Mostrando postagens com marcador Thiago Daniel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Thiago Daniel. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Memórias de Areia (Thiago Daniel)

Corria o cão

Sem raça

E pela areia deixava as pegadas

As ondas

Absorviam mais aquela memória

O vento

Carregava



Sábio mar

Apanhador desaberes

Minúsculos conhecimentos

Dos minúsculos grãos esvoaçantes

O vento só leva

Não guarda

“Se querem, busquem” – ele sopra

E põe-se a correr



O mar fica ali

Tempo gordo,

Hora cansado

O vento some

Vezes cortante

Outrora

Apressado



Ela fica com os dois

Aprendeu com seus antigos

Nunca desprezar os deuses do cognitio

Num mergulho apanha o alimento

E às vezes

Vai com o vento



Quando volta

As pegadas

Não mais existem

Extraviadas pelo mar ou pelo vento

Não importa

Lá de cima, realmente não importa

Só espera as próximas pegadas

É tão lindo ser gaivota

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Joana do Querer (Thiago Daniel)

Joana cheia de querer

Chorou até não querer mais

Quando cansou

Fechou o zíper

 

Joana cheia de querer

Chorou até querer mais ar

E quando suspirou

Lavou as mãos

 

Joana cheia de querer

Chorou até amanhecer

Quando viu o sol

Os olhos choveram

 

Joana cheia de querer

Chorou até o anoitecer

E quando os olhos tocaram o luar

Sentiu a mesma dor

 

Joana cheia de querer

Não queria mais chorar

Quando viu sangue no ventre

Chorou até morrer

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Mar (Thiago Daniel)

Ela pousou os joelhos mascados pela artrite

Cobriu seus pés cheios de areia

A colcha

de três gerações

 

Pensou na infância

os tapas das ondas

nos quadris

o beijo

no primeiro namorado

o filho

do único marido

o cesto de roupas no ombro

o pássaro roubando peixe

a ruga nos olhos do filho

que aos sete pediu um irmão

do pai falecido

 

Um sorriso brotou da lágrima

E quando o céu encheu de flores

Fez-se mar

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O Som da Palavra (Thiago Daniel)

Ta na boca
do verso
do vento
Ta no ouvido
da prosa
do mar

Ta descansando
ali no seu cantinho
de olhos abertos
Pra melhor deitar com as borboletas

Ta na boca
da língua que escorre
Saliva-remédio
Ta no sangue
lambendo
dentro das veias

Ta doendo
abaixo dos ombros
de tanto ruflar o maxilar
e partir sem peso nas orelhas

Ta na mão
que canta de aplausos
o grilo verde-hoje
E escuta na textura do ar
uma harpa assoviando beijos
Para as palavras

domingo, 7 de abril de 2013

Meus Olhos, Teus Olhos (Thiago Daniel)

Meus olhos de anúncio
Estacionados na tua prateleira
Brincam de silêncio
E te deixam passar


Teus olhos de águia
Navegando em papel veludo
Dobram troncos de Araçá
E me deixam ficar


Meus olhos de chamar sonhos
Deixam-te acordada
E não lembram mais de nada


Teus olhos código de barra
Não leem os meus
Caixa automático

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mensagem (Thiago Daniel*)

Eu queria dizer a ela, mas o tempo é o bote de uma cobra peçonhenta.

Sempre fui um cara “na minha”, falo pouco, jogo pouco, e, em jogos de coração, sempre fui o mais cabação.

Ela sentava ao meu lado, na sala da 6ª série 02. Terceira cadeira.

Acho que ela nunca olhou para mim. Eu queria chamar atenção, juro, sempre quis, mas nunca tive sequer coragem. Não havia santo fazedor de olhares, que a fizesse voltar sua atenção a mim.

Dessa vez era diferente, questão de honra, estava convicto que agora ela me olharia. Precisava disso. Pensei ser discreto, com leves estalos de dedos, uma tossezinha falsa. Nada.

Bolei planos. Era preciso enviar minha mensagem de qualquer jeito. Pensei no Código Morse e comecei a bater compassadamente com minha caneta na carteira. Eu não sabia como funcionava tal código, então logo percebi que não surtiria efeito, e mesmo que eu soubesse tal mensagem, duvido muito que ela atentasse ao meu comunicado. Desisti.

Lembrei de outro velho código dos índios americanos, descoberto pela minha pessoa, assistindo filmes de faroeste com meu pai, os sinais de fumaça. Logo pensei em pedir para o professor licença para ir ao banheiro, assim procuraria algo pra colocar fogo do lado da janela da nossa sala. Ela olharia e pronto, nosso amor estaria a salvo. Logo desisti da ideia, primeiro porque o professor não me deixaria sair da sala em meio a uma prova, segundo que se alguém me visse colocando fogo, dentro da escola, em qualquer coisa que seja eu seria expulso.

Não havia mais tempo. Peguei um pedaço de papel e decidi escrever nele. Em velocidade desumana, pelo menos para mim que sempre escrevi muito lentamente, rabisquei o que eu tinha a dizer. Foram os cinco segundos mais intensos da minha vida. Lembrei das festas juninas, alguém sempre entregava os bilhetinhos de amor para o destinatário, mas agora era diferente, não havia esse tempo, não havia ninguém entre nós. Nem pombos correio. Amassei o bilhete e joguei aos pés dela torcendo para ela ver e catar o papel.

Tarde demais, o papel rolou entre os pés do professor. Estava de costas para mim e de frente para ela. Ele pegou a prova dela, ela se levantou e foi embora.

Estava acabado. Se ao menos eu fosse um tanto mais corajoso.

Ao fim da prova, peguei o bilhete debaixo da cadeira dela. Ele a faria olhar para mim pela primeira vez, talvez até arrancasse um sorriso de seu rosto. Um sorriso dela só para mim.

Abri o bilhete para ler uma última vez antes de jogar no lixo. Li, rasguei e o joguei fora, mas as palavras ecoariam na cabeça por um longo tempo. Aquelas que salvariam o meu amor.

“Guarda esse livro, o professor está te vendo colar”.

sábado, 8 de setembro de 2012

Eu aceito (Thiago Daniel)

Eles se olharam
Por algum tempo
Depois se beijaram

Logo se encontraram
Em um estado
Nada esperado
Era como o céu e o seu lindo sol
E o anel que ele lhe deu
Brilhava
Enquanto na mão dela ele colocava
Então começou
Uma bela canção
Ele a pegou pela mão
Como não devia deixar de fazer

“Vamos dançar”

Eles dançaram a noite toda
Mesmo sem saber
Dançar direito
Ele dava um passo
Ela dava um, dois
Pisavam nos pés
Ambos sem jeito
Mas se quer saber
Levar pisão no pé
Se for pra ser feliz
Até eu aceito

terça-feira, 7 de agosto de 2012

(Thiago Daniel)

– Morgana! – Ele chamou.

Não respondi.

– Morgana!

Ouvi seus passos apressados.

– Morgana! – Já do meu lado.

Olhei nos olhos dele. Dei de costas.

Agora tenho que tocar punheta, só porque esse filho da puta não entende que não é pra me chamar assim na rua.

domingo, 8 de julho de 2012

Voar (Thiago Daniel)

Ela nunca entendeu por que as pessoas pagam duzentos reais para voar
de parapente. Sentia pavor só de imaginar-se em um.
Não temia as alturas, mas achava muito mais seguro voar com suas próprias asas.