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domingo, 10 de março de 2013

Torcedor Camaleão (Ítalo Puccini)

            Aprendi a torcer por um time por influência de meu pai e de meu avô. Por dois times, na verdade. Pelo Flamengo e pelo Caxias, este de Joinville, Bicampeão Estadual em 1954/55. Time campeão no qual meu avô, Vilmar Puccini, foi goleiro por dez anos. Eu e pai até escrevemos livro contando a vida vitoriosa do vô (84 anos recém-completados), no futebol e no trabalho de longos anos na Tigre S/A – publicamos “A trajetória de Puccini” em março de 2009 –, afinal, naquela época jogador de futebol também trabalhava ‘normalmente’ 8 horas por dia em uma empresa. Treinos eram artigos de luxo. Não existia essa mordomia de hoje, em que os jogadores treinam a semana inteira para errar o mais elementar dos passes durante o jogo. Enfim.

            São dois modos diferentes de torcer. O Flamengo joga todo ano, o ano todo. Tem mídia excessiva e qualquer espirro vira epidemia. Já o Caxias não joga todo ano, muito menos o ano todo, quando joga. Tem pouca mídia na cidade de Joinville, e nem um caso de Gripe A acho que faz virar notícia. O Flamengo eu pouco assisto ao vivo. Mas estive no jogo mais importante dos últimos anos para o clube, a final do Brasileirão de 2009, no Maracanã: o jogo do hexa. Já o Caxias, quase sempre que joga, eu assisto no Ernestão. Dois estádios muito diferentes. Dois times muito diferentes. O torcer, da mesma forma, diferente.

            O fato é que gosto muito de estar em uma arquibancada acompanhando um jogo. Agrada-me tanto que este ano, morando em Joinville, tornei-me sócio do Joinville Esporte Clube para acompanhar os jogos da Série B ‘in loco’. Não tenho apreço nenhum pelo JEC, assim como não tenho desgosto. Aproveito o lugar do time na segunda divisão para ver de perto times rodados do país. E para sentir novamente o que é estar em um estádio. Baita sensação!

            E não há nada mais gostoso do que não torcer para nenhum dos dois times aos quais você está assistindo. E ainda por cima observar as reações dos torcedores – estes, sim – apaixonados pelo clube da cidade. Uma diversão e tanto. Sem contar as ‘peças’ com as quais você se depara numa arquibancada: o velhinho sem dentes – mas que consegue como poucos gritar, a favor ou contra; a criança com menos de dez anos que já sabe a escalação do time e reconhece cada jogador; o senhor com o fone nos ouvidos, que a cada cinco minutos informa o tempo do jogo a quem está por perto; e o tio da bebida, que berra em alto e bom som “cerveja só pra mim. Quem quer água e refri?”. E eu sou bom nisso de interpretar, futebolisticamente falando: sei falar bem do time “Tá jogando bonito hoje, hein? Que orgulho!”, assim como sei xingar com propriedade “Que time de bosta mesmo! Levanta daí, seu vadio!”. Ainda recebo abraços entusiasmados no momento de um gol, nos dias de ‘casa cheia’.

            Aprendi, nisso de torcer, a gostar de times que buscam o ataque, que criam oportunidades de gol, que envolvem o torcedor na esperança do grito de gol. Torço sempre por jogos em que os times se predisponham a isso. Sou muito camaleão. (Aliás, quem não é? Isso de secar o rival torna qualquer torcedor muito camaleão. Troca de camisa de time semanalmente. Mas não admite). Eu torço pra saírem muitos gols, dos dois lados, sendo bastante discreto, é claro. Aprendi também que a coisa mais importante numa partida de futebol é o gol. Tanto que é declarado vencedor o time que mais vezes faz gol, não importando o desempenho em si dentro de campo. Infelizmente, o futebol ainda permite a um time abdicar do ataque e, ainda assim, vencer com um ‘gol espírita’, um contra-ataque, uma única chance em 90 minutos. Questão de oportunismo. O mundo é oportunista, etcetal. Não sei se um dia me acostumarei com isto. Até lá, permanecerei no meu método: torcer um pouco pr’um time, um pouco pr’outro.

 

ítalo. (também publicada aqui).

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O samba engana (Ítalo Puccini)

samba


Com o perdão da rima bastante pobre no título, leitor, escreverei esta croniqueta discorrendo (que verbo horrível) sobre a contradição que o samba apresenta aos ouvintes da “boa” música – e aqui o adjetivo boa está entre aspas porque me parece sempre necessária uma reflexão acerca das dualidades bom/mau, mal/bem, entre outras, algo que não farei nestas breves linhas, é claro.


Conforme canta o Seu Jorge, “o samba taí, o samba tá, tá no sangue daquele que sabe sambar” – e até dos que não sabem, ainda bem. Porque não curte samba só quem samba. Há quem seja apenas um bamba, um alguém que apenas arrisca uma trocada de pernas e uma gingada, quase sempre errando, e nem por isso menos contente.


Mas quem é que se atreve a dizer do que é feito o samba? Os Los Hermanos é que não (e aqui não há nenhum desmerecimento ao conjunto carioca de nome argentino, e sim apenas uma observação: eles não são peritos em samba). Mas compuseram uma beleza de música, com esta indagação acima. E acrescentando que se samba por gostar de alguém. E que um bom samba não tem lugar. E não tem mesmo. Vale fundo de quintal, vale sacada de prédio, vale calçada e vale a romantizada botecagem no bar.
(Só não vale confundir samba com pagode. Assunto pr’uma outra croniqueta).


Caetano é de cantar que o samba ainda vai nascer, que o samba ainda não chegou, que o samba é pai do prazer e filho da dor, e que desde que o samba é samba é assim: a tristeza é senhora. E é aí que eu retomo o título: o samba engana. Engana porque, ao apresentar um ritmo envolventemente-gostoso, faz o sujeito que é bom da cabeça cair em uma alegria contraditória à letra que está sendo cantada; faz vibrar de alegria o corpo que saracoteia ao som de trem das onze, e que não percebe que não se pode mais ficar um minuto com a pessoa amada, pois, perdendo o trem que dali às onze horas sairá, só amanhã de manhã.


As mulheres são cantadas em todos os sentidos no samba. Mais do que isso: são cantadas as dores que provocam nos sambistas e compositores – e nos homens em geral. Essas moças tão diferentes, não é mesmo, Chico? Fica fácil embalar-se no ritmo dessa canção, sem atentar-se para a dor da moça que, diferente, está me passando pra trás.Por mais que no fundo ainda me queira bem, ela guarda desdém, a safada. Igual a tantas outras.


O samba é aquilo que nos leva a andar com a cabeça já pelas tabelas. Porque um samba leva a uma lembrança – ou a uma cerveja –, que leva a outra, que leva a uma roda de pernas a bambar, que leva a um samba e batem-se panelas e palmas e. E de repente as mãos são erguidas, a voz vai alta e o coração não dá o alerta de que se está cantando “Tu te lembras da partida / Acenaste um pano branco / Mãos ao ar, fala contida / Choro preso em acalanto”.


Tá legal, eu aceito o argumento de que há também o samba de letra entusiasmada, afinal, como é bom viver e não ter a vergonha de ser feliz, não é mesmo? Assim como faz bem aquele sambinha lento, pra dançar mais abraçado, aquele samba que vem pra curar o abandono, ou até mesmo para torná-lo mais grave. São nossos sambas da benção, lembrando-nos de que a tristeza pode até não ter fim – apesar do ritmo contagiante – e de que, apesar de ser preciso um bocado de tristeza pra fazer um samba com beleza, é melhor ser alegre que ser triste, sim.


E não nos esqueçamos de que não se deve deixar o samba morrer. Não se deve deixar o samba acabar. Por mais que ele doa e engane.


Ítalo

sábado, 10 de novembro de 2012

O medo que um livro ainda provoca (Ítalo Puccini)


Em 2009, lembro-me, foram retiradas mais de centenas de milhares de exemplares do livro “Aventuras Provisórias”, do escritor catarinense, radicado em Curitiba, Cristovão Tezza – o, à época, ganhador do maior prêmio de literatura do país, o Jabuti, com o romance “O filho eterno”. Isto devido ao chilique de alguns pais e professores alienados que argumentaram que o livro continha elementos “perigosos” para os adolescentes: alguns palavrões e referência a uma relação sexual. Como se na vida para além dos livros os adolescentes não estivessem em contato com esses “perigos”. Imagino que estes mesmos pais e professores tenham cortado as novelas televisivas de seus filhos e alunos também. Seria o mais coerente.


A falsa moralidade sofre com as diferenças.


Agora, 2012, deparamo-nos com a proibição do uso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, devido a uma ação, junto ao MEC, do Instituto de Advocacia Racial (Iara), que vê nesta obra a presença de trechos preconceituosos à cor negra.


A literatura era, para Monteiro Lobato, um instrumento de transformação. Literatura, para o maior escritor infantojuvenil que o país já teve, era a própria vida. Foi a partir da vida à sua volta que Lobato construiu sua literatura – tanto a adulta quanto a infantil, esta última alcançando uma repercussão inigualável até os dias de hoje. O Monteiro Lobato homem pouco difere do Monteiro Lobato escritor. Crente de que a literatura representava a vida, em sua obra Lobato deixa claro esta convicção. Seus personagens retratam pessoas próximas, retratam pessoas que existem na vida real, retratam modos de viver e de pensar, retratam uma linguagem que reaproximou o leitor do texto literário, porque coloquial e nem por isso menos inteligente.


Era, o autor, um nacionalista que acreditava na independência do Brasil através da independência econômica, e não era preconceituoso racialmente, como alguns afirmam em função de Negrinha ser apresentada numa posição inferior em sua obra, ou de Dona Benta ser uma empregada doméstica de cor negra. Quando discorria sobre as figuras negras inferiorizadas, ele apenas apresentava uma leitura crítica de uma realidade social da época.


A literatura é tão importante para uma sociedade justamente por permitir aos seus leitores o direito à liberdade de interpretação de um texto, o aprendizado do respeito às diferenças. Porém, ela não tira do leitor aquilo que ele traz dentro de si – no caso, o preconceito. Assim como não existem escritas inocentes, da mesma forma não existem leituras inocentes. “Toda história é uma interpretação de histórias: nenhuma leitura é inocente”, já afirmara o crítico literário Alberto Manguel. Não há como se ler algo sem relacionar a outro algo, ou já lido, ou já ouvido, ou já presenciado. É dessa forma que a leitura, seja ela literária, seja de jornais, revistas, de imagens, ou de qualquer outro meio, enriquece aquele que dela faz uso, desde que devidamente contextualizadas. Ler um livro ajuda a ler o mundo.


O ato de ler pressupõe uma leitura não somente de textos, de palavras escritas. Não somente de imagens ou de sons. Mas sim uma leitura de nós mesmos e daqueles com quem convivemos. Ler é, também e principalmente, saber ler a si mesmo e ao outro com o qual se estabelece uma relação de viver. E cada leitor constrói uma história própria de suas leituras, assim como cada texto apresenta também sua história própria. É preciso saber que a vida não pulsa somente na televisão ou nos best-sellers. Ela está, também, nos livros que provocam o leitor, que propõem um revisitamento às próprias vivências. Ela pulsa da mesma forma nos livros de um Cristovão Tezza, de um Rubem Fonseca, de um Marçal Aquino, de um Dalton Trevisan, de um Monteiro Lobato. Privar alguém de conhecer a vida por este meio é lhe cercear a liberdade de interpretar o mundo no qual está inserido, de aprender com o livro, este elemento de subversão que ainda provoca medo naqueles que querem ter o mundo para si e aos seus olhos como se fosse uma bola de futebol da qual se é dono.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A escrita como tentativa de preservação: de um lugar, de muitas vidas (Ítalo Puccini)

             Eis o que é possível encontrar no filme “Narradores de Javé”, dirigido por Eliane Caffé, vencedor de melhor filme no VII Festival Internacional de Cinema de Punta Del Este (2004) e no 5º Festival de Cinema des3Ameriques (2004, Quebec, Canadá). Produção nacional de 2003 que aborda o sumiço da cidade de Javé, a ser submersa pelas águas de uma represa.


            Taí um filme que procuro trabalhar em sala de aula com turmas do Ensino Médio, abordando não somente a desagradável situação da tomada de terras alheias, mas também a importância da escrita, e sua distância para a oralidade. São conversas que transitam pela trama, pela importância que adquirem a memória e a oralidade na história, e pelos caminhos através dos quais o filme nos leva à literatura.


Tudo acontece a partir do drama que enfrentam os moradores de Javé: a instalação de uma usina elétrica no vilarejo vai levá-lo a não mais existir no mapa. E a solução que lhes resta é uma só: registrar por escrito o vilarejo, tornando-o de valor histórico e científico, conforme falam. É preciso contar a história de Indalécio, o fundador de Javé.


Eis, então, o momento em que surge o personagem AntonioBiá, o salvador dos habitantes de Javé, aquele que em anos anteriores fora expulso de lá pelo motivo que agora o trazia de volta: a escrita de histórias. Biá é chamado para escrever a história de Javé, por ser o único ali que sabe escrever (Biá trabalhava na agência dos correios em Javé. Como ninguém fazia uso da escrita e da leitura, ele passou a inventar histórias dos moradores da localidade, como forma de tornar a agência movimentada, e assegurar seu emprego. Justamente por isto foi expulso pelos moradores quando descobriram o que ele inventava). 


No momento em que Biá passa a ouvir as histórias dos moradores de Javé é que passamos nós, telespectadores, a percebermos como a memória oral de cada um privilegia aspectos e detalhes que ninguém conhece, e que jamais serão registrados como de fato aconteceram. Passamos a perceber o quanto a escrita não dá conta daquilo que é da oralidade. E também o quanto toda escrita fica marcada por aquele que a produz, o que nos leva a pensarmos na isenção do historiador no momento de registrar uma história.


Biá vai ouvindo as versões de cada habitante de Javé. Cada um "puxando a sardinha" para o seu lado, apresentando algum detalhe que antes não havia. Como já dizem os ditados, quem conta um conto, aumenta um ponto. E existem sempre três verdades: a minha, a sua, e a que de fato existe. E Biá deixava claro aos moradores: Uma coisa é o fato acontecido. Outra, o fato escrito. E as verdades produzidas pelos moradores do vilarejo são compostas de memória. De uma memória mítica, onde se encontra com a fala. Uma memória que é feita de fala, que é produzida pela narração. 


            Diante disso, algumas pontes que podemos estabelecer com a literatura fazem referência a dois aspectos textuais apresentados pelo teórico Mikhail Bakhtin, a polifonia (as várias vozes de um discurso, uma vez que a coexistência de inúmeros narradores, narrativas e formas de narração compõem uma heterogeneidade discursiva, que é o que observamos no filme, nas várias narrativas que o compõem) e o dialogismo, a partir de uma citação do próprio Bakhtin: "Tudo se reduz ao diálogo. Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina, nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida". 


            Além disso, importante lembrar das várias leituras que podem e devem ser feitas de uma mesma história. A história de Javé é, na verdade, as histórias de Javé. A história de cada morador é a leitura que cada um deles faz da localidade em que vive, o que prova que não existe uma só maneira de se ler algo, e sim maneiras de se ler. E de se escrever.


 Ítalo Puccini

domingo, 9 de setembro de 2012

O começo que nasce para morrer (Ítalo Puccini)




As coisas só começam porque um dia terminarão.
Eu gosto desta frase, apesar de não gostar da palavra coisa. Penso-a (a frase, não a coisa) apontando para direções que são várias: início, fim e meio do mundo; início, fim e meio da vida; início, fim e meio de um relacionamento; início, fim e meio de um livro. Há um meio depois do começo e do fim, assim como entre.
A tendência de um começo é a morte instantânea.
Linkando com a literatura, temos: o começo de um texto é aquilo que mais é renegado pelo escritor. É a substância que brota para ser jogada fora. É o apêndice. Nascido para morrer. E mesmo aquele começo – de texto ou qualquer outro começo - que se apresenta a todos como definitivo, aquele começo que ficou definido como o começo de algo, está entregue à mudança constante. Não à morte, mas à mudança. Pois ele nem sempre será lido como o começo que se propôs a ser. Por que não ser lido como uma possibilidade de final, então? Será daí que todo fim é um começo?, uma vez que cada nova leitura pode ser a morte e o enterro da leitura anterior, sugada antes de não mais existir.
Um começo de livro marcante pode ser este: "Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel". É do livro "A casa de papel", do argentino Carlos Maria Domínguez. Ou este: "Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo lado. Uma roda de gente se engordou em redor da coisa. Também eu me cheguei, parada nas fileiras mais traseiras, mais posto que exposto. Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la". Do livro “O último voo do flamingo”, do moçambicano Mia Couto. Dois simples começos como estes, que apresentam ações pontuais em tão poucas linhas, que delineiam uma miríade de caminhos na cabeça do sujeito-leitor – que poderão ser alcançados ou não, afinal, cada leitura é uma leitura.
Há, ainda, o começo de “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:”.
Dois pontos. Como que dizendo ‘agora vou contar a história’. E que o leitor deixe de lado a birra infantil de ‘ah, por favor, não me conte o final’. Há literaturas que se sustentam pelo seu durante. Há literaturas que encantam só pelo começo. Há literaturas que decepcionam principalmente no final.
[Um bom começo também pode ser um caminho para o abismo da decepção].
O começo como morte é a oportunidade de não se estranhar muito o novo começo, o recomeço. E de não sentir muito aquele que não mais existe, porque nada nem ninguém vem para substituir algo ou alguém, mas para acrescentar, para existir a partir daquilo/daquele que não mais.


ítalo puccini
professor de língua portuguesa, literatura e redação.
escritor nos blogs:
www.um-sentir.blogspot.com
www.rabiscosfutebolisticos.blogspot.com


 

 

 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Tipologia de Leitores (Ítalo Puccini)

‘Tava eu lendo umas coisitas teóricas sobre práticas de leitura e sobre a questão dos professores serem, ou não, sujeitos-leitores, quando me deparei com um texto em que a autora, com um embasamento teórico bem apresentável, indica uma “tipologia de leitores”, na qual ela classifica os professores participantes da pesquisa dela em “grupos de leitores”. Algo bem interessante de se pensar, nos tipos de leitores que somos. Porém, com a relevância de não nos limitarmos a essas categorias, uma vez que a leitura – e consequentemente os leitores – não pode ser pensada somente dentro de categorias.


Identifiquei-me em três das tipologias apresentadas pela autora (inclusive, preciso fazer referência a ela, ora pois: Ângela da Rocha Rolla, Doutora em Teoria Literária/PUCRS). E importante ressaltar que as descrições dessas tipologias apresentam como fundamento as vozes dos professores por ela entrevistados para a pesquisa.


Vamos lá:


1. Leitor compulsivo: É eclético: da história em quadrinhos ao último lançamento de um escritor valorizado pela crítica, tudo lhe desperta a curiosidade. Lê o que lhe cai nas mãos, mas mostra um espírito crítico em relação aos textos, emitindo opiniões a respeito de autores e obras. Tem livro espalhado por toda a casa, a leitura está em primeiro plano: são pilhas de livros que compra ou pede emprestado. Adora frequentar bibliotecas ou tem a sua própria. Lê de tudo a toda hora, lê no ônibus, no banheiro, lê na hora de dormir. Qualquer minuto livre que tem, ocupa nessa atividade. Às vezes até esquece que tem corpo, embriaga-se com a leitura.


(Já fui mais compulsivo. Mas a essência não se perde).


2. Leitor profissional: Não é um leitor ingênuo, ele lê para analisar estilos, buscando o valor estético das obras. A leitura literária e a produção de textos fazem parte de seu cotidiano profissional, são o instrumento do seu trabalho. Suas leituras constituem-se de obras técnicas sobre teoria literária e obras literárias de autores clássicos e modernos. Frequenta livrarias e círculos de leitores, tem um apreço especial por livros, que adquire com frequência, na medida de suas condições financeiras. Lê ficção para fundamentar as atividades voltadas ao ensino de literatura, oficinas de leitura, redação de artigos, projetos de pesquisa e também para seu lazer. A produção de textos é exigência do trabalho profissional, que apresenta oportunidades de realização de palestras, conferências, defesas de tese, publicações, etc. Faz leituras informativas, técnicas e literárias. É um iniciado em estudos literários. A leitura é prioritária na sua vida, constituindo-se não em trabalho penoso, mas em atividade realizadas com prazer.


3. Leitor escolar: Lê com um objetivo principal: indicar obras literárias para os alunos. Há uma preocupação com o trabalho didático, que absorve toda a sua disponibilidade para a leitura. Esta se reveste de obrigatoriedade, com a finalidade única de desenvolver seu trabalho docente, que consiste na análise e no comentário das obras solicitadas, cujo assunto não diz respeito aos seus interesses, nem ao seu gosto literário, principalmente quando se trata de literatura infantojuvenil. Por força da necessidade imediata e do pouco tempo disponível, realiza leituras rápidas, sem fruição. As leituras escolares não são consideradas leituras de lazer, para as quais na há espaço no cotidiano desse leitor.


Há, ainda:


Leitor Diletante: É um leitor ingênuo, que lê sem conhecimento prévio, por puro prazer. Tem um livro de ficção na cabeceira. Lê obras de autores consagrados ou popularmente conhecidos. Prefere literatura de consumo fácil: histórias de amor e de suspense, enredos de folhetim. Os critérios de escolha para ler são aleatórios, ao sabor do momento.


Leitor apressado: Caracteriza-se por ser um sujeito dinâmico, muito ocupado com o trabalho, que lhe deixe poucas horas diárias de lazer. Lê para se informar dos acontecimentos recentes e para se atualizar em assuntos diversos como política, religião, pedagogia, psicologia, espiritismo, etc. Não lê ficção ou lê eventualmente.


Leitor superficial: Lê eventualmente, sem privilegiar um tipo de leitura. Não manifesta preocupação com o valor estético das obras, nem mesmo as avalia. Escolhe os textos ao acaso, o que lhe cai nas mãos, geralmente a literatura de massa ou gêneros já consagrados, como o romance romântico. Não costuma realizar leituras para aprimoramento profissional, preferindo as de caráter utilitário e informativo.


            Leitor técnico: Faz leituras para estudo do trabalho docente ou de algum curso de especialização que está realizando. São leituras técnicas que versam sobre assuntos relativos às disciplinas que está cursando como aluno ou para aprofundamento teórico no campo profissional. As leituras informativas se reduzem a uma rápida olhada no jornal do dia, sem espaço para as reportagens de revistas. A leitura literária está ausente, raramente lê ficção, porque a leitura científica lhe toma todo o tempo disponível.


Não-leitor: Com uma história de vida distante dos livros, sem valorização da família na primeira infância, o não-leitor apresenta um comportamento avesso à leitura literária. Tem um contato esporádico com periódicos, que lê para se informar dos acontecimentos recentes e não consegue acompanhar um texto ficcional até o fim. Não dispõe de uma biblioteca, estando a leitura como lazer distante do seu cotidiano, que também dispensa hábitos culturais como cinema, teatro, músicas, esporte e outros.


E eu lanço aqui a proposta de que os leitores desta croniqueta possam registrar com quais tipologias se identificam, em que tipos de leitores acreditam que se encaixam. Enfim, que possamos pensar um pouco nos leitores que somos, ou que ainda podemos ser. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Fodidos pela arte. E pela linguagem. (Ítalo Puccini)

"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".
Esse Eduardo Galeano, no texto "Celebração das contradições/ 2", no "Livro dos abraços", leva-me à palavra. Que por si só contradiz. E consequentemente acontece com quem dela faz uso. E que bom que assim é. Perfeição de entendimento tornaria o mundo mais caótico do que já é, acredito.
Existimos pela incompletude da linguagem. Não nos há como fugir disso.
Há uma passagem da peça "Passport", da Companhia Rústicos Teatral, em que um dos policiais diz ao outro algo mais ou menos assim (porque toda transcrição de fala é imperfeita por natureza): "O que me tranquiliza, chefe, é saber que nessa vida estamos todos fodidos".
E não é assim?
A sinopse da peça diz: "Tudo acontece em alguma cidade, algum país esquecido. O Oficial e o Soldado exercem suas funções cotidianas sob a ordem dada em outro tempo. E em eterno presente, o Cidadão se vê em alguma cidad, algún país olvidado. Mesmo falando a mesma língua, Cidadão e Soldado não conseguem se entender quando chegam ordens do Oficial (o chefe). O Cidadão é preso como um suposto terrorista e é na cela que, segundo o diretor da peça, Samuel Kühn, os personagens são envolvidos “em situações absurdas desencadeadas, sobretudo, pelo conflito linguístico, em que são abordadas questões como a incomunicabilidade e a perda de sentido". A peça, baseada em um texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott, explora os limites da linguagem, a incapacidade de comunicação entre as pessoas, mas não só. Ela inquieta o leitor que assiste a ela porque não há o que ser feito numa situação em que duas vozes dialogam cada uma em uma dimensão própria, podemos chamar assim. Nós que a assistimos alcançamos essas duas dimensões (quem sabe?), mas não nos cabe intervir. Talvez se tornaria, a nossa, apenas uma terceira voz se perdendo entre as outras duas. Quanto mais alto o barulho, menos se ouve dele.
Mas voltando à frase presente na peça, desde que assisti a ela duas vezes, não me sai da cabeça. E eu vivo a repetindo, às vezes em alto e bom som. Como que para internalizá-la mais e mais. E para me sentir mais leve também. Porque haja mania grandioloquente de nossa parte em tornar maior aquilo que é tão pouco, não é mesmo?
Eu escrevo personagens por aí. Dia sim, outro também. Vários personagens, às vezes. Noutras, grudo-me em um só. Sinto-me sempre acompanhado. Não só ouço, como também falo. Dividimos pedaços de vida. Compartilhamos felicidades e frustrações. Trilhamos caminhos separados, sim, mas unidos de alguma forma. Pela fala. E acreditamos num entendimento mútuo do que falamos entre nós. É melhor assim. Por mais que saibamos que entender mesmo a gente continua entendendo só o que queremos dizer e o que queremos ouvir. E o nosso querer não é nosso, no sentido de ser de dois. É um querer de cada um. Compartilhados. Misturados. Mas não tornado um só.
Então que ter essa ciência, de que estamos fodidinhos - graças a deos - no mesmo barco alivia muito a vida.
É uma forma de nos abraçarmos, talvez.


Ítalo Puccini

sábado, 13 de novembro de 2010

pede licença o poema (Ítalo Puccini)

naquele momento em que

o lápis e o papel se encontram

em outro espaço-tempo.

 

como fazer, então?

como fazê-lo?,

o poema?

 

porque de repente,

sem adeus dizer,

o poema segue seu ritmo

 

e não mais possível se torna

acompanhá-lo.

 

porque o que caracteriza

o poema

é a brevidade;

 

nasce para ser fugaz.

 

ítalo puccini

domingo, 17 de outubro de 2010

Carta sem título (Ítalo Puccini)

J.,

Estranho foi você ter perguntado pela minha mãe, assim, de repente. Se tanto demorei para lhe escrever foi porque perdi minha mãe. Esses sustos que nos pegam assim, pelo calcanhar, de costas, despreparados. Era uma tosse. Depois uma dor na nuca. Uma febre que não passava. E o sorriso sem graça agora é meu. Depois de dias de internação. De diagnósticos confusos. Quando me contaram o que era, não me restou nada a fazer se não ficar assim catatônica. É tradicional, não é? Pelo menos é o que dizem. Da gente ficar assim fora do ar ao receber a notícia, precisar de amparo, contatar os parentes. Aí vieram, os parentes. Lá de longe. Porque eu sou bem sozinha. Agora ainda mais. Éramos só eu e minha mãe. Há bastante tempo. Há vinte e dois anos, desde que meu pai foi embora. Dizem que até já casou e tem uma filha. Mas não apareceu no velório de minha mãe, não. Mora longe, acho.

Durante esses dias todos eu ficava vendo sua carta ali, na mesinha da sala. Entre três sofás e uma televisão preta e branca. Debaixo de uma bíblia. A bíblia que minha mãe lia sempre, todo dia. Ela assistia ao terço das seis da manhã e ao das seis da tarde. E sempre depois de assistir ao terço ela fazia o sinal da cruz e beijava a bíblia. Nunca reparei se era sempre a mesma página. Agora eu joguei fora aquela bíblia. Você acredita em Deus, J.? Mas eu ficava assim, respondendo a sua carta por pensamento, sabe? Pensando assim mesmo, ora, se ele, ou ela, afinal, me achou ao acaso, se de repente eu recebi uma correspondência de alguém que eu não faço ideia de quem seja, por que esse alguém não entenderia o que estou pensando agora e, ainda mais, por que esse alguém não receberia minha resposta, então, por pensamento, principalmente entendendo que no momento eu estaria impossibilitada de escrever? Sim, eu sou do tipo, J., que abre cartas de desconhecidos. Na verdade, a sua carta foi meu sopro de vida durante esses dois últimos meses. Eu não ligava mais para muita coisa, não. Mas eu pensava diariamente numa carta que eu tinha para responder. Só que na verdade eu gostaria de prolongar essa resposta quase que infinitamente, sabe? Por medo. Você me entende, J.? Por medo. Assim. Vai que eu respondo a você, e você não mais me escreve?

Não repara não na minha escrita, muito menos na minha letra. Essa escrita fragmentada, essa letra tremida. Esses recortes de mim. É que eu ainda não consigo dar conta de tudo, não. Tem uma pilha de contas atrasadas aqui na mesinha do abajur da sala, ao lado do braço de um dos sofás. Tem coisa há mais de mês aqui. Minha mãe ficou internada por trinta e nove dias. Eu contei. Eu vinha em casa, tomava um banho, descansava uma ou duas horinhas só na cama e voltava para o hospital. Eu sou professora. Pedi licença na prefeitura assim que o médico me disse que o caso da minha mãe era sério e que poderia ser irreversível. Engraçado são os médicos, não é, não? Eles sabem exatamente o que vai acontecer, ou o que já aconteceu, mas sabem como ninguém dar uma informação que não diz nem sim nem não. E aí deixam a gente assim, desnorteada, com cara de assustada, mas precisando mostrar uma segurança que não existe. Foi assim que cheguei na escola e falei que precisava de trinta dias de licença para cuidar da minha mãe. E quando me perguntaram o que ela tinha eu fiquei muda. Eu travei. E caí num choro. Na frente da diretora da escola. Que precisou chamar uma outra professora para me trazer um copo com água e açúcar para me acalmar e para que eu pudesse dizer aquilo que eu não sabia.

Foi então que eu percebi que numa carta eu posso verbalizar direitinho o que eu não sei. Acho que isso é o mais marcante numa troca de cartas, você não acha? Essa incongruência. Nós escrevemos para contar daquilo que é nosso, daquilo que nos acontece, daquilo que acreditamos que é nossa vida, mas na verdade a gente acaba descrevendo aquilo que não sabemos, aquilo que não é nosso mas nós pensamos que é. A gente se escancara para um outro, mas pouco percebe que a gente se escancara também é para nós mesmos numa escrita de carta, seja para quem conhecemos, seja para um desconhecido, como você é para mim, J.

E foi isso o que me levou a enfrentar esse meu medo de lhe escrever. O medo de que não me respondesse mais. E eu sei que ao escrever isto eu empurro a você uma certa pressão, uma necessidade-de-resposta-para-que-ela-não-se-suicide. Mas eu digo que não é para tanto assim. Eu sei o que é viver sozinha, sabia? Sei, sim. Sei muito bem. É algo inerente a mim. O estar só. Portanto, não se obrigue a me responder, não. Passo, a partir desse momento, a não esperar carta nenhuma em meu apartamento. Será melhor assim, creio.

P.S.: Mesmo assim, eu gostaria, sim, de saber da mãe que caiu nesse mundo para você, J. Só isso.

Com afeto,

Cê.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

eu sempre quis escrever um poema com sapatos (Ítalo Puccini)

eu sempre quis escrever um poema com sapatos.
vesti-los
e andar por aí a amaciá-los,
como que fazendo brotar dali um poema.

porque o poema, quando brota,

traz consigo um susto,
um estranhamento,
como de quem veste sapatos
para fazê-los,
ou usá-los,

poema e sapato.


mesmo que incompleto,

mesmo que sem sola,
eu sempre quis escrever um poema com sapatos.

ítalo puccini.

eu sempre quis escrever um poema com sapatos.
vesti-los
e andar por aí a amaciá-los,
como que fazendo brotar dali um poema.

porque o poema, quando brota,
traz consigo um susto,
um estranhamento,
como de quem veste sapatos
para fazê-los,
ou usá-los,

poema e sapato.

mesmo que incompleto,
mesmo que sem sola,
eu sempre quis escrever um poema com sapatos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

esse cara tem me consumido (Ítalo Puccini)

cazuza, vem cá, senta’qui, vâmo conversar. eu sei que tu tá perdido, assim, sem pai nem mãe. eu sei que o que te resta são raspas e restos. e mentiras sinceras. então mente pra mim, vai, pode mentir. mente acreditando na tua mentira. faz isso que tu vai ver como tu vai se sentir melhor. confie em mim, cara, me ame como a um irmão mesmo. como a uma irmã. eu sei lidar com essas coisas. tenho também dezesseis anos e vivo em conflitos que me afastam de todos. brigo com todo mundo mesmo. fico com vários e várias ao mesmo tempo. há quem goste disso, há quem me odeie por isto. mas nem aí, não é mesmo? somos quase maiores-abandonados já. temos de nos virar. não somos pura fama, não é, cazuzinha? por que você tá tão quieto assim? hein? me diz. vem, se abre aqui comigo. a gente meio que ama odiando, né? daí causa essas coisas todas aí nas pessoas. gente que não se garante, que não se satisfaz consigo mesma. a gente não, né, cazuza, a gente tem tudo o que a gente precisa, e mais um pouco ainda, né? a gente vive de pequenas porções de ilusões muito bem construídas, não vive? assim, no lado escuro da vida mesmo. fala, cazuza, pode falar. pode deitar tua cabeça aqui no meu colo e chorar. chorar muito. mas fala também enquanto chora. é bonito isso, alguém chorando e tentando falar, e não conseguindo, e daí fica aquele soluço cortando palavras. isso é muito bonito, cazuza. faz isso pra mim, faz. tô aqui te dando colo e tudo. e, ó, declara guerra a quem finge te amar. chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia, tá? eu te ajudo com isso. eu lembro que tu já me chamou de amor da minha vida. um negócio daqui até a eternidade. eu lembro. me dizia que me podia me pegar escola e ainda me encheria com todo o teu amor. então, cazuza, vê como é fácil? tu sabe que eu tenho tudo o que tu precisa. e mais um pouco ainda. eu posso ser tuas rosas roubadas. posso ser pétala para ti. posso ser espinho. mas eu quero ser tua comida. quero ser todo o amor que houver nessa tua vida. tu me deixa, cazuza, tu me deixa? nosso amor tem que dar certo. não tem nada de desperdiçar blues de djavan nem de buscar ideologias para viver, não. a gente é e tem que ser um para o outro só. a gente sabe se amar. a gente aprende, pode aprender, então. a gente não consegue ficar amigos sem rancor. a gente tem que se amar mesmo que a nossa música nunca mais toque. a gente não pode desperdiçar nosso mel assim, não. a gente tem que se grudar, cazuza, se grudar. proteger o nome um do outro. por amor mesmo. guardar em um codinome. o que tu acha? tu sabe que eu posso ser tua dentro tua orelha fria. posso dizer segredos de liquidificador pra ti. tu sabe. tu sabe que quando tu sai de perto eu penso em suicídio. por mais que tu sempre volte com as mesmas notícias. eu sinto tua falta, cazuza. eu sinto falta de te ter assim no meu colo. sinto falta das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. das nossas noites perfeitas. eu queria poder te negar. mas eu não consigo. e tu sempre volta’ssim pra mim. noite sim, noite não tu tá’qui entre meus lençóis. me fazendo cafuné, me chamando de mulher sem razão. até cantando caetano pra mim, dizendo que eu sou apenas uma mulher. e assim eu não consigo te negar, cazuza. assim eu tenho de ser artista nesse nosso convívio, pr’essa nossa poesia que a gente vive e não vive. boca, nuca, mão. tudo de ti, cazuza. um remédio de ti eu quero. que me dê alegria. que não me deixe assim down. porque daí eu fico assim sem saber o que meu corpo abriga. e tento me esquecer, porque nessas horas pega mal sofrer, tu me diz. eu sei que só as mães felizes, mas a gente também pode ser, não pode? eu sei que tu não pode causar mal nenhum a não ser a ti mesmo. mas pensa um pouquinho mais nisso. te ver assim me deixa mal. tu me causa mal algum, sim, tá vendo? e eu tento aqui te ajudar, assim, te amar mais e mais, mas tu fica assim quietinho no meu colo e me deixa mal. porque eu sei que daqui a pouco, quando tu acordar, tu vai embora, vai pra rua, vai por aí, assim, e eu não sei quando tu vai voltar. e já me dá saudade de quando a gente conversa assim deixando escapar segredos. e eu não sei em que hora dizer que me dá um medo. porque eu preciso dizer que te amo. te ganhar ou perder sem engano, cazuza. eu preciso dizer que te amo. tanto.