Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens

sábado, 19 de outubro de 2013

Acordes (Vana Comissoli)

Abriu a porta cansado, era a décima casa que visitava para um possível aluguel que se mostrava impossível. Todas tão sem possibilidades, sem nem uma nota musical bailando à sua espera. Nem sequer entrou totalmente, a cabeça desencantada foi olhando o chão.


O piso de pau marfim tinha as tábuas colocadas de forma enviesada e ele fascinou. Atravessou o portal com olhos sonhando e já vendo como tudo ficaria. Nem se deu ao trabalho de olhar os outros cômodos, eram apenas mecanismos de sobrevivência: comer, dormir e banhar-se. Coisas que fazia na obrigação.


Voltou à imobiliária e não pechinchou o aluguel, fechou negócio para logo infernizar a transportadora, era absolutamente necessário que se mudasse no dia seguinte, tinha pouca coisa e fora o piano de cauda, com nada mais precisavam ter cuidados.


Os homens levaram o piano quase sob açoite, ele não parava de gritar impropérios e exigir delicadezas que espontaneamente estavam sendo feitas. Depois foi com régua na mão que ele escolheu o local do instrumento, bem ao centro da sala.


O escasso mobiliário foi colocado à vontade dos transportadores. Não tinham muito o que escolher, cama e armário apesar de capengas só podem ir no quarto, fogão e geladeira tinham a cozinha como destino certo. Algumas poucas caixas de roupas e louças, todas misturadas, ficaram no corredor à espera da disposição de seu dono para ir aos armários. Sabe-se lá quando.


Assim que a porta fechou atrás dos homens suados, ele abriu as janelas e o sol da manhã escorregou pelo chão, tornando-o mais claro e pondo reflexos de brilho sobre a lateral do piano lustroso. Fora colocado ao contrário do encaixe das tábuas, o que davam uma desconcertante transversalidade, como se os caminhos se cruzassem sem jamais se tocar.


Ficou vários e mais vários minutos em êxtase olhando o que lhe parecia uma obra prima, prestes a bocejar criando vida. Sentia o fluir do sangue através dele, pronto a entrar nas veias retas do piso e das teclas. Sentou-se em reverência no banco junto ao instrumento e acarinhou as teclas com devoção, para em seguida fazer soar os primeiros acordes de uma sonata de Schubert. Sabia de cor cada nota e fechava os olhos como se a música formasse imagens dentro dele. Algo perdido no tempo, muito antes dele ter vindo ao mundo para tocar.


A noite chegou e ele continuava tocando, levantou-se algumas vezes para admirar a transversalidade. Era atravessado na vida e tinha, depois de muita busca sem saber o que buscava, encontrado a representação de si mesmo. A música atravessando a planura dos dias e a paralelismo com que convivia no mundo. Toda a luz vinda das notas que dançavam em torno dele, numa corporificação não permitida aos outros simples mortais.


Não se achava um exímio pianista, não achava que ninguém era digno de ser assim chamado. Não tinha amigos e nem namorada, nunca tivera. Quem falaria com tanto acerto como o piano? Quem teria uma curva mais precisa e suave que a cauda do instrumento? Quem se deixaria tocar com tanta sensualidade, raiva, amor, dúvida, tristeza do que as teclas que falavam, ronronavam, gritavam e seduziam? O único filme que merecera sua atenção foi A Lenda do Pianista do Mar e pela primeira vez na vida desejara ser outra pessoa que não ele, para deslizar pelo balouçante salão de um navio enquanto guiava seu imortal amor numa suavidade ondeada.


Solitário? Jamais! Vivia acompanhado desta alma musical que se corporificava sob seus dedos. Já dormira incontáveis noites sob o corpo do piano, como quem está com a mulher amada. Seus orgasmos eram infinitamente mais completos e lúdicos sob ele.


Às vezes se lembrava de banhar-se, comer, trocar de roupa para em seguida voltar aos pés do piano quase humilde, quase culpado por tê-lo abandonado nas exigências da vida.


Não fechava as janelas, imaginava que as notas precisavam de fuga para o céu de onde vieram, tinha certeza. No início os vizinhos ouviam encantados a música elegante, refinada e perfeita que o novo morador trouxera. Todos os mestres estavam presentes nela, devia ser de acordo com o estado do morador, cogitavam meio em surdina por cima do muro, como se não quisessem incomodar o pianista. Quando a música, fosse de quem fosse, atravessara as noites roubando o sono tranquilo, começaram a não achar tão bom assim. Quem seria o escolhido para bater àquela porta que apenas se entreabria para receber compras do mercado, na certa feitas pela internet ou telefone? Teria telefone? Nunca ouviram um único tilintar.


O vizinho não vinha à rua cuidar do jardim, nem sequer por o lixo para ser recolhido. Talvez de noite fizesse isso? Porque o jardim estava mais impecável do que jamais fora e belas rosas brancas desabrochavam em grandes e perfumadas pétalas. Alguém teria que enfrentar a tarefa, pedindo ao estranho morador que não tocasse durante a noite. Quem? Sem nunca terem visto o pianista, como era chamado, tinham um estranho medo dele.


João Gustavo ficava alheio a esses movimentos, não se daria ao desagradável trabalho de pensar em vizinhos, eram formigas para ele, as quais se pisa sem se prestar atenção, ou talvez nem sequer existissem realmente.


Maria Clara era uma mocinha sem graça, meio escondida pelos escorridos cabelos mais claros do que o desejável e a pele que se perdia nele por tão parecida ser na cor. Franzina, com seios encolhidos e pernas longas e finas cobertas por vestidos fora de época. Talvez pela aparência desamparada, acreditaram que o pianista se compadeceria e foi a escolhida. Para surpresa da vizinhança e alívio, ela se ofereceu para a empreitada. Não sabiam que muitas e muitas noites ela se esgueirara para baixo das janelas musicais e ali ficara até o amanhecer pintar o céu, o que lhe deu umas olheiras escuras que mais apareciam no rosto de leite.


João Gustavo nem sequer ouviu a primeira batida na porta feita por dedos trêmulos e magros, sem força para um toque firme. Talvez na terceira ou quarta vez tenha ouvido, mas era treinado em ignorar vendedores e pedintes que nada encontrariam com ele. Irritado com a insistência atendeu, os olhos cuspindo raiva pela intromissão.


Olhou a insignificância da figura e esperou sem uma palavra. Ela gaguejou o pedido para em seguida acrescentar que não era sua vontade, que o ouvia hipnotizada sob a janela e que por sua vontade ele tocaria sem qualquer intervalo. João fincou os olhos nos dela, não ouviu muito bem o recado, mas o encantou a ouvinte inesperada. Mandou-a entrar e ofereceu o chão como assento. Maria Clara não achou nada estranho e sentou na transversalidade do piano.


A vizinhança não teve o alívio esperado e, ao verem que a moça entrava e por lá ficava horas a fio ao longo dos dias, também não teve o amor surpreendente e tórrido que levaria vida ao pianista, na opinião deles.


João Gustavo em nada mudou sua rotina, apenas acrescentou um abrir de porta. Maria Clara não abria a boca nem para o bom dia, isso era absolutamente desnecessário e era um acerto tácito entre ambos. Sabiam que o som de suas vozes atormentaria a perfeita harmonia das notas.


Ao contrário do esperado pelos maledicentes vizinhos, ela não se tornou cantora de ópera e muito menos apareceu grávida. Não aprendeu a tocar piano e continuou não distinguindo uma clave de sol de uma clave de fá. A música era algo vivo que bastava que fosse João Gustavo a ter a dor de parir através do estudo das bolinhas e riscos negros atravessados nas folhas pautadas.


Os anos se passaram e a vizinhança se acostumou a dormir embalada por Mozart, Bach e sua turma. Os pais de Maria Clara pararam de reclamar que ela ficaria difamada entrando na casa de um homem solteiro, não prestavam atenção alguma a isso e às vezes nem sequer notavam que ela não estava em casa.


A música cessou de repente, sem desafinar e sem o acorde final. No meio de Minha Amada Imortal, a Nona Sinfonia de Beethoven.


Houve alvoroço na vizinhança, algo novo e muito sério acontecera. Bateriam na porta? Lembraram-se da moça branca, nem os pais sabiam o que havia acontecido com ela, parecia sumida como uma última nota tocada que paira um pouco no ar e se esvai sem ruído algum. Pensaram em chamar a polícia, mas era um bairro tão família que negaram o alvoroço. Pensaram em bater à porta, a moça era maior de idade, alegariam o quê? O grandalhão da rua, que impunha respeito pelo tamanho dos bíceps, foi escolhido para espiar pela janela. Pé ante pé, nervoso como se o dono da casa pudesse enfrenta-lo numa briga, espiou.


Deitado sobre o piano, abraçando as teclas, João Gustavo parecia dormir. Transversal. No chão cruzando as linhas das tábuas do chão, tão clara como pau marfim, Maria Clara também transversal.


O duplo sepultamento foi feito ao som da Sonata nº 2 para piano em Si bemol menor, op. 35 de Frédéric François Chopin, que chamamos de Marcha Fúnebre, mas que o pianista jamais assim intitulara. A vizinhança assumiu os preparativos, não tiveram coragem de mandar o pianista para um enterro indigente, ele absorvera suas emoções transformando-as em música, de modo que jamais tomaram proporções abissais em seus peitos.


Após alguns dias e noites silenciosos, onde ninguém se acomodava muito bem no sono, acostumados estavam a ser embalados, muito fraco e depois no velho e desejado volume de antes, a música voltou a percorrer as ruas e bater nas casas com sua esperança, tragédia e luz.


Na primeira manhã após a volta das melodias houve certo alvoroço, uma curiosidade velada para descobrir quem tocava, ou quem ligara o som dentro da casa que nunca mais conseguiu ser alugada. Fracas tentativas de busca e insossas perguntas foram feitas e calaram rapidamente: sem combinarem nada os vizinhos aceitaram como vindas do céu, para onde subiram levadas pelo amor do pianista. Se descobrissem o encanto estouraria como bolha de sabão, ou então seria mesmo a alma de João Gustavo que buscava seu piano à transversal das tábuas de pau marfim. Também nunca comentaram, nem sequer deram a entender que ouviam um fraco suspiro de mulher.


                                                            Vana Comissoli


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O samba engana (Ítalo Puccini)

samba


Com o perdão da rima bastante pobre no título, leitor, escreverei esta croniqueta discorrendo (que verbo horrível) sobre a contradição que o samba apresenta aos ouvintes da “boa” música – e aqui o adjetivo boa está entre aspas porque me parece sempre necessária uma reflexão acerca das dualidades bom/mau, mal/bem, entre outras, algo que não farei nestas breves linhas, é claro.


Conforme canta o Seu Jorge, “o samba taí, o samba tá, tá no sangue daquele que sabe sambar” – e até dos que não sabem, ainda bem. Porque não curte samba só quem samba. Há quem seja apenas um bamba, um alguém que apenas arrisca uma trocada de pernas e uma gingada, quase sempre errando, e nem por isso menos contente.


Mas quem é que se atreve a dizer do que é feito o samba? Os Los Hermanos é que não (e aqui não há nenhum desmerecimento ao conjunto carioca de nome argentino, e sim apenas uma observação: eles não são peritos em samba). Mas compuseram uma beleza de música, com esta indagação acima. E acrescentando que se samba por gostar de alguém. E que um bom samba não tem lugar. E não tem mesmo. Vale fundo de quintal, vale sacada de prédio, vale calçada e vale a romantizada botecagem no bar.
(Só não vale confundir samba com pagode. Assunto pr’uma outra croniqueta).


Caetano é de cantar que o samba ainda vai nascer, que o samba ainda não chegou, que o samba é pai do prazer e filho da dor, e que desde que o samba é samba é assim: a tristeza é senhora. E é aí que eu retomo o título: o samba engana. Engana porque, ao apresentar um ritmo envolventemente-gostoso, faz o sujeito que é bom da cabeça cair em uma alegria contraditória à letra que está sendo cantada; faz vibrar de alegria o corpo que saracoteia ao som de trem das onze, e que não percebe que não se pode mais ficar um minuto com a pessoa amada, pois, perdendo o trem que dali às onze horas sairá, só amanhã de manhã.


As mulheres são cantadas em todos os sentidos no samba. Mais do que isso: são cantadas as dores que provocam nos sambistas e compositores – e nos homens em geral. Essas moças tão diferentes, não é mesmo, Chico? Fica fácil embalar-se no ritmo dessa canção, sem atentar-se para a dor da moça que, diferente, está me passando pra trás.Por mais que no fundo ainda me queira bem, ela guarda desdém, a safada. Igual a tantas outras.


O samba é aquilo que nos leva a andar com a cabeça já pelas tabelas. Porque um samba leva a uma lembrança – ou a uma cerveja –, que leva a outra, que leva a uma roda de pernas a bambar, que leva a um samba e batem-se panelas e palmas e. E de repente as mãos são erguidas, a voz vai alta e o coração não dá o alerta de que se está cantando “Tu te lembras da partida / Acenaste um pano branco / Mãos ao ar, fala contida / Choro preso em acalanto”.


Tá legal, eu aceito o argumento de que há também o samba de letra entusiasmada, afinal, como é bom viver e não ter a vergonha de ser feliz, não é mesmo? Assim como faz bem aquele sambinha lento, pra dançar mais abraçado, aquele samba que vem pra curar o abandono, ou até mesmo para torná-lo mais grave. São nossos sambas da benção, lembrando-nos de que a tristeza pode até não ter fim – apesar do ritmo contagiante – e de que, apesar de ser preciso um bocado de tristeza pra fazer um samba com beleza, é melhor ser alegre que ser triste, sim.


E não nos esqueçamos de que não se deve deixar o samba morrer. Não se deve deixar o samba acabar. Por mais que ele doa e engane.


Ítalo

domingo, 22 de julho de 2012

Silêncio (Tiago Nascimento)

Helena parou abaixo dos umbrais da porta e sorriu. Disse de si para si que já era. Que já não estava mais ali quem sofreu, quem penou. Pensou rapidamente um verso, uma antiga canção popular, nenhum deles lhe ocorreu no momento, mas deu de ombros. Na hora do recomeço a melhor música pode ser o silêncio.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Presente de casamento (Fernando Bastos)

Baseado em uma história real
Como é comum nos dias de hoje, a cerimônia religiosa e a festa seriam no mesmo local. No caso, em um clube famoso da cidade. Em um primeiro olhar, parecia tudo normal.
Os cozinheiros, com suas toalhas sobre os ombros; os convidados, sentados às mesas ou em pé, pelos cantos; os dez pares de testemunhas, em impecáveis trajes de gala, devidamente perfilados, aguardando a chegada da noiva; os pais dos nubentes, segredando a quem estava ao lado, que aquele era o dia mais emocionante de suas vidas; o noivo, sorrindo de vez em quando, para disfarçar o nervosismo; meia dúzia de crianças correndo pra lá e pra cá, alheias a tudo; um cão rodando o pátio à espera de comida; tudo parecia andar conforme as regras.
No entanto, faltava a protagonista. Embora a noiva já havia chegado ao clube, trazida em um carro de luxo importado, para talvez dar boa sorte, ela havia desaparecido. Ninguém sabia de seu paradeiro. Um dos convidados sussurrou no ouvido da esposa, Cadê a menina? Ela respondeu, como se fosse uma vidente, Deve estar no banheiro retocando a maquiagem. Você não lembra que, quando casamos, eu também demorei pra entrar?
Claro que ele lembrava. Mas o motivo pelo sumiço da jovem, isso ele saberia mais tarde, era de outra ordem. A conversa a seguir aconteceu numa sala do clube, enquanto todos esperavam pela noiva. Um homem grande, de terno feito sob medida e uma jovem apreensiva, toda de branco, que segurava bem apertado um ramalhete de brancas rosas, estavam frente a frente. O homem grande, que celebraria em instantes o casamento, sabedor dos desejos divinos, disse com um franco sorriso, Você está radiante, Julieta. Obrigada, respondeu a menina. O porta-voz de Deus perguntou, Trouxe o CD? Claro, tá aqui, disse ela. Quando estendeu o braço para entregar o CD ao homem de Deus, a nubente sentiu o braço tremer. Ele leu, por alguns segundos, o repertório escrito em azul, com a letra dela, nas linhas do encarte,
Someone like you, Adele, música de entrada. Depois, Rihanna, Wait your turn; Mariah Carey, I want to know what Love is; Beyoncé … Já chega!, disse o homem irritado. Jogou o CD no lixo – juntamente com sua compaixão cristã -, e declarou, em tom firme, Com essas músicas, você não vai casar nunca, querida.
Uma lágrima escorreu do olho esquerdo da noiva, borrando a maquiagem. Ela tentou argumentar, São as músicas que eu e Romeu mais amamos, cada uma delas lembra um momento especial em nossas vidas. O líder religioso discordou, São músicas “do mundo”, Julieta, e Deus odeia essas canções. Não fique triste, jovenzinha. Deus sabia que isso iria acontecer e me orientou a preparar uma seleção musical mais adequada ao momento. Agora, pare de chorar, vou chamar minha esposa, que retocará sua maquiagem.
Vinte minutos depois, Julieta, tão bela como jamais Romeu imaginara, ia a seu encontro, para a troca de alianças. Todos se levantaram. Embora sorrisse, era visível uma estranha tristeza em seus olhos, que brilhavam devido às lágrimas contidas.
Quando tocou a marcha nupcial de Wagner, ela não resistiu, e chorou. Seus lábios, no entanto, iam cantarolando baixinho uma canção, que só ela ouvia, a música que ela havia preparado para o momento mais feliz de sua vida:

“Never mind, I'll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
Don't forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in Love...”

sexta-feira, 25 de maio de 2012

102.0 Fm (Vana Comissoli)


Ouvir rádio é tão fora de moda! No entanto, enfiar aqueles cocozinhos de cabra nos ouvidos é enlouquecedor para mim, me dessintoniza completamente, então giro o dial e ouço uma FM lascada. De um modo geral não escuto nada, apenas alguém exercendo a função vadia de acompanhante Quasímodo.Serve para tocar o sino e não me fazer adormecer em cima dos livros.
Tem dias que se está mais atento, ou sensível, ou idiota e se percebe tudo que acontece, um sexto sentido cansativo e desconcentrado,onde preciso me concentrar e só vejo pisadinhas de camundongos no papel.Hieróglifos seriam mais compreensíveis. Então comecei a me embriagar de músicas melosas de amorinexistente no mundo fora da poesia musical. Quem ainda ouve essas chorumelas? Eu, está na cara! E mais seiscentas mil pessoas tão idiotas quanto.
“Diga, mesmo mentindo, diga
Que esse amor é pra valer
Diga que sem mim você não presta
Desespera e quer morrer”
Algum pedaço meu afundou em areia movediça de falsos sertanejos que de sertão só viram o reflexo num documentário que não os deixaria mentir. Eu não tenho amor e faz tempo, nem sei se tive um dia, parece-me que tudo foi apenas uma ânsia desgovernada por alguém que criei e nem precisava ter cara, bastava que falasse meu nome no meio da noite fingindo dormir para que eu achasse mais poético e mais brega. Qual amor não é brega? Olhos se revirando, sorrisinhos bailando samba-canção no canto da boca e um suspiro de vez em quando. Lá no fundo todo mundo sabe que o tesão está batendo asas de morcego dentro do baixo ventre.
O Roberto Carlos, este mistificador ou emérito pasteleiro, sabia muito bem por glacê na coisa: a gente abria todas as blusas que tinha.
Nos lençóis macios,
Amantes se dão,
Travesseiros soltos,
Roupas pelo chão,
Braços que se abraçam,
Bocas que murmuram,
Palavras de amor,
Enquanto se procuram.
Dor de cotovelo, já sei, nem preciso encontrar alguém no Facebook para me dizer isso. É a mais humilhante dor de cotovelo que vivi, nem sequer tem data, nome e endereço. Claro que sou super poderosa e viver dependendo de um telefonema é coisa que deixei para trás há muito tempo. Eu sou mais eu! O problema são essas letras cretinas falando de amores do tempo do Romantismo e que jamais existiram. Suicídios, copos de vinagre para ficar translúcida, lágrimas borbulhando soluços pela cara escorrida... Quem leva isso a sério? Ainda assim mexem com bichas e borboletas que estavam comportadas na minha barriga e formigam sensações de lembranças dispersas que desejo reviver. As sensações...Nem sequer é uma pessoa, um perfil refinado em especial, apenas um corpo para revestir emoções é o que me faz falta.
Sou muito ocupada e não tenho tempo para caçar arrepios em baladas, restaurantes de primeiro ou último grau e não me enfiarei em bares disfarçados de chiques para exposição de corpos cheios de desejos escusos ou nem tanto, já que a vergonha de sentir deixou de ser problema faz um tempo considerável.
Dou-me conta que sou mais antiga do que imagino, os olhares e a adrenalina tremendo as mãos e tornando a voz levemente esganiçada num disfarce bem pouco disfarçado é secura em minha garganta pedindo água.
Prometi a mim mesma: nada dessa charopice de envolvimento para sempre dar errado e alguém, seja quem for, metendo o pé na minha cara quando o efeito não é mais estimulante. Se ao menos eu fosse cocaína que o doido fica tomando mais e mais para repetir a primeira vez! Não sou, sou igual café de térmica, quanto mais tempo parado, mais intragável fica. Concluí isso e me tirei dessa posição patética de namoradinha de um amigo, inimigo ou desconhecido meu.
- Droga e por que então não giro esta praga de dial e ouço a FM Cultura? Mozart eBethoven tinham lá suas ridículas paixões e transformavam em música, mas pelo menos eu não entendo nada e a frieza do radialista especificando cantata, presto, andante e não sei quantabailançamais.Não faço ilações desnecessárias e massacrantes. Ouço, mais nada. Música não serve para ser ouvida? Por que precisam ficar declamando amores eternos que já se acabaram ou acabarão logo, logo?
Lá vem mais sertanejo romântico, ou romântico sertanejo, ou outro título inventado na semana passada para encobrir coisa alguma além da vontade de acordar as minhocas dentro de mim. Objetivo prá lá de sórdido, convenhamos.
Já entro num barquinho azul que vai encontrar meu bem enquanto o sol se põe em chamas ardentes de amorcaliente. É... As rimas são deste tipo mesmo, não importa muito se repetidas ou absurdas, o que importa é a frase poética e se for na boquinha da garrafa também serve. Saudades do Chico Buarque, pelo menos a poesia era de primeira linha e eu podia dançar valsinha e sonhar por uma noite.


“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar


E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar


E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz”


Tem cheiro de verdade, de possível... Mas... mas... ficou bem pior cantarolar na cabeça esta beleza toda enquanto os meteoros da paixão ensandecem o rádio que não ouço mais.
Bem que podia ser verdade e sair por aí, a esmo, esbarrar em alguém que parecia uma sombra no desvão da esquina, encontrar olhos de “vamos brincar de amor”, logo em seguida balançar a cabeça afirmativamente uma vez que a boca está aberta sem som algum e os olhos reconhecem nos teus que nem olhos tens o grande amor pelo qual cantei e ouvi horas a fio uma FM de última qualidade.


Vana Comissoli

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Violão (Marcio Ochner)

Dois dedos,
Três,
Notas...
Deslizes entre acordes,
Se dividem em criações de bemóis...
Braço, mãos,

Cordas esgueiram sons,
Produzem movimentos...

Corridas aéreas, sonoras viagens cerebrais...
Do corpo,
Stack:


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

esse cara tem me consumido (Ítalo Puccini)

cazuza, vem cá, senta’qui, vâmo conversar. eu sei que tu tá perdido, assim, sem pai nem mãe. eu sei que o que te resta são raspas e restos. e mentiras sinceras. então mente pra mim, vai, pode mentir. mente acreditando na tua mentira. faz isso que tu vai ver como tu vai se sentir melhor. confie em mim, cara, me ame como a um irmão mesmo. como a uma irmã. eu sei lidar com essas coisas. tenho também dezesseis anos e vivo em conflitos que me afastam de todos. brigo com todo mundo mesmo. fico com vários e várias ao mesmo tempo. há quem goste disso, há quem me odeie por isto. mas nem aí, não é mesmo? somos quase maiores-abandonados já. temos de nos virar. não somos pura fama, não é, cazuzinha? por que você tá tão quieto assim? hein? me diz. vem, se abre aqui comigo. a gente meio que ama odiando, né? daí causa essas coisas todas aí nas pessoas. gente que não se garante, que não se satisfaz consigo mesma. a gente não, né, cazuza, a gente tem tudo o que a gente precisa, e mais um pouco ainda, né? a gente vive de pequenas porções de ilusões muito bem construídas, não vive? assim, no lado escuro da vida mesmo. fala, cazuza, pode falar. pode deitar tua cabeça aqui no meu colo e chorar. chorar muito. mas fala também enquanto chora. é bonito isso, alguém chorando e tentando falar, e não conseguindo, e daí fica aquele soluço cortando palavras. isso é muito bonito, cazuza. faz isso pra mim, faz. tô aqui te dando colo e tudo. e, ó, declara guerra a quem finge te amar. chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia, tá? eu te ajudo com isso. eu lembro que tu já me chamou de amor da minha vida. um negócio daqui até a eternidade. eu lembro. me dizia que me podia me pegar escola e ainda me encheria com todo o teu amor. então, cazuza, vê como é fácil? tu sabe que eu tenho tudo o que tu precisa. e mais um pouco ainda. eu posso ser tuas rosas roubadas. posso ser pétala para ti. posso ser espinho. mas eu quero ser tua comida. quero ser todo o amor que houver nessa tua vida. tu me deixa, cazuza, tu me deixa? nosso amor tem que dar certo. não tem nada de desperdiçar blues de djavan nem de buscar ideologias para viver, não. a gente é e tem que ser um para o outro só. a gente sabe se amar. a gente aprende, pode aprender, então. a gente não consegue ficar amigos sem rancor. a gente tem que se amar mesmo que a nossa música nunca mais toque. a gente não pode desperdiçar nosso mel assim, não. a gente tem que se grudar, cazuza, se grudar. proteger o nome um do outro. por amor mesmo. guardar em um codinome. o que tu acha? tu sabe que eu posso ser tua dentro tua orelha fria. posso dizer segredos de liquidificador pra ti. tu sabe. tu sabe que quando tu sai de perto eu penso em suicídio. por mais que tu sempre volte com as mesmas notícias. eu sinto tua falta, cazuza. eu sinto falta de te ter assim no meu colo. sinto falta das tuas frases feitas, das tuas noites perfeitas. das nossas noites perfeitas. eu queria poder te negar. mas eu não consigo. e tu sempre volta’ssim pra mim. noite sim, noite não tu tá’qui entre meus lençóis. me fazendo cafuné, me chamando de mulher sem razão. até cantando caetano pra mim, dizendo que eu sou apenas uma mulher. e assim eu não consigo te negar, cazuza. assim eu tenho de ser artista nesse nosso convívio, pr’essa nossa poesia que a gente vive e não vive. boca, nuca, mão. tudo de ti, cazuza. um remédio de ti eu quero. que me dê alegria. que não me deixe assim down. porque daí eu fico assim sem saber o que meu corpo abriga. e tento me esquecer, porque nessas horas pega mal sofrer, tu me diz. eu sei que só as mães felizes, mas a gente também pode ser, não pode? eu sei que tu não pode causar mal nenhum a não ser a ti mesmo. mas pensa um pouquinho mais nisso. te ver assim me deixa mal. tu me causa mal algum, sim, tá vendo? e eu tento aqui te ajudar, assim, te amar mais e mais, mas tu fica assim quietinho no meu colo e me deixa mal. porque eu sei que daqui a pouco, quando tu acordar, tu vai embora, vai pra rua, vai por aí, assim, e eu não sei quando tu vai voltar. e já me dá saudade de quando a gente conversa assim deixando escapar segredos. e eu não sei em que hora dizer que me dá um medo. porque eu preciso dizer que te amo. te ganhar ou perder sem engano, cazuza. eu preciso dizer que te amo. tanto.