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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Perto da Morte (Fernando Bastos)

“Sofia lembrou-se que a avó, no dia em que soubera da
sua doença, dissera algo semelhante. - Só agora tomo
consciência de como a vida é rica - dissera ela.
Não era triste que a maior parte das pessoas tivesse que
ficar doente para reconhecer que a vida era bela?”
(O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder)


Você me disse que precisava falar. O quer foi, amigo, algum problema?

Precisava desabafar com alguém. A gente se conhece há mais de trinta anos, e sei que você é a pessoa certa pra me ouvir, aliás, coisa que você sabe fazer tão bem.
Sua cara não tá boa. Fala, o que houve?
Os médicos sabem. Quando um paciente é avisado que tem uma doença grave, a primeira coisa que faz é prometer que vai mudar radicalmente de vida. Depois de algumas semanas, passado o susto, volta a cometer os mesmos erros, deixa a caminhada de lado, retorna à cerveja e às carnes gordurosas. Assim aconteceu comigo. Você sabe, tenho 60 anos cravados. Uma mulher linda e dedicada, e três filhos, todos crescidos e encaminhados. Mas eu achava que viveria até os 100, e esse foi meu erro. Eu já sabia que minha saúde não andava bem das pernas, mas relaxei, e não me cuidei. Agora a coisa ficou séria. Estive novamente no médico, pra umas baterias de exames. Se eu quiser ter uns anos extras de vida, vou ter que entrar na linha, senão...
Eu já havia te falado sobre isso.
Sei, lembro. Mas eu não tinha noção do tamanho da enrascada. Mesmo assim, te garanto que não temo a morte. E Epicuro me lembra: “Por que ter medo da morte? Enquanto somos, a morte não existe, e quando ela passa a existir, nós deixamos de ser." O que me faz agora me agarrar à vida com unhas e dentes, é que finalmente percebi que a vida é melhor do que eu pensava, apesar de tudo... apesar de tudo, eu quero viver.
Fico feliz que tenhas agora tomado consciência disso...
Você ouviu falar na enfermeira Bronnie Ware, autora de um livro que trata dos arrependimentos de quem está para morrer? Ela o escreveu após anos convivendo com pessoas em estado terminal. O primeiro dos arrependimentos é: “Muito me arrependo de não ter vivido a vida que eu queria viver, mas de ter vivido a vida que os outros esperavam que eu vivesse”.
Você se arrepende do quê?
Nossa! De tanta coisa. Eu faria muita coisa diferente. A primeira, teria sido mais cuidadoso com minha saúde. A outra, teria sido menos inseguro nas minhas relações. Esses dias, prestei atenção à letra Epitáfio, dos Titãs.
Diz assim “Devia ter amado mais/Ter chorado mais/Ter visto o sol nascer/ Devia ter arriscado mais/E até errado mais/Ter feito o que eu queria fazer...”
É linda e profunda essa letra...
Sim, e serve perfeitamente para mim nessa hora.
Nesse instante, meu amigo me abraçou, e algumas lágrimas inevitáveis desceram sobre minhas faces. Eu estava me redimindo de meus pecados.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

No mundo da lua: Dom Quixote contemporâneo (Sônia Pillon)


Ele levanta acordado pelo despertador do celular. Corre contra o tempo para se arrumar e fica matutando como esticar o dia. Tanta coisa para fazer! Fica imaginando como transformar aquela peça de teatro em um sucesso nacional. Já está até vendo a cena: os anúncios na mídia, os outdoors espalhados pela cidade, as críticas favoráveis, o teatro lotado, o público aplaudindo de pé... E ele lá no meio, junto ao elenco... Bravo! Bravo!


Lágrimas de alegria escorrem pela sua face, enquanto imagina a realização do seu sonho. Seu coração bate acelerado e ele mantém um sorriso de genuína alegria...


Enquanto dilui o café solúvel e mastiga um pão dormido com manteiga, ele abre rapidamente o notebook. Confere as principais manchetes, a previsão do tempo, os escândalos de Brasília, a cotação do dólar... Eita, mundo cão!...


Olha um anúncio de brinquedos eletrônicos e lembra daquele roteiro infantil que criou 10 anos atrás, uma releitura erotizada dos personagens “Chapeuzinho Vermelho” e “Lobo Mau”, transformados em uma “Lolita” do século 21 e em uma espécie de “Dom Juan de Marco” à brasileira, à la Nelson Rodrigues... A vida como ela é... – Bando de provincianos! Não sabem o que é arte!


Quase 10 horas! Desce as escadas correndo em direção ao portão. – Não posso me atrasar na entrevista com o tubarão! E se ele patrocinar o projeto? Amanhã mesmo vou poder reunir o elenco, retomar os ensaios, planejar a temporada, a turnê nacional...


Na saída, vê a caixa de correio entupida de contas, contas e mais contas para pagar... E “santinhos” de políticos, que de santos não tem nada... - Haja estômago!, pensa em voz alta, fazendo uma careta.


Ele apressa o passo. Chega suado e esbaforido até a antessala do diretor presidente. A secretária executiva o olha por baixo dos óculos e pede que espere até o final da reunião. E ele espera... 10, 15, 30 minutos, até que a porta se abre e os executivos deixam a sala do tubarão-todo-poderoso. – Pode entrar, diz a secretária.


Finalmente o roteirista entra, segurando a pasta, frente a frente com o tubarão...


- Li atentamente o seu projeto. Bem interessante. Mas infelizmente já fechamos o orçamento deste ano. Decidimos associar a nossa marca a um cantor sertanejo que está bombando e vendendo que é uma beleza! Lamento. Fica para a próxima!


Ao sair da empresa, ele decide que não vai desistir. Afinal, é o que sabe fazer e não está disposto a entregar os pontos. – Amanhã é outro dia! De algum lado o sol tem que sair!


E lá vai o heroico e idealista Dom Quixote contemporâneo, pronto para enfrentar seus moinhos de vento, mais uma vez...


Sônia Pillon é jornalista e escritora, autora residente dos sites de literatura Letras et Cetera e Cooperativa de Letras.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Causa sine qua non (Fernando Bastos)

 








Andava sempre de olhar afundado como uma garotinha que fizera traquinagem na sala de aula. Algumas vezes cheguei a suspeitar que fora violentada na infância, ou que fosse lésbica, dado sua habitual distância que mantinha dos homens que a abordavam.


Ana Maria era o oposto de Mariana. Ela, gelo, minha mulher, fornalha. Até hoje tenho complexo de Bentinho, aquele do Dom Casmurro. Por mais que Mariana defenda a tese de que não me corneia, estou sempre com um pé atrás. Às vezes faz hora extra no escritório de advocacia, e sabe lá o que acontece nessas ocasiões. Amo Mariana, mas Aninha me incendeia. Comecei a namorar Mariana quando eu tinha 20 e ela 17. Mariana morava com a avó e uma irmã. Gêmea. No dia seguinte, da minha primeira noite com a então namorada Mariana, quando fui lavar o rosto, levei meu primeiro susto. Como Mariana podia estar no banheiro saindo de toalha, se havia dormido comigo e a deixei no quarto antes de descer as escadas?


Aninha percebeu meu espanto e, timidamente, sem me olhar na cara, disse Não sou Mariana, sou Ana Maria, a irmã gêmea dela. Mariana, para de brincadeira, falei, como conseguiu chegar aqui antes de mim? E, sem deixá-la responder, abracei-a e apertei aquele
corpo ainda molhado sob a toalha felpuda. Estou falando sério, disse ela, Por favor, vovó pode acordar e nos ver...Mariana não me falara nada sobre a gêmea. Fazia parte do jogo. Ela gostava de jogos. Eu adorava vencê-los. A cópia se afastou e foi para o quarto, segurando
a toalha de banho com as mãos rente aos seios. Quis possuí-la, mas o fiz só com os olhos. Despedi-me do tornozelo bem moldado, e da sola branquinha do pé, antes dela entrar no quarto e fechar a porta para terminar de se secar.


Casei com Mariana, a avó morreu, a gêmea ficou morando conosco, Mariana se formou em direito, e, depois de um ano de casamento, começou a fazer hora extra. Não me preocupava com os serões de Mariana. Quanto mais tarde chegava, mais eu aproveitava os momentos para saborear a visão daquele corpinho, defendido sumariamente por uma camisola de algodão que ia até a metade das robustas coxas, deitada sobre o sofá, lendo Clarice. Com o tempo, ela foi perdendo aquele medo de animalzinho selvagem, e deitava em meu colo para lhe acariciar a cabeça. Quando sentia o perigo, levantava, dizia que ia ao banheiro, depois voltava para me dar boa noite, a uma distância segura, olhando-me obliquamente.


No finalzinho do outono passado, houve um Congresso de advogados na capital. Minha mulher voltaria no domingo. Na sexta, comecei a preparar o cenário. Vinho Cabernet, a lareira acesa, um filme romântico, o convite. Hesitante, largou o livro, e sentou-se ao meu
lado no sofá. Puxei o cobertor, e nos enfiamos debaixo dele. Nem deu a metade do filme, e ela já estava bêbada. Eu sabia que estava errado, mas a carne é fraca. Os primeiros códigos de Lei já proibiam esse tipo de relação. O judaísmo, maior influenciador sobre nossa cultura, avisa em Levítico 18,18: “não tomarás a irmã de tua mulher,...descobrindo a sua nudez...”.
Mandei à merda a lei de Deus, abracei-a, sob pretexto de esquentá-la, e ela concordou. Em dez minutos, sumiram nossas roupas, e ela galopava sobre mim, no tapete da sala. Seu moreno corpo rebrilhava as cores do fogo da lareira, dando-lhe um aspecto sobrenatural. Coloquei um travesseiro sob seu quadril. Suas unhas arranhavam minhas costas, mas não me incomodei. De repente ela começou a falar obscenidades, que jamais havia sonhado que pudesse dizer. Levei-a para seu quarto, e deitamos em sua cama, na esperança de acordar antes que minha mulher chegasse da farra.


No meio da madrugada, uma réstia de luz trespassou a fresta da porta. Lentamente, um vulto de mulher assomou na penumbra, como uma hetera, que chega em casa depois dos compromissos. Cheirava a bebida e perfume masculino. Sem dizer uma palavra, deitou entre nós e me beijou.






 

 

 

 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Revolta cipeira (Marcio E. Ochner)

Cansado de chamar a atenção dos funcionários, revoltado, o chefe da fábrica solta: “Do jeito que estão fazendo cagada, terei que exigir que os Cipeiros coloquem no mapa de risco desse setor um círculo enorme, para Risco Biológico”.


Saiu falando alto para todos ouvirem. Mesmo com toda aquela barulheira das máquinas trabalhando no pavilhão, conseguia-se ouvi-lo até na Recepção. Novamente, enquanto chamava a atenção de mais alguns que por ali seguiam, andava apressadamente de uma máquina a outra... “Tá errado aqui, tu não está vendo?... Afrouxa lá, porra, vai arrebentar a maldita máquina...”


Beneto, cansado, seguia novamente para sua sala, nervoso, resmungando. Ainda estava tentando digerir aquelas conversar dos Cipeiros, que se reuniam na sala ao lado. Ele os escutava entre os biombos: naquela conversa tratavam de um tal Plano de Emergência... Beneto pensava: “Que merda é essa?” Permanecia ouvindo os discursos, cujo clamor adentrava a parede de plástico. Ele, quase que colado ao forro, escutava o plano. Nisso vê um de seus funcionários seguir para o refeitório, segue logo atrás, aproveitando para apanhar o maço de cigarros, fumando um no mesmo instante. Acompanha-o até fora da fábrica, deu suas baforadas e falou: “Que é isso, Zequinha, é café, não coca-cola, pega um copo menor, rapais... Já terminou o que tinha para fazer”? Nisso responde o Zequinha: “Não, Beneto, mas o novato ta cuidando da máquina...” Irritado, larga: “Tu deve ta ficando doido, se ele fizer merda lá, tu é que vai levar a comida de rabo, rapais!  Deixa pra toma isso depois, vá cuidar da máquina...” E o Zequinha abandona o copo e sai apressadamente. Chegando lá, conversa com seu companheiro de trabalho e aguarda mais ou menos uns 10 minutos na máquina, quando então a desliga. Zequinha chama seu companheiro para tomar um café.


Beneto, ainda no lado de fora, saboreando um café fresco que acabara se sair do coador, logo após o terceiro cigarro, vê os dois seguindo na direção dele, observa atentamente. Largou um e tirou o quarto cigarro, acendendo. Comenta, baforando: “Ta bom o café? Parece que ta, né? Vocês dois devem achar que pago vocês pra ficar tomando café, não é? Estão esperando o quê, ai parados, o final do mês pra receber? Já pro trabalho vocês dois, tenho que entregar aquela encomenda até sexta-feira. Vamos lá...”


Saem em disparada para a linha de produção os dois funcionários da fábrica que nunca para, nem para café, muito menos para conversas aleatórias.


Beneto ainda reclamando: “Não sei para que o Plano de Evacuação! Vivem aqui fora tomando café. E quando estão nas máquinas, fazem a melhor função retilínea que eu já vi na história, só cagada, uma atrás da outra!”

domingo, 19 de agosto de 2012

A Bela Adormecida (Vana Comissoli)


Quando as brumas começaram a aparecer e se por, como véu de gaze, diante do sol tornando tudo levemente cinzento e úmido, comecei a bocejar. Talvez o descolorido que retorcia o mundo, ou o mar que se emendava no céu, ou o arrepio da pele... Indecifrável... Indefinível. Um sussurro de medo acompanhava meu sono a alargar-se pelos dias.Ainda nos reuníamos junto ao fogo sagrado ouvindo nossa rainha, aprendendo com o Mago, mas isso foi antes, muito antes do Tudo.
Os barcos perderam o rumo e quase não saíamos mais da ilha, a volta se tornara um ponto de interrogação riscado forte como um raio queimando os troncos retorcidos de antiguidade. Nada havia a fazer além de sortilégios que perdiam o efeito mais rápido do que um piscar de olhos enquanto nossa pele se tornava áspera e poeirenta apesar dos creme de hamamelis e sementes de uvas.
Uma indescritível tristeza tomou conta de meu coraçãoe meus sentidos, deitava-se sobre meus olhos como venda arrancando a conhecida intuição e a certeza do Poder. Pareciame esquecer que era Morgane, a concebida pelo furor do vento e a luz das estrelas.A eterna herdeira do trono da Terra,de ventre farto e braços mornos. Todas éramos Morgane. Todas nos batíamos pelas paredes transparentes que se erguiam aos poucos construídas por mãos feitas de espadas e palavras.Sobretudo palavras. Tão fortes e poderosas que arrebentavam os altares desacrifício, os círculos de pedras e tornavam as orações meras frases esfiapadas de nuvens. Vozes masculinas estuprando nosso mundo feminino. O poder da Deusa caído como as vestes que cobriam nossa nudez pálida. Avalon vendo seu trono ruir carcomido por famintos vermes.
Naquela noite deitei-me com o a infusão ao lado, não havia medo ou dúvida em mim, simplesmente era hora de dormir, não importava por quantos séculos, ou milênios.Um dia, depois que as folhas todas tivessem vicejado e morrido, que rumores inconcebíveis já tivessem se perdido na poeira do Tempo, viria o Príncipe me despertar e seria novamente Morgane, a sempre presente força do gestar e parir sonhos e gente, ideias e transgressões. Levemente cruel como convém a uma mulher e sensual como também é esperado. Sempre bela aos olhos de quem me amasse. Eu e todas as minhas irmãs.
Séculos se passaram em meus pesadelos cheios de sangue e dor, onde os homens se matavam em nome de qualquer estandarte, fosse ele legítimo ou não, quase nenhum era, haviam esquecido os preceitos ancestrais e com isso perdido o rumo. Tornaram-se senhores de uma terra que lentamente devastavam, rolando sobre cadáveres de crianças esfomeadas, animais extintos e sob o reinado do mais cruel dos reis: o másculo Valor Econômico.
Não vi quando o sol começou a furar as brumas silenciosas, nem percebi a aproximação daquele que despertaria a Razão e o Amor novamente em mim. Vinha em um cavalo branco e o trote compassado era o único som que eu conseguia distinguir em meio ao silêncio que se estendia através dos gritos do mundo.
Beijou-me delicadamente depois de lutar contra os grossos liames que me mantinham prisioneira e que se retorceram sobre meu leito com o passar dos séculos. Não rasgou minhas vestes, nem tentou obter meu corpo com a insensatez de dono. Não trouxe rosas e nem doces, apenas as mãos calejadas e vazias de mim. Cicatrizes cobriam seu corpo e o belo rosto. Muitas cicatrizes.Tão velhas quanto o tempo em que a bruma nos fechou em seu círculo sufocante.
Acordei lentamente do longo e exaustivo sono, retirei dos olhos a película que os obscurecera e dei a mão aquele que viera buscar o que fora renegado pelos senhores da cobiça, da inveja e do medo: a dura doçura de uma mulher.
Andamos de mãos dadas trocando confidências, eu consciente de que meus terrores não haviam sido pesadelos, mas a realidade mais crua queimada em fogueiras de bruxas, estigmatizada como reles vaso de sêmen, açoitada por músculos fortes, entregue à ralé como espólio de guerra.
Não havia ódio em mim e nem culpa nele, apenas consequência da insensatez, loucura coletiva que nos tomou a todos. A eles, pela ânsia destruidora do Poder e a nós, pela subserviência e aceitação covarde.
Continuo bela, sempre seremos.Liliths incompreendidas, embora, na realidade,representemos, antes de tudo, a busca da própria afirmação. É verdade que também somos a mulher tentadora, sedutora e que fascina por seus poderes perturbadores. Silenciosas, secretas, cortantes. Aquela a quem os homens temem embora se sentindo fascinados e atraídos. Aquela que jamais será igual, sempre o oposto e assim, só assim, podendo unir-se a ti, Homem, para compormos o Todo.
O acordar chegou como batalha que foi esfriando através da insatisfação que traz a guerra e se transformou, com o beijo do novo Príncipe, numa troca de descobertas e suavidade insuspeitadas ao se darem as mãos e caminharem juntos para o que não deve ser o Amanhã, mas o Hoje constante de ombro a ombro na descoberta da Vida.


Vana Comissoli

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Chapéu Vermelho (Vana Comissoli)


Mania, gosto, estética, esquisitice, arcaica escolha, podem chamar do que quiserem, mas eu amo chapéus! Principalmente os vermelhos. Minhas primeiras lembranças são de tocas e capuzes vermelhos, a explicação que encontrei é que minha mãe e eu somos do signo de Áries e, portanto, vermelho é nossa cor.
A medida que cresci sofistiquei minha sensibilidade e passei às boinas à francesa e chapéus. Fui motivo de gozação na escola, mas na faculdade já começaram a achar um charme e se tornou parte de minha identidade. Não era para esconder cabelos feios, sempre os tive sedosos e brilhantes, castanho claro onde o sol coloca pinceladas douradas nas pontas suavemente encaracoladas.
A primeira notícia que se tem de um chapéu numa cabeça feminina data aproximadamente dois mil anos antes de Cristo. Com o passar dos séculos foi deixando de ser usado como proteção do sol para se transformar em acessório embelezador e, não raramente, indispensável.
Os chapéus sempre foram muito utilizados pela realeza que tinha na rainha francesa Maria Antonieta (a mais “fashion” das rainhas) uma grande fã e, atualmente, todas as suas variações, são a paixão da futura princesa da Inglaterra, Kate Middleton, embora a preferência seja a casquete que é um charme e não precisa ser tirado à mesa. Se não princesa, alguma coisa que o valha para o povo britânico que se ufaniza com sua nobreza.
Pois é, eu sei tudo sobre chapéus, cada um com seu fetiche, embora digam que apenas os homens os têm. Se fetiche é masculino sou homem, embora tudo em mim o negue. As bobagens que inventam! Freud tinha razão, um charuto, à vezes, é apenas um charuto.
Minha avó sentava-se empertigada na poltrona mais adequada a um soltar de corpo, era o jeito dela, ou talvez temesse amassar o indefectível chapéu. Fazia algum tempo que não falava coisa com coisa, os médicos ainda investigavam a possibilidade de Alzheimer. Aos 95 anos que diferença faria se fosse isso ou aquilo? Minha mãe passou por nós e falou baixinho balançando a cabeça resignada: Caduquice... Caduquice... Daqui a pouco serei eu. Tropeçou no tapete em seguida, saiu mancando. É a velhice é resignação que dá topada no dedão de todo mundo que se aproxima dela.
Vovó Nívea mexia os lábios sem que eu conseguisse entender uma palavra do que dizia, ajeitava os cabelos sob o chapéu de abas caídas que um dia fora útil em praias ensolaradas.
Ora, uma menina moça deve usar chapéus, mostra sua linhagem, sua posição na sociedade. E são tão sedutores, imagina um romance sob um chapéu, um beijo roubado, o rubor escondido pela sombra provocada no rosto.
Entendi uns fiapos da frase solta e compus uma compreensão interna. Vovó teria voltado no tempo? Não sei se era triste acompanhar o que considerávamos declínio, ou se era uma alegria saber que ela não sintonizava na falência, na escuridão que lentamente a envolvia. Prefiro crer que assim fosse melhor: eternamente a jovem que fazia footing na calçada de paralelepípedos lisos e desenhados da rua mais conhecida da cidade: a rua da Praia que teve praia em perdido tempo quando ainda não tinham aprisionado o Guaíba e suas águas beijavam quase o centro da cidade.
Quando eu crescer, conhecerei um belo homem de chapéu, daqueles que tem a peninha colorida na copa. Ah... que romântico...
Fiquei imaginando o Nando de calça jeans, jaqueta de motoqueiro de chapéu de feltro muito composto na cabeça. E se ficasse bem? E se a calça tivesse friso? E se a camisa fosse de colarinho e não a camiseta casual chic? E se ele tivesse carro em vez de moto e abrisse a porta para mim? E se me mandasse flores? E se fizesse poemas de amor?
Cinturinha de vespa, que orgulho tenho da minha, feita no elástico da cinturita. Ter 18 anos é uma delícia e logo casaremos. Serei moderna, casarei de chapéu e sem véu. Um casamento de verão, minha ousadia convencerá que seja no jardim do clube e todas minhas amigas estarão com suas lindas luvas brancas, saias esvoaçantes sobre a armação e belos chapeuzinhos com renda para encobrir o flerte. Logo casarei...
Vovó falava alto e claro agora e parecia não me ver, fiz movimentos com os braços para chamar sua atenção e, só depois de algumas tentativas, percebi que ela se limitava a imitá-los como se estivesse frente a um espelho. Sorria quando eu sorria e quase encostou o nariz no meu para dizer sussurrando que estava muito magrinha, amanhã começaria a comer mingau, precisava de umas carnes. Pensei no trabalhão e esforço que eu fazia para não comer chocolate, malhar três vezes por semana, pizza só uma vez por mês, tudo para impedir que o ponteiro da balança desse um pulo de susto quando me pesasse.
Dois filhos, um casal. Certamente é o que toda mulher sonha. Maurício e Marília. Combina perfeitamente. Serão lindos e rosados, depois, eu ensinarei Marília a amar chapéus, a se cuidar como toda moça deve fazer, ser composta e não oferecida que é coisa de menina sem família.
Minha mãe chamava-se Marília, mas casara grávida de meu irmão enquanto vovó fingia que achava tudo normal e sorria um esboço forçado, era o que se via claramente nas fotografias. Há quarenta anos, quando meu irmão nasceu, não era ainda tão normal e a festa não foi num jardim como vovó dissera que seria. Tão lindo e romântico quanto o dela. A filha merecia a mesma deslumbrante felicidade, mas nem tudo que se sonha se torna realidade, muitos sonhos são divagações da alma que a carne não consegue realizar. Muitos sonhos, são deliciosas visões cor-de-rosa que se guarda junto com pétalas secas dentro de diários que não se lerá mais.
Era um belo sonho e eu... Achei que também poderia sonhá-lo.
Mais alguns meses e vovó não se reconhecia mais em seu velho e desgastado corpo, se reconhecia no meu, ainda no auge de meus 30 anos. Trinta anos... Tinham me dito e eu não acreditar, são os melhores anos da mulher, sempre achei que a fresca vida dos vinte fosse o melhor tempo, mas havia em mim uma riqueza e ao mesmo tempo um fogo, que nascera na fronteira dos trinta, não posso negar.
Vovó me tratava como se eu fosse ela e ela, ela não existia mais. Para agradá-la, enfeitar seu tempo do adeus, comecei a usar chapéus. Aos poucos, com certo medo, timidamente, mas também aos poucos fui me vendo especial de chapéu e passaram a fazer parte de mim.
Enterramos vovó Nívea de chapéu vermelho, o seu preferido, eu encontrara um muito parecido e fiz questão de usá-lo neste dia: uma homenagem, uma consideração amorosa. Ao sair do cemitério que me roubara vovó havia um homem parado na calçada e me olhou com os mais penetrantes olhos que eu já vira. Parecia me esperar, me conhecer. Não era bonito, tinha nariz grande, aqueles olhos, uma boca larga com caninos pontudos que apareceram quando sorriu para mim. Usava cabelo mais comprido do que o normal, parecia esconder as orelhas, mas nas mãos e logo depois na cabeça, tinha um lindo e sedutor chapéu de caça.


Vana Comissoli

domingo, 24 de junho de 2012

Rapunzel (Vana Comissoli)


O sol enganava vida quarto adentro, o que aumentava minha indignação. Era muita falta de pudor me afrontar com toda a sua luz branca, borbulhante, desenhando raios diagonais pelas teimosas janelas que permitiam sua entrada.


Ela me olhava maravilhosa, quase bonita demais para meu momento. Era ela e eu. Sua falta de olhos, igual membro amputado, fazia com que eu sentisse seu olhar como uma dor aguda e congelante. Já tinha escrito pelas paredes a minha fúria, em vermelho batom e preto lápis de sobrancelha. Estavam cobertas do teto ao chão repetindo o que se repetia incansavelmente dentro de minha cabeça: Por quê? Por que eu? Roubara os versos desesperados do poeta e os desenhara borrados de sombras para pálpebras verdes, azuis e lilás:
“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?”
Nada de respostas. Silêncio total. Um silêncio que não existia em mim. Os avisos, conselhos, compaixão tinham se multiplicado em e-mails e telefonemas que eu não queria ouvir ou sequer saber que existiam. Ninguém precisa ter calma nessa hora, eu queria gritar enquanto fazia tudo que precisava fazer. Tomei todas as providências, fiz todos os exames, consultas e cirurgias diagnosticadas, ainda assim essa hora não se afastara de mim. Eu sabia que chegaria inexorável, mas ainda assim desejara, pedira, fora aos santos, para que ela morresse de inanição, penúria, gastura, como diria minha avó. Não morreu. A morte é uma mesquinha criatura, nunca pensa no outro, faz só o que lhe dá vontade e assim vai matando quem não quer morrer e deixa vivo quem deveria ir dessa para melhor.
O que me falavam de pensamento positivo, força, otimismo, me soava como cobrança. Não me cobrem postura, o câncer é meu! Eu não tinha essa magnânima postura de encarar “as coisas da vida” com naturalidade. Achava que as terapias não funcionavam e otimismo era um sentimento que estava a mil quilômetros de sanidade distante, não passava de uma palavra vazia.
Tudo isso para eu chegar ali. Com a desculpa de enjoo e cansaço, mal saía do quarto, minha torre de cristal. Todo mundo sabia o que eu vivia lá dentro, pelo menos me parecia que sim, como poderiam crer que pudesse ser diferente? Era o meu momento, me deixem em paz, mas não dizia nada, apenas me deixava embalar pelo meu medo e desespero.
O movimento dos raios solares afinal caiu sobre ela pondo belos reflexos acobreados com os quais eu sempre sonhara e que achava tão deliciosamente fatal. Já que não os tinha naturais os construí nela.
A quimioterapia é isso aí:talvez e só talvez matasse a bola de células doidas que tentava me matar, mas antes me deixaria acabada de náuseas, vômitos e diarreias que tornam qualquer um amesquinhado. E pior, martírio imposto: me deixaria sem cabelos!
“O cabelo é o de menos, pense na vida”. Não é bem assim, não é tua cabeça a prêmio, rangia por dentro meu pensamento entontecido. Pelo menos não é o que apregoam quando se está no terceiro round.
Logo que o câncer foi descoberto se pensa só nele, depois se fica tão soterrado de exames, pareceres, frases “levanta astral”, diagnósticos e prognósticos que não se pensa nos cabelos. A cirurgia, o cheiro de hospital e de flores que enchem o quarto mais do que o suportável quando seria insuportável não recebê-las absorve qualquer possibilidade de raciocínio, muito menos de sentimento sobre qualquer coisa. Até que chega a terceira fase: a químio e a rádio. Duas senhoras que se assemelham à freiras visitadoras, trazem braçadas de esperança, mas são assexuadas, sem brilho e levemente indiferentes. Nas mãos o rosário de observações e consequências e da milagrosa fé que vacila corações e roda a tômbola da sorte.
Eu tenho 37 anos, adoro ser mulher. O feminino me habita com uma naturalidade felina que me enche de prazer. Nunca, em nem um momento, desejei ser outra coisa que não mulher. Adoro a fantasia dos vestidos, da maquiagem, dos sorrisos que derrubam homens e me apaixonar loucamente em versos de amor é minha especialidade favorita. Jamais me passaria pela cabeça cortar os cabelos,mulher é mais mulher com fios longos, macios e brilhantes e, de repente, não tão de repente, eu tinha que enfrentar ela, esta coisa: a peruca que se exibia à minha frente e deixava-se fotografar pelo descuidado sol.
Sempre se tem opção. É muito ridículo saber disso diante de uma peruca que o travesseiro, desenhado de fios a cada acordar, me confessava necessária. Ou ela ou a calvície. Alguém pode realmente se imaginar, se desejar careca? Uma mulher tem tal força?
Sinceramente não acredito que nem os pobres homens que receberam este diabólico brinde genético gostem. Imagine eu. Aceitando-a, viriam os lencinhos pastoris e floridos, estampa que só piorava a situação, ou echarpes de seda a cair pelas costas, boinas e bonés masculinizados.
Eu podia enxergar meu cabeção careca. Passei até a entender e aceitar a tentativa frustrada dos homens que atravessam longos fios de um lado para outro da cabeça numa via férrea horrível que já abortara possíveis amoresem meus braços.
Parei na frente do espelho. Talvez os cílios e sobrancelhas também sumam, dei-me conta arrepiada. Meus lindos pelos! Não sabia que os amava tanto e que eram tão representativos de minha identidade. Pensei até nos pentelhos. Nunca ninguém me disse se eles caíam ou ficavam lá, irônicos, rindo debochados para a nudez de todo o resto.
Parece drama pensar nos cabelos, riscar as paredes, ter auto piedade diante deste monstro paquidérmico que é o câncer, mas é o que acontece. Podem vir os psiquiatras falando em desvio do conflito central que é o pavor da morte, isso não diminui em nada o tal pavor. É doloroso, é perder uma parte de si mesmo sem que haja cola, conforto, amizade que segure.É como se em meio a um temporal, numa busca de abrigo, ainda caísse um galho de árvore em sua cabeça.
Dizem que a gente dá outra dimensão à vida depois de um câncer, ou durante. Eu não sei, não cheguei neste quarto round. Sei que lidarei melhor com o câncer de outra pessoa, não a encherei de estímulos vazios de sentido para quem não teve a praga.Talvez me sente quieta ao seu lado, deixando que o silêncio seja uma partilha maior e permita que revele sua horrível dor de perder os cabelos, de ter deixado em uma mesa de cirurgia alguns pedaços queridos de seu corpo.
Não sei se serei mais generosa, ou, se eu o vencer, voltarei alegremente a ser eu mesma com todos os meus defeitos.De há muito conheço a memória humana, tão aguda no momento, tão distraída depois que a dor dá as costas. Não pretendo esperar muito de mim, seria uma afronta me obrigar a ser outra pessoa por que enfrentei covardemente ou estoicamente a doença. Me aponta um que tenha sido heroico de verdade diante dela, que não tenha sorrido apenas para que deixassem de atirar pérolas de consolo sobre ele. Sei que tem gente contando maravilhas de sua fase pós câncer, tenho dúvidas se o milagre ocorreu, ou se é apenas uma expressão de profundo alívio.
Pretendo ser a mesma vaidosa que sempre fui e com muito mais cuidados porque amarei ainda mais meus cabelos, meu corpo são e livre. Me maquiarei com mais esmero para que eu veja como é bom ter rosto para maquiar, cabelos para receber os melhores shampoose cremes. Talvez gaste partes de meu salário com esses cosméticos divinos e cheirosos.
As paredes cheias de minha letra nervosa voltam a me perguntar: E agora?
Sou irredutível: Não quero esta linda maldita peruca, disfarce de fantasma, não quero os lencinhos que sempre ridicularizei, as boinas que amo e ficarãoburlescasseguras apenas pelas orelhas. Vou indignar a calvície, eu a aceitarei.
Tenho câncer sim, mas não morri e nem sei se morrerei. Coisa mais boba, claro que sei, todos morrem, a calvície também morrerá. Espero que antes de mim.


Vana Comissoli

quarta-feira, 25 de abril de 2012

De tanta pena que dá (Vana Comissoli)

         Puxou a cadeira e sentou-se. As pernas largadas, os pés plantados no chão, o corpo escorregando pelo assento, em dissonância.

Não pediu, mas o garçom colocou à sua frente uísque com gelo e uma garrafa de água mineral. Não levantou os olhos, mas sabia que Ronaldo, o dono da boate, estaria controlando a quantidade de bebida no copo. O trato era muita água, pouco álcool. Mulher com bafo não está com nada, a casa é de bem, recebe homens de nível.

Josias, o garçom, voltou ao balcão, encostando-se e dispôs-se a observá-la: a pele de cor brasileira com olheiras lembrando lagos roxo sob os olhos não combinam com o vestido verde brilhante que lhe deixa metade das coxas à mostra.

Do jeito que está sentada, se fizer a volta, pegando-a pela frente, Josias enxergará o entre-pernas. Diz um colega que ela não usa calcinhas e não se importa em mostrar tudo. É sacana a Marise, faz isso, mas não dá para qualquer um, só pagando. Para eles, colegas de trabalho, não dá nem pagando. Por que mostra então?

A bolsinha de alça comprida foi aberta e um maço de cigarros longos e finos apareceu. É uma bolsa dourada, de malha metálica, cabe o cigarro, o isqueiro e a chave solta. Algumas camisinhas apertam-se no fundo.

As sandálias, também douradas, revelam as unhas dos artelhos coloridas de vermelho escuro. Tem uma correntinha em volta do tornozelo. Josias fixa os olhos na corrente reconhecendo que o enfeite é um tesão. Será que gosta de masoquismo, essa daí? Sorri, antecipando em sonhos o que jamais terá coragem de fazer.

Os cabelos crespos estão presos por um pente espanholado numa volta caprichosa e a orelha exposta tem uma argola de falso ouro. É um mulherão e que bunda tem! Josias coça os bagos disfarçadamente, graças a Deus não chegou nenhum cliente para as mesas que serve.

Marise acende o cigarro.

“Porra de noite, não estou nem um pouco a fim. Ronaldo desgraçado, não dá folga e vem com história de descontar falta. Ainda esfrego uma sífilis na cara dele de tanto usar a coisa.”

Sopra a fumaça para o alto, como viu no filme “Gilda”. Era um filme muito velho que assistira por acaso na TV, num vício de ligá-la mal entrasse no apartamento. Gostavam de passar esses filmes nas madrugadas,os insones assistiam qualquer coisa que assemelhasse companhia.

Rita Hayworth cantava languidamente e apaixonava todos os homens da casa noturna, quando ela se dispunha a desligar o aparelho. Ligou-se na cena e foi até o fim, Gilda era uma figura e tanto, caía como luva no tipo físico dela.

No dia seguinte comprou pentes e passadores para prender um lado do cabelo, cortou-os pouco abaixo dos ombros. Pouco a pouco, na medida da lembrança, copiou os vestidos da personagem,sabia que não eram muito modernos, mas a sensualidade da figura seduzia. Seu trabalho também não era muito moderno.

Levanta a mão e faz um sinal para que Josias se aproxime. Deixa a voz soar alta quando pede outra dose, hoje pagará, está de folga, resolve neste instante.

O garçom relanceou os olhos para o patrão, fazer o quê? A diaba ainda passa a língua nos lábios vermelhos. Ronaldo afasta-se de seu posto e vem em direção a eles, o pescoço impulsionando a cabeça para frente como um aríete.

− O que está acontecendo aqui? Motim?

− Não Ro, − a voz de Marise é ondulante, os olhos se rasgam numa demorada vistoria da abertura da calça do homem − estou nas regras. Hoje sou cliente.

Ninguém resiste à Gilda.

Ronaldo passa a mão nos cabelos, relanceia os olhos pela casa vazia nessa terça-feira de bosta e volta para seu lugar grunhindo :

− Está bem, melhor dinheiro de puta que dinheiro nenhum.

Josias enche o copo deixando o “choro” da bebida alongar. Marise sorri e passa, de leve, a unha pelas costas da mão dele,a garrafa dá uma pequena tremida e alguns pingos de uísque molham a mesa.

− Desculpe. Já limpo. −A voz do garçom é hesitante.

Marise sorri como uma lambida, sem revelar a constatação: Josias é um bolha. Bonzinho bobão. Faz uma semana que começou a trabalhar na casa, tem um ar perdido e um titubear ocupa a boca. A camisa levemente encardida escorrega as mangas para fora do paletó escovado,de cinco em cinco minutos, ajeita a gravata borboleta teimosa em voar de lado no seu colarinho. Um perfeito panaca.

A música resvala nas cadeiras vazias,um e outro cliente entra. Poucos casais escondem-se nas mesas de canto. Duas moças chegam juntas e sentam-se separadas.

Marise fecha a cara quando um sujeito grande fixa nela olhos de convite. Já estipulou o feriado,nem sabe como Ronaldo concordou tão fácil. Toma três doses seguidas, até um torpor amortecer os lábios.“Agora vai devagar”, completa o copo com água mineral.

Josias acompanha os gestos da mulher, de todas é a preferida, transpira certa ausência que dá vontade de preencher, parece obrigada a estar ali. Vê quando se levanta um pouco vacilante e dirige-se ao banheiro carregando a bolsinha dourada,vai retocar o batom com certeza. Pena estar nos dias, não adianta ficar na frente da cadeira, estará de calcinha hoje. Melhor olhar assim, de revés, pode vigiar seus movimentos e enxergar a bunda fugindo da cadeira.

A porta do banheiro fecha-se atrás dela. Respira fundo. Fixa o espelho que toma conta de toda a parede em cima da pia. Já foi casa fina até sair de moda.

Retoca o batom, empoa o rosto e espirra perfume adocicado embaixo do cabelo. Têm guardadas, numa das gavetas do armário embaixo da pia, essas ferramentas. As moças do lugar são proprietárias de gavetas. Ronaldo faz questão da aparência: mercadoria empoeirada e desleixada não vende bem.

Levanta o vestido, senta no vaso. Ri satisfeita. O barulho da urina cachoeirando.

Abre novamente a gaveta e tira um pequeno embrulho de papel branco, observa com ar entendido o pó que contém. A pedra da pia serve. Enfileira e aspira tapando uma das narinas,fecha os olhos, volta a sorrir. A vida é boa. Talvez saia dali e encontre um cara gostoso de levar para cama. Trepar é o melhor da vida.

− Demora no banheiro. Será que passa mal? − Josias preocupa-se, ela parecia tão solitária,essas mulheres são infelizes. Quem pode ser feliz nessa vida? Desgraçada falta de dinheiro, a gente vende a alma por causa dele. Elas também.

Afinal Marise sai. Um sorriso parado, doído de se ver perturba o rosto.

Os pensamentos correm dentro de Josias. − Tirar a moça daqui... Quem sabe um dia? Garanto que gostaria. – Um nojo, toma conta dele, o mesmo que sentia quando pequeno e a mãe o levava para beijar o Senhor morto na sexta-feira da paixão.

Ronaldo observa Marise voltando para mesa.

“A filha da puta já se chapou. Qualquer dia terei que carregar a vaca para um hospital. Hoje não me meto,está de folga. Ai que tente fazer em dia de trabalho, ponho porta a fora.”

Gosta da Marise, é chamativa, bonitona mesmo,não é novinha, não tem chiliques,faz das suas sem escândalo. Entrou na profissão com consciência, não choraminga fingindo que é obrigada.  Nunca se deitou com ele,não faz mal, é até melhor. As outras, enquanto não conseguem não sossegam, depois enchem o saco imaginando que são patroas só porque deram o rabo.

Já é bem tarde. Marise vê Josias olhando para ela. Podia levá-lo para casa, brincar um pouquinho,chama-o com o dedo. Antes se apruma na cadeira, deixando, no entanto, os ombros caírem e os olhos se fecharem num traço melancólico.

Ele se aproxima. Ela está tão triste. Vida desgraçada!

− Josias, preciso ir, não me sinto bem. Será que podes me acompanhar?

O pedido pega-o de surpresa. Ele, o privilegiado? O peito enche-se de expectativa.Passou a mão nos cabelos que caíam sobre a testa, alisou a boca, pena ter raspado o bigode.

− Será uma honra, saio em meia hora. Podes contar comigo.

− Logo vi, Jô, logo vi. - A mão dela é macia, acarinha a dele.

Ronaldo sacode a cabeça. Marise é danada, quem olha para ela agora morre de pena,mas ele sabe: vai brincar com o rapaz. Faz um sinal safado para ela que responde num olhar de volteio.

O apartamento é um conjugado exíguo, mas está limpo. Um sofá cama embaixo da janela, onde a cortina listada de azul e laranja balança à brisa da madrugada. Uma pequena mesa,um vaso de flores artificiais centra-se nela. A cozinha é a pia com fogão de duas bocas em cima. Sobre ele um armário de portas de vidro guarda louças de desenhos azuis: dois ou três pratos, duas xícaras, alguns copos, uma garrafa de uísque. Fora isso apenas a porta do banheiro.

Uma prateleira com os mais variados enfeites. Um surpreendente quadro a óleo: o nu de uma negra de seios avantajados e boca à Di Cavalcanti.

Josias senta-se. Veste camiseta de propaganda e calça de brim que deixou a cor nas muitas lavadas que sofreu.

− Toma café, Jô?

Ele adora essa mania dela de abreviar os nomes,gostava de vê-la chamar o patrão de Ro, nunca pensou que pudesse merecer essa consideração.

− Café seria bom. - Responde indireto.

Ela desencava uma cafeteira elétrica e logo o cheiro do café passando mistura-se ao perfume doce que impregna tudo

- Tu és caprichosa, tua casa cheira bem.

- Limpo toda semana e depois ponho perfume num tubo de desodorante e borrifo.

- É do jeito que eu imaginava.

Marise sacode os ombros faceira,se fosse diferente ele também gostaria. Ela sabe disso. Estão sentados lado a lado, ele se apaixona aos poucos, ou já chegou apaixonado? O leve cheiro de suor saindo dela dá vontade de pegá-la no colo,mergulhar a cabeça nos seus cabelos. Tinha razão o Roberto Carlos em cantar os caracóis de seus cabelos.Cantarola.

Marise revira os olhos colocando as mãos no coração e sacudindo o corpo no compasso. Daqui a pouco ele atacará de bolero, aposto comigo um brilho da pesada,pensa começando a impacientar-se. O que mais incomoda é ter perdido a vontade de trepar,o desgraçado parece que vai quebrar-se. Como é branco, chega a dar aflição. Do fundo das lembranças, a figura de um cãozinho sarnento, volta.

“Pobrezinho do Lelé, está doente, ficar vivo é só para sofrer”. Ouviu durante alguns dias, depois o Lelé sumiu. De noite, um resto de conversa, entre as tias:

−...é de tanta pena que dá. Pobre Lelé.

-Sabe, Marise, entendo que precises fazer essa vida. A sobrevivência está barra,pra mulher é ainda mais difícil. Vou te salvar dessa miséria,não é por pena, gosto de ti de verdade.

Era só o que me faltava, ela pensa enquanto espanta a figura do cachorro.Com olhos baixos, puxa a barra da saia em direção aos joelhos,joga longe as sandálias douradas. Os brincos já estão abandonados sobre a mesinha.

− O doido é salvador dos pobres e oprimidos. − Dá uma fungada e esfrega os olhos, desacomoda-se, o sofá apequenou-se.

Josias ajoelha-se na frente da mulher.  Pega suas mãos.

-Por favor, não chores, não aguento te ver sofrer.

Por um instante, ela o vê. A testa lisa, desprevenida, os olhos redondos de cachorrinho, as mãos que tremem e suam segurando as suas. Suam como o focinho do Lelé quando lambia as mãos dela,o acariciava escondido porque sarna pega em gente. Fragilidade também pega?

- É verdade, Jô, dá pena mesmo. -Um suspiro acompanha a afirmativa.

Josias sorri, ela se entrega,qualquer um pode ver. É a noite mais importante de sua vida.

- Amanhã avisamos o Ronaldo que não irás mais.

Marise não acredita no que está ouvindo. Será que não percebe o brinquedo? Será que ainda existe brinquedo? Este estupor que sente no peito é de mentira também?

Envolve a cabeça do rapaz,ele deita em seu peito. A mulher sente-lhe o latejar das têmporas. Josias a beija no colo, um beijo de lábios fechados,em seguida levanta os olhos brilhantes de umidade.

Que posso fazer, pensa Marise, enchendo-se de quase remorso. Deito-me com ele? Faço qualquer coisa para fechar esses olhos,dói na gente uma criatura assim desprevenida.

−Minha querida, te comprarei vestido de noiva e teremos lua-de-mel.

Marise pega seu rosto entre as mãos e beija-lhe a boca, a língua desbravadora abrindo os dentes a mão encaminha-se para o sexo que encontra murcho.

- Não é hora ainda, amor. Vamos casar, saberei te respeitar.

A voz de Josias é como um acalanto e fere. Ela se levanta, procura com avidez o pó branco libertador, arruma uma carreira sobre o tampo da mesa. Lá fora começa a amanhecer. A gosma cinzenta da manhã custa a penetrar o breu da noite.Aspira a cocaína. Mais uma dose que o momento exige.

- Que estás fazendo, querida?

-Me drogo, Jô. Não sabias?

- Não te culpes, é a vida miserável. Disso também te libertarei.

- Tu não existes, Jô. - Marise se lembra de filmes da madrugada, espichados e melosos.

- Existo prá ti.

- Vem até a janela, olha o dia, a cidade, junto comigo. − Abre a cortina e debruça-se no parapeito ajoelhada sobre o sofá. Ele a segue, coloca o braço sobre seus ombros.

- Que vês lá embaixo, Jô? - A voz dela está ansiosa,deseja que responda que vê uma cidade prestes a despertar enquanto quer dormir, o sol machuca os olhos e a luz cansa.

-Vejo nosso futuro onde viveremos felizes. - A voz cintila.

- Isso não é possível. As pessoas são cruéis,tudo é cruel. Somos puros demais para elas. Melhor que casar,Jô, que é uma situação que se acaba, é morrer juntos. É o casamento eterno. - Tropeça um pouco nas palavras, arrastando o ridículo da situação.

- Não fales assim! Juntos mudaremos tudo. - Josias abraça-a com sofreguidão, tapa-lhe os olhos numa tentativa de fazê-la enxergar o que ele vê.

- Por favor, meu querido, - ela beija-lhe os lábios - tu disseste que me amas. Farias qualquer coisa por mim?

Josias sacode afirmativamente a cabeça, acarinhando o rosto onde a maquiagem já derreteu e pequenas rugas aparecem acusativas. O cabelo de Gilda revela-se fosco e desbotado.

- Vamos morrer juntos. Eu te suplico.

Ele estremece. Estou ouvindo direito? Ela realmente está dando sua vida para mim?

-Tu e eu?

Marise sacode a cabeça numa afirmação. Fica em pé no sofá, ele a segue.

- Espera, quero morrer bonita.

Vai para o banheiro e refaz a maquiagem. Ele espia enquanto pentea o cabelo com as mãos, estica a camiseta. Ela pede licença, fecha a porta.

Ergue os olhos para um velho crucifixo escondido atrás da porta,coisa de se ver em hora de aflição. O homem pregado nele desperta uma pena danada. Será que foi de pena que fizeram esta ferida nas costelas? Devia estar sofrendo muito, o pobrezinho. Cheira de novo. Sai revigorada.

Voltam ao sofá de mãos dadas, ficam em pé no assento, beijam-se e olham a rua. O sol é uma bola vermelha. Prenúncio. As nuvens amortecendo a cor refletida no topo dos prédios, reverberando tons nos cabelos de Marise. A madrugada cedeu espaço para a glória.

Ela sobe no peitoril da janela. Ele também.

- Larga minha mão, Jô. Quero que nossas mãos se encontrem em pleno vôo e precisamos rezar para que nossas almas não se percam.

- Eu preferiria que fôssemos de mãos dadas.

O tom é levemente choroso.

- Estarei contigo. Não tenhas medo porque eu não tenho. Vai!

Os braços de Marise são de aço e o corpo magro dele não demora a desequilibrar-se. Ela consegue ver os olhos de surpresa e aceitação antes que o corpo dê uma volta sobre si mesmo e inicie a queda vertiginosa, as mãos agarrando-se no ar, na luz já amarelando.

Marise desce da janela, acompanha o balé desordenado de Josias. Por fim fecha os vidros e corre as cortinas. Prepara outra carreira de pó.

− Tanta pena que dá!

Aspira.

Vana Comissoli

sábado, 24 de março de 2012

Madame Carmely (Vana Comissoli)


Ela se curva diante do altar carregado de imagens e clama:
- Vem a mim, Madame Carmely! Pelo poder de mamãe Oxum, coberta de ouro, rio de sabedoria, protetora dos amores e dos filhos. Empresta-me teus olhos, ó mãe! Erieiê! Ô!
Os ombros se endireitam e Carmela parece crescer alguns centímetros.
No quarto austero se movimenta devagar. As roupas simples do dia a dia são retiradas e colocadas cuidadosamente sobre a poltrona gasta que está ali mais para este fim do que para servir de acento.
- Será sempre esta espécie de incorporação? Trabalho ingrato me impus pela liberdade! Ficasse casada e estaria confortavelmente deslizando pelos dias. Mentira! Estaria acabada, velha como a secura da vida e nem sei se ainda teria voz. Eu sabia que seria um esforço, nada há para reclamar. Deu mais certo do que meus melhores planos e vivemos bem, as crianças não precisam mais se calar escondendo suas almas famintas.
Todas as vezes que pensa na sua vida, alguma coisa pesa sobre as costas e ela perde a identidade que a mantém à tona. Senta-se de olhos fechados e faz da mente uma tela em branco com pouco sucesso, imagens esmaecidas teimam em flutuar diante da memória. Figuras sarcásticas como se ela fosse o anão do circo forçado a cambalhotas para que rissem e sua pouca graça enchendo a todos de enfado, embora já escorra sangue das mãos que rasparam o chão. Talvez o pouco brilho do olhar revelasse que tudo era uma farsa e de palhaço tinha apenas a obrigação.
Mil vezes perguntou-se sobre este passado maldito que esquecera não sabe em que escaninho da alma e por que, uma vez esquecido, ele a perseguia tão ferozmente. Livrava-se dele ao interpretar com tanta veracidade Madame Carmely a ponto de convencer a si mesma. Era certo que as previsões se concretizavam de acordo com o empenho e a vontade de acreditar de seus clientes, nada disso era real ou sequer plausível.
Levantou-se e a cada peça de roupa que colocava saudava as deusas femininas de seu Olimpo particular: Para cada uma tinha um pedido e uma reverência especial. No abismo de seus medos, embora não acreditasse nelas, tantas perdidas na poeira das eras, havia a certeza de que elas a abandonariam e nunca mais poderia ler as cartas do tarô, ou ciganas, ou runas para ninguém, perderia a ligação com a Egrégora, segundo diziam os mestres apenas aos iniciados.
- E sou iniciada em que? Em fazer de conta que sou. Preciso tirar estes pensamentos da cabeça, em meia hora chega o primeiro consulente.
Recomeçou a saudação. Tinhas suas preferências, não gostava das deusas donzelas que pareciam frágeis e translúcidas demais para seu gosto. As guerreiras ou vingativas eram mais estimulantes. Guerreira se obrigara a ser, mas vingativa?... Precisaria ser? De que? De quem?
- Adit Mãe de Adytas, Mitra e Varnuak, "livre de laços". Tu o céu infinito, que é o domicílio de seus "filhos": o sol, alua, a noite e o dia. Me dá o dom sobre o passado e o futuro.
- Ananke, chamada de Necessidade, mãe das Parcas. O Fuso da necessidade repousa em teu colo.
A cada nome invocado um brilho, uma aura quase imperceptível envolve Carmela. Um leve perfume de flores misturadas, alguns exóticos flutuam no ar. Ninguém sabe disso, mas Carmela vê cores e ouve sons nessa hora, crê fazer parte da loucura que criara para sobreviver, do tanto que se doutrinara dizendo que ler cartas não tinha nada de maldoso, bastasse que não criasse vínculos com as pessoas, não as tornasse dependentes de um aviso, um sinal. Quando começaram a voltar e retornar, tremeu e criou outra solução: não exagerava.
- Beltia, vem da babilônia a mim. Senhora dos céus, estás acima de todos os deuses e tens a capacidade de aliviar sofrimentos, dar vida, alegria e prazer.
A cartomante a chamava por obrigação, mas desconfiava dela, ou então não era uma de suas filhas preferidas já que não havia alegria e prazer em sua vida. Quando os filhos eram menores ainda se divertia com os jogos infantis, mas agora ela se tornara apenas a alimentadora, a mãe que empaca um pouco os desejos.
Da Pérsia chamava Daena, a desafiadora, com quem as almas dos mortos têm que se encontrar antes de passar pela ponte que definirá se irão para o céu ou para o inferno. Adorava Daena, a ela elevavam-se suas orações descrentes, um dia haveria de julgar os fantasmas que a perseguiam. Quais fantasmas? Olhos a fixavam nesta hora, os do marido e os... Não, nada tenho a reclamar dele, doutrinava-se. Mas os olhos do pai piscavam intermitentes nestes momentos. Carmela, ligeiro, se fixava em outra deusa. Só as femininas. Os deuses masculinos não entenderiam o coração de uma mulher.
Chamava em grupos, se imaginava dançando entre elas, fosse dança da morte ou da vida. Entendia que uma não pode viver sem a outra e o drama da morte foi criado pela pretensão das pessoas que se julgam do tamanho dos deuses e como eles querem ser eternos. Que piada! Nem os deuses são realmente imortais, eles vivem o tempo de uma cultura. O deus cristão, único e verdadeiro, existe por que a civilização que o criou ainda não se perdeu na poeira de Cronos, este sim, imortal enquanto viva o homem.
- Erínias, "cães do Hades". Divindades infernais, cuja missão especial é punir os parricidas e aqueles que violavam seus juramentos. Guardiãs das leis terrenas, dos crimes em família, tão rigorosas no castigo que perseguem o criminoso até o mundo subterrâneo, para além, portanto, da própria morte.
E os violadores dos filhos quem os vale?
- Isis, Grande Mãe, feiticeira e libertadora. Vem de teu reino o Egito ancestral.
Era um ritual longo que ajudava a esquecer de Carmela, lentamente adormecendo sob os cuidados de Carmely, sua paz, sua força, seu repouso. Sua verdadeira fé.
É com passo firme, porém silencioso que sai do quarto:
- Valmira, estou pronta. Manda entrar o primeiro.
A ajudante, solícita e fiel, adoradora de madame Carmely, nunca está na casa quando Carmela volta, evita o encontro que trará má sorte e quebrará o poder de sua patroa bruxa. Respira os aromas de Madame, benze suas guias, limpa com devoção seus instrumentos de trabalho. Olha os desenhos das cartas como quem olha explosões solares, estrelas longínquas que nunca alcançará. Não lamenta, poder tocá-las já é muito mais do que se julga merecedora. Quem sabe um dia, por sua dedicação e amor, as cartas se mostrarão a ela como se revelam à Madame. A vida de Carmela não a interessa e nem quer saber se há ou não dissabores, os deuses escrevem certo por linhas tortas e a solidão de que houve falar, a falta de homem dentro de casa é consequência do sério karmaadquirido em outras vidas por ter se negado a fazer o bem lendo os destinos. Ninguém foge à essa lei, por isso os filhos de Carmela escarnecem do que julgam sandices da mãe, embora os sustente.
Neste fim de tarde Carmely demora-se na sala de atendimento. O incenso queima tornando o ar pegajoso e adocicado, a luz tênue coloca sombras crepusculares nas paredes, se movimentam ao sabor das velas que ardem no altar como se deslizassem suavemente ao redor da mulher que está de olhos voltados para o mundo do Invisível.
Talvez pior desaviso, ou desígnio Carmela, mesmo ainda vestida com suas roupas ritualísticas, voltou e está como que petrificada, sem pensamentos. As cartas mais uma vez pregaram-lhe peças e a morte anunciada do marido de Genecy se confirmou. De onde vem a informação? A pergunta angustiante gira em torno dela levantando cartas sopradas pelo vento da tardinha.
A dúvida e a permanente busca de algo maior, mais determinante, algum deus que dê suporte a vida aperta a garganta. Não há nada, apenas mundos e mundos bêbados rodando no infinito.
A porta geme e Mário Antônio, cambaleando como se não suportasse o próprio peso entra e senta-se frente a filha.
- O que queres? O que fazes aqui? Quantas vezes já te expulsei? Volta para teu túmulo no inferno e me dá paz.
- Enquanto dentro de ti, não puderes me perdoar, viverei em tuas miragens. Enquanto não olhares para trás, estarei presente em teus devaneios e não poderás abrir tuas portas para nada e ninguém.
- Não tenho nada a te perdoar a não ser a obsessão de viveres para sempre. Não tens significado, foste pai e mais nada, estás morto, não me serves para coisa alguma.
Cenas, visões, cheiros, arranham a mente, o peito, o sentimento. Criança menina rolando na grama, pai acelerando o carro distraído, a cabeça pensando em que? Carmelita sabe, mas não ousa entender e nem sequer acreditar. Viu. O pai e a tia sovando o sofá enquanto a mãe fazia as compras. O gemido do sofá velho e roído, o cheiro que sempre ficava depois. A cachorra latiu e correu de encontro ao carro o barulho foi choque. Não havia mais cachorra e o pai nem sequer parou, fez um gesto de desagrado. O mesmo que repetiria mais tarde, quando o ruído de sofá sovado se transferira para cama de Carmela.
Ela teve um sobressalto. Como apagara isso? As mãos nojentas do marido em seu corpo no mesmo dia que voltava da amante. Os olhos de ambos lambendo-a como se fosse um doce melado e que dá um pouco de azia depois.
Saiu da sala como Carmela, mas algo no olhar que se tornou direto sempre e na sensualidade que se soltou em suas ancas estavam diferentes.
No quarto abriu os armários e fez sacos e sacos com as roupas de Carmela. Realmente tudo morre inclusive o que sempre se pensou que foi. As peças de cores vivas, os lenços e as sedas de Carmely saíram do baú e ocuparam os espaços vazios.
No altar as deusas todas tinham feições muito humanas e traços semelhantes, iguais? Aos de carmela.


(Vana Comissoli)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Retrovisão (Vana Comissoli)

O jornal abria-se como um escudo à frente de Almira, sempre que almoçava nos restaurantes em torno de sua casa usava essa tática para que ninguém a perturbasse.Atravessasse a fronteira estreita entre ela e o mundo. Não era preciso muito para evitar a intromissão, bastava o olhar carregado, a boca fechada dizendo “não” ininterrupto.
Virou a página pronta para nem relancear as manchetes, era dia do artigo de David Coimbra e não gostava dele e de nada que escrevesse. Na verdade era a mais genuína implicância, nem sabia o que o sujeito realmente escrevia, ou sequer pensava, mas uma amiga muito da atirada gostava dele então... Estava fora do seu círculo de admiração. Um dia o ouvira no rádio e comprara o livro comentado, gostou tanto que escreveu uma nota para o jornal. Teve um dia de ataque crônico de boa vontade, era sua justificativa toda vez que cometia a heresia de se agradar de algo que não fosse eleito única e exclusivamente por ela. Ou talvez de se agradar de algo tão somente.
- As pessoas têm a péssima mania de achar que sabem mais do que nós o que é bom para nós. Nesse engodo eu não caio, sei muito bem o que quero e sou feliz assim. - Afirmava para quem quisesse ouvir, embora a plateia fosse reduzida. O círculo de amigos era reduzido: os distantes colegas de trabalho; companheiros da igreja com que abria o peito e cantava embevecida Hosanas a Jesus, os companheiros de grupo de autoajuda. Estes últimos eram um segredo guardado a sete chaves, juramentados a se desconhecerem caso o maldito acaso os pusesse frente a frente mesmo na mais ingênua ou sisuda situação.
Quando entrou para o grupo resolveu que fazer benemerência era uma ótima pedida para se sentir em paz com a humanidade, depois, aos poucos, foi fisgada e chegou a pensar em ir mascarada, inclusive mimetizando a vez. Para sua surpresa e alívio o grupo votara favoravelmente para o Desconhecimento extra grupo e isso resolveu os problemas todos. Pontualmente comparecia, com chuva torrencial ou preguiça desmesurada, saia como quem sai do banho e evitava qualquer explicação, brincava no play ground, um pouco de lazer era necessário à saúde. A palavra mental aliada à saúde não fazia parte de seu dicionário pessoal, era inerente, é óbvio, não carecia investigações, veja-se como vivia tranquila consigo mesma sem intervenções incômodas e sem propósito. Serviriam apenas para interromper sua sessão de DVD contínuo de seus finais de semana. Gabava-se de ser uma excelente garimpadora de bons filmes e o espelho concordava sorrindo.
Voltou a atenção ao jornal, não era de seu feitio divagar assim, esse Coimbra não devia prestar mesmo, não era a primeira vez que lhe provocava desconcentração. O título a fisgou por que ainda ontem lera uma reportagem na VEJA que o tema acabava se assemelhando. A revista especulava a vida depois da morte, assunto que a fascinava nem sabia muito bem a razão. Às vezes pensava que sua vida era uma merda seca tão grande que a possibilidade ter outra era um conforto estimulante, ou uma esperança. Não gostava dessa palavra e menos ainda do sentimento. Esperar... Esperar e nunca nada, para sempre... Isso era a tal esperança dos trouxas.
A questão se tornou bastante incômoda e a cadeira ficou dura e desconfortável. Teria alguma coisa espetante no assento que não percebera? Almira disfarçou daqui e dali, deixou cair o guardanapo de papel que normalmente ignoraria, embora seus guardanapos jamais tivessem vida própria para se jogarem dessa forma deseducada ao chão.Empurrou-o para uma distância adequada com o pé. Era obrigada a levantar-se para recolhê-lo. Decididamente era uma malabarista por que a mão foi em direção ao descuido e o olho ficou para trás analisando a cadeira. Nada, estava limpinha. Ao sentar-se passou a mão na saia de cima a baixo. Nada.
“Os Cinco Maiores Arrependimentos à Beira da Morte é o título do livro escrito por uma enfermeira australiana que trata pacientes em estado terminal.” Mas que assuntinho indigesto, pensou Almira enquanto esquecia o escudo e apoiava o jornal diretamente sobre a mesa bem diante de seu prato onde a comida esfriava serenamente.
No hábito olhou o relógio tamanho cebolão, como se assim pudesse se fazer ainda mais presente na vida dela, ou na dos outros. Não se atrasava nunca e, se acontecesse de se atrasarem com ela os olhos,franzidos em estreitas frestas, grudariam nos mostradores que em vez de ponteiros tinham duros dedos ossudos. Estava em cima da hora. Olhou para os lados em busca de nem sabia o que até se dar conta que ninguém neste Brasil trabalha numa terça feira de carnaval e ela odiava a TV nesta época. Um despropósito aquela insinuação sexual toda embaixo de narizes que se torciam para isso. Chegava a sentir o cheiro dos corpos suados e pegajosos e o nojo lhe dava quase vertigem. Imaginava aqueles loucos todos se roçando antes e depois da avenida e o embrulho no estômago aumentava consideravelmente.
“A pergunta feita (escrevia mal este tal de David, repetindo verbos sem necessidade, o jeito era ler traduzindo para seu português seco e acadêmico) pela enfermeira aos pacientes foi: o que eles queriam ter feito na vida e não fizeram?”
Travou os dentes, era quase insuportável o jeito coloquial displicente deste cara. Ousadia imaginar que poderia escrever como se estivesse em sua sala escarrapachado no sofá. Tal pessoa devia ser muito deselegante e usar a sala dos outros como sua. Gente que se dizia à vontade e natural e eram mesmo mal educados e insolentes.
“Cinco itens que mais apareceram pela ordem:
1. Ter vivido a vida que eu desejava, não a que os outros esperavam de mim.
2. Não ter trabalhado tanto.
3. Ter tido mais coragem de expressar meus sentimentos.
4. Ter estado mais perto dos meus amigos.
5. Ter me feito mais feliz.”
Mas que respostas ridículas! Jamais teriam sido as dela. Mais viagens, mais dinheiro, mais demonstração de erro dos outros. As pessoas são superficiais e irresponsáveis, vão fazendo as coisas assim, no “ora, veja”. O que tem de mais o trabalho? É salutar e demonstra dignidade. Que droga de mal estar no estômago! Nem comi quase... O prato intocado, com um contorno de gordura amarelada e fria testemunhava.
O Coimbra se meteu a sabido, como sempre e analisou a análise da enfermeira que devia ter tido um trabalhão em analisar. Valha-me Deus! Foi desfiando uma sequência de situações onde as pessoas juram amor eterno bem na horinha que a Maluca Negra já estava com as garras na garganta delas. Talvez nem tão maluca.Este mundo está mesmo uma bagunça, poderia chama-la de Sábia Peneiradora, peneirava mal a donzela. Seria donzela? Enfim, também dizem que vaso ruim não quebra e por isso os bonzinhos se vão cedo e as pestes restolheiam por aqui mesmo.Se morre de qualquer jeito e nem valia pena examinar o acerto ou erro da peneira.
Mas o Coimbra não perdoa e as palavras continuaram indigestamente sendo escritas e agora estavam ali, gravadas num jornal que não se esfumaçava no ar e ao qual ela segurava com força sem perceberas articulações dos dedos estarem esbranquiçadas e uma dorzinha dura pegava na nuca como um colarinho muito apertado.
Até o famoso 11 de setembro ele desenterrou. Por que tinha que ser no meu aniversário? Nem os malditos anos podem sussurrar? Tem que gritar até os 50 serem atravessados a ferro e fogo com tudo desabando no meio de uma poeira que não há aspirador que sugue? Pois é, ele foi lembrando de quantos e quantos tinham usado o celular (agora todo mundo tem, até eu, mas felizmente não toca nunca, é mesmo para emergências) para dizer uma coisa besta que não tinham tido tempo de dizer: “eu te amo”.
No fundo, bem fundo da alma, o vômito ressuscitado vociferou e ela se levantou nem sabe como. Neste dia fatídico nunca sabia nada sobre nada do que fazia, parecia mais estar possuída e seria bem confortável que estivesse, mas não acreditava nesta coisa de espírito.A Veja que o confirmara cientificamente para não ficarem falando essas asneiras deslavadas.
E o cara não calava a digitação enchendo a coluna de coisas maciças e pesadas como bigornas quentes:
“Aqueles que buscaram a imortalidade gritando “eu te amo” ao morrer e os que se arrependeram de não ter dito mais “eu te amo” enquanto viviam compreenderam, no último instante, que qualquer coisa que se vá realizar durante a vida, só pode ser realizada com as outras pessoas. Seja por egoísmo vão, seja por amor abnegado, seja por prazer vulgar, seja pelo que for, as pessoas só se realizam com as outras pessoas. Pena que, muitas vezes, essa verdade só apareça quando é tarde demais.”
Ufa! Ponto final! E nem era um artigo tão grande assim. Olhou o relógio estilo cebolão que marcava pontualmente 18 horas.
O restaurante vazio e as mesas nuas de toalhas e pratos, garçons com caras desconhecidas, por que os do almoço conhecia todos, começando a se movimentar diligentemente enchendo novamente os galheteiros e o balcão das saladas já atulhado de travessas de folhas frescas e verdes dava uma sensação que o tempo não passou passando.
Não passou passando... Não passou passando...
Pagou a conta mecanicamente com o cartão de crédito cheio de créditos jamais gastos e recebeu o sorriso da caixa também desconhecida, não era a mocinha aguada que sorria todos os dias às 13horas. Ela também tinha passado. O que mais teria passado?
Não passou passando... Não passou passando... Tem alguma coisa errada com essa construção e não sei o que é, resmungou Almira enquanto saía louca para ser invisível. Peguei uma virose e devo estar com tanto frio embora o termômetro beire os 40° devido a uma febre terçã em início de carreira.
Não passou passando... Não passou passando...
O que tem de errado aqui?
O ruído de freios guinchando deu uma clareza insuspeita e enquanto adentrava no túnel estreito e claro com os parentes todos ali velando por ela, a lucidez deu um solavanco e gritou:
- Passou não passando!
Acidentes atraem olhares mesmo os acostumados, mas o descostume tomou a todos quando a ferida, ou já morta, ou quem sabe, gritou num só golpe:
- Eu te amooooo!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ao Mestre, com carinho (Vana Comissoli)

“Um conto é um corte na vida. O que houve antes, ou virá depois não importa. A vida seguirá, mas aquele segmento será a polarização imutável trazida pelo antes e deslizando para o depois. Estímulo e retorno. Apenas isso e isso é muito.
O conto é como a fotografia: um instante capturado. Um reflexo do ímpeto.
A novela, como a pintura: leva tempo para se terminar o quadro, mas sempre serão duas dimensões.
O romance, como a escultura: olhamos de todos os ângulos e temos a figura completa. A quarta dimensão, pois ao físico e palpável é acrescentada a alma.”
Eu bebia as palavras de Jorge Medina há muito, ou toda a vida. Eu caminhara pelo deserto da busca cega e quase já desesperançava quando o conheci. Até então, escrever era um passatempo, um alívio das tensões. A forma como as palavras se agitariam ou se descansariam no papel não tinha significado algum até encontrá-la.
“Para que este corte, esta foto, tenha significado é necessário um conflito, sem conflito não há conto. Podemos criar uma rosca de açúcar ou um espinheiro agudo. A densidade terá o tom que escolhermos. Um conflito denso agregará mais valores e mais emoção.”
Eu desenhava mulheres nuas em meu caderno de notas e via que os olhos de Jorge volta e meia espiavam. Percebia uma nesga de sorriso? Não sei, mas quando eu lia meus contos temáticos sim, ele ria. Baixava a cabeça. Fechava os olhos, era um auditivo, e ria. Às vezes abertamente e isso me deliciava.
Era inevitável desenhar furiosamente, eu era auditiva ativa, meus olhos precisavam estar distraídos, ou melhor, minhas irrequietas mãos, para que eu captasse aquela fala mansa carregada de preciosidades que transformariam minha vida.

“Maria entrou no quarto cheia de culpa. Eu também era culpado.
(O ruído rápido e quase ininterrupto do teclado era música aos ouvidos de Jorge Medina e as idéias quebravam as paredes do quarto, pondo-o em vôo livre.)
Nem por um momento deixei de ver meu irmão entrando na igreja, os olhos prendendo as lágrimas. Era o dia de desposar Maria e mostrar seu troféu até que a morte os separasse. Aceitei ser padrinho e lá estava com a gravata me enforcando, minha cabeça girando em cima dos ombros, prestes a cair. O perfume da noiva me alcançava como se ela ainda estivesse em meus braços. Maria, deliciosa, suave, rosada, agitada, urgente na chorosa e lamurienta despedida da véspera.
(Jorge bateu o cigarro e abanou a fumaça quase palpável. Ficaria bom, este conto ficaria bom, pensou, com o velho sentimento de dominar o mundo, as pessoas, através das palavras.)

Na primeira aula mandou que nos apresentássemos como se fôssemos nosso colega da frente. Algum tempo depois entendi que estava reconhecendo nosso feeling. Para compor um personagem precisamos aprender a captar as pessoas à nossa volta, isso não significa inventar o que nos der na cabeça. É preciso manter a coerência mesmo que incoerente do personagem, seu perfil, seus pensamentos íntimos que não serão descritos, mas percebidos através de seus atos.
Adequar a linguagem aos acontecimentos.
Ação? Escreva numa linguagem rápida, quase sem tempo do leitor respirar, mas não o sufoque.
Dor? Use palavras trágicas, que chorem nas letras. Observe o som das vogais, seu crescente (também falam, ou desmaiam no decrescente).
Saudade? Estique as palavras, deixe que elas relembrem os momentos que se foram.
Ler onde não está escrito. O segredo do conto: o subliminar, magistralmente atingido por Machado de Assis, na Missa do Galo. Perseguido quase sangrentamente por todos os outros, estrela de difícil encontro.

“Maria encontrara meu irmão Osório como uma luz, uma salvação, natural que se encantasse e visse nele possibilidades de amor. Acho mesmo que o amava sinceramente. Afinal, o amor é correspondência e preenchimento de necessidades, apesar de deliciarmo-nos enfeitando-o com a aura que sobrou do romantismo.
O que ela não contava era com a paixão, a louca, súbita e irreverente paixão. Como gostamos de nos apaixonar! Vemos apenas a paixão. Enganamo-nos dizendo que é um rosto, um olhar... Não é nada disso, é uma emoção sedutora tiquetaqueando dentro de nós, acelerando o sangue, tirando o sono, tornando-nos escravos de um tilintar de voz.
Maria respirava paixão e tentava se livrar dessa droga casando-se com Osório, por amor plácido e rotineiro. Nada de frenesi. Dia de primavera sem o calor cáustico e excitante do verão.
Não podemos impedir o céu de chover, a noite de chegar, a planta de florescer, mesmo que isso, momentaneamente faça o sol adormecer, o dia descansar, a planta fenecer. Maria descobriria em meus braços.
Eu voltara para o casamento de meu meio irmão tão diferente de mim: calmo, de passos certos, colocando tijolo a tijolo as paredes de sua vida. Eu fora agraciado com um mestrado em Lisboa e, mesmo sem deixar de lado a importância de meu objetivo, resolvi que era uma oportunidade imperdível para virar do avesso a velha Europa. Livre de pai, mãe, casa, meias lavadas...
Entrei fundo nas tascas portuguesas onde aprendi a gostar de cerveja importada, terminar de quebrar minhas grades e rir com sonoridade retumbante. Retumbante era o que guardava de minha terra deitada em leito que eu renegava.
Sentávamo-nos descabelados e aéreos nos bares de Lisboa a debochar da cidade florida. Jovens insustentos a falar do que imaginávamos saber. A mesada, sempre escassa, chegando de todos os cantos do mundo para que pudéssemos divagar nas nuvens de nossos baseados, encontrando profundidade nas vidas de nossos escritores favoritos.
Citávamos Pessoa como se ele estivesse a sustentar Mário de Sá Carneiro na mesa ao lado e sentíamos paixão pelos corpos que Miguel Esteves Cardoso possuiu.
Lá assim era e eu aprendera a ser inconsequente, estrangeiro tudo pode.
Tanta diferença entre eu e Osório devia-se ao fato de termos mães diferentes. A minha era uma jovem senhora de bem com a vida e, a dele, uma chata, presa no anteontem. Nessa escolha a minha ganhou meu pai, que se tornou um cara menos sisudo e mais disposto a tomar um pilequinho nos churrascos familiares. Quem saiu perdendo ou ganhando? Não tenho a menor ideia, o fato é que éramos diferentes, cada um ganhou e perdeu um pouco. Infelizmente, os dois ganharam Maria.”
– Não posso esquecer a verossimilhança amanhã, na aula, devo reforçar este aspecto importante dos personagens. Se os alunos listarem todas as características, começando pelas físicas e terminando nas psíquicas, entenderão melhor.
A economia de palavras. Quantas já apaguei! Economia, limpeza: chô quês sujos e repetitivos, chô pronomes desnecessários, chô linguagem poética numa prosa. A menos que se deseje falar de flor, passarinho e borboleta. Eu quero isso? Preciso ter certeza dessa resposta.

– As qualidades físicas devem retratar as psíquicas.
Anotei a informação e criei mil personagens diferentes a partir daí. Antes de dormir os nomeava, via seus movimentos nos sonhos e meus cadernos se encheram de desenhos com fisionomias feitas a facão, mas expressando sentimentos cortantes.
Estou louca ou Jorge Medina me olha mais do que aos outros?
– Vamos imaginar dois personagens. Nossos personagens. Paulo e Márcia. Listem ações que se desenrolarão para um e para outro. Listem os verbos determinantes dessas ações, as dele e as dela, vejam a convergência. Não permitam que idéias se atravessem, mantenham o foco!
Como gostaria de ser estenógrafa! Não perder nem a respiração entre as palavras. Se eu seguisse à risca seria uma boa escritora? Nem me atrevia a pensar em romance.
– O conto é o gênero mais complexo de todos, não há espaço para vacilo, minúcias, palavras que não sejam absolutamente necessárias.
Mudei de idéia sobre tudo.

“Não foi intencional. Ela saía do banho e eu entrava. Meio nua? Não vi nada, só os olhos flamejantes que me examinaram. Ainda não tínhamos nos encontrado, embora minha vinda estivesse anunciada. Estava nos preparativos da cerimônia quando joguei as malas no quarto de hóspedes, furioso. Tinham dado o meu, o meu, para aquelazinha que aportara de paraquedas na minha casa.
Dois pontos, luz azul, arco voltaico: Maria e eu.
Depois aquela coisa besta de apresentação, jantar incômodo das pernas se tocando por acidente e os olhos irrequietos e prometedores. Eu a despia junto com a pele dos tomates, a comia no filé à parmegiana e lambia na sobremesa de sorvete.
Foi simples e sem culpa. Uma noite, que mal faria? Depois... Impossível para sempre. Não era o recado que meu corpo passava durante a marcha nupcial féretra.”

No dia seguinte a aula foi sobre neologismos. A capacidade de criar palavras, a sagacidade de colocá-las no texto e a profunda coragem de fazê-lo.
“O mestre neste campo minado foi João Guimarães Rosa. Levou suas obras ao instigante mundo, onde recria a língua e faz com que os leitores tentem decifrar, a todo o momento, os seus “achados” semânticos, morfológicos, e, até mesmo, sintáticos ou morfossintáticos, como se a literatura não fosse apenas algo sério, mas também algo criativo, artístico e misterioso.
E a literatura não é mesmo algo sério, é brincadeira do intelecto, liberdade de sentir, recriar a vida numa performance que nos deixe de queixo caído.”
Féretra, neologismo surreal criado na madrugada anterior e precisando de justificativa. Mereceu a aula. Féretro seria tão mais fácil! Para Jorge o fácil era difícil, o difícil vinha fácil para “compor a úmida trama” amorosa que mantinha com as palavras.

“Entrei na cozinha cantarolando, sou da paz de manhã, gosto do sol, ele esteja no céu ou não. Sabia que a lua-de-mel tinha sido adiada pelas cinzas do vulcão chileno que teimava em colocar uma sensação de fim-de-mundo. Apocalipse day.
Teria que parecer como sempre e fazer de conta que não tivera ouvidos de cão para captar ruídos que desejava meus e de Maria. O desgraçado quarto de hóspedes era no sótão e eu não ouvia nada naquela casa antiga de paredes camufladoras dos segredos de alcova.
Fiquei mudo. Pavor.
Estavam os quatro na cozinha. Meus pais com as pistolas tremendo nas mãos, apontando-me. A de minha mãe, com belo cabo de madrepérola, teimando em mirar o chão. Meu pai segurando com as duas mãos para esconder o tremor e Osório direto nos meio de meus olhos. O tiro seria imbatível.
Maria chorava balançando o corpo, a cara marcada por hematomas se ergueu ao meu bom-dia fingido.”

Jorge escrevia tramas tempestuosas e paixões escaldantes. Era a densidade, dizia ele, enquanto eu o copiava e punha ainda mais ardência. Excitaria sua curiosidade ao ponto de ebulição que a minha estava? Seus livros eram ambrosia que me açucarava.
Paixão, aquela mesma que Orlando sentira por Maria. Eu não queria amor algum! Queria Jorge e suas palavras mágicas. Queria pulsar como os personagens. Eu: Ana Karenina, Lady Godiva, Madame Bovari. É querer muito? É só literatura, me convencia.
Jorge escrevendo, Jorge falando, Jorge lendo, Jorge beijando, Jorge me chamando, Jorge, Orlando... Orlando, Jorge...

A busca alucinada de Jorge para chegar ao seu personagem, à sua Maria.
“Maria, a Louca. Pela Graça de Deus, Rainha de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.
Pela Graça de Deus, Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhora da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc.
Lembranças, frases cortadas, até rir-se dos estratagemas criativos e concluir:
Nada disso! Pela graça de uma trepada sensacional, a maluca resolveu não fazer amor com o marido na noite de núpcias e, ainda por cima, apontou com todas as letras o infrator.”

Os temas, as formas, a linguagem... Aula a aula compondo a trama do que viria a ser eu.
“Sobre o tapete, ou duro piso, a gente
compõe de corpo a corpo a úmida trama.”
Drummond saberia que isto também é amor? Que pode haver paixão entre o escritor e a escrita? Que posso ter mil Jorges, ser bígama, fiel, santa e puta?
Hoje, na frente do teclado onde as palavras aparentemente surgem sem uma nesga sequer de meu mestre, eu o relembro e devo a ele mais um livro editado e a entrevista que me espera para falar sobre o conto. O conto que foi o fruto deste amor incondicional.

Final aberto? Final fechado?
Qual se adéqua mais ao tema proposto?
Vamos deixar assim, ainda não parei de escrever...

Vana Comissoli

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Hipocondria (Inacio Carreira)

“Dar nome a uma doença é apressar-lhe os avanços."
Stendhal



Seu pai sempre contava para todos, não sem uma ponta de orgulho, que o primeiro remédio que o filho tomou na vida foi o ácido acetilsalicílico. Talvez por ignorância, talvez por poder, com seu dinheiro suado, ajudar a manter a saúde do rebento, que quase arrebentou a mãe quando nasceu. O que pode, muito bem, ter sido o “pomo da discórdia” entre o casal, que seguiu se alfinetando pelos quase 50 anos que viveram juntos, antes que Tânatos os reunisse num longo sono: cada qual a seu tempo foi dormir, como se acostumaram em vida, talvez um tentando evitar a presença do outro.


Uma das primeiras músicas que chamou sua atenção, diferente das cantigas de roda, das marchinhas de carnaval, das paradas de sucesso extemporâneas, das danças da garrafa e outros tchans foi “O pulso”, de Arnaldo Antunes, ainda no tempo dos Titãs.


“O pulso ainda pulsa / O pulso ainda pulsa...”


A mãe, leitora anual do almanaque O Pensamento, preocupada com a saúde, sua e do rebento, que agora então arrebentava as roupas com o rápido crescimento, arrebentava os chinelos, tamancos, sapatos, parecia o Pé Grande (aliás, apelido que ganhou na rua, fazendo-o ficar irado e chorar como um bezerro desmamado, atrás da porta, porque “homem não chora”), saía vez em quando com pérolas como “O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito” (Émile Zola); “A medicina fez, desde há um século, progressos sem parar, inventando aos milhares doenças novas” (Louis Scutenaire) e Uma grande invenção para humanidade não é criar vacinas ou descobrir curas de doenças termináveis, mas sim, acabar com a ignorância” (Andre Rachel): sabe como é, filosofia de almanaque, literalmente.


“Peste bubônica / Câncer, pneumonia / Raiva, rubéola / Tuberculose e anemia /”


Mas fez, essa filosofia, o jovem rebento arrebentado (caía muito, estava sempre com os joelhos esfolados, parece que excesso de falta de coordenação motora) pensar, cada vez mais, na preservação da vida. Na contrariedade que as doenças causavam. Nas dificuldades advindas de procurar médicos, hospitais, pronto-socorros, injeções, pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, linimentos... E o paradoxo: tem que comer bem para ter saúde, tem que evacuar bem para ter saúde. Mas uma atividade não é o oposto da outra? Se o alimento custa caro, dá trabalho para o preparo, exige mil e uma operações porque, depois, num abrir de nádegas, despejar tudo – ou quase?


“Rancor, cisticercose / Caxumba, difteria / Encefalite, faringite/ Gripe e leucemia...”


Adolescente, ainda acompanhado por seus fantasmas, começou a pedir para a mãe que desse remédio para dormir. O mesmo que ela tomava quando o marido ainda não tinha chegado a casa e ela queria, quando de sua chegada, que a visse dormindo o “sono da morte”.


“E o pulso ainda pulsa / E o pulso ainda pulsa”


Não, onde já se viu um pirralho como você já viciando em remédio? Toma essa maracugina, que o homem da farmácia disse que não tem problema... Estava ele preocupado com vício? Queria era dormir sem lembrar o avô, morto ano passado; das péssimas notas no curso médio (que não estavam na média); das dúvidas sobre as poluções noturnas (ainda não as sabia com esse nome); das ereções na condução, quando lotada... Depois, em casa, o velho jogo do cinco contra um, quando resolvia suas crises existenciais à mão, no horário que devia estar preparando a lição de casa.


“Hepatite, escarlatina / Estupidez, paralisia / Toxoplasmose, sarampo / Esquizofrenia”


Quando, aos 16, começou a trabalhar, estafeta num hotel duas estrelas, sentia dor nas pernas de tanto corre-corre. Às vezes, acompanhada de dor de cabeça. Ou dor nos pés, pelos longos períodos que passava sem sentar-se. A moça da copa arrumava um comprimidinho, que ele completava assaltando a farmacinha da mãe, quando chegava à casa. Para escapar da dor de corno, pior que a de cabeça, dá-lhe analgésico. Desenvolvera tolerância medicamentosa à substância e, em vez de um, tomava dois, três comprimidos, dependendo se aquela que pensava ser a pior dor do mundo fosse acompanhada da não menos famosa “dor de cotovelo”, ambas sem referência na farmacopeia internacional.


“Úlcera, trombose / Coqueluche, hipocondria / Sífilis, ciúmes / Asma, cleptomania...”


Aos 18 anos, primeiro emprego sério após a dispensa do serviço militar, quando entrou no centro de educação de jovens e adultos para complementar o estudo médio e, quem sabe, candidatar-se a uma vaga no curso superior (teria que pagar, pois não tinha a sorte de ser diferente, era o mais comum dos comuns dos jovens. Nada que o colocasse na lista das benesses do governo populista, mais preocupado com perpetuar-se no poder do que em fomentar a educação).


“E o corpo ainda é pouco / E o corpo ainda é pouco / Assim...”


Com o salário, embora pouco, não tendo que dar quase nada em casa (o pai continuava com o mesmo orgulho idiota de quase duas décadas antes: ser o provedor da família), abriu uma conta na farmácia da esquina. Ficou o melhor freguês, bajulado pelo farmacêutico de plantão e as mocinhas, solícitas, sempre oferecendo o melhor antiácido, o lançamento em supositórios e suas várias utilidades (analgésicos, antiasmáticos, antieméticos, antigripais, anti-reumáticos, broncolíticos, cardiovasculares, espasmolíticos, estomacais, expectorantes, laxantes, psicotrópicos, sedantes e urológicos, entre outras). Tônicos para aperitivo (abrir o apetite) e hepáticos (para facilitar a digestão), vitaminas B, C, D..., enfim, todo o alfabeto latino, às vezes incluindo o cirílico, conforme a necessidade.


“Reumatismo, raquitismo / Cistite, disritmia / Hérnia, pediculose / Tétano, hipocrisia /”


Daí a comprar por atacado (quase levando à falência a antiga farmacinha da esquina, que agora parecia um shopping “da saúde”, o que fez com que os farmacêuticos, os estagiários em farmácia, as mocinhas do balcão e os moços da reposição do estoque, antes seus melhores amigos, virassem o rosto à sua passagem, na iminência de perderem o emprego) foi um pulo.


“Brucelose, febre tifóide / Arteriosclerose, miopia / Catapora, culpa, cárie / Câimbra, lepra, afasia...”


Foi quando o patrão, preocupado (ele, afinal, era um bom funcionário, salvo as idas constantes ao bebedouro, para ajudar a engolir o comprimido, ou diluir o extrato) pediu que ele procurasse ajuda profissional, psicólogo ou psiquiatra, pois ele deveria ser hipocondríaco. Hipo o quê? H i p o c o n d r í a c o, cara... Estado mental em que há depressão e doentia preocupação com a própria saúde, ou seja, o seu caso... Eu não sou médico nem nada, mas tá na cara. Outro dia passou no Fantástico, eu disse pra minha mulher: Já vi este filme.


“O pulso ainda pulsa / E o corpo ainda é pouco / Ainda pulsa / Ainda é pouco / Assim...”


O psiquiatra, o psicólogo e a enfermeira do posto de saúde do bairro aconselharam-se a abandonar os remédios. Procurar um grupo de apoio, algo como o A.A., talvez o N.A., ou o H.A. – Hipocondríacos Anônimos –, que ele poderia fundar, se não existisse. Mas como, agora, aprender a viver sem suas muletas, seus amigos, suas terapêuticas? Alopatia ou homeopatia, não importava o sistema, o importante era o método, os efeitos, as sensações que lhe proporcionavam. Na sua angústia, experimentou pela última vez – pois iria seguir à risca a orientação dos diferentes conselheiros – cada um de seus “agentes de cura”, cada um com sua particularidade, especificidade, cor, forma física, dureza, viscosidade, sabor...


Entre a depressão e a euforia repetia as doses, que eram replicadas depois, até que caiu, desacordado, ou quase. Um fundo de consciência deixava entrever, no fim do túnel, uma luminescência azulada, com sabor indefinido, de uma substância que ele precisava, ainda que lhe valesse a vida, experimentar. Pela última vez.


“Pulso / Pulso / Pulso / Pulso”