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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

E se... Uma história de amor (Vana Comissoli)

vana12


Para meus muito amados Philippe e Fernanda: tudo dará certo.


Aeroportos sempre me dão a sensação de entrar num formigueiro que começa a pegar fogo e teria que enfrentar este sufoco nas quatro nas próximas horas. Não suporto este bulício de gente que sabe para onde vai enquanto eu sei o local, mas não muito bem o objetivo.
Gosto mesmo é das chegadas. Os beijos dos apaixonados – jovens na relação -; os selinhos bobos que os casais antigos trocam como se fossem irmãos, mas ainda assim cheios de carinho permanente; a festa das crianças sendo recebidas ou sua total alienação nos abraços apertados que sufocavam dados por avós ou tios cuja existência conheciam por nomes planos em fotografias com cenários obscuros. Até mesmo a remota distancia dos homens de negócios esperados por pessoas absolutamente desconhecidas com cartazes nas mãos onde estaria seu nome ou mais impessoal ainda: nome de suas empresas. Felizmente os poucos astros da TV e futebol que encontrei, ninguém os estava assediando ou tendo delírios paranoicos com sua presença, por mais que arrastassem seu séquito de serviçais prontos a atenderem os desejos do amo num simples estalar de dedos. Fui poupada.
O que faço aqui? – me pergunto não mais podendo fugir da indagação que me corrói. Estarei fugindo, ou tentando escapar? Pela primeira vez atravessar o oceano, ser uma estrangeira, caminhar em terra alheia. Para uma sulista de meu país ir aos territórios cisplatinos não é exatamente uma viagem portentosa, éramos quase crias deles e fronteira uma linha invisível que não conseguia realmente nos separar, quase nem nos distinguia. Mais difícil era ir ao norte, muito mais distante e oneroso.
Eu o conhecera há escassos três meses e enquanto esteve no Brasil vivemos uma relação entre delicada e tórrida que derrubou todas minhas imensas barreiras, poderosas fronteiras onde meus guardas não permitiam travessia sem passaporte e muitas vezes revisado.
- O que? Estás louca! O sujeito é europeu e vais atrás? – Essa é minha mãe apavorada com o que considerava uma atitude impensada e infantil. Arriscadíssima. – Não sabes nada deste homem, nem sequer se existe de verdade! E se for um serial killer? E se for sequestrador? E se...
Deixei minha mãe falando sozinha. Eu tinha 39 anos e três casamentos ou pseudo casamentos de merda. De merda mesmo: o primeiro diabo carreguei nas costas, outro empurrei com a barriga e o último se borrou de medo de assumir compromisso se escafedendo na primeira esquina que encontrou. Depois disso tinha resolvido que ninguém mais dormiria na minha cama, só motel e cueca no encosto da cadeira. Chega! Bati a porta e joguei fora a chave por 2 anos, 7 meses e 21 dias.
- Que tremenda viagem! Vai fundo que pode não aparecer outra. E se ele for de fé, ficas por lá? – era minha irmã mais moca.
- Quem me dera uma paixão como esta, aventureira e em outra língua. Adoro francês. – era minha melhor amiga revirando os olhos e pondo Piaf no som. – E se...
- Loucura! Estás doente da cabeça! – minha mãe de novo, de novo e de novo.
Muita gente buzinando no ouvido só dá estrago, comecei a me indagar, o que não tinha feito nenhuma vez até a brotação dos E se... Fui flecha certeira até começarem.
Michel... Seria mesmo Michel seu nome? E se fosse uma alcunha? E se fosse casado? E se... E se... E se...
Agora era tarde para perguntar, a passagem para aquela terra distante e estranha ardia na minha bolsa. Existiria de verdade o tal país ou só em contos de fadas, em postais impessoais?
Tinha tempo, claro que cheguei adiantadíssima para o embarque. E se eu perdesse o avião? E se o “teto” fechasse? Teto... Essa coisa nebulosa bem diferente do que se tem casa para dar segurança e refúgio. Eu estava disposta a sovar durante cerca de doze horas num avião, na classe econômica onde os bancos são para tortura. E se tivesse trombose?
E se esquecesse da língua alienígena? Meu país é de proporções continentais, mas com pequenas nuances regionais perfeitamente identificáveis, podemos nos entender tranquilamente. Este povo europeu vivem em países quase do tamanho de minha cidade e outros até menores, falam trezentas línguas bifurcadas, sei lá em quantos dialetos arcaicos onde não se entende bulhufas.
Nos últimos três meses depois da partida de Michel eu frequentara um curso intensivo daquela língua que me embaralhava o pensamento embora tenha soado tão sedutora e “caliente” ao meu ouvido nos três meses antes desses três meses. Tudo três? Dou-me conta disso e aumenta a quantidade de suor em minhas mãos. Bom ou mau augúrio este monte de três? Não é número par, não dá casal. Devia ter trazido meu livro de numerologia. Esqueci, quase me esqueci de por calcinha na mala só pensando na fartura de roupas novas com as quais pretendia seduzir Michel. De íntimo só camisola. Lembrei a tempo das calcinhas e me desabalei a comprar as mais sexys que consegui encontrar às quase 10 da noite no shopping fechando. Muita sorte a vendedora ter ficado fissurada na minha história de paixão com a qual sonhava, é óbvio. Baixou as prateleiras todas, só não saí com a loja nas costas por que tinha medo de me perder do outro lado do mundo e não poder pagar hotel. Se... Qualquer coisa desse errado.
Estes três meses tão iguais e diferentes que faziam viés, trevas e luz antes deste aeroporto azul me pareceram a realização de sonhos muitas vezes sonhados em noites brancas. Eles eram reais mesmo pela Internet me trazendo as conversas ternas, saudosas e tórridas. Mas e se?... Se na terra distante ele fosse frio como a neve que lá caía e eu nunca tinha visto?
E se...
Olhei o relógio e fui para o portão de embarque. O céu não estava lá estas coisas e rezei. Na minha terra podia me por de joelhos diante de tudo que era santo, orixá e anjos, o Brasil tem destas maravilhas, mas lá... E se lá todos fossem ateus? Aqui até quem dizia que era tinha seu patuá escondido, seu “vai com Deus”. Coisas nossas, mas lá...
Chovia torrencialmente em São Paulo e o tal de “teto” sumira, tínhamos que esperar até que desse as caras novamente. E se a chuva voasse com o avião? Com certeza não seria um bom augúrio, era recado dos deuses: vais dar com os burros n’água. Não podia me preocupar com isso agora, também poderia ser uma limpeza na minha vida, precisava pensar positivamente e me concentrar para não ficar andando de um lado para outro, além de segurar as mãos que queriam ficar se esfregando sem parar.
Afinal embarcamos. Quando a comissária de bordo nos recebeu já foi na língua mãe dela, ou seja me deu um frio danado na barriga, eu entrara em outro mundo. E se não conseguisse entender nada? Entendi e pude escolher minha janta, mas louca de medo, estava tão nervosa. E se eu vomitasse? Procurei não pensar que minha próxima conexão seria em Paris. Ai meu Deus! E se perdesse as malas? Paris... Sonho de todo brasileiro e meu em especial por décadas, mesmo que seguisse viagem era Paris, La France. U lá lá!
Dormi um pouco, abri os olhos, dormi de novo toda torta. Esses bancos da classe econômica são mesmo de lascar. Resolvi dar uma espiadinha pela janela que nos obrigavam a manter fechada, mas nunca fui muito disciplina mesmo, não gosto de ordens irreversíveis. Eram 2 da madrugada. Espiei. Ai, socorro, eu atravessei o mundo! Duas da manhã e o sol está nascendo. Uma emoção colossal me assaltou e chorei, bem que queria sair gritando e falando de minha felicidade e surpresa por ter atravessado o mundo, sonho que já abandonara, se realizando. Meu Michel... Se nada der certo já me deste esta sensação louquíssima de felicidade imensa. Chorei mais um pouco, segurei por que estava prestes a começar a fungar e a vontade era de soluçar atirada no chão. Quase não dormi mais, não podia acreditar, estava sobre o Atlântico e isso é inenarrável. Milhões de borboletas, grilos, libélulas (adoro libélulas) na barriga e todos em movimento.
Aterrissamos e me senti o papa, cheia de necessidade de beijar o chão. Não dava tempo, corri para a alfândega louca de medo do extravio de malas, de não localizar o embarque e me perder neste imenso aeroporto francês. Quando pensava “francês” quase desmaiava, era mesmo eu ali, toda sorriso e engasgo.
Outro avião. Já estava me cansando deles, mas agora seria rápido. Na Europa tudo é logo ali, pelo menos era o que me diziam não sendo bem verdade, mas meu destino final era mesmo logo ali, não precisava pensar na França e na Alemanha que tem mais cara de país pelo tamanho. Pelo menos de minha ideia de país. Que longos e tortuosos limites! E se... E se... Todos “se” que ouvira e outros que criara. Nem sei se me lembrava direito da cara de Michel ou se o que via era resultado de sonho, de memória antiga que não se apagara. Nunca lembrava direito do rosto de meu pai que morreu quando ainda era menina.
E se Michel esquecesse o horário de minha chegada?
E se lá fosse um trânsito dos infernos como São Paulo e se atrasasse?
E se ele tivesse desistido desta brasileira de tantas raízes que não tinha mais nenhuma? E se...
Tinha o suplício de esperar as bagagens ainda. Não sei o que fazem para sempre ser tão lento, é por que não é no deles que arde. Uma vontade danada de gritar que estava ali para me casar e era brasileira sem entender nada de nada desses erres todos que falavam, cheios de us pelo meio, cheio de biquinhos que encantariam a qualquer um, mas agora não. Ia carregada, ficaria três (de novo o 3?) meses, a experiência que faríamos para uma vinda definitiva.
Agora o tremor das mãos, da fala, se instalou forte, estava com tudo ajeitado no carrinho de bagagem e pronta para atravessar a última fronteira que me poria diante de Michel: a porta automática da sala de desembarque. E se ele não me quisesse mais?
E se...
Lá estava ele, lindo como nunca, aquele sorriso arrasador. Que se danem todos que disseram que não era isso tudo. Os braços abertos que se fecharam em torno de mim enquanto seu beijo morno punha lágrimas em nossos olhos.
E se... Se desse certo?...


Vana Comissoli

domingo, 6 de outubro de 2013

Noivado e casamento (Marcelo Lamas)




E o Roberval chegou de mansinho na minha mesa e me intimou:

- Agora só falta a tua parte!

Fiquei pensando em alguma pendência profissional que eu tivesse com ele. Não lembrei de nada e questionei:

- Desculpa, não tô lembrando. O que estou te devendo?

- Não! Não é que tu estejas devendo. Mas é o seguinte...já encomendei o jantar e as flores e despistei a Luzmarina.

- E tu precisas de mim pra quê?

- Ora, pra quê? Tu não é o escritor?

- E o que isso tem a ver?

- Vou pedir a Luzmarina em casamento hoje à noite e agora só falta tu ‘escrever’ o cartão.

- Como assim?

- Ué!? Vou te dar o cartão que comprei e ai tu escreve o pedido de noivado por mim.

- Como eu vou fazer isso?

- Bem, aí é contigo né? Tu és escritor, deves saber o que escrever.

Além de obituário, estatuto de time, carta para antecipar passaporte, eu tinha um certo histórico no segmento “amor”, pois fazia cartinhas pra uma namoradinha do colégio – mas a prima dela que fazia o papel de carteiro foi quem apaixonou-se – e também participei de uma tentativa frustrada de fazer uma guria voltar pra um amigo meu.

Como o Roberval era bem parceiro e eu torcia pelo casal, fiz o texto pro caboclo. Ele disse que apenas transcreveu e assinou. E o bolo já foi encomendado.

Noutra ocasião, a Gertrudes aprochegou-se:

- Oh! Lamas, tenho um convite pra te fazer...aceitas ser o comentarista do meu casamento?

- Claro que sim, respondi prontamente.

- Não queres pensar com calma e responder depois?

- Já tá confirmado!

Dei a resposta de bate-pronto por causa da consideração pela guria, que mesmo sendo de uma família religiosa, convidou a mim, um colega de trabalho, impossível recusar.

Somente na véspera do enlace, fui entender o porquê dela ter oferecido “um tempo pra pensar”. Ela entregou-me uma “apostila” com as minhas falas e de vez em quando eu passava a bola para o padre. No dia que aceitei o convite achei que seria apenas para ler um versículo.

Fiquei com a consciência pesada, pois embora eu tenha amigo padre, tenha jogado futebol no time dos seminaristas de Corupá e o hábito de  preencher cadastro atestando ser católico, eu NUNCA me confessei e mesmo assim tava lá em cima do altar, no meio dos graduados.

Em contrapartida, eu li a Bíblia três vezes. Coisas da vida de escritor.
Marcelo Lamas, autor de Arrumadinhas.



segunda-feira, 22 de abril de 2013

Feriado (Tiago Nascimento)

-Passou...
-Hein?
-Era ali, não viu a placa. Enorme!
-Distração...
-Sei. Estava era olhando a menina de azul do outro lado.
-Que menina?
-Te faz...
-...
-É por isso que detesto sair contigo. Ainda mais no feriado. Você sempre se perde!
-Não estou perdido. É só fazer o retorno...
-Mas onde? Daqui a 20 quilometros?
-Não, deve ter um por aqui, sempre tem.
-Você sempre reclama que os retornos são longe um do outro, duvido que ache um em menos de dez minutos.
-Clama, temos o fim de semana inteiro.
-Inteiro uma ova! Metade dele tá indo pro ralo, pela sua falta de atenção! Vai ser igualzinho da última vez.
-Quer saber?! Cansei! Chega.
-Hum?
-Você só sabe reclamar! Podia ter avisado da entrada. Assim como naquele dia. Depois a culpa é sempre minha.
-Nhem, nhem, nhem. Não sou eu que estou dirigindo...
-Mas quando não é pra avisar você enche o saco, quando precisa cadê?
-...
-Pronto, ali, falei que era perto.
-Burro!
-Hein?
-Isso não é um retorno, é a entrada pro elevado da marginal.
-Ai que saco.
-Volta.
-Não dá, é mão única.
-Agora vamos ter de achar outro retorno pra chegar no retorno. Por que não presta atenção no que está fazendo?
-E você deixa!? Não para de atucanar o cara meu!
-Mas você é incrível né? A culpa é sempre minha! Você sempre tem razão...
-Mas é uma verdade... Olha ali! Uma rua, vou entrar.
-Vê lá hein?
-Não, vai dar certo. Agora é só voltar pra rodovia...
-Meia hora perdida...
-Não deu nem dez minutos!
-...
-...
-...
-E então?
-Então o que?
-Satisfeita?
-Hunf... Vê se não vai entrar na marginal de novo!
- Vai ser uma longa viagem...

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ensaio sobre a monogamia (Fernando Bastos)

Em uma canção havia o emblemático verso: “Eu troco a liberdade pelo teu perdão”. A música era melosa, pegajosa como quiabo, sem graça. Um dia prestei atenção na letra e notei que ela, apesar da pobreza das rimas e versos, continha um conhecido drama existencial, a eterna dúvida entre ser livre ou se prender em alguém. Fiquei pensando que talvez as pessoas casem por não suportarem o peso da liberdade e o medo da solidão, e no final de contas, preferem ficar presas a uma pessoa do que viver livres como um pássaro. Sartre chega a dizer que "O homem é condenado a ser livre".


Penso que talvez o casamento, tal qual o conhecemos, contrato entre duas pessoas para que sejam fiéis uma a outra, seja uma espécie de prisão. O cantor quando diz que troca a liberdade pelo perdão da mulher amada, dá a entender que ao lado dela, deixará de ter liberdade. E muitas vezes é isso mesmo que acontece. Ao casar, ambos assumem um compromisso de exclusividade sexual e amorosa no qual a liberdade não tem vez. E sem liberdade, não há felicidade.


Em matéria do jornal Estadão de São Paulo, de 4 de dezembro de 2008, somos informados que no Brasil, para cada quatro casamentos, um termina em divórcio. Matéria da revista Veja de 11 de agosto de 1999, revela que “Nos Estados Unidos, 60% dos casamentos acabam em divórcio. Na Inglaterra, são 40%.


A tragédia podia ser pior se não existissem os obstáculos que dificultam a separação; aí caríssimos, o número de divórcios seria bem maior, podem apostar. Considerem que o divórcio se traduz em pensão para filhos, dividir o patrimônio se o casamento foi em regime de comunhão de bens, sem falar nos transtornos psicológicos causados pela separação.


Para os técnicos do IBGE, uma das causas para as altas taxas de divórcio é a mudança de comportamento das pessoas, que aceitam o divórcio com mais naturalidade. O humorista diria que a causa do divorcio é o casamento.


A verdade é que muitos homens e mulheres ainda praticam uma “monogamia social”, como dizem os cientistas, isto é, para a comunidade se apresentam como monógamos, mas ocultamente são polígamos, encontrando às escondidas parceiros para o sexo, sem o consentimento do parceiro.


Não creio, como aventam alguns especialistas, que a solução esteja no casamento aberto – cada um pode sair por aí transando com quem quiser. O ser humano ainda carrega o gene do ciúme, e poucos suportariam ver o cônjuge nos braços de um terceiro. De modo que um novo formato deveria ser experimentado: a “monogamia aberta”. Fui ao Google para ver se já existia essa expressão e encontrei só um resultado.


Alguns praticantes da monogamia aberta moram em casas separadas e eventualmente passam alguns dias da semana juntos na mesma casa. Na monogamia aberta, não há restrição para cada um viajar, passar férias, sair à noite em festas e baladas de vez em quando sozinhos, sem a presença do parceiro. E não há proibição para se ter amigos de ambos os sexos, onde possam se frequentar, tudo no maior respeito e confiança, sem a inclusão de sexo, claro.


Naturalmente, tanto para um relacionamento aberto (onde não existe exclusividade sexual) quanto para uma monogamia aberta (onde existe a exclusividade sexual) dar certo, o casal precisa ser emocionalmente maduro, confiar plenamente um no outro, e ter controle muito forte sobre o ciúme. E isso, poucos conseguem. Portanto, a monogamia aberta não é para qualquer um.


De modo que assim como muitos autores preveem uma mudança nos relacionamentos do futuro, onde as pessoas se distanciarão cada vez mais do casamento fechado, creio que a monogamia aberta, como foi exposta resumidamente, é a que mais terá chances de se firmar e fazer felizes os envolvidos. O que não quer dizer que o casamento aberto, o sexo a três, o suingue, o poliamor e todo tipo de casamento em que não se exija exclusividade sexual não possam também fazer os participantes felizes. Tudo vai depender da maturidade e da vontade de cada um dos envolvidos em proporcionar prazer e alegria ao outro, sem deixar-se sucumbir pelo ciúme.


Alguns especialistas reputam que daqui há umas duas ou três gerações, as pessoas terão mais de um parceiro amoroso, um para momentos românticos, um para conversas intelectuais, um para dividir as responsabilidades domésticas, um só para sexo, e assim por diante (a bem da verdade, tais formas de se relacionar já existem, sobretudo em grandes centros, mas ainda são casos esporádicos). Como será que esse morador do futuro vai olhar o casamento de seus antepassados, formado por duas pessoas, vivendo sob o mesmo teto, dormindo na mesma cama todo dia, numa união com tantas proibições, tediosa, cheia de brigas e sem muitos atrativos? Possivelmente com um olhar de espanto e pena. Muita pena.


 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carência (Marcelo Lamas)

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para
resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma
mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e
da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com
admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de
casal na parede.


Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-
se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu
marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no
face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.


Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser
cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era
do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e
bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.


Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a
situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa
cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia
muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana
remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de
pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No
estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.


Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer
que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.


Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil
esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.


Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de
Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”. 


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Causa sine qua non (Fernando Bastos)

 








Andava sempre de olhar afundado como uma garotinha que fizera traquinagem na sala de aula. Algumas vezes cheguei a suspeitar que fora violentada na infância, ou que fosse lésbica, dado sua habitual distância que mantinha dos homens que a abordavam.


Ana Maria era o oposto de Mariana. Ela, gelo, minha mulher, fornalha. Até hoje tenho complexo de Bentinho, aquele do Dom Casmurro. Por mais que Mariana defenda a tese de que não me corneia, estou sempre com um pé atrás. Às vezes faz hora extra no escritório de advocacia, e sabe lá o que acontece nessas ocasiões. Amo Mariana, mas Aninha me incendeia. Comecei a namorar Mariana quando eu tinha 20 e ela 17. Mariana morava com a avó e uma irmã. Gêmea. No dia seguinte, da minha primeira noite com a então namorada Mariana, quando fui lavar o rosto, levei meu primeiro susto. Como Mariana podia estar no banheiro saindo de toalha, se havia dormido comigo e a deixei no quarto antes de descer as escadas?


Aninha percebeu meu espanto e, timidamente, sem me olhar na cara, disse Não sou Mariana, sou Ana Maria, a irmã gêmea dela. Mariana, para de brincadeira, falei, como conseguiu chegar aqui antes de mim? E, sem deixá-la responder, abracei-a e apertei aquele
corpo ainda molhado sob a toalha felpuda. Estou falando sério, disse ela, Por favor, vovó pode acordar e nos ver...Mariana não me falara nada sobre a gêmea. Fazia parte do jogo. Ela gostava de jogos. Eu adorava vencê-los. A cópia se afastou e foi para o quarto, segurando
a toalha de banho com as mãos rente aos seios. Quis possuí-la, mas o fiz só com os olhos. Despedi-me do tornozelo bem moldado, e da sola branquinha do pé, antes dela entrar no quarto e fechar a porta para terminar de se secar.


Casei com Mariana, a avó morreu, a gêmea ficou morando conosco, Mariana se formou em direito, e, depois de um ano de casamento, começou a fazer hora extra. Não me preocupava com os serões de Mariana. Quanto mais tarde chegava, mais eu aproveitava os momentos para saborear a visão daquele corpinho, defendido sumariamente por uma camisola de algodão que ia até a metade das robustas coxas, deitada sobre o sofá, lendo Clarice. Com o tempo, ela foi perdendo aquele medo de animalzinho selvagem, e deitava em meu colo para lhe acariciar a cabeça. Quando sentia o perigo, levantava, dizia que ia ao banheiro, depois voltava para me dar boa noite, a uma distância segura, olhando-me obliquamente.


No finalzinho do outono passado, houve um Congresso de advogados na capital. Minha mulher voltaria no domingo. Na sexta, comecei a preparar o cenário. Vinho Cabernet, a lareira acesa, um filme romântico, o convite. Hesitante, largou o livro, e sentou-se ao meu
lado no sofá. Puxei o cobertor, e nos enfiamos debaixo dele. Nem deu a metade do filme, e ela já estava bêbada. Eu sabia que estava errado, mas a carne é fraca. Os primeiros códigos de Lei já proibiam esse tipo de relação. O judaísmo, maior influenciador sobre nossa cultura, avisa em Levítico 18,18: “não tomarás a irmã de tua mulher,...descobrindo a sua nudez...”.
Mandei à merda a lei de Deus, abracei-a, sob pretexto de esquentá-la, e ela concordou. Em dez minutos, sumiram nossas roupas, e ela galopava sobre mim, no tapete da sala. Seu moreno corpo rebrilhava as cores do fogo da lareira, dando-lhe um aspecto sobrenatural. Coloquei um travesseiro sob seu quadril. Suas unhas arranhavam minhas costas, mas não me incomodei. De repente ela começou a falar obscenidades, que jamais havia sonhado que pudesse dizer. Levei-a para seu quarto, e deitamos em sua cama, na esperança de acordar antes que minha mulher chegasse da farra.


No meio da madrugada, uma réstia de luz trespassou a fresta da porta. Lentamente, um vulto de mulher assomou na penumbra, como uma hetera, que chega em casa depois dos compromissos. Cheirava a bebida e perfume masculino. Sem dizer uma palavra, deitou entre nós e me beijou.






 

 

 

 

terça-feira, 17 de julho de 2012

A queda (Fernando Bastos)

Chegaram ao Pronto Socorro antes da aurora. Ela, de camisola branca de algodão, com manchas roxas nos braços e coxas, e fortes dores nas costelas. Ele a esperou no pátio, fumando nervosamente alguns cigarros. Ela explicou ao médico de plantão que caíra no banheiro. Praguejou contra a labirintite.


Voltaram para casa e fizeram amor. Com cautela, por causa dos ferimentos.


No meio da semana, lá estava ela, na recepção do hospital. Dessa vez, um galo na cabeça. Na queda, batera no vaso sanitário. O noivo, lá fora, aguardava a amada, devorando um cigarro atrás do outro.


No mês seguinte, foram mais quatro idas ao hospital. Hematomas na bacia, pulso fora do lugar, seios doloridos, um olho roxo, resultado da batida contra o box do banheiro. O remédio contra labirintite parecia não resolver o problema da tontura. As últimas gotas de paciência do noivo precipitavam como coquetel molotov sobre a equipe de enfermagem. Foi preciso chamar um segurança para conter a fera. Responsabilizava o médico e dizia que procuraria outro hospital. Queria a saúde da amada de volta.


À noite, fizeram amor como se tivessem se conhecido há meia hora. Juras de amor eterno a fez se sentir a mais desejada das mulheres. No domingo foram à missa, caminharam no parque, lançaram migalhas de pão a um bando de pombos na pracinha. Ao observarem as crianças nos balanços e no escorregador, sonharam com um filho, que teria o nome do pai, e a beleza da mãe. Ela não precisaria mais trabalhar fora, pois ele não achava decoroso para uma mulher passar a madrugada atrás de um balcão. Ela sorriu, maneou a cabeça e disse que gostava daquele trabalho.


No fim do dia a ambulância chegou. Outra queda. Mas dessa vez não resistiu. Dos olhos da mãe, lágrimas rolavam com gosto de ausência. A enfermeira lamentou que os remédios para a labirintite não a ajudaram, e ficou sem chão ao saber pela mãe da jovem, que ela nunca sofrera de tal doença.


 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Presente de casamento (Fernando Bastos)

Baseado em uma história real
Como é comum nos dias de hoje, a cerimônia religiosa e a festa seriam no mesmo local. No caso, em um clube famoso da cidade. Em um primeiro olhar, parecia tudo normal.
Os cozinheiros, com suas toalhas sobre os ombros; os convidados, sentados às mesas ou em pé, pelos cantos; os dez pares de testemunhas, em impecáveis trajes de gala, devidamente perfilados, aguardando a chegada da noiva; os pais dos nubentes, segredando a quem estava ao lado, que aquele era o dia mais emocionante de suas vidas; o noivo, sorrindo de vez em quando, para disfarçar o nervosismo; meia dúzia de crianças correndo pra lá e pra cá, alheias a tudo; um cão rodando o pátio à espera de comida; tudo parecia andar conforme as regras.
No entanto, faltava a protagonista. Embora a noiva já havia chegado ao clube, trazida em um carro de luxo importado, para talvez dar boa sorte, ela havia desaparecido. Ninguém sabia de seu paradeiro. Um dos convidados sussurrou no ouvido da esposa, Cadê a menina? Ela respondeu, como se fosse uma vidente, Deve estar no banheiro retocando a maquiagem. Você não lembra que, quando casamos, eu também demorei pra entrar?
Claro que ele lembrava. Mas o motivo pelo sumiço da jovem, isso ele saberia mais tarde, era de outra ordem. A conversa a seguir aconteceu numa sala do clube, enquanto todos esperavam pela noiva. Um homem grande, de terno feito sob medida e uma jovem apreensiva, toda de branco, que segurava bem apertado um ramalhete de brancas rosas, estavam frente a frente. O homem grande, que celebraria em instantes o casamento, sabedor dos desejos divinos, disse com um franco sorriso, Você está radiante, Julieta. Obrigada, respondeu a menina. O porta-voz de Deus perguntou, Trouxe o CD? Claro, tá aqui, disse ela. Quando estendeu o braço para entregar o CD ao homem de Deus, a nubente sentiu o braço tremer. Ele leu, por alguns segundos, o repertório escrito em azul, com a letra dela, nas linhas do encarte,
Someone like you, Adele, música de entrada. Depois, Rihanna, Wait your turn; Mariah Carey, I want to know what Love is; Beyoncé … Já chega!, disse o homem irritado. Jogou o CD no lixo – juntamente com sua compaixão cristã -, e declarou, em tom firme, Com essas músicas, você não vai casar nunca, querida.
Uma lágrima escorreu do olho esquerdo da noiva, borrando a maquiagem. Ela tentou argumentar, São as músicas que eu e Romeu mais amamos, cada uma delas lembra um momento especial em nossas vidas. O líder religioso discordou, São músicas “do mundo”, Julieta, e Deus odeia essas canções. Não fique triste, jovenzinha. Deus sabia que isso iria acontecer e me orientou a preparar uma seleção musical mais adequada ao momento. Agora, pare de chorar, vou chamar minha esposa, que retocará sua maquiagem.
Vinte minutos depois, Julieta, tão bela como jamais Romeu imaginara, ia a seu encontro, para a troca de alianças. Todos se levantaram. Embora sorrisse, era visível uma estranha tristeza em seus olhos, que brilhavam devido às lágrimas contidas.
Quando tocou a marcha nupcial de Wagner, ela não resistiu, e chorou. Seus lábios, no entanto, iam cantarolando baixinho uma canção, que só ela ouvia, a música que ela havia preparado para o momento mais feliz de sua vida:

“Never mind, I'll find someone like you
I wish nothing but the best for you, too
Don't forget me, I beg, I remember you said
Sometimes it lasts in Love...”

segunda-feira, 12 de março de 2012

O sêmen desperdiçado de Onã (Fernando Bastos)

Adaptado de Gênesis 38,9

O casamento de Judá com Sué, filha de um cananeu, foi comemorado com bom vinho, dança e muita música. Em menos de um ano, nascia Her, um lindo menino, saudável e de choro forte. Logo depois vieram outros dois meninos, Onã e Sela.
Quando Her já estava em idade de se casar, Judá escolheu para o filho primogênito uma bela mulher de nome Tamar. Por causa das iniquidades e vida licenciosa de Her, o deus dos hebreus o castigou tirando-lhe a vida. Passado o período de luto, Judá levou Onã ao campo, e, enquanto passeavam observando bois e ovelhas, disse, Meu filho, deve observar a lei do Levirato, de modo que tomará Tamar, mulher de nosso querido e muito amado Her, para gerar a posteridade de seu irmão morto. Meu pai, respondeu com tristeza Onã, O senhor sabe que os filhos não serão meus, portanto, não gostaria de me unir a Tamar. Além do mais, amo outra mulher, chamada Ana, e é com ela que gostaria de me casar.
O pai não gostou da novidade e disse com firmeza, Filho, eu repito, deve obedecer a lei de nosso povo. Não queira desobedecer ao Senhor; veja o que aconteceu com Her, ser irmão. Por causa de seus pecados, deus o tirou de nós...
Naqueles tempos, imaginava-se que deus era um Ser que tanto podia trazer a bonança, como a morte. Temia-se a divindade mais do que a amava, como muitos filhos ainda hoje a seus próprios pais.
Por favor, pai, lamentou Onã em prantos, Deixe essa tarefa ao meu irmão mais novo, Sela; tenho certeza que ele não se malogrará em recebê-la como esposa. Já os vi conversando diversas vezes, e, não há quem, tendo os visto juntos, em risinhos e trocando segredos ao pé do ouvido, pense em mais nada senão que foram feitos um para o outro. Judá balançou a cabeça em desagrado e disse, Não seja a desonra de sua casa, Onã. Não basta a vida que seu irmão levou, agora vem você querendo afrontar nosso deus e Senhor?
O casamento de Onã com a cunhada realizou-se menos de seis meses depois dessa conversa. No entanto, ambos não pareciam felizes. Onã amava Ana, e Tamar morria de amores pelo cunhado mais novo. Levou algum tempo para que ambos decidissem cumprir a Lei. Em uma noite de calor abrasante, quando haviam chegado em casa após uma festa promovida por um conhecido da família, Tamar, bastante alterada pelo vinho, desceu a túnica de algodão, na frente do marido, e parou de pé a sua frente, com os pés ligeiramente afastados um do outro, queixo erguido, numa posição de forte apelo sensual, revelando seu corpo trigueiro e ardente de desejos atrasados. Onã ficou paralisado diante de tanta beleza, e desejou logo unir sua carne àquele corpo perfeito.
Em segundos, ambos estavam entrelaçando seus corpos, e Tamar deu seguidos gemidos de prazer quando sentiu o membro de Onã, rígido como uma lança, penetrando sua viscosa gruta. A mulher pressentiu a chegada do orgasmo do marido, de modo que o abraçou com mais força ainda. Encha-me com sua semente, Onã, implorou ela. Como uma janela aberta abruptamente deixando a luz entrar, a mente de Onã se iluminou e no mesmo instante lembrou-se que o fruto daquela relação não pertenceria a ele, mas ao irmão morto. Apoiando-se com as mãos na beirada da cama, Onã soergueu-se num movimento brusco e retirou-se de dentro dela, a tempo de ejacular na palha ao lado da cama.
Espantada, Tamar perguntou, Por que fez isso, marido? Onã respondeu, Não posso deixar minha semente em você, mulher. A criança que nasceria não seria minha, mas de meu irmão. Não conhece a Lei? Que se dane a lei, rosnou a mulher, Quero que me dê um filho, Onã. Terá que pedir a outro, menos a mim, respondeu o homem. Tamar, cheia de ódio, praguejou, Está me rejeitando, Onã. Deus o castigará. Onã vestiu a túnica, calçou as sandálias e deixou a casa, indo perambular pelos campos. Talvez Tamar tivesse razão, e sua recusa em engravidá-la pudesse despertar a cólera do Senhor.
Para amainar o pavor de um encontro com o Anjo da morte, antes de sair de casa, Onã pegou um jarro de vinho recém fabricado. Embebedou-se a noite inteira. De manhã, quando os primeiros raios de sol tingiam de dourado os montes de Odolão, alguns pastores encontraram o corpo. Não havia nenhum sinal de violência. O coração de Onã já não batia mais.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Por que as pessoas se casam? (Fernando Bastos)


No Best seller A cama na varanda, Regina Lins informa: “Numa pesquisa feita pelo IBGE com pessoas casadas, cerca de 80% dos entrevistados se declararam decepcionados com o casamento. Daí podermos estimar um percentual ainda maior se considerarmos a dificuldade de se aceitar e declarar a falência de algo em que tantas expectativas foram depositadas. Por que, então, as pessoas continuam querendo casar?” Em seguida ela tenta uma resposta: “Assim como na nossa cultura acredita-se que só é possível estar bem vivendo uma relação amorosa, o casamento por amor passou a ser sinônimo de felicidade e, por conseguinte, uma meta a ser alcançada por todos.”


Além do desejo em ser feliz, casa-se a meu ver, por outros fatores:


1 - As mulheres, em especial, casam para ter filhos. Como bem disse Nietzsche, “Para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho.” De fato, a mulher em geral, casa já de olho na prole que virá. Raras são as mulheres que casariam com um homem que não desejasse ter um filho. Experimente dizer a uma mulher que não deseja filho e ela o abandonará no caminho para o altar. A mulher, mais do que o homem, acredita que um filho vai dar significado a sua vida; é a garantia de que, quando ficar velha, alguém ainda vai amá-la. Ficaríamos espantados se fizessem uma pesquisa apontando o número de homens que aceitou ter filhos por livre e espontânea pressão (da mulher). Para a mulher, um homem que não deseja filho é visto como egoísta, insensível e indesejável, em uma palavra, um pária da sociedade.


2 - A maioria das mulheres teme ficar para titias.


3 - Sair da casa dos pais e buscar “independência”.


4 - Ter maior controle sobre o companheiro. O homem (ou mulher) casado (a) é mais fácil de vigiar do que um namorado (a). Muitos homens e mulheres, conscientes ou não, tentam logo amarrar seu objeto de amor porque assim ele não vai mais poder se divertir e gastar seu dinheiro com outros que não seja com ele (ela). Essa atitude decorre do ciúme que faz com que as pessoas não desejem compartilhar a pessoa amada com o mundo. Muitos ciumentos simplesmente não suportam que seu par amoroso se divirta e seja feliz sem a sua presença; a felicidade do ser amado sem ele (ela) por perto seria sinal de que ele já não o (a) ama como antes.


5 - E ainda poderíamos pensar no fator segurança. Muitos casam visando alguém que vai lhes amparar para o resto da vida. De fato, poucos não se sentem angustiados com a possibilidade de solidão na velhice.


Se as pessoas desejam tanto casar, por que passado certo tempo, as brigas se tornam rotina e o desejo de separação fica estampado em seus rostos? O aumento de separações não ocorre exatamente porque o casamento seja mau; é o formato perverso, que aperta como uma camisa de força, que obriga exclusividade e impõe regras que é injusto. E geralmente, tudo que é obrigatório gera infelicidade. O casamento convencional é semelhante a uma prisão, da qual cada um é impedido de sair e respirar outro ar de vez em quando. O casamento ainda se assemelha a uma ilha, onde apenas o casal convive, e ambos são proibidos de nadar até as ilhas próximas. Podem vê-las, admirá-las, mas não podem chegar perto. Isso é tedioso, cruel, desumano.


Alguns poucos casais que conseguiram dominar o ciúme, estão se aventurando em formas alternativas de casamento, como morar em casas separadas, praticar o casamento aberto, suingue ou poliamor. Mas não vi pesquisas que comprovem que estes casais são mais felizes do que os tradicionais.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Valentine's Day (Sônia Pillon)

 Da janela da varanda, o vidro está banhado pela água da chuva. Os pingos escorrem um após o outro, rapidamente, enquanto o céu cinzento, os relâmpagos e os ventos uivantes sacodem as folhas das árvores. Acho que tão cedo não vou esquecer dessa chuvosa tarde de verão. Que coincidência irônica, pensei. O mau tempo parece combinar com o meu estado de espírito, como se solidarizasse com a minha dor, lancinante, dilacerante...


 A água que escorre pela vidraça se confunde com as lágrimas que insistem em cair pelo meu rosto, involuntariamente, por mais que eu as tente reprimir, por mais que eu não queira derramá-las. Chorar para que? Odeio me sentir assim, refém das próprias emoções! Não combina comigo. Não combina com a vida que escolhi para mim.


 Hoje todos estão comemorando o Valentine's Day, e o meu coração está apertado desde que acordei. O que mais vi foram flores, flores e mais flores, embaladas em belos ramalhetes, ou em vasos enfeitados... Casais apaixonados sorrindo pelas ruas. Um ar de felicidade no ar, acintoso, ferino. Até a minha vizinha da frente recebeu rosas vermelhas. Logo ela, que só pensa em trabalho?! E eu é que tive de receber a entrega!... Não é ironia demais?...


 E pensar que no ano passado, no Valentine's Day, eu estava transbordando de felicidade ao lado dele, naquele inesquecível jantar à luz de velas, saboreando aquela comidinha chinesa e bebendo aquele vinho rosè, que venceu as minhas últimas resistências... Como esquecer a magia daquela noite, e de tantas outras em que nos entregamos àquela tórrida paixão, esquecendo o mundo ao redor?...


 Ah!... No início, ficava contando as horas, os minutos e os segundos de cada dia, que pareciam intermináveis, até ele tocar a campainha. Bastava um olhar, um toque, e um turbilhão de emoções tomava conta de nossos corpos e de nossas almas... Tudo parecia tão perfeito naquela época!...


 Claro que esse idílio não poderia durar para sempre. Quando a gente se conheceu, e se  envolveu, acreditava que todas as diferenças podiam ser superadas. Mas não é o que todo mundo pensa quando está cego pela paixão?


 Mas logo vieram os ciúmes, as  brigas, as cobranças de um lado e de outro... No começo eu até que tolerava aquele futebol todo o santo domingo. Mas com o tempo ele passou a se ausentar o dia todo. Eu ficava em casa, vendo televisão. Que tédio! Depois ele começou a sair sozinho nos sábados também... Aquele bafo de cerveja quando voltava para casa, sempre bem tarde e super cansado... Estava na cara que tinha mais alguém na jogada... Foi a decisão mais difícil da minha vida, mas não dava mais!...


 A chuva continua caindo lá fora, porém com menos intensidade. Fico olhando distraída o movimento dos carros, enquanto imagens em flashback tomam conta dos meus pensamentos por alguns minutos. Ainda há nuvens no céu, mas lá no fundo já dá para ver o arco-íris se formando. Respiro fundo e solto o ar lentamente. Enxugo as lágrimas e fico admirando as cores do arco-íris. Amanhã acho que vou dar uma passada no shopping. Estou precisando dar uma repaginada no meu visual.


Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Sem Olhar Pra Trás (Sônia Pillon)

Durante muito tempo fui uma pessoa dócil e boazinha, daquelas que não conseguem dizer um “não”. Na escola, perdi a conta das vezes que abri mão do meu lanche para os colegas e segui com fome. Deixava de brincar no parque, quando criança, para não sujar as roupas, e de sair com as amigas para ir aos bailes da escola, na adolescência, para não preocupar meus pais.

Enquanto as meninas da minha idade se ocupavam com as roupas da moda e maquiagens, geralmente ficava em casa. Quando não estava estudando, me refugiava na literatura, que me permitia viajar pelos lugares mais distantes e viver as mais loucas aventuras.

Conheci Leônidas, o meu primeiro namorado, quando tinha 18 anos. Eu era tímida e insegura como uma Gata Borralheira, e ele, exatamento o contrário! Me acostumei que ele decidisse sobre minhas roupas, os filmes que assistíamos, os amigos e os lugares que visitávamos. Apaixonada, aceitava suas imposições sem protestar, com medo de perdê-lo.

Depois que me formei em Pedagogia na Unerj, comecei a trabalhar com educação infantil. Queria atuar também no ensino médio, mas Leônidas me fez desistir da idéia. Nos casamos seis meses depois da formatura, e a partir daí conheci o inferno! As crises de ciúme de Leônidas, que antes me envaideciam, por considerar uma prova de amor, passaram a me sufocar. - Por que você se atrasou hoje, Catarina? Quem era aquele cara com quem você estava falando na saída da escola? Inútil negar que tinha um amante!

Ele passou a me bater. Foi nessa época que os meus sorrisos desapareceram dos lábios. As surras que eu sofria deixavam marcas profundas no rosto, no pescoço e no corpo, mas atingiram principalmente a minha alma, durante 10 longos e intermináveis anos!...

Uma manhã acordei de um pesadelo terrível: Leônidas tinha me matado com sete tiros, e eu estava estendida no chão, em meio a uma enorme poça de sangue. Suando frio e aos prantos, naquele momento decidi que cometeria um crime perfeito. “Quem tem de morrer é ele!”, pensei. Comecei a planejar a forma de matá-lo. Ele era cardíaco e hipertenso, e nunca ligou para dieta. Estava vinte quilos acima de seu peso e relaxava nos horários de tomar o remédio. Era sempre eu que o alcançava os comprimidos!...

A noite chegou e me esmerei no jantar. Preparei leitão assado, salsichão, e salada de maionese, que ele adorava! Ele comeu até se fartar, sem ligar para o excesso de calorias que estava ingerindo.

Como previ, de repente ele começou a ficar vermelho, com falta de ar, e a reclamar de forte dor no peito. Ele me fazia sinal para que alcançasse o remédio, mas eu não movi nenhum músculo sequer! Com os olhos arregalados, ele continuou com as mãos estendidas, agora com um olhar de quem tinha entendido tudo, estrebuchando até cair morto.

Ao constatar que tinha me livrado dele, gritei e toda a vizinhança me acudiu. Eu soluçava, me jogava no chão e me abraçava ao seu corpo, aparentando desespero. “Coitada!”, diziam. “Ela adorava aquele desgraçado, apesar de tudo!”, pensavam.

Três meses se passaram. Já estava na hora da segunda parte do plano. A própria família de Leônidas me aconselhou a viajar para um retiro, para me curar da "depressão"!... Cheguei em casa e preparei as minhas malas, apressadamente. Lembrei que na Suíça, agora, é inverno. Retirei cuidadosamente o quadro de Di Cavancanti, acionei o segredo do cofre, peguei os dólares e fui embora para sempre, sem olhar para trás!...

Sônia Pillon