quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Poema Pelo Mundo (Adriana Niétzkar)
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
A Chuva (Sônia Pillon)
Chove, não chove, chove, não chove, chove, não chove... ou chove?!
Chove que chove, chove que chove... que não chove mais, que volta a chover, que chove, chove, chove...
Chuva que chove, que não chove, que faz sol, que já fez, que vai fazer, que não faz mais... que vem e que vai, que vai e vem, sempre!
Chuva que é como a Vida, que cai como lágrimas, que molha a face...
Chuva que inunda, que transborda, que faz desmoronar, que desaloja, que faz perder tudo aqui, que traz a Morte, porque é em excesso, e que falta lá, onde gota nenhuma há...
Chuva que seca, como o sol que cai na relva, e que no instante seguinte aquece, ilumina, traz alegria e esperança...
Chove, não chove, chove, não chove, chove, não chove... ou chove?!
Chove que chove, chove que chove... que não chove mais, que volta a chover, que chove, chove, chove...
Chuva que chove, que não chove, que faz sol, que já fez, que vai fazer, que não faz mais... que vem e que vai, que vai e vem, sempre!
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Castelo de areia (Sônia Pillon)
Chove e faz frio.
Tempestade.
Raios.
Trovão.
Dia que se faz noite.
Vento forte que sacode a aldeia.
Choro.
Castelo de areia desaba no chão.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Sou como a chuva que vem (Marcio Erino Ochner)
Ao intenso céu azul... escuro...
Distingue o verde das folhas balançantes,
Telhados sujos pelo barro leve,
Sobe num formato de cone,
Que segue notando outras folhas secas caídas ao chão,
Num giro... levanta voos extraordinários,
correm sem direção, lambendo o chão como vassoura...
limpa a sujeira do tempo,
pega carona num voo sem volta, e se vão...
Sabe-se lá pra onde, somente passam...
Seguem.
E o que resta, é sombra de um reflexo tardio,
De um sol que se foi...
embora outras vezes também...
Esconde-se ao longe da montanha minúscula.
Nuvens negras baixam com cara de trovão
Que brilham em gotas de água que cai, arrastando-se nas corredeiras,
Purificando a vida fétida.
De cursos passados, deixadas às moscas.
Chuva esta, que rasga o chão em sinuosas linhas, salpicam folhas,
Arrancam impurezas e levam ao respirar da natureza.
Como um sopro, mudam o ar rarefeito por um frio agitado,
De olhar aguçado, de alma perdida no gotejar chiante...
Chuva, que reviva cores, que lava pensamentos...
Mas que logo passa...
Nesta vida de terra idosa que, ainda suporta fenômenos,
de ordem determinada, mesmices...
Mudanças que aliviam, que revivem...
Afogando a poeira quente...
Refrescando ânimo, repetindo memórias...
de cheiro agradável.
Autor: Marcio Erino Ochner
sábado, 20 de agosto de 2011
O senhor Silva (Tiago Nascimento)
Ainda em Ipanema o senhor Silva já despertava olhares curiosos. Divertidos e curiosos. Curiosos e sarcásticos. E quanto mais perto da orla chegava, mais freqüentes se tornavam os olhares. Um homenzinho estranho portando um imenso guarda-chuva. Imune aos olhares o senhor Silva continuava intrépido em sua matutina caminhada.
Mas ninguém aceita por muito tempo ser o ridículo. Por certo já arrependido de estar em semelhante situação, o senhor Silva começou a torcer os bigodes e a pensar num jeito de se livrar do incômodo artefato. Lixeiras enormes iam sendo deixadas pra trás, em qualquer uma delas seu guarda-chuva poderia descansarem paz. Maso senhor Silva era um homenzinho metódico. Não faria nada que o pudesse ainda mais ridicularizá-lo. O que pensariam os donos dos olhares divertidos ao vê-lo depositar o imenso e negro guarda-chuva no lixo? Não. Ele ia pensar em outra coisa.
Continuou a sua jornada. Já nem lembrava o que lhe havia tirado de casa, que destino teria ao pisar a rua. Apenas seguia a orla, ora devagar, ora apressado. Pensava em algo… Pensava em algo…
De súbito uma brusca guinada. Seus pés pisam a areia e o guarda-chuva negro voa de encontro ao mar. Ao primeiro que encontrou depois confidenciou “é uma mandinga que mãe-preta ensinou, talvez agora a tempestade não volte mais”.
Tiago Nascimento
Texto publicado em 29/04/2008 no extinto Globoonliners.
domingo, 15 de maio de 2011
Seus Olhos (Vilson Rafael Riegel)
Chuva na janela.
Vidro vira vitral.
Seus olhos no lampejo
do raio
na janela.
Seus olhos
no espelho
vidrados
nos olhos meus
fitam também a chuva
no fundo,
no reflexo ,
no vitral.
No lampejo,
refletido
nos olhos seus.
terça-feira, 29 de março de 2011
Fechando o Verão... (Inacio Carreira)
“Amou daquela vez como se fosse a última”, alerta a música popular. Foi o que ele fez, sempre fazia isto, tanto porque nesta vida não se tem certeza de nada quanto por, sempre, procurar dar o melhor de si. Fazer com que sua companheira quisesse repetir a experiência mais uma vez, e outra, e ainda mais tantas. Muitas. Um sorriso malicioso iluminou seu rosto.
Não fosse essa danada chuva e tudo ficaria melhor. Ainda é março, mas o verão já foi, hoje é outono e o tempo não sabe disso? Ou Tom Jobim é que ignorou, dando-se licença poética para escrever a letra? “Águas de março fechando o verão...” que nada. Parece que estão, sim, essas águas, abrindo a temporada de resfriados, pneumonias, maruins, dengue... e da venda dos baratos e efêmeros guarda-chuvas de 4,99 real.
Sim, sim, a terra precisa ser molhada, o historiador grego Heródoto dizia que o Egito - um longo e estreito oásis - é (era) uma dádiva do Nilo. Agora viajei longe... Egito... As coisas para eles não estão bem, também. Nem no Japão. Nem... porra, o mundo todo está uma merda... Com tendências a piorar. Será que foi mesmo a última vez que fiz amor? Tem séria possibilidade de ser, sim... Afinal, saio para a rua e tenho que enfrentar enchentes, trânsito parado, assaltos, enxurradas, barreiras... Não só o homem está em guerra, a natureza também está em guerra contra o homem.
Desvia daqui, pula ali, escorrega, levanta... Parece que estava sendo filmado numa dessas abomináveis pegadinhas que infestam tudo, da televisão à internet. Pegadinhas... Ele gosta de pegadinhas, sim, mas de outro tipo. Novamente a lembrança da mulher, que tem a felicidade de poder ficar um pouco mais na cama, ninho que ainda deve conservar o calor que irradiaram: trabalha somente à tarde, se voltar cedo passa pelo serviço dela. Passa? Já não sabe mais.
Das ruas sobe um cheiro nauseante, misto de cemitério e latrina, água parada e esgoto, lixão e beira de linha de trem. De que adiantou tomar banho? Essas partículas vão grudar em sua roupa, seu cabelo, entrar em seus pulmões mais do que as partículas subatômicas que os técnicos insistem não apresentarem perigo à vida.
Viajou novamente. Mais longe, ainda. Que bom seria “erguer no patamar quatro paredes sólidas”, com o perdão de Chico Buarque, isolar-se do mundo e esperar a poeira baixar. Mas não dá. A vida é pra ser vivida, será que alguém disse isto? Se não disse, ele inaugura a frase. Parece boa. Divagar, divagar... Ter que andar rápido e, ainda assim, divagar. Para não pirar. Não marear. Não chorar. Não voltar correndo e se enfiar embaixo da cama, talvez o único lugar na casa, se não cair muita coisa em cima.
Porque foi pensar isso agora? Não consegue prosseguir, volta correndo para verificar. Lembrou que perto, bem perto, viu viaturas da Defesa Civil. Bombeiros. Mutirões. Os versos do “amou daquela vez como se fosse a última” não saíam de sua cabeça. Premonição. Pesadelo. Peste de coisa ruim que é pensar, pensar, pensar...
Ao chegar ao que fora sua casa, entra nos escombros em busca da companheira, é difícil se orientar, tudo fora do lugar, lugar fora do lugar, lutar contra o quê? Buscava, demente, a lógica dos desenhos dos tijolos, dos blocos, dos azulejos... No que fora o quarto do casal, um ruído seco desvia. Busca-se no avesso do espelho e não se vê.
domingo, 27 de março de 2011
A árvore centenária (Sônia Pillon)
Quando chovia, as folhas verdes ganhavam uma aparência envernizada, de tão brilhantes, e as gotas de água mais pareciam pedras preciosas. A cada outono, o número de folhas amarelecidas se misturava com as verdes. E quando a enxurrada inundava a rua e arrastava tudo o que via pela frente, algumas folhas caíam como cascata e cobriam o chão. Mais parecia um tapete bicolor a contornar o grande tronco.
Eram nesses momentos que Sofia ficava acompanhando a ação da chuva e do vento, que sacudia os galhos para lá e para cá. Os galhos sempre conseguiam segurar a maior parte das folhas.
O ruído lembrava o farfalhar de um vestido de seda, “daqueles que as mulheres usam em eventos de gala”, imaginava a menina.
O que mais a impressionava era a energia que a árvore transmitia para ela, com suas fortes raízes fincadas no chão e seu tronco largo e maciço. Se sentia tão frágil, em comparação com a grande árvore! Magra, tímida e introvertida, a adolescente sempre se sentia intimidada ao avistar a grande árvore, ao longe...
Não era do tipo que passava as tardes no shopping com as amigas, muito menos nas baladas. Vivia para os estudos, e seu isolamento, muitas vezes interpretado como arrogância e altivez, nada mais era do que fruto de sua própria insegurança.
Ela já tinha lido em algum lugar que para recobrar as energias, bom mesmo era abraçar uma árvore e absorver um pouco da força emanada do tronco, mas nunca teve coragem de atravessar a rua para conferir isso.
Aquela árvore, que sempre atraía lindos pássaros em sua copa, era abrigo do sol e da lua, e também de casais que buscavam privacidade. “Ah, se essa árvore falasse!”, pensou, em voz alta. Até em dia de trovoada, mesmo com os raios, havia os que preferiam se arriscar e ficar embaixo de seu tronco. A centenária sempre transmitia segurança a quem passava.
Em vários momentos, Sofia lembrava da ótica espiritualista, da “árvore da vida”, associando sua estrutura ao corpo humano. E que na Índia, as árvores bodhi são chamadas de “árvores da felicidade”...
Hoje, a maior parte do dia foi quente, e o sol cobriu a árvore com seus raios. O poente se foi há poucos minutos. Ainda há luz do dia.
Como que impulsionada por uma força invisível, Sofia se encheu de coragem, levantou, caminhou até o portão, atravessou a rua e foi de encontro à grande árvore. Ela colocou as mãos no tronco rugoso, sentindo a textura, fechou os olhos e o abraçou, com toda a força. Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto, mas dessa vez não eram de tristeza Queria receber toda a energia possível, para se sentir tão forte quanto a grande árvore centenária...
Enquanto abraçava o largo tronco, uma força indescritível tomou conta de todo o seu corpo, e um sorriso finalmente começou a surgir em seus lábios. Sofia ficou por longos minutos ali, agarrada à grande árvore, até que decidiu voltar para casa e tirar a cadeira da varanda, para espanto dos vizinhos. Estava decidida a não ser mais uma mera espectadora na vida!
Lembrou que suas colegas de escola iam assistir uma comédia no cinema, e decidiu confirmar que iria, para surpresa geral. Se sentia forte e pronta para enfrentar a vida, enfim...
Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre e há mais de 14 anos radicada em Jaraguá do Sul.