já nessa época, suas pernas e pés ficaram irremediavelmente deformados, e passou a mendigar pelas ruas da capital. Dormia numa casa abandonada, com outros excluídos como ela. À noite geralmente chorava, e pensava que podia ter dado outro rumo à sua vida, não fosse a vaidade e a ambição. Tinha 40 anos, mas aparentava mais de 60...

Mas num desses dias em que ela estava em frente a uma galeria comercial, com frio e fome, e com a caixa de papelão à espera de uns parcos reais para seguir vivendo, eis que surge um homem bem vestido, calvo, que a olha no fundo dos olhos.

- Esperança! É Você mesma?!...

Nesse momento, Esperança devolve o olhar e reconhece o farmacêutico José, profundamente envergonhada.

- O senhor está enganado! O meu nome é Maria... Maria da Conceição...

- Não, não, eu jamais esqueceria esses olhos, Esperança!... Meu Deus! Venha comigo, você está precisando cuidar dessas feridas! Eu vou te levar até a minha farmácia...

Os olhos de Esperança se encheram de lágrimas, que ela não conseguiu conter. Bastante constrangida, ela aceitou ser conduzida pelo farmacêutico. Ele morava num bairro distante dali, no piso superior da farmácia. José a fez tomar banho e vestir roupas dele, que curiosamente serviram bem. Ele tinha engordado também, nos últimos anos...

Enquanto ele servia uma refeição à Esperança, que não queria acreditar no que estava acontecendo, ela foi contando sobre os excessos, as drogas... Ele ouvia tudo atentamente, comovido. No dia seguinte, ele saiu para comprar roupas novas para Esperança, bem coloridas, como ela gostava.

E nos dias que se passaram, José cumpriu o que prometeu. Os dois sabiam que ela não tinha muito tempo de vida, pois estava bastante fragilizada, mas preferiram não tocar no assunto.

Uma noite, quando Esperança ardia em febre, e José estava sentado ao pé da cama, como sempre, finalmente Esperança falou.

- Nunca pensei que existissem pessoas como você nesse mundo, José! Depois de eu ter rejeitado você, poderia ter se sentido vingado, como tantos outros...

- Não, Esperança! Você foi como um cometa, que apareceu num momento muito especial da minha vida, e fico feliz em poder estar aqui, agora, com você...

José pega as mãos de Esperança, que as aperta fortemente.

- Muito obrigada por tudo, José!... Eu nunca te disse, mas sempre me lembrei de você com saudades... Você foi o único que me tratou como gente... Se eu pudesse voltar no tempo...

Mas subitamente ela parou de falar. E o farmacêutico José, que sempre foi tão solitário, chorou por muitos minutos ao seu lado... Tinha reencontrado o seu amor e perdido de novo...




Escrito em 8 de dezembro de 2010.

Sônia Pillon é jornalista e escritora. Natural de Porto Alegre, está radicada há 14 anos em Jaraguá do Sul.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Estava esperando por você (Sônia Pillon)





Hoje acordei com essa sensação estranha de paz. O sol de outono que entrou pela janela, sacudindo as cortinas, e o canto dos pássaros no cinamomo me fizeram muito bem. Pela primeira vez, depois de tantos anos, não senti aquela angústia cortante, aquele desânimo de ter que enfrentar mais um dia interminável, empurrada pela enfermeira nessa cadeira de rodas pelos frios corredores desse asilo “cinco estrelas”. Podem dizer o que quiserem, mas para mim esse lugar nunca passou de um depósito de velhos à espera da morte.

Dez anos!... Não dá para acreditar que o Ernesto morreu daquele jeito, de ataque cardíaco... Pensando bem, até que faz sentido, porque ele tinha um coração de ouro, mesmo. Todo mundo dizia isso. Eu é que era a megera! Só um homem como ele para aguentar o meu mau humor, o meu temperamento explosivo, a minha arrogância, durante quase 50 anos... Mas na época, aquela calma toda dele me irritava! Como eu fui cega e ingrata, por não saber retribuir a dedicação do amor da minha vida...


Só depois que ele morreu e que a nossa única filha me jogou aqui, e se apoderou de todos os meus bens, é que eu entendi o quanto ele me amava! Mas a culpada disso tudo sou eu mesma, que sempre ensinei à ela que o mais importante nessa vida era ter status e dinheiro. Deter o poder, acima de tudo! Estou pagando o preço da minha própria soberba.


No começo, até que a Carmem vinha aqui fazer o papel de filha prestimosa, mas foi só eu passar a procuração para ela tocar os negócios da empresa que as visitas começaram a rarear, até cessarem totalmente. Me deixou uma enfermeira particular e crédito para tudo o que precisasse aqui dentro. Quanta bondade!...


Desde que eu tive o derrame e fiquei condenada a não andar nunca mais, pouco tempo depois da viuvez, sempre amaldiçoei essa cadeira! Odiava ver essas minhas pernas atrofiadas e cobertas com esse cobertor xadrez. Era insuportável ver o olhar de compaixão das pessoas quando me viam. Quem diria, a poderosa e temida dona Gertrudes, entrevada para sempre! Com certeza muitos devem ter dito que era castigo, e deve ter sido mesmo.


Estranhamente, hoje toda a minha revolta parece ter perdido o sentido. O abandono, a minha paralisia irreversível, a solidão, nada disso parece mais importar. Pela primeira vez, desde que vim para cá, essas lágrimas não são de tristeza. Estou me sentindo tão feliz! Inexplicavelmente, sinto um alívio que vem do fundo da alma. Solto um longo suspiro e parece que toda a dor se dissipa.


- Bom dia, dona Gertrudes! Hora de levantar! Dormiu bem a noite?, perguntou a enfermeira, ao entrar subitamente no quarto, com sincera preocupação no olhar.


- Sim, Ângela, dormi muito bem, não senti dores nem tive pesadelos essa noite. Acordei com o sol e com os som dos passarinhos...


- A senhora está chorando?! O que aconteceu?...


- Está tudo bem. Eu estava me lembrando do meu velho. Esse mês fazem dez anos que ele me deixou. Ele era um homem muito bom...


- É, ouvi falar dele, sim. O pessoal aqui do ancionato diz que ele era um homem muito querido, até pelos empregados... Mas agora está na hora de tomar o seu remédio, dona Gertrudes. Isso. Agora vamos trocar esse fraldão e depois tirar esse camisolão... Daqui a pouco vão servir o café no refeitório.


- Ângela, hoje eu quero que você me coloque aquele vestido de veludo verde e arrume o meu cabelo. Quero ir bem arrumada para o café. E depois quero passear um pouco no jardim, aproveitar esse sol da manhã.


- Boa ideia, dona Gertrudes! Essa história de ficar trancada o tempo todo dentro desse quarto não estava certo! A partir de hoje, vamos sempre passear lá fora, a não ser que chova, é claro. Vai lhe fazer muito bem para a saúde. Eu sempre lhe disse isso, lembra?


- Quero o meu cabelo bem penteado. Assim. Agora me traz aquela necessaire ali. Estou precisando de uma base e de um batom suave. Isso mesmo. Obrigada. Não dá para fazer milagre com 80 anos nas costas, mas sempre ajuda...


- Ora, ora, a senhora está ótima! Vamos então que o café já está na mesa... Sorriso no rosto, isso mesmo...


- Quanta gente por aqui... A Filomena também?! Foi minha comadre... Éramos tão amigas, antes do meu casamento... Ela ainda deve estar magoada comigo...


- Ela tem Mal de Alzheimer, não reconhece mais  ninguém... Tem um filho que a visita toda a semana, mas ela fica sempre assim, com o olhar perdido...


- Que pena... Gostaria de conversar com ela, lembrar da nossa juventude... Olha, Ângela, tem cuca de banana com farofa, que eu adoro... Eu devia ter vindo mais vezes fazer as refeições com os outros... Teria me sentido menos só...


- Aproveite que o café de domingo é especial... Ué? Já terminou?...


- Sim... Agora pode me levar para o jardim, debaixo daquele cinamomo lá, perto do portão... Tem uma sombra gostosa, e assim posso ver as flores e respirar um pouco de ar puro...


- Pronto. Chegamos. Precisa de mais alguma coisa, dona Gertrudes?


- Sim. Tenho um pedido especial para você.Quero que me perdoe por ter sido sempre tão grosseira com você, Ângela. Você sempre foi muito dedicada e eu nunca agradeci por isso...


- O que é isso?... Eu entendo... Não se preocupe... Claro que eu desculpo, esqueça isso, dona Gerturdes... O importante é que a senhora está se sentindo bem e que a partir de hoje vai passear mais, ficar mais alegre...


- Eu sempre fui muito perfeccionista. Exigia demais de mim mesma e dos outros. Humilhava as pessoas que não eram da mesma classe social. Se pudesse voltar atrás... Ângela, será que você pode conseguir uma câmara para fotografar esse jardim? Está tão bonito...


- Claro, vou buscar o meu celular, já volto... Qualquer coisa, dê um grito para a Claudete, que está limpando o salão de visitas...


- Não se preocupe comigo, eu estou bem, Ângela... Vai... Hoje o céu está tão azul... Não tem nenhuma nuvem... E essas rosas vermelhas... Lindas!... As borboletas estão fazendo a festa... O gramado parece mais verde do que de costume. Ah, finalmente!... Meu amado!... Senti tanta saudade!... Estava esperando por você...




Texto produzido em 2 de agosto de 2010.

Sônia Pillon, jornalista e escritora
soniapillon@gmail.com

domingo, 5 de setembro de 2010

A viagem (Tiago Nascimento)

Navegar em mares nunca dantes navegados.

Explorar reconditos úmidos, insalubres, intocados.

Conhecer aromas e odores exóticos.

Se perder por caminhos ilusórios e lógicos.

Descobrir uma rota alternativa.

Economizar combustível: amor ou gasolina.

Porque petróleo move minha barca colorida,

Mas são os amores que me levam pela vida.




Prof. Tiago Nascimento.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Reticências (Adriana Niétzkar)



[caption id="attachment_52" align="aligncenter" width="300" caption="http://www.juniorflor.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Sil%C3%AAncio-nas-palavras.jpg"][/caption]


- ...

-Tu já percebeu como as palavras perdem seus significados? Tava vendo lá o significado da palavra maracutáia; acredita-se - sim porque cada vez se tem menos certeza nessa vida... pelo menos isso – que mara é uma palavra de índio, que significa confusão. Aí, passados os quinhentos anos de desapropriação o sujeito mostra lá a reserva indígena e fala que pro índio é tudo mara. Se bem que nesse caso pode até ter muito significado pro índio, não com o nosso português, nessas gírias ai que faz muito gramático torcer o nariz, mas no significado tupi. Mas a partir daí ninguém mais se entende, porque pra cada um a palavra tem outro sentido. É como os ministérios do George Orwell, o ministério do amor cuidava para que as pessoas não se apaixonassem, o do pensamento que as pessoas não pensassem. Tava tudo mara? Em qual sentido?
Já penso nas conversas sobre o tempo? é uma não conversa de quem não quer dizer nada mas não suporta o constrangimento do silencio, ficar ao lado de alguém sem nada dizer, no entanto se fala e nada diz.
É, to querendo dizer que há muito tempo você nada diz, mas eu também não digo muita coisa, parecemos estar falando sobre o tempo ou coisas que tem outro significado. Não, não quero dizer nada com isso, só estive pensando, que tudo que dizemos são contrários do que fazemos, talvez o que queremos também sejam.
Não pense que quero culpar alguém, a culpa é de nossos medos, de nossas acomodações, da nossa incapacidade de estarmos dispostos a perder tudo, a desmontar tudo para começar tudo de novo. Cada vez se tem menos certeza das coisas e todas essas incertezas tem confundido o sentido das nossas palavras, das suas para mim e também das coisas que digo para você. Não, eu não minto, mas logo que digo, mudo de idéia. E você fica sem saber o que sou., por mais que eu não queira que seja assim... Você também tem mudado depois de dizer? Minhas palavras estão fazendo confusão? Estão sendo mara? Em qual sentido? Como não sabe? Você ta querendo me confundir? É eu sei, a minha cabeça ta uma confusão, talvez seja por falta de pratica.
Tenho pensado pouco, tenho que exercitar o pensamento. Essa confusão sobre o significado das minhas palavras tem me tirado o sono. Eu quero entender o que digo.
Tenho me sentido dentro dos ministérios do Orwell, na realidade criada por ele não tinha outra realidade, será que na nossa tem? Será que podemos voltar a amar e pensar? Temos que tomar cuidado com a policia do pensamento, com os apreciadores de iguarias cerebrais, não esquece do aviso do Raul... Cuba? Não, não quero beber, quero entender as mensagens das musicas, não das que temos ouvido, que são conversas sobre o tempo, mas das músicas que foram pensadas, precisamos procura-las, elas ainda estão por aí...
O que você esta procurando? Psiquiatra?! Ah não! Você não!!! Você tem de desistir do controle, preciso que você desista do controle... da TV?! Também! de achar que controla porque aperta o botão, todos os canais pertencem ao controle. Pare de falar um pouco e me escuta; tudo bem, não precisa pensar agora, achar por hora basta, a gente resolve isso com o tempo. É que é bom pensar na solidão, mas amar...
- ...






sexta-feira, 13 de agosto de 2010

esse cara tem me consumido (Ítalo Puccini)

cazuza, vem cá, senta’qui, vâmo conversar. eu sei que tu tá perdido, assim, sem pai nem mãe. eu sei que o que te resta são raspas e restos. e mentiras sinceras. então mente pra mim, vai, pode mentir. mente acreditando na tua mentira. faz isso que tu vai ver como tu vai se sentir melhor. confie em mim, cara, me ame como a um irmão mesmo. como a uma irmã. eu sei lidar com essas coisas. tenho também dezesseis anos e vivo em conflitos que me afastam de todos. brigo com todo mundo mesmo. fico com vários e várias ao mesmo tempo. há quem goste disso, há quem me odeie por isto. mas nem aí, não é mesmo? somos quase maiores-abandonados já. temos de nos virar. não somos pura fama, não é, cazuzinha? por que você tá tão quieto assim? hein? me diz. vem, se abre aqui comigo. a gente meio que ama odiando, né? daí causa essas coisas todas aí nas pessoas. gente que não se garante, que não se satisfaz consigo mesma. a gente não, né, cazuza, a gente tem tudo o que a gente precisa, e mais um pouco ainda, né? a gente vive de pequenas porções de ilusões muito bem construídas, não vive? assim, no lado escuro da vida mesmo. fala, cazuza, pode falar. pode deitar tua cabeça aqui no meu colo e chorar. chorar muito. mas fala também enquanto chora. é bonito isso, alguém chorando e tentando falar, e não conseguindo, e daí fica aquele soluço cortando palavras. isso é muito bonito, cazuza. faz isso pra mim, faz. tô aqui te dando colo e tudo. e, ó, declara guerra a quem finge te amar. chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia, tá? eu te ajudo com isso. eu lembro que tu já me chamou de amor da minha vida. um negócio daqui até a eternidade. eu lembro. me dizia que me podia me pegar escola e ainda me encheria com todo o teu amor. então, cazuza, vê como é fácil? tu sabe que eu tenho tudo o que tu precisa. e mais um pouco ainda. eu posso ser tuas rosas roubadas. posso ser pétala para ti. posso ser espinho. mas eu quero ser tua comida. quero ser todo o amor que houver nessa tua vida. tu me deixa, cazuza, tu me deixa? nosso amor tem que dar certo. não tem nada de desperdiçar blues de djavan nem de buscar ideologias para viver, não. a gente é e tem que ser um para o outro só. a gente sabe se amar. a gente aprende, pode aprender, então. a gente não consegue ficar amigos sem rancor. a gente tem que se amar mesmo que a nossa música nunca mais toque. a gente não pode desperdiçar nosso mel assim, não. a gente tem que se grudar, cazuza, se grudar. proteger o nome um do outro. por amor mesmo. guardar em um codinome. o que tu acha? tu sabe que eu posso ser tua dentro tua orelha fria. posso dizer segredos de liquidificador pra ti. tu sabe. tu sabe que quando tu sai de perto eu penso em suicídio. por mais que tu sempre volte com as mesmas notícias. eu sinto tua falta, cazuza. eu sinto falta de te ter assim no meu colo. sinto falta das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. das nossas noites perfeitas. eu queria poder te negar. mas eu não consigo. e tu sempre volta’ssim pra mim. noite sim, noite não tu tá’qui entre meus lençóis. me fazendo cafuné, me chamando de mulher sem razão. até cantando caetano pra mim, dizendo que eu sou apenas uma mulher. e assim eu não consigo te negar, cazuza. assim eu tenho de ser artista nesse nosso convívio, pr’essa nossa poesia que a gente vive e não vive. boca, nuca, mão. tudo de ti, cazuza. um remédio de ti eu quero. que me dê alegria. que não me deixe assim down. porque daí eu fico assim sem saber o que meu corpo abriga. e tento me esquecer, porque nessas horas pega mal sofrer, tu me diz. eu sei que só as mães felizes, mas a gente também pode ser, não pode? eu sei que tu não pode causar mal nenhum a não ser a ti mesmo. mas pensa um pouquinho mais nisso. te ver assim me deixa mal. tu me causa mal algum, sim, tá vendo? e eu tento aqui te ajudar, assim, te amar mais e mais, mas tu fica assim quietinho no meu colo e me deixa mal. porque eu sei que daqui a pouco, quando tu acordar, tu vai embora, vai pra rua, vai por aí, assim, e eu não sei quando tu vai voltar. e já me dá saudade de quando a gente conversa assim deixando escapar segredos. e eu não sei em que hora dizer que me dá um medo. porque eu preciso dizer que te amo. te ganhar ou perder sem engano, cazuza. eu preciso dizer que te amo. tanto.