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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Poema da vida (Elianete Vieira)

Poetisa, Iza me conquistou pela doçura. Com 74 anos, cheia de energia, preparou a festa de 80 anos do marido. Amiga virtual, descreveu os docinhos que fez ao me convidar para nos conhecermos.
Dia de comemorar a vida, a saúde, a família. Como é bom ver as pessoas chegando cada vez mais longe - semana passada, o tempo contou 5 anos da partida do meu pai a menos de 4 meses de completar 80 anos.
Me sentindo honrada com o convite, convidei o GPS para me acompanhar e lá fui eu desbravar as ruas desconhecidas de uma cidade vizinha.
No caminho, havia não uma pedra Drummond, mas um vale. Uma rua que desce íngreme e logo sobe mais íngreme ainda. Lá no final, um semáforo segurava os carros prestes a entrar na rodovia. No inicio da subida existe um semáforo que mede a velocidade máxima: 40 km/h.
Independente deste controle os carros nem saíam da 1a marcha. Motoristas sabidos mantinham distância de segurança uns dos outros. Subidona à vista.
Eu, parada, olhando o entorno, vi algumas senhoras bem arrumadas, com Bíblia na mão, caminhando juntas e conversando. Distraídas, atravessaram a rua sem perceber que estávamos em movimento lento parando dois metros depois.
Eu sai e logo parei. Continuei olhando pelo retrovisor. O carro que vinha atrás, havia deixado um espaço de um carro entre o meu e o dele, talvez imaginando que eu poderia dar uma "descidinha" porque foi isso o que ele fez ao iniciar o movimento.
O que ele não previu e uma das senhoras também não, foi que no exato momento da "descidinha", ela ainda estivesse passando por trás do carro.
Ela talvez não tenha sido motorista ou não seja tão ágil agora com seus belos cabelos prateados.
Eu, parada, aguardando o momento de andar 2-3 metros novamente, vi a senhora sumir atrás do carro. A "descidinha" do carro ao engatar a primeira, derrubou a vovó.
Imediatamente saíram do carro três homens que acudiram a senhora, levando-a nos braços para a segurança da calçada, enquanto o motorista procurava encostar e liberar o tráfego.
Até onde pude ver, a vovó conseguiu ficar em pé, já na calçada. Foi atendida prontamente e as amigas logo a rodearam.
Eu segui em paz, feliz em ver que o pequeno incidente não ficou sem atendimento.
Ah sim, e a festa? Foi maravilhosa.
Com o octogenário feliz cumprimentava a todos, no mundo dele, pois o Alzeimer lhe tira aos poucos a consciência presente, deixando apenas o passado na lembrança. O pastor a todos abençoou. A poetisa contou como eles se conheceram e citou momentos da vida deles em quase 50 anos de casamento.
Ela declamou um lindo poema de amor e confiança, dedicado ao seu príncipe e filha, emocionando os presentes. E assim, poetando a vida, ela comemorará seu aniversário em dezembro com o lançamento do livro que está no prelo.


Elianete Vieira

sábado, 20 de abril de 2013

O choro é livre (Vana Comissoli)

choro 


            Impossível olhá-lo sem parar a observar. O homem chorava copiosamente no meio da rua e não se incomodava nem um pouco com o olhar intrigado dos transeuntes. Eu não tinha nada a fazer, situação de aposentado que sai a esquentar a vida debaixo do sol sonhando calores que não tem mais.


            O sujeito começou a andar meio trôpego e pensei que podia estar embriagado, só alguém fora de seu juízo com a idade que aparentava ter, lá pelos trinta e vários, daria aquele espetáculo sem pejo. Passou-me pela cabeça que ele poderia cair, tropeçar, ser atropelado por algum idiota que não se perturba com a dor alheia. Digo dor porque aquele pranto esparramado só podia carregar um sofrimento desmedido. Seria algum resultado de exame maligno que trazia nas mãos? Ou um obituário de jornal?


            Fui atrás dele sem me preocupar com o percurso e nem se estava me afastando muito do meu próprio caminho, há algum tempo não ficava distante de casa. Vá que tivesse uma síncope, ou um AVC? Dizem que é sem aviso e eu não tinha preferência por cair duro na rua, daria tremendo trabalho a meus filhos me recolher, mandar para o IML, prestar depoimento... Não, eu não faria isso com eles.


            Não faria? Dobramos uma esquina e outra e outra. Será que este sujeito sabe para onde vai? E agora essa! Está soluçando. Preciso falar com ele, não me lembrava de ter visto alguém envolto em tanto sentimento! É triste, mas é lindo. Agora a moda é mais filosofar sobre os entraves da vida do que senti-los e isso é mais triste ainda.


            A natureza toda parece concordar comigo por que abriu um céu mais azul do que o azul que o céu tem. Posso até sonhar que são os anjos que espiam um sentimento andando pela rua a soltar faíscas de existência.


            Ele sentou! Meu herói descobriu uma acolhedora mureta dura para sentar. Seus ombros sacodem com o desamparo do pranto. Não vacilo: sento-me ao seu lado.


            ─ Amigo, me conta o que te faz sofrer tanto?


Perguntei na coragem, acreditando que me mandaria catar coquinho. Olhou-me como quem estivesse esperando que lhe fizessem essa urgente e necessária pergunta.


─ Mataram, mataram ela!


─ Ela! Quem morreu?


─ A Valéria. A moça amiga, caridosa. Ela cuidava dos meninos de rua como uma mãe e eles a adoravam. Não tinha nojo de abraça-los, sentir seu cheiro. Nada que um bom banho não resolva, deveria ter dito aos seus ouvidos.


Fiquei procurando na minha memória que andava dando umas falhadas cretinas, quem era a Valéria. Pensei em todas as novelas, nos noticiários e não me lembrei de nem uma, já andava mesmo desconfiado que o alemão me visitava, o tal Alzheimer com quem não quero intimidades. Precisava desesperadamente lembrar por que só podia ser uma celebridade. Muito respeitoso perguntei e afirmei, tudo ao mesmo tempo:


─ Sinto muito, não estou reconhecendo qual das Valérias... Aquela? Ou a outra?


Ele me olhou desalentado. Senti uma faca no peito, eu era mesmo um asno vestido, como podia ferir com minha ignorância alguém que devia estar sofrendo por um amor? Fosse lá de que tipo fosse este amor. O coitado voltou a chorar, desta vez ainda mais alto. Entrecortada por soluços eu ouvia a explicação:


─ Ninguém sabe quem é a Valéria, isso é desalentador. Como uma vida pode passar assim em branco? Quando eu morrer também não se lembrarão de mim? Não suporto esta ideia, não suporto esta mania que a vida tem de andar de braços dados com a morte. Prá que? Prá que isso? A Valéria... Pobre e querida Valéria.


Torci os miolos, não tinha a menor chance de sair bem da situação. Chorar... Não conseguiria fingir. Eu o feriria mais se desse um fora no reconhecimento da querida moça. Felizmente ele se pôs a contar.


            “Gosto de puta. Gosto mesmo. São carinhosas, só cobram o que foi combinado, não pedem para ir ao shopping, não atrapalham o futebol do domingo, não deixam rastros de limpeza pela casa. Fazem tudo que pedes sem ficar arranjando desculpas, não têm dor de cabeça e muito menos discutem a relação.”


            Eu concordava, era bem verdade o que ele estava dizendo, senti uma pontada de culpa por tê-las desprezado um pouco e ter resolvido que casada era bom. Resultou que dei com os burros n’água e gastei os tubos, além de ter que criar dois filhos durante meus melhores anos. Não que os amasse pouco, mas, pensando bem, é uma troca insana quando se percebe, como agora, que não pudera fazer muitas e muitas coisas por causa deles e teria que ir embora chupando o dedo. Na obrigação de achar muito bom eles conseguirem mais do que eu. Eles fariam, mas eu não tinha a menor chance de nada, deveria agradecer se o alemão não levasse embora até as lembranças do pouco que tive. Uma puta é consideravelmente boa vista deste ângulo. Ele continuou.


            ─ Meus amigos não entendem. Não sou um cara feio.


            Examinei-o pela primeira vez. Não era mesmo. Tinha olhos acinzentados, talvez fossem até azuis sem as lágrimas, um nariz reto que se poderia chamar de grego e a insustentável beleza dos maravilhosos 30 anos. Uma boa altura, qualquer mulher poderia se aninhar em seus braços e se sentir satisfeita.


            ─ Puta, igualmente às santas, merece homem bem apanhado. É o que eu acho. Porque deveriam andar sempre com uns pelegos velhos? Quem gosta de puta de verdade, como eu, respeita o trabalho duro que elas têm, sabem que muito homem é nojento e maltrata. Acabam ficando amigos delas. Não tem amiga mais fiel do que amiga puta. Não falam mal de ti por que sabem quanto dói ser difamado, não inventam desculpas para escapar de ti por que sempre és bem-vindo. Enfim, tive muitas amigas. O melhor é não virem com a história de que não se trepa com amiga. Puta trepa com amigo numa boa  e até acha melhor, sabe com quem está. Passam a te beijar na boca, coisa que não dão para qualquer um. Te tornas uma espécie de escolhido, de ser especial.


            Eu estava bem interessado na explanação, quem sabe puta gosta de velho e tem paciência. Seria bom relembrar como é ter uma mulher, mesmo que fosse puta. Já estava convencido da útil feminilidade das meninas.


            ─ É preciso entrar no mundo delas e nunca arrepiei de fazer isso. É um universo multicolorido, cabe todo tipo de gente dentro dele, o mais legal é que não estão preocupados com aparência, verniz social e estas coisas que fazem as pessoas se tornarem hipócritas. Foi assim que conheci os travestis que circulam nos arredores das putas. Troca de freguesia, uma questão de negócio, nada pessoal. Tem alguns insuportáveis, mas não por serem gays, mas por ser gente de má índole. Nunca confunda as coisas: quem é bom, é bom de qualquer lado do campo. O inverso é verdadeiro, seja lorde ou vagabundo é abjeto do mesmo jeito se vem de raiz torta.


            Estava aprendendo o que não tinha aprendido a vida toda. Deu um arrepio maior do que eu estava acostumado quando olhava minha vida. Este homem chorando pela Valéria que devia ser puta, é claro, me mostrava que minha passagem rápida por este mundo doido, tinha sido pobre, mais pobre do que o pobre que eu achava dela. Era bom e melancólico aprender, se tivesse sido uns dez anos atrás ainda daria tempo de dar uma guinada no timão, mas agora... Era outra mágoa para arrastar.


            ─ Foi assim que simpatizei com a Valéria logo de cara, entendes? A gente percebe uma alma pura trazendo luz para a Terra. Se sente dentro do peito.


            Agora eu entendia tudo, até o que nem remotamente me passara pela divagação. Parei de lamentar as perdas, era uma maneira de usufruir vivendo de ouvido. Na minha imaginação cenas de submundo, nem tão sub assim, aprendia, desfilavam envoltas em todas as cenas que assistira em filmes, lera nos jornais e espiara na noite. Nada era o que me diziam ou enfiavam na minha mente sobre este mundo. Ele era feito de gente pelo jeito bem mais honesta do que as conhecidas por mim. Tinha visto tanta sacanagem envolta em sorriso! Se neste desvão atropelado por impropérios existia roubo, ou fraude, elas eram parte do negócio e não uma traição deliberada. Eu poderia sonhar que existia uma fatia de humanidade mais parecida com a que se deseja que haja. Gente emocionalmente decente.


            ─ Agora vem essa notícia que a Valéria foi esfaqueada por um desgraçado lá na praia de Copacabana.


            Estranhei. Então isso tudo era no Rio de Janeiro?


            ─ Moraste por lá, amigo?


            ─ Não, nunca estive no Rio. Qualquer hora dessas eu vou, quero ver de perto o lugar onde o sangue da Valéria avermelhou a areia branca.


            Realmente o quadro era terrível. A areia pura, quase brilhante... O sangue saindo em cascata por buracos do corpo de Valéria. O desgraçado fugindo, com certeza encapuzado. As marcas dos saltos ainda marcando o chão mole. Os olhos abertos surpreendidos pela avalanche da violência. Policiais que não deviam ter investigado o suficiente por que afinal era apenas um homossexual doente de luxúria esparramado na praia. Só restava chorar a dor dos mal paridos.


            ─ Ela estava toda linda, sabia se maquiar a Valéria. Tinha posto o vestido rosa pink e arrumado o cabelo daquele jeito que fica preso só de um lado. E não era peruca não, era de verdade. Essa vantagem temos hoje em dia, os pobres travestis podem deixar o cabelo crescer quanto quiserem. E o batom! O batom era demais, exatamente da cor do vestido.


            Meu companheiro sabia demais. O que interessa à observação de um homem uma coerência entre batom e vestido? Fiquei com um pé atrás. Seria ele mesmo gay? E se fosse? Que raio de preconceito enraizado dentro da gente! Fiquei com raiva de mim mesmo por ter permitido tal reação vinda sei lá de que fogo do inferno através das palavras de quem eu nem conhecia, mas que queimavam minha recente descoberta. Não sei se ele percebeu ou foi casualidade, mas explicou:


            ─ A gente aprende a observar e sabe que é bom? Adquire-se uma acuidade estética que ajuda muito a entender a beleza de uma mulher, por que travesti é uma mulher que errou de corpo, apenas isso e muitas vezes mais feminina do que várias que eu conheço que não se entregam nunca, ficam se digladiando com a gente em nome de uma estúpida concorrência de sexo. Com isso ficam sem sexo gostoso algum.


            Olhei o relógio, há algum tempo já deveria estar em casa me preparando para a chegada da noite, não tinha mais o hábito de me atrasar, qualquer vacilo poderia por a perder a disciplina que o médico jurara, prolongaria minha miserável vida. Mas me afastar do sujeito ainda descomposto? Não tinha coragem, ele me dera tanto.


            ─ Tomei uma decisão. ─ Ele se levantou num salto. ─ A morte da Valéria me abriu os olhos. Vou me casar.


            Eu não podia acreditar no que dizia, acabara de me convencer que viver livre e aberto era o máximo e agora vinha com essa de casar?


            ─ Relutei bastante, a Sarita é puta, mas não vou ligar mesmo. Somos namorados há três anos e há dois não aceita dinheiro de mim. Namorado não paga e sou fiel, assim como ela. Não transo com mais ninguém, nem ela, apenas trabalha, é diferente, é o comércio que ela conseguiu abrir. Se fosse uma loja todos bateriam palmas e elogiariam.


Pensei que era muito justo e casar com puta deveria ser bem melhor do que casar com moça de família, até por que as diferenças entre uma e outra não eram lá tão grandes assim. Conhecia muita casada que corneava o marido e não se mandava só para ficar no bem bom de ser sustentada. E puta trabalha firme, com pausa só três ou quatro dias por mês, não tem salário fixo, nem férias, muito menos 13º. Não é para qualquer um.


Esse amigo de rua era mesmo um estrondo, sua sabedoria e jogo de cintura com a vida me deixavam embasbacado. Talvez, se pintasse o cabelo, desse um trato na cara, eu conseguisse conquistar uma puta jeitosa como a dele. Não seria nada mal um casamento de primeira categoria agora que os sinos da véspera batiam à minha porta. Chegaria lá em cima, na frente do tal de deus que não tinha me mostrado essas possibilidades e teria o que agradecer em vez de dizer que era um cretino me aprontando uma vidinha de merda.


─ Não te convido para padrinho por que a turma vai achar ruim trazer amigo recente quando tem tantos que acompanham meu romance desde o princípio, mas te deixo meu telefone, quero que vás ao casamento. Pelo menos na igreja. A Sarita sonha com vestido de noiva e ela tem a alma mais pura que conheço.


Aceitei prontamente, não podia perder este cara de vista. Também estava contente, tinha parado de chorar e uma energia nova e luminosa me garantiu que os olhos eram mesmo azuis.


─ Amigo, irei com prazer. Será que as colegas da Sarita vão ao casamento? Antes que me esqueça. A Valéria, fiquei sabendo tudo, menos tua história com ela. Como a conheceste e tal...


─ Valéria? Ah, ela é personagem do livro que terminei de ler. Que autor! O livro se desenvolve em torno da morte trágica da moça e não revela quem a matou. Não dá uma pena danada?


                                                        Vana Comissoli

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Envelhecimento precoce (Tiago Nascimento)

Quieto
Quedo-me olhando a lua
Não sou já tão moço, a emoção não vem mais
Aos 23 tudo envelhece
A morte passa a ser inevitável.
Adiar; um dia a mais, que diferença isso faz?

Tiago Nascimento, jesuscristohumano@gmail.com

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Sensibilidade (Marcelo Lamas)



 

Procurei meu médico de confiança para fazer uns exames de rotina e ele sugeriu um macete:

– Faça o check-up anual bem no mês do seu aniversário, assim ‘você se dá de presente’ os exames e também fica mais difícil de esquecê-los.

No meio da boa conversa, sim, eu achei um médico que conversa com o paciente, ele mediu minha pressão e disse: “Esse negócio de medir a pressão no consultório nem sempre dá certo. Às vezes o paciente fica nervoso, ansioso com o resultado e sempre aparece um valor mais alto do que deveria ser. Nós chamamos de síndrome do jaleco branco”. E continuou:

– É o mesmo efeito que acontece quando o carro tem um barulho. Chegando ao mecânico o barulho desaparece.

Depois, dando uma olhada na ficha médica, toda manuscrita a lápis, e prescrevendo alguns exames, ele concluiu:

– Na tua idade esses exames aqui são suficientes. Depois dos quarenta o corpo vai começar a mandar uns sinais da idade, mas a coisa pega mesmo é depois dos cinquenta. Aí tudo começa a ficar mais sensível, começa a doer aqui, doer ali.

Quando ele falou em sensibilidade, lembrei da minha falta de sintonia com os sapatos. Todo calçado me incomoda. Antes qualquer pisante servia, fazendo jus ao provérbio popular: “Pé de pobre não tem número”. Agora, até os tênis com amortecimento me causam desconforto.

Será que estou envelhecendo precocemente?

Passei a ficar mais preocupado com isso, quando recebi o telefonema de um colega da empresa:

– Marcelo, queres jogar um campeonato de futsal. Vamos participar da categoria de veteranos, topas?

Em contrapartida, enquanto participava do Festival Nacional do Conto, uma colega literata, que eu não via há algum tempo, me disse:

– Como estás jovem! Fizeste plástica?

Fiquei confuso, mas logo lembrei do que o professor tinha dito no início daquela tarde:

– Vocês são um bando de loucos. Com o final de semana assim, com esse sol lindo e céu azul – evento climático raríssimo em Jaraguá do Sul – vocês aqui encerrados num auditório, discutindo literatura?

E tudo voltou ao seu lugar na minha mente.

  



Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Palavras únicas: Dissabores (Marcelo Lamas)

Há palavras na língua portuguesa que são mágicas e sem tradução digna da sua magnitude, o substantivo no plural "dissabores" é um deles. Outro dia, um amigo sexagenário me disse: "Tome cuidado para não causar dissabores aos outros". Eu já conhecia o verbete, mas nunca tinha analisado a sua profundidade. Neste cotidiano em que tentamos acelerar a rotação do planeta, vivemos jogando palavras pra fora, sem medir seu impacto.
O mesmo amigo de cabelo branco, me advertiu com um provérbio antigo: "Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida".
Sempre gostei da síntese. Se ao invés de usarmos pensamentos completos junto ao nick do msn, colocássemos uma única palavra, não seríamos mais autênticos?


A propósito:
Dissabor: 1 Desgosto, desprazer. 2 Acontecimento incômodo ou desagradável. 3 Contratempo. 4 Mágoa.

Marcelo Lamas escreve artigos e crônicas para jornais, revistas, blogs e livros há 16 anos. É engenheiro e professor universitário. marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 24 de março de 2011

Um pote de Sol (Vilson Rafael Riegel)

Um dia, andando pela rua, vi um senhor sentado em um dos bancos da calçada. Parecia alguém que ficou muito sozinho nessa vida. Seu rosto trazia as marcas de alguém que não sorriu muito e que não teve muito carinho. Seus olhos sempre fitavam para o mesmo ponto, estáticos, congelados ao brilho do sol, um paradoxo que o contexto permite.

Notei que ele ficava nesse banco todos os dias, sempre do mesmo modo, olhando para o céu. Aos poucos fui reparando e notei que além de um copo plástico fumegante contendo café ao seu lado também havia um recipiente de vidro, com uma tampa já gasta. O pote parecia vazio.

Em outro dia, andando pela rua, revi o senhor do banco, que deixara de ser apenas um senhor, à medida que contava aos meus daquela figura que tanto me intrigava. Nesse dia, sentei ao seu lado e sem que eu fizesse qualquer pergunta, sua boca recortada se abriu e ele disse:

- Há dias esperava por isso. – falou sem tirar os olhos do céu – O sol está lindo hoje, não acha?

Eu me limitei a responder que sim. Realmente estava. Quase não havia nuvens no céu, com exceção de um coelho que eu via a oeste...

Sem pestanejar e sem tirar os olhos do céu, aquela voz gutural, pouco usada, voltou a soar, dessa vez mais pesada, mesmo que não pudesse ser:

- Passei a vida contemplando a beleza do sol. Seu calor e sua luz sempre foi o que faltou pra mim. Vivo sozinho desde sempre, pois esta vida não me deu outras opções. O lugar onde moro parece vazio, como este pote que você repara todos os dias. Lá também não é um lugar muito aquecido, tal um coração sem amor. Senti que o único amigo que tive em toda esta vida foi o sol, que me abraçava sem que eu pedisse, sem nunca pedir nada em troca. Mas sempre que chegava a noite, tudo se acabava e o tempo reduzia seu ritmo, no ritmo descompassado de um coração que para de bater.

Após sorver um demorado gole de café, continuou:

- Por muito tempo tentei guardar para mim um pouco dessa luz. Passava dias olhando para o sol, com este vidro em minhas mãos, quando achava que ele estava completo fechava a tampa rapidamente e o guardava comigo. A noite chegava e nada estava diferente, a não ser minha pele castigada pelo constante calor onde o suor escorria e não bastava. Dia a dia eu repeti minha rotina e as noites foram ficando cada vez mais escuras, cada vez mais. A única certeza era que outro dia viria e eu novamente tentaria...

Pela primeira vez o senhor deixava de olhar para o céu e olhou diretamente nos meus olhos. O azul confuso de suas órbitas me deixou estupefato, procurando um ponto fixo onde não havia nada. Em tom de sentença o senhor completou:

- Em uma manhã perdida no tempo levantei daquilo a que chamo cama e me vi mergulhado na escuridão. Maior que os outros dias, tão iguais e tão diferentes. Não vi meu reflexo no espelho. Não vi o espelho. Não vi as paredes. Não vi e não vejo, pois o sol cobrou seu preço, pelo acalento e pelo abraço levou a minha visão para que eu me desse conta de tudo o que não sentia. Pois agora enxergo com a alma...

Vilson Rafael Riegel
vilson@idecom.art.br

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Estava esperando por você (Sônia Pillon)





Hoje acordei com essa sensação estranha de paz. O sol de outono que entrou pela janela, sacudindo as cortinas, e o canto dos pássaros no cinamomo me fizeram muito bem. Pela primeira vez, depois de tantos anos, não senti aquela angústia cortante, aquele desânimo de ter que enfrentar mais um dia interminável, empurrada pela enfermeira nessa cadeira de rodas pelos frios corredores desse asilo “cinco estrelas”. Podem dizer o que quiserem, mas para mim esse lugar nunca passou de um depósito de velhos à espera da morte.

Dez anos!... Não dá para acreditar que o Ernesto morreu daquele jeito, de ataque cardíaco... Pensando bem, até que faz sentido, porque ele tinha um coração de ouro, mesmo. Todo mundo dizia isso. Eu é que era a megera! Só um homem como ele para aguentar o meu mau humor, o meu temperamento explosivo, a minha arrogância, durante quase 50 anos... Mas na época, aquela calma toda dele me irritava! Como eu fui cega e ingrata, por não saber retribuir a dedicação do amor da minha vida...


Só depois que ele morreu e que a nossa única filha me jogou aqui, e se apoderou de todos os meus bens, é que eu entendi o quanto ele me amava! Mas a culpada disso tudo sou eu mesma, que sempre ensinei à ela que o mais importante nessa vida era ter status e dinheiro. Deter o poder, acima de tudo! Estou pagando o preço da minha própria soberba.


No começo, até que a Carmem vinha aqui fazer o papel de filha prestimosa, mas foi só eu passar a procuração para ela tocar os negócios da empresa que as visitas começaram a rarear, até cessarem totalmente. Me deixou uma enfermeira particular e crédito para tudo o que precisasse aqui dentro. Quanta bondade!...


Desde que eu tive o derrame e fiquei condenada a não andar nunca mais, pouco tempo depois da viuvez, sempre amaldiçoei essa cadeira! Odiava ver essas minhas pernas atrofiadas e cobertas com esse cobertor xadrez. Era insuportável ver o olhar de compaixão das pessoas quando me viam. Quem diria, a poderosa e temida dona Gertrudes, entrevada para sempre! Com certeza muitos devem ter dito que era castigo, e deve ter sido mesmo.


Estranhamente, hoje toda a minha revolta parece ter perdido o sentido. O abandono, a minha paralisia irreversível, a solidão, nada disso parece mais importar. Pela primeira vez, desde que vim para cá, essas lágrimas não são de tristeza. Estou me sentindo tão feliz! Inexplicavelmente, sinto um alívio que vem do fundo da alma. Solto um longo suspiro e parece que toda a dor se dissipa.


- Bom dia, dona Gertrudes! Hora de levantar! Dormiu bem a noite?, perguntou a enfermeira, ao entrar subitamente no quarto, com sincera preocupação no olhar.


- Sim, Ângela, dormi muito bem, não senti dores nem tive pesadelos essa noite. Acordei com o sol e com os som dos passarinhos...


- A senhora está chorando?! O que aconteceu?...


- Está tudo bem. Eu estava me lembrando do meu velho. Esse mês fazem dez anos que ele me deixou. Ele era um homem muito bom...


- É, ouvi falar dele, sim. O pessoal aqui do ancionato diz que ele era um homem muito querido, até pelos empregados... Mas agora está na hora de tomar o seu remédio, dona Gertrudes. Isso. Agora vamos trocar esse fraldão e depois tirar esse camisolão... Daqui a pouco vão servir o café no refeitório.


- Ângela, hoje eu quero que você me coloque aquele vestido de veludo verde e arrume o meu cabelo. Quero ir bem arrumada para o café. E depois quero passear um pouco no jardim, aproveitar esse sol da manhã.


- Boa ideia, dona Gertrudes! Essa história de ficar trancada o tempo todo dentro desse quarto não estava certo! A partir de hoje, vamos sempre passear lá fora, a não ser que chova, é claro. Vai lhe fazer muito bem para a saúde. Eu sempre lhe disse isso, lembra?


- Quero o meu cabelo bem penteado. Assim. Agora me traz aquela necessaire ali. Estou precisando de uma base e de um batom suave. Isso mesmo. Obrigada. Não dá para fazer milagre com 80 anos nas costas, mas sempre ajuda...


- Ora, ora, a senhora está ótima! Vamos então que o café já está na mesa... Sorriso no rosto, isso mesmo...


- Quanta gente por aqui... A Filomena também?! Foi minha comadre... Éramos tão amigas, antes do meu casamento... Ela ainda deve estar magoada comigo...


- Ela tem Mal de Alzheimer, não reconhece mais  ninguém... Tem um filho que a visita toda a semana, mas ela fica sempre assim, com o olhar perdido...


- Que pena... Gostaria de conversar com ela, lembrar da nossa juventude... Olha, Ângela, tem cuca de banana com farofa, que eu adoro... Eu devia ter vindo mais vezes fazer as refeições com os outros... Teria me sentido menos só...


- Aproveite que o café de domingo é especial... Ué? Já terminou?...


- Sim... Agora pode me levar para o jardim, debaixo daquele cinamomo lá, perto do portão... Tem uma sombra gostosa, e assim posso ver as flores e respirar um pouco de ar puro...


- Pronto. Chegamos. Precisa de mais alguma coisa, dona Gertrudes?


- Sim. Tenho um pedido especial para você.Quero que me perdoe por ter sido sempre tão grosseira com você, Ângela. Você sempre foi muito dedicada e eu nunca agradeci por isso...


- O que é isso?... Eu entendo... Não se preocupe... Claro que eu desculpo, esqueça isso, dona Gerturdes... O importante é que a senhora está se sentindo bem e que a partir de hoje vai passear mais, ficar mais alegre...


- Eu sempre fui muito perfeccionista. Exigia demais de mim mesma e dos outros. Humilhava as pessoas que não eram da mesma classe social. Se pudesse voltar atrás... Ângela, será que você pode conseguir uma câmara para fotografar esse jardim? Está tão bonito...


- Claro, vou buscar o meu celular, já volto... Qualquer coisa, dê um grito para a Claudete, que está limpando o salão de visitas...


- Não se preocupe comigo, eu estou bem, Ângela... Vai... Hoje o céu está tão azul... Não tem nenhuma nuvem... E essas rosas vermelhas... Lindas!... As borboletas estão fazendo a festa... O gramado parece mais verde do que de costume. Ah, finalmente!... Meu amado!... Senti tanta saudade!... Estava esperando por você...




Texto produzido em 2 de agosto de 2010.

Sônia Pillon, jornalista e escritora
soniapillon@gmail.com