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domingo, 6 de janeiro de 2013

Mundo em equilíbrio (Marcelo Lamas)

Naquela época Jaraguá do Sul era uma cidade bem menor e as opções de educação eram restritas. Eu estudava engenharia elétrica e para isso, tinha que ir à noite para Blumenau.


A nossa turma foi a pioneira em utilizar uma van que nos levava direto ao campus tecnológico e tínhamos um super-motorista, o “Percebes”, que conhecia uns atalhos e que conseguia nos entregar na hora da prova, mesmo quando chovia.


Para participar da na nossa van o cara tinha que gostar de futebol, pois os nossos treinos iniciavam às 23h30min nas quintas. Também tinha que gostar de música, pois montamos um grupo: Os sobreviventes.


Cada um que graduava-se formava indicava um amigo que passava pelo crivo da galera.


Mas o ambiente na faculdade era inóspito. Havia pouquíssimas mulheres, o que nos fazia enxergá-las como princesas, sem exceção. Após um tempo, a Universidade resolveu transferir outros cursos, com maioria feminina. E aí a coisa ficou meio a meio.


Junto com o curso de moda veio uma loira jaraguaense. As antigas altezas torciam os narizes para ela. Mas vez por outra elogiavam a passada, o cabelo, as dimensões. Com cara de nojo, mas elogiavam. E a guria era bonita indo e vindo. As outras se referiam à loira como Suzana Werner, que na época namorava o Ronaldo Fenômeno: “Aquela Suzana Werner tá toda de azul hoje, vocês viram?”.


Eu conhecia a “Suzana” de vista, lá do bairro. Numa noite, no intervalo, ela me chamou:


- É você que organiza a van da engenharia, não é?


Dei uma engasgada, e respondi:


- Sou eu mesmo.


- Eu quero ir com vocês. Já liguei pra empresa, me disseram que tem alguém saindo. Não aguento mais aquele ônibus.


Bem, eu fiquei sem acreditar na hora. Mas enrolei, falei que ia confirmar se já não tinha alguém acertado e que conversava com ela depois. Na verdade eu tinha medo da reação de todos nós, ogros, com uma modelo na convivência diária. Ela tinha sido miss, com participação em concursos nacionais como o Garota de Ipanema.


Comentei com os meus colegas. Ameaçaram me matar caso ela tivesse desistido. Mandaram-me fechar um contrato com ela. Prometeram que iriam controlar as brigas no campeonato de “truco-móvel” e os palavrões, entre outros.


Passamos a ter uma rainha, além de futebol, bebidas e música ao vivo. A chamávamos de rainha, mais isso nunca lhe subiu à cabeça.


Depois a regra mudou. Cada vez que saia um engenheiro, entrava uma beldade. O nosso mundinho em equilíbrio ficou muito melhor.


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com


van_escolar

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

terça-feira, 10 de maio de 2011

Sem Olhar Pra Trás (Sônia Pillon)

Durante muito tempo fui uma pessoa dócil e boazinha, daquelas que não conseguem dizer um “não”. Na escola, perdi a conta das vezes que abri mão do meu lanche para os colegas e segui com fome. Deixava de brincar no parque, quando criança, para não sujar as roupas, e de sair com as amigas para ir aos bailes da escola, na adolescência, para não preocupar meus pais.

Enquanto as meninas da minha idade se ocupavam com as roupas da moda e maquiagens, geralmente ficava em casa. Quando não estava estudando, me refugiava na literatura, que me permitia viajar pelos lugares mais distantes e viver as mais loucas aventuras.

Conheci Leônidas, o meu primeiro namorado, quando tinha 18 anos. Eu era tímida e insegura como uma Gata Borralheira, e ele, exatamento o contrário! Me acostumei que ele decidisse sobre minhas roupas, os filmes que assistíamos, os amigos e os lugares que visitávamos. Apaixonada, aceitava suas imposições sem protestar, com medo de perdê-lo.

Depois que me formei em Pedagogia na Unerj, comecei a trabalhar com educação infantil. Queria atuar também no ensino médio, mas Leônidas me fez desistir da idéia. Nos casamos seis meses depois da formatura, e a partir daí conheci o inferno! As crises de ciúme de Leônidas, que antes me envaideciam, por considerar uma prova de amor, passaram a me sufocar. - Por que você se atrasou hoje, Catarina? Quem era aquele cara com quem você estava falando na saída da escola? Inútil negar que tinha um amante!

Ele passou a me bater. Foi nessa época que os meus sorrisos desapareceram dos lábios. As surras que eu sofria deixavam marcas profundas no rosto, no pescoço e no corpo, mas atingiram principalmente a minha alma, durante 10 longos e intermináveis anos!...

Uma manhã acordei de um pesadelo terrível: Leônidas tinha me matado com sete tiros, e eu estava estendida no chão, em meio a uma enorme poça de sangue. Suando frio e aos prantos, naquele momento decidi que cometeria um crime perfeito. “Quem tem de morrer é ele!”, pensei. Comecei a planejar a forma de matá-lo. Ele era cardíaco e hipertenso, e nunca ligou para dieta. Estava vinte quilos acima de seu peso e relaxava nos horários de tomar o remédio. Era sempre eu que o alcançava os comprimidos!...

A noite chegou e me esmerei no jantar. Preparei leitão assado, salsichão, e salada de maionese, que ele adorava! Ele comeu até se fartar, sem ligar para o excesso de calorias que estava ingerindo.

Como previ, de repente ele começou a ficar vermelho, com falta de ar, e a reclamar de forte dor no peito. Ele me fazia sinal para que alcançasse o remédio, mas eu não movi nenhum músculo sequer! Com os olhos arregalados, ele continuou com as mãos estendidas, agora com um olhar de quem tinha entendido tudo, estrebuchando até cair morto.

Ao constatar que tinha me livrado dele, gritei e toda a vizinhança me acudiu. Eu soluçava, me jogava no chão e me abraçava ao seu corpo, aparentando desespero. “Coitada!”, diziam. “Ela adorava aquele desgraçado, apesar de tudo!”, pensavam.

Três meses se passaram. Já estava na hora da segunda parte do plano. A própria família de Leônidas me aconselhou a viajar para um retiro, para me curar da "depressão"!... Cheguei em casa e preparei as minhas malas, apressadamente. Lembrei que na Suíça, agora, é inverno. Retirei cuidadosamente o quadro de Di Cavancanti, acionei o segredo do cofre, peguei os dólares e fui embora para sempre, sem olhar para trás!...

Sônia Pillon