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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Quem ama não mata... (Inacio Carreira)

Vivia grudado na internet buscando novidades. Que, depois, espalhava pela turma, pessoalmente, por e-mail ou através das redes sociais. Assinava todas, ou todas que conhecia. Precisava parar com isso. Perdia um tempo danado na frente da telinha. Se o patrão descobre, rua! Sem poder reclamar, que estava tudo registrado ali, no seu ID. Como se fosse seu id, aquele descrito por Freud. E, como o id, o ID é “a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade”. Como? Explico: se uma atriz de televisão denuncia a invasão de seus arquivos eletrônicos e a divulgação de uma foto sua, nua ou transando com o namorado de plantão, a polícia vai atrás rapidinho e prende o sabichão. Agora, se você recebe mensagens anônimas, de pessoas interessadas em azarar com sua paciência, e busca auxílio na mesma polícia (só existe uma, grosso modo) recebe a resposta de que “só se houver morte envolvida”.


Continuando os paralelos, assim como o id, o ID “desconhece o julgamento de valores, o bem e o mal, a moralidade" (Freud). As forças do id buscam a satisfação imediata, sem tomar conhecimento das circunstâncias da realidade. Funcionam de acordo com o princípio do prazer, preocupadas em reduzir a tensão mediante a busca do prazer e evitando a dor. Qualquer coincidência é pura semelhança. Ainda mais, para os incautos de plantão: o id contém a nossa energia psíquica básica, ou a libido, e se expressa por meio da redução de tensão. Assim, agimos na tentativa de reduzir essa tensão a um nível mais tolerável. Para satisfazer as necessidades e manter um nível confortável de tensão, é necessário interagir com o mundo real. Por exemplo: as pessoas famintas devem ir em busca de comida, caso queiram descarregar a tensão induzida pela fome. Portanto, é necessário estabelecer alguma espécie de ligação adequada entre as demandas do id e a realidade.
Entendeu? Se um automóvel é a extensão de nossas pernas, se uma arma é a extensão de nossos braços, o computador é a extensão de nosso cérebro. Antes de um computador com grande capacidade, temos que ter muita capacidade cerebral, ou não saberemos o que fazer com a máquina. São complementares. Até que o Ser invente o Androide inteligente, pensante, que tenha a capacidade de reflexão do aqui-agora, lembrando Blade Runner, o Caçador de Androides, filme de 1982.


Vivia grudado na internet buscando novidades. Encontrou a foto de sua namorada com o melhor amigo (deles). No maior malho. Indiferentes aos clarões do flash... Curtindo. Seria mesmo ela? Vai mandar cópia para o celular dos dois e ver a reação. Sósias? Impossível. Com a mesma roupa íntima, mesmo corte de cabelo, mesma expressão alucinada na hora do vamos ver?


Sua reação – instintiva – foi jogar o monitor contra a parede, lembrou a tempo de que não estava em casa, aquele aparelho não era dele, aquele tempo não era dele, aquela reação exacerbada – somente dele – deveria vir à tona em outra hora e lugar, quando encontrasse com os dois ex. Qual seria sua reação? Qual seria sua vingança?


O pior era o desejo, forte, que sentiu ao ver aquelas cenas e a falta de iniciativa para mudar de endereço. Músculos enrijecidos, rosto vermelho pelo afluxo de sangue, medo de que alguém chegasse em sua estação de trabalho naquele momento e o visse transtornado. Alterado. Transportado.


Tinha que aliviar a tensão. Depois veria o que fazer...

terça-feira, 19 de março de 2013

"Causos" de vovós (Vana Comissoli)

vovó           


         Depois do AVC, todo mundo a tratava como se daí a 2 minutos ela fosse se esfarelar deixando na cadeira apenas um pozinho parecido com pó de cupim: nunca se vê o bicho, mas se sabe que está por perto. Isso a incomodava uma barbaridade. Era bonito ver como os netos e bisnetos viam vê-la cheios de olhos doces e lembrancinhas compradas no “ligeirão”, entre uma aula e um namorico, mas a chateava também. Não tinha sido sua intenção sobreviver ao piripaque do coração.Só em lembrar da mãe anos a fio em cima de uma cama, já tirava toda a graça de viver, aquilo não foi viver, foi se tornar um peso do cão, por mais amor que houvesse. Reconhecia galhardamente: Velho cansa os jovens, ou meio jovens, que precisam saborear a vida antes de se sentarem ad eternum numa cadeira de rodas que lhe deixava a bunda quadrada.


          Só sentia alguma alegria verdadeira quando a neta emprestada vinha visita-la e a animava com histórias sem nenhuma descrição de doenças e cuidados. Era já entrada nos 40 anos e não tinha freios na língua. Sabia fazer rir e, por algumas poucas horas, Vovó Matilde deixava de sentir o impedimento do corpo.


           Dorotéia também apreciava suas histórias dos tempos de casada com um homem de fora da cidadezinha. Vindo da capital grande, cheio de malícia e picardia nada tinha dos pudores enraizados da gente da roça que ainda era a massa do povo da cidade, mentalidade pequena e cheia de preconceitos, onde alguns assuntos a gente não fala em público. Os tabus eram o sexo, a sacanagem de algum filho, a bebedeira escondida e a surra que algum marido deu na mulher por razão nenhuma, ou a mais escusa de todas..


            O marido de vovó chegara ali sem eira nem beira, desconhecido total, de olhos negros no mar de olhos azuis que compunham o local, cabelos mais escuros ainda e crespos. De longe aparecia em meio às cabeleiras que iam do muito loiro ao um pouco menos. Pior, não entendia uma palavra de alemão que, embora no Brasil, era a linguagem corrente dessas bandas. Mas era alegre, fanfarrão mesmo e conquistou a todos com sua fala alta, seus gestos largos e um palavrão sempre na ponta da língua. É bem certo que as mulheres o olhavam de soslaio, entre risinhos nervosos de quem quer tocar, mas não pode. Os homens o aceitaram por pura inveja, quem sabe estando perto poderiam aprender um pouco de laço solto.


            Damastor foi se fazendo na cidade, trouxera conhecimento de marcenaria e logo era dono da única fábrica de móveis do local. Era exímio artesão do estilo chipandelle, coisa de moda lá das décadas 40, 50 do século passado.


            A história dele nunca ninguém soube ao certo, mas vovó confidenciava que tinha deixado mulher e um bando de filhos lá na São Paulo. Enjoara da esposa miudeira que só sabia reclamar e exigir exclusividade, coisa que não era de seu agrado Saíra um dia para comprar cigarros e se perdera no mundão até chegar nesta quase vila incrustrada nas terras do sul. Voltaria apenas 15 anos depois, mas isso é outro “causo”.


            Enrabichou-se pelos olhos de cristal de Matilde, com seu corpão de colona, fartos seios e cabeleira que mais parecia o penacho dourado do trigo. Para facilitar as coisas, ela, a contra marcha de seu tempo, tinha casado e se separado, era quase uma mulher sem honra, no mexerico das vizinhas, embora nenhum dedo pudesse se levantar em acusação da vida simples, metódica e embaixo da asa da mãe que ela levava.


            A via passar na rua, em direção ao armazém, ou a feirinha dos colonos: a saia rodada e florida rodando no vento frio, as faces avermelhadas pelo Minuano sem compaixão.


            Foi ficando tão encanzinado que logo deu um jeito de fazer amizade com o irmão dela e mais rápido ainda se sentava ao lado do fogão à lenha onde a chapa assava pinhões recém-colhidos. Aconchego que só o povo da serra conhece na intimidade e sabe a deliciosa ternura quente que contém.


            Damastor esticava o olho para a moça que nem sequer parecia enxerga-lo. Tentava tocar sua mão na hora de pegar uma rapadura, ou fatia de bolo do preto estendido por ela. Numa dessas derramou a travessa toda de pipoca doce e caiu na risada enquanto os demais ficavam paralisados. Comida fora é pecado.


            Fez a corte como nunca, até que com a ajuda do irmão de Matilde, dobrou-a e se casaram.Na verdade foram morar juntos, uma vez que não havia divórcio e ele era casadinho da silva.


            Tão logo a paixão aplacada, o velho Damastor apareceu e logo outros rabos de saia o interessaram. Matilde conhecia a vida, essas coisas acontecem e nem se deu ao trabalho de reclamar. Além do que isso não o impedia de comparecer. E como comparecia!


            ─ Eu não sabia o que era realmente sexo até conhecê-lo. Para mim e o que me contavam as amigas era uma coisa sem graça que quando estava começando a ficar bom, acabava. Os machos gozavam e a gente ficava ali, se retorcendo. É a sina, o dever da mulher e a gente tolerava. Mas Damastor não. Era safado, passava a mão nos seios e até nas partes da gente. Levantava labaredas e, mesmo sabendo que era um sem vergonha, não dava para abrir mão. A vida foi indo assim. Eu sabia e não sabia. Estava resolvida a questão.


            Aconteceu de um dia não poder mais fazer de conta. O desgraçado, toda tarde depois do almoço, esperava o marido de minha vizinha de quintal sair para o trabalho e se enfiava na cama dela. Nós éramos amigas, eu sabia que ela devia estar satisfeita como nunca antes, não me importava de repartir.


            Um dia, o marido, acho que desconfiado de tanto que a mulher se agitava depois do almoço, de tanto que cantarolava no final a tarde como nunca havia feito, voltou num repente, mal tinha passado 15 minutos.


         Damastor ouviu a chave na porta, se escafedeu pela janela, se enfiando no quarto, trancado á chave. Dei-me por conta do que acontecia quando ouvi o griteiro lá fora, tiro pro ar e o Matias prometendo vingança fatal enquanto a mulher, aos prantos, negava tudo embora com a cabeleira desgrenhada e abotoando a blusa esgarçada.


            Matias se vingou. Damastor trouxera um chapéu de feltro inglês, todo chique, era a única coisa que prestava quando chegou nestas bandas. Seu grande orgulho.


            O vizinho chegou no meio da rua, deu mais uns tiros e gritou bem alto:


            ─ Quero ver tu vir buscar o filho da puta do chapéu, seu negro filho da puta! ─ alar filho da puta em voz alta era crime consagrado.


            E jogou o chapéu que ficara sobre a mesa na pressa da saída de escape, em cima do poste da esquina.


            ─ Se tu vier buscar, desgraçado, eu tô de olho e te furo à bala. ─ Apelou para o gaudério. ─ Índio cabotino! ─ Pior ofensa. Além de traíra, era gentinha da terra.


            Foi uma vingança exemplar ─ continuou Matilde ─ Damastor não tinha coragem de tirar o chapéu de lá e todos os dias o via a balançar ,cai não cai, e nunca caindo. Acho que levou mais de ano para a chuva e o sol esturricarem o coitado e ele se sumir. Antes disso ficou russo e desbeiçado.


           Doroteia riu de se torcer. Não contou para vovó, mas era bem o que gostaria de ter acontecido com seu próprio marido com sua mania de achar tudo que é mulher que se atravessasse, uma coitadinha que precisava salvar. Essa desmascarada, ela não faria com o sobrinho preferido da vovó, ele poderia ser achincalhado, mas ela não merecia a desilusão. Se vingou por tabela.


         Veio o chá com bolinhos fritos, a noite caindo devagarinho, mas a conversa parecia nunca cansar Matilde, pelo contrário, a revigorava e contava as histórias como quem faz crochê: um ponto enlaçando o outro.


     Doroteia também não se cansava.Com vovó aprendia a ter paciência, entender o marido, lamentar um pouco em voz alta sua angústia de traída, fazendo de conta que era compaixão pela vida de vovó enquanto essa ria a bom rir e de tudo tirava partido para viver sentada na cadeira de rodas.


           ─ Então o bom foi a cama vovó? Devia ser uma coisa muito inusitada.


            ─ Se foi! Eu contava para as amigas e elas ficavam babando. Os homens daqui era só vir por cima, corcovear e cair fora. Dava até pena por que todos morreriam virgens de prazer: machos e fêmeas. Tu sabes que até me comer por trás ele queria? Mas eu não deixei, tinha ouvido dizer que doia.


     ─ Mesmo, vovó? Pois foi uma pena, se a gente relaxar não dói nada e tem um prazer danado. Não doce para todo dia, mas de vez em quando a gente come e se lambuza.


        ─ Não me diz uma coisa dessas agora que o Damastor já morreu! Se a gente tivesse conversado antes... Ele não me escapava e não seria essa cadeira a machucar meu traseiro, mas uma boa saudades de meu homem.


       ─ Vovó!!!!


vovó2

quarta-feira, 6 de março de 2013

Escapadas (Marcelo Lamas)

Acontece vez por outra do pessoal dizer que vai pra um lado e ir pro outro.
Em muitos casos, não se caracteriza um adultério propriamente dito, tratando-se apenas de uma tentativa de evitar rusgas entre o casal.
Com o Rodrigão foi assim. Como a namorada dele morava no RS, era hábito um telefonema por volta das 22h, antes de dormir. Sabedores disso, os parceiros dele passaram lá no apartamento mais tarde e o convenceram a ir numa balada em Joinville. Quando estavam na altura das arrozeiras de Guaramirim, o inesperado: o celular do Rodrigão tocou. Como ele estava no banco de trás, jogou-se no colo dos outros, deitando-se. Para um sujeito homem e hetero, esta situação não é muito agradável, mas o amor pela gaúcha falou mais alto. Estando ele na horizontal, sua voz sairia idêntica à do quarto. Se tivesse um cobertor no carro, seguramente ele teria jogado por cima, só para garantir a legitimidade do sono:
- Oi amor! (bocejo forçado)
- Tava dormindo querido?
- Sim! Tava vendo um filme e peguei no sono. (com voz sonolenta e bocejo forçado)
- E que filme estavas vendo?
Pausa
- Reféns. (bocejo forçado)
O Rodrigão esqueceu que a guria era cinéfila:
- Ué, amor! ? O ‘Reféns’ nem chegou no cinema!
Pausa
- Ahh! Acho que o nome era parecido com isso... já tinha começado quando liguei a tevê. (voz normal, com gagueira e esqueceu do bocejo forçado)
A ligação acabou normalmente, mas ele ficou apreensivo. Teria ela percebido algo estranho? Uma mulher com raiva é capaz de qualquer coisa.
Num outro caso, outra mentira. Tenho dois amigos cujas esposas têm
restrição que um saia com o outro. Ambas acham que o outro não é boa companhia. Mas uma não sabe que a outra tem o mesmo sentimento. O cara até pode sair com a galera, mas se “aquele um” estiver lá, vai ter DR depois.
Os dois comparsas tiveram uma ideia para poder tomar uma cervejinha juntos: criaram um amigo imaginário. E com o “Valdir” tá liberado, ele é ficha limpa.
Depois, eu descobri que o tal Valdir existe. É primo de terceiro grau de um deles. Só que o cara mora lá na Tifa da Pólvora e trabalha como representante comercial. Ele nunca está na cidade, não tem namorada conhecida e nem perfil nas redes sociais.
Por ora a mentira está colando.
A intuição está para elas, assim como a malandragem está para eles. Até nisso elas levam vantagem, pois a malandragem é possível aprender.


Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carência (Marcelo Lamas)

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para
resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma
mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e
da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com
admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de
casal na parede.


Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-
se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu
marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no
face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.


Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser
cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era
do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e
bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.


Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a
situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa
cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia
muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana
remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de
pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No
estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.


Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer
que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.


Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil
esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.


Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de
Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”. 


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Causa sine qua non (Fernando Bastos)

 








Andava sempre de olhar afundado como uma garotinha que fizera traquinagem na sala de aula. Algumas vezes cheguei a suspeitar que fora violentada na infância, ou que fosse lésbica, dado sua habitual distância que mantinha dos homens que a abordavam.


Ana Maria era o oposto de Mariana. Ela, gelo, minha mulher, fornalha. Até hoje tenho complexo de Bentinho, aquele do Dom Casmurro. Por mais que Mariana defenda a tese de que não me corneia, estou sempre com um pé atrás. Às vezes faz hora extra no escritório de advocacia, e sabe lá o que acontece nessas ocasiões. Amo Mariana, mas Aninha me incendeia. Comecei a namorar Mariana quando eu tinha 20 e ela 17. Mariana morava com a avó e uma irmã. Gêmea. No dia seguinte, da minha primeira noite com a então namorada Mariana, quando fui lavar o rosto, levei meu primeiro susto. Como Mariana podia estar no banheiro saindo de toalha, se havia dormido comigo e a deixei no quarto antes de descer as escadas?


Aninha percebeu meu espanto e, timidamente, sem me olhar na cara, disse Não sou Mariana, sou Ana Maria, a irmã gêmea dela. Mariana, para de brincadeira, falei, como conseguiu chegar aqui antes de mim? E, sem deixá-la responder, abracei-a e apertei aquele
corpo ainda molhado sob a toalha felpuda. Estou falando sério, disse ela, Por favor, vovó pode acordar e nos ver...Mariana não me falara nada sobre a gêmea. Fazia parte do jogo. Ela gostava de jogos. Eu adorava vencê-los. A cópia se afastou e foi para o quarto, segurando
a toalha de banho com as mãos rente aos seios. Quis possuí-la, mas o fiz só com os olhos. Despedi-me do tornozelo bem moldado, e da sola branquinha do pé, antes dela entrar no quarto e fechar a porta para terminar de se secar.


Casei com Mariana, a avó morreu, a gêmea ficou morando conosco, Mariana se formou em direito, e, depois de um ano de casamento, começou a fazer hora extra. Não me preocupava com os serões de Mariana. Quanto mais tarde chegava, mais eu aproveitava os momentos para saborear a visão daquele corpinho, defendido sumariamente por uma camisola de algodão que ia até a metade das robustas coxas, deitada sobre o sofá, lendo Clarice. Com o tempo, ela foi perdendo aquele medo de animalzinho selvagem, e deitava em meu colo para lhe acariciar a cabeça. Quando sentia o perigo, levantava, dizia que ia ao banheiro, depois voltava para me dar boa noite, a uma distância segura, olhando-me obliquamente.


No finalzinho do outono passado, houve um Congresso de advogados na capital. Minha mulher voltaria no domingo. Na sexta, comecei a preparar o cenário. Vinho Cabernet, a lareira acesa, um filme romântico, o convite. Hesitante, largou o livro, e sentou-se ao meu
lado no sofá. Puxei o cobertor, e nos enfiamos debaixo dele. Nem deu a metade do filme, e ela já estava bêbada. Eu sabia que estava errado, mas a carne é fraca. Os primeiros códigos de Lei já proibiam esse tipo de relação. O judaísmo, maior influenciador sobre nossa cultura, avisa em Levítico 18,18: “não tomarás a irmã de tua mulher,...descobrindo a sua nudez...”.
Mandei à merda a lei de Deus, abracei-a, sob pretexto de esquentá-la, e ela concordou. Em dez minutos, sumiram nossas roupas, e ela galopava sobre mim, no tapete da sala. Seu moreno corpo rebrilhava as cores do fogo da lareira, dando-lhe um aspecto sobrenatural. Coloquei um travesseiro sob seu quadril. Suas unhas arranhavam minhas costas, mas não me incomodei. De repente ela começou a falar obscenidades, que jamais havia sonhado que pudesse dizer. Levei-a para seu quarto, e deitamos em sua cama, na esperança de acordar antes que minha mulher chegasse da farra.


No meio da madrugada, uma réstia de luz trespassou a fresta da porta. Lentamente, um vulto de mulher assomou na penumbra, como uma hetera, que chega em casa depois dos compromissos. Cheirava a bebida e perfume masculino. Sem dizer uma palavra, deitou entre nós e me beijou.