quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Ingratidão (Inacio Carreira)
Apontado como sem perspectiva pois não tinha ganância, não era avaro, buscava auto justificar-se com a lembrança dos versículos “Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles” (Mateus 6, 28:29).
Buscava ser probo em ‘pensamentos, palavras e obras’, embora soubesse das dificuldades de andar no bom caminho, periodicamente analisando suas reações ante as oferendas que até ele chegavam, sopesando o certo e o errado nas atitudes, nas resoluções, nas respostas. Se o fiel da balança estivesse contra ele, ia até a pessoa que acreditava ter prejudicado e expunha seus sentimentos, buscando desculpar-se por algo que, às vezes, nem havia feito, ou não tivera a intenção de fazer.
Cultivava essa natural preocupação com o todo, que dirá consigo? Não, não era hipocondríaco, não vivia em academias, não buscava a última medicação para o que quer que fosse. Mas mantinha a alimentação saudável, dentro dos princípios do nutricionismo, segundo as informações que chegam a qualquer mortal por revistas, jornais, rádios, televisão. Sem contar a internet, com sites específicos sobre o assunto. Aproveitava as frutas da ocasião para refeições frugais, que completava com os necessários carboidratos e proteínas. Para este último item contrariava seus amigos veganos, a eles pedindo desculpas por não conseguir radicalizar nesse item.
O bem e o mal. Claro e escuro. Alto e baixo. Prazer e tristeza. Ocupação e preocupação. Dicotomias. Não. Não nasceu com esse conhecimento. Foi o mesmo sendo construído através de estudos de filosofia, incursões na psicologia, nos livros sagrados de diferentes povos, nas mitologias, nos demais conhecimentos místicos, na Teogonia, de Hesíodo, com Rabindranath Thakur (Tagore), com Bhagwan Shree Rajneesh (Osho), no dia a dia com familiares, amigos, leituras diversas. Periodicamente vinha-lhe à mente o discutível aforismo repetido por amigos: 'O diabo não é esperto porque é diabo, é esperto porque é velho'.
Saindo de consulta médica, lembrava a passagem shakespeariana: “Oh, se esta carne sólida, tão sólida, se desfizesse, fundindo-se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno não tivesse condenado o suicídio!” (Hamlet: Ato I, Cena II).
Pensou nas palavras do médico e reviveu seus sintomas: perda de apetite e, consequentemente, de peso, fraqueza, diarreia, tontura... Mas, por quê? Câncer? Ou melhor, para ser menos agressivo (o médico pedira que fosse com acompanhante, fora só), carcinoma. Mas precisava investigar, bastante e rápido, com exames, em parceria com o relato inicial, que o doutor chamou de anamnese: exames de laboratório (sangue, fezes, urina), além de tomografia computadorizada do abdômen; ultrassonografia abdominal; ressonância nuclear de vias biliares e da região do pâncreas e, também, a biópsia do tecido. Afeta mais os homens e, na sua idade, o índice de sucesso na cirurgia é irrelevante. A localização do pâncreas na cavidade mais profunda do abdômen, atrás de outros órgãos, dificulta a detecção precoce. Normalmente desenvolve-se, o tumor, sem sintomas, sendo difícil diagnosticá-lo na fase inicial e, quando detectado, já pode estar em estágio muito avançado. Como descobriu ser o seu caso.
Estão entre os fatores de risco o uso de derivados do tabaco: fumantes possuem três vezes mais chances de desenvolver a doença do que os não fumantes. Balançava a cabeça, como a dizer não ser seu caso. Outro fator (de risco, claro) é o consumo excessivo de gordura, de carnes e de bebidas alcoólicas. Como também a exposição a compostos químicos, solventes e petróleo, durante longo tempo. Um grupo de risco, com maior chance de desenvolver a doença, é composto pelos que sofrem de pancreatite crônica ou de diabetes melitus, os que foram submetidos a cirurgias de úlcera no estômago ou duodeno ou sofreram retirada da vesícula biliar. Só dizia presente ao último item, retirada da vesícula biliar.
Procurou e leu, na internet, tudo (ou quase) que estivesse relacionado ao pâncreas e tumores nessa glândula. Era muita coisa, muita cientificidade, muita pamonha para a sua festa junina (comparação idiota, repreendeu-se, estavam em novembro...). Castigo divino? Mas, por quê?
Andava com a cabeça cheia. Querendo arrumar justificativa para seu corpo, tão bem tratado, tão elogiado, tão abençoado cada vez que fazia uma coisa boa (vai com deus, diziam. Deus te proteja, desejavam. Deus aumente tuas dádivas e tua bondade, oravam os mais amigos).
Não, não queria recompensa, o que fizera fora sempre de coração aberto. Muita gente não entendeu seus cuidados, muitos lhe viraram a cara, acreditando que ele almejava algum cargo eletivo, alguma medalha, outra recompensa qualquer. Não. Já do berço ouvia a voz da avó: ‘Faz o bem sem olhar a quem’, embora o escorpião tenha picado a rã que ia leva-la à outra margem, aprendeu mais tarde nos livros.
Agora sabia, o inimigo estava dentro dele. Ele era a rã que carregava o escorpião para a outra margem, mas sabia que não chegariam. Sim, esta seria a metáfora final de sua vida. Ele a rã, o câncer sendo o escorpião. O rio? A rua, uma qualquer, que nessa época todas são perigosas, daqui ao fim dos tempos todas serão perigosas, cada vez mais. Era só concentrar-se enquanto anfíbio e atravessar a avenida-rio, esperando a picada fatal. Que veio na forma de um caminhão, apressados que sempre estão.
No rosto um sorriso intrigante: ao longo da vida, com suas idas e vindas, favores e agradecimentos, tours de force e promoção de mil ajudas, sofrera muita ingratidão. Superara a todas. Mas não pôde, humano que era, superar a ingratidão do próprio corpo. Ninguém entendeu...
sábado, 25 de maio de 2013
Tauromaquia (Inacio Carreira)
Tentamos dissimular, emular energias impossíveis
ou possíveis, sei lá, mas energias
e afloram, com floras, flores, florais de Bach
e música suave barrocamente invade o ar...
Plantar, semear, regar e esperar germinar. Paciência bovina. Ou taurina, embora esta imagem esteja mais aliada à impaciência. Com mais de 2.600 anos, a Lira de Tomb, suméria, de Ur, apresenta harpa decorada por uma cabeça de touro de madeira, coberto com ouro e barba em lápis-lazúli, que integra o acervo do Museu Britânico. Mais tarde, surge o mito do Minotauro na ilha de Creta, governada pelo rei Minos: cabeça e cauda de touro num corpo de homem, povoou o imaginário dos gregos, levando medo e terror. Habitava um labirinto e nasceu em função do desrespeito do marido de sua mãe ao deus dos mares, Poseidon. O rei Minos pediu ao deus que o deixasse tornar-se o rei de Creta. Poseidon aceita o pedido, porém pede em troca que, em sua homenagem, o rei sacrificasse um touro branco, lindo, que sairia do mar. Ao receber o animal, o rei ficou tão impressionado com sua beleza que resolveu sacrificar outro no lugar, esperando que o deus não percebesse. Muito bravo com a atitude do rei, Poseidon resolve castigar o mortal: Pasífae, esposa de Minos, se apaixona pelo touro, ficando grávida do animal, união da qual nasce o Minotauro. Desesperado e com muito medo, Minos solicitou a Dédalos que fizesse um labirinto gigante para prender a criatura: foi construído no subsolo do palácio de Minos, na cidade de Cnossos, em Creta. Após vencer e dominar, numa guerra, os atenienses, que haviam matado Androceu, seu filho, o rei de Creta ordenou que fossem enviados todo ano sete rapazes e sete moças de Atenas para serem devorados pelo Minotauro. Após o terceiro ano de sacrifícios, Teseu, herói grego, apresenta-se voluntariamente para matar o Minotauro. Ao chegar na ilha, Ariadne, filha de Minos, apaixona-se pelo herói e resolve ajudá-lo, entregando-lhe um novelo de lã para que pudesse marcar o caminho na entrada e não se perdesse no grandioso e perigoso labirinto. Tomando todo cuidado, Teseu escondeu-se entre as paredes do labirinto e atacou o monstro de surpresa. Usou uma espada mágica, que também havia recebido de Ariadne, colocando fim àquela terrível criatura. O herói ajudou a salvar outros atenienses que ainda estavam vivos no labirinto. Saíram do local seguindo a guia formada pelo novelo de lã. O mito do Minotauro foi um dos mais contados na época da Grécia Antiga. Passou de geração em geração, principalmente de forma oral. Era uma maneira de ensinar o que poderia acontecer àqueles que desrespeitassem ou tentassem enganar os deuses.
O argentino Julio Cortázar, em sua peça Os Reis, mostra-nos um Minotauro meigo, humano, que encanta e busca, nos jovens que chegam todo ano, somente carinho e companhia. Conquista-os, fazendo com que não queiram voltar à terra natal.
Por sua característica de força e poder, a figura do touro sempre foi reverenciada pelo ser humano. Mais recentemente, artistas como o espanhol Francisco de Goya, com sua Tauromaquia, série de 33 gravuras publicada em 1816, e Pablo Picasso, também espanhol, com no mínimo cem trabalhos – desenhos e gravuras, na maioria – dedicadas ao tema, motivo recorrente na obra picassiana desde a infância, na casa dos pais, em Málaga, até a década de 1960, tiveram importantes exposições pelo mundo.
Informação, informação... Que não fazia acabar seu pavor, medo, pânico pela simples lembrança de um touro. Um boi, que fosse. Trauma adquirido na pequena cidade do interior paulista, família morando perto do matadouro. Chegavam, semanalmente, boiadas para o abate, vinham a pé, passavam pelo meio da cidade, única rua ligando diretamente a estrada com o abatedouro. As mulheres recolhiam as crianças para as casas, pois a rua era o quintal onde brincavam, todas, numa época em que o trânsito era, na sua maior parte, feito a pé ou a cavalo. Charretes, carroças, carroções iam e vinham, modorrentamente, não perturbando a paz dos viventes. Mas, naquela tarde, inesperado, um grito de desespero rasga o silêncio da tarde: Estouro! Sua mãe, heroicamente, só teve tempo de jogá-lo contra a parede da casa e jogar-se sobre seu corpo. O corpo da mãe ficou irreconhecível, pisoteado e chifrado pela passagem do cortejo assustador, irado.
Sabe, ele, que prender-se ao passado traz nostalgia, não ajuda nada o viver. Mas, se a história ficou para trás, a lembrança está viva em sua mente. Precisa aprender ousadia e o prazer de experimentar, embora não goste de arriscar sua segurança. Ao atravessar ruas olha para os dois lados, fazendo-o também para cima e para baixo, num tic, ou TOC, nervoso, que ele não pode evitar. Ritual, cerimonial, medo... A Tauromaquia marcou sua vida. Marcará sua morte?
sábado, 20 de abril de 2013
O choro é livre (Vana Comissoli)
Impossível olhá-lo sem parar a observar. O homem chorava copiosamente no meio da rua e não se incomodava nem um pouco com o olhar intrigado dos transeuntes. Eu não tinha nada a fazer, situação de aposentado que sai a esquentar a vida debaixo do sol sonhando calores que não tem mais.
O sujeito começou a andar meio trôpego e pensei que podia estar embriagado, só alguém fora de seu juízo com a idade que aparentava ter, lá pelos trinta e vários, daria aquele espetáculo sem pejo. Passou-me pela cabeça que ele poderia cair, tropeçar, ser atropelado por algum idiota que não se perturba com a dor alheia. Digo dor porque aquele pranto esparramado só podia carregar um sofrimento desmedido. Seria algum resultado de exame maligno que trazia nas mãos? Ou um obituário de jornal?
Fui atrás dele sem me preocupar com o percurso e nem se estava me afastando muito do meu próprio caminho, há algum tempo não ficava distante de casa. Vá que tivesse uma síncope, ou um AVC? Dizem que é sem aviso e eu não tinha preferência por cair duro na rua, daria tremendo trabalho a meus filhos me recolher, mandar para o IML, prestar depoimento... Não, eu não faria isso com eles.
Não faria? Dobramos uma esquina e outra e outra. Será que este sujeito sabe para onde vai? E agora essa! Está soluçando. Preciso falar com ele, não me lembrava de ter visto alguém envolto em tanto sentimento! É triste, mas é lindo. Agora a moda é mais filosofar sobre os entraves da vida do que senti-los e isso é mais triste ainda.
A natureza toda parece concordar comigo por que abriu um céu mais azul do que o azul que o céu tem. Posso até sonhar que são os anjos que espiam um sentimento andando pela rua a soltar faíscas de existência.
Ele sentou! Meu herói descobriu uma acolhedora mureta dura para sentar. Seus ombros sacodem com o desamparo do pranto. Não vacilo: sento-me ao seu lado.
─ Amigo, me conta o que te faz sofrer tanto?
Perguntei na coragem, acreditando que me mandaria catar coquinho. Olhou-me como quem estivesse esperando que lhe fizessem essa urgente e necessária pergunta.
─ Mataram, mataram ela!
─ Ela! Quem morreu?
─ A Valéria. A moça amiga, caridosa. Ela cuidava dos meninos de rua como uma mãe e eles a adoravam. Não tinha nojo de abraça-los, sentir seu cheiro. Nada que um bom banho não resolva, deveria ter dito aos seus ouvidos.
Fiquei procurando na minha memória que andava dando umas falhadas cretinas, quem era a Valéria. Pensei em todas as novelas, nos noticiários e não me lembrei de nem uma, já andava mesmo desconfiado que o alemão me visitava, o tal Alzheimer com quem não quero intimidades. Precisava desesperadamente lembrar por que só podia ser uma celebridade. Muito respeitoso perguntei e afirmei, tudo ao mesmo tempo:
─ Sinto muito, não estou reconhecendo qual das Valérias... Aquela? Ou a outra?
Ele me olhou desalentado. Senti uma faca no peito, eu era mesmo um asno vestido, como podia ferir com minha ignorância alguém que devia estar sofrendo por um amor? Fosse lá de que tipo fosse este amor. O coitado voltou a chorar, desta vez ainda mais alto. Entrecortada por soluços eu ouvia a explicação:
─ Ninguém sabe quem é a Valéria, isso é desalentador. Como uma vida pode passar assim em branco? Quando eu morrer também não se lembrarão de mim? Não suporto esta ideia, não suporto esta mania que a vida tem de andar de braços dados com a morte. Prá que? Prá que isso? A Valéria... Pobre e querida Valéria.
Torci os miolos, não tinha a menor chance de sair bem da situação. Chorar... Não conseguiria fingir. Eu o feriria mais se desse um fora no reconhecimento da querida moça. Felizmente ele se pôs a contar.
“Gosto de puta. Gosto mesmo. São carinhosas, só cobram o que foi combinado, não pedem para ir ao shopping, não atrapalham o futebol do domingo, não deixam rastros de limpeza pela casa. Fazem tudo que pedes sem ficar arranjando desculpas, não têm dor de cabeça e muito menos discutem a relação.”
Eu concordava, era bem verdade o que ele estava dizendo, senti uma pontada de culpa por tê-las desprezado um pouco e ter resolvido que casada era bom. Resultou que dei com os burros n’água e gastei os tubos, além de ter que criar dois filhos durante meus melhores anos. Não que os amasse pouco, mas, pensando bem, é uma troca insana quando se percebe, como agora, que não pudera fazer muitas e muitas coisas por causa deles e teria que ir embora chupando o dedo. Na obrigação de achar muito bom eles conseguirem mais do que eu. Eles fariam, mas eu não tinha a menor chance de nada, deveria agradecer se o alemão não levasse embora até as lembranças do pouco que tive. Uma puta é consideravelmente boa vista deste ângulo. Ele continuou.
─ Meus amigos não entendem. Não sou um cara feio.
Examinei-o pela primeira vez. Não era mesmo. Tinha olhos acinzentados, talvez fossem até azuis sem as lágrimas, um nariz reto que se poderia chamar de grego e a insustentável beleza dos maravilhosos 30 anos. Uma boa altura, qualquer mulher poderia se aninhar em seus braços e se sentir satisfeita.
─ Puta, igualmente às santas, merece homem bem apanhado. É o que eu acho. Porque deveriam andar sempre com uns pelegos velhos? Quem gosta de puta de verdade, como eu, respeita o trabalho duro que elas têm, sabem que muito homem é nojento e maltrata. Acabam ficando amigos delas. Não tem amiga mais fiel do que amiga puta. Não falam mal de ti por que sabem quanto dói ser difamado, não inventam desculpas para escapar de ti por que sempre és bem-vindo. Enfim, tive muitas amigas. O melhor é não virem com a história de que não se trepa com amiga. Puta trepa com amigo numa boa e até acha melhor, sabe com quem está. Passam a te beijar na boca, coisa que não dão para qualquer um. Te tornas uma espécie de escolhido, de ser especial.
Eu estava bem interessado na explanação, quem sabe puta gosta de velho e tem paciência. Seria bom relembrar como é ter uma mulher, mesmo que fosse puta. Já estava convencido da útil feminilidade das meninas.
─ É preciso entrar no mundo delas e nunca arrepiei de fazer isso. É um universo multicolorido, cabe todo tipo de gente dentro dele, o mais legal é que não estão preocupados com aparência, verniz social e estas coisas que fazem as pessoas se tornarem hipócritas. Foi assim que conheci os travestis que circulam nos arredores das putas. Troca de freguesia, uma questão de negócio, nada pessoal. Tem alguns insuportáveis, mas não por serem gays, mas por ser gente de má índole. Nunca confunda as coisas: quem é bom, é bom de qualquer lado do campo. O inverso é verdadeiro, seja lorde ou vagabundo é abjeto do mesmo jeito se vem de raiz torta.
Estava aprendendo o que não tinha aprendido a vida toda. Deu um arrepio maior do que eu estava acostumado quando olhava minha vida. Este homem chorando pela Valéria que devia ser puta, é claro, me mostrava que minha passagem rápida por este mundo doido, tinha sido pobre, mais pobre do que o pobre que eu achava dela. Era bom e melancólico aprender, se tivesse sido uns dez anos atrás ainda daria tempo de dar uma guinada no timão, mas agora... Era outra mágoa para arrastar.
─ Foi assim que simpatizei com a Valéria logo de cara, entendes? A gente percebe uma alma pura trazendo luz para a Terra. Se sente dentro do peito.
Agora eu entendia tudo, até o que nem remotamente me passara pela divagação. Parei de lamentar as perdas, era uma maneira de usufruir vivendo de ouvido. Na minha imaginação cenas de submundo, nem tão sub assim, aprendia, desfilavam envoltas em todas as cenas que assistira em filmes, lera nos jornais e espiara na noite. Nada era o que me diziam ou enfiavam na minha mente sobre este mundo. Ele era feito de gente pelo jeito bem mais honesta do que as conhecidas por mim. Tinha visto tanta sacanagem envolta em sorriso! Se neste desvão atropelado por impropérios existia roubo, ou fraude, elas eram parte do negócio e não uma traição deliberada. Eu poderia sonhar que existia uma fatia de humanidade mais parecida com a que se deseja que haja. Gente emocionalmente decente.
─ Agora vem essa notícia que a Valéria foi esfaqueada por um desgraçado lá na praia de Copacabana.
Estranhei. Então isso tudo era no Rio de Janeiro?
─ Moraste por lá, amigo?
─ Não, nunca estive no Rio. Qualquer hora dessas eu vou, quero ver de perto o lugar onde o sangue da Valéria avermelhou a areia branca.
Realmente o quadro era terrível. A areia pura, quase brilhante... O sangue saindo em cascata por buracos do corpo de Valéria. O desgraçado fugindo, com certeza encapuzado. As marcas dos saltos ainda marcando o chão mole. Os olhos abertos surpreendidos pela avalanche da violência. Policiais que não deviam ter investigado o suficiente por que afinal era apenas um homossexual doente de luxúria esparramado na praia. Só restava chorar a dor dos mal paridos.
─ Ela estava toda linda, sabia se maquiar a Valéria. Tinha posto o vestido rosa pink e arrumado o cabelo daquele jeito que fica preso só de um lado. E não era peruca não, era de verdade. Essa vantagem temos hoje em dia, os pobres travestis podem deixar o cabelo crescer quanto quiserem. E o batom! O batom era demais, exatamente da cor do vestido.
Meu companheiro sabia demais. O que interessa à observação de um homem uma coerência entre batom e vestido? Fiquei com um pé atrás. Seria ele mesmo gay? E se fosse? Que raio de preconceito enraizado dentro da gente! Fiquei com raiva de mim mesmo por ter permitido tal reação vinda sei lá de que fogo do inferno através das palavras de quem eu nem conhecia, mas que queimavam minha recente descoberta. Não sei se ele percebeu ou foi casualidade, mas explicou:
─ A gente aprende a observar e sabe que é bom? Adquire-se uma acuidade estética que ajuda muito a entender a beleza de uma mulher, por que travesti é uma mulher que errou de corpo, apenas isso e muitas vezes mais feminina do que várias que eu conheço que não se entregam nunca, ficam se digladiando com a gente em nome de uma estúpida concorrência de sexo. Com isso ficam sem sexo gostoso algum.
Olhei o relógio, há algum tempo já deveria estar em casa me preparando para a chegada da noite, não tinha mais o hábito de me atrasar, qualquer vacilo poderia por a perder a disciplina que o médico jurara, prolongaria minha miserável vida. Mas me afastar do sujeito ainda descomposto? Não tinha coragem, ele me dera tanto.
─ Tomei uma decisão. ─ Ele se levantou num salto. ─ A morte da Valéria me abriu os olhos. Vou me casar.
Eu não podia acreditar no que dizia, acabara de me convencer que viver livre e aberto era o máximo e agora vinha com essa de casar?
─ Relutei bastante, a Sarita é puta, mas não vou ligar mesmo. Somos namorados há três anos e há dois não aceita dinheiro de mim. Namorado não paga e sou fiel, assim como ela. Não transo com mais ninguém, nem ela, apenas trabalha, é diferente, é o comércio que ela conseguiu abrir. Se fosse uma loja todos bateriam palmas e elogiariam.
Pensei que era muito justo e casar com puta deveria ser bem melhor do que casar com moça de família, até por que as diferenças entre uma e outra não eram lá tão grandes assim. Conhecia muita casada que corneava o marido e não se mandava só para ficar no bem bom de ser sustentada. E puta trabalha firme, com pausa só três ou quatro dias por mês, não tem salário fixo, nem férias, muito menos 13º. Não é para qualquer um.
Esse amigo de rua era mesmo um estrondo, sua sabedoria e jogo de cintura com a vida me deixavam embasbacado. Talvez, se pintasse o cabelo, desse um trato na cara, eu conseguisse conquistar uma puta jeitosa como a dele. Não seria nada mal um casamento de primeira categoria agora que os sinos da véspera batiam à minha porta. Chegaria lá em cima, na frente do tal de deus que não tinha me mostrado essas possibilidades e teria o que agradecer em vez de dizer que era um cretino me aprontando uma vidinha de merda.
─ Não te convido para padrinho por que a turma vai achar ruim trazer amigo recente quando tem tantos que acompanham meu romance desde o princípio, mas te deixo meu telefone, quero que vás ao casamento. Pelo menos na igreja. A Sarita sonha com vestido de noiva e ela tem a alma mais pura que conheço.
Aceitei prontamente, não podia perder este cara de vista. Também estava contente, tinha parado de chorar e uma energia nova e luminosa me garantiu que os olhos eram mesmo azuis.
─ Amigo, irei com prazer. Será que as colegas da Sarita vão ao casamento? Antes que me esqueça. A Valéria, fiquei sabendo tudo, menos tua história com ela. Como a conheceste e tal...
─ Valéria? Ah, ela é personagem do livro que terminei de ler. Que autor! O livro se desenvolve em torno da morte trágica da moça e não revela quem a matou. Não dá uma pena danada?
Vana Comissoli
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Dualidade (Vana Comissoli)
Maria e Estela, irmãs gêmeas idênticas. Nomes tão díspares. Os pais, ao terem gêmeos, tendem a dar nomes semelhantes, não que isso seja bom, é até mesmo ruim, amalgamam os filhos e eles se enroscam num só tronco, quando muito com quatro pernas, mas a tragédia permanente de duas cabeças está sempre presente. Inexorável.
Conosco não foi assim,desde o começo as diferenças foram estabelecidas. Meus pais teriam pressentido o inevitável e escolheram nomes díspares? Maria e Estela...
Nasci primeiro, pelo menos era o palpite de minha mãe, estava com o cordão umbilical de Estela enrolado no pescoço e os médicos nem olharam direito a minha cara, embora isso não fosse fazer a menor diferença, correram a salvar minha irmã. Quem ficou cianótica fui eu. Ela prontamente berrou para que o mundo viesse saudá-la, no que ele obedeceu. As visitas que vinham para as duas, logo desistiram de mim,era o mesmo rostinho, mas eu chorava sem parar e não tinha graça nenhuma fazer bilu-bilu para um saco de berros. Muitos dias depois o pediatra se deu conta que leite tinha apenas para Estela, sempre a primeira que entregavam à minha mãe para amamentar. A enfermeira jurou por tudo que era santo que intercalava, podia se enganar, tão parecidas as meninas!
Podem não acreditar, mas eu podia ver Estela piscando o olho e sorrindo matreira.
Crescer não foi problema, o organismo se encarregou de não fazer diferença conforme estava escrito no DNA. Brincávamos juntas, dormíamos juntas, vestíamos igual. Nos retratos nunca sabiam quem era eu e quem era ela. Estela gostava de brincar de imitação,eu não gostava nem um pouco. Não gostava de nada que ela gostava: arrancar as pernas das formigas, chutar o gato que eu amava. Comer fruta verde e passar mal. Quem comia era eu, elas apenas cheirava e revirava os olhos antecipando na minha boca o sabor mais delicioso do mundo.
Naquele dia, Estela parou à minha frente fazendo tudo que eu fazia, normalmente eu acabava chorando e ela rindo, desta vez entrei em pânico, achei que era um espelho. Não era minha irmã que estava ali, fazendo os meus gestos, era eu frente ao espelho e não gostava do olhar penetrante, um brilho verde no fundo que não conhecia. Era eu e não era eu. Estapeei o espelho até ficar com o rosto vermelho, as mãos doloridas e os pulsos sangrando. Os meus berros trouxeram nossa mãe espavorida enquanto Estela ria com um filete vermelho escorrendo da testa e entrando olho a dentro dando-lhe um ar diabólico que me fez gritar mais alto.
Tinha medo dela. Às vezes me assombrava uma estranha sensação de que éramos gêmeas xifópagas onde tínhamos o mesmo corpo sem individualidade, mas cabeças opostas. Minha irmã era sinistra, assim eu a percebia, e seu corpo idêntico me alucinava, como se houvesse algo daquele mal dentro de mim. Éramos inimigas com vínculos severos e atordoantes, que me confundiam. A reconhecia como se tivesse vivido com ela outras vidas estranhas e escuras. Lembrava seu rosto adulto, diferente do meu, mas com o mesmo olhar verde limo, queria renegá-la e não conseguia.
Um espinho todos os dias era remexido na ferida cada vez que ouvia mamãe nos chamando: Maria! Estela! Estrela matutina, luz do dia, esse deveria ter sido meu nome, mas foi Maria, a enxotada na cozinha, a mais banal das banais. A que os cabelos não brilhavam ao sol, a de pele fosca e sempre ranhenta num resfriado sem fim.
Iguais e tão diferentes! Uma linda, brilhante, sedutora, manhosa, matreira. A outra calada,olhos de desvio, silêncio em movimento, organizada, disciplina férrea. A ordem e a disciplina me preveniam de não escorregar no escuro túnel onde eu trombaria com ela que iria para dentro de mim, rindo de minha falta de jeito. Eu seria consumida.
Um karma infeliz que divertia minha irmã e me prostrava em cima da cama à busca de entendimento. A ideia de união indissolúvel era cada vez mais forte, apesar de tudo sabia que sem ela não poderia viver. Não havia ligações físicas a se efetuar por diversos órgãos inviabilizando a sobrevivência de ambas, mas havia esta ligação de estalos e gemidos. A gota d’água pingando sem parar. Plim... Plim... Plim... Tapava os ouvidos e a gota continuava no balde de minha cabeça rompendo lentamente o que restava de elo com o mundo.
Eu via os liames se enroscando entre nossas camas nas noites de pesadelo e não conseguia me afastar, tinha medo que a estrangulassem e ela morta, eu também estaria. Não podia permitir melhor a fixação patológica que me mantinha viva. Eu a odiava. Queria ser boa, ter os conhecidos sentimentos gentis e ela... ela me amava tortamente me infernizando com seu riso de princesa. Zombando enquanto todos a ouviam cantar embevecidos. Eu não cantava uma nota sequer no tom certo e não decorava letra de música alguma além de “Atirei o pau no gato”. Logo esta que me doía só de imaginar meu gatinho amparando a lambada. Lambada dada por Estela.
Quando decidiu perto dos 14 anos que pintaria o cabelo, senti que parte de mim sumiria.
- De maneira nenhuma! Somos gêmeas, temos que ser iguais.
- Não, não temos. Só somos gêmeas, não pensamos igual, não sentimos igual. E não pintarás igual a mim, não quero que sejas eu.
Dizia isso com a lâmina apoiada nos pulsos, os olhos fixos nos meus a me castigar. Não sabia o que fazer. Apelei para minha mãe que achou uma grande bobagem, que cada uma fizesse o que quisesse. Éramos apenas gêmeas.
Na escola, ela tinha amigas e eu não desgrudava dela, também queria que as meninas conversassem comigo. Eu era quieta, nunca tinha a piada certa, a perspicácia de perceber as situações: - Ah... é? É? Como assim? – terminava por aqui a minha presença de espírito e Estela ria, fazia chacota de minha timidez paralisante.
Nos pesadelos que sacudiam minhas noites, eu era Estela e Estela... Não existia.
Não sei como ninguém enxergava sua perversidade apesar de fazer tudo às escondidas. Já adolescente, tirava dinheiro da carteira de meu pai e comprava cigarros que fumava no fundo das esquinas, depois, sem que eu visse, guardava as bitucas no meio de minha roupa íntima, onde mamãe acabou achando e eu levei uma surra e castigo de dois dias.
Muito antes de eu pensar em namoradinhos, ela tinha fãs que deixavam de comer merenda para lhe comprar um sorvete. Eu não queria saber de meninos, tinha certeza que se gostasse de algum, ela daria um jeito de pegar para si e sei que ele não hesitaria em fazer a troca. Não queria ser mais infeliz do que era.
Lentamente, fui mudando, o desejo de ser boa foi virando gelo derretido e me esfriando por dentro. Comecei a ter consciência que a odiava de fato e que, enquanto vivesse ao seu lado, eu não passaria de uma sombra.
Na escola, nossas letras absolutamente iguais, eram um problema, ela assinava meu nome nas provas e eu não tinha como provar a usurpação. Ela tirava 10, jurava que a troca tinha sido feita por mim. Sempre duas provas com o mesmo nome e ninguém podia ver nada de estranho nisso?
Aguentei até os 18 anos, a idade da independência, ou quase... Na hora de escolhermos a profissão, naturalmente queríamos a mesma coisa. Pela primeira vez fui esperta e deixei que Estela falasse primeiro, era a forma de conhecer seu segredo bem guardado: o que desejava da vida? Cruzei os dedos sem muita fé para que não fosse o mesmo que eu. Ela respondeu segura: Medicina. Quero ajudar as pessoas e não temo o sangue, nem o sofrimento, trazem sempre a cura. Ou a morte, grunhi.
Foi um dilema, a mesma faculdade? Todos os dias vê-la brilhando enquanto eu me desvanecia cada vez mais? A sensação era de dissolver-me enquanto Estela se tornava cada vez mais brilhante e suas brincadeiras mais ferinas, seu olhar punha maresia nos meus cabelos e nos dos outros como a refrigerar as ideias, menos as minhas. Eu fervia.
Não abri mão de meu sonho, queria dissecar as pessoas, descobrir onde se escondiam as almas e por que se enovelavam deste jeito atroz. A busca era mais forte do que eu. Haveria de suportar a presença de minha irmã apesar da gastrite que tinha quando passávamos muitas horas juntas e da urticária infeliz que me cobria o corpo caso minha mãe, inadvertidamente trocasse nossas roupas que continuavam iguais. Por que nos vestíamos igual se a mudança era tão simples? Eu não consegui mudar. Sofri e fiquei doente nas poucas tentativas que fiz, a depressão me vencia. Caixas e caixas de remédios tarja preta e fotos sobre a cama de nós duas iguais com expressões tão antagônicas. O claro e o escuro? A sombra e a luz? O bom e o mal? Não creio nesta dicotomia ridícula e infantil. Apenas diferenças que amarguram.
Logo em seguida, dois anos apenas... Por exaustão? Desistência? Incapacidade? Escolha? Desígnio? Sofremos um terrível acidente de carro.
Hoje estou deitada neste caixão e o cheiro das flores que morrem me incomoda. Estela não repousa no dela, senta-se tricotando calmamente uma esquisita roupa de bebê com duas pernas e quatro braços.
Outra vez? Quantas vezes ainda?
Consegui me levantar e saí. Na minha lápide recém colocada, meu nome em dourado, imagina só! Dourado!
Com saudades, nossa única e amada filha
Maria Estela Gomes Carneiro.
Seus amoráveis pais.
Vana Comissoli
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Perto da Morte (Fernando Bastos)
“Sofia lembrou-se que a avó, no dia em que soubera da
sua doença, dissera algo semelhante. - Só agora tomo
consciência de como a vida é rica - dissera ela.
Não era triste que a maior parte das pessoas tivesse que
ficar doente para reconhecer que a vida era bela?”
(O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder)
Você me disse que precisava falar. O quer foi, amigo, algum problema?
Precisava desabafar com alguém. A gente se conhece há mais de trinta anos, e sei que você é a pessoa certa pra me ouvir, aliás, coisa que você sabe fazer tão bem.
Sua cara não tá boa. Fala, o que houve?
Os médicos sabem. Quando um paciente é avisado que tem uma doença grave, a primeira coisa que faz é prometer que vai mudar radicalmente de vida. Depois de algumas semanas, passado o susto, volta a cometer os mesmos erros, deixa a caminhada de lado, retorna à cerveja e às carnes gordurosas. Assim aconteceu comigo. Você sabe, tenho 60 anos cravados. Uma mulher linda e dedicada, e três filhos, todos crescidos e encaminhados. Mas eu achava que viveria até os 100, e esse foi meu erro. Eu já sabia que minha saúde não andava bem das pernas, mas relaxei, e não me cuidei. Agora a coisa ficou séria. Estive novamente no médico, pra umas baterias de exames. Se eu quiser ter uns anos extras de vida, vou ter que entrar na linha, senão...
Eu já havia te falado sobre isso.
Sei, lembro. Mas eu não tinha noção do tamanho da enrascada. Mesmo assim, te garanto que não temo a morte. E Epicuro me lembra: “Por que ter medo da morte? Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser." O que me faz agora me agarrar à vida com unhas e dentes, é que finalmente percebi que a vida é melhor do que eu pensava, apesar de tudo... apesar de tudo, eu quero viver.
Fico feliz que tenhas agora tomado consciência disso...
Você ouviu falar na enfermeira Bronnie Ware, autora de um livro que trata dos arrependimentos de quem está para morrer? Ela o escreveu após anos convivendo com pessoas em estado terminal. O primeiro dos arrependimentos é: “Muito me arrependo de não ter vivido a vida que eu queria viver, mas de ter vivido a vida que os outros esperavam que eu vivesse”.
Você se arrepende do quê?
Nossa! De tanta coisa. Eu faria muita coisa diferente. A primeira, teria sido mais cuidadoso com minha saúde. A outra, teria sido menos inseguro nas minhas relações. Esses dias, prestei atenção à letra Epitáfio, dos Titãs.
Diz assim “Devia ter amado mais/Ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/ Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito o que eu queria fazer...”
É linda e profunda essa letra...
Sim, e serve perfeitamente para mim nessa hora.
Nesse instante, meu amigo me abraçou, e algumas lágrimas inevitáveis desceram sobre minhas faces. Eu estava me redimindo de meus pecados.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Zumbi (Tiago Nascimento)
Nasci um e vivo outro
Morro a cada opção que faço
A cada mutação que passo
A cada escolha A cada passo
Transformado Reformado Outro
Nasci vivo e vivo morto
Um suicídio não previsto
Uma inequação Um rabisco
Quem sou eu? Ainda existo?
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
EM NOME DO SENHOR (Fernando Bastos)
Passei os melhores anos da minha vida acreditando em você, judeu. Seus sectários encheram-me a cabeça de pecados, e me diziam que eu só seria salvo se me entregasse a você. Agora, olha o que sobrou de mim. Cá estou, apodrecendo nessa prisão, pois acreditei que fazendo o que me pedia, eu teria paz.
Não tive.
Lembra quando um de seus prosélitos invadiu minha cama, naquele colégio de seminaristas, quando eu tinha 12 pra 13 anos? Aquele bosta me violentou, se apoderou de meu corpo frágil, partiu em cacos minha inocência. Por que o matei? Você mesmo disse que quem fizesse algum mal a uma dessas criancinhas, era melhor amarrar no pescoço a mó de um moinho e lançá-lo ao mar. Demorou dez anos para cumprir seu desejo, Mestre, mas cumpri. Eu não tinha uma pedra para amarrar no pescoço daquela infeliz criatura, mas não foi difícil conseguir uma faca de bom fio. Ah, como foi divertido passar-lhe a faca na jugular, e ver o chafariz de sangue espargir pra todos os lados, inclusive sobre minha cara; de felicidade, diga-se de passagem.
Foi tão doce matar minha primeira vítima, algo como um orgasmo depois de ter segurado o tesão até não aguentar mais. Os outros foram mais fáceis, e não tive nenhuma crise de consciência nos segundos precedentes ao ato. Não me olhe com essa cara, você não é o mesmo deus do Velho Testamento? Fiz o que me pedia. Deixa ver, Levítico capítulo 20, 13, “Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos serão mortos”. Não importava se um deles era meu irmão e o outro meu melhor amigo de infância, perfurei os dois sodomitas à bala, cortei-os em pedaços e... o resto você sabe. Engraçado que não tive nenhum mal estar, nenhuma congestão.
Agora, o que me deu mais prazer, foi liquidar com meu pai, aquele ateu filho da puta. Ele resistiu, não queria ir à igreja comigo, mas eu falei que se ele fosse e acreditasse em você, eu desistiria do sacerdócio. Aceitou. Foi tão bonito e incrivelmente emocionante vê-lo se ajoelhar ao meu lado! Mas infelizmente, ele disse que não ia se converter; foi seu grande erro. Antes que eu o atingisse com a pedra que eu trouxera na mochila, li em voz alta Lucas 19,26 pra ver se ele compreendia. “Aqueles que não me aceitarem como rei, trazei-os aqui e matai-os na minha presença”. Ele não esboçou nenhuma reação, quando me viu levantar a pedra com ambas as mãos; penso que seus olhos não acreditaram que eu pudesse fazer aquilo. Acertei-lhe o crânio com um golpe certeiro. O corpo ficou se debatendo como um epilético sobre o banco envernizado, e, para não ter dúvidas, dei-lhe mais umas dez golpeadas na cara. O sangue melou o banco e o piso da Matriz; seu rosto ficou uma massa pastosa de carne, sangue e ossos quebrados. Eu ainda olhava para meu pai agonizando, quando os policiais apareceram.
Agora, estou aqui, Senhor, nesse cubículo fétido, infestado de pulgas e baratas. Se você é Deus, sai dessa cruz, e repara todos os males que causou em mim.
terça-feira, 17 de julho de 2012
A queda (Fernando Bastos)
Chegaram ao Pronto Socorro antes da aurora. Ela, de camisola branca de algodão, com manchas roxas nos braços e coxas, e fortes dores nas costelas. Ele a esperou no pátio, fumando nervosamente alguns cigarros. Ela explicou ao médico de plantão que caíra no banheiro. Praguejou contra a labirintite.
Voltaram para casa e fizeram amor. Com cautela, por causa dos ferimentos.
No meio da semana, lá estava ela, na recepção do hospital. Dessa vez, um galo na cabeça. Na queda, batera no vaso sanitário. O noivo, lá fora, aguardava a amada, devorando um cigarro atrás do outro.
No mês seguinte, foram mais quatro idas ao hospital. Hematomas na bacia, pulso fora do lugar, seios doloridos, um olho roxo, resultado da batida contra o box do banheiro. O remédio contra labirintite parecia não resolver o problema da tontura. As últimas gotas de paciência do noivo precipitavam como coquetel molotov sobre a equipe de enfermagem. Foi preciso chamar um segurança para conter a fera. Responsabilizava o médico e dizia que procuraria outro hospital. Queria a saúde da amada de volta.
À noite, fizeram amor como se tivessem se conhecido há meia hora. Juras de amor eterno a fez se sentir a mais desejada das mulheres. No domingo foram à missa, caminharam no parque, lançaram migalhas de pão a um bando de pombos na pracinha. Ao observarem as crianças nos balanços e no escorregador, sonharam com um filho, que teria o nome do pai, e a beleza da mãe. Ela não precisaria mais trabalhar fora, pois ele não achava decoroso para uma mulher passar a madrugada atrás de um balcão. Ela sorriu, maneou a cabeça e disse que gostava daquele trabalho.
No fim do dia a ambulância chegou. Outra queda. Mas dessa vez não resistiu. Dos olhos da mãe, lágrimas rolavam com gosto de ausência. A enfermeira lamentou que os remédios para a labirintite não a ajudaram, e ficou sem chão ao saber pela mãe da jovem, que ela nunca sofrera de tal doença.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
O Quarto - Parte 1 (Kênia Cris)
As janelas fechadas o impediam de ver o movimento matinal do universo, no entanto, podia apostar que havia nuvens no céu. Apesar da moça da previsão do tempo ter dito o contrário na noite anterior, os cheiros trazidos pelo vento não deixavam dúvidas: a chuva não tardaria a limpar gente e coisas, encher barragens e regar plantações de prosperidade, inundar casas de pouca fortuna e fé. A julgar pelo silêncio absoluto o gato não estava em casa. Na certa fazia sua caminhada rotineira pelos telhados da vizinhança. Por que diabo não comprara um cachorro?
Nascido prematuro num parto deveras complicado, Tomas lutara muito para vir ao mundo e trinta e seis anos mais tarde sua vida se resumia em acordar às seis e meia todas as manhãs por um trabalho que ele detestava com todas as forças, alimentar o gato, pagar as contas, dar telefonemas, apertar mãos e se viver era só isso, então ele precisava fazer algo a respeito. Já estava decidido: não sairia da cama até provar-se peça de um quebra-cabeça divino, até sentir-se verdadeiramente necessário. Precisava com urgência de um pensamento feliz que o levasse a crer no ser humano, crer que havia uma chance de mudança, que havia sentido em abrir os olhos e levantar-se pela manhã, que existia esperança. Vivera até aquela manhã como um pássaro manso numa gaiola apertada, mas agora tinha um plano de fuga.
Há meses planejara esse momento e mal podia se conter tão satisfeito estava por ter resistido ao nervosismo e seus efeitos colaterais para iniciar seu novo projeto. Quanto tempo suportaria sem água ou comida, retardando ao máximo suas necessidades biológicas? Teria vontades? Desobedeceria as ordens dadas ao corpo quando fosse tomado pela agonia seca?
Deveria ter atendido a ligação da moça da casa funerária - ao menos teria serviços fúnebres de excelente qualidade, caso precisasse. A idéia de ter pagado um seguro de vida durante oito anos agora lhe parecida estúpida. Quem ficaria com todo aquele dinheiro? A irmã? Imaginava como estariam as coisas em... Como era mesmo o nome? Na fazia muita diferença, ela não compareceria nem mesmo à leitura do testamento, se houvesse um.
Poderia ter um final digno de grandes reis medievais se pelo menos pudesse chegar à cozinha, ligar o gás, acender um último cigarro e esperar - o plano perfeito já que não tinha um mordomo para culpar. Talvez conseguisse se safar do inferno. "Uma fatalidade", concluiriam os bombeiros. "Ainda ontem estive com ele", "Parecia tão sereno", diriam alguns vizinhos.
Ouvira desde a infância que o avo morrera dormindo, mas naquele momento tinhas grandes dúvidas disso. Só pelo fato de terem-no encontrado na cama não significava que dormia quando o barqueiro o avistou. Não reagiu ao beijo de bom dia dado pela esposa todas as manhãs por cinqüenta e seis anos, não se levantou aos som dos pássaros. Mas isso não quer dizer que dormia quando a alma deixou para trás o velho corpo cansado. Talvez tivesse sido acordado no meio da madrugada por um sonho ruim, talvez tivesse passado a noite em claro num acesso de insônia, revivendo as poucas lembranças que a cabeça ainda lhe permitia guardar, olhando ali ao seu lado a mulher que amava mais do que qualquer outra coisa na vida e imaginando em que sorte de sonhos sua mente estaria mergulhada. Provavelmente não sabia que não chegaria a ver a manhã seguinte.
Tomas odiava velórios e toda a ladainha sobre o último adeus. Se pudesse de alguma forma voltar logo após a morte, tentaria desaparecer com o próprio corpo para evitar de tirar os poucos amigos de suas atividades diárias e incomodá-los com o dever de comparecer ao seu velório. Com tanto barulho, poluição violência e engarrafamentos nas grandes cidades, alguns poderiam dizer que a morte de um amigo ou parente representava uma pausa valiosa para qualquer cidadão urbano, uma oportunidade de refletir sobre suas ações e reações diante dos obstáculos preparados pela vida. Afinal, havia aqueles que aproveitavam a morte de entes queridos para iniciar uma verdadeira (ou falsa) reflexão sobre a vida e a morte - filósofos de fim de semana. Podia-se ouvi-los dizendo "é rapaz, pra morrer basta estar vivo", "o que é homem, veja bem. Nós não valemos nada". Pensando em seu círculo de relacionamentos, haveria alguém lá para despejar tais bobagens nos ouvidos dos outros, se houvesse mesmo um corpo a ser velado. Mas o que aconteceria se o corpo nunca fosse encontrado? Quem desconfiaria de sua morte? Quem o procuraria em casa?
O carteiro sempre tinha algo para ele, perceberia o estranho acúmulo de cartas na caixa de correio, seria o primeiro a notar sua ausência. Ora, mas que bobagem, o serviço postal já tinha trabalho suficiente para se ocupar da vigilância e monitoramento dos destinatários das cartas. Mudou-se, desconhecido, recusado, falecido, ausente entre outras opções davam o recado. Reclamava incisivamente da falta de privacidade da vida em edifícios mas agora pensava se não deveria mesmo ter ficado com aquele apartamento com vizinhos que olham pela janela, vizinhos que pedem coisas emprestadas o tempo todo, um porteiro simpático e curioso que controla a correspondência e a vida de todo o edifício, um sindico chato e disciplinador que insiste para que 'os senhores moradores não subam com os cachorros pelo elevador social' - as maravilhas da vida em condomínios perdidas para sempre.
Por que escolhera um gato? Rex, o melhor amigo do homem, faria barulho e chamaria a atenção de alguém, mas Bichano, o gato inútil... Onde estaria até agora?
quarta-feira, 25 de abril de 2012
De tanta pena que dá (Vana Comissoli)
Não pediu, mas o garçom colocou à sua frente uísque com gelo e uma garrafa de água mineral. Não levantou os olhos, mas sabia que Ronaldo, o dono da boate, estaria controlando a quantidade de bebida no copo. O trato era muita água, pouco álcool. Mulher com bafo não está com nada, a casa é de bem, recebe homens de nível.
Josias, o garçom, voltou ao balcão, encostando-se e dispôs-se a observá-la: a pele de cor brasileira com olheiras lembrando lagos roxo sob os olhos não combinam com o vestido verde brilhante que lhe deixa metade das coxas à mostra.
Do jeito que está sentada, se fizer a volta, pegando-a pela frente, Josias enxergará o entre-pernas. Diz um colega que ela não usa calcinhas e não se importa em mostrar tudo. É sacana a Marise, faz isso, mas não dá para qualquer um, só pagando. Para eles, colegas de trabalho, não dá nem pagando. Por que mostra então?
A bolsinha de alça comprida foi aberta e um maço de cigarros longos e finos apareceu. É uma bolsa dourada, de malha metálica, cabe o cigarro, o isqueiro e a chave solta. Algumas camisinhas apertam-se no fundo.
As sandálias, também douradas, revelam as unhas dos artelhos coloridas de vermelho escuro. Tem uma correntinha em volta do tornozelo. Josias fixa os olhos na corrente reconhecendo que o enfeite é um tesão. Será que gosta de masoquismo, essa daí? Sorri, antecipando em sonhos o que jamais terá coragem de fazer.
Os cabelos crespos estão presos por um pente espanholado numa volta caprichosa e a orelha exposta tem uma argola de falso ouro. É um mulherão e que bunda tem! Josias coça os bagos disfarçadamente, graças a Deus não chegou nenhum cliente para as mesas que serve.
Marise acende o cigarro.
“Porra de noite, não estou nem um pouco a fim. Ronaldo desgraçado, não dá folga e vem com história de descontar falta. Ainda esfrego uma sífilis na cara dele de tanto usar a coisa.”
Sopra a fumaça para o alto, como viu no filme “Gilda”. Era um filme muito velho que assistira por acaso na TV, num vício de ligá-la mal entrasse no apartamento. Gostavam de passar esses filmes nas madrugadas,os insones assistiam qualquer coisa que assemelhasse companhia.
Rita Hayworth cantava languidamente e apaixonava todos os homens da casa noturna, quando ela se dispunha a desligar o aparelho. Ligou-se na cena e foi até o fim, Gilda era uma figura e tanto, caía como luva no tipo físico dela.
No dia seguinte comprou pentes e passadores para prender um lado do cabelo, cortou-os pouco abaixo dos ombros. Pouco a pouco, na medida da lembrança, copiou os vestidos da personagem,sabia que não eram muito modernos, mas a sensualidade da figura seduzia. Seu trabalho também não era muito moderno.
Levanta a mão e faz um sinal para que Josias se aproxime. Deixa a voz soar alta quando pede outra dose, hoje pagará, está de folga, resolve neste instante.
O garçom relanceou os olhos para o patrão, fazer o quê? A diaba ainda passa a língua nos lábios vermelhos. Ronaldo afasta-se de seu posto e vem em direção a eles, o pescoço impulsionando a cabeça para frente como um aríete.
− O que está acontecendo aqui? Motim?
− Não Ro, − a voz de Marise é ondulante, os olhos se rasgam numa demorada vistoria da abertura da calça do homem − estou nas regras. Hoje sou cliente.
Ninguém resiste à Gilda.
Ronaldo passa a mão nos cabelos, relanceia os olhos pela casa vazia nessa terça-feira de bosta e volta para seu lugar grunhindo :
− Está bem, melhor dinheiro de puta que dinheiro nenhum.
Josias enche o copo deixando o “choro” da bebida alongar. Marise sorri e passa, de leve, a unha pelas costas da mão dele,a garrafa dá uma pequena tremida e alguns pingos de uísque molham a mesa.
− Desculpe. Já limpo. −A voz do garçom é hesitante.
Marise sorri como uma lambida, sem revelar a constatação: Josias é um bolha. Bonzinho bobão. Faz uma semana que começou a trabalhar na casa, tem um ar perdido e um titubear ocupa a boca. A camisa levemente encardida escorrega as mangas para fora do paletó escovado,de cinco em cinco minutos, ajeita a gravata borboleta teimosa em voar de lado no seu colarinho. Um perfeito panaca.
A música resvala nas cadeiras vazias,um e outro cliente entra. Poucos casais escondem-se nas mesas de canto. Duas moças chegam juntas e sentam-se separadas.
Marise fecha a cara quando um sujeito grande fixa nela olhos de convite. Já estipulou o feriado,nem sabe como Ronaldo concordou tão fácil. Toma três doses seguidas, até um torpor amortecer os lábios.“Agora vai devagar”, completa o copo com água mineral.
Josias acompanha os gestos da mulher, de todas é a preferida, transpira certa ausência que dá vontade de preencher, parece obrigada a estar ali. Vê quando se levanta um pouco vacilante e dirige-se ao banheiro carregando a bolsinha dourada,vai retocar o batom com certeza. Pena estar nos dias, não adianta ficar na frente da cadeira, estará de calcinha hoje. Melhor olhar assim, de revés, pode vigiar seus movimentos e enxergar a bunda fugindo da cadeira.
A porta do banheiro fecha-se atrás dela. Respira fundo. Fixa o espelho que toma conta de toda a parede em cima da pia. Já foi casa fina até sair de moda.
Retoca o batom, empoa o rosto e espirra perfume adocicado embaixo do cabelo. Têm guardadas, numa das gavetas do armário embaixo da pia, essas ferramentas. As moças do lugar são proprietárias de gavetas. Ronaldo faz questão da aparência: mercadoria empoeirada e desleixada não vende bem.
Levanta o vestido, senta no vaso. Ri satisfeita. O barulho da urina cachoeirando.
Abre novamente a gaveta e tira um pequeno embrulho de papel branco, observa com ar entendido o pó que contém. A pedra da pia serve. Enfileira e aspira tapando uma das narinas,fecha os olhos, volta a sorrir. A vida é boa. Talvez saia dali e encontre um cara gostoso de levar para cama. Trepar é o melhor da vida.
− Demora no banheiro. Será que passa mal? − Josias preocupa-se, ela parecia tão solitária,essas mulheres são infelizes. Quem pode ser feliz nessa vida? Desgraçada falta de dinheiro, a gente vende a alma por causa dele. Elas também.
Afinal Marise sai. Um sorriso parado, doído de se ver perturba o rosto.
Os pensamentos correm dentro de Josias. − Tirar a moça daqui... Quem sabe um dia? Garanto que gostaria. – Um nojo, toma conta dele, o mesmo que sentia quando pequeno e a mãe o levava para beijar o Senhor morto na sexta-feira da paixão.
Ronaldo observa Marise voltando para mesa.
“A filha da puta já se chapou. Qualquer dia terei que carregar a vaca para um hospital. Hoje não me meto,está de folga. Ai que tente fazer em dia de trabalho, ponho porta a fora.”
Gosta da Marise, é chamativa, bonitona mesmo,não é novinha, não tem chiliques,faz das suas sem escândalo. Entrou na profissão com consciência, não choraminga fingindo que é obrigada. Nunca se deitou com ele,não faz mal, é até melhor. As outras, enquanto não conseguem não sossegam, depois enchem o saco imaginando que são patroas só porque deram o rabo.
Já é bem tarde. Marise vê Josias olhando para ela. Podia levá-lo para casa, brincar um pouquinho,chama-o com o dedo. Antes se apruma na cadeira, deixando, no entanto, os ombros caírem e os olhos se fecharem num traço melancólico.
Ele se aproxima. Ela está tão triste. Vida desgraçada!
− Josias, preciso ir, não me sinto bem. Será que podes me acompanhar?
O pedido pega-o de surpresa. Ele, o privilegiado? O peito enche-se de expectativa.Passou a mão nos cabelos que caíam sobre a testa, alisou a boca, pena ter raspado o bigode.
− Será uma honra, saio em meia hora. Podes contar comigo.
− Logo vi, Jô, logo vi. - A mão dela é macia, acarinha a dele.
Ronaldo sacode a cabeça. Marise é danada, quem olha para ela agora morre de pena,mas ele sabe: vai brincar com o rapaz. Faz um sinal safado para ela que responde num olhar de volteio.
O apartamento é um conjugado exíguo, mas está limpo. Um sofá cama embaixo da janela, onde a cortina listada de azul e laranja balança à brisa da madrugada. Uma pequena mesa,um vaso de flores artificiais centra-se nela. A cozinha é a pia com fogão de duas bocas em cima. Sobre ele um armário de portas de vidro guarda louças de desenhos azuis: dois ou três pratos, duas xícaras, alguns copos, uma garrafa de uísque. Fora isso apenas a porta do banheiro.
Uma prateleira com os mais variados enfeites. Um surpreendente quadro a óleo: o nu de uma negra de seios avantajados e boca à Di Cavalcanti.
Josias senta-se. Veste camiseta de propaganda e calça de brim que deixou a cor nas muitas lavadas que sofreu.
− Toma café, Jô?
Ele adora essa mania dela de abreviar os nomes,gostava de vê-la chamar o patrão de Ro, nunca pensou que pudesse merecer essa consideração.
− Café seria bom. - Responde indireto.
Ela desencava uma cafeteira elétrica e logo o cheiro do café passando mistura-se ao perfume doce que impregna tudo
- Tu és caprichosa, tua casa cheira bem.
- Limpo toda semana e depois ponho perfume num tubo de desodorante e borrifo.
- É do jeito que eu imaginava.
Marise sacode os ombros faceira,se fosse diferente ele também gostaria. Ela sabe disso. Estão sentados lado a lado, ele se apaixona aos poucos, ou já chegou apaixonado? O leve cheiro de suor saindo dela dá vontade de pegá-la no colo,mergulhar a cabeça nos seus cabelos. Tinha razão o Roberto Carlos em cantar os caracóis de seus cabelos.Cantarola.
Marise revira os olhos colocando as mãos no coração e sacudindo o corpo no compasso. Daqui a pouco ele atacará de bolero, aposto comigo um brilho da pesada,pensa começando a impacientar-se. O que mais incomoda é ter perdido a vontade de trepar,o desgraçado parece que vai quebrar-se. Como é branco, chega a dar aflição. Do fundo das lembranças, a figura de um cãozinho sarnento, volta.
“Pobrezinho do Lelé, está doente, ficar vivo é só para sofrer”. Ouviu durante alguns dias, depois o Lelé sumiu. De noite, um resto de conversa, entre as tias:
−...é de tanta pena que dá. Pobre Lelé.
-Sabe, Marise, entendo que precises fazer essa vida. A sobrevivência está barra,pra mulher é ainda mais difícil. Vou te salvar dessa miséria,não é por pena, gosto de ti de verdade.
Era só o que me faltava, ela pensa enquanto espanta a figura do cachorro.Com olhos baixos, puxa a barra da saia em direção aos joelhos,joga longe as sandálias douradas. Os brincos já estão abandonados sobre a mesinha.
− O doido é salvador dos pobres e oprimidos. − Dá uma fungada e esfrega os olhos, desacomoda-se, o sofá apequenou-se.
Josias ajoelha-se na frente da mulher. Pega suas mãos.
-Por favor, não chores, não aguento te ver sofrer.
Por um instante, ela o vê. A testa lisa, desprevenida, os olhos redondos de cachorrinho, as mãos que tremem e suam segurando as suas. Suam como o focinho do Lelé quando lambia as mãos dela,o acariciava escondido porque sarna pega em gente. Fragilidade também pega?
- É verdade, Jô, dá pena mesmo. -Um suspiro acompanha a afirmativa.
Josias sorri, ela se entrega,qualquer um pode ver. É a noite mais importante de sua vida.
- Amanhã avisamos o Ronaldo que não irás mais.
Marise não acredita no que está ouvindo. Será que não percebe o brinquedo? Será que ainda existe brinquedo? Este estupor que sente no peito é de mentira também?
Envolve a cabeça do rapaz,ele deita em seu peito. A mulher sente-lhe o latejar das têmporas. Josias a beija no colo, um beijo de lábios fechados,em seguida levanta os olhos brilhantes de umidade.
Que posso fazer, pensa Marise, enchendo-se de quase remorso. Deito-me com ele? Faço qualquer coisa para fechar esses olhos,dói na gente uma criatura assim desprevenida.
−Minha querida, te comprarei vestido de noiva e teremos lua-de-mel.
Marise pega seu rosto entre as mãos e beija-lhe a boca, a língua desbravadora abrindo os dentes a mão encaminha-se para o sexo que encontra murcho.
- Não é hora ainda, amor. Vamos casar, saberei te respeitar.
A voz de Josias é como um acalanto e fere. Ela se levanta, procura com avidez o pó branco libertador, arruma uma carreira sobre o tampo da mesa. Lá fora começa a amanhecer. A gosma cinzenta da manhã custa a penetrar o breu da noite.Aspira a cocaína. Mais uma dose que o momento exige.
- Que estás fazendo, querida?
-Me drogo, Jô. Não sabias?
- Não te culpes, é a vida miserável. Disso também te libertarei.
- Tu não existes, Jô. - Marise se lembra de filmes da madrugada, espichados e melosos.
- Existo prá ti.
- Vem até a janela, olha o dia, a cidade, junto comigo. − Abre a cortina e debruça-se no parapeito ajoelhada sobre o sofá. Ele a segue, coloca o braço sobre seus ombros.
- Que vês lá embaixo, Jô? - A voz dela está ansiosa,deseja que responda que vê uma cidade prestes a despertar enquanto quer dormir, o sol machuca os olhos e a luz cansa.
-Vejo nosso futuro onde viveremos felizes. - A voz cintila.
- Isso não é possível. As pessoas são cruéis,tudo é cruel. Somos puros demais para elas. Melhor que casar,Jô, que é uma situação que se acaba, é morrer juntos. É o casamento eterno. - Tropeça um pouco nas palavras, arrastando o ridículo da situação.
- Não fales assim! Juntos mudaremos tudo. - Josias abraça-a com sofreguidão, tapa-lhe os olhos numa tentativa de fazê-la enxergar o que ele vê.
- Por favor, meu querido, - ela beija-lhe os lábios - tu disseste que me amas. Farias qualquer coisa por mim?
Josias sacode afirmativamente a cabeça, acarinhando o rosto onde a maquiagem já derreteu e pequenas rugas aparecem acusativas. O cabelo de Gilda revela-se fosco e desbotado.
- Vamos morrer juntos. Eu te suplico.
Ele estremece. Estou ouvindo direito? Ela realmente está dando sua vida para mim?
-Tu e eu?
Marise sacode a cabeça numa afirmação. Fica em pé no sofá, ele a segue.
- Espera, quero morrer bonita.
Vai para o banheiro e refaz a maquiagem. Ele espia enquanto pentea o cabelo com as mãos, estica a camiseta. Ela pede licença, fecha a porta.
Ergue os olhos para um velho crucifixo escondido atrás da porta,coisa de se ver em hora de aflição. O homem pregado nele desperta uma pena danada. Será que foi de pena que fizeram esta ferida nas costelas? Devia estar sofrendo muito, o pobrezinho. Cheira de novo. Sai revigorada.
Voltam ao sofá de mãos dadas, ficam em pé no assento, beijam-se e olham a rua. O sol é uma bola vermelha. Prenúncio. As nuvens amortecendo a cor refletida no topo dos prédios, reverberando tons nos cabelos de Marise. A madrugada cedeu espaço para a glória.
Ela sobe no peitoril da janela. Ele também.
- Larga minha mão, Jô. Quero que nossas mãos se encontrem em pleno vôo e precisamos rezar para que nossas almas não se percam.
- Eu preferiria que fôssemos de mãos dadas.
O tom é levemente choroso.
- Estarei contigo. Não tenhas medo porque eu não tenho. Vai!
Os braços de Marise são de aço e o corpo magro dele não demora a desequilibrar-se. Ela consegue ver os olhos de surpresa e aceitação antes que o corpo dê uma volta sobre si mesmo e inicie a queda vertiginosa, as mãos agarrando-se no ar, na luz já amarelando.
Marise desce da janela, acompanha o balé desordenado de Josias. Por fim fecha os vidros e corre as cortinas. Prepara outra carreira de pó.
− Tanta pena que dá!
Aspira.
Vana Comissoli
terça-feira, 17 de abril de 2012
Epitáfio (Marcelo Lamas)
Eu tinha um contrato apalavrado com a velha, que me liberou do compromisso, pois, logo que começaram a morrer os amigos e parentes contemporâneos, ela passou a tocar no assunto: qualquer hora chegaria a vez dela; da turma do colégio só tinha sobrado ela; e dos fundadores do clube de futebol, ela era a única com vida.
Foi numa visita aqui em SC que conversamos sobre o caso. Perguntei se ela fazia questão que eu estivesse na cerimônia, argumentei que o importante era estar por perto quando a pessoa estivesse viva e que eu, modéstia à parte, nunca me furtara de acompanhá-la nas viagens a trabalho, pois ela vendia roupas à domicílio em lugares remotos. Também fui o seu par em eventos sociais, que não eram poucos. Perdi a conta das vezes que fui o motorista para levá-la para tomar café com as amigas ou que fui buscar as mesmas amigas para tomar café com ela. A minha irmã me substituiu nesta tarefa quando mudei de cidade. E desde sempre, a avó Alice contou com o primo Wellington, este sim, guerreiro, que era o seu acompanhante oficial em eventos fúnebres, conhecesse ele o defunto ou não.
Com bom humor costumeiro, minha avó dizia que levantaria do caixão para me defender, caso alguém cobrasse a minha presença na sua hora final. A propósito, toda vez que eu lhe mostrava alguma novidade ela dizia: “Morrendo e aprendendo”. Até hoje não sei se ela havia entendido mal o provérbio ou se era um trocadilho proposital, por causa das suas nove décadas.
Numa palestra, o biógrafo Ruy Castro comentou que no dia seguinte da morte do Tom Jobim, uma editora americana entrou em contato para contratá-lo. Ele negou o serviço, pois, segundo ele, logo depois de morto qualquer um vira perfeito por um tempo e o biografado ideal é aquele que morreu há pelo menos dez anos, o que seria tempo suficiente para aparecerem todas as histórias que ainda não eram públicas, boas e ruins.
Quando eu morrer não quero velório. Não quero que amigos, parentes, conhecidos e inimigos cruzem histórias e que possíveis verdades e segredos sejam revelados a poucos metros de mim, sem que eu possa inventar uma desculpa.
Só peço que a poesia de Mario Quintana seja escrita e identificada na lápide: "Essa vida é uma estranha hospedaria, De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas, E a nossa conta nunca está em dia..."
Por Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com
segunda-feira, 9 de abril de 2012
A voz que se calou (Sônia Pillon)
Mas não foi só por isso que a cidade acordou com dor. Uma voz tão conhecida e admirada estava prestes a se silenciar. Como um pássaro ferido, cansado de se debater, aquela locutora de voz e carisma inigualáveis estava finalmente depondo suas armas, depois de cinco anos de luta contra uma doença feroz e traiçoeira. “Ela cansou”, confidenciou um colega de emissora e amigo de longa data, incorformado.
À tarde, a notícia de que a estrela de voz sexy e afetuosa não estava mais entre nós se espalhou como pólvora. Ninguém queria acreditar! “Uma mulher tão jovem! Como isso foi acontecer?!”, questionavam, perplexos. Logo vinha à mente a alegria contagiante que ela emanava pelas ondas do rádio, que conquistou tantos fãs!
Mas não somente no trabalho ela era assim. Nos eventos sociais, como apresentadora ou mestre de cerimônias, ou mesmo nos encontros da imprensa, ela sempre “chegava chegando”, simpática e elegante, elevando o astral do ambiente e se tornando o centro das atenções. Sempre com um sorriso de otimismo, ela exalava vitalidade. Verdadeira, era do tipo que se jogava de corpo e alma em tudo o que fazia, com genuína paixão.
Lembro dela em diversos momentos nos últimos anos, com as alterações físicas provocadas pelo tratamento, as perucas que costumava usar, e até tirar, com total despojamento e naturalidade, quando se sentia incomodada pelo calor provocado no couro cabeludo...
Na última vez que a vi, há cerca de um mês (nunca vou esquecer!), ela estava assistindo uma solenidade empresarial, sorridente, os olhos brilhantes, olhando para todos com ar de felicidade, como se dissesse: “Olhem, estou aqui novamente, feliz e repleta de esperança!”. E hoje agradeço a iniciativa de ter ido cumprimentá-la pelo que, naquele momento, acreditava ter sido a sua vitória contra doença...
Mas pouco tempo depois, seu corpo frágil não resistiria a mais um revés. Como toda guerreira que se preze, mais uma vez ela lutou e lutou, até que o Universo a chamou e a tirou de nós...
Sim! A sexta-feira amanheceu coberta de angústia na cidade que não pode parar! A partida dela está doendo em todos nós, que a conhecemos e a admiramos no período em que esteve aqui. Como o Cometa Halley, você passou pela Vida e deixou um rastro luminoso. Você, Fabiana Machado, ficará para sempre na nossa lembrança e nos nossos corações!
• Tributo à radialista e locutora Fabiana Machado, que morreu aos 37 anos em 6 de abril de 2012, vítima de câncer, em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, Brasil.
Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC), Brasil.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Envelhecimento precoce (Tiago Nascimento)
Quedo-me olhando a lua
Não sou já tão moço, a emoção não vem mais
Aos 23 tudo envelhece
A morte passa a ser inevitável.
Adiar; um dia a mais, que diferença isso faz?
Tiago Nascimento, jesuscristohumano@gmail.com
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Seres Humanos (Tiago Nascimento)
Já sorri, engatinha, Já grunhe, balbucia
Já anda, Já morde, Já fala, Já corre
Já brinca, De bola, Já brinca, Lá fora
Já sabe mentir e amor sentir.
Já estuda, Já aprende
Já lê, escreve E entende
Já telespecta, Já namora
Mas o que gosta mais: jogar bola.
Já sabe sentir amor, mas prefere mentir.
Já mente, Já enrola, Já foge Da escola
Já procura liberdade, Não corta o cabelo
Já ouve Rock E demora no chuveiro
Já fuma, Já bebe E palavrões Escreve
Já se alista E trabalha E como adulto Fala.
Se sente amor, não sabe fingir.
Já namora, Se casa E quer Casa
Já trabalha Na fábrica E acha a vida: Muito lógica
Já é pai, Já educa, Se estressa, Machuca
É duro, É forte, Tem medo Da morte
Já comprou Um carro E mudou De trabalho
Já briga Com a esposa, E bebe -Que coisa!
Já casa Os filhos E anda Nos trilhos.
Já se aposenta Já para E nos “findis” Embaralha
Já reclama Da política, Sente medo De polícia
Ainda sabe mentir, mas prefere não mais iludir... ninguém.
Já tem riffs De nostalgia, É avô, Sofre de embolia
Já de muitos males Outros adoece
Já logo porém Reestabelece-se
Só observa A vida E manera A bebida
Já usa Peruca E caduca -Velho biruta!
Já adoece, Já morre, E no céu a Divindade o acolhe.
Já não pode fingir nem tampouco amor sentir.
Já conheceu Deus e pediu pra voltar
Pros seus Pro lado de cá.
Então nasce outra vez E chora de novo
Já mama outra vez, Já olha de novo
Já sorri outra vez, Já engatinha de novo
Já grunhe outra vez, Já balbucia de novo
Já anda outra vez, Já morde de novo
Já fala outra vez, Já corre de novo
Já brinca outra vez, De bola, de novo
Já brinca outra vez, Lá fora de novo
Já sabe mentir e amor sentir mais uma vez.
Já estuda outra vez E aprende de novo
Já lê, escreve outra vez E entende de novo
Já telespecta outra vez Já namora de novo
Mas ainda gosta mais De jogar bola... no play 2.
Já sabe sentir amor, mas prefere mentir mais uma vez.
Já mente de novo E enrola outra vez
Já foge de novo, Da escola outra vez
Já procura liberdade de novo, Não corta o cabelo outra vez
Mas não existem bons Rocks dessa vez...
Ainda se demora no chuveiro outra vez
Fuma maconha agora, E bebe outra vez
E palavrões novamente Escreve outra vez
Já se alista de novo E trabalha outra vez
E como adulto de novo Fala outra vez.
Novamente se estiver a sentir amor, não saberá fingir.
Já namora novamente, Já casa outra vez
E quer como sempre: Casa outra vez
Já trabalha novamente, Noutra fábrica dessa vez
E acha a vida novamente Muito lógica outra vez
Já é pai de novo, Já educa outra vez
Se estressa como sempre, Machucando os seus
E é duro novamente Sendo forte outra vez
Tem medo somente De morrer sem poder
Comprar novamente Um carro. Que belez...a.
Já mudou novamente De emprego outra vez
E briga de novo Com a esposa e as outras três
E bebe novamente - Que coisa! Outra vez?
Já vai casar novamente outros filhos dessa vez
E anda sorridente Nos trilhos outra vez
Já se aposenta novamente Parando aos 53
E nos feriados geralmente Joga damas ou xadrez
Já reclama novamente: De política, mais uma vez
E seu medo premente: Ficar demente de vez
Continua ainda sabendo mentir, mas prefere não iludir... ninguém.
Sofre crises de choro Por ser idoso outra vez
Então de novo vira avô E novos netos amenizam a viuvez
De muitos males novamente Outras vezes adoece
Já logo, porém, de novo, Tudo passa, se reestabelece.
Já usa mais de uma vez Pílulas azuis pro dormente
E caduca de vez. - Velho biruta! E indecente.
Não adoece de novo Mas morre outra vez
Pro túmulo vai seu corpo Mas sua alma, meu Deus!
Já não nasce outra vez
Nem chora, mama, olha ou sorri
Não engatinha, não morde
Não fala ou corre
Não brinca de bola ou re-brinca lá fora.
Não soube viver, melhor nem renascer.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
O Beijo (Tiago Nascimento)
parece tão grande o apartamento
me sinto abandonado pelo tempo
que teima em passar, sem parar.
Lembro
dos sonhos todos que sonhamos
coisas que juntos planejamos,
mas que ficaram para trás.
Agora
só a solidão me abre os braços
me acolhendo num abraço
do qual não consigo escapar.
Até sei
que a vida ainda continua,
mas sem a presença tua
falta vontade pra viver.
O beijo amargo do sisudo ceifeiro
me arrastará de corpo inteiro
até onde tu estás.
O contato frio desses lábios;
se existe um céu e um inferno
aonde pode me levar?
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Hipocondria (Inacio Carreira)
“Dar nome a uma doença é apressar-lhe os avanços."
Stendhal
Seu pai sempre contava para todos, não sem uma ponta de orgulho, que o primeiro remédio que o filho tomou na vida foi o ácido acetilsalicílico. Talvez por ignorância, talvez por poder, com seu dinheiro suado, ajudar a manter a saúde do rebento, que quase arrebentou a mãe quando nasceu. O que pode, muito bem, ter sido o “pomo da discórdia” entre o casal, que seguiu se alfinetando pelos quase 50 anos que viveram juntos, antes que Tânatos os reunisse num longo sono: cada qual a seu tempo foi dormir, como se acostumaram em vida, talvez um tentando evitar a presença do outro.
Uma das primeiras músicas que chamou sua atenção, diferente das cantigas de roda, das marchinhas de carnaval, das paradas de sucesso extemporâneas, das danças da garrafa e outros tchans foi “O pulso”, de Arnaldo Antunes, ainda no tempo dos Titãs.
“O pulso ainda pulsa / O pulso ainda pulsa...”
A mãe, leitora anual do almanaque O Pensamento, preocupada com a saúde, sua e do rebento, que agora então arrebentava as roupas com o rápido crescimento, arrebentava os chinelos, tamancos, sapatos, parecia o Pé Grande (aliás, apelido que ganhou na rua, fazendo-o ficar irado e chorar como um bezerro desmamado, atrás da porta, porque “homem não chora”), saía vez em quando com pérolas como “O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito” (Émile Zola); “A medicina fez, desde há um século, progressos sem parar, inventando aos milhares doenças novas” (Louis Scutenaire) e “Uma grande invenção para humanidade não é criar vacinas ou descobrir curas de doenças termináveis, mas sim, acabar com a ignorância” (Andre Rachel): sabe como é, filosofia de almanaque, literalmente.
“Peste bubônica / Câncer, pneumonia / Raiva, rubéola / Tuberculose e anemia /”
Mas fez, essa filosofia, o jovem rebento arrebentado (caía muito, estava sempre com os joelhos esfolados, parece que excesso de falta de coordenação motora) pensar, cada vez mais, na preservação da vida. Na contrariedade que as doenças causavam. Nas dificuldades advindas de procurar médicos, hospitais, pronto-socorros, injeções, pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, linimentos... E o paradoxo: tem que comer bem para ter saúde, tem que evacuar bem para ter saúde. Mas uma atividade não é o oposto da outra? Se o alimento custa caro, dá trabalho para o preparo, exige mil e uma operações porque, depois, num abrir de nádegas, despejar tudo – ou quase?
“Rancor, cisticercose / Caxumba, difteria / Encefalite, faringite/ Gripe e leucemia...”
Adolescente, ainda acompanhado por seus fantasmas, começou a pedir para a mãe que desse remédio para dormir. O mesmo que ela tomava quando o marido ainda não tinha chegado a casa e ela queria, quando de sua chegada, que a visse dormindo o “sono da morte”.
“E o pulso ainda pulsa / E o pulso ainda pulsa”
Não, onde já se viu um pirralho como você já viciando em remédio? Toma essa maracugina, que o homem da farmácia disse que não tem problema... Estava ele preocupado com vício? Queria era dormir sem lembrar o avô, morto ano passado; das péssimas notas no curso médio (que não estavam na média); das dúvidas sobre as poluções noturnas (ainda não as sabia com esse nome); das ereções na condução, quando lotada... Depois, em casa, o velho jogo do cinco contra um, quando resolvia suas crises existenciais à mão, no horário que devia estar preparando a lição de casa.
“Hepatite, escarlatina / Estupidez, paralisia / Toxoplasmose, sarampo / Esquizofrenia”
Quando, aos 16, começou a trabalhar, estafeta num hotel duas estrelas, sentia dor nas pernas de tanto corre-corre. Às vezes, acompanhada de dor de cabeça. Ou dor nos pés, pelos longos períodos que passava sem sentar-se. A moça da copa arrumava um comprimidinho, que ele completava assaltando a farmacinha da mãe, quando chegava à casa. Para escapar da dor de corno, pior que a de cabeça, dá-lhe analgésico. Desenvolvera tolerância medicamentosa à substância e, em vez de um, tomava dois, três comprimidos, dependendo se aquela que pensava ser a pior dor do mundo fosse acompanhada da não menos famosa “dor de cotovelo”, ambas sem referência na farmacopeia internacional.
“Úlcera, trombose / Coqueluche, hipocondria / Sífilis, ciúmes / Asma, cleptomania...”
Aos 18 anos, primeiro emprego sério após a dispensa do serviço militar, quando entrou no centro de educação de jovens e adultos para complementar o estudo médio e, quem sabe, candidatar-se a uma vaga no curso superior (teria que pagar, pois não tinha a sorte de ser diferente, era o mais comum dos comuns dos jovens. Nada que o colocasse na lista das benesses do governo populista, mais preocupado com perpetuar-se no poder do que em fomentar a educação).
“E o corpo ainda é pouco / E o corpo ainda é pouco / Assim...”
Com o salário, embora pouco, não tendo que dar quase nada em casa (o pai continuava com o mesmo orgulho idiota de quase duas décadas antes: ser o provedor da família), abriu uma conta na farmácia da esquina. Ficou o melhor freguês, bajulado pelo farmacêutico de plantão e as mocinhas, solícitas, sempre oferecendo o melhor antiácido, o lançamento em supositórios e suas várias utilidades (analgésicos, antiasmáticos, antieméticos, antigripais, anti-reumáticos, broncolíticos, cardiovasculares, espasmolíticos, estomacais, expectorantes, laxantes, psicotrópicos, sedantes e urológicos, entre outras). Tônicos para aperitivo (abrir o apetite) e hepáticos (para facilitar a digestão), vitaminas B, C, D..., enfim, todo o alfabeto latino, às vezes incluindo o cirílico, conforme a necessidade.
“Reumatismo, raquitismo / Cistite, disritmia / Hérnia, pediculose / Tétano, hipocrisia /”
Daí a comprar por atacado (quase levando à falência a antiga farmacinha da esquina, que agora parecia um shopping “da saúde”, o que fez com que os farmacêuticos, os estagiários em farmácia, as mocinhas do balcão e os moços da reposição do estoque, antes seus melhores amigos, virassem o rosto à sua passagem, na iminência de perderem o emprego) foi um pulo.
“Brucelose, febre tifóide / Arteriosclerose, miopia / Catapora, culpa, cárie / Câimbra, lepra, afasia...”
Foi quando o patrão, preocupado (ele, afinal, era um bom funcionário, salvo as idas constantes ao bebedouro, para ajudar a engolir o comprimido, ou diluir o extrato) pediu que ele procurasse ajuda profissional, psicólogo ou psiquiatra, pois ele deveria ser hipocondríaco. Hipo o quê? H i p o c o n d r í a c o, cara... Estado mental em que há depressão e doentia preocupação com a própria saúde, ou seja, o seu caso... Eu não sou médico nem nada, mas tá na cara. Outro dia passou no Fantástico, eu disse pra minha mulher: Já vi este filme.
“O pulso ainda pulsa / E o corpo ainda é pouco / Ainda pulsa / Ainda é pouco / Assim...”
O psiquiatra, o psicólogo e a enfermeira do posto de saúde do bairro aconselharam-se a abandonar os remédios. Procurar um grupo de apoio, algo como o A.A., talvez o N.A., ou o H.A. – Hipocondríacos Anônimos –, que ele poderia fundar, se não existisse. Mas como, agora, aprender a viver sem suas muletas, seus amigos, suas terapêuticas? Alopatia ou homeopatia, não importava o sistema, o importante era o método, os efeitos, as sensações que lhe proporcionavam. Na sua angústia, experimentou pela última vez – pois iria seguir à risca a orientação dos diferentes conselheiros – cada um de seus “agentes de cura”, cada um com sua particularidade, especificidade, cor, forma física, dureza, viscosidade, sabor...
Entre a depressão e a euforia repetia as doses, que eram replicadas depois, até que caiu, desacordado, ou quase. Um fundo de consciência deixava entrever, no fim do túnel, uma luminescência azulada, com sabor indefinido, de uma substância que ele precisava, ainda que lhe valesse a vida, experimentar. Pela última vez.
“Pulso / Pulso / Pulso / Pulso”