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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Cobaias (Fernando Bastos)

Lá pelos meus sete ou oito anos comecei a suspeitar que as pessoas a minha volta participavam de um grande jogo contra mim,  e todas faziam parte de uma trapaça, a fim de me enganar a respeito das coisas, que todas sabiam exatamente o que eu pensava.


Até de meus pais e irmãos eu guardava calculadas reservas, pois não tinha muita certeza de que eram meus pais e irmãos, mas seres de outro planeta ou algo parecido. Eu pensava que estava sendo vigiado 24 horas por dia, e que até na privacidade do banheiro, de porta fechada, fazendo minhas necessidades, alguém me observava, e contaria tudo para minha mãe, ou aquela que parecia ser minha mãe.


Essa sensação de estar num Big Brother de George Orwell, que eu só leria décadas depois, se prolongou até perto dos treze anos, quando aos poucos fui me convencendo de que essa história de imaginar uma conspiração contra mim não passava de fantasias da minha cabeça, ninguém, claro, poderia entrar em meus pensamentos e saber seu conteúdo, as pessoas eram tão reais quanto eu, sentiam dor, frio, calor, ficavam alegres e tristes, e, quando cometiam atos reprováveis, ficavam também com aquela sensação de coração dolorido, respiração ofegante e frio na barriga, que vim a saber mais tarde era provocada pela ansiedade e angústia.


Outra descoberta importante naquela época foi saber que outros meninos eram parecidos comigo, e tive certeza disso nas conversas com colegas entre uma aula e outra, assim que minha timidez permitiu, ao ouvir um garoto em tom professoral dizer que aquele líquido branco que saía do pênis era porra; dias depois aprendi o nome certo para a gosma, era sêmen, conforme ensinou um professor de Educação Física taradinho,  que em um dia de chuva, o pátio molhado impossibilitando a ginástica, resolveu explicar para meninos e meninas concentrados em sala de aula, os mistérios do corpo humano, e lá pelas tantas, disse que nessa idade era comum os peitos das meninas crescerem e aparecer pelos na xoxota, e só o fato dele mencionar essa palavra já foi motivo para todos me encararem, tamanha era minha fama de santo, incapaz de proferir palavrão, mas a gota d´água foi  quando ele disse que é normal o menino ir de vez em quando ao banheiro tocar uma punheta, eu quis me esconder debaixo da carteira, e se tivesse um buraco no chão da sala, eu teria me jogado para não voltar mais por um bom tempo, tanta era a vergonha que senti diante dos rostos com sorrisos de deboche que se voltavam para me observar, pois minha ignorância nesses assuntos e fama de inocente, eu diria hoje, de idiota, eram de conhecimento público. Não sabia para onde olhar, meu rosto ficou quente como brasa e devia estar mais vermelho que um morango maduro. As meninas mais atiradas, sempre que queriam me ver corado de vergonha, esperavam o recreio, sentavam ao meu lado na carteira de dois lugares comuns na década de 60, e, com a cara mais santa do mundo, encostavam a coxa nua, mal coberta pela saia de uniforme azul marinho plissada contra minha perna, sob pretexto de tirar alguma dúvida sobre uma matéria qualquer, pois eu era o gênio, o garoto prodígio, como a Marta, uma morena esguia e de belos cabelos negros um dia asseverou.


À medida que eu crescia na proporção da minha curiosidade intelectual, enredei saudáveis amizades com Freud, Nietzsche, Bertrand Russell, Jean Paul Sartre e outros do gênero, de modo que comecei a entender que meus entraves em questões sexuais eram frutos da minha educação agressivamente religiosa, onde escutava sempre que fazia algo indecoroso para os adultos, o famoso “Não faz isso que Deus castiga”.


Ler aquele escol de gênios teve um efeito devastador sobre meu espírito supersticioso, amedrontado e influenciável, pois deixei de ter medo das três piores coisas que mais me apavoravam: a primeira, de mulher – agora era eu quem procurava me encoxar; segundo, de sexo, quando aos 23 anos fui para a cama pela primeira vez com uma mulher - não faz mal que era uma prostituta, e nem tão formosa como eu desejava, precisei da ajuda dela para separar a banha extra das rotundas coxas e achar o caminho, mas pelo menos fez-me sentir um homem de verdade – percebi que sexo não era aquela coisa repugnante que me fizeram pensar, nem tão complicado, era só relaxar, gozar e ser feliz; e terceiro, de Deus, pois com as luzes que entraram pela janela da minha obscurecida mente, expulsei todos os demônios e explicações metafísicas para as incertezas que giravam ao redor do meu ser como gemebundos fantasmas.


O estranho é que, durante minha escalada para o cume da montanha, quanto mais eu subia, e via a paisagem se distanciar, e as pessoas ficarem quase tão pequeninas quanto formigas, uma estranha sensação se apossou de meu ser, uma espécie de déjà vu, mas agora de efeito contrário, pois não achava que as pessoas mantinham um conluio contra mim; eu havia percebido que elas é que viviam um falso mundo, manipuladas por uma ideia obsessiva, surreal, improvável e absurda; em última análise, elas eram como autômatos, comandadas por gente esperta que dizia o que elas deviam fazer, o que vestir, comer, e no que acreditar. Na minha escalada, encontrei muitos outros que haviam superado essa fase de cegueira mental, e quanto mais eram beneficiados com o ar puro da montanha, mais subiam e se enriqueciam com esse clima novo.


Hoje, perto de fazer 58 anos, continuo a subir a grande montanha, posto que a jornada para o conhecimento só termina com a morte, e a cada passo, consigo compreender um pouco mais porque a maioria das pessoas prefere ficar na planície, feito cordeiros ruminando as palavras trazidas pelo vento dos ancestrais, e acreditando no que seus condutores pregam. É mais confortável acreditar do que raciocinar, consome-se menos energia, e os poupa de dores e questionamentos.


Outro dia, no silêncio de meu apartamento de um quarto, cercado das minhas únicas companhias, um gato e um papagaio, lembrava do tempo em que imaginava viver em um mundo onde eu era uma espécie de cobaia e todos a minha volta eram os pesquisadores; hoje reflito e vejo que as cobaias somos todos nós, presos num imenso laboratório, repetindo comportamentos e ladainhas milenares, na mais das vezes nocivos para a saúde geral, mas encarados como a única verdade num mundo possível. E isso me apavora. Pois sei que poucos levantarão as cabeças do transe em que se encontram, e observarão para fora de suas gaiolas.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A ferocidade da beleza (Vana Comissoli)


             Eu a conheci de uma maneira tão prosaica que jamais poderia imaginar que se tornaria parte de mim e que sem sua presença em minha vida eu seria sempre metade.


            Era um dia quente, monótono, do tipo que eu denominava tirânico, seu único objetivo era me obrigar a viver. Nesses dias em que sair da cama, acordar, trabalhar, comer, eram atos desgastantes que levavam embora minha paciência e habitual acomodamento à respiração automática. Não havia nada que eu pudesse fazer com ela, simplesmente existia e eu me submetia a contragosto, mas nunca me passara pela cabeça, nem nas noites mais insones, que eu pudesse simplesmente abortar o movimento sistêmico dos pulmões.


            Era meio dia e não me restava outra coisa a não ser fugir do sol a pino me escondendo sob as marquises por duas quadras até chegar ao restaurante mais próximo. Para meu azar era o mais caro, mas estes dias são sempre sem sorte e por isso não me cansei reclamando. Agora ter todas as mesas ocupadas foi demais!


            No fundo do restaurante, perto dos eflúvios gordurosos e odientos da cozinha tinha uma mesa com uma mulher de costas para a entrada. Dane-se, pensei contra minha solidão arraigada, sentarei lá mesmo. Dispus-me a caminhar como quem tem que andar muito rápido sobre areia movediça, senão afunda.


            Pelo tamanho da cabeleira já vi que a mulher deveria ter uns vinte centímetros a mais do que eu, tinha cabelo para dar e vender. Poderia cobrir facilmente minha careca incipiente com a qual eu brigava todos os dias. Já não bastava ter cara de fuinha, boca de chupar ovo e um nariz a la Gerard Depardieu?


            Adoro cinema. É minha grande oportunidade de viver, posso mergulhar num filme com muito mais facilidade do que mergulharia numa piscina e então ser quem eu quiser e ter as mulheres que desejar. Viver o que jamais me seria permitido. Não estou reclamando de nada, apenas pensando no meu perfil que acabei aceitando: uns são favorecidos, outros não. Assim é e brigar só faz tudo se tornar ainda mais difícil.


            Esta minha paixão me deu conhecimento sobre todos os atores e atrizes, meus verdadeiros e fiéis amigos, uma fidelidade bem próxima da real, já que mudavam de nome, histórias e sentimentos, com o mesmo desprendimento com que meus amigos de carne e osso me deixaram para trás. Eu não era uma companhia muito agradável, fazer piadas para compensar seria uma humilhação que não me facilitaria em nada. Me deixaria humilhado. Ser o engraçadinho da turma me traria apenas vergonha e medo do ridículo. Eu já era ridículo o bastante.


            Aquela mulher era a encarnação perfeita da desaparecida Sophia Loren. É eu também tinha disso, gostava das antigas. Era como se o tempo as tivessem levado embora e não a minha palidez de espírito. Enfim, era a minha Sophia. Pedi licença e sentei à sua frente.


            Foi difícil levantar-me e servir um prato no bufê farto. Fiquei pensando qual comida a Sophia julgava conveniente para um almoço que tivesse um pouco de refinamento que eu não tinha. Era um artigo que não precisava me dar ao luxo de conquistar, nunca repartia minha mesa.


            Quando voltei ela levantou uns olhos de Elizabeth Taylor, juro que eram lilases, e sorriu. Não sei como consegui me sentar e muito menos segurar o tremor das mãos. Fiquei sabendo que seu nome era Darlene e que era médica. Viera fazer um atendimento especial numa pessoa querida, não costumava frequentar aquela zona da cidade. E passou o almoço todo tagarelando, contando coisas, piscando os olhos e me deu uma alucinação, só podia ser isso, por que imaginei que me olhava de forma a me enxergar. Mulher alguma até esse dia fizera isso, meus problemas sexuais eu resolvia chamando um Sex Delivery e mal acabava descartava a sem nome com uma gorjeta gorda que a fizesse voltar sem bater boca com a dona do cafetinagem.


            Mas Maura me enxergou. Ao se despedir me estendeu seu cartão e pediu que eu ligasse para ela, gostaria de me conhecer melhor por que era muito simpático. Um homem natural que não tentou me seduzir foram suas últimas palavras.


            O sol não me torrou, as horas deslizaram e os colegas não foram tão distantes. Tudo se coloriu e eu não podia acreditar que aquilo acontecera comigo, alguma coisa estava errada e tinha certeza que Maura não era cega e nem surda.


            Depois de tomar três vidros de Rescue, esse abençoado floral que era meu socorro, eu liguei. Nem sequer fiquei mudo como via nos filmes, falei alto e forte. A convidei para jantar e ela aceitou.


            Eu nunca fora à mãe de santo fazer trabalho e nem acendera vela para santo, então aquilo só podia ser uma paranoia que tomara conta de mim a tal ponto que eu misturava verdade com imaginação. Só o filé Chateaubriand à minha frente e o caldo delicioso rolando na minha língua me deu certeza que estava acontecendo realmente. Maura entrava na minha vida com seu maravilhoso perfume de folha de limoeiro.


            Foi tudo muito rápido, logo sabia o quanto era desesperançada do amor, como fora usada por sua aparência que odiava e me encontrar fora um recado dos céus que confiar em alguém ainda era possível. Ser feliz também era. Fui estonteantemente feliz.


            No fim de ano, pela primeira vez, fui à festa oferecida pela empresa onde trabalhava na gerência administrativa. Quando apareci de braços com meu mulherão, todos os olhos caíram sobre mim, as bocas ficaram entreabertas e teve gente deixando o queixo cair no chão.


            Maura estava deslumbrante. Até o diretor veio me cumprimentar e pedir que apresentasse minha companheira. Não tive dúvidas:


            - Dr. Gonçalo, lhe apresento minha noiva.


            O homem não soube o que responder e Maura depois de lhe apertar a mão, beijou-me no rosto, me fazendo um carinho na face. Era a glória. Eu estava redimido de todos os miseráveis anos passados de minha vida.


            Naturalmente ela se transformou no centro de tudo. Nada havia sem Maura, nem mesmo eu existia. Eu era ela. Passei a caminhar com sua firmeza, a colocar opiniões como quem acredita no que diz, sair à noite sem medo e conduzi-la pela cintura na frente de todos. Pelos ombros seria bem complicado, então pulei este impedimento.


            Após três meses ela propôs se mudar para minha casa. Não podia acreditar, ela me queria de verdade e nem sequer a deixei carregar a menor das caixas, se pudesse até a ela eu carregaria.


            Fui promovido, perdi o medo de mostrar que não era o parvalhão que pensavam, eu entendia do meu trabalho e o fazia bem, muito bem. Meus colegas passaram ir em nossa casa e tínhamos belas noitadas de conversa inteligente e música de primeira qualidade. Maura preparava jantares estupendos e aprendi a comer, a beber bons vinhos e a degustar um verdadeiro Tiramisu, feito com mascarpone legítimo. Se Maura queria mascarpone, ela teria mascarpone. As estrelas, os sapatos, as roupas, as grifes e as férias na Tailândia, pode pedir, eu dizia enquanto ela cortava minhas unhas.


            O sexo foi uma viagem espacial até que Maura resolveu que melhor seria vir por cima de mim. Eu não conhecia luta livre até este momento. Nem grito, tapas e socos na cara. Mas se a fazia feliz... Quem era eu, um quase anão de jardim a contrariar? Não perderia a mulher de minha vida nem que precisasse rastejar.


            Não devia ter pensado isso por que eu rastejei. Ela engordou 10 quilos nos poucos meses seguintes e seus seios me sufocavam, enormes e famintos por comer minha boca. Seu apetite era insaciável e gozava apertando meu membro até me fazer chorar. Ria desbragadamente me chamando de fracote e inútil.


            Mas era Maura...


            Minha casa foi fechada aos meus medíocres colegas e infestada de gente pernóstica que se dizia cult para cheirar cocaína e trepar uns com os outros enquanto eu me enrodilhava no sofá sem saber quem eu era, ou o que eu era.


            Deveria ser miseravelmente banal, não entendia estes rebuscados encontros de prazer, não falava pornografia em francês, não usava o banheiro de portas escancaradas.


            E Maura engordava. Tornou-se imensa, pelo menos era como eu a via, mas os homens na rua, continuavam se voltando para olhá-la. Isso ainda me gratificava. O sacrifício não era em vão e eu tinha Maura.


            Não muito lentamente o sexo acabou, as unhas cresceram, os cabelos caíram mais rápido e voltei a ser calado e distante. Eu tivera Sophia, virou obsessão saber onde ela se escondera. Comprei todos os presentes caros e finos que eu imaginava que a agradassem, os jogava num canto até sair com as joias penduradas nas orelhas e nos dedos para lugares e reuniões onde eu não era admitido.


            À noite eu sonhava com a Maura sentada na mesa do restaurante me dizendo como eu era simpático e quanto queria estar comigo. Deixei que esses sonhos me sustentassem até que se tornaram pesadelos. Ela estendia os braços sobre a mesa, tirava nacos de minha carne e me engolia enquanto um fio de sangue escorria do canto dos lábios.


            Em algum lugar minha culpa deveria estar me espiando e precisava acha-la, me ajoelhar e pedir perdão. Então Maura voltaria para mim com seu riso cheirando a folhas de limoeiro.


            A cama está vazia nesta manhã chuvosa, a chuva bate na vidraça como lágrimas caindo nos óculos. Procurei Maura por tudo, quem sabe a vontade de me trazer café retornara e ela estava na cozinha preparando as torradas do jeito que gosto? Quem sabe escovando os dentes? Quem sabe lendo na sala? Quem sabe? Quem sabe onde ela está?


            A porta do cofre onde guardava as joias estava aberta e ele era uma boca de lobo vazia e escura. Os armários estavam pelados, as sapateiras descalças e eu... Eu estava à poucos centímetros da loucura.


            Fui à sacada sentindo o peito respirando como sempre, naquele mesmo ritmo que não podia mudar apenas permitir. Olhei para baixo e ainda pude ver o carro, último presente que dera à Maura, dobrando a esquina.


            Mudei de emprego, de cidade, procurei a mais obscura que pudesse me engolir e sumi de mim mesmo. Não via televisão, não lia jornais, comia feijão com arroz e um naco de carne sem gosto num boteco qualquer que me obrigava a viver.


            Foi sem querer, foi um relance que me fisgou. No jornaleiro, um periódico aberto puxou meus olhos. Lá estava ela, linda, grande, a cabeleiras lustrosa refletindo sol de piscina. Na cadeira ao lado um homenzinho ridículo, meio careca, meio gordo, de idade a meio, sorria feito um boi de presépio.


Vana Comissoli

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Causa sine qua non (Fernando Bastos)

 








Andava sempre de olhar afundado como uma garotinha que fizera traquinagem na sala de aula. Algumas vezes cheguei a suspeitar que fora violentada na infância, ou que fosse lésbica, dado sua habitual distância que mantinha dos homens que a abordavam.


Ana Maria era o oposto de Mariana. Ela, gelo, minha mulher, fornalha. Até hoje tenho complexo de Bentinho, aquele do Dom Casmurro. Por mais que Mariana defenda a tese de que não me corneia, estou sempre com um pé atrás. Às vezes faz hora extra no escritório de advocacia, e sabe lá o que acontece nessas ocasiões. Amo Mariana, mas Aninha me incendeia. Comecei a namorar Mariana quando eu tinha 20 e ela 17. Mariana morava com a avó e uma irmã. Gêmea. No dia seguinte, da minha primeira noite com a então namorada Mariana, quando fui lavar o rosto, levei meu primeiro susto. Como Mariana podia estar no banheiro saindo de toalha, se havia dormido comigo e a deixei no quarto antes de descer as escadas?


Aninha percebeu meu espanto e, timidamente, sem me olhar na cara, disse Não sou Mariana, sou Ana Maria, a irmã gêmea dela. Mariana, para de brincadeira, falei, como conseguiu chegar aqui antes de mim? E, sem deixá-la responder, abracei-a e apertei aquele
corpo ainda molhado sob a toalha felpuda. Estou falando sério, disse ela, Por favor, vovó pode acordar e nos ver...Mariana não me falara nada sobre a gêmea. Fazia parte do jogo. Ela gostava de jogos. Eu adorava vencê-los. A cópia se afastou e foi para o quarto, segurando
a toalha de banho com as mãos rente aos seios. Quis possuí-la, mas o fiz só com os olhos. Despedi-me do tornozelo bem moldado, e da sola branquinha do pé, antes dela entrar no quarto e fechar a porta para terminar de se secar.


Casei com Mariana, a avó morreu, a gêmea ficou morando conosco, Mariana se formou em direito, e, depois de um ano de casamento, começou a fazer hora extra. Não me preocupava com os serões de Mariana. Quanto mais tarde chegava, mais eu aproveitava os momentos para saborear a visão daquele corpinho, defendido sumariamente por uma camisola de algodão que ia até a metade das robustas coxas, deitada sobre o sofá, lendo Clarice. Com o tempo, ela foi perdendo aquele medo de animalzinho selvagem, e deitava em meu colo para lhe acariciar a cabeça. Quando sentia o perigo, levantava, dizia que ia ao banheiro, depois voltava para me dar boa noite, a uma distância segura, olhando-me obliquamente.


No finalzinho do outono passado, houve um Congresso de advogados na capital. Minha mulher voltaria no domingo. Na sexta, comecei a preparar o cenário. Vinho Cabernet, a lareira acesa, um filme romântico, o convite. Hesitante, largou o livro, e sentou-se ao meu
lado no sofá. Puxei o cobertor, e nos enfiamos debaixo dele. Nem deu a metade do filme, e ela já estava bêbada. Eu sabia que estava errado, mas a carne é fraca. Os primeiros códigos de Lei já proibiam esse tipo de relação. O judaísmo, maior influenciador sobre nossa cultura, avisa em Levítico 18,18: “não tomarás a irmã de tua mulher,...descobrindo a sua nudez...”.
Mandei à merda a lei de Deus, abracei-a, sob pretexto de esquentá-la, e ela concordou. Em dez minutos, sumiram nossas roupas, e ela galopava sobre mim, no tapete da sala. Seu moreno corpo rebrilhava as cores do fogo da lareira, dando-lhe um aspecto sobrenatural. Coloquei um travesseiro sob seu quadril. Suas unhas arranhavam minhas costas, mas não me incomodei. De repente ela começou a falar obscenidades, que jamais havia sonhado que pudesse dizer. Levei-a para seu quarto, e deitamos em sua cama, na esperança de acordar antes que minha mulher chegasse da farra.


No meio da madrugada, uma réstia de luz trespassou a fresta da porta. Lentamente, um vulto de mulher assomou na penumbra, como uma hetera, que chega em casa depois dos compromissos. Cheirava a bebida e perfume masculino. Sem dizer uma palavra, deitou entre nós e me beijou.






 

 

 

 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

(Thiago Daniel)

– Morgana! – Ele chamou.

Não respondi.

– Morgana!

Ouvi seus passos apressados.

– Morgana! – Já do meu lado.

Olhei nos olhos dele. Dei de costas.

Agora tenho que tocar punheta, só porque esse filho da puta não entende que não é pra me chamar assim na rua.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Roupão (Suzi Daiane)

Que ela tinha um baita par de coxas ela tinha. Eu nunca me preocupei
com isso, afinal peito grande já me excita horrores, mas aquelas coxas... Bem, antes de ficar de pau duro de novo ao lembrar das coxas
de Teresa, deixa eu contar como a conheci.


Era uma manhã de domingo, eu geralmente caminho de chinelo de pano e roupão logo cedo porque gosto de ver a cara de espanto do povo dessa cidade. São uns bestas mesmo. Fazem tipo, uns chegam a atravessar a rua, outros dão risinhos falsos, principalmente as gostosonas que caminham ao lado dos maridos cinquentões cheios da grana. Odeio seus maridos. Adoro as gostosonas.


Mas isso não vem ao caso, porque Teresa não era uma dessas, voltemos ao chinelo de pano e ao roupão. Eu caminhava exatamente vestido assim, e digo exatamente porque eu não usava mais nada. Era só o chinelo de pano e, claro, o roupão. Eu estava indo em direção à padaria, a única da cidade que abre no domingo de manhã. Estava quase lá, mas não entrei.


Teresa me parou na esquina, estava distribuindo uns panfletos de
alguma igreja e, talvez seja por isso mesmo que não reparei nela logo
de imediato. Não! Mentira! Eu não reparei, porque Teresa era gorda e quando digo gorda, quero dizer gorda mesmo.


Teresa tinha tudo farto, tudo mesmo. Olhou-me de cima a baixo, meio que esnobando meu roupão. Desgraçada. E sorriu falsamente. Entregou-me um panfleto, se apresentou e disse: Jesus te ama. Eu me irritei no ato, não por conta de Jesus, mas por conta daqueles olhos esbugalhados de Teresa. Quis esnobá-la também. Peguei o papel, fiz cara de nojo, cuspi e rasguei na frente dela.


Ela ficou puta. Sério! Nunca vi uma beata tão enraivecida como aquela. Aquele monte de carne vermelha começou a tremer, era como um terremoto e um vulcão acontecendo ao mesmo tempo. Ela me deu um tapa. E doeu.


Eu quis revidar, mas a Teresa, bom a Teresa era... uma Teresa putiada e beata e vermelha e gorda. E o seu problema não era um panfleto de igreja rasgado, nem sua infinita banha, seu problema era mesmo com o meu roupão.


Nos conhecemos ali, na esquina, no mesmo lugar que cato as outras, mas não a Teresa. Com ela foi assim eu de roupão e ela vulcão. Eu a
convidei pra um café. Ela negou, de cara, coisa de beata mesmo, mas aí eu fiz menção de abrir o roupão, disse que se ela não aceitasse eu...


E Teresa ficou mais vulcão. Aceitou. Finalmente a padaria.
Teresa não quis comer nada. Grandes coisa, ela ainda era gorda. Eu
comprei um francês e um cappuccino. Sentamos numa mesa bem no canto. A atendente riu quando nos viu chegando. Ela sabe da minha fama, mas a Teresa já era demais.


Não conversamos. Eu comi devagar e fiquei olhando pra ela. Ela me
olhava também. Era tanto silêncio que eu preenchi olhando as coxas
dela que a saia não conseguia tampar. Teresa tinha de por as pernas
pro lado, debaixo da mesa não dava. Que gorda.


Teresa fingia que não via que eu a via, mas não ficava vulcão. Vez ou
outra tapava as coxas com os panfletos da igreja e olhava meu roupão. Olhava tanto que era como se me olhasse por dentro. Olhava meus pelos escapando por cima e olhava querendo ver os pelos que estavam embaixo.


Agora Teresa amassava os panfletos nas coxas e me olhava. Teresa
olhava meu roupão, era como se ela fosse arrancá-lo e me morder
todinho.


Eu não aguentava mais olhar pra Teresa, aquela gigante, aquelas coxas. Meu pau ficando duro. Paguei a conta.


Saímos juntos, ela caminhava ao meu lado e eu não disse nada, fui em
direção ao meu apartamento, ela me acompanhando. Ainda o silêncio.
Eu caminhava olhando pra baixo, pra debaixo da saia de Teresa. Que
coxas, ai meu Jesus que coxas tinha a Teresa.


E numa outra esquina qualquer Teresa parou, estávamos quase lá. Então ela arrancou meu roupão, assim de súbito, e o rasgou. Cuspiu. Eu fiquei parado, não sabendo o que fazer, meu pinto duro comungando o silêncio. Ela fez cara de nojo, e se foi a Teresa, levando suas coxas, o seu Jesus que me ama e o meu roupão.


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Suzi Daiane


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msn: suzidaiane@hotmail.com

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Memórias de um professor aposentado (Fernando Bastos)

Certa vez, quando eu contava com meus cinquenta anos; lá se vão mais de duas décadas, e dava aula de Filosofia na Universidade F..., percebi que uma garota que sempre tivera participação ativa nas aulas, começara a faltar com frequência. Aqui vou chamá-la de Maria, para proteger sua identidade. Maria tinha 22 anos, e fui saber que estava depressiva e andava se entupindo de calmantes. A mãe a levara a um psiquiatra e ele prescreveu os devidos medicamentos. Naquele ano ela não voltou a estudar. Foi se tornando escrava dos remédios e não saía mais de casa. Nem banho tomava. Fiquei sabendo de tudo isso na festa de aniversário de uma amiga dela do curso que eu ministrava. Ela mesma me contou, quando me encontrou sozinho tomando meu uísque na varanda da casa. Era a primeira vez em um ano e meio que ela saía de casa. Estava irreconhecível, bem mais magra, uma palidez de papel na pele e com um olhar de zumbi. No entanto, conservava ainda aquela beleza jovial de uma personagem de um quadro de Botticelli. Foi levada à força pelas primas a tal festa. Para meu espanto, ao me ver, ela abriu um sorriso e me cumprimentou:
- Oi professor, como vai?
- Oi, guria, respondi, Que bom te ver. E tu, como vais?
Em uma hora de conversa ela me falou da sua infância, da rígida educação de base católica em casa, das múltiplas recomendações a se manter afastada dos garotos, que “só pensam em transar com as meninas”, do exagerado cuidado de seus pais para que não namorasse antes de se formar na faculdade. Com uma sinceridade invejável, Maria me contou que entrou em depressão porque não podia namorar, queria fazer sexo e os pais a cerceavam vinte e quatro horas por dia. Com vinte e dois anos, ainda era virgem! Disse a ela que ser virgem naquela idade não era comum, mas também não era nenhum fim do mundo. Que ela não devia se preocupar com isso, mas sim, com sua saúde e bem estar. Não foi difícil notar que todo o problema dela, sua apatia pela vida era em função da perda de liberdade, sobretudo pelo direito em extravasar sua sexualidade reprimida. Convidei-a para uma noite de amor, e, juro a vocês, não me surpreendi quando ela aceitou. Saímos à francesa, e fomos direto ao meu apartamento. Naqueles tempos eu era um coroa desejável, estava com o corpinho em dia, pegava onda na Joaquina ao lado de campeões, de forma que não fiz feio. Quando tiramos a roupa, fiz apenas um pedido. O quê, ela perguntou. Não terá penetração, respondi. Por quê, disse ela, esperando que seria desvirginada naquela noite. O senhor não me achou atraente, estou tão feia assim? Não é isso, respondi. E, por favor, não me chames de senhor. Está bem, disse ela com um sorriso meigo, desculpa. Tu és bela, eu disse, e sinto-me envaidecido por tua confiança em mim. Porém, o que tem de menos importante hoje é tu perderes a virgindade. E a beijei. Não dei tempo para ela falar. Beijei-a com centenas de beijos, desde os lindos pés até a as pontas dos cabelos. Ela chegou ao orgasmo pelo menos quatro vezes. Minha língua estava afiada aquela noite, e meus dedos habilidosos. Exausta, ela me agradeceu, Obrigada professor, nunca imaginei que sexo fosse tão bom. E ainda sou virgem! Abracei-a e disse, Não tenhas pressa. Quando te sentires pronta, aí sim será o momento. Na segunda-feira ela voltou ao curso. “Milagrosamente”, no dia seguinte ao nosso encontro, ela largou de vez os antidepressivos.


Fernando Bastos, cartunista e escritor

sábado, 29 de janeiro de 2011

Conto para esquecer (Inacio Carreira)

Para Yasunari Kawabata e
Gabriel Garcia Márquez,
de felizes memórias


Pensando bem, no final das contas o fato de ter visto tanta coisa neste mundo de meu deus fez com que ele como se não houvesse captado nada do entorno e permanecesse agora, nesse fim de viagem, quase virgem. Seu cérebro, tal qual nascituro. Vazio.


Mas de uma coisa ele não esquecia: a particularidade anatômica, íntima, de uma mulher. Toda vez que a via – e viam-se pouco, embora morando na mesma e pequena cidade – vinha à sua memória, gasta pelos anos [ele sentindo algo semelhante a pudor, vergonha?, procurando desviar os olhos do olhar da dona. Que talvez nem o conhecesse, ou nem o reconhecesse, apesar de bem mais nova e, com toda certeza, não sofrendo dos lapsos que o atingem]. Mas, se os olhos não se cruzam, ele não pode impedir que seu próprio olhar, entre matreiro e dissimulado, dirija-se ao ponto X.


Não que tivesse intimidades com ela, não. Intimidades: mesmo com a memória gasta, vêm à mesma sensações, texturas, sabores. Mas em massa, genericamente. A não ser por duas outras lembranças, de namorantes, sobre particularidades capilares íntimas (uma pela falta, outra pelo excesso), que não podem jamais cair no olvido. Ambas fogosas, até onde lembra, o relacionamento com elas era diferente. Com a, digamos assim, careca, ele era mais o alvo da paixão, servindo acertadamente aos jogos de cama que, grosso modo, seriam comparáveis às pugnas de Olímpia. Nada de joguinhos estaduais, campeonatos abertos, melhor de três: não! Olimpíadas é a palavra que melhor aponta para aqueles jogos comandados por Eros, onde o pomo de Vênus fazia-se caça e caçador e, ao final, as medalhas eram distribuídas entre os contendores, não havendo vencidos: como sói acontecer nas boas pelejas motivadas pelos instintos que, quanto mais baixos, melhor o jogo, onde a regra é não tê-las.

Mas essa particularidade referente à pilosidade, quanto à falta ou excesso, não é nada perto daquela primeira, que afinal perdeu-a (a particularidade, diga-se bem) por desdenhar, por não querer mostrar-se ao parceiro, ou parceiros, que isso era lá problema daquela senhora... fosse ele um dos escolhidos em sua versão original e teria dito que não, não fizesse aquela mutilação, mais é menos quando se trata de intimidades.

Se nós, homens, e cada vez mais no caso dele, apesar dos aditivos, temos que saber conviver com a máquina que, eventualmente, falha; com o motor que vez em quando nem no tranco pega, porque uma jovem tem que submeter-se aos ditames da moda íntima? Existe essa expressão? Acredito que sim, com o privado mais e mais tornado público, com cenas [iguais às especialidades dos ocupantes dos lupanares romanos] expostas nas paredes, posters pré-vesuvianos, mostrando suas preferências, hoje à vista nas bancas de revista, videolocadoras e, santa invasão da inocência, até nos chamados mercadinhos, partilhando conosco na escolha de repolhos, batatas, iogurtes...

Outra aventura ressalta, aflora à sua consciência agora que nisso pensa – são profundos os arquivos da mente -, pois não conseguia outra dona abrir-se ao ato, compartilhar do jogo. Mesquinharia, egoísmo, talvez, o não querer doar-se ao parceiro. Não conseguir relaxar a guarda e acolher, em seu castelo, tão nobre cavaleiro, de cuja armadura ela apreciava o toque, mas não baixava a proteção, não descia a ponte levadiça, não franqueava seus países baixos.

Porém estão todas no passado, e foi rico seu passado. Pena que já não tem pena, por esquecido estar. Com breves lampejos de lucidez, as lembranças ficaram no Grande Nada oposto ao Big Bang gerador de matéria: todas, menos a da mulher de particularidade anatômica que, se revelada fosse, seria digna de figurar no Guiness Book. As outras particularidades? Bah, esqueçam, diria.