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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

E se... Uma história de amor (Vana Comissoli)

vana12


Para meus muito amados Philippe e Fernanda: tudo dará certo.


Aeroportos sempre me dão a sensação de entrar num formigueiro que começa a pegar fogo e teria que enfrentar este sufoco nas quatro nas próximas horas. Não suporto este bulício de gente que sabe para onde vai enquanto eu sei o local, mas não muito bem o objetivo.
Gosto mesmo é das chegadas. Os beijos dos apaixonados – jovens na relação -; os selinhos bobos que os casais antigos trocam como se fossem irmãos, mas ainda assim cheios de carinho permanente; a festa das crianças sendo recebidas ou sua total alienação nos abraços apertados que sufocavam dados por avós ou tios cuja existência conheciam por nomes planos em fotografias com cenários obscuros. Até mesmo a remota distancia dos homens de negócios esperados por pessoas absolutamente desconhecidas com cartazes nas mãos onde estaria seu nome ou mais impessoal ainda: nome de suas empresas. Felizmente os poucos astros da TV e futebol que encontrei, ninguém os estava assediando ou tendo delírios paranoicos com sua presença, por mais que arrastassem seu séquito de serviçais prontos a atenderem os desejos do amo num simples estalar de dedos. Fui poupada.
O que faço aqui? – me pergunto não mais podendo fugir da indagação que me corrói. Estarei fugindo, ou tentando escapar? Pela primeira vez atravessar o oceano, ser uma estrangeira, caminhar em terra alheia. Para uma sulista de meu país ir aos territórios cisplatinos não é exatamente uma viagem portentosa, éramos quase crias deles e fronteira uma linha invisível que não conseguia realmente nos separar, quase nem nos distinguia. Mais difícil era ir ao norte, muito mais distante e oneroso.
Eu o conhecera há escassos três meses e enquanto esteve no Brasil vivemos uma relação entre delicada e tórrida que derrubou todas minhas imensas barreiras, poderosas fronteiras onde meus guardas não permitiam travessia sem passaporte e muitas vezes revisado.
- O que? Estás louca! O sujeito é europeu e vais atrás? – Essa é minha mãe apavorada com o que considerava uma atitude impensada e infantil. Arriscadíssima. – Não sabes nada deste homem, nem sequer se existe de verdade! E se for um serial killer? E se for sequestrador? E se...
Deixei minha mãe falando sozinha. Eu tinha 39 anos e três casamentos ou pseudo casamentos de merda. De merda mesmo: o primeiro diabo carreguei nas costas, outro empurrei com a barriga e o último se borrou de medo de assumir compromisso se escafedendo na primeira esquina que encontrou. Depois disso tinha resolvido que ninguém mais dormiria na minha cama, só motel e cueca no encosto da cadeira. Chega! Bati a porta e joguei fora a chave por 2 anos, 7 meses e 21 dias.
- Que tremenda viagem! Vai fundo que pode não aparecer outra. E se ele for de fé, ficas por lá? – era minha irmã mais moca.
- Quem me dera uma paixão como esta, aventureira e em outra língua. Adoro francês. – era minha melhor amiga revirando os olhos e pondo Piaf no som. – E se...
- Loucura! Estás doente da cabeça! – minha mãe de novo, de novo e de novo.
Muita gente buzinando no ouvido só dá estrago, comecei a me indagar, o que não tinha feito nenhuma vez até a brotação dos E se... Fui flecha certeira até começarem.
Michel... Seria mesmo Michel seu nome? E se fosse uma alcunha? E se fosse casado? E se... E se... E se...
Agora era tarde para perguntar, a passagem para aquela terra distante e estranha ardia na minha bolsa. Existiria de verdade o tal país ou só em contos de fadas, em postais impessoais?
Tinha tempo, claro que cheguei adiantadíssima para o embarque. E se eu perdesse o avião? E se o “teto” fechasse? Teto... Essa coisa nebulosa bem diferente do que se tem casa para dar segurança e refúgio. Eu estava disposta a sovar durante cerca de doze horas num avião, na classe econômica onde os bancos são para tortura. E se tivesse trombose?
E se esquecesse da língua alienígena? Meu país é de proporções continentais, mas com pequenas nuances regionais perfeitamente identificáveis, podemos nos entender tranquilamente. Este povo europeu vivem em países quase do tamanho de minha cidade e outros até menores, falam trezentas línguas bifurcadas, sei lá em quantos dialetos arcaicos onde não se entende bulhufas.
Nos últimos três meses depois da partida de Michel eu frequentara um curso intensivo daquela língua que me embaralhava o pensamento embora tenha soado tão sedutora e “caliente” ao meu ouvido nos três meses antes desses três meses. Tudo três? Dou-me conta disso e aumenta a quantidade de suor em minhas mãos. Bom ou mau augúrio este monte de três? Não é número par, não dá casal. Devia ter trazido meu livro de numerologia. Esqueci, quase me esqueci de por calcinha na mala só pensando na fartura de roupas novas com as quais pretendia seduzir Michel. De íntimo só camisola. Lembrei a tempo das calcinhas e me desabalei a comprar as mais sexys que consegui encontrar às quase 10 da noite no shopping fechando. Muita sorte a vendedora ter ficado fissurada na minha história de paixão com a qual sonhava, é óbvio. Baixou as prateleiras todas, só não saí com a loja nas costas por que tinha medo de me perder do outro lado do mundo e não poder pagar hotel. Se... Qualquer coisa desse errado.
Estes três meses tão iguais e diferentes que faziam viés, trevas e luz antes deste aeroporto azul me pareceram a realização de sonhos muitas vezes sonhados em noites brancas. Eles eram reais mesmo pela Internet me trazendo as conversas ternas, saudosas e tórridas. Mas e se?... Se na terra distante ele fosse frio como a neve que lá caía e eu nunca tinha visto?
E se...
Olhei o relógio e fui para o portão de embarque. O céu não estava lá estas coisas e rezei. Na minha terra podia me por de joelhos diante de tudo que era santo, orixá e anjos, o Brasil tem destas maravilhas, mas lá... E se lá todos fossem ateus? Aqui até quem dizia que era tinha seu patuá escondido, seu “vai com Deus”. Coisas nossas, mas lá...
Chovia torrencialmente em São Paulo e o tal de “teto” sumira, tínhamos que esperar até que desse as caras novamente. E se a chuva voasse com o avião? Com certeza não seria um bom augúrio, era recado dos deuses: vais dar com os burros n’água. Não podia me preocupar com isso agora, também poderia ser uma limpeza na minha vida, precisava pensar positivamente e me concentrar para não ficar andando de um lado para outro, além de segurar as mãos que queriam ficar se esfregando sem parar.
Afinal embarcamos. Quando a comissária de bordo nos recebeu já foi na língua mãe dela, ou seja me deu um frio danado na barriga, eu entrara em outro mundo. E se não conseguisse entender nada? Entendi e pude escolher minha janta, mas louca de medo, estava tão nervosa. E se eu vomitasse? Procurei não pensar que minha próxima conexão seria em Paris. Ai meu Deus! E se perdesse as malas? Paris... Sonho de todo brasileiro e meu em especial por décadas, mesmo que seguisse viagem era Paris, La France. U lá lá!
Dormi um pouco, abri os olhos, dormi de novo toda torta. Esses bancos da classe econômica são mesmo de lascar. Resolvi dar uma espiadinha pela janela que nos obrigavam a manter fechada, mas nunca fui muito disciplina mesmo, não gosto de ordens irreversíveis. Eram 2 da madrugada. Espiei. Ai, socorro, eu atravessei o mundo! Duas da manhã e o sol está nascendo. Uma emoção colossal me assaltou e chorei, bem que queria sair gritando e falando de minha felicidade e surpresa por ter atravessado o mundo, sonho que já abandonara, se realizando. Meu Michel... Se nada der certo já me deste esta sensação louquíssima de felicidade imensa. Chorei mais um pouco, segurei por que estava prestes a começar a fungar e a vontade era de soluçar atirada no chão. Quase não dormi mais, não podia acreditar, estava sobre o Atlântico e isso é inenarrável. Milhões de borboletas, grilos, libélulas (adoro libélulas) na barriga e todos em movimento.
Aterrissamos e me senti o papa, cheia de necessidade de beijar o chão. Não dava tempo, corri para a alfândega louca de medo do extravio de malas, de não localizar o embarque e me perder neste imenso aeroporto francês. Quando pensava “francês” quase desmaiava, era mesmo eu ali, toda sorriso e engasgo.
Outro avião. Já estava me cansando deles, mas agora seria rápido. Na Europa tudo é logo ali, pelo menos era o que me diziam não sendo bem verdade, mas meu destino final era mesmo logo ali, não precisava pensar na França e na Alemanha que tem mais cara de país pelo tamanho. Pelo menos de minha ideia de país. Que longos e tortuosos limites! E se... E se... Todos “se” que ouvira e outros que criara. Nem sei se me lembrava direito da cara de Michel ou se o que via era resultado de sonho, de memória antiga que não se apagara. Nunca lembrava direito do rosto de meu pai que morreu quando ainda era menina.
E se Michel esquecesse o horário de minha chegada?
E se lá fosse um trânsito dos infernos como São Paulo e se atrasasse?
E se ele tivesse desistido desta brasileira de tantas raízes que não tinha mais nenhuma? E se...
Tinha o suplício de esperar as bagagens ainda. Não sei o que fazem para sempre ser tão lento, é por que não é no deles que arde. Uma vontade danada de gritar que estava ali para me casar e era brasileira sem entender nada de nada desses erres todos que falavam, cheios de us pelo meio, cheio de biquinhos que encantariam a qualquer um, mas agora não. Ia carregada, ficaria três (de novo o 3?) meses, a experiência que faríamos para uma vinda definitiva.
Agora o tremor das mãos, da fala, se instalou forte, estava com tudo ajeitado no carrinho de bagagem e pronta para atravessar a última fronteira que me poria diante de Michel: a porta automática da sala de desembarque. E se ele não me quisesse mais?
E se...
Lá estava ele, lindo como nunca, aquele sorriso arrasador. Que se danem todos que disseram que não era isso tudo. Os braços abertos que se fecharam em torno de mim enquanto seu beijo morno punha lágrimas em nossos olhos.
E se... Se desse certo?...


Vana Comissoli

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Acorde Transversal (Vana Comissoli)

Algumas pessoas nascem e logo são percebidas porque já chegam berrando. Outras silenciosamente como um matinho qualquer e nunca se darão conta de que elas estão por ali, em meio às belíssimas e muito coloridas rosas e orquídeas.


Esta teoria fora criada desde que era muito pequena, tanto que talvez ainda não tivesse idade alguma e se fortificara ao longo da vida esgueirada silenciosamente pelas paredes. Às vezes não tinha muita certeza se os pais lembravam de a terem parido, outras tinha certeza total. O dia em que brotara deveria ter sido cheio de um sol absurdamente luminoso, onde tudo que se olha é apenas reflexo e não se distingue as cores mais claras, assim como ela com sua pele branca, tão branca que se amorenar nas areias da praia era inviável, até porque nunca vira o mar.


Não se incomodava muito por este cenário insípido, não tinha outro para comparar, nem sequer desejar, pelo menos não a obrigariam a falar e a se mostrar agradável a ninguém. No entanto, no silêncio das noites escorridas em lençóis brancos, ela sabia que algo se aproximava, a chamava, sem pensar que podia ser pura ilusão, ou angústia. Simplesmente esperava, sem nem contar os dias.


Quando a vizinhança de classe média e mexeriqueira se assanhou com a chegada do novo vizinho, não se deu ao trabalho de espiar por cima do muro, nunca falaria com ele e nem sequer lhe veria a face. Que importava se fosse velho ou moço, alto ou baixo? Devia ser nascido e não brotado, nada teriam em comum, como nada em comum tinha com qualquer pessoa de quem já tivesse enxergado a cara.


Maria Clara ouviu as primeiras notas como quem vislumbra o Anjo Gabriel anunciando uma graça divina. A música se estendendo pelo dia fez com que o sol deixasse de ser branco e tomasse uma cor amarelo dourada, que ela jamais poderia imaginar que tivesse. Pela primeira vez levou uma cadeira para o jardim e sentou-se. Não passava de um matinho em meio à grama e nela se perdia. Ninguém reparou nesta aparição, apesar de todos terem suspendido suas atividades, parando para ouvir a melodia que dançava pelos canteiros, escorregava nas paredes e pendurava-se em cachopas de acordes nas árvores mais frondosas.


À noite o piano continuava a cantar, às vezes com força aumentada, como se a escuridão lhe despertasse a fúria e a dor. Maria Clara atravessou a rua olhando para todos os lados e postou-se sob a janela sem sentir a umidade que chorara pelo gramado. Dormir era tão desnecessário quanto comer, ou se vestir, não perderia nada se estas atividades minguassem mais do que já eram. Os pais não se deram conta da ausência, ou se deram sentiram alívio, era estranho e atrapalhado ter uma filha muda que não era muda.


Maria Clara sentia o coração explodir de gratidão pelo pianista sem rosto, mas cheio de magia. Não lhe passou pela cabeça que era homem e algo poderia rugir em seu corpo. Nunca rugira. Moças brancas não têm transição, não aquecem, não sonham, não desejam. Seria doloroso demais ter esta ousadia e até uma moça branca tem medo do sofrimento, fechara todas as entradas desde que nascera, assim não haveriam saídas e nem tremores.


Um mundo se abriu para ela pleno de emoções, desde a alegria mais suave até a dor mais profunda que arranhavam a alma, mas não eram insuportáveis. Quem disse que a dor não pode ser bela?, ela descobrira que podia ser intensamente bela. Conheceu amores e rancores, vida e morte, mocinhas apaixonadas e traições tortuosas. Conheceu o viver.


Não tinha como expressar sua gratidão, sua felicidade: então, durante os recitais noturnos, cuidava do jardim do pianista que jamais soube disso. Descobriu que a cor da flores não feriam, eram lindas vibrando ao som das sonatas, dos acordes mozartianos, das rezas de Bach.


Quando o som do piano entrou pelas noites, os moradores não acharam tão bonito assim e, acostumados à voz estridente das novelas, não conseguiam dormir com os delírios de um pianista apaixonado. Foi feita uma enquete para descobrir alguém que se dispusesse a bater na porta sempre fechada, ou que fosse à janela sempre aberta para exigir respeito às horas de descanso, coisa que deveria constar da Constituição. Fosse lá pelo motivo que fosse, ninguém se ofereceu. Ficaram boquiabertos quando aquela moça sempre quieta, timidamente, levantou o dedo e, sem uma palavra, se candidatou à tarefa.


Ela tremia quando tão suavemente bateu à porta que não foi ouvida, precisou bater até o anoitecer, quando a porta se entreabriu não disse uma palavra de reclamação. O pianista nada perguntou. Voltou ao piano deixando a entrada livre para ela que passou a ouvi-lo sentada no chão, depois de se maravilhar com a sincronia transversal perfeita que havia entre o piano e as brancas tábuas de pau marfim. Sentou-se mantendo a harmonia, qualquer deslize perturbaria a melodia e isso não era aceitável.


Nunca trocaram uma só palavra, o pianista deixava a porta entreaberta e não era possível saber se percebia quando a moça entrava e saía, até que nunca mais saiu. Faziam uma refeição frugal na tosca cozinha. João Gustavo aliviado de não precisar preparar mais nada, comia ali apenas por cuidado para que manchas de alimento não viessem a macular as teclas brancas e marcar as pretas. As duas cores que se mantinham num paralelismo perfeito para todas as outras linhas da vida.


Às vezes, quando havia espaço para devaneios, a moça pensava que seus nomes, afinal, tinham sido bem dados: João e Maria. Marcavam, como na história infantil, o caminho de volta para casa, apenas suas pedrinhas eram musicais, feitas de notas que soltas nada significavam, mas diziam tudo alinhadas em desenhos mirabolantes, atravessando cinco linhas paralelas.


Ela não notou quando as primeiras notas vieram, pareciam soltas assim dispersas pelos dias, foram se emendando até que ouviu embevecida a Sonata nº 2 para piano em Si bemol menor, op. 35, de Frédéric François Chopin. Soube que este era o nome porque o pianista levantara e sussurrara ao seu ouvido. O lamento de despedida foi entrando nela, entrando tão delicadamente que não percebeu quando parou de ir à cozinha.


O último acorde foi sumindo sem alarde, soou através dos braços do pianista abraçando as teclas em transversal, assim como foi sem alarde o último olhar que lançou à moça, que apenas deixou escapar um suspiro enquanto em seu rosto resplandecia o arco-íris.



Vana Comissoli

sábado, 19 de outubro de 2013

Acordes (Vana Comissoli)

Abriu a porta cansado, era a décima casa que visitava para um possível aluguel que se mostrava impossível. Todas tão sem possibilidades, sem nem uma nota musical bailando à sua espera. Nem sequer entrou totalmente, a cabeça desencantada foi olhando o chão.


O piso de pau marfim tinha as tábuas colocadas de forma enviesada e ele fascinou. Atravessou o portal com olhos sonhando e já vendo como tudo ficaria. Nem se deu ao trabalho de olhar os outros cômodos, eram apenas mecanismos de sobrevivência: comer, dormir e banhar-se. Coisas que fazia na obrigação.


Voltou à imobiliária e não pechinchou o aluguel, fechou negócio para logo infernizar a transportadora, era absolutamente necessário que se mudasse no dia seguinte, tinha pouca coisa e fora o piano de cauda, com nada mais precisavam ter cuidados.


Os homens levaram o piano quase sob açoite, ele não parava de gritar impropérios e exigir delicadezas que espontaneamente estavam sendo feitas. Depois foi com régua na mão que ele escolheu o local do instrumento, bem ao centro da sala.


O escasso mobiliário foi colocado à vontade dos transportadores. Não tinham muito o que escolher, cama e armário apesar de capengas só podem ir no quarto, fogão e geladeira tinham a cozinha como destino certo. Algumas poucas caixas de roupas e louças, todas misturadas, ficaram no corredor à espera da disposição de seu dono para ir aos armários. Sabe-se lá quando.


Assim que a porta fechou atrás dos homens suados, ele abriu as janelas e o sol da manhã escorregou pelo chão, tornando-o mais claro e pondo reflexos de brilho sobre a lateral do piano lustroso. Fora colocado ao contrário do encaixe das tábuas, o que davam uma desconcertante transversalidade, como se os caminhos se cruzassem sem jamais se tocar.


Ficou vários e mais vários minutos em êxtase olhando o que lhe parecia uma obra prima, prestes a bocejar criando vida. Sentia o fluir do sangue através dele, pronto a entrar nas veias retas do piso e das teclas. Sentou-se em reverência no banco junto ao instrumento e acarinhou as teclas com devoção, para em seguida fazer soar os primeiros acordes de uma sonata de Schubert. Sabia de cor cada nota e fechava os olhos como se a música formasse imagens dentro dele. Algo perdido no tempo, muito antes dele ter vindo ao mundo para tocar.


A noite chegou e ele continuava tocando, levantou-se algumas vezes para admirar a transversalidade. Era atravessado na vida e tinha, depois de muita busca sem saber o que buscava, encontrado a representação de si mesmo. A música atravessando a planura dos dias e a paralelismo com que convivia no mundo. Toda a luz vinda das notas que dançavam em torno dele, numa corporificação não permitida aos outros simples mortais.


Não se achava um exímio pianista, não achava que ninguém era digno de ser assim chamado. Não tinha amigos e nem namorada, nunca tivera. Quem falaria com tanto acerto como o piano? Quem teria uma curva mais precisa e suave que a cauda do instrumento? Quem se deixaria tocar com tanta sensualidade, raiva, amor, dúvida, tristeza do que as teclas que falavam, ronronavam, gritavam e seduziam? O único filme que merecera sua atenção foi A Lenda do Pianista do Mar e pela primeira vez na vida desejara ser outra pessoa que não ele, para deslizar pelo balouçante salão de um navio enquanto guiava seu imortal amor numa suavidade ondeada.


Solitário? Jamais! Vivia acompanhado desta alma musical que se corporificava sob seus dedos. Já dormira incontáveis noites sob o corpo do piano, como quem está com a mulher amada. Seus orgasmos eram infinitamente mais completos e lúdicos sob ele.


Às vezes se lembrava de banhar-se, comer, trocar de roupa para em seguida voltar aos pés do piano quase humilde, quase culpado por tê-lo abandonado nas exigências da vida.


Não fechava as janelas, imaginava que as notas precisavam de fuga para o céu de onde vieram, tinha certeza. No início os vizinhos ouviam encantados a música elegante, refinada e perfeita que o novo morador trouxera. Todos os mestres estavam presentes nela, devia ser de acordo com o estado do morador, cogitavam meio em surdina por cima do muro, como se não quisessem incomodar o pianista. Quando a música, fosse de quem fosse, atravessara as noites roubando o sono tranquilo, começaram a não achar tão bom assim. Quem seria o escolhido para bater àquela porta que apenas se entreabria para receber compras do mercado, na certa feitas pela internet ou telefone? Teria telefone? Nunca ouviram um único tilintar.


O vizinho não vinha à rua cuidar do jardim, nem sequer por o lixo para ser recolhido. Talvez de noite fizesse isso? Porque o jardim estava mais impecável do que jamais fora e belas rosas brancas desabrochavam em grandes e perfumadas pétalas. Alguém teria que enfrentar a tarefa, pedindo ao estranho morador que não tocasse durante a noite. Quem? Sem nunca terem visto o pianista, como era chamado, tinham um estranho medo dele.


João Gustavo ficava alheio a esses movimentos, não se daria ao desagradável trabalho de pensar em vizinhos, eram formigas para ele, as quais se pisa sem se prestar atenção, ou talvez nem sequer existissem realmente.


Maria Clara era uma mocinha sem graça, meio escondida pelos escorridos cabelos mais claros do que o desejável e a pele que se perdia nele por tão parecida ser na cor. Franzina, com seios encolhidos e pernas longas e finas cobertas por vestidos fora de época. Talvez pela aparência desamparada, acreditaram que o pianista se compadeceria e foi a escolhida. Para surpresa da vizinhança e alívio, ela se ofereceu para a empreitada. Não sabiam que muitas e muitas noites ela se esgueirara para baixo das janelas musicais e ali ficara até o amanhecer pintar o céu, o que lhe deu umas olheiras escuras que mais apareciam no rosto de leite.


João Gustavo nem sequer ouviu a primeira batida na porta feita por dedos trêmulos e magros, sem força para um toque firme. Talvez na terceira ou quarta vez tenha ouvido, mas era treinado em ignorar vendedores e pedintes que nada encontrariam com ele. Irritado com a insistência atendeu, os olhos cuspindo raiva pela intromissão.


Olhou a insignificância da figura e esperou sem uma palavra. Ela gaguejou o pedido para em seguida acrescentar que não era sua vontade, que o ouvia hipnotizada sob a janela e que por sua vontade ele tocaria sem qualquer intervalo. João fincou os olhos nos dela, não ouviu muito bem o recado, mas o encantou a ouvinte inesperada. Mandou-a entrar e ofereceu o chão como assento. Maria Clara não achou nada estranho e sentou na transversalidade do piano.


A vizinhança não teve o alívio esperado e, ao verem que a moça entrava e por lá ficava horas a fio ao longo dos dias, também não teve o amor surpreendente e tórrido que levaria vida ao pianista, na opinião deles.


João Gustavo em nada mudou sua rotina, apenas acrescentou um abrir de porta. Maria Clara não abria a boca nem para o bom dia, isso era absolutamente desnecessário e era um acerto tácito entre ambos. Sabiam que o som de suas vozes atormentaria a perfeita harmonia das notas.


Ao contrário do esperado pelos maledicentes vizinhos, ela não se tornou cantora de ópera e muito menos apareceu grávida. Não aprendeu a tocar piano e continuou não distinguindo uma clave de sol de uma clave de fá. A música era algo vivo que bastava que fosse João Gustavo a ter a dor de parir através do estudo das bolinhas e riscos negros atravessados nas folhas pautadas.


Os anos se passaram e a vizinhança se acostumou a dormir embalada por Mozart, Bach e sua turma. Os pais de Maria Clara pararam de reclamar que ela ficaria difamada entrando na casa de um homem solteiro, não prestavam atenção alguma a isso e às vezes nem sequer notavam que ela não estava em casa.


A música cessou de repente, sem desafinar e sem o acorde final. No meio de Minha Amada Imortal, a Nona Sinfonia de Beethoven.


Houve alvoroço na vizinhança, algo novo e muito sério acontecera. Bateriam na porta? Lembraram-se da moça branca, nem os pais sabiam o que havia acontecido com ela, parecia sumida como uma última nota tocada que paira um pouco no ar e se esvai sem ruído algum. Pensaram em chamar a polícia, mas era um bairro tão família que negaram o alvoroço. Pensaram em bater à porta, a moça era maior de idade, alegariam o quê? O grandalhão da rua, que impunha respeito pelo tamanho dos bíceps, foi escolhido para espiar pela janela. Pé ante pé, nervoso como se o dono da casa pudesse enfrenta-lo numa briga, espiou.


Deitado sobre o piano, abraçando as teclas, João Gustavo parecia dormir. Transversal. No chão cruzando as linhas das tábuas do chão, tão clara como pau marfim, Maria Clara também transversal.


O duplo sepultamento foi feito ao som da Sonata nº 2 para piano em Si bemol menor, op. 35 de Frédéric François Chopin, que chamamos de Marcha Fúnebre, mas que o pianista jamais assim intitulara. A vizinhança assumiu os preparativos, não tiveram coragem de mandar o pianista para um enterro indigente, ele absorvera suas emoções transformando-as em música, de modo que jamais tomaram proporções abissais em seus peitos.


Após alguns dias e noites silenciosos, onde ninguém se acomodava muito bem no sono, acostumados estavam a ser embalados, muito fraco e depois no velho e desejado volume de antes, a música voltou a percorrer as ruas e bater nas casas com sua esperança, tragédia e luz.


Na primeira manhã após a volta das melodias houve certo alvoroço, uma curiosidade velada para descobrir quem tocava, ou quem ligara o som dentro da casa que nunca mais conseguiu ser alugada. Fracas tentativas de busca e insossas perguntas foram feitas e calaram rapidamente: sem combinarem nada os vizinhos aceitaram como vindas do céu, para onde subiram levadas pelo amor do pianista. Se descobrissem o encanto estouraria como bolha de sabão, ou então seria mesmo a alma de João Gustavo que buscava seu piano à transversal das tábuas de pau marfim. Também nunca comentaram, nem sequer deram a entender que ouviam um fraco suspiro de mulher.


                                                            Vana Comissoli


sábado, 20 de julho de 2013

Cisne Negro (Vana Comissoli)

Eu chorava escandalosamente e as asas se abriram em todo seu apogeu, não me incomodei em atrapalhar o cara ao meu lado, encolhido no seu não espalhafato. A emoção era gigantesca, talvez exagerada, mas o que a beleza não faz com a gente?


Acordei com minha mãe me chamando daquele jeito meio ridículo, amaciando a sinuosidade de meu nome, não entendo por que ela faz isso se foi ela mesma que me deu esse nome assim torcido e ambíguo.


- Ama  ryllis!


Grafava no tom de voz as duas primeiras sílabas e escondia o resto quase num sussurrar. Só faltava arrancar as cobertas e me tapar os pés.


Eu me deito e puxo o edredom até que cubra a cabeça, depois suo e acho bom a mornidadão molhada que escorrega em mim fazendo com que seja fácil transitar pelos túneis noturnos que toda noite encontro. Toneladas de terra que não me sufocam e permitem que eu nunca veja a luz solar que me torra os miolos e expõem minhas coisas mais secretas, tão secretas que nem eu mesma sei o que são. Não teve análise, psicanálise levantando véus para mim.


Depois ia para a aula e tirava sempre dez aplaudido por todos e eu sabendo que não sabia nada daqueles números todos e fingia que sim acertando problemas de álgebra e logaritmos e todos nomes sem significado enquanto as palavras se atropelavam sem ir a lugar algum por que não entendia de alma das palavras e nem os fantasmas que moram nelas, mas sabia compô-las com esmero. Futura escritora, era a certeza da plateia que minha mãe reunia. De coisas mortas pensava eu olhando o papel cheio das cobrinhas desenhadas por minha letra. A reunião , eu sabia, não era tanto pelas minhas conquistas, mas para mostrar como ela fizera uma filha tão inteligente.


Fui sabendo mais coisas enquanto continuava a dormir soterrada pelo edredom e ouvindo todas as manhãs o chamado ridículo com o qual comecei a implicar sem perceber e que afinal eu gostava tanto por que soava como amor, mas amor era uma coisa plástica que se resumia a letras as quais eu não entendia nada.


Uma vez me disseram que eu devia ter muita raiva, nem sei quem disse esta idiotice já que era tão gentil e sorrir era meu forte, adorava dar presentes e resolvi visitar doentes num hospital levando flores das quais nunca soube o nome. Nem conhecia os tais doentinhos e não gostava do cheiro de formol que tinham. Não ligava por que eu também não entendia nada de doenças e nunca respirara formol na minha vida. Era apenas mais um ato para encantar mamão e motiva-la a muitos outros chá com bolinhos e amigas.


Eu tropeçava todos os dias e caía de formas que ninguém nunca caía e era a rainha do joelho ralado e isso doía e eu sabia muito bem. A dor faz parte da vida, me diziam e sem entender achava que sim afinal vida e esta coisa que acontece todos os dias quando eu saio dos túneis mornos e suaves de meus sonhos. Bem pouco suaves já que tinha pesadelos à beça o que era muito desesperador, o sentimento deles era real para mim..  Eu não contava para ninguém sobre isso, seria feio demais dizer que uma alma tão gentil tinha pesadelos de monstros e de sonhos esquisitos que atormentavam minhas noites com um aconchego indevido.


- Ama ryllis!


A cortina foi aberta e a luz do sol entrou secando minha pele deliciosamente suada. Minha mãe não tinha cara já que estava contra a luz e eu só enxergava o negro silhuetado em que se transformara. Nem sei o me deu naquela hora, mas sei que deu e bem vi o rabo fino saindo lá da outra ponta do edredom e não parecia nem um pouco uma minhoca com aqueles guizos se sacudindo num barulhinho estranho que logo escondi me tapando toda e respondendo suavemente que já ia, já ia...


Afinal para onde ia eu sem entender nada deste jeito e louca de medo de ter um guizo de cascavel, tão suave e gentil menina de camisola rosa deitada nos lençóis macios e floridos como dia de primavera eterna que era minha vida doce, doce como mel. Não sei bem como me lembrei da doçura enjoativa do mel e não daquele jeito de lamber os beiços que as pessoas usam para o mel. Senti a picada da abelha escondida no mel, afinal elas são ou não são as donas dele e nós roubamos em aviso nenhum?


Era uma abelha das grandes toda listada de amarelo e preto e tinha uns olhos redondos iguais aos olhos de minha mãe. Sentou-se na poltrona de meu quarto me mandando escovar os dentes direito e não deixar os cabelos emaranhados coisa feia para uma menina. Depois foi voando e zunindo atrás de mim enquanto eu corria e corria para fazer a tempo aquele monte de coisas que mandava e ainda assim não me atrasar para a aula pois fica muito feio uma menina assim delicada se atrasar.


A abelha ficou dizendo tchau Amaryllis e foi pela primeira vez que percebi como meu nome sibilava combinando com aquele rabo de cobra que nem vou falar muito alto para não ser de verdade, embora eu achasse tão bonito seu cascalhar. O nome sibilava sim e fiquei ouvindo aquele sssss a aula inteira, achando lindo, lindo e olhando para os lados para ver se ninguém via como eu estava achando bonito e gostando muito mais do que das letras abertas do início dele.


Pela primeira vez a professora me perguntou o que estava acontecendo pois estava distraída e falou alguma coisa de passarinho verde e eu nem sabia que existia passarinho verde. Assim distraída eu percebi que as letras tinham sim um humor e diziam coisas fantásticas falando ao meu ouvido o tempo , saltando do quadro numa bela dança que tanto podia ser flamenga como mudava o rumo para um rock batido e até um tango dramático e mortal.


Foi um deus nos acuda, chamaram a diretora e a moça que fingia de enfermeira também pondo a mão na minha testa por que eu estava dançando com as letras e as equações pularam do meu caderno e os números dançaram um samba canção para me fazer entender de uma vez por todas como 1 mais 1 era mesmo dois, ou nem sempre e outras coisas que até então eram grego para mim.


Levaram-me para casa e a abelha lá estava chorando e arrancando os pelos do corpo desesperada e eu ria, ria por que nunca tinha visto abelha arrancar pelos e era para lá de gozado. O ferrão da danada apareceu e vi que tinha um veneno terrível que instilava nas minhas veias me chamando de filhinha e fazia um rombo enorme no meu braço. Lembrei-me que abelha africana é mesmo das brabas e a gente precisa matar sem dó. Era a abelha ou eu! Dei o bote sem me preocupar com o rabo que deixou de se esconder balançando no ar toda a vez que aparecia uma abelha para picar o meu caminho.


Foi nesta noite que minha mãe pela primeira vez disse meu nome por inteiro, com todo seus esses e is seguido de um boa noite sem ficar me enchendo o saco me forçando a rezar umas rezas que eu não sabia bulhufas sobre seu significado e muito menos acreditava.


Foi bom rezar baixinho, entendendo tudo sem estar com a cabeça enfiada nos travesseiro e atirando o edredom no chão, uma vez que fazia trinta graus todos os dias deste verão sufocante. A luz de cabeceira ficou apagada também pela primeira vez e não senti medo nenhum, até levantei calmamente e fechei a porta que nem sabia se fechar, mas aprendeu ligeirinho.


Estiquei-me na cama de um jeito gostoso, as pernas se alongando até mais não poder, tinha pensado que estavam enguiçadas e não soubessem se esticar. Tive um orgulho imenso daquele guizo que aparecia lá embaixo e sacudi bem para ouvir seu som bonito e sabendo muito bem que sempre que eu precisasse ele estaria ali para me salvar de ser picada por uma abelha africana das malvadas mesmo.                                                                        Vana Comissoli

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Aulas de Culinária: Ah!... Família... (Vana Comissoli)

     casa


       A casa ficava a sombranceiro do morro. De longe, ao subir a lomba, já se avistava suas aconchegantes formas brancas: o arco da varanda,  as duas janelas alegres, sempre abertas para as hortências, que no verão coloriam tudo de azul alilasado. A porta das visitas também era oval e a campainha estrilava num som de sino,  agudo e divertido. De perto, seu reboco, lembrando glacê de bolo,  despertava desejo de criança: dedo roubando porção para lamber.


         Havia um estreito corredor ao lado da casa por onde se chegava à entrada íntima. Sua pequena área estava invadida pela pitangueira carregada de frutos vermelhos e cheirosos. Impossivel  passar sem roubar uma folha e masserá-la até que sua seiva enchesse a mão de perfume intenso, obrigando a gente a cheirar as pontas dos dedos até  terminar o alento. Era desta porta que eu mais gostava. Meu passaporte de importância, de aconchego, eu  fazia parte da família, nem me importava de não retinir  campanhia.


         A casa pertencia aos meus tios, onde costumava passar as férias. Construída num bairro distante e pouco habitado, chegar lá dava sensação de viagem a outra cidade. Balançava em dois ônibus para vencer a distância de chegar. O bastante para sentir-me em outro país.


         Saía do apartamento silencioso de filha única e penetrava na ruidosa vivência com meus quatro primos: duas meninas e dois meninos. Todos mais velhos do que eu, mas não tanto que me fizesse sentir ameaçada.


         Em casa, empregada arrumando meu café, almoço pronto quando chegava da escola; roupa passada e cama feita na hora de dormir. Lá, no lar de verão, lavando a louça com as meninas, aprendendo incipiências de culinária, varrendo o chão e tirando o  pó. Dias pares na limpeza, com a prima Ana; dias ímpares, com  Suzana no preparo das refeições . De noite sempre sopa, e, às sete em ponto, que o tio era severo e chegava cansado do trabalho. Só mais tarde vim a compreender que era também machista e autoritário. Na época o víamos apenas o pai.


         Dezembro se aproxima. Os exames do fim de ano exigem muita atenção, se passar em todas as matéria (agora são muitas, pois estou com quinze anos e adiantada na escola) irei gozar as férias na casa da tia Zuleica. Termino tudo muito bem.


         Lá me vou, maleta em punho, sacolejando no ônibus amigo. O ponto de descida é um pouco além da casa, por isso, da janelinha, vejo meus primos em festivos abanos de boas-vindas.


         Beijos, risos, tudo a que tenho direito, me recebe. Meu coração pula de alegria. Alguém me toma a bagagem das mãos e vamos entrando pela porta do lado, mão esticada para arrancar a folha de pitanga. A cachorra vem latindo e abanando o rabo,faço um carinho rápido no pelo hirsuto. Vontade de entrar logo na ampla cozinha, a maior peça da casa, onde a família se reúne para comer, brigar e fazer planos. Onde  passarei a maior parte do meu tempo nos próximos dois meses.


         Ah, que bom ver de novo os dois fogões: um a lenha, onde a chaleira nunca esfria e outro a gás, para modernizar as lides. A grande geladeira branca, com seu logotipo GE,  bonito nas letras douradas. O paneleiro e suas panelas de espelho, orgulho da prima Suzana. Nos armários de aço, pintados de branco, guardam-se as louças com suas pinturas de rosas e junquilhos. As prateleiras laderais, de flancos arredondados,  suportam, com orgulho os objetos preciosos: chaleira antiga, peças de porcelana desparceiradas e o maravilhoso bule de chá inglês, todo azul com figuras brancas: cenas de caça.


         Na mesa redonda, onde sentamos espaçados, largo minha bolsa novinha. Vontade danada de distribuir os presentes: lenço de cambraia com um Z bordado à mão para a tia, brincos dourados para Ana e prateados para Suzana; par de meias azuis para Humberto e marrons para Roberto. O tio não precisa.


         Meu primo Roberto é o mais velho, sorriso mestiço, movimentos calmos, voz que se ouve em raro. Meio burro, não conseguiu terminar os estudos, por isso dedicou todos os cuidados ao corpo que  desenvolveu pendurado na barra do quintal.A pele foi amorenada no trato do jardim e num sangue índio perdido nos ancestrais, -até negro tem na família- informava a avó no desacerto de seus  olhos azuis  de origem francesa.


         Humberto puxou a mãe: uma barata meio descascada, cabelo sem cor, ou cor de areia, se um elogio fôsse necessário. Humor fácil, riso solto, um nome feio sempre na ponta da língua. Namorador e apaixonado. Cada festa um porre e uma declaração de amor para quem estivesse mais próximo.


         Ana, a mais velha das irmãs, retrato escarrado do primogênito, até no comportamento resguardado. Contrário de Suzana, a caçula, rabo quente, mentirosa e matreira. O problema da família, com sua predileção por namoros nos cantos escuros e dança de rosto colado. Rindo de sacudir toda ao enganar o avô cego e conseguir uns trocos para comprar um cigarro que seria fumado escondido, atrás das laranjeiras carregadas.


         Todos de férias. Tempo de sobra para traquinagens. Nós, meninas, na obrigação do levantar cedo, sempre prontas para uma brincadeira sacana com os rapazes que dormiam até mais tarde. Eles, correndo atrás, em vinganças de cócegas, ou de nos pegar desprevenidas estourando  ovo nos nossos cabelos sedosos.


         A manhã nasce ensolarada. Preparamos os paus de fósforos queimados até o limite, ainda com a brasa viva. Eu serei a agente do dia.


         Entro no quarto dos primos. Roberto dorme na cama mais próxima, será a vítima. O lençol mais descobre do que esconde o corpo, só de cuecas devido ao calor. O pé está  na posição correta, virado para cima, dedos na espera do mosquitinho ardido. Com todo cuidado implanto o fósforo em brasa. Meus olhos escorregam pelas pernas de músculos proeminentes, tão diferentes das minhas e um segredo dentro da pequena peça do vestuário, não sei porquê, se avoluma em minha direção. Saio rápida. As meninas me esperam no corredor, em risos seguros pelas mãos em concha sobre a boca. Meu coração está assanhado dentro do peito. Será medo que o primo me pegue na ação diariamente esperada?


         Um grito, um - merda, guria sacana ─ nos põe a correr. Logo o vulto,  com calções ao meio das pernas vai crescendo sobre nós.


─Cada uma para um lado.


  Corro o mais que posso procurando o abrigo seguro das laranjeiras. Uma mão me pega pela saia e me puxa, dois braços de ferro me levantam do chão e eu grito um socorro cheio de risos. Demoro a sentir a terra sob os pés, o abraço parece-me que afroxou, mas, porque não me larga? Enfim posso fugir. Olho sobre o ombro verificando a solidez da distância. Roberto não me segue. Está parado me olhando.


         Os dois rapazes sentam-se à mesa, Humberto bate no tampo e com voz de tio exige:


─ Café, suas lerdas, minhocas de aquário, antas velhas.


         Prestativas colocamos as xícaras servidas e fumegantes ao máximo, já bem açucaradas com sal. A vingança, bem sabemos, será cruel.


         Hoje é terça-feira.


         Suzana abre a GE. Tira um tatu de bom tamanho, linguiça, ovos, tempero verde, cebolas e muitos tomates. Eu observo.


         ─ Corta esta cebola, bem miúda, Angela, enquanto ponho a panela de ferro para esquentar.


         Obedeço. Na cozinha é o que me resta.


         Minha prima faz um furo na carne com uma faca pontuda e comprida. Penso nas notícias de morte que, às vezes, ouço meu pai comentar enquanto lê o jornal. O ovo ferve em cima do fogão à lenha e a panela, se esquenta na boca de gás. A linguiça é introduzida na carne. Olho fascinada. A carne é vermelha e Suzana a segura com firmeza, enche-lhe a mão. O recheio da linguiça, carne guisada, estica a pele que o contém, entra sem medo no túnel escuro que aguarda.


         ─ O que foi, guria, está de mandrake? Pega os tomates e pica bem picado, mas antes escalda para tirar a casca.


         Obedeço, sem deixar de olhar a linguiça entrando no tatu e depois um ovo duro e mais outro.


         O cheiro da banha quente satura o ar. Alho amassado e derramado sobre ela, uma fumaceira sobe da panela. A cebola que vai a seguir, perfuma tudo.


                     Suzana fecha o buraco da carne com o pedaço que tirou dela e prende tudo através de palitos.


         Sinto um movimento nas minhas costas quando me viro recebo em cheio, na cara, um punhado de farinha de trigo e um copo d’água. Roberto ri, tanto que precisa se agarrar nos meus ombros para não cair e encosta a cabeça na minha enquanto esperneio e dou socos flácidos no seu peito.


         Preciso de um banho, trocar as roupas. Suzana continua sozinha o trabalho. Liga o rádio no máximo e, do banheiro que divide parede com a cozinha, acompanho pelo cheiro, a carne ser posta na panela e ir dourando. O aroma se aprimora na lentidão do fogo. Os tempêros caem um a um e percebo o alecrim, a pimenta do reino, pouquinho de orégano. Afinal dimunem de intensidade quando a tampa recolhe todos eles. O sal não senti, que perfume não tem nenhum.


         Volto a tempo de ver o molho italiano ao suggo ser preparado.Muita cebola frita, alho de companheiro. O tomate, que piquei, avermelha sobre tudo, chiando no calor. Depois a folha de louro, a pimenta do reino, o sal; em seguida uma prova na palma da mão . Suzana faz um volteio, sacode o corpo ao rítmo do samba-canção que canta a saudade do amor longíncuo. A mexida da colher-de-pau na grande panela cheia de água , sal e um tanto de azeite, medido no olho, acompanha o começo do Roberto Carlos falando em botões da blusa se abrindo. A moça-cozinheira abre a própria roupa e eu fico hipnotizada, olhando. Em vez de seios em soutiens, enxergo pernas e volumes em cuecas.


         O molho ferve, a carne dourada  cozinha no próprio suco e o macarrão entra duro, se amolecendo aos poucos na água fervente. Espaghetti.


         Almoçamos com voracidade. Tia Zuleica foi ao médico, o tio, como todo dia, voltará apenas à noite. Temos festa, coca-cola e malícia. Humberto senta-se ao meu lado e fala da namorada Telma, uma gata para ninguém por defeito, uma paixão de arromba - definitiva. Ana sacode a cabeça em desaprovação e gira no dedo o anel de promessa que o namorado, quase noivo, lhe deu. Suzana come e mais nada. Pensa apenas na ambrosia amarela e doce esperando na geladeira. Roberto, na minha frente, olha o macarrão se enrolando no garfo, o molho vermelho que pinga e crava os dentes com força na carne macia. De espaço em espaço, espia por cima do garfo, bem na hora que o espio também e baixamos rápido a cabeça. A comida cai como uma pedra no meu estômago.


         O Natal se aproxima, a família toda virá festejar aqui. Dias antes estamos no preparo da cera esticada no chão, a árvore de puro brilho e lâmpadas montada na sala, a cozinha cheirando a calda, ovo, passas de frutas e pães crescendo no forno.


         Sempre ajudei meu primo mais velho a arrumar o pinheiro que quase alcança o teto. Quantas vezes ele me levantou no colo para que eu pudesse colocar a estrela-guia no galho mestre? Estou muito pesada, mesmo assim ele tenta me erguer, meu corpo tem que colar-se ao dele. Estendo os braços  em direção à árvore enquanto sua mãos me pegam pela cintura:


         ─ Ligeiro, prima, que não te aguento.


         ─ Mais um pouco, mais um pouco. Ah!


         Caímos os dois. A cadeira aonde subimos desaba junto. Rolamos no tapete e eu o abraço, nossas bocas se buscam numa ânsia que cresceu dia a dia. Sinto seu peito chato apertando meus seios incipientes e seu sexo pressionando o meu. Ele é tão grande, tão quente. Me liberto, saio correndo para o banheiro. Choro de frustração, desejo intenso e impossibilidade.


         Os dias que faltam para a grande festa passam normais: nenhuma palavra estranha é trocada, nenhum comentário incômodo é feito. O silêncio é muito mais rico que o falar. As brincadeiras de cócegas se tornam longas, as vinganças terriveis, abraços  poderosos e os mosquitinhos da manhã são colocados com técnica mais aprimorada, exigindo uma demora na consecução do feito.


         Roberto deitado, olhos acesos, espera a chegada da terrivel agressão ígnea. As mãos ásperas seguram a prima traidora e fazem revanche passeando pelos ombros, audaciosamente, indo aos seios. arrepiando os mamilos. Sem poder escapar Ângela se estica na cama e permite. Faz parte da guerra: atacar e ser atacado.


         A festa enche a casa de tios, avós, primos, primas. Hoje é Natal, todo mundo pode beber um pouco mais. Isto dá chance que, os que estão de mal, por motivos justos ou não, se abracem e confessem um bem-querer imorredouro. Lá está Humberto, o campeoníssimo do perdão de Natal, pendurado no tio, ouço sua voz tropeçando nas consoantes:


         ─ Eu prometo, pai, volto a estudar, tu sabes como te amo, mas não sou teu filho predileto, gostas mais do burro do Roberto. Vai ver, por isso preciso rodar, aquela história de chamar atenção.


         ─  Filho, besteira, eu que te amo. Tu vais fazer o melhor, tu és o melhor.


         As lágrimas se misturam, trocam de cara e saem os dois abraçados a tomar a fresca da noite enquanto a turma jovem canta a plenos pulmões:


         ­ Noite feliz, noite feliz.


         O Senhor, Deus de amor...


         Vejo Alceu, o quase-noivo de Ana, puxá-la para a varanda.


         ─ Ana, meu bem, eu te amo.


         ─  Eu também te amo, Alceu.


         ─ Morzinho, a gente vai casar. Já compramos fogão e geladeira.


         ─ Que bom!


         Alceu abraça a quase-noiva, sua mão anda nas costas, no pescoço. Enquanto seus lábios calam sua boca, a mão toca a ponta do seio por sobre a blusa.


         O pensamento de Ana corre também, atrapalhado:


         ─ Alceu é meu quase noivo, a gente vai casar, ele disse. Nos amamos... No seio, só no seio pode; ou não pode?


         Suzana levanta-se do sofá, larga na mesinha de centro o cálice com um resto de vinho branco, demora para se aprumar, parece que o corpo está muito pesado. Retoma a caminhada rumo ao corredor, erra a porta, bate com o ombro no batente. Pára e enfim desaparece.


         ─ Puta que pariu, estou bêbada. Preciso chegar no banheiro, está me dando uma ânsia, ai, que vem tudo para fora. Anselmo, desgraçado, filho de uma égua, não vieste e comprei abotoadura cara de presente. Eu arrumo logo outro, idiota, brocha, fresco. Cadê o banheiro? Mudou de lugar, merda?


         Eu continuo cantando, mas não deixo de ver quando Roberto sai da sala. Sinto sede, tenho urgência de beber um refrigerante, a champanhe me deixou tonta. Fumei um cigarro que me deu uma bobeira na cabeça.


         Ao chegar na cozinha encontro meu primo. Não tem ninguém no fundo da casa, ele me abraça:


         ─ Ainda não te dei feliz Natal, prima. Desculpa o esquecimento.


         ─ Foi nada.


         Ele me beija na boca e fico mole, devagarinho vamos indo para a churrasqueira, às escuras na falta de utilidade nesta noite. Roberto se deita no sofá e me puxa sobre ele, suas mãos procuram lugares que quero entregar. Sua voz, distante como as estrelas, soa lambendo o meu ouvido:


         ─ Nunca faça isso com mais ninguém. Não vão cuidar de ti. Só eu vou cuidar, só eu...


         Não quiz ficar na casa da tia Zuleica até a chegada de março. Minhas amigas estavam me procurando, disse minha mãe. Depois cresci, nunca mais passei férias lá, mas não perdi  a amizade pelo meu primo Roberto, nós crescemos juntos, difícil esquecer, mesmo depois de casada.


         A esse tempo devo o fato de ser excelente cozinheira, meu marido que o diga!


 


                                                                                Vana Comissoli


 


                     

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Névoa (Vana Comissoli)

A névoa entrou sub-reptícia por baixo da porta. Foi confundida com a umidade que impregnava o “lá fora” como só os invernos distorcidos do sul conseguem ter. Primeiro ela varreu e varreu incansáveis vezes, não podia perceber que a névoa subia e já se enroscava nos pés das cadeiras que foram umedecendo inexoravelmente, contaminando o chão e os passos tortos que ela ainda tentava dar. Os saltos de dança como era seu costume foram se amontoando em cima da poltrona e do sofá com as pernas muito presas sob o corpo. Fingia não os ver, se os visse dizia que era uma posição de yoga transcendental que a levaria a alturas inimagináveis. Quem sabe muito próximo do Olho de Deus, estivesse escondido onde fosse.
Não deixou de ter razão. Foi levada à distâncias impensáveis. A diferença é que não foi para cima, foi para dentro, muito dentro de si mesma. Naqueles espaços longínquos e desconhecidos da alma ainda presa em alguma reminiscência do passado, ou seus neurônios que deixaram de dançar rumba e se puseram a bailar um melancólico e choroso lamento dentro de usa cabeça. Ainda se negava a ouvi-los deixando que os dias se amontoassem numa tentativa infrutífera e infeliz de fazer de conta que a vigem sideral que se aproximava era apenas uma piada de mau gosto se deslocando suavemente para fora quando o sol trouxesse um novo dia.
Nunca este amanhecer demorou tanto, se alongando em madrugadas alienadas cheias de seres tão íntimos e desconhecidos que habitavam a única companheira com quem se permitia partilhar o momento degradante: a televisão. Eles a viam dormir e acordar, debater-se sem fazer sequer um movimento enquanto o corpo de entorpecia de dolorosa fixação à cama.
Totalmente impossibilitada de viver e não querendo ainda aceitar que era uma sobrevivente como todos os outros, com a diferença que não estava mais fingindo “que fazeres” ou soluções drásticas como aguerrido prazer pelo dinheiro, ou sexo, ou drogas. Quem sabe alguma fantástica proposição benevolente de cuidar de outro ou outros seres humanos em nome de uma ética, talvez algum deus despido de misericórdia.
De vez em quando brigava um pouco com algum ser imaginário que chamava de Deus por ter feito a vida uma coisa tão miserável e transitória onde não se faz outra coisa além de perpetuar a espécie desesperadamente, mesmo que parte desta espécie fosse ela mesma.
Afinal conseguiu perceber a névoa tomando a altura de seus ombros e tudo que era possível fazer se limitava a navegar através dela, sem enxergar nada. O nada era a maior permanência junto com as vozes que vinham da tela colorida e sistematicamente ligada. Tomou a decisão que, se não era possível viver a sua própria vida, então que ao menos vivesse a dos personagens que quase sempre atravessavam todas as dores do mundo fosse como fosse para desembocar num final feliz ou ao menos satisfatório. Se o final trouxesse a morte, a fiel escudeira que nasce com todo mundo, também havia alguma solução desesperada de transcendência que permitia adivinhar uma continuação absolutamente incomprovável de vida que alimentava a permanente presença do desejo de não morrer.
Foi assim que viveu cem ou mais vidas se mimetizando em personagens fictícios que transformava em reais para respirar com eles e sentir alguma emoção que não fosse a dor na pele e o aperto no estômago que tornavam o “ir lá fora” uma tarefa hercúlea a qual não se submetia a menos que os cigarros tivessem acabado.
Foi tudo que a mente humana pode criar e transportar para a tela que chamam de cinema. Desde alienígenas fazendo contato expresso de terceiro grau, até viagens sonhadas à Marte ou outro planeta distante qualquer que passavam a impressão de que era mesmo onde estava vivendo no emendar dos dias sem sentido. Se prostituiu nas ruas de Las Vegas ou Los Angeles sem jamais ter estado em qualquer dessas cidades, caminhou atrás de amores bobocas pela rua da grande maçã e sofreu como filho de um pai perdido na destruição das torres gêmeas. Foi à África, à Europa e conheceu o mundo todo vivendo entre tribos primárias que sofriam a desgraça de pertencer ao terceiro mundo totalmente estigmatizada pelos pseudo grandes primeiro mundistas. Até participou do assassinato de Bin Laden e outros monstros terroristas. Esteve nos dois lados das inúmeras guerras que ainda zumbem nos ouvidos como alerta mudos para a humanidade fazer de conta que jamais repetirá a bobagem, repetindo-a todos os dias. Nas grandes ou pequenas distâncias, até mesmo ali na esquina onde o bandidinho de 14 anos mata por trinta reais que lhe possibilitarão algumas pedras onde mergulhará sua tragédia de ter nascido num mundo miserável, seja por falta de dinheiro ou de bom senso mesmo.
De vez em quando se lembrava de que precisava comer e já tinha emagrecido o suficiente para entrar nas velhas calças jeans e pedia um socorro sussurrado onde não deixava transparecer a extensão do dano que a névoa colocava em seus poros, músculos e, por mais admirável que fosse não conseguia adentrar a fortaleza de seus pensamentos. Pensar era única coisa que se permitia sem que a névoa interferisse, tudo o mais entregava sem reclamar e nem sequer gemer muito alto. Por pensar se deu conta que era melhor afinar o grito e buscar algum tipo de possível boia de salvação que a impedisse de se afogar com a névoa entrando pelos ouvidos, olhos e boca até a morte psíquica total.
Esse grito contido trouxe as pílulas brancas e azuis, tão bonitinhas e brilhantes no seu invólucro de silicone ou outra coisa que o suco gástrico destruía. Tomou esperançosa que tivessem a capacidade de empurrar a maldita névoa porta a fora e ela de novo pudesse respirar um ar seco e magnificamente cheio de sol, embora acreditando que o sol se escondera atrás do monte para sempre.
As pílulas desceram com uma batida de relógio e foram fazendo seu trabalhinho sujo. Não trouxeram sol algum, pelo contrário fecharam ainda mais as janelas do quarto e germinaram sonhos de suicídio. A sorte, ou azar, não identificava muito bem, é que não havia nenhum apoio para uma forca e as facas quando entram no corpo fazem muita sujeira e deixariam o apartamento estragado para outros inevitáveis moradores. Quem alugaria um lugar onde o chão apontaria uma definitiva mancha vermelho coagulado? Sem detalhar que facada é coisa que dói e pode errar o caminho nem sequer matar de verdade, apenas deixando uma feia cicatriz que lembraria para sempre a visita da névoa. Caso ela resolvesse ir embora.
Neste estágio resolveu que o melhor era cortar comunicações há muito indesejadas, elas apenas revigoravam a certeza de que estava vivendo num mundo paralelo onde vozes soam intrometidas e desconfiadas para todo o sempre. Só precisou suportar com os dentes cerrados, uma receita ditada pela irmã distante que não podia saber da visitante em sua casa. Nem sequer foi pelo celular o que a obrigou a sair da cama para atender o aparelhinho insistente que se não fosse atendido poria a porta abaixo.
De qualquer forma se lembrava de tomar banho e empurrar alguma comida para dentro, de preferência as que deslizassem sem necessidade de mastigação, um exercício muscular de primeira grandeza. Foi assim que se tornou a rainha da sopa e das massas congeladas.
Sete ou oito intermináveis dias se arrastaram até se dar conta que os desenhos suicidas apareciam pontualmente em algum tempo após a ingestão das lindas pílulas. A loucura lúcida é ainda mais frenética do que a alienada e tivera o bom senso de ler a bula inteira e se tornara conhecedora da possibilidade do remédio fazer efeito reverso e acentuar o estado que viera curar. Abriu a tampa da privada e viu as pílulas se afogarem mansamente sem nenhuma resistência. Não fez o gesto com muita coragem, havia sempre a possibilidade de engano e afinal a névoa voltar com intensidade redobrada.
Foi a primeira noite que o sono não veio imposto e estava preparada para atravessar as horas abraçada a algum personagem cinematográfico que se dispusesse a acompanha-la. Eles eram fraternos e nunca se negavam a fazer a caminhada noturna pontuada com algum passeio pela casa silenciosa onde a luz da rua dava a sensação de que não habitava sozinha aquele campo inóspito e seco. Era uma boa ilusão que alimentava sofregamente, apesar da não resistência, a névoa gelava os ossos e não era possível abraça-la pedindo que não se diluísse. Mas não foi assim. Nem sequer conseguiu acompanhar os primeiros passos do homem que se debatia com a árvore das cem palavras. Era um filme bonito que passava uma mensagem de transformação possível, mas não o soube o fim até três dias depois quando repetiu na sessão da tarde. Dormiu.
Acordar sem que a cabeça parecesse um balão esvaziado trouxe a convicção que quem está se afogando e no último momento consegue vir à tona ainda com os sentidos encharcados tem uma visão possível de ressureição. Respirou o ar da manhã como se estivesse pela primeira vez saindo de um útero sombrio e os pulmões agradeceram num riso de perfeito prazer.
A névoa olhava meio desconfiada pela porta entreaberta para onde era empurrada sem convite de voltar para o almoço. Recolheu seus esparsos resíduos que ainda atapetavam a sala e colocou-os em sua bolsa enorme e rota.
Era um dia muito úmido e a chuva volta e meia desfazia a sensação de que faltaria água no mundo um dia. Mesmo assim abriu as janelas, pegou a cachorra e saiu a passear molhando os cabelos até que grudassem na testa. A satisfação de sentir aquele cinza todo fora de si e não saído de seu secreto coração valia toda a chuva que ainda o céu pudesse guardar.
Algumas perguntas ficaram pendentes, mas a resposta mais importante estava muito bem escrita em cuidadosa letra: Não é para entender, é apenas para viver.


Vana Comissoli

sábado, 20 de abril de 2013

O choro é livre (Vana Comissoli)

choro 


            Impossível olhá-lo sem parar a observar. O homem chorava copiosamente no meio da rua e não se incomodava nem um pouco com o olhar intrigado dos transeuntes. Eu não tinha nada a fazer, situação de aposentado que sai a esquentar a vida debaixo do sol sonhando calores que não tem mais.


            O sujeito começou a andar meio trôpego e pensei que podia estar embriagado, só alguém fora de seu juízo com a idade que aparentava ter, lá pelos trinta e vários, daria aquele espetáculo sem pejo. Passou-me pela cabeça que ele poderia cair, tropeçar, ser atropelado por algum idiota que não se perturba com a dor alheia. Digo dor porque aquele pranto esparramado só podia carregar um sofrimento desmedido. Seria algum resultado de exame maligno que trazia nas mãos? Ou um obituário de jornal?


            Fui atrás dele sem me preocupar com o percurso e nem se estava me afastando muito do meu próprio caminho, há algum tempo não ficava distante de casa. Vá que tivesse uma síncope, ou um AVC? Dizem que é sem aviso e eu não tinha preferência por cair duro na rua, daria tremendo trabalho a meus filhos me recolher, mandar para o IML, prestar depoimento... Não, eu não faria isso com eles.


            Não faria? Dobramos uma esquina e outra e outra. Será que este sujeito sabe para onde vai? E agora essa! Está soluçando. Preciso falar com ele, não me lembrava de ter visto alguém envolto em tanto sentimento! É triste, mas é lindo. Agora a moda é mais filosofar sobre os entraves da vida do que senti-los e isso é mais triste ainda.


            A natureza toda parece concordar comigo por que abriu um céu mais azul do que o azul que o céu tem. Posso até sonhar que são os anjos que espiam um sentimento andando pela rua a soltar faíscas de existência.


            Ele sentou! Meu herói descobriu uma acolhedora mureta dura para sentar. Seus ombros sacodem com o desamparo do pranto. Não vacilo: sento-me ao seu lado.


            ─ Amigo, me conta o que te faz sofrer tanto?


Perguntei na coragem, acreditando que me mandaria catar coquinho. Olhou-me como quem estivesse esperando que lhe fizessem essa urgente e necessária pergunta.


─ Mataram, mataram ela!


─ Ela! Quem morreu?


─ A Valéria. A moça amiga, caridosa. Ela cuidava dos meninos de rua como uma mãe e eles a adoravam. Não tinha nojo de abraça-los, sentir seu cheiro. Nada que um bom banho não resolva, deveria ter dito aos seus ouvidos.


Fiquei procurando na minha memória que andava dando umas falhadas cretinas, quem era a Valéria. Pensei em todas as novelas, nos noticiários e não me lembrei de nem uma, já andava mesmo desconfiado que o alemão me visitava, o tal Alzheimer com quem não quero intimidades. Precisava desesperadamente lembrar por que só podia ser uma celebridade. Muito respeitoso perguntei e afirmei, tudo ao mesmo tempo:


─ Sinto muito, não estou reconhecendo qual das Valérias... Aquela? Ou a outra?


Ele me olhou desalentado. Senti uma faca no peito, eu era mesmo um asno vestido, como podia ferir com minha ignorância alguém que devia estar sofrendo por um amor? Fosse lá de que tipo fosse este amor. O coitado voltou a chorar, desta vez ainda mais alto. Entrecortada por soluços eu ouvia a explicação:


─ Ninguém sabe quem é a Valéria, isso é desalentador. Como uma vida pode passar assim em branco? Quando eu morrer também não se lembrarão de mim? Não suporto esta ideia, não suporto esta mania que a vida tem de andar de braços dados com a morte. Prá que? Prá que isso? A Valéria... Pobre e querida Valéria.


Torci os miolos, não tinha a menor chance de sair bem da situação. Chorar... Não conseguiria fingir. Eu o feriria mais se desse um fora no reconhecimento da querida moça. Felizmente ele se pôs a contar.


            “Gosto de puta. Gosto mesmo. São carinhosas, só cobram o que foi combinado, não pedem para ir ao shopping, não atrapalham o futebol do domingo, não deixam rastros de limpeza pela casa. Fazem tudo que pedes sem ficar arranjando desculpas, não têm dor de cabeça e muito menos discutem a relação.”


            Eu concordava, era bem verdade o que ele estava dizendo, senti uma pontada de culpa por tê-las desprezado um pouco e ter resolvido que casada era bom. Resultou que dei com os burros n’água e gastei os tubos, além de ter que criar dois filhos durante meus melhores anos. Não que os amasse pouco, mas, pensando bem, é uma troca insana quando se percebe, como agora, que não pudera fazer muitas e muitas coisas por causa deles e teria que ir embora chupando o dedo. Na obrigação de achar muito bom eles conseguirem mais do que eu. Eles fariam, mas eu não tinha a menor chance de nada, deveria agradecer se o alemão não levasse embora até as lembranças do pouco que tive. Uma puta é consideravelmente boa vista deste ângulo. Ele continuou.


            ─ Meus amigos não entendem. Não sou um cara feio.


            Examinei-o pela primeira vez. Não era mesmo. Tinha olhos acinzentados, talvez fossem até azuis sem as lágrimas, um nariz reto que se poderia chamar de grego e a insustentável beleza dos maravilhosos 30 anos. Uma boa altura, qualquer mulher poderia se aninhar em seus braços e se sentir satisfeita.


            ─ Puta, igualmente às santas, merece homem bem apanhado. É o que eu acho. Porque deveriam andar sempre com uns pelegos velhos? Quem gosta de puta de verdade, como eu, respeita o trabalho duro que elas têm, sabem que muito homem é nojento e maltrata. Acabam ficando amigos delas. Não tem amiga mais fiel do que amiga puta. Não falam mal de ti por que sabem quanto dói ser difamado, não inventam desculpas para escapar de ti por que sempre és bem-vindo. Enfim, tive muitas amigas. O melhor é não virem com a história de que não se trepa com amiga. Puta trepa com amigo numa boa  e até acha melhor, sabe com quem está. Passam a te beijar na boca, coisa que não dão para qualquer um. Te tornas uma espécie de escolhido, de ser especial.


            Eu estava bem interessado na explanação, quem sabe puta gosta de velho e tem paciência. Seria bom relembrar como é ter uma mulher, mesmo que fosse puta. Já estava convencido da útil feminilidade das meninas.


            ─ É preciso entrar no mundo delas e nunca arrepiei de fazer isso. É um universo multicolorido, cabe todo tipo de gente dentro dele, o mais legal é que não estão preocupados com aparência, verniz social e estas coisas que fazem as pessoas se tornarem hipócritas. Foi assim que conheci os travestis que circulam nos arredores das putas. Troca de freguesia, uma questão de negócio, nada pessoal. Tem alguns insuportáveis, mas não por serem gays, mas por ser gente de má índole. Nunca confunda as coisas: quem é bom, é bom de qualquer lado do campo. O inverso é verdadeiro, seja lorde ou vagabundo é abjeto do mesmo jeito se vem de raiz torta.


            Estava aprendendo o que não tinha aprendido a vida toda. Deu um arrepio maior do que eu estava acostumado quando olhava minha vida. Este homem chorando pela Valéria que devia ser puta, é claro, me mostrava que minha passagem rápida por este mundo doido, tinha sido pobre, mais pobre do que o pobre que eu achava dela. Era bom e melancólico aprender, se tivesse sido uns dez anos atrás ainda daria tempo de dar uma guinada no timão, mas agora... Era outra mágoa para arrastar.


            ─ Foi assim que simpatizei com a Valéria logo de cara, entendes? A gente percebe uma alma pura trazendo luz para a Terra. Se sente dentro do peito.


            Agora eu entendia tudo, até o que nem remotamente me passara pela divagação. Parei de lamentar as perdas, era uma maneira de usufruir vivendo de ouvido. Na minha imaginação cenas de submundo, nem tão sub assim, aprendia, desfilavam envoltas em todas as cenas que assistira em filmes, lera nos jornais e espiara na noite. Nada era o que me diziam ou enfiavam na minha mente sobre este mundo. Ele era feito de gente pelo jeito bem mais honesta do que as conhecidas por mim. Tinha visto tanta sacanagem envolta em sorriso! Se neste desvão atropelado por impropérios existia roubo, ou fraude, elas eram parte do negócio e não uma traição deliberada. Eu poderia sonhar que existia uma fatia de humanidade mais parecida com a que se deseja que haja. Gente emocionalmente decente.


            ─ Agora vem essa notícia que a Valéria foi esfaqueada por um desgraçado lá na praia de Copacabana.


            Estranhei. Então isso tudo era no Rio de Janeiro?


            ─ Moraste por lá, amigo?


            ─ Não, nunca estive no Rio. Qualquer hora dessas eu vou, quero ver de perto o lugar onde o sangue da Valéria avermelhou a areia branca.


            Realmente o quadro era terrível. A areia pura, quase brilhante... O sangue saindo em cascata por buracos do corpo de Valéria. O desgraçado fugindo, com certeza encapuzado. As marcas dos saltos ainda marcando o chão mole. Os olhos abertos surpreendidos pela avalanche da violência. Policiais que não deviam ter investigado o suficiente por que afinal era apenas um homossexual doente de luxúria esparramado na praia. Só restava chorar a dor dos mal paridos.


            ─ Ela estava toda linda, sabia se maquiar a Valéria. Tinha posto o vestido rosa pink e arrumado o cabelo daquele jeito que fica preso só de um lado. E não era peruca não, era de verdade. Essa vantagem temos hoje em dia, os pobres travestis podem deixar o cabelo crescer quanto quiserem. E o batom! O batom era demais, exatamente da cor do vestido.


            Meu companheiro sabia demais. O que interessa à observação de um homem uma coerência entre batom e vestido? Fiquei com um pé atrás. Seria ele mesmo gay? E se fosse? Que raio de preconceito enraizado dentro da gente! Fiquei com raiva de mim mesmo por ter permitido tal reação vinda sei lá de que fogo do inferno através das palavras de quem eu nem conhecia, mas que queimavam minha recente descoberta. Não sei se ele percebeu ou foi casualidade, mas explicou:


            ─ A gente aprende a observar e sabe que é bom? Adquire-se uma acuidade estética que ajuda muito a entender a beleza de uma mulher, por que travesti é uma mulher que errou de corpo, apenas isso e muitas vezes mais feminina do que várias que eu conheço que não se entregam nunca, ficam se digladiando com a gente em nome de uma estúpida concorrência de sexo. Com isso ficam sem sexo gostoso algum.


            Olhei o relógio, há algum tempo já deveria estar em casa me preparando para a chegada da noite, não tinha mais o hábito de me atrasar, qualquer vacilo poderia por a perder a disciplina que o médico jurara, prolongaria minha miserável vida. Mas me afastar do sujeito ainda descomposto? Não tinha coragem, ele me dera tanto.


            ─ Tomei uma decisão. ─ Ele se levantou num salto. ─ A morte da Valéria me abriu os olhos. Vou me casar.


            Eu não podia acreditar no que dizia, acabara de me convencer que viver livre e aberto era o máximo e agora vinha com essa de casar?


            ─ Relutei bastante, a Sarita é puta, mas não vou ligar mesmo. Somos namorados há três anos e há dois não aceita dinheiro de mim. Namorado não paga e sou fiel, assim como ela. Não transo com mais ninguém, nem ela, apenas trabalha, é diferente, é o comércio que ela conseguiu abrir. Se fosse uma loja todos bateriam palmas e elogiariam.


Pensei que era muito justo e casar com puta deveria ser bem melhor do que casar com moça de família, até por que as diferenças entre uma e outra não eram lá tão grandes assim. Conhecia muita casada que corneava o marido e não se mandava só para ficar no bem bom de ser sustentada. E puta trabalha firme, com pausa só três ou quatro dias por mês, não tem salário fixo, nem férias, muito menos 13º. Não é para qualquer um.


Esse amigo de rua era mesmo um estrondo, sua sabedoria e jogo de cintura com a vida me deixavam embasbacado. Talvez, se pintasse o cabelo, desse um trato na cara, eu conseguisse conquistar uma puta jeitosa como a dele. Não seria nada mal um casamento de primeira categoria agora que os sinos da véspera batiam à minha porta. Chegaria lá em cima, na frente do tal de deus que não tinha me mostrado essas possibilidades e teria o que agradecer em vez de dizer que era um cretino me aprontando uma vidinha de merda.


─ Não te convido para padrinho por que a turma vai achar ruim trazer amigo recente quando tem tantos que acompanham meu romance desde o princípio, mas te deixo meu telefone, quero que vás ao casamento. Pelo menos na igreja. A Sarita sonha com vestido de noiva e ela tem a alma mais pura que conheço.


Aceitei prontamente, não podia perder este cara de vista. Também estava contente, tinha parado de chorar e uma energia nova e luminosa me garantiu que os olhos eram mesmo azuis.


─ Amigo, irei com prazer. Será que as colegas da Sarita vão ao casamento? Antes que me esqueça. A Valéria, fiquei sabendo tudo, menos tua história com ela. Como a conheceste e tal...


─ Valéria? Ah, ela é personagem do livro que terminei de ler. Que autor! O livro se desenvolve em torno da morte trágica da moça e não revela quem a matou. Não dá uma pena danada?


                                                        Vana Comissoli

terça-feira, 19 de março de 2013

"Causos" de vovós (Vana Comissoli)

vovó           


         Depois do AVC, todo mundo a tratava como se daí a 2 minutos ela fosse se esfarelar deixando na cadeira apenas um pozinho parecido com pó de cupim: nunca se vê o bicho, mas se sabe que está por perto. Isso a incomodava uma barbaridade. Era bonito ver como os netos e bisnetos viam vê-la cheios de olhos doces e lembrancinhas compradas no “ligeirão”, entre uma aula e um namorico, mas a chateava também. Não tinha sido sua intenção sobreviver ao piripaque do coração.Só em lembrar da mãe anos a fio em cima de uma cama, já tirava toda a graça de viver, aquilo não foi viver, foi se tornar um peso do cão, por mais amor que houvesse. Reconhecia galhardamente: Velho cansa os jovens, ou meio jovens, que precisam saborear a vida antes de se sentarem ad eternum numa cadeira de rodas que lhe deixava a bunda quadrada.


          Só sentia alguma alegria verdadeira quando a neta emprestada vinha visita-la e a animava com histórias sem nenhuma descrição de doenças e cuidados. Era já entrada nos 40 anos e não tinha freios na língua. Sabia fazer rir e, por algumas poucas horas, Vovó Matilde deixava de sentir o impedimento do corpo.


           Dorotéia também apreciava suas histórias dos tempos de casada com um homem de fora da cidadezinha. Vindo da capital grande, cheio de malícia e picardia nada tinha dos pudores enraizados da gente da roça que ainda era a massa do povo da cidade, mentalidade pequena e cheia de preconceitos, onde alguns assuntos a gente não fala em público. Os tabus eram o sexo, a sacanagem de algum filho, a bebedeira escondida e a surra que algum marido deu na mulher por razão nenhuma, ou a mais escusa de todas..


            O marido de vovó chegara ali sem eira nem beira, desconhecido total, de olhos negros no mar de olhos azuis que compunham o local, cabelos mais escuros ainda e crespos. De longe aparecia em meio às cabeleiras que iam do muito loiro ao um pouco menos. Pior, não entendia uma palavra de alemão que, embora no Brasil, era a linguagem corrente dessas bandas. Mas era alegre, fanfarrão mesmo e conquistou a todos com sua fala alta, seus gestos largos e um palavrão sempre na ponta da língua. É bem certo que as mulheres o olhavam de soslaio, entre risinhos nervosos de quem quer tocar, mas não pode. Os homens o aceitaram por pura inveja, quem sabe estando perto poderiam aprender um pouco de laço solto.


            Damastor foi se fazendo na cidade, trouxera conhecimento de marcenaria e logo era dono da única fábrica de móveis do local. Era exímio artesão do estilo chipandelle, coisa de moda lá das décadas 40, 50 do século passado.


            A história dele nunca ninguém soube ao certo, mas vovó confidenciava que tinha deixado mulher e um bando de filhos lá na São Paulo. Enjoara da esposa miudeira que só sabia reclamar e exigir exclusividade, coisa que não era de seu agrado Saíra um dia para comprar cigarros e se perdera no mundão até chegar nesta quase vila incrustrada nas terras do sul. Voltaria apenas 15 anos depois, mas isso é outro “causo”.


            Enrabichou-se pelos olhos de cristal de Matilde, com seu corpão de colona, fartos seios e cabeleira que mais parecia o penacho dourado do trigo. Para facilitar as coisas, ela, a contra marcha de seu tempo, tinha casado e se separado, era quase uma mulher sem honra, no mexerico das vizinhas, embora nenhum dedo pudesse se levantar em acusação da vida simples, metódica e embaixo da asa da mãe que ela levava.


            A via passar na rua, em direção ao armazém, ou a feirinha dos colonos: a saia rodada e florida rodando no vento frio, as faces avermelhadas pelo Minuano sem compaixão.


            Foi ficando tão encanzinado que logo deu um jeito de fazer amizade com o irmão dela e mais rápido ainda se sentava ao lado do fogão à lenha onde a chapa assava pinhões recém-colhidos. Aconchego que só o povo da serra conhece na intimidade e sabe a deliciosa ternura quente que contém.


            Damastor esticava o olho para a moça que nem sequer parecia enxerga-lo. Tentava tocar sua mão na hora de pegar uma rapadura, ou fatia de bolo do preto estendido por ela. Numa dessas derramou a travessa toda de pipoca doce e caiu na risada enquanto os demais ficavam paralisados. Comida fora é pecado.


            Fez a corte como nunca, até que com a ajuda do irmão de Matilde, dobrou-a e se casaram.Na verdade foram morar juntos, uma vez que não havia divórcio e ele era casadinho da silva.


            Tão logo a paixão aplacada, o velho Damastor apareceu e logo outros rabos de saia o interessaram. Matilde conhecia a vida, essas coisas acontecem e nem se deu ao trabalho de reclamar. Além do que isso não o impedia de comparecer. E como comparecia!


            ─ Eu não sabia o que era realmente sexo até conhecê-lo. Para mim e o que me contavam as amigas era uma coisa sem graça que quando estava começando a ficar bom, acabava. Os machos gozavam e a gente ficava ali, se retorcendo. É a sina, o dever da mulher e a gente tolerava. Mas Damastor não. Era safado, passava a mão nos seios e até nas partes da gente. Levantava labaredas e, mesmo sabendo que era um sem vergonha, não dava para abrir mão. A vida foi indo assim. Eu sabia e não sabia. Estava resolvida a questão.


            Aconteceu de um dia não poder mais fazer de conta. O desgraçado, toda tarde depois do almoço, esperava o marido de minha vizinha de quintal sair para o trabalho e se enfiava na cama dela. Nós éramos amigas, eu sabia que ela devia estar satisfeita como nunca antes, não me importava de repartir.


            Um dia, o marido, acho que desconfiado de tanto que a mulher se agitava depois do almoço, de tanto que cantarolava no final a tarde como nunca havia feito, voltou num repente, mal tinha passado 15 minutos.


         Damastor ouviu a chave na porta, se escafedeu pela janela, se enfiando no quarto, trancado á chave. Dei-me por conta do que acontecia quando ouvi o griteiro lá fora, tiro pro ar e o Matias prometendo vingança fatal enquanto a mulher, aos prantos, negava tudo embora com a cabeleira desgrenhada e abotoando a blusa esgarçada.


            Matias se vingou. Damastor trouxera um chapéu de feltro inglês, todo chique, era a única coisa que prestava quando chegou nestas bandas. Seu grande orgulho.


            O vizinho chegou no meio da rua, deu mais uns tiros e gritou bem alto:


            ─ Quero ver tu vir buscar o filho da puta do chapéu, seu negro filho da puta! ─ alar filho da puta em voz alta era crime consagrado.


            E jogou o chapéu que ficara sobre a mesa na pressa da saída de escape, em cima do poste da esquina.


            ─ Se tu vier buscar, desgraçado, eu tô de olho e te furo à bala. ─ Apelou para o gaudério. ─ Índio cabotino! ─ Pior ofensa. Além de traíra, era gentinha da terra.


            Foi uma vingança exemplar ─ continuou Matilde ─ Damastor não tinha coragem de tirar o chapéu de lá e todos os dias o via a balançar ,cai não cai, e nunca caindo. Acho que levou mais de ano para a chuva e o sol esturricarem o coitado e ele se sumir. Antes disso ficou russo e desbeiçado.


           Doroteia riu de se torcer. Não contou para vovó, mas era bem o que gostaria de ter acontecido com seu próprio marido com sua mania de achar tudo que é mulher que se atravessasse, uma coitadinha que precisava salvar. Essa desmascarada, ela não faria com o sobrinho preferido da vovó, ele poderia ser achincalhado, mas ela não merecia a desilusão. Se vingou por tabela.


         Veio o chá com bolinhos fritos, a noite caindo devagarinho, mas a conversa parecia nunca cansar Matilde, pelo contrário, a revigorava e contava as histórias como quem faz crochê: um ponto enlaçando o outro.


     Doroteia também não se cansava.Com vovó aprendia a ter paciência, entender o marido, lamentar um pouco em voz alta sua angústia de traída, fazendo de conta que era compaixão pela vida de vovó enquanto essa ria a bom rir e de tudo tirava partido para viver sentada na cadeira de rodas.


           ─ Então o bom foi a cama vovó? Devia ser uma coisa muito inusitada.


            ─ Se foi! Eu contava para as amigas e elas ficavam babando. Os homens daqui era só vir por cima, corcovear e cair fora. Dava até pena por que todos morreriam virgens de prazer: machos e fêmeas. Tu sabes que até me comer por trás ele queria? Mas eu não deixei, tinha ouvido dizer que doia.


     ─ Mesmo, vovó? Pois foi uma pena, se a gente relaxar não dói nada e tem um prazer danado. Não doce para todo dia, mas de vez em quando a gente come e se lambuza.


        ─ Não me diz uma coisa dessas agora que o Damastor já morreu! Se a gente tivesse conversado antes... Ele não me escapava e não seria essa cadeira a machucar meu traseiro, mas uma boa saudades de meu homem.


       ─ Vovó!!!!


vovó2

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Sonho Impossível?

Sonho Impossível
Chico Buarque


Sonhar mais um sonho impossível


 Mergulhei em teu olhar sabendo que me iludiria com a droga mais ardida e tóxica que poderia encontrar. Aquela a que ninguém resiste e que nos leva sempre a voltar a usar com uma inconsequência infantil e irresponsável. Impossível medir consequências diante dela, mesmo que tragédias possam ser geradas, seu poder de sedução é irracional e de mega amplitude.


Amores não dão certo, nem sequer existem de verdade, ainda na volúpia da paixão, as brigas acontecem e os fechamentos emocionais batem a porta na tua cara inexoravelmente. Amores não passam de necessidades psíquicas.


O sonho imperturbável retorna a cada nova decepção, a cada novo encontro desencontrado. Eu sabia disso e jurava estar vacinada, sorrindo meio irônica da busca desenfreada que motiva as pessoas a procurarem o “par perfeito”. Comigo não! Isso jamais voltaria a acontecer, eu deixara este vício há muito tempo, junto com outros não tão nefastos quanto este.


No entanto lá estava eu fascinada pelo movimento de tuas mãos, pelo modo como teus olhos colavam nos meus e sentindo os malditos hormônios batendo palmas no ventre. Não que tivesse decidido ser freira, apenas respondia às necessidades de meu corpo, nada de sentimento, emoção, olhos nos olhos. Isso é para os incautos e não para uma atenta como eu.


Lutar quando é fácil ceder


 Poderia ter me levantado com uma desculpa qualquer carregada de ênfase em que todos acreditariam e dando um jeito de nunca mais te ver. Nada mais fácil de executar, afinal nem sequer amigos comuns tínhamos, nos encontrarmos tinha sido uma coincidência fortuita de fim de festa.


Eu sentia teu cheiro como cão sente odor de cio e sabia que uma delícia incompreensível tomaria conta de meus sentidos como se não soubesse qual o resultado final e repetitivo: cada um saindo um pouco mais magoado, um pouco mais descrente deste tal de amor da Carochinha. Já me ferira vezes o suficiente para não querer mais, descobrira que viver sozinha tinha uma paz que outra presença não me permitiria.


Ainda tentei me agarrar na disponibilidade plena de meu tempo, falta de obrigação com a fome de alguém, meu filme favorito rodando sem ter que discutir quem poderia escolher nesta noite e tantas outras maravilhas de não possuir ramo algum, apenas meu próprio tronco ereto rumo ao céu.


Nada adiantou, quando dei por mim estávamos trocando números de telefones, tinha cedido como uma virgenzinha de 15 anos influenciáveis.


Vencer o inimigo invencível


 A última coisa lúcida que me lembro de ter pensado foi: Lá vou eu de novo!


O tal amor tem olhos mornos coalhados de açúcar cristalizado. Perfume de todos os deliciosos sabores da vida e cores diante das quais até o arco-íris esmaece. Tem, principalmente, braços e boca que envolvem e comem como um morango maduro.


O certo é nem entrar na paranoia e vencer os neurônios fissurados por uma descarga extra de adrenalina especial. Eu poderia derrubá-lo, tinha certeza, já passara por momentos semelhantes e saíra ilesa sacudindo as tranças. Este inimigo só é forte quando o enfeitamos com rendas, na verdade não passa de um falso brilhante, zircônio de segunda fabricado na linha de montagem de uma psique carente.


Percebi que a peça teatral estava um pouco mais carregada de holofotes e resolvi pagar para ver, assim que provasse minha tese infalível voltaria para casa-peito só minha. Foi desse jeito que manipulei a mim.


Negar quando a regra é vender


 Todo mundo se vende por um punhado de ilusões mil vezes desfeitas e a vida é muito mais desenlaces trágicos ou suportados das relações amorosas do que de “foram felizes para sempre”.


Nunca se é feliz para sempre, haveria outra paixão vagabunda qualquer para levar o tal olhar para longe, ou um embaraço psíquico, momento de transformação pessoal, surto psicótico dos diabos guardados na mente insana que temos e, as vozes, antes apaixonadas, se digladiariam em tons acusatórios e terminais.


Como se consegue emburrecer tão rápido, eu nunca entendi. Esquecer aprendizados duramente adquiridos e se deixar levar pelo beiço rumo ao matadouro com um sorriso de bobo da corte. Ao fundo o mugido de bois de corte.


Me vendi, me entreguei sem teres feito esforço algum. O mais risível era saber que, se tu raciocinasses, saberias que também te vendias. Terias os mesmos pensamentos razoáveis voando pela cabeça e se perdendo no aperto de um abraço, no desejo de saciar a boca. Ambos vendidos por um punhado de carícias, de tolas palavras doces, jurando que estavam comprando ouro em pó e sabendo que se tratava de pirita.


Seguimos o sonho da boiada.


Sofrer a tortura implacável


 Estava me propondo a sofrer pelos teus olhos, teu corpo, mentindo que era por tua alma e por ti e que poderia suportar qualquer coisa. Mentindo deslavadamente para mim mesma, revendo sem querer, as dezenas de filmes pornográficos sobre amor incorruptível.


Mas se não te tivesse eu me roeria e me ameaçaria de morte por não ter tentado. E se desse certo¿ Se afinal o amor existisse, fosse apenas uma questão de tempo e de chegar a pessoa certa, o Outro da minha vida...


Talvez fosse mais fácil deixar tudo preso num momento passageiro e depois de alguns ou muitos anos lembrar-me de ti pensando no que não vivi, no que não sofri, no que jamais saberia. Seria apenas um breve lamento cheio de se...


As situações não resolvidas que se acumulam na caixa de ossos que carregamos dentro da mente, do corpo, do espírito. Temi este peso e acreditei que, tortura por tortura, melhor aquela que eu vivesse pelo menos a terapia posterior seria mais rápida e um terapeuta babaca não ficaria desenterrando meu pobre pai que, a rigor, não tinha nada com isso além do fato de ter dado um espermatozoide para que outra maluca atrás de amor nascesse e tivesse onde por a culpa. Como se não fosse uma busca ancestral. Acho que ao nascer não se deveria chorar, se deveria gritar: Amor, cheguei!


Romper a incabível prisão


 Fosse qual fosse a escolha, eu teria algum punhado de dor à minha inteira disposição. Ou imaginando moinhos de vento sem vento, ou me descabelando para conseguir me segurar nas pás de teus braços.


Tantas coisas pensadas num átimo de tempo, apenas agora que relembro este hiato entre o sim e o não, compreendo que toda minha vida deslizava dentro de mim. Os anos que me aprisionara numa racionalidade que me tornava confortável. Podia rir e sacudir a cabeleira sem me preocupar com o vento desmanchando, mas vazia de mim e de todo sentimento que negava para não sofrer. Eu não sofria nada e também não podia dizer que me felicitava. Um tranquilo deslizar de dias de sol morno que não aquecia. Dias onde as cores intensas não brilhavam nas pétalas que feneceriam e voltariam a ser nada. Como o amor¿


Meus pulsos atados por injunções de perfeição, contos de fadas ouvidos convictamente demais e ordens religiosas inventadas por quem nunca se casou, romperam as amarras e ousei enfrentar os olhos de galhofa dos meus amigos sobre o meu pragmatismo abandonado.


Eu te escolhi.



Voar num limite improvável tocar o inacessível chão


 Todos os impossíveis se reuniram em dias que escorregavam de um para o outro sobre as descobertas feitas surpreendentemente.


Olhava a escova de dentes esperando ao lado da minha e sabia que logo poderia me incomodar, os pingos de pasta na pia me chateariam, assim como os copos espalhados pela casa e o banheiro rezingaria com os respingos de teu banho. Tantas outras chatices eu descobriria! E tu me chamarias de boba por ser miudeira e ririas de alguma mania infantil, ou adulta demais. Ririas da minha preferência absurda pela caneca com desenhos de peixinhos e tomarias café nela apenas para implicar. Eu te odiaria solenemente.


Essas coisas ainda não tinham aparecido, deixei para depois, quando o sonho se esboroasse. Enquanto isso resolvemos viver todos os desdobramentos de uma paixão, fazendo de conta que era destino e realizamos todas as loucuras que nosso desejo criou.


Não me lembrava de como podia gargalhar, ou talvez nunca tivesse dado risadas escandalosas como as que dava ao teu lado pelas coisas mais banais. Não era o acontecimento que fazia rir a mim e a ti, mas a felicidade sem rubor que escolhêramos. O motivo é apenas uma justificativa para expormos o que está acontecendo no mundo impalpável, levemente compreensível de nossos sentimentos.


Cotidiano e excepcional se mesclavam como sorvete de chocolate e baunilha, cada um com seu saber único, mais suave ou mais marcante, não fazia diferença para o prazer de degustar. Eu enjoaria, me preparava para isso, não era marinheiro de primeira viagem e a última, só se faz sozinho. Essa era a realidade, a dura terra onde pisaria quando descesse das nuvens.


Havia poeira, cansaço, sono, fome, como em qualquer outra situação, mas... Eu já teria sentido alguma delas¿ Passara por elas, não prestara muita atenção, afinal eram banalidades e algumas difíceis, me neguei a senti-las e descobri a delícia de dormir sem precisar me preocupar se te satisfizera ou não. Bastava para ti que eu estivesse ao lado e para mim bastava saber que te bastaria. E bastar é pouco demais para dizer o quanto é muito.



É minha lei, é minha questão virar esse mundo cravar esse chão


 Depois de certo tempo indefinido nos meus registros, aprofundamos a besteira, resolvemos que sim, o Amor descrito e cantado em prosa e verso, surgira para nós com todas as músicas melosas, filmes românticos e superações jamais confirmadas. Resolvemos juntar os trapos, desmanchar as barreiras pessoais e viver sob o mesmo teto, tive direito a ser carregada no colo e a uma noite frente à lareira como a melhor cena idílica possível de ser criada.


Algumas canecas de peixinho foram quebradas, alguns jornais foram rasgados antes de serem lidos, palavras cruéis voaram na arena do quarto e enfiei mil farpas embaixo das minhas e das tuas unhas. Ainda assim estávamos completamente idiotizados pelo Amor e cravamos no chão da vida três novas vidas.


Por que eu me perguntava a cada parto. Por que trago mais gente para vagar em busca do inencontrável é a pergunta que não cala através dos ossos, músculos e presença, acima de tudo presença, de meus filhos.



Não me importa saber se é terrível demais


 É batalha todo dia e, às vezes dá uma vontade danada de mandar tudo longe e buscar por mim, por que, às vezes eu nem sei quem sou. Tenho vários nomes agora e muitos sentimentos que se entrechocam, viram guerra, chegam à beira do tapa na cara que me faz tanta falta.


Roo os dentes e bato com a cabeça na parede e posso enlouquecer: quebrar alguns pratos, jogar o resto do miserável leite derramado em parte, pela cozinha toda. Posso me esconder num canto e me desesperar, jogar praga contra a vida que eu não vivi, me chamar de idiota e serviçal. Posso lutar por mim com unhas e dentes e ferir todo mundo à minha volta e faço isso com imenso esforço.


Roo meus próprios ossos e te vejo roendo os teus. Tuas noites insones, tua busca numa responsabilidade que não te permite sonhar.


Vejo tuas costas na cama de encontro às minhas e sei o quanto eu não conheço mais tua linguagem e tenho certeza que erramos, jogamos a vida fora, nos amarramos numa ilusão de  filhotes ali ao lado, sorrindo para nós e não podemos sair da prisão.


Grito, de vez em quando, a casa vazia de vocês. Urro, feito bicho, tão mais sábios que nós, compreendem que a aproximação é cópula, mais nada. Logo me recomponho e sirvo a mesa onde comes ruminando. Eu e tu, nos odiando na vida que criamos, esquecidos do sonho impossível que nos reuniu.


 


E amanhã, se esse chão que eu beijei for meu leito e perdão vou saber que valeu delirar
e morrer de paixão


 Agora estou aqui sentada e tenho muitos anos. Penso em todos os enganos, nas nossas absurdas raivas. Revejo teus olhos cansados e, no fundo deles o mesmo convite insano: vem me amar.


Para os filmes, os poetas, os artistas do absurdo, não te amei devidamente. Não fui maravilhosa e fêmea todos os dias e tu não foste o pai recolhedor de minhas dores e, às vezes, nem amante foste. Aquele que desperta a tigresa em mim. Esculhambaste meu ego e acabei com o teu. Choramos abraçados e, a cada abraço desesperado, nos amamos muito mais do que supúnhamos.


Agora, que o tempo permitiu que nos tornássemos amigos, nós mal e mal compreendemos, mas olhamos o que saiu dessa batalha e, sem saber coisa alguma, entendemos que...


Nos damos as mãos.



E assim, seja lá como for vai ter fim a infinita aflição e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão


 A última palavra que te direi, quando for hora de partir, será:


− Te amo, não importa o quanto foi torto.


E, se fores o primeiro a fazer a grande viagem, pegarás minha mão e me dirás:


− Te amo, não importa o quanto foi torto.


Mesmo que não partilhemos mais os dias e a cama, mesmo que haja mil centenas de quilômetros entre nós diremos do amor que temos.


E assim, seja lá como for, terá fim a terrível aflição e o mundo continuará buscando.


Vana Comissoli