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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Jesus, sob dois olhares (Fernando Bastos)

Os dois nasceram no mesmo dia, 25 de dezembro, mas tomaram rumos diferentes na vida; a mãe, adepta do crack e da vida fácil, não sabia quem era o pai, largou-os num orfanato e sumiu. O que nasceu antes entrou num lar cristão, foi batizado e ganhou o nome de Salvador. Aos seis anos lia a Bíblia, rezava o terço. O outro, recebeu as simpatias de um casal estrangeiro e o nome Darwin, com o tempo saberia que o homem que o recolheu das mãos da madre e a quem chamaria pai trabalhava em meio a tubos de ensaio, microscópios, pipetas e livros de biologia molecular; a mulher dele, uma respeitada professora de mitologias, dava aulas e escrevia livros sobre civilizações antigas.
Os gêmeos cresceram amados, cada um em seu canto; Salvador fez catequese, ajudou o padre na missa, respirou a fumaça perfumada de olíbano que saía em forma de arabescos do turíbulo que sacolejava nas pequeninas mãos no momento da consagração, comeu hóstia na sacristia, formou-se em contabilidade, namorou, leu e releu os Evangelhos, casou, encheu a casa de santos e crucifixos, um sinal da cruz cada vez que passava por um deles, teve filhos católicos como ele e como seus pais adotivos, o que era de se esperar. Tivesse sido criado num kibutz, seria judeu; estudado numa madrassa, islâmico, e por aí vai. Darwin aos dez anos interessava-se por dinossauros, genética, neurociência, deuses gregos. Adulto, foi dar aulas de filosofia, apaixonou-se por uma aluna, casaram, tiveram um filho.
Poucos dias para completarem 33 anos, os gêmeos se veem pela primeira vez, desde que foram separados com poucos meses de vida. Seria o primeiro Natal juntos, e de quebra, comemorariam juntos seus aniversários. O que morava fora, veio ao Brasil com mulher e filho especialmente para reencontrar o irmão. Os dois deixaram as famílias em casa e saíram bem cedinho para andar pela praia, queriam exclusividade do momento. Caminharam abraçados, chutaram a água gelada que vinha lamber a areia, riram e choraram a dor dos anos longe um do outro.
Então, Salvador disse: irmão, gostaria que fosse comigo hoje à igreja, quero lhe mostrar o presépio; eu ajudei a montá-lo. Podemos aproveitar e confessar; não vai ter muita fila. Darwin sorriu e perguntou: confessar pra quê, Salvador? Ora, espantou-se o outro, todo mundo confessa seus pecados, assim Deus nos perdoa e temos as portas do céu abertas. O filósofo questionou mais uma vez: e se eu não me confessar, o que Deus fará comigo? Infelizmente você irá para o inferno, respondeu o beato, e seria muito triste para mim separar-me pela eternidade do único irmão que tenho e tanto amo. Darwin, você não é cristão, não teme a Deus?
Por que devo temer a Deus, Ele não é bom e misericordioso? Não creio nesse negócio de inferno, assegurou o que viera de longe. E explicou: é um mito inventado há muito tempo pelos sacerdotes mesopotâmicos, uma boa sacada pra manter o povo quieto e obediente. Todas as culturas que vieram depois emularam esse conceito, criando seus próprios infernos: egípcios, gregos, romanos...o cristianismo apenas o pintou com cores mais fortes. O zoroastrismo pelo menos dava oportunidade ao condenado se purificar numa espécie de purgatório de onde poderia sair a fim de se juntar aos outros no céu. O cristianismo não; fez vocês acreditarem que o inferno, além de ser um lugar real, onde haverá choro e ranger de dentes, é eterno, assim como o sofrimento dos infelizes que o conhecerem. Ora, um deus assim, que lava as mãos ao lhe da o livre arbítrio para amá-lo ou rejeitá-lo, mas se escolher a opção errada, aquela que ele não quer, o trancará num lugar de infinito suplício, se assemelha ao marido ciumento que diz à esposa que ela é livre para sair, mas se o trocar por outro, a encherá de pancadas até o fim de sua vida. Salvador, você é inteligente, piedoso, mas devia ler sobre mitologias pré-cristãs, para separar o mito da realidade. Desolado, e já prevendo o irmão sendo lançado às chamas do inferno, o católico perguntou: por acaso não crê em Jesus, acha Ele uma invenção como andam falando por aí?
Ele não é um mito, disse o outro, pois temos evidências do Jesus histórico. Mas sua biografia, ah essa meu irmão, essa ganhou retoques no Concílio de Niceia, organizado por Constantino. Jesus não podia ficar abaixo dos deuses romanos, tinha que superá-los. O galileu foi um professor da moral, como o foram Sócrates, Confúcio e Buda. Teve muitos acertos dignos de aplauso, mas cometeu alguns deslizes.
Darwin estava indo longe demais ao criticar o próprio Deus; o que teria aprendido naquela família secular a ponto de se tornar tão cego diante da única Verdade? Agarrando-se à piedade cristã, Salvador tentou trazê-lo de volta à Luz e convertê-lo: Jesus é perfeito, nunca encontrei uma falha em tudo que pregou...O filósofo escolheu as melhores palavras, pois não queria magoar o irmão, mas sabia que às vezes, para remover as chagas do obscurantismo, é necessário empregar remédio amargo. Parou de andar e convidou Salvador para sentar sobre uma pedra no final da enseada. O sol já despontava no horizonte, os barcos dos pescadores voltavam com suas redes cheias da valiosa mercadoria que logo seria vendida. Os primeiros compradores assomavam ao local onde os homens do mar desembarcariam. Rememorando um trecho bíblico, Darwin disse: Jesus falou à multidão que o seguia, se é mesmo que falou ou se colocaram em sua boca mais tarde, que ninguém vai ao Pai, isto é, chega ao céu, senão por ele. Nunca me conformei com essa frase, Salvador, pois demonstra acima de tudo arrogância, pois ignora que o mundo é habitado por judeus, hindus, muçulmanos, taoístas, agnósticos, ateus, que têm suas próprias crenças, dúvidas ou descrenças. Seguindo essa obtusa ótica cristã, os mais de cinco bilhões de seres humanos de hoje já estão condenados. Sem falar em todos que nos antecederam e morreram sem abraçar a fé cristã. O que é incrível e assustador, é que a teologia cristã ensina que um estuprador e assassino de dez crianças merece o céu, caso se arrependa, confirme a fé em Cristo e se confesse no último minuto de vida. Mas um judeu honesto, bom pai de família, vai para o inferno. Isto é, segundo essa visão desvirtuada, a crença é mais importante que o ser-no-mundo. Salvador, você consegue compreender a magnitude dos problemas que essa crença tem causado à humanidade? Não importa o quão honesto for o indivíduo, se não crer nessa Igreja que se julga a detentora da verdade, tem o passaporte carimbado para o fogo da Geena. Desculpa, mas isso é bem humano, demasiadamente humano.
Os gêmeos ficaram em silêncio por longos minutos, observando os barcos que atracavam à praia. Os peixes pulavam dentro das embarcações, reluzentes ao sol, impregnando o ar com seu característico cheiro, braços nus e bronzeados os colocavam em enormes cestos, pesavam-nos em balanças enferrujadas e os embrulhavam em jornais velhos, sob vigilância atenta dos compradores e das aves negras que voavam em círculos esperando alguma sobra para o almoço. Ali, naquela pedra, dois homens assistiam a tudo, mas suas mentes estavam distantes, remoendo o debate daquele início de manhã. Num acordo tácito, pois embora todo o tempo afastados um do outro, parecia que falavam telepaticamente, não teceram mais conjecturas metafísicas naquele dia. Levantaram-se e foram escolher algumas sardinhas e corvinas para o almoço.
O irmão católico não perdeu a fé, Jesus ainda é seu ídolo, mas não acha mais necessidade em se confessar. Desde que aprendeu sobre como as religiões exercem poder sobre a vida das pessoas, para o bem e para o mal, dispensou os intermediários entre ele e Deus. Agora, a conversa é direta com o Criador; se faz bem a ele, não serei eu quem irá julgá-lo.

domingo, 17 de novembro de 2013

Maria e a himenolatria – herança de um passado patriarcal (Fernando Bastos)

As leis exercem vigilância sobre os crimes conhecidos, a religião exerce-a sobre os crimes secretos.” (François Marie Arouet - Voltaire)


Na maioria das sociedades atuais, a virgindade feminina continua um tabu, e mesmo na ocidental, que se diz laica e democrática, a preservação do hímen está ligada a decência e moralidade. Herdamos a moral judaico-cristã, e o cristianismo nos forneceu o protótipo de “mulher perfeita” – segundo a mentalidade machista e patriarcal.
Sabemos pouco sobre a filha de Ana e Joaquim. A fonte oficial quase nada fala dela, e mesmo assim, mulheres que nunca leram a Bíblia, e até aquelas que se dizem sem religião, são em maior ou menor grau, influenciadas por Maria, a israelita que aos 12 anos (14 ou 16 em outras fontes) foi visitada por um anjo, e após o Sim, engravidou sem a necessidade da seiva masculina, por obra e maestria do Espírito Santo; sendo que, cumprido o tempo necessário da gestação, gerou um bebê de nome Jesus, o filho de Deus.
Maria se tornou para o mundo ocidental, sobretudo a parte católica, a mulher mais influente na questão da moralidade feminina. A humilde hebreia, que não entendia o filho, mas o amava acima de tudo, serviu como uma luva para o clero da cristandade, pois foi usada para convencer filhas, noivas e esposas a não gostarem de sexo, a serem submissas aos homens e só abrirem a boca se um homem permitisse.
Para a doutrina católica ela permaneceu virgem mesmo depois de gerar o bebê (virginitas post partum) e criou--se o dogma da virgindade perpétua, com forte intuito de mostrar que Maria era assexuada, emulando assim as antigas vestais romanas; já os seguidores de Lutero atestam que depois do nascimento de Jesus, ela teve relações normais com José e gerou filhos, deixando de ser virgem. Os que não concordam, dizem que os irmãos a quem Jesus se refere nos Evangelhos, eram filhos somente de José, que os teve antes de conhecer Maria. Não pretendo discutir se Maria teve ou não filhos além de Jesus. Essa querela será discutida ad infinitum, e nunca se chegará a um consenso, cada um vai defender aquilo que lhe é conveniente.
O crucial é focar na “concepção virginal”, o momento em que a noiva de José engravida do Espírito Santo (Deus) indo contra as leis naturais. Por que essa questão é tão relevante? Qual a mensagem velada por trás dessa narrativa, onde a mulher que será a mãe do Redentor, fica desobrigada da relação natural? A mensagem (do clero, formado por homens) é: não é bom que a mulher tenha desejo por sexo, não é bom que ela sinta atração por homem, de modo que há menos risco dela se prostituir, e trair o futuro marido.
A castidade de Maria é o golpe de martelo nos ouvidos femininos, que ouvem desde o berço, que menina deve ser recatada, esperar o “homem certo”, e aceitar o poder masculino. O Mito da Virgem Maria, uma mulher que não conhece homem, no sentido bíblico, é o mais cruel arquétipo feminino, pois ensina a elas que o sexo não é bom, e uma mulher assexuada é o ideal de pureza. Já o arquétipo masculino é do homem viril, capaz de montar um harém, como os reis Davi e Salomão. Essa mentalidade machista ficará arraigada em nossa sociedade, e incrivelmente, são as mulheres que mais contribuem para a preservação desse preconceito, ao doutrinar suas filhas para que sejam “santas” e os filhos garanhões, os que irão “comer” as filhas das outras.
A supervalorização da virgindade feminina tornou-se uma verdadeira cruzada pela himenolatria, com seus defensores pregando que a pureza e a decência estão intrinsecamente ligadas ao hímen ainda não rompido pelo intercurso sexual. Cá no ocidente elas não padecem dos mesmos males de outras culturas, onde com frequência, a mulher que perde a virgindade antes de casar é morta pelos próprios parentes. Contudo, se em nossa sociedade ao homem é dado o direito de ter muitas parceiras na fase solteira, para ela, essa liberdade é mais cerceada. Aceitamos bem a mulher solteira ter intimidades com um homem, desde que esteja namorando, com vistas em casamento. Aquelas que mantêm relacionamentos abalizados apenas em sexo ganham logo uma etiqueta na testa.
A escritora Collete Dowling escreveu em Complexo de Cinderela: “A sexualidade da mulher é tão castrada que ela precisa da desculpa do amor para sentir prazer com o outro.” Isso é tão verdadeiro que mesmo entre as mulheres modernas, há aquelas que condenam suas colegas que têm uma vida sexual livre, com vários parceiros. Mas, assim como suas parentes do Paleolítico, muitas admiram e desejam os homens que saem com muitas mulheres; sinal de que são ótimos reprodutores.
O cientista social Luiz Mott declara: "Bem-aventurada para os crentes, maldita para os incrédulos, a mãe de Jesus carregará para sempre a culpa de ser a autora de um mito que levou e continua levando à infelicidade e à morte milhões de seres humanos culpados por um indevido prazer: o orgasmo".
Com efeito, o relato da mulher virgem que engravida de um deus e gera uma criança divina não é original do cristianismo; nas culturas anteriores é vasto o número de semideuses gerados da união de um deus com uma mortal. Zeus e outros habitantes do Olimpo viviam engravidando belas mortais, geralmente virgens e algumas comprometidas. Em Roma, os imperadores eram semideuses, pois foram concebidos com a semente de um deus com sua mãe mortal. O cristianismo pegou essa ideia, e a transformou para criar sua própria lenda, divulgando assim a importância para as mulheres preservarem a castidade e se afastarem dos perigos do sexo. Maria devia ser o espelho para as filhas de Eva.
Penso que a história ficaria mais bela se fosse contada como provavelmente aconteceu: Maria e José se amaram como qualquer casal, e dessa união nasceu Jesus; talvez ela teve outros filhos, talvez não. O que não podemos é deixar que um conto mítico continue sendo a pedra no meio do caminho que impede a mulher de se sentir plenamente satisfeita em sua sexualidade.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O ritual (Fernando Bastos)

Os pais de Masoud, juntamente com parentes e amigos, chegaram ao Brasil alguns meses depois da revolução iraniana de 79, que trouxe os aiatolás ao poder no país. Embora seus pais acreditassem em Alá e no profeta, procuravam, na medida do possível, ter um estilo de vida semelhante ao povo do ocidente.  As festas ocasionais em que recebiam um grupo seleto de amigos eram celebradas com vodka e cerveja. A música vinha de fitas k-7 compradas de um vendedor clandestino; o repertório ia de Bee Gees a Iron Maiden, tocados bem baixo para que a polícia religiosa não ouvisse.


Já em solo brasileiro, Masoud foi para a faculdade cursar engenharia e lá conheceu seu melhor amigo, Lúcio, um porra-louca, como se dizia à época. O amigo brasileiro de Masoud era um ex-seminarista, deixara o curso de teologia na metade após verificar as incongruências das religiões, e baldeou para algo mais terreno: a filosofia. Apesar do ateísmo de Lúcio, o jovem iraniano nunca o discriminou, embora sempre que podia, tentava trazê-lo para sua fé.


Nas vezes em que vinha com esse tipo de conversa, Lúcio dizia, Cara, respeito tua crença, mas comigo não funciona. Não consigo acreditar em algo que não se pode ver e nem provar que exista. E ouvia como resposta, Irmão, um dia Alá, louvado seja o Seu nome!, irá transpor o muro de pedra diante de seu coração, e se revelará em toda Sua glória.


Masoud e Lúcio estão num bar, bebendo cerveja e relembrando os tempos de faculdade. Havia dez anos que não se viam. Lúcio pergunta, Como está a vida de casado? Ótima, irmão, responde Masoud. Nahid também é iraniana. E crente, Inshalá!


Filhos?


Temos uma filha. Yasmim faz oito anos amanhã. É nossa princesinha, linda como uma flor do campo. Será a melhor festa de aniversário que ela já teve. Sabe, irmão...elas ficam um pouco assustadas quando sabem que chegou a hora da visita de uma midgaan. Então, prometi que se ela cooperar, teria a melhor festa de sua vida. Claro, não contamos como é que a coisa funciona, mas é melhor ela saber só na hora.


Lúcio olha espantado para homem de barba a sua frente. Parece não acreditar no que está ouvindo. Irmão, disse penosamente, você vai circuncidar sua filha? Sim, por que não?, confirma o iraniano. É nossa tradição, e é uma recomendação do profeta, que a paz esteja com ele!


Masoud, você leu o Corão? Li, é um dever de todo crente. Lúcio o olha gravemente e pergunta, Por acaso lá está escrito que os pais devem circuncidar as filhas? Não, mas há os hadits...Lúcio o interrompe tentando manter a calma, Masoud, você sabe quantos hadits existem? Bem, são muitos, não sei dizer quantos, mas Deus os enviou ao profeta...


Você está enganado, irmão, assegura Lúcio. E explica, buscando na memória o que lera a respeito do Islã:  Al-Bukhari, um respeitado historiador disse haver 7.275 hadits genuínos, mas 600 mil eram falsos, inventados. Contudo, para Fatima Mernissi, escritora marroquina, mesmo aqueles “originais” não são totalmente confiáveis. Por exemplo, um hadit compara a mulher aos cães e jumentos, pois os três atrapalham as orações. Para Fátima, o autor desse hadit, Abu Hurayra, sofria de sérios problemas de ordem sexual, e era inimigo feroz de Aisha, a mais amada das esposas de Maomé. Uma vez, Aisha teria dito a Abu que seu marido rezava junto de suas esposas e nunca falou que elas o atrapalhavam. E quanto à circuncisão, há dois únicos hadits que o mencionam, mas já comprovados como falsos pelos eruditos islâmicos.


O iraniano retruca, O que você entende de nossa cultura, irmão? Ainda o amo, meu amigo, como se fosse da minha família, mas o que você diz é inaceitável. Masoud, meu irmão, disse o outro, segurando-o pelos ombros, como se quisesse despertá-lo. A circuncisão é uma prática antiga, já existia há cinco mil anos no Egito. Alguns estudiosos acreditam que se tratava de um ritual de iniciação; outros, um método profilático contra doenças provocadas pela areia do deserto. Com o tempo, líderes religiosos mantiveram o costume, pois perceberam que podiam frear o desejo feminino e evitar que as mulheres se tornassem prostitutas.


Todavia, a crença de que a cirurgia vai diminuir ou eliminar o prazer sexual da mulher é fruto da ignorância, Masoud, não quero lhe insultar, uso o termo ignorância no sentido de desconhecimento, pois muito mais importante que um detalhe anatômico para obtenção do prazer na mulher, são os fatores psicológicos e hormonais. Tecnicamente, a mulher mesmo circuncidada, poderá ter prazer na relação, mas devido aos traumas da operação e a educação recebida desde pequena ela acreditará que estará cometendo pecado se por acaso sentir satisfação no ato. Assim, ao casar, sua vida sexual se resumirá em dar prazer ao marido e gerar o maior número de filhos possíveis. Você conhece as consequências para as meninas circuncidadas? Muitas delas podem sofrer dores que vão durar meses ou anos; infecções que às vezes levam à infertilidade, sem falar...Sem falar o quê?, pergunta o iraniano, interrompendo o próximo gole e depositando o copo de cerveja à mesa.


Yasmim está em seu quarto, deitada sobre um tapete. Amanhã é seu aniversário, quando ganhará muitos presentes. Mas hoje é o Grande Dia, quando lhe será arrancada a carne do pecado e se tornará pura. Ela não sente medo, apenas está curiosa. Seus olhinhos giram lépidos observando a mãe e as tias ao redor, que lhe sorriem; sorriso de um pacto de segredo. A menina ainda não sabe. Só saberá quando a midgaan chegar. E a mulher responsável pela ablação não tarda. Foi recebida à porta de entrada pela empregada da família e conduzida ao quarto, onde o cordeiro foi preparado para o sacrifício, e seu sangue infantil alegrará a Deus, assim pensam as mulheres que se espremem em torno da inocente vítima.


Primeiro, a midgaan faz um sinal com o olhar, e duas tias abrem as pernas magricelas de Yasmim, que arregala os olhos. Agora sim, há medo em seu olhar. Num gesto de autodefesa, a menina tenta segurar o braço da mãe,  talvez implorando um colo, ou que a leve dali, coisa boa sabe que não é. Mas a mãe recua, afastando o braço de Yasmim, tentando segurar uma lágrima.


Em seguida, a mulher do ritual se ajoelha e começa a procurar a carne que será extirpada; assim que encontra o clitóris, passa a espremê-lo como se estivesse ordenhando uma vaca. A midgaan já perdeu as contas de quantas meninas mutilou. Sente-se honrada, por estar cumprindo ordens divinas e, naturalmente, feliz por levar alguns trocados para casa. Yasmim será apenas mais uma. Ela trouxe a tesoura, que irá cortar os pequenos lábios vaginais e o clitóris. Nesse momento vai ouvir Yasmim gritar desesperadamente, de modo que já alertou as mulheres para segurarem os braços e pernas da criança com toda forca que puderem. Vai sair muito sangue, por isso ela trouxe uma grande toalha felpuda. Assim que a operação terminar, irá suturar os grande lábios com uma agulha comprida, mas deixará um pequeno orifício do tamanho da cabeça de um palito de fósforo para permitir a passagem da urina e do ciclo, quando ele vier. Fim da operação, a arrancadora de clitóris irá cortar o fio excedente com os dentes, e irá embora, satisfeita por mais uma missão cumprida.


Masoud está assustado. Vai para o ponto de ônibus e, quando entra, senta próximo à porta. Sua frio. Reza freneticamente, balançando o corpo para frente e para trás, Alá, louvado seja!, é um Deus piedoso e benevolente, jamais permitiria causar dor a um crente, quanto mais a uma inocente menina. Preciso chegar rápido para salvar minha princesinha. Oh, Grande Alá, permita que eu chegue a  tempo de evitar. Ao descer do ônibus, vê uma aglomeração do lado de fora de sua casa. Um veículo do Samu, enfermeiros, uma maca coberta com uma capa cor cinza. Não quer acreditar, procura entre as mulheres que pranteiam, os rostos de sua mulher e de sua filha amada. Encontra a esposa, recostada na parede da casa, parada como uma estátua, os olhos olhando para o vazio. Masoud deixa escorregar da mão o presente que havia comprado de manhã, uma boneca que fala entre outras coisas, “Papai, eu amo você.”

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Os desafios de Kalu Rinpoche (Sônia Pillon)

Essa é a história de um iluminado tibetano, de uma das linhas milenares mais tradicionais do budismo, associadas a uma vida de contemplação, isolada do mundo real. Com apenas dois anos, foi apontado como a reencarnação de um venerável líder, o que determinou para ele uma vida de retiro, estudo e meditação. E com grandes responsabilidades nas costas.
Ele é uma figura pública que o povo do Tibete costuma reverenciar, e que muitos ocidentais tratam como uma celebridade, comparável a um astro de Hollywood! Situação que sempre o deixou constrangido e que ele nunca incentivou, pelo contrário...
Um dia, quando tinha 19 anos, decidiu deixar a vida aparentemente tranquila e protegida do monastério, onde se sentia triste e solitário, para conhecer a vida lá fora. Para ele, aquele era um espaço lúgubre, lugar onde tinha sofrido abuso sexual de alguns monges, aos 12 anos, e que por isso o fez desacreditar neles. Situação que é muito comum em outras religiões, por sinal...
Ao partir do templo, o jovem reverenciado como um iluminado - ou “bodhisattva da terra”, que nasceu para inspirar as pessoas no caminho do Bem - levava na bagagem todas as inquietações, a curiosidade e os desejos de qualquer outro de sua idade. Foi para a Tailândia, ávido por conhecer as tentações da vida mundana. E ele efetivamente conheceu...
Após seis meses, período em que se apaixonou pelo hip-hop e aprendeu a navegar pela internet e a interagir nas redes sociais, decidiu retomar sua missão e reassumir sua posição na hierarquia budista, para administrar 70 templos espalhados pelo planeta. Se ele é criticado pelos conservadores? Claro que sim! Mas tem plena consciência do seu papel social, agora mais do que nunca.
Transitando entre o mundo real e o espiritual, como um equilibrista em uma corda bamba, o líder espiritual, que hoje tem 22 anos, percorre os cinco continentes para levar a sua mensagem e dispensa idolatrias. Para ele, o mais importante é divulgar a filosofia de vida originada na Índia por Suddartha Gautama, o Sakyamuni, por volta do século V a.C., que prega a bondade, o comprometimento pessoal com a paz e os benefícios da meditação. “Aumentar a qualidade do entendimento”, resume o jovem Kalu Rimpoche, que é visto como um dos elos entre os primórdios e o contemporâneo, com todos os desafios enfrentados no século 21.


Sônia Pillon é jornalista e escritora, autora residente dos sites de literatura Letras et Cetera e Cooperativa de Letras.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Cobaias (Fernando Bastos)

Lá pelos meus sete ou oito anos comecei a suspeitar que as pessoas a minha volta participavam de um grande jogo contra mim,  e todas faziam parte de uma trapaça, a fim de me enganar a respeito das coisas, que todas sabiam exatamente o que eu pensava.


Até de meus pais e irmãos eu guardava calculadas reservas, pois não tinha muita certeza de que eram meus pais e irmãos, mas seres de outro planeta ou algo parecido. Eu pensava que estava sendo vigiado 24 horas por dia, e que até na privacidade do banheiro, de porta fechada, fazendo minhas necessidades, alguém me observava, e contaria tudo para minha mãe, ou aquela que parecia ser minha mãe.


Essa sensação de estar num Big Brother de George Orwell, que eu só leria décadas depois, se prolongou até perto dos treze anos, quando aos poucos fui me convencendo de que essa história de imaginar uma conspiração contra mim não passava de fantasias da minha cabeça, ninguém, claro, poderia entrar em meus pensamentos e saber seu conteúdo, as pessoas eram tão reais quanto eu, sentiam dor, frio, calor, ficavam alegres e tristes, e, quando cometiam atos reprováveis, ficavam também com aquela sensação de coração dolorido, respiração ofegante e frio na barriga, que vim a saber mais tarde era provocada pela ansiedade e angústia.


Outra descoberta importante naquela época foi saber que outros meninos eram parecidos comigo, e tive certeza disso nas conversas com colegas entre uma aula e outra, assim que minha timidez permitiu, ao ouvir um garoto em tom professoral dizer que aquele líquido branco que saía do pênis era porra; dias depois aprendi o nome certo para a gosma, era sêmen, conforme ensinou um professor de Educação Física taradinho,  que em um dia de chuva, o pátio molhado impossibilitando a ginástica, resolveu explicar para meninos e meninas concentrados em sala de aula, os mistérios do corpo humano, e lá pelas tantas, disse que nessa idade era comum os peitos das meninas crescerem e aparecer pelos na xoxota, e só o fato dele mencionar essa palavra já foi motivo para todos me encararem, tamanha era minha fama de santo, incapaz de proferir palavrão, mas a gota d´água foi  quando ele disse que é normal o menino ir de vez em quando ao banheiro tocar uma punheta, eu quis me esconder debaixo da carteira, e se tivesse um buraco no chão da sala, eu teria me jogado para não voltar mais por um bom tempo, tanta era a vergonha que senti diante dos rostos com sorrisos de deboche que se voltavam para me observar, pois minha ignorância nesses assuntos e fama de inocente, eu diria hoje, de idiota, eram de conhecimento público. Não sabia para onde olhar, meu rosto ficou quente como brasa e devia estar mais vermelho que um morango maduro. As meninas mais atiradas, sempre que queriam me ver corado de vergonha, esperavam o recreio, sentavam ao meu lado na carteira de dois lugares comuns na década de 60, e, com a cara mais santa do mundo, encostavam a coxa nua, mal coberta pela saia de uniforme azul marinho plissada contra minha perna, sob pretexto de tirar alguma dúvida sobre uma matéria qualquer, pois eu era o gênio, o garoto prodígio, como a Marta, uma morena esguia e de belos cabelos negros um dia asseverou.


À medida que eu crescia na proporção da minha curiosidade intelectual, enredei saudáveis amizades com Freud, Nietzsche, Bertrand Russell, Jean Paul Sartre e outros do gênero, de modo que comecei a entender que meus entraves em questões sexuais eram frutos da minha educação agressivamente religiosa, onde escutava sempre que fazia algo indecoroso para os adultos, o famoso “Não faz isso que Deus castiga”.


Ler aquele escol de gênios teve um efeito devastador sobre meu espírito supersticioso, amedrontado e influenciável, pois deixei de ter medo das três piores coisas que mais me apavoravam: a primeira, de mulher – agora era eu quem procurava me encoxar; segundo, de sexo, quando aos 23 anos fui para a cama pela primeira vez com uma mulher - não faz mal que era uma prostituta, e nem tão formosa como eu desejava, precisei da ajuda dela para separar a banha extra das rotundas coxas e achar o caminho, mas pelo menos fez-me sentir um homem de verdade – percebi que sexo não era aquela coisa repugnante que me fizeram pensar, nem tão complicado, era só relaxar, gozar e ser feliz; e terceiro, de Deus, pois com as luzes que entraram pela janela da minha obscurecida mente, expulsei todos os demônios e explicações metafísicas para as incertezas que giravam ao redor do meu ser como gemebundos fantasmas.


O estranho é que, durante minha escalada para o cume da montanha, quanto mais eu subia, e via a paisagem se distanciar, e as pessoas ficarem quase tão pequeninas quanto formigas, uma estranha sensação se apossou de meu ser, uma espécie de déjà vu, mas agora de efeito contrário, pois não achava que as pessoas mantinham um conluio contra mim; eu havia percebido que elas é que viviam um falso mundo, manipuladas por uma ideia obsessiva, surreal, improvável e absurda; em última análise, elas eram como autômatos, comandadas por gente esperta que dizia o que elas deviam fazer, o que vestir, comer, e no que acreditar. Na minha escalada, encontrei muitos outros que haviam superado essa fase de cegueira mental, e quanto mais eram beneficiados com o ar puro da montanha, mais subiam e se enriqueciam com esse clima novo.


Hoje, perto de fazer 58 anos, continuo a subir a grande montanha, posto que a jornada para o conhecimento só termina com a morte, e a cada passo, consigo compreender um pouco mais porque a maioria das pessoas prefere ficar na planície, feito cordeiros ruminando as palavras trazidas pelo vento dos ancestrais, e acreditando no que seus condutores pregam. É mais confortável acreditar do que raciocinar, consome-se menos energia, e os poupa de dores e questionamentos.


Outro dia, no silêncio de meu apartamento de um quarto, cercado das minhas únicas companhias, um gato e um papagaio, lembrava do tempo em que imaginava viver em um mundo onde eu era uma espécie de cobaia e todos a minha volta eram os pesquisadores; hoje reflito e vejo que as cobaias somos todos nós, presos num imenso laboratório, repetindo comportamentos e ladainhas milenares, na mais das vezes nocivos para a saúde geral, mas encarados como a única verdade num mundo possível. E isso me apavora. Pois sei que poucos levantarão as cabeças do transe em que se encontram, e observarão para fora de suas gaiolas.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Crimes em nome da fé (Fernando Bastos)

Escrevo em jornais e blogs literários sobre vários assuntos, mas o que se destaca é Religião. Também publiquei um livro, chamado “Teofania”, que mostra as origens da crença no sobrenatural e seu desenvolvimento até os dias atuais. Desde então, tenho recebido muitas críticas favoráveis e, como não podia deixa de ser, algumas não muito educadas e alertas de que meu destino será arder no fogo do inferno.


Nunca procuro ofender a fé de ninguém; apoio que cada um creia em seu Deus da forma que lhe convém, contanto que não use sua fé para fins nocivos. Apenas questiono certas verdades e aponto para os problemas causados pela religião, que não são poucos.


O que me levou a escrever sobre religião foi a constatação de que, se por um lado ela traz benefícios – prega a solidariedade, traz consolo, esperança por dias melhores, etc. – por outro tem causado no curso dos séculos, dor, morte e sofrimento. O problema é que os dois livros religiosos mais importantes, Bíblia e Alcorão, embora contenham mensagens de amor e paz, também legitimam guerras, assassinatos e violência contra os que não se submetem à autoridade divina. Esses livros, nas mãos erradas, são pura dinamite.


Se as religiões somente ensinassem o amor, a caridade e o perdão, ninguém estaria escrevendo contra elas. Mas elas também ensinam a odiar e a matar. E é por isso que de umas décadas para cá, surgiram muitos autores alertando para os perigos da fé irracional e cega.


As maiores vítimas da doutrina religiosa são em primeiro lugar...


... As crianças. O menino judeu é submetido aos oito dias de idade à circuncisão, que é a retirada do prepúcio. Muitas vezes sem anestesia. Os médicos condenam essa prática, recomendada em raros casos. Em alguns países islâmicos, meninas a partir dos doze anos sofrem com a excisão dos órgãos genitais. Os lábios maiores são costurados para garantir a virgindade até o casamento ou têm o clitóris cortado, para que elas não venham a sentir prazer. O Alcorão não autoriza essa prática, mas pede que a mulher fique virgem até o casamento. Os religiosos se aproveitaram dessa recomendação, e inseriram esse costume tribal na sua cultura, pois viram nele um ótimo apoio para impedir as moças de terem relações antes de casar.


Segundo, as mulheres. Na cultura judaico-cristã, o controle de natalidade é proibido. Apenas o método da tabelinha é aprovado. Casais de classes mais humildes geram mais filhos do que poderiam sustentar, não porque desconhecem os métodos contraceptivos. Muitas vezes não têm acesso a eles, pois em muitas cidades, sobretudo do interior, os prefeitos evitam problemas com os sacerdotes e não distribuem para o povo as camisinhas e as pílulas. No Islã também é proibido o uso de contraceptivos. A saúde da mulher e seu desejo de ter menos filhos não são respeitados. Nessa cultura, em muitos países, ela não pode casar com quem ama, mas com o homem que os pais escolherem. Não pode sair à rua sem a presença de uma figura masculina ao lado, nem que seja um menino de cinco anos. Às vezes, é proibida de trabalhar e estudar, pois sua missão é casar bem cedo e gerar o maior número de filhos possíveis, de preferência meninos. O marido pode bater na esposa, com aval do Alcorão. E ele pode ter até quatro mulheres. As notícias mostram que elas são castigadas por andar sem o véu, ou mortas quando acusadas de adultério.


Terceiro, os homossexuais. Por causa de uma passagem bíblica, que pede a morte de homem que dormir com outro homem como se fosse mulher, a Igreja até hoje causa dor e constrangimento nas pessoas que seguem essa orientação sexual. Esse sentimento homofóbico acaba por ser internalizado na maioria das pessoas, mesmo as que não conhecem Levítico 20,13. Por conta disso, a cada dois dias no Brasil, um homossexual é morto por motivos de preconceito.


Cabem na lista dessas vítimas ainda os cientistas, que são prejudicados em suas pesquisas com células-tronco embrionárias; ateus e agnósticos, que são vistos com desconfiança pela falta de crença; os casais católicos que não têm permissão para se divorciarem; os filhos mortos porque os pais não permitiram a transfusão de sangue; os rapazes - futuros homens-bomba-, que vão tirar a vida de si mesmo e de inocentes, pois creem que serão recebidos por 72 virgens no céu; os dalit na Índia; etc. e etc.


As pessoas que defendem esses pensamentos e ações, dizem que tudo foi aprovado por Deus num livro chamado “sagrado”. Não foi. Deus nunca orientou escribas e sacerdotes do passado a escrever livros. Os maiores filósofos, arqueólogos, historiadores e cientistas desde o século 18, têm afirmado e provado que tais livros são produtos da mentalidade do povo que os escreveram, com suas ideologias, superstições e crendices. Usaram o nome de Deus para dar maior credibilidade àquelas ideias.


Essa notícia deve ser divulgada à exaustão, para que as pessoas parem de humilhar os outros, fazer guerras, causar mortes e sofrimento em nome de Deus.  Quanto mais pessoas conhecerem a história das religiões, como e por que foram criadas, mais aptas estarão para definir elas mesmas seu caminho, e assim, preparar um mundo melhor para se viver.

sábado, 17 de novembro de 2012

Davi e Jônatas (Fernando Bastos)

 

Israel era governado pelo rei Saul, mas ele fizera o que era mal aos olhos do Senhor, de modo que o profeta Samuel fora chamado para escolher um substituto. Em Belém, ele ungiu um jovem de bela aparência, de cabelos ruivos, chamado Davi. A partir desse dia, o garoto foi tomado pelo espírito de deus, que o acompanhava a todo instante.


Conhecendo a fama de bom músico, Saul mandou chamar Davi, o belemita, para perto dele. Todas as vezes que um espírito maligno se apoderava do rei, Davi tocava a harpa e Saul se acalmava, de maneira que o filho de Jessé ganhava cada vez mais pontos a seu favor, tornando-se escudeiro do rei. Quando Davi lutou contra o gigante Golias e o derrotou com uma simples funda, todos o temeram, pois sabiam que deus estava com ele. Como prêmio pelo ato de bravura, o rei o convidou para morar em seu palácio. Jônatas, filho de Saul, no mesmo instante em que viu Davi, apaixonou-se pelo belemita. Quando Davi saiu da reunião com o rei, Jônatas chamou-lhe num canto e disse, Davi, filho de Jessé, eu o amo como minha própria alma, façamos um pacto para nunca nos separarmos!


Após um carinhoso abraço, Jônatas presenteou Davi com seu manto, dando-lhe também armadura, espada, arco e cinto. Davi foi nomeado chefe dos guerreiros. A cada nova batalha crescia sua fama de grande líder, a ponto das israelitas cantarem, “Saul matou aos milhares, Davi, às dezenas de milhares”.  Aos poucos, a admiração do rei Saul pelo jovem belemita se transformava em ódio. O rei ardia em uma inveja que lhe corroía as entranhas, e logo começou a maquinar um plano para matar Davi.


Um dia, enquanto Davi tocava cítara para o rei, Saul arremessou duas vezes a lança contra ele, mas lépido que era, Davi saiu incólume do ataque. Saul pensou consigo mesmo, Esse filho de uma vaca é protegido do Senhor; então , que não seja a minha mão que o ferirá, mas a dos filisteus.


Saul mandou chamar Davi e lhe disse, Filho de Jessé, em troca de seu êxito nas batalhas, vou lhe dar por mulher minha filha mais velha, contanto que continue a ser um filho valoroso e destemido nas guerras do Senhor. Davi não quis aceitar a mão da filha do rei, julgando-se não merecedor de tão elevada honraria; essa foi a desculpa, mas o motivo da recusa foi que já estava ligado até a medula  ao amor de Jônatas. Entretanto, acabou aceitando depois de ouvir os rogos de Saul.


Como não tinha dote para pagar pelo casamento, Davi foi engenhosamente mandado à linha de frente na luta contra os filisteus, para, segundo imaginava o rei Saul, fosse morto em campo de batalha. No entanto, além de voltar vivo, Davi ainda trouxe duzentos prepúcios de soldados mortos em batalha. Era o dote que Saul pedira.


Conforme o trato, Mical foi entregue como mulher a Davi, mas a ira de Saul pelo tocador de cítara aumentava dia após dia. Numa reunião de emergência, em que chamara seus melhores generais e o filho Jônatas, o rei disse, Matem o belemita! Jônatas saiu correndo e avisou seu amado, Meu pai deseja sua morte. Fuja, querido, enquanto há tempo. Davi fugiu e foi morar em Ramá, junto ao profeta Samuel.


Numa noite, enquanto jantavam, o rei disse, Hoje é o segundo dia que Davi não aparece para cear conosco; onde ele está? Jônatas respondeu, Ele pediu-me para ir a Belém realizar um sacrifício em família e eu deixei. Mas o rei já suspeitava da relação proibida de ambos, e grande foi a explosão de fúria do monarca de Israel, atirando pratos e jarra de vinho contra o chão. Então, mirando a cara de Jônatas, gritou, Seu filho de uma cadela, todo o povo sabe que você escolheu Davi para sua vergonha e vergonha da sua mãe. Enquanto Davi estiver vivo, você não estará seguro, nem seu trono. Agora, parta e traga-me a cabeça dele.


Jônatas foi ao encontro do amado, e quando Davi avistou a figura do filho do rei, saiu de seu esconderijo e o beijou. Dependendo da versão bíblica, foi apenas um abraço, mas de qualquer modo, a essa altura, por mais que os defensores da tese de que o amor entre Davi e Jônatas era como de dois irmãos, se deixarmos os preconceitos tolos de lado, veremos que sim, havia entre eles um amor homoafetivo, do qual ninguém pode negar. Muitos, de fato, se mostram contrários às provas desse amor homossexual, pois pelos padrões da moral homofóbica da Bíblia, não pegaria bem que gerações mais tarde, o Messias cristão seria descendente de um gay, ou bissexual, como preferem alguns autores, o que, para os conservadores, isso abalaria profundamente a reputação do filho de deus.


Tempos depois, os filisteus atacaram Israel, e mataram Saul e seu filho Jônatas. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Davi, ele compôs um cântico fúnebre em honra de Saul e Jônatas, o verdadeiro amor de sua vida. À noite, ao redor da fogueira, sob olhar dos companheiros de luta, o belo filho de Jessé se cobriu de cinzas, rasgou as vestes e, com a alma enlutada, cantou num brado dolorido,


“Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; muito querido me eras! Maravilhoso me era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres.” (Segundo livro de Samuel 1,26).


 Fernando Bastos, cartunista, ilustrador e escritor.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

EM NOME DO SENHOR (Fernando Bastos)

Passei os melhores anos da minha vida acreditando em você, judeu. Seus sectários encheram-me a cabeça de pecados, e me diziam que eu só seria salvo se me entregasse a você. Agora, olha o que sobrou de mim. Cá estou, apodrecendo nessa prisão, pois acreditei que fazendo o que me pedia, eu teria paz.
Não tive.
Lembra quando um de seus prosélitos invadiu minha cama, naquele colégio de seminaristas, quando eu tinha 12 pra 13 anos? Aquele bosta me violentou, se apoderou de meu corpo frágil, partiu em cacos minha inocência. Por que o matei? Você mesmo disse que quem fizesse algum mal a uma dessas criancinhas, era melhor amarrar no pescoço a mó de um moinho e lançá-lo ao mar. Demorou dez anos para cumprir seu desejo, Mestre, mas cumpri. Eu não tinha uma pedra para amarrar no pescoço daquela infeliz criatura, mas não foi difícil conseguir uma faca de bom fio. Ah, como foi divertido passar-lhe a faca na jugular, e ver o chafariz de sangue espargir pra todos os lados, inclusive sobre minha cara; de felicidade, diga-se de passagem.
Foi tão doce matar minha primeira vítima, algo como um orgasmo depois de ter segurado o tesão até não aguentar mais. Os outros foram mais fáceis, e não tive nenhuma crise de consciência nos segundos precedentes ao ato. Não me olhe com essa cara, você não é o mesmo deus do Velho Testamento? Fiz o que me pedia. Deixa ver, Levítico capítulo 20, 13, “Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos serão mortos”. Não importava se um deles era meu irmão e o outro meu melhor amigo de infância, perfurei os dois sodomitas à bala, cortei-os em pedaços e... o resto você sabe. Engraçado que não tive nenhum mal estar, nenhuma congestão.
Agora, o que me deu mais prazer, foi liquidar com meu pai, aquele ateu filho da puta. Ele resistiu, não queria ir à igreja comigo, mas eu falei que se ele fosse e acreditasse em você, eu desistiria do sacerdócio. Aceitou. Foi tão bonito e incrivelmente emocionante vê-lo se ajoelhar ao meu lado! Mas infelizmente, ele disse que não ia se converter; foi seu grande erro. Antes que eu o atingisse com a pedra que eu trouxera na mochila, li em voz alta Lucas 19,26 pra ver se ele compreendia. “Aqueles que não me aceitarem como rei, trazei-os aqui e matai-os na minha presença”. Ele não esboçou nenhuma reação, quando me viu levantar a pedra com ambas as mãos; penso que seus olhos não acreditaram que eu pudesse fazer aquilo. Acertei-lhe o crânio com um golpe certeiro. O corpo ficou se debatendo como um epilético sobre o banco envernizado, e, para não ter dúvidas, dei-lhe mais umas dez golpeadas na cara. O sangue melou o banco e o piso da Matriz; seu rosto ficou uma massa pastosa de carne, sangue e ossos quebrados. Eu ainda olhava para meu pai agonizando, quando os policiais apareceram.
Agora, estou aqui, Senhor, nesse cubículo fétido, infestado de pulgas e baratas. Se você é Deus, sai dessa cruz, e repara todos os males que causou em mim.

terça-feira, 20 de março de 2012

Descrença (Tiago Nascimento)

Uma noite os homens olharam para cima e perceberam que não podiam explicar as estrelas, o céu, as nuvens nada. Então criaram a mitologia.

Um dia um homem olhou para dentro de si e viu que tinha todas as respostas e também perguntas que ninguém formulara. Estava criada a filosofia.

E hoje eu olho pra Terra, pros seus habitantes, com meu crítico olhar de pessimismo e descrença; para onde é que essas pessoas estão a nos levar?





quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O sêmen milagroso do padre Jesuíno (Fernando Bastos)

A faxineira entrou no quarto religiosamente às oito da manhã. Ouviu o barulho do jato de urina que vinha do banheiro contíguo ao quarto do padre, e imaginou que aquele santo homem era afinal, igual a todos os espécimes masculinos: tinha pênis, bolas e também precisava aliviar a tensão da bexiga.
O simples fato de pensar nesse apêndice de um homem de Deus ruborizou-lhe a face macerada, cravada de rugas. Ângela beirava os 50 anos, era uma beata. Não era feia de estampa, apesar do andar meio de banda. Houve dias em que alguns paroquianos de língua mais afiada aventavam mirabolantes histórias sobre o padre Jesuíno e ela. Mas eram só boatos. Ângela não era apenas fiel a Deus; mantinha-se casta diante dos prazeres da carne.
Conformava-se com a artrite reumática. Dizia que a doença nos ossos era sua grande amiga, que a deixava mais próxima ao Senhor Jesus. Já abrira as cortinas do quarto e preparava-se para trocar os lençóis quando o bom sacerdote saiu do banheiro, e, como sempre fazia, saudou a empregada com um largo sorriso:
- Bom dia, Ângela...
- Bom dia, sua bênção, padre.
- Deus a abençoe – e foi para o refeitório, tomar o café.
Sozinha no quarto, a mulher deu prosseguimento à sua labuta diária. De chofre, algo lhe chamou a atenção. Uma revista de “mulher nua” estava sob o travesseiro. O padre havia esquecido de guardá-la. Mas havia mais uma coisa: uma mancha sobre o lençol, e, ao tocar o dedo médio, a faxineira sentiu a viscosidade do líquido. “Será creme de barbear?”, pensou a mulher. Levou o dedo a um centímetro das narinas e cheirou. Pareceu-lhe ter cheiro de Kiboa, a meleca. Ângela levou o dedo à boca, sorveu vagarosamente a massa gelatinosa, estalando várias vezes a língua para apurar o paladar e engoliu.
- Hm, parece pudim. Mas sem açúcar.
Na cozinha, encontrou a amiga temperando o almoço e contou o “milagre”.
- Quer dizer que as dores sumiram? – perguntou a cozinheira – Como assim?
- É um milagre, Valdirene – disse Ângela, radiante – Foi logo que saí do quarto do padre.
- Ele a abençoou? Você fez alguma reza especial? Viu o Anjo da Misericórdia?
- Não, não. Fiz o que sempre faço toda a manhã…Ah, tem uma coisa que preciso lhe contar…
- Conta, não me esconda nada…
Dez minutos depois, aparecem Jesuíno e um padre mais moço, o Ramirez, para inspecionarem o almoço do dia. A cozinheira não perdeu tempo:
- Padre, aconteceu um milagre. Ângela foi curada do reumatismo.
- Isto é verdade, Ângela? – perguntou Jesuíno, cético que era.
- Verdade verdadeira, padre – atestou a própria agraciada pelo “néctar dos deuses” – veja, consigo até fazer flexões.
- Você mudou o medicamento?
- Não, padre, são os mesmos remédios de sempre. Aqueles corticóides que me fazem engordar. Mas não vinham mais fazendo efeito. Até que hoje…
- Até que hoje?… – repetiu o padre.
- Até que hoje Deus resolveu me curar.
- Ângela, fale do “creme consagrado” – insistiu Valdirene, dando uma cotovelada na amiga.
- Creme? Que creme? – perguntaram os padres.
E Ângela explicou tudo aos dois padres, que ouviam estupefatos a narrativa da mulher. “Meu Deus”, pensou Jesuíno, “será meu sêmen milagroso?”.
Um mês se passou desde aquela manhã do “milagre”. Jesuíno decidiu se confessar. Não conseguia mais dormir direito. E Ramirez era o mais apto a ouvir sobre sua diversão solitária.
- Date gloriam Deo – fez o padre Ramirez por trás da janelinha do confessionário. Deus abençoou seu líquido seminal, meu irmão. A Igreja tem registrado preciosas relíquias de santos como ossos, sangue, cordas vocais, dedos. Mas “porra santa” é a primeira vez na história.
- Não brinque com algo tão sério, Ramirez – pronunciou o penitente.
- Não estou brincando, Jesuíno.
- Eu quero minha absolvição, padre.
- Ora, Jesuíno, bater uma punhetinha não é pecado. Eu mesmo toco as minhas de vez em quando…
- Uma santa mulher bebeu meu sêmen. Por descuido meu. Preciso de sua absolvição…
- Ao contrário, irmão. Você merece toda a glória dos céus, todos os cânticos sagrados dos anjos celestiais. Jesuíno, você é um santo.
Nesse instante, padre Ramirez saiu do confessionário, tomou a mão de Jesuíno e a beijou com fervor.
- Padre Jesuíno, preciso que você cure minha gastrite.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Memórias de um professor aposentado (Fernando Bastos)

Certa vez, quando eu contava com meus cinquenta anos; lá se vão mais de duas décadas, e dava aula de Filosofia na Universidade F..., percebi que uma garota que sempre tivera participação ativa nas aulas, começara a faltar com frequência. Aqui vou chamá-la de Maria, para proteger sua identidade. Maria tinha 22 anos, e fui saber que estava depressiva e andava se entupindo de calmantes. A mãe a levara a um psiquiatra e ele prescreveu os devidos medicamentos. Naquele ano ela não voltou a estudar. Foi se tornando escrava dos remédios e não saía mais de casa. Nem banho tomava. Fiquei sabendo de tudo isso na festa de aniversário de uma amiga dela do curso que eu ministrava. Ela mesma me contou, quando me encontrou sozinho tomando meu uísque na varanda da casa. Era a primeira vez em um ano e meio que ela saía de casa. Estava irreconhecível, bem mais magra, uma palidez de papel na pele e com um olhar de zumbi. No entanto, conservava ainda aquela beleza jovial de uma personagem de um quadro de Botticelli. Foi levada à força pelas primas a tal festa. Para meu espanto, ao me ver, ela abriu um sorriso e me cumprimentou:
- Oi professor, como vai?
- Oi, guria, respondi, Que bom te ver. E tu, como vais?
Em uma hora de conversa ela me falou da sua infância, da rígida educação de base católica em casa, das múltiplas recomendações a se manter afastada dos garotos, que “só pensam em transar com as meninas”, do exagerado cuidado de seus pais para que não namorasse antes de se formar na faculdade. Com uma sinceridade invejável, Maria me contou que entrou em depressão porque não podia namorar, queria fazer sexo e os pais a cerceavam vinte e quatro horas por dia. Com vinte e dois anos, ainda era virgem! Disse a ela que ser virgem naquela idade não era comum, mas também não era nenhum fim do mundo. Que ela não devia se preocupar com isso, mas sim, com sua saúde e bem estar. Não foi difícil notar que todo o problema dela, sua apatia pela vida era em função da perda de liberdade, sobretudo pelo direito em extravasar sua sexualidade reprimida. Convidei-a para uma noite de amor, e, juro a vocês, não me surpreendi quando ela aceitou. Saímos à francesa, e fomos direto ao meu apartamento. Naqueles tempos eu era um coroa desejável, estava com o corpinho em dia, pegava onda na Joaquina ao lado de campeões, de forma que não fiz feio. Quando tiramos a roupa, fiz apenas um pedido. O quê, ela perguntou. Não terá penetração, respondi. Por quê, disse ela, esperando que seria desvirginada naquela noite. O senhor não me achou atraente, estou tão feia assim? Não é isso, respondi. E, por favor, não me chames de senhor. Está bem, disse ela com um sorriso meigo, desculpa. Tu és bela, eu disse, e sinto-me envaidecido por tua confiança em mim. Porém, o que tem de menos importante hoje é tu perderes a virgindade. E a beijei. Não dei tempo para ela falar. Beijei-a com centenas de beijos, desde os lindos pés até a as pontas dos cabelos. Ela chegou ao orgasmo pelo menos quatro vezes. Minha língua estava afiada aquela noite, e meus dedos habilidosos. Exausta, ela me agradeceu, Obrigada professor, nunca imaginei que sexo fosse tão bom. E ainda sou virgem! Abracei-a e disse, Não tenhas pressa. Quando te sentires pronta, aí sim será o momento. Na segunda-feira ela voltou ao curso. “Milagrosamente”, no dia seguinte ao nosso encontro, ela largou de vez os antidepressivos.


Fernando Bastos, cartunista e escritor

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Em nome da Fé (Fernando Bastos)

Guerras e momentos de paz, ódio e amor, abandono e caridade fazem parte de nosso mundo orientado sobretudo por conceitos religiosos. Essa dicotomia que ora produz homens e mulheres santos, ora assassinos pode começar a se tornar compreensível se entendermos seus textos “sagrados”.

Vamos dirigir nosso olhar para os dois grandes livros, responsáveis por ditar regras de comportamento em mais da metade do planeta: a Bíblia e o Corão. Ambos trazem versos confortadores e amorosos. “Amai-vos uns aos outros” é um pedido cristão e a sura 4,36 (Corão) declara: “Tratai com benevolência vossos pais e parentes, os órfãos, os necessitados, o vizinho próximo, o vizinho estranho, o companheiro...”. É espantoso que duas religiões que sustentam esses versos de amor tenham sido causadoras de cruzadas, guerras santas, inquisições, e atos de terrorismo em nome da fé que seus devotos seguem.

Expandindo nosso olhar sobre as escrituras, veremos que nem só de amor e perdão nos “falam” aquelas páginas. A Bíblia traz em Deuteronômio 17,2 a sentença de morte para quem adora outro deus (quem tem outra religião). Em cima disso foi possível a Santa Inquisição, liderada pela Igreja, onde milhares foram mortos. O Corão ensina na sura 4,89 como tratar os que não seguem Alá: “capturai-os e então, matai-os, onde quer que os acheis”. Assim como papas autorizaram a morte na fogueira de hereges, os terroristas do 11 de setembro  tinham apoio da fé para o ato que cometeram.

Esse talvez seja o grande mal na religião: ensina que devemos dar a mão ao próximo, desde que ele acredite naquilo que acredito. Não há tolerância e respeito a pensamento diferente. É mais importante crer do que ser. A salvação é questão de crença e não de caráter. Agora podemos entender um pouco porque uma crença pode ao mesmo tempo motivar alguém a acolher um desvalido, bem como inspirá-lo a botar tudo pelos ares.

Fernando Bastos, cartunista e escritor.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Deuses apaixonados (Fernando Bastos)

A atração dos deuses por mulheres mortais, geralmente comprometidas, muito jovens e virgens, faz parte da mitologia da maioria dos povos da Antiguidade.

Uma dessas divindades, cuja fama de galanteador se espalhou como areia no deserto é Zeus, o chefe do Olimpo.  Zeus dava trabalho à ciumenta Hera, que ficava horas acordada com um pau de macarrão na mão, esperando o maridão chegar das baladas. Certa vez, Zeus transformou-se num cisne e se uniu a Leda, mulher de Tíndaro. Em outra pulada de cerca, Zeus se disfarçou com feições do próprio marido de Alcmena, e, enquanto ele estava em campo de batalha, o deus adúltero divertia-se com a mulher do guerreiro. Conta-se que Anfitrião ficou lisonjeado por ter emprestado a esposa a um deus e nem se importava quando os amigos diziam: “Lá vai o corno!”. A partir dessa lenda, o termo anfitrião passou a significar “aquele que recebe em casa”.

Dionísio, amante de vinho e bacanais, ficou louco de amores por Ariadne, que também era comprometida. Marte se fantasiou de serpente e seduziu a virgem Reia Sílvia. A moça se encantou pela cobra, engravidou, e gerou os futuros fundadores de Roma: Rômulo e Remo. Na antiga Pérsia, Ahuramazda se apaixonou por uma donzela de alta linhagem, e a fecundou com um feixe de luz, recheado de espermatozoides.

A garota de quinze anos teve de explicar aos pais e vizinhança como engravidou sem ter conhecido homem, e sem ter feito inseminação artificial, já que no século sete a.C. ainda não conheciam a técnica. Contudo, como eram muito ingênuos, logo todos acreditariam na concepção milagrosa, algo não tão raro naqueles tempos. Hoje, podemos até achar graça, mas naquele período de obscurantismo, um deus se interessar por uma terráquea era a coisa mais natural do mundo.

Fernando Bastos, cartunista e escritor.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Quase um santo (Inacio Carreira)

O Zé ficou triste quando ouviu a notícia. Morrera um grande homem.

- Poxa, disse consternado para o Jão, o vice morreu.

- Pena que não foi o titular, retrucou o outro, puteado.

- Diz isto não, cara... Quantas vezes o Zé lutou contra a morte e venceu? É um herói. Até que a marvada levou ele, que aqui ninguém fica mermo.

- Venceu porque tinha grana. Lembra da dona Zica, da vendica? Foi de primera, não teve escolha. E a Lindinha, do Tonhão? Ficou mesmo foi na fila de espera. Agora, esses bacana, vão em tudo que é médico do mundo, são mais bem tratado que cavalo de corrida... Acha que eu vou ficá triste? Foi tarde... O que ele fez enquanto tava lá? Reclamou dos juros alto, que interessava pra ele, como gente grande dos panos...

- Fala assim, não... Sofreu tanto...

- E o povão, sofre não? Esse aí se juntou ao barbudo “dos trabalhador” pra usar o poder e ganhar mais. Que nem aquela mulherzinha da fábrica de sabão, como é mesmo? A suplício...

- Suplicí... aquela que mandava os ôtro gozá... Bem relaxada, ela...

- Sim, relaxados são eles todo, e a gente ainda sustenta essa máquina de fazê corrupto.

- Mas ele foi perseguido, como todo mundo que se destaca na vida. Lembra aquela uma que diz que é filha dele?

- ... e que ele foi no programa do gordo pra dizer que era filha da puta? Bem sacana ele... Foi ganhá a simpatia do povo dizendo que ia em putero que nem todo mundo... Todo mundo não, que eu nunca fui dado a essas coisa, ficava mesmo no cinco contra um enquanto não arrumei a Zefa pra trepá... Deus mandou cresce e multiplicá, não ficá indo em putero dá dinheiro pra vagabunda...

- Olha o preconceito, cara, isso dá cadeia. Puta agora é profissão.

- Sim, hoje tudo dá cadeia, menos metê a mão no bolso do cara honesto. Vê o salário mínimo? Eles brigam pra aumentar cinco real mas o deles não tem limite. E ainda ganha até telefone de graça, de graça não, nós paga...

- Quanta revolta, cara, fala assim não. É verdade, mas não precisa falá. Resolve?

- E aí vem a televisão e mostra o povo chorando porque um ricaço morreu. Tu já ouviu falá de uma tal de revolução da francesa? Aquela, quando eles derrubaram um negócio lá na França. Negócio de bartira, pastilha, bastilha, acho que é isso...

- Ouvi não, fugi da escola...

- Eu também fugi, quer dizer, nem fui. Modo de dizê, só... Mas escutei uns velho falando... Passaram o facão em tudo que era ricaço. Não que a gente devesse fazê isso aqui, não, que sou contra violência, mas e a violência que fazem com a gente? Esse negócio de doença, cara...

- É, nisso concordo contigo, continua a lei do “sabe com que tá falano”... do “quem pode mais chora menos”, do “salve-se quem puder”... A lei da selva.

- Tu tá vendo muita novela, cara... Papo estranho, esse teu.

- Novela nada. Eu tenho tempo pra isso? Vez em quando vejo o jornal, ou o futebol na TV do barzinho da esquina, ou em alguma loja no centro. Mas em casa... Quando não está estragada a gurizada só quer saber de ver aqueles programa de perseguir bandido, parece a suáti... Mas a gente sabe que é tudo encenação, teatro, não é assim que diz?

- E enquanto isto o povão otário chora a morte do ricaço. Comeu do bom e do melhor, correu o mundo todo, foi tratado como otoridade na vida e na morte, e eu vou ficá com pena? Quem tem pena é galinha, sô... Do jeito que a coisa tá, só falta agora fazê feriado, ou dia santo, pra homenageá o home...

- Talvez fosse bão, sim... Nós temo o Padim Ciço, mas é só no norte... E essa madre, mas é no sul. Tinha que tê um santo de todos os brasilero, que nem a Cidinha, mas essa é maior...

- Santo brasileiro? Só se for protetor das casa de luz vermelha... O santo das putas. Que nem aquele bandido, também da luz vermelha, quase um herói. Tem até filme. Vítima da sociedade, como eles diz.

- Credo em cruz! Arreda...

Inacio Carreira