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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ingratidão (Inacio Carreira)

Se havia alguém mais bondoso nesta terra de nosso senhor jesus cristinho, mais amável com as plantas, os bichos, as águas, as gentes; de fala mais mansa para os seres e as coisas; de pensamento mais puro às jovens que passavam de saia curta ou calça agarradinha; com presteza em auxiliar o próximo, fosse uma senhora com receio de atravessar a rua, nesses tempos tão conturbados de trânsito desrespeitoso com todos, fosse uma jovem grávida saída do mercado com sacolas, com sobrecarga além da que naturalmente levava ao ventre, fosse uma criança que inadvertida e inocentemente estivesse à margem do perigo, num local com águas não tão rasas, um muro, uma situação de violência explícita, fosse um animal pequeno que estivesse na iminência de se envolver em disputa com outro maior, ele estava sempre de prontidão para elogiar, amparar, carregar, proteger, defender...

Apontado como sem perspectiva pois não tinha ganância, não era avaro, buscava auto justificar-se com a lembrança dos versículos “Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Contudo, eu digo que nem Salomão, em todo o seu esplendor, vestiu-se como um deles” (Mateus 6, 28:29).

Buscava ser probo em ‘pensamentos, palavras e obras’, embora soubesse das dificuldades de andar no bom caminho, periodicamente analisando suas reações ante as oferendas que até ele chegavam, sopesando o certo e o errado nas atitudes, nas resoluções, nas respostas. Se o fiel da balança estivesse contra ele, ia até a pessoa que acreditava ter prejudicado e expunha seus sentimentos, buscando desculpar-se por algo que, às vezes, nem havia feito, ou não tivera a intenção de fazer.

Cultivava essa natural preocupação com o todo, que dirá consigo? Não, não era hipocondríaco, não vivia em academias, não buscava a última medicação para o que quer que fosse. Mas mantinha a alimentação saudável, dentro dos princípios do nutricionismo, segundo as informações que chegam a qualquer mortal por revistas, jornais, rádios, televisão. Sem contar a internet, com sites específicos sobre o assunto. Aproveitava as frutas da ocasião para refeições frugais, que completava com os necessários carboidratos e proteínas. Para este último item contrariava seus amigos veganos, a eles pedindo desculpas por não conseguir radicalizar nesse item.

O bem e o mal. Claro e escuro. Alto e baixo. Prazer e tristeza. Ocupação e preocupação. Dicotomias. Não. Não nasceu com esse conhecimento. Foi o mesmo sendo construído através de estudos de filosofia, incursões na psicologia, nos livros sagrados de diferentes povos, nas mitologias, nos demais conhecimentos místicos, na Teogonia, de Hesíodo, com Rabindranath Thakur (Tagore), com Bhagwan Shree Rajneesh (Osho), no dia a dia com familiares, amigos, leituras diversas. Periodicamente vinha-lhe à mente o discutível aforismo repetido por amigos: 'O diabo não é esperto porque é diabo, é esperto porque é velho'.

Saindo de consulta médica, lembrava a passagem shakespeariana: “Oh, se esta carne sólida, tão sólida, se desfizesse, fundindo-se em orvalho! Ou se ao menos o Eterno não tivesse condenado o suicídio!” (Hamlet: Ato I, Cena II).

Pensou nas palavras do médico e reviveu seus sintomas: perda de apetite e, consequentemente, de peso, fraqueza, diarreia, tontura... Mas, por quê? Câncer? Ou melhor, para ser menos agressivo (o médico pedira que fosse com acompanhante, fora só), carcinoma. Mas precisava investigar, bastante e rápido, com exames, em parceria com o relato inicial, que o doutor chamou de anamnese: exames de laboratório (sangue, fezes, urina), além de tomografia computadorizada do abdômen; ultrassonografia abdominal; ressonância nuclear de vias biliares e da região do pâncreas e, também, a biópsia do tecido. Afeta mais os homens e, na sua idade, o índice de sucesso na cirurgia é irrelevante. A localização do pâncreas na cavidade mais profunda do abdômen, atrás de outros órgãos, dificulta a detecção precoce. Normalmente desenvolve-se, o tumor, sem sintomas, sendo difícil diagnosticá-lo na fase inicial e, quando detectado, já pode estar em estágio muito avançado. Como descobriu ser o seu caso.

Estão entre os fatores de risco o uso de derivados do tabaco: fumantes possuem três vezes mais chances de desenvolver a doença do que os não fumantes. Balançava a cabeça, como a dizer não ser seu caso. Outro fator (de risco, claro) é o consumo excessivo de gordura, de carnes e de bebidas alcoólicas. Como também a exposição a compostos químicos, solventes e petróleo, durante longo tempo. Um grupo de risco, com maior chance de desenvolver a doença, é composto pelos que sofrem de pancreatite crônica ou de diabetes melitus, os que foram submetidos a cirurgias de úlcera no estômago ou duodeno ou sofreram retirada da vesícula biliar. Só dizia presente ao último item, retirada da vesícula biliar.

Procurou e leu, na internet, tudo (ou quase) que estivesse relacionado ao pâncreas e tumores nessa glândula. Era muita coisa, muita cientificidade, muita pamonha para a sua festa junina (comparação idiota, repreendeu-se, estavam em novembro...). Castigo divino? Mas, por quê?

Andava com a cabeça cheia. Querendo arrumar justificativa para seu corpo, tão bem tratado, tão elogiado, tão abençoado cada vez que fazia uma coisa boa (vai com deus, diziam. Deus te proteja, desejavam. Deus aumente tuas dádivas e tua bondade, oravam os mais amigos).

Não, não queria recompensa, o que fizera fora sempre de coração aberto. Muita gente não entendeu seus cuidados, muitos lhe viraram a cara, acreditando que ele almejava algum cargo eletivo, alguma medalha, outra recompensa qualquer. Não. Já do berço ouvia a voz da avó: ‘Faz o bem sem olhar a quem’, embora o escorpião tenha picado a rã que ia leva-la à outra margem, aprendeu mais tarde nos livros.

Agora sabia, o inimigo estava dentro dele. Ele era a rã que carregava o escorpião para a outra margem, mas sabia que não chegariam. Sim, esta seria a metáfora final de sua vida. Ele a rã, o câncer sendo o escorpião. O rio? A rua, uma qualquer, que nessa época todas são perigosas, daqui ao fim dos tempos todas serão perigosas, cada vez mais. Era só concentrar-se enquanto anfíbio e atravessar a avenida-rio, esperando a picada fatal. Que veio na forma de um caminhão, apressados que sempre estão.

No rosto um sorriso intrigante: ao longo da vida, com suas idas e vindas, favores e agradecimentos, tours de force e promoção de mil ajudas, sofrera muita ingratidão. Superara a todas. Mas não pôde, humano que era, superar a ingratidão do próprio corpo. Ninguém entendeu...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Indecisão (Inacio Carreira)

Não. Não estava contente com sua vida: era secretária, telefonista e recepcionista naquela pequena empresa onde a dona – uma divorciada frustrada com suas vidas, a amorosa e a profissional – procurava tirar o máximo de cada um. Ela, por estar próximo da Dona, sofria mais: era saco de pancada, boneco vodu, pau pra toda obra... Chegando em casa, à noite, a solidão tomava conta de si. Se no trabalho falava com todo mundo, obrigação das funções, no prédio não conhecia nem o vizinho do lado, nem o de baixo. Por sorte morava no último andar, o que evitava ter um vizinho “de cima”. Em cima dela só Deus. O que, dependendo do ângulo pelo qual se veja a situação, era uma pena.


Embora não fosse vaidosa, era bonita. De uma beleza singela, de uma boniteza quase comum, sem o ser. Por não ter filhos, por não ter casado (era o que pensava) conseguia manter sua silhueta elegante, o que fazia ressaltar com roupas que modelavam suas formas. Sem apertar, que esse negócio de provocar para ser chamada de gostosa, no meio da rua, não era do seu feitio. Um galanteio era bom, mas grosseria! Uma conhecida, há muito, repetia embevecida as frases endereçadas a ela, pelos rapazes, quando passava na Calle Florida, em Buenos Aires: Você é a rosa que falta no meu jardim; Se minha mãe te conhece me obriga a casar contigo; O sol não saiu hoje com vergonha de sua beleza... Galanteios, coisa que pensava esquecidos. Será que ainda era assim? Aqui, não, tem certeza.


Não conhecia nem o porteiro do prédio, pois quando chegava ele ainda não estava no serviço. E sair, que é bom, quem a convidava? Sozinha? Ir onde? Ainda se ela fosse médica, os clientes (ou pacientes?) a procurariam para falar de suas quizilas... Fora de hora, dentro do horário, a qualquer momento estaria disponível para atender sua clientela. Ao menos é o que pensava, lembrando que sua médica, na real, sumia do mapa logo após o término da consulta: teve necessidade de conversar, estava passando mal, mas qual o quê... Contato? Lembra da complicação para escrever para o Fantasma que Anda? Os pigmeus pegavam a correspondência na caixa postal e a colocavam num determinado ponto da Caverna da Caveira. Eita, quanta abobrinha...


Advogada também gostaria de ser. Os seriados que acompanhava, na TV, mostravam o lufa-lufa de um escritório envolvido com escândalos, processos, gente que entra, telefonemas intermináveis noite afora, tribunais... Damages era sua série preferida, pena que terminou. Nela, a grande artista Glenn Close brilha da primeira à última cena no papel de Patty Hewes, advogada em Nova York. Sim, seria bajulada, jantaria em restaurantes da moda aonde iria pilotando o carro do ano, tão bem vestida como a Papisa da Inglaterra, ou mais, teria lugar especial, mesa especial, companhia especial. Tudo do bom e do melhor para ela, a Rainha dos Tribunais!


Ser ativista. Será que isso é profissão? Participar de movimentos, passeatas, insuflar greves. Berras slogans. Jogar pedras (não na Geni)... Exibir seu corpitcho na Marcha das Vadias. Teria coragem para fazer topless? Se fosse para as ruas era para o que desse e viesse, achava que tiraria, sim, a parte superior da roupa. Adeus, sutiã, Viva Betty Friedan... Se os homens ficam com o tórax nu na praia, no campo, até nos jogos de futebol, porque esse preconceito com elas? Se eles ficam excitados vendo peitos femininos (Édipo explica), que culpa tinham as mulheres?


Bah (vão pensar que eu sou gaúcha, isso que dá atender gente de tudo que é parte do Brasil) ... E jornalista? Talvez editora de moda, como aquela do filme O Diabo veste Prada, que diaba que era aquela mulher... Meryl Streep não merecia um papel desses... Mas que estilo! Que finesse! Eu não seria tão ruim assim, tão cheia de picuinhas, pra que espezinhar os outros como eu, que sou diminuída, sempre, cada vez que a Dona dirige a palavra à minha pessoa? Olha, já estou pensando como jornalista. Será? Viajar no avião do Papa, acompanhar aquela multidão. Conhecer médicos, advogados, cantores, artistas de novelas, tudo, tudo...


Conhecer cantores. Conhecer cantoras. Êpa! Aquela notícia caiu como uma bomba, deixando de olhos abertos e bocas escancaradas os moralistas de plantão. Ela não. Já vira tanta coisa na vida. Também, pra ficar sozinha como eu, ouvindo desaforos, sonhando com os impossíveis, até que topava entrar numa dessa. Será que aquele “Mercury” já era prenúncio de alguma coisa? Escolher logo o sobrenome do Fred, ícone pop capaz de deixar de pelos em pé os homofóbicos de plantão... Sério. Quer saber? Tenho preconceito não. De todas as possibilidades acima, resolvi: Quero ser Malu Mercury!


Inacio Carreira

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Duplicidades (Inacio Carreira)

Na aula de História o tema, por incrível que pareça, foi Gêmeos. Numa parceria com Biologia, Geografia e Língua Portuguesa, numa tal de transdisciplinaridade, o professor de História, que teve a ideia, falou sobre Castor e Pollux, irmãos gêmeos da mitologia greco-romana, filhos de Leda com Tíndaro e Zeus, respectivamente, irmãos de Helena de Tróia e Clitemnestra, e meios-irmãos de Timandra, Febe, Héracles e Filónoe. No mito, os gêmeos partilham a mesma mãe, porém têm pais diferentes – o que significa que Pólux, por ser filho de Zeus, era imortal, enquanto Castor, não. Com a morte do irmão, Pólux pede ao pai que deixasse seu irmão partilhar da mesma imortalidade: teriam sido transformados na constelação de Gêmeos e são tidos como padroeiros dos navegantes, a quem aparecem na forma do Fogo de Santelmo. Esse fogo-de-santelmo é, na realidade, uma descarga eletroluminescente provocada pela ionização do ar num forte campo elétrico provocado pelas descargas elétricas. Entendeu? Eu não, ainda...


Já Rômulo e Remo, na mitologia romana, também são irmãos gêmeos: Rômulo fundou a cidade de Roma e foi seu primeiro rei. Conta a lenda que Rômulo e Remo eram filhos do deus grego Marte e da mortal Rhea Silvia, filha de Numitor, rei de Alba Longa. Reza a lenda que Amúlio, irmão de Numitor, após golpe de estado, apoderou-se da coroa e fez Numitor prisioneiro. Rhea foi confinada à castidade, para que Numitor não viesse a ter descendência. Entretanto, Marte desposou Rhea Silvia, que deu a luz a Rômulo e Remo. Ao saber do nascimento das crianças, Amúlio jogou-as no rio Tibre: a correnteza os arremessou à margem e foram encontrados por uma loba (prostituta?), que os teria amamentado e cuidado até que foram achados pelo pastor Fáustulo, que junto com sua esposa os criou. Na Itália, as prostitutas são chamadas de Lobas, daí o nome de lupanar ao prostíbulo, o que muda um pouquinho a história acima.


E Cosme e Damião? Alguns relatos atestam que eram originários da Arábia, de pais cristãos. Seus nomes verdadeiros seriam Acta e Passio. Eles foram martirizados na Síria, sendo desconhecida a forma como morreram. Perseguidos por Diocleciano, foram trucidados e fiéis transportaram seus corpos para Roma. Das várias versões, uma explica que eram irmãos, bons e caridosos, que realizavam milagres. Outros relatos afirmam que foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e inimigos dos deuses romanos. Em outro, na primeira tentativa de morte foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, foram degolados e morreram. Depois de mortos, apareceram materializados ajudando crianças que sofriam violências. A partir do século V, os milagres de cura atribuídos aos gêmeos fizeram com que passassem a ser considerados médicos, pois, quando em vida, exerciam a Medicina na Síria, em Egeia e Ásia Menor. Mais tarde, foram escolhidos patronos dos cirurgiões. Muito esforço foi despendido para mostrar que Cosme e Damião não existiram de fato, que é apenas a versão cristã dos filhos gêmeos de Zeus, pagão.


Alguém lembrou do filme Gêmeos, Mórbida Semelhança, que tinha assistido em casa, e pediu para a professora de Artes entrar no circuito da transdisciplinaridade. Ela disse que não, que esse filme é muito forte para nossa idade. Curioso, juntei-me a um grupelho e assistimos ao mesmo em minha casa. Dirigido por David Cronenberg, “explora os mais estranhos medos, entre os cantos mais inquietantes da psicologia humana e da sexualidade”, diz a sinopse. Mais ainda, informa que é a história de gêmeos, médicos e ginecologistas, que são tão próximos que “suas identidades parecem interligadas em uma espécie de ´consciência conjunta`. Eles se aproveitam da aparência idêntica para trocar de lugar um com o outro à vontade, seja em aparições públicas, na realização de cirurgias e, até mesmo, compartilhando as mulheres que se envolvem com um deles. Quando um se apaixona por uma estrela de cinema, Claire, o elo íntimo é rompido, as coisas começam a dar errado. “O filme é um estudo sobre o pesadelo da dependência psicológica, das obrigações entre as pessoas saudáveis (simbolizado pelo sonho horrível em que um se imagina unido ao outro por um cordão umbilical de carne, que Claire tenta morder)”. Embora inusitada, o filme é baseado em fatos reais, quando os gêmeos e também ginecologistas de 45 anos, Stewart e Marcus, foram encontrados mortos em seu apartamento, em 1975 (o filme é de 1988). À época das mortes, os médicos se tornaram viciados em barbitúricos.


Vivos, alegres e comunicativos deveriam ser todos os gêmeos, desde os verdadeiros (pois já nascem acompanhados, não devem nunca sentir solidão) até os do signo. Entretanto, as histórias são trágicas, falando de terror, morte, desolação. O que eu faria se este fosse o meu signo? Gêmeo não sou, sei de cor, embora tenha uma pesquisa no Google que informa de estudos realizados com gêmeos separados ao nascer e criados em lugares diferentes, para ver se o DNA ou a criação, o ambiente, influenciam na pessoa. Deu 10 a zero para o DNA, deixou todo mundo intrigado.


Acho que os professores vão ter muito trabalho conosco. Depois de toda esta pesquisa não vai ter pra ninguém. Vamos subir ao firmamento, descer os despenhadeiros, degolar, criar cidades. Em sala de aula ou em algum jogo das redes sociais, onde podemos viver novamente.


Viver novamente?

sábado, 25 de maio de 2013

Tauromaquia (Inacio Carreira)

Quando estamos juntos aflora a energia que nos une
Tentamos dissimular, emular energias impossíveis
ou possíveis, sei lá, mas energias
e afloram, com floras, flores, florais de Bach
e música suave barrocamente invade o ar...

Plantar, semear, regar e esperar germinar. Paciência bovina. Ou taurina, embora esta imagem esteja mais aliada à impaciência. Com mais de 2.600 anos, a Lira de Tomb, suméria, de Ur, apresenta harpa decorada por uma cabeça de touro de madeira, coberto com ouro e barba em lápis-lazúli, que integra o acervo do Museu Britânico. Mais tarde, surge o mito do Minotauro na ilha de Creta, governada pelo rei Minos: cabeça e cauda de touro num corpo de homem, povoou o imaginário dos gregos, levando medo e terror. Habitava um labirinto e nasceu em função do desrespeito do marido de sua mãe ao deus dos mares, Poseidon. O rei Minos pediu ao deus que o deixasse tornar-se o rei de Creta. Poseidon aceita o pedido, porém pede em troca que, em sua homenagem, o rei sacrificasse um touro branco, lindo, que sairia do mar. Ao receber o animal, o rei ficou tão impressionado com sua beleza que resolveu sacrificar outro no lugar, esperando que o deus não percebesse. Muito bravo com a atitude do rei, Poseidon resolve castigar o mortal: Pasífae, esposa de Minos, se apaixona pelo touro, ficando grávida do animal, união da qual nasce o Minotauro. Desesperado e com muito medo, Minos solicitou a Dédalos que fizesse um labirinto gigante para prender a criatura: foi construído no subsolo do palácio de Minos, na cidade de Cnossos, em Creta. Após vencer e dominar, numa guerra, os atenienses, que haviam matado Androceu, seu filho, o rei de Creta ordenou que fossem enviados todo ano sete rapazes e sete moças de Atenas para serem devorados pelo Minotauro. Após o terceiro ano de sacrifícios, Teseu, herói grego, apresenta-se voluntariamente para matar o Minotauro. Ao chegar na ilha, Ariadne, filha de Minos, apaixona-se pelo herói e resolve ajudá-lo, entregando-lhe um novelo de lã para que pudesse marcar o caminho na entrada e não se perdesse no grandioso e perigoso labirinto. Tomando todo cuidado, Teseu escondeu-se entre as paredes do labirinto e atacou o monstro de surpresa. Usou uma espada mágica, que também havia recebido de Ariadne, colocando fim àquela terrível criatura. O herói ajudou a salvar outros atenienses que ainda estavam vivos no labirinto. Saíram do local seguindo a guia formada pelo novelo de lã. O mito do Minotauro foi um dos mais contados na época da Grécia Antiga. Passou de geração em geração, principalmente de forma oral. Era uma maneira de ensinar o que poderia acontecer àqueles que desrespeitassem ou tentassem enganar os deuses.
O argentino Julio Cortázar, em sua peça Os Reis, mostra-nos um Minotauro meigo, humano, que encanta e busca, nos jovens que chegam todo ano, somente carinho e companhia. Conquista-os, fazendo com que não queiram voltar à terra natal.
Por sua característica de força e poder, a figura do touro sempre foi reverenciada pelo ser humano. Mais recentemente, artistas como o espanhol Francisco de Goya, com sua Tauromaquia, série de 33 gravuras publicada em 1816, e Pablo Picasso, também espanhol, com no mínimo cem trabalhos – desenhos e gravuras, na maioria – dedicadas ao tema, motivo recorrente na obra picassiana desde a infância, na casa dos pais, em Málaga, até a década de 1960, tiveram importantes exposições pelo mundo.
Informação, informação... Que não fazia acabar seu pavor, medo, pânico pela simples lembrança de um touro. Um boi, que fosse. Trauma adquirido na pequena cidade do interior paulista, família morando perto do matadouro. Chegavam, semanalmente, boiadas para o abate, vinham a pé, passavam pelo meio da cidade, única rua ligando diretamente a estrada com o abatedouro. As mulheres recolhiam as crianças para as casas, pois a rua era o quintal onde brincavam, todas, numa época em que o trânsito era, na sua maior parte, feito a pé ou a cavalo. Charretes, carroças, carroções iam e vinham, modorrentamente, não perturbando a paz dos viventes. Mas, naquela tarde, inesperado, um grito de desespero rasga o silêncio da tarde: Estouro! Sua mãe, heroicamente, só teve tempo de jogá-lo contra a parede da casa e jogar-se sobre seu corpo. O corpo da mãe ficou irreconhecível, pisoteado e chifrado pela passagem do cortejo assustador, irado.
Sabe, ele, que prender-se ao passado traz nostalgia, não ajuda nada o viver. Mas, se a história ficou para trás, a lembrança está viva em sua mente. Precisa aprender ousadia e o prazer de experimentar, embora não goste de arriscar sua segurança. Ao atravessar ruas olha para os dois lados, fazendo-o também para cima e para baixo, num tic, ou TOC, nervoso, que ele não pode evitar. Ritual, cerimonial, medo... A Tauromaquia marcou sua vida. Marcará sua morte?

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Quem ama não mata... (Inacio Carreira)

Vivia grudado na internet buscando novidades. Que, depois, espalhava pela turma, pessoalmente, por e-mail ou através das redes sociais. Assinava todas, ou todas que conhecia. Precisava parar com isso. Perdia um tempo danado na frente da telinha. Se o patrão descobre, rua! Sem poder reclamar, que estava tudo registrado ali, no seu ID. Como se fosse seu id, aquele descrito por Freud. E, como o id, o ID é “a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade”. Como? Explico: se uma atriz de televisão denuncia a invasão de seus arquivos eletrônicos e a divulgação de uma foto sua, nua ou transando com o namorado de plantão, a polícia vai atrás rapidinho e prende o sabichão. Agora, se você recebe mensagens anônimas, de pessoas interessadas em azarar com sua paciência, e busca auxílio na mesma polícia (só existe uma, grosso modo) recebe a resposta de que “só se houver morte envolvida”.


Continuando os paralelos, assim como o id, o ID “desconhece o julgamento de valores, o bem e o mal, a moralidade" (Freud). As forças do id buscam a satisfação imediata, sem tomar conhecimento das circunstâncias da realidade. Funcionam de acordo com o princípio do prazer, preocupadas em reduzir a tensão mediante a busca do prazer e evitando a dor. Qualquer coincidência é pura semelhança. Ainda mais, para os incautos de plantão: o id contém a nossa energia psíquica básica, ou a libido, e se expressa por meio da redução de tensão. Assim, agimos na tentativa de reduzir essa tensão a um nível mais tolerável. Para satisfazer as necessidades e manter um nível confortável de tensão, é necessário interagir com o mundo real. Por exemplo: as pessoas famintas devem ir em busca de comida, caso queiram descarregar a tensão induzida pela fome. Portanto, é necessário estabelecer alguma espécie de ligação adequada entre as demandas do id e a realidade.
Entendeu? Se um automóvel é a extensão de nossas pernas, se uma arma é a extensão de nossos braços, o computador é a extensão de nosso cérebro. Antes de um computador com grande capacidade, temos que ter muita capacidade cerebral, ou não saberemos o que fazer com a máquina. São complementares. Até que o Ser invente o Androide inteligente, pensante, que tenha a capacidade de reflexão do aqui-agora, lembrando Blade Runner, o Caçador de Androides, filme de 1982.


Vivia grudado na internet buscando novidades. Encontrou a foto de sua namorada com o melhor amigo (deles). No maior malho. Indiferentes aos clarões do flash... Curtindo. Seria mesmo ela? Vai mandar cópia para o celular dos dois e ver a reação. Sósias? Impossível. Com a mesma roupa íntima, mesmo corte de cabelo, mesma expressão alucinada na hora do vamos ver?


Sua reação – instintiva – foi jogar o monitor contra a parede, lembrou a tempo de que não estava em casa, aquele aparelho não era dele, aquele tempo não era dele, aquela reação exacerbada – somente dele – deveria vir à tona em outra hora e lugar, quando encontrasse com os dois ex. Qual seria sua reação? Qual seria sua vingança?


O pior era o desejo, forte, que sentiu ao ver aquelas cenas e a falta de iniciativa para mudar de endereço. Músculos enrijecidos, rosto vermelho pelo afluxo de sangue, medo de que alguém chegasse em sua estação de trabalho naquele momento e o visse transtornado. Alterado. Transportado.


Tinha que aliviar a tensão. Depois veria o que fazer...

segunda-feira, 25 de março de 2013

Paz e amor (Inacio Carreira)

 Tendo mandado à multidão que se assentasse sobre a relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, deu graças e, partindo os pães, entregou-os aos discípulos, e os discípulos entregaram-nos à multidão.




Mateus 14:19



 Este é seu sonho de consumo: multiplicar pães e peixes. Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede. Ainda que não pense em termos bíblicos, mas reais, humanos. Movido pela compaixão, às vezes ele era mal interpretado. Pagar um prato de comida àquela mulher com cara de fome? Comprar um sanduíche para o jovem que, aparentemente drogado, pedia dinheiro e dizia estar com larica?


Não, ele não vivia para os outros, embrenhava-se no trabalho e amealhava alguma reserva financeira. Que, sozinho, não lhe servia de muita coisa. Não era dado a festas, bebidas, mulheres. Prezava a família, a amizade, o calor humano. Via nas pessoas como Madre Teresa de Calcutá, Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela – e tantas outras – exemplos a serem seguidos. Lista à qual, recentemente, juntara o nome de Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal, relator do julgamento do chamado Mensalão, apontado nas redes sociais como futuro presidente do Brasil (embora assolado por dores crônicas na região lombar, o ministro não se deixava abater e continuava sua sanha de Cavaleiro da Justiça. Solitário, infelizmente).


Embora não desprezasse, que isto não fazia o seu feitio, era contra os apresentadores de televisão, elevados ao patamar de deuses, ou semideuses, ainda mais quando usavam do prestígio para doar utensílios e gêneros, bens e serviços aos menos favorecidos pela sorte, tendo como troco a permanência nos programas dominicais, ou em outros horários nobres. Alguns se aventuravam a cargos políticos, às vezes com sucesso na votação, mas, com evidente insucesso na vida pública...


Também os jogadores de futebol e outras modalidades... Embora no século 21, a plebe praticava costumes que remontam à Grécia Clássica e suas Olimpíadas, quando os vencedores ganhavam, em praça pública, estátua e culto. Sim, semideuses. Os nossos são diferentes? Alguns desses (poucos, ainda bem) extrapolam esses poderes e vão até a atribuição da morte, seja por acidentes de trânsito, armas de fogo ou outros instrumentos!


Inspirado por tantos movimentos pró e contra tudo, tanta sede de verdade, tanta busca de compensação financeira por danos sofridos, armou-se de coragem e, vestindo branco da cabeça aos pés saiu caminhando no meio da avenida principal de sua cidade, de porte médio, trânsito privilegiando os apaniguados e seus importados... A cena remetia ao filme Forrest Gump, o Contador de Histórias. Lembram? Foi juntando gente, gente...


Se os primeiros sentiam-se ameaçados pelos veículos, a multidão ocupou todo o espaço da via pública, a massa caminhava e perguntava-se o porquê daquilo, quem era aquela figura alva, as pessoas queriam saber o que fazia aquela figura branca caminhando contra a corrente de trânsito (que agora se colocava à margem da pista), buzinas chamando a atenção para tentar tirá-lo do caminho. Não podiam deixá-lo sozinho: pensavam ser um protesto contra o uso abusivo da mata ciliar, a invasão de escorpiões em Varginha (que antes fora famosa pela invasão de ETs – eita cidade mais invadida), a falta de delegacias especiais para mulheres, para crianças, para idosos, para portadores de necessidades especiais, para pessoas com síndrome de pânico...


Era bonito de ver tanta união. Não foi isso que Gandhi fez, na Índia, com sua Resistência Pacífica contra a dominação inglesa, em 1947? Martin Luther King, com seu famoso discurso I have a dream, contra a discriminação racial, em Washington D.C., em 1963? Embora Nelson Mandela contrarie os dois exemplos, sendo braço forte na luta armada contra o apartheid, na África do Sul, presidiu essa nação de 1994 a 1999, não sem antes receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1993.


Dividir pães e peixes. Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede. Ainda que não pensasse em termos bíblicos, mas reais, humanos. Movido pela compaixão, às vezes ele era mal interpretado. Este é seu sonho de consumo: assim como tantos outros, ele tem um sonho. Ver o mundo todo de mãos dadas, saber-se parte de uma congregação de irmãos, sentar na relva para comer pão e peixe, dividir a água, saborear o ar da manhã, a brisa do final do dia, a alegria de sentir-se vivo após mais uma jornada. Vivo e produtivo, produtivo e participante... tentando fazer história, querendo mudar a história.


 “...somos todos iguais, braços dados ou não” foi o que martelou em sua mente quando, percebendo um ardor no peito, olhou e viu o sangue tingindo sua roupa, sentiu sua vida esvaindo-se, chocou-se contra a aridez do asfalto.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Labiríntico (Inacio Carreira)

Quando ligou o computador, naquela tarde fria de final de outono, prenúncio de inverno, teve uma surpresa e uma constatação. Então era por isso que os contatos terminaram? O que queria, então, aquela figura que se desmanchava em gentilezas toda vez que nos encontrávamos na sala virtual, para trocar confidências e programar encontros que nunca aconteceram, para comentar o filme agraciado com o Oscar do ano ou o próximo livro do nosso autor preferido?


Não, eu não acalentava ilusões, não, mas ser bloqueado assim, sem mais nem menos, faça-me o favor... Tudo falsidade, então? Tudo blá-blá-blá inútil? Não que eu esperasse um mar de rosas, uma vie en rose (ah, saudades das interpretações da fantástica Edith Piaf e, particularmente, de sua La vie en rose), um sei lá o quê mais... Indignação, frustração, vergonha, culpa pelo tempo que roubei à família para passar com um miasma extrovertido, uma figura de ficção criada a cada dia, um jogo em que eu sabia das chances (muitas) de insucesso.


Entretanto, mesmo acreditando que nunca seria lido, compus um poema a ser remetido, via e-mail, para o endereço conhecido. Não teria mais interlocutor no Messenger diário, não, mas quem sabe ele conseguiria incomodar um pouco, se o objetivo fosse alcançado, isto é, se a leitura fosse realizada. De qualquer forma, precisava extravasar, tirar a mão que me apertava a carótida e tirava meu ar, já rarefeito pela emoção.


Escrevi e formatei.
Segue abaixo, como registro dessa loucura desmesurada:




Ariadne


Tu me deste uma ilusão
e eu agarrei-me a ela
como se fosse verdade. Não era,
e a descoberta dessa realidade
fez-me cair em mim e,
dada a altura, machucou.
Muito.


Como era bonita a ilusão:
nós a alimentávamos
várias vezes ao dia,
via mensagens no celular e,
à noite, invariavelmente,
no MSN, via internet, horas a fio,
ficávamos vendo-a crescer.


Ficou maior que nós, essa ilusão...
E tão grande foi que morreu de inanição,
não a podíamos mais alimentar,
estava roubando-nos, comendo-nos,
tirando nosso sossego,
tínhamos que tratá-la, fazê-la bonita,
dar-lhe ares de Realidade.


E agora, quando enfim morre,
quase me enterra junto.
Eu que a pensava também tua
não sei o que nela vias,
mas sendo isto ou aquilo,
o melhor dela era o seu poder
de nos tirar da vida real ou criar
uma outra existência, estranha realidade,
onde vivíamos com a ilusão que alimentávamos,
horas a fio, até que o fio da vida nos trouxe de volta,
ou não, caso contrário estaria fazendo coisa
mais produtiva do que escrevendo sobre ela.


11 jun 2008



Talvez para mostrar desespero, num simbolismo à Van Gogh, colori a página de amarelo, amarelo berrante, amarelo que expressasse um uivo, um grito, uma risada de escárnio. As letras ficaram em preto, mesmo, para efetivar o contraste. Que acentuei aplicando um estilo Negrito. Li e reli, pensei na possibilidade de recepção, no entendimento (ou não) do que escrevi, da fantasia de ser, a comunicação via Messenger, reabilitada. Eu aceitaria? E o tão falado amor-próprio, fadado ao limbo? Quantas vozes na cabeça: faz – não faz, vai – não vai, manda – não manda...


Deletei.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Esse cara sou eu! (Inacio Carreira)

Nada a ver com o sucesso daquele septuagenário que (ainda) faz a cabeça das senhoras de cabelos azuis... Para provar isto, ou até para demonstrar independência quanto a mitos, ritos, superstições, vestia-se de marrom: a cor da morte, diziam uns, a cor da terra, criação e absorção da vida, apontavam outros. Ele, indiferente, não dizia nada, apenas era.


Era marrento: se pensava em algo ia em frente, lutava para conseguir seus objetivos. Às vezes batia com a cabeça na parede, mas não se abatia, tentava novamente, e novamente, até conseguir. Ou tomar, de uma vez por todas, consciência de que aquele não era seu melhor caminho.


Caminho, para ele, era o Tao. Ou melhor, Tao é o caminho. Nesse caminho, um dos princípios é que “você sempre receberá o que você quer, ou o que teme. Seu subconsciente legitimamente determinará que energias, experiências e pessoas você atrairá; portanto, o único meio infalível para saber o que você quer, ou teme, é ver o que você tem. Não há vítimas, apenas estudantes das Leis Universais”, lia sempre.


Sempre pensava, também, no paradoxo de dizer-se independente de mitos, ritos e superstições mas estudar o Tao. “Filosofia”, dizia aos amigos. Aos outros, se dissessem alguma coisa, ou melhor, se ele permitisse que dissessem algo, a indiferença era a resposta. Devia, ele, satisfações para alguém? Como dizia o texto que lhe embasava a vida, ou quase, “o único meio infalível para saber o que você quer, ou teme, é ver o que você tem”. Sobre isto refletia muito.


Muito provavelmente apegara-se a essa, para ele, filosofia, quando se desencantara do mundo, das mentiras do mundo, sabendo-se pensante (“logo existo”, refletia) e participativo. Direita, esquerda ou centro? Sei lá... “Deixa a vida me levar...”, dizia, sendo contestado por várias pessoas, importantes para ele e para quem, logicamente, dava crédito. Embora, por ser marrento, muitas vezes não demonstrasse, até brigasse para manter suas convicções.


Convicções à parte, naquele dia ele acordou mais tarde, não sabia – no momento de acordar, obviamente – qual o dia da semana. Parecia-lhe domingo, mas não, domingo seria depois de amanhã, isto tinha em mente por causa do passeio agendado. Parecia-lhe domingo pela noite que tivera ontem, típica de sábado, sair para jantar... Lembrou: era sexta, claro, devia ter se dado conta disso quando refletiu que “domingo seria depois de amanhã”... E a noite de quinta-feira fora especial.


Especial como ele nunca pensou. Melhor dizendo, pensava, sim. “Seu subconsciente legitimamente determinará que energias, experiências e pessoas você atrairá”, ele sabia isto, estudava isto, procurava viver dentro dessa filosofia. Até a palavra “amor” foi dita, de forma unilateral, mas, foi. Ele aprendia a cada aproximação e agora tinha a confirmação de que a famosa Lei do Retorno valia, sim. Quantas vezes a ele foi endereçada a palavra diante da sua indiferença? Agora era a ocasião dele absorver indiferenças.


Indiferenças, diferenças, mesmices: todas facetas da vida, do teatro da vida. Embora no ano passado, esta história começou há pouco. Não sabe aonde chegará, mas não importa. O caminho é bom ou ruim, dependendo de como façamos a viagem. E a dele estava apenas começando...


Começando, mesmo, era verdade que não. Entretanto, com a sabedoria que ousava acreditar ter acumulado ao longo da existência (que viu os primeiros acordes daquele “cara”), vivia cada dia per si. Já havia por muito tempo perdido a cabeça, procurando-a nas paredes e encontrando dores. Agora, a vida que prometera a si mesmo seria diferente. Mais introspectiva, talvez, com mais espaços para reflexão, menos angústias. Aproveitar o momento seria o termo certo.


Certo ou errado, cantarolava – inadvertidamente – o refrão que às vezes enchia o ambiente e, sua paciência, a todo momento...


Inacio Carreira

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Coitadinho... (Inacio Carreira)

Naquela mesa está faltando ele
E a saudade dele está doendo em mim...
Sérgio Bittencourt


Metade homem, metade cavalo. Ou, sendo do sexo oposto, metade mulher, metade égua... Sagitário, o Arqueiro, é representado por um centauro. Metade homem, metade cavalo. Positivo, sua alegria contagia os outros. Este pensamento sugere que o judeu Guido, personagem vivido por Roberto Benigni no filme A Vida é Bela, seja sagitariano. Buscando animar o filho e não tirar, da criança, a inocência que é natural a ela, inventa situações engraçadas para as muito tristes passagens da Segunda Guerra Mundial, que os levou para um campo de concentração.


Ganhar na loteria. Ou no jogo do bicho, tanto faz, o dinheiro seria distribuído da mesma forma entre os parentes, amigos, conhecidos, para que todos à sua volta vivessem mais felizes. Assim pensava, erroneamente, pois dinheiro não trás felicidade. Mas sua vocação para Madre Teresa não a deixava ver claro o panorama. “Onde houver tristeza que eu leve a alegria”, orava toda noite, lembrando São Francisco, o pobre de Assis. Sim, para ela não queria muito, precisava de pouco para viver. Bem. O mais importante era ver pessoas felizes à sua volta. O que, no fundo, no fundo, era um pouco de pretensão de sua parte. Pretendia ser reverenciada como a que proporcionou isto e aquilo, que comprou, que adquiriu, que doou, que...


Ela só não olhava para uma pessoa: o marido, provedor da casa e patrocinador de suas manias de grandeza. Trabalhava, o herói, diariamente, sem desfrutar de férias (gozava férias trabalhando em outra função, na maior das vezes mais cansativa do que sua atividade principal).


Quando o assunto era dinheiro, sexo, a criação dos filhos ou a família, invariavelmente discordavam. É como se ela acreditasse que ele devia pagar pedágio para estar em sua companhia. Ele pagava, com um sorriso nos lábios, embora às vezes tivesse o coração em pedaços. Pela indiferença, pela descrença, por achar que ele nada podia. Só trabalhar...


Confidenciou, a um dos filhos, que somente uma vez tivera um relacionamento extraconjugal, fortuito, a convite da parceira, após ter oferecido uma carona. A mulher soube, como boa sagitariana subiu nos cascos e nunca mais deu folga ao infeliz. Que procurava, à sua maneira, ser feliz, sim, que ninguém é de ferro. Cantava, assobiava, tocava instrumentos rústicos que ele mesmo construía e ela fazia questão de esconder, ou jogar no lixo. A culpa caía, invariavelmente, na prole. Ele, na falta de provas, sorria e criava outros instrumentos... Os filhos lamentam não ter, do pai, tão agradável recordação além da que guardam “no lado esquerdo do peito, perto do coração”.


Certa vez ele escreveu, num arroubo de felicidade:




Sorria


 Se a Felicidade
parece voar distante,
lembremo-nos de quando
ela pousava em nosso ombro
(seus pés acariciavam, até),
comia em nossa mão
(o bico fazia cócegas, lembra?),
andava ao nosso lado
(como é gingado o seu andar...)!
 
A Felicidade é uma ave
de longas plumas de arco-íris,
de canto mavioso,
ovos de ouro...
É migratória.
Ela vai...
... e volta!



Ela, peremptoriamente, rasgou o manuscrito e jogou os pedaços no lixo, matéria que foi resgatada, colada e serviu de base a esta explanação, ou ficaria tudo na base da confiança, na minha palavra somente. Quando, algum tempo depois, ele foi prestar contas ao Criador, ela só teve uma palavra: “Coitadinho”.


Entretanto, possessiva, sem ter a quem comandar, tutorar, ela foi logo atrás, devem estar fazendo a maior algazarra, onde quer que estejam. Quer dizer, ele deve ter feito a maior algazarra a partir do momento em que a viu, já deveria estar saudoso, o Coitadinho.

Bianco (Inacio Carreira)

"Branquíssimo,
ele namorava ursos e ursas.
Era um autêntico
bi polar..."

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lágrimas de crocodilo (Inácio Carreira)

   Saiu de casa. Pela última vez, dizia. Nem que chore lágrimas de sangue (bonita figura, apreendida na infância e que algum escaninho mental, aberto agora com toda essa emoção, deixava vir à luz da consciência). Não via vantagem alguma em estar atrelado a uma instituição que dava, a ele, somente casa, comida e roupa lavada. Cobrando, pensando não exigir nada em troca, o que de mais importante ele prezava nessa vida: a liberdade.


   Liberdade de ir e vir, de ficar na rua até altas horas com os amigos, de não lavar a louça do café da manhã atrasado, de deixar seus pertences por toda a casa (afinal, diziam sempre que a casa é dele, que ele faz parte da família, que todos o amam!)...
   A partir desse amor apontavam seu futuro: teria que ser médico, detetive, advogado, escritor ou qualquer outra coisa que a mãe vivia escarafunchando naqueles sites de horóscopo e consultando tudo que era vidente que aparecia na cidade. Controle remoto. Sim, era assim que ele sentia-se: manipulado por controle remoto.
   Que amor é esse que cobra pedágio, ágio, explicações? Deixassem que vivesse sua vida em paz e ele ficaria ali, sendo o exemplo (mau?) para os pequenos, para os vizinhos, para os filhos das ex professoras. “Veem o Zé? Deu pra nada, não... Virou chupim”... Chupim o catso... Ele tem dois ovos, mas não os colocou no ninho de ninguém para serem chocados... Aproveitador?... Passa... Ele não pediu pra nascer, pediu? Teria, agora, que entrar nessa de provedor do capitalismo selvagem e virar escravo de empresas internacionais, de rede de computadores, de nomes absurdos de empresas telefônicas que disputam os ouvidos dos incautos com as mais absurdas ofertas, fazendo o infeliz (que se acha feliz) esquecer que pode estar adquirindo um tumor pela proximidade das ondas eletromagnéticas com seu cérebro?
   Sempre procurei ser social, cortês, observador, colocar meu senso crítico a serviço do próximo, tentava justificar-se. Do que valeu? Nada, nada, nada, repetindo o refrão do “Você não soube me amar”... Valorizava a amizade, colocando no freezer os traíras. Sem piedade.
   “Sexo, drogas e rock n’roll”, sua máxima, somente dele, ninguém mais entende. No começo sexo era tudo para ele, espírito e matéria. Além dos Beatles e dos Rolling Stones amava de corpo e alma suas parceiras em relacionamentos profundos, mágicos, trágicos. Trágicos? Sim. O rock foi substituído pelo funk, o sexo foi substituído pelas drogas, o funk foi substituído pelas drogas. “Zé, sai dessa vida, vai estudar, trabalhar, ser gente!”, diziam, como se ele não fosse gente. Gente e respeitado no pedaço de beco em que cada pedrinha é disputada às vezes na mão grande, às vezes no tapa, mesmo...
   Aquela camisa laranja vai ser seu amuleto: no sábado escapou de uma batida policial, deu sorte, os homens entraram quebrando tudo, ele soube pela zinha...



Inácio Carreira. CONTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO LIVRO TRAMAS, MOLESKINE EDITORA, NOVEMBRO DE 2012.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Metrô (Inacio Carreira)

O olhar bate em um livro diferente. Formato fora do padrão de best-seller. Capa alaranjada. No miolo, partituras. Observo o título. La bohème... Quem segura tal livro? Um jovem ma non troppo... Olhos grandes, cabelos rareando, echarpe protegendo o pescoço. Cantor? Sim, talvez, nunca vi músico protegendo a garganta. Lembram do Pavarotti? Sempre com suas echarpes em volta do pescoço, agasalhando sua voz privilegiada e dando-lhe um ar de Prima Donna, ou melhor, Primo Uomo, que de Donna ele não tinha nada... E esse aqui, do metrô?


Nas mãos, o livro e uma lapiseira. Pentel. Amarela. Que, ao virar a página, segura entre os lábios. Ao achar o local desejado, resgata a lapiseira e escreve, faz marcações. Específicas. Talvez em suas árias, quando terá que praticar o staccato, o allegro, adagio... Tanta coisa... Quanto conhecimento! Estava com um blusão da Accademia Europea di Firenze, fizera lá um curso? Ou era professor em intercâmbio, trazendo o conhecimento milenar da música clássica aos nossos jovens? Sim, olhando bem, prestando atenção na atenção que o homem dedicava ao seu livro, onde aparentava estudar com afinco La bohème, ópera de Giacomo Puccini, com libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, baseado no livro de Henri Murger, Scènes de la vie de bohème: estreou no Teatro Regio de Turim a 1º de fevereiro de 1896, sob a regência de Arturo Toscanini. Como eu sei tudo isso? Google, cara, Google... E, no Google, a Wikipédia.


De repente apagam-se as luzes, as rodas guincham nos trilhos (como guincham as rodas do metrô, já ouviu? Sim, metrô é um trem, mas é bem mais rápido e mais leve, talvez esse o motivo do grande barulho). Não cheguei a cair (estava de pé), segurava nos apoios do teto e perpendicular ao chão, foi minha sorte. Muita movimentação, choro, o cheiro de excremento de cavalo começou a tomar conta do ambiente.


A iluminação era pouca, tochas, pareciam, velas, luzes bruxuleantes. Do chão, eu tentava apoio para colocar-me na vertical, posição que deu, ao homem, status privilegiado sobre os outros animais, além de deixar as mãos livres para outros afazeres: carregar objetos, lutar, perscrutar, amparar... Consegui, enfim, e por pouco não sou pisoteado por uma carruagem puxada por quatro cavalos... – Não olha por onde anda? (Nem sabia por onde andava, como ia olhar? Ai, o olhar estava baço, onde estava?) À sua frente, imponente edifício. Vem à mente a informação de que “as origens do teatro (o Teatro Regio, de Turim, as coisas começam a fazer sentido) datam do início do século XVIII, quando Vittorio Amedeo II decidiu encomendar ao arquiteto Filippo Juvarra o projeto e a construção de um grande e novo teatro, dentro do desenvolvimento urbano da Praça Castello”... Êpa, seria eu, agora, um receptor de informações? Teriam instalado um chip em meu cérebro e estava, então, em contato direto com a World Wide Web – www?


O apagão no metrô... O homem com a partitura de La boèhme... Sim, ele desce da carruagem, quase pisa em minha mão, está acompanhado por várias pessoas tão bem vestidas quanto ele... Ao pisar na plataforma de madeira, à guisa de calçada, que separa a rua – imunda, coberta de excrementos -, antes de entrar no Teatro, é ovacionado.


Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, em sua Saudação a Walt Whitman, de 1915, brada: “Bebamos isto como um remédio amargo / E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida / Por quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão”...


Mas não é disso que estou querendo dizer. Ou melhor, eu pensava, agora, qual a razão dos atores desejarem, ao invés de Sorte, ou Boa Sorte, Merda... Que inclusive é título e tema de uma canção de Caetano Veloso, gravada ao vivo em 1986, com a parceria de Chico Buarque...


Novo curto-circuito cerebral e vi, em tecnologia 3D (sem óculos, só a força de vontade, ou seja lá o que seja) três justificativas à saudação, sendo que a primeira veio dos palcos, mesmo: segundo minha diretora de teatro dos tempos de colégio, no Instituto de Educação Canadá, em Santos, a expressão teve origem na Grécia Antiga. Segundo ela, “naquela época os atores se apresentavam em anfiteatros e suas peças, por serem bem críticas, afetavam os políticos ou alguma classe social. Enfim, se eles não gostassem das críticas representadas naquele fenômeno que era o teatro, atiravam merda nos atores. Por ironia do destino, os atores não ficavam por baixo com isso, porque quanto mais merda era atirada neles significava que mais repercussão teria o espetáculo. Afinal, eles tinham conseguido seu objetivo. Eles estavam lá era pra incomodar mesmo!”...


Acordei com saudades daquele tempo, em que os políticos tinham vergonha na cara. Hoje dizem, simplesmente, que ignoram os fatos... Ou seja, que são ignorantes! Depois da Lei da Ficha Limpa, que venha a Lei da Ficha Inteligente, urgente...


Inacio Carreira

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Onde está teu irmão? (Inacio Carreira)

Abel, a primitiva vítima


 “Não sei, sou eu tutor de meu irmão?” Chorei quando ouvi essas palavras. Eu já as havia ouvido, mas não nesse contexto. Não depois que meu irmão resolveu abandonar a casa de nossos pais. No que ele era diferente? Ou melhor, vendo de outro ângulo, no que eu era diferente dele? Filhos do mesmo pai e da mesma mãe, criados sob o mesmo teto. Com diferença de dois anos frequentamos a mesma escola (ele nasceu primeiro), fomos às mesmas festinhas de família, dos filhos dos amigos de nossos pais, éramos como agulha e linha, como falavam os mais velhos. Inseparáveis.


Até que mudou. Eu ou ele mudamos? Ambos, decerto. Mas foi uma mudança radical. Enquanto eu continuei com as aulas de violino, ele abandonou o piano para tocar lata, ou quase: entrou para um programa de música experimental em uma associação de periferia, furou as orelhas (alargador, disse ele, para arejar as ideias), começou a fumar coisas que não são vendidas nos bares, usava incenso em demasia (para espantar os maus fluídos, justificava), banho só vez em quando, cabelos seguindo moda dos etiópicos. Será que ele sabia disso?


Não importa. Quantas vezes meu pai ou minha mãe perguntaram, tal qual o Senhor: “Onde está teu irmão?”. E eu não sabia dizer, ou não queria, na maior parte das vezes. Não podia? Ia mudar alguma coisa?


Ele, por ser mais novo, meio adoentado, foi cercado de gentilezas. Talvez, por isso, sem querer parecer psicologístico, cresceu em um mundo irreal. Onde o estudo, a carreira, o casamento, o futuro não tinham papel. Ou ele não tinha papel nessas funções. Não se via responsável, somente tutelado. Passou sua infância mimado por três pessoas embora eu, a pessoa mais nova dessa tríade, não gostasse muito do que era obrigado a fazer. Escondido, mostrava minha verdadeira face, talvez com isto afastando meu Abel de estimação. Matando, nele, o que de carinho pudesse haver por nossos pais e por mim próprio.


Será? Não sinto culpa, creio que se fosse essa a hipótese eu teria. Sim, teria, tenho certeza.


Mas não tenho nada a ver com isso. Continuei meus estudos de música clássica, corro o mundo e vejo, em cada jovem à beira da calçada, quer na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo, a meu irmão. Ou a um ser parecido com ele, que desistiu de lutar neste mundo onde a lei do mais forte prevalece. Que não tem espaço para culpados. Para covardes. Para os que vão morrer e saúdam, saúdam, saúdam... Não sei quando vi meu irmão pela última vez, mas sei, que logo depois deste fato, ele passou a viver somente em minhas lembranças. Que eu tentava manter o mais saudável quanto possível. Éramos, então, dois irmãos brincando de orquestra, eu o maestro, ele o spala, um prestando reverência ao outro, um tentando ser melhor que o outro. Ele conseguiu?


 Inacio Carreira

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Conto quase crônica, lembrando Marilyn Monroe (Inacio Carreira)

Para Norma Jeane Mortenson *




Ao longo do tempo, depois de muitas confidências, conselhos, trocas de informações, descobertas de gostos (in)comuns, souberam-se amigos. A amizade é um sentimento que, após implantado, cresce tomando todos os espaços, confunde-se com outros sentimentos, às vezes. Mas requer cuidados, a amizade. Como bem disse Saint-Exupéry, “Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas”. Algumas farpas foram trocadas, claro, como em todo o relacionamento sincero, onde cada um sente-se no direito de dizer isto e aquilo ao outro, às vezes magoando (sem intenções, claro, sem intenções...), mas, nada que abalasse a troca de e-mails, postagens no facebook, telefonemas, indicações para este livro, aquele filme... "Gostas desse cantor?"


 "De repente, não mais que de repente", como disse muito bem o Poetinha, (quem ele pensa que é para aquilatar o Vate?) ela sumiu. Das mensagens enviadas voltavam apenas confirmações, automáticas, de recebimento. Estaria viajando? Sim, parece que ela disse sair em viagem paga pelos filhos, presente-surpresa, alegria alegria: excursão internacional num país vizinho, sul-americano igual ao nosso. Daquele que dizemos ter rixa. Mas, exageros à parte, tudo fica sendo uma grande brincadeira de meninos grandes, sabemos de muitos brasileiros que se abrigam de nossa falta de civilidade nesse país ombreado, dito e havido detentor de cultura europeia.


Ele foi ao seu estado, também vizinho, recentemente. Mal se falaram ao telefone: ela estava (estará ainda?) engajada num serviço que toma quase todo o seu tempo, além do filho que voltou ao ninho; a filha que está longe e inspira cuidados; os demais filhos, de perto e de longe, já com proles e cônjuges, cheios de histórias, pedidos de colo; a manutenção do apartamento; os fazeres e afazeres de seus muitos dotes, pois que pinta, borda, prega botões (não, este final é propaganda de máquina de costura...)!


Se o alheamento for causado por alguma dessas hipóteses ele ficará feliz por ela. Pois que a tem em boa conta. Falaram-se muito, escreveram-se mais ainda, visitaram-se pouco: ele, umas três ou quatro vezes, ao longo de mais de dez anos, foi ao encontro dela. Ela, apenas uma vez visitou-o. São ambos muito ocupados, cheios de compromissos pessoais, artísticos, sociais...


Se este texto fosse uma carta ela veria estas letras? Ele sabe que não verá a resposta, se vier. Pois, – lembrando a Marilyn Monroe –, os telefones para quem ligou não foram atendidos. Inclusive o dela, agora, que responde com uma monofônica monotonia, até entrar na gravação da concessionária do serviço. Chanel nº 5 é muito caro para nossa economia, que gira conforme a música do Fundo Monetário Internacional, movida a dólares. E a euros.


“Mas está muito frio!”, ele reclamou...


Inacio Carreira


 




* Norma Jeane Mortenson (Los Angeles, 1º JUN 1926 — Los Angeles, 5 AGO 1962), foi uma das mais célebres atrizes norte-americanas com o pseudônimo de Marilyn Monroe.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Água de chuva (Inacio Carreira)

Realidade é alguma coisa na qual, quando
você deixa de acreditar, não vai embora.
Philip K. Dick


Vontade de tomar água de chuva. Água destilada, dizia meu pai, boa para colocar na bateria do carro. Faz tempo, sim. Que, hoje, as baterias – ao menos a maioria delas – vêm blindadas, o vivente não pode colocar nem tirar nada, nada... Porque água de chuva? E se essa chuva for a decantada “chuva ácida” do filme Blade Runner – O caçador de andróides? Filmado em 1982, virou cult ao retratar Los Angeles do ano 2019 (pertinho de nós, agora). Aliás, novembro de 2019. Eu nasci em novembro... Será uma premonição? Serei andróide? Não, sou muito estúpido, andróides são – seriam – programados para a excelência.


Voltando à chuva ácida, que parece ficção científica, vou à rede e leio que é um dos problemas ambientais mais sérios da contemporaneidade, causada pelos gases tóxicos liberados na queima de combustíveis fósseis, carvão ou petróleo. Após a sujeira da combustão ganhar a atmosfera, parte dela reage com o vapor d’água e outros componentes em suspensão, quando os gases poluentes transformam-se em ácidos, caindo por ocasião de tempestades, neblinas e nevoeiros. Embora expressa na ficção filmada em 1982, o livro que deu origem ao roteiro, de autoria de Philip K. Dick, foi lançado em 1968 com o título Do Androids Dream of Electric Sheep? Entretanto, o problema é pesquisado na Europa desde o século 17, ganhando fama na década de 60 (do século 20), com o declínio do número de peixes em lagos daquele continente: tem – a chuva ácida - o poder de destruir florestas, acabar com os nutrientes do solo, matar a vida aquática e, lógico, prejudicar a saúde humana.


Será essa vontade, de tomar água de chuva, uma necessidade de ligar-me aos elementos da natureza, numa inconsciência holística, numa comunhão telúrica, numa vontade de esvair-me com a água, de descer aos infernos (as regiões subterrâneas) e renascer, fênix pós-moderna, replicante inconformado com a mesmice amém?


Preciso tomar água, muita água. Os rins não funcionam direito, pedreira, causa ou efeito da abstenção aquosa, ou líquida no geral... Se fosse água da chuva o líquido ingerido, faria tão bem quanto às baterias de minha infância? Mas, se essa chuva for ácida, ficarei mais empedrado, contaminado, modificado, células multiplicando-se desordenadamente, organismos buscando romper a barreira da pele, ossos esfarelando-se, olhos cegos, tapete de pelos e cabelos forrando a habitação?


A água, então, pode ser droga, também. Alterar as funções do organismo. Em vez de ajudar, contaminar. O que, aliás, não precisa ser esperado de todo esse processo poluição / ascensão da mesma / descida em forma de chuva: reza a lenda que não existe nem uma gota d’água livre de contaminação após as bombas atômicas que arrasaram Hiroshima e sua irmã no horror... Nem o famoso Aquífero Guarani, subterrâneo, escapa a esta sina. Hodierna e hedionda.


Já não tenho vesícula biliar; meus dentes foram substituídos paulatinamente, ao longo da vida; por conta de duas hérnias inguinais ganhei uma tela de metal na região subcutânea abdominal; meus olhos são protegidos por lentes, por hora em armações, mais um pouco e colocadas diretamente no globo ocular; meus ouvidos apitam diuturnamente, em breve requerendo intervenção cirúrgica; minhas pernas cambaleiam, exigindo pesquisa de labirintite, meus... deixa pra lá.


Melhor colocar um chip, ou mais, e transformar minha ficção em realidade, andróide também, ou semi-andróide, a trabalhar mais um pouco, a aproveitar o que foi armazenado no cérebro (que teima também, o safado, em negar informações). Eu, new-andróide, ao contrário da história contada em Eu, Robô, parto do humano para o quase humano, na esperança de vivenciar o ano 2019, se as profecias catastróficas não se concretizarem...


........


Pesadelo. Acordou sem saber mais quem era, se o Eu da voz narrativa ou se alguma outra voz, daqui ou de lá, nascido de mulher ou criado em laboratório. Admirável mundo novo...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Terra de Ninguém (Inacio Carreira)

Antes da Terra tornar-se quase nada, após anúncios de hecatombes ecológicas e o choque de um cometa contra nosso planeta, quase colisão final, big bang às avessas, um Ninguém se abriga em uma caverna (cave, restos de habitações, abrigos improvisados) buscando reter na memória o pouco do que lembra ou o que – pelos exercícios compulsivos – não consegue esquecer.
Repete incansavelmente antigas fórmulas, junta pó – das estrelas? –, do pinga-pinga faz sua fonte de vida: a água continua imprescindível à permanência da espécie, Ninguém – intuitivamente – sabe disso, sente isso, sua lembrança, aliada da biologia, lembra-o que o precioso líquido é, foi e será sagrado.
Reconstrói suas memórias com o que arrebanha aqui e ali, do pouco que sobrou no que restou de terra... Faz nesta faina um bric-a-brac, um mercado de pulgas, uma enciclopédia do que existiu, em parte, em algum local desse planeta. Saudades no resplandecer das imagens em meio às letras que já esqueceu como interpretar. Mas as imagens... As imagens! São aterradoras, lindas, mágicas...
Enquanto está no afã de orar, amealhar, beber, reverenciar a Caixa – ah, essa caixa que esconde mistérios – Ninguém volta ao primitivo do ser... Ter, ter, ter... Medo que falte, como pode faltar a energia elétrica que aprendeu a produzir na mini-usina, como pode faltar água, que resgata gota a gota e utiliza num ritual transformador, pacificador, benfazejo...
Não vê a chegada de um ser lindamente disforme: duas pernas, quatro braços, duas cabeças... meio macho, meio fêmea... A porção fêmea desprende-se e adere ao piso, inerte, perdeu sua referência ao soltar-se do suporte vivo que a transportava. Já o macho, homem/felino, fruto de experiências genéticas dos últimos tempos... últimos dias? De onde tirou essa ideia? Agora percebe formas parecidas com a sua: Ninguém está maravilhado, unge Het tentando trazê-la da imobilidade, da passividade... Há quanto não via semelhante, parece real, tem articulações... É preciso restaurar suas funções vitais, buscar seus pontos de equilíbrio, energizar seus chacras...
He fuça por ali, vigiando sua preciosa carga, sua protetora, mentora, líder... A água lhe é negada, o que o torna irascível. Inquieto, o espaço é pequeno para tanta curiosidade, que recai sobre a Caixa, objeto de culto de Ninguém que, primitivo mas não ingênuo, passa a dar atenção redobrada ao relicário. Amarras, correntes, braços protegem noite e dia aquela que, parece, contém seu destino.
Com suas formas delicadas e supostamente frágeis, águas-vivas preenchem os espaços, disputando as águas – quase mortas – com outras formas de vida, eliminando-as. Atormentam os sonhos de Ninguém, que de todas as maneiras tenta livrar-se delas, expediente que se torna, para ele, como um decreto de morte.
A história é relembrada. Desde o princípio do fim – ou de um novo recomeço, Kali ancestral da transformação – Het, em sua aparente doçura e tranquilidade, entrega a He o instrumento de morte: o destino de Ninguém está selado. Vermelho, dor, sangue... Estertores ante o inevitável. Retomada a figura quase mitológica, a Caixa muda de dono e vai conhecer outras terras, outros ninguéns, energias. Sangue! Objetos são testemunhas de uma história de espera: na Terra de Ninguém o ser continua – como sempre o fez, desde o princípio dos tempos – aguardando a hora da morte. Amém.
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Dandara Mendes, Maykon Junkes e Tiago Novo, sob a direção de Fred Paiva, intrigaram públicos diversos na montagem – itinerante – do espetáculo Terra de Ninguém. Em 2012, caso o texto volte a ser montado, não perca.

sábado, 10 de setembro de 2011

Inverno, infirmo, inferno (Inacio Carreira)

O frio é incomum. Passa as tardes ao lado de um aquecedor cujo uso fará, no próximo mês, a delícia dos acionistas da companhia de energia elétrica. As manhãs passa-as na cama, sob uma grossa camada de cobertores, edredons, mantas, lençóis e outros artifícios /artefatos contra baixas temperaturas


Há mais de 20 anos, quando saiu de sua cidade para esta, em outro estado, preparou-se como para uma viagem ao Ártico (exagero, exagero), mas perdeu o investimento. O sítio mostrou-se cada vez mais quente, ele parou de fumar, engordou e as roupas foram para um amigo. Eram boas, quentes, mas não serviriam de nada, agora. A numeração passou de 48 para 54 (dependendo da fábrica). Devia utilizar-se de náilons e outros sintéticos ao invés da velha e boa lã, casimiras, flanelas, malhas flaneladas, veludos, couros... Ainda tem muita coisa a usar, mas carecem de cuidados, de lavações, de banhos de sol que lhes tirem os ácaros, os cheiros de naftalina, os ovos de barata. Resistentes, essas baratas. Fazem, da naftalina, desodorante. Continuam, perfumadas, o banquete em minhas roupas e agasalhos que, descobertos, ganham o caminho da rua, do lixo.


O frio é incomum. Existe uma vantagem: as comidas estragam menos. Estragando menos, também tem que cozinhar menos. Pilota o fogão, no máximo, duas vezes na semana. Guarda as sobras, aproveita-as bem, come fora vez em quando, às suas expensas ou convidado por amigos, vez em quando trazendo uma sobra para casa. Ainda agora tem, glória das glórias, camarão com molho rosé e maçãs no congelador, prato que degustou, de prima, à beira-mar em Itajaí, num restaurante chamado Sereia Tropical.


Outra vez, almoçando na própria cidade com uma amiga turista, levou para a geladeira um linguado ao molho branco com alcaparras, mas, quando quis utilizá-lo, estava virado em aguarela. Intragável. O molho branco se desmanchou, do peixe só sentiu o cheiro forte. O conjunto ganhou a lata de lixo e, ato contínuo, a lixeira comum do condomínio, não fosse ficar no apartamento atraindo moscas.


O frio é incomum. Ele, lamentando, falou de roupas, que esquentam por fora e de comidas, que esquentam por dentro. Mas encontra-se num impasse: nem as roupas nem os mantimentos, transformados em calorias, gorduras e vitaminas, podem ajudá-lo na atividade que enfrentará a pouco: o banho. Não, não irá colocar o aquecedor no banheiro. É contra-indicado, o fabricante informa que o mesmo não deve ser ligado em áreas molhadas. O que resta é o velho truque – perigosíssimo – de colocar fogo ao álcool, colocado em uma lata. Não fique preocupado, não. O banheiro, ou a sala de banhos, tem abertura suficiente para não asfixiar o usuário. Aliás, abertura perene, pois a janela não fecha, a ferrugem impede o acionamento da alavanca que vedaria o espaço.


Sofre duas vezes: no frio, agora incomum, tudo é pouco para aquecer o ambiente e a água. No calor, às vezes mesmo desligando o interruptor do chuveiro a água é tão quente (pela proximidade da caixa d´água com o telhado) que quase não aguenta a temperatura elevada. Isto faz com que cada banho hibernal exija uma reflexão, um buscar roupas no cesto e nas gavetas, acomodando-as no banheiro para uso imediatamente após secar-se; um planejamento estratégico para não deixar a embalagem de álcool perto do fogo, não deixar os fósforos perto do fogo, a toalha idem, sua pele mais cuidada ainda.


Como seria bom assinar, como suas, as afirmações acima. As queixas acima. As dúvidas. Mar aberto, fica à mercê de cuidadores, sem sentir frio ou calor, lembrando de quando tinha estes felizes desconfortos. Precisa entrar um pouco mais mar adentro, afundar, sumir, integrar-se ao grande nada. Com qualquer temperatura.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sobrevivente (Inacio Carreira)

Lembrava de nada. Um vazio na cabeça, parecendo desmiolado, mas era falta de memória mesmo. Mau contato nas sinapses. Zinabrou, diriam os antigos. Curto circuito. O clarão... O clarão! O clarão e um estrondo ensurdecedor toldaram-lhe os sentidos. Deve ter sido isto, então. Um lampejo de consciência, tirada não sabe de onde, fez com que refletisse. Onde estão todos? Onde estava com todos? Quem seriam esses todos?


A luz é difusa, confusa... Muitas sombras formam grandes áreas que não consegue vislumbrar. Não distingue quase nada. Nada, nada, nada... Como repete esta palavra. Como definir o nada, descrever o nada, pensar o tudo em presença do nada? Longe ou perto? Raso ou fundo? Suave ou agudo? Reto ou redondo? Firme ou movediço? Só dúvidas, dúvidas...


Louco não está ou, seguindo vaga e remotíssima lembrança, acharia tudo 10. Vinte. Mil.


Parece postado contra um encosto de pedras áspero, frio. Dor nas costas, as pernas teimam em não obedecer. Nem os braços. Sente-se uma coisa grudada à pedra. Mas não. Não? E se fosse? Que coisa seria? Uma lesma, perereca, indivíduo em uma colônia de fungos, uma ameba? Viagem, viagens... Pareceria com o ser que Kafka, em A Metamorfose, deixa que percebamos como uma barata? Bem, ele não deixa nada, a maior parte das pessoas é que veem o ser como uma barata. Que pode ser real ou metafórica, dependendo do entendimento de cada um. Ao menos estaria “barateando” por aí, andando, meio que rastejando, sentindo o ambiente com as longas antenas. Menos, menos...


Não se sentia metamorfoseado, apenas dormente. Uma dormência gostosa, como ao acordar de um sono reparador e o sangue, seguindo os impulsos vegetativos, começasse a ser bombeado com mais pressão para o organismo, oxigenando o cérebro e todo o sistema. Vivificando.


Era bonito o mundo apesar da poluição que às vezes o escondia:


Tinha sol, e crianças sorrindo para ele, e mulheres com tangas escondendo quase nada,


E barcos que se faziam ao mar: faziam até músicas, compunham-se poemas,


Falava-se de amor que, embora às vezes pago, era bom...


 Era bonito o mundo: as gentes se encontravam pela rua, ao que, às vezes,


Davam o nome de “trombada” (seriam eles como elefantes?);


E se fazia comercial até para vender o óbvio.


 Era bonito o mundo e hoje, tantos sóis quase nada iluminando a Terra.


Era bonito o mundo, antes do fim...


Como um bebê principiando o explorar do ambiente, tentou mexer os dedos. Conseguiu! Quase festa, não fosse a dor. Lancinante. Lacerante. Cortante. Num esforço sobre-humano, elevou a mão esquerda para perto dos olhos, enquanto buscava aproximar o conjunto da luz. Estava no lugar. Ou melhor, o que sobrara dela estava no lugar, na ponta do braço, com as enervações ligando seus trocentos ossos (exagero, na verdade são 17, lembrou). A pele... Ai, a pele... Meu reino por um antisséptico e bandagens, ousou pensar, mesmo sabendo do surreal da situação. Com o outro braço e respectiva mão o trabalho foi o mesmo, a dor foi a mesma, a expectativa foi menor. Sabendo das condições, embora precárias, de seus membros superiores, pensou em levantar-se. Não sem antes testar a movimentação das pernas. Somente testar, porque não conseguia vislumbrar nem silhueta das mesmas... Aparentemente estão em ordem. Agora sim. Como a alavanca de Arquimedes (eita, desde sempre acontece empulhação: Arquimedes não inventou a alavanca, mas explicou o princípio envolvido no processo de alavancagem), usa a perfeita combinação de ossos, músculos e nervos para tentar levantar. Não é fácil. São ativados os músculos tibial anterior, sóleo, gastrocnêmio, quadríceps, isquiotibiais, glúteo máximo, abdominais, paravertebral lombar, trapézio e esternocleidomastóideo... Ué, de onde apareceu tanta informação? Nunca foi atento nas aulas de Ciências, Biologia e congêneres. Inconsciente coletivo, diria Jung. Inconsciente talvez, ele estava morre-não morre, a vontade de continuar deitado entorpecia os membros, embora deles precisasse para voltar à condição de primata. Como estava, grudado à pedra, faria parte dos répteis? Dos batráquios? Das assombrações?


Era bonito o mundo antes do fim. Aparecem no fundo de sua memória, borradas, enevoadas, as visões do terremoto / tsunami / vazamento nuclear que prenunciou o final dos tempos. Final dos tempos ou início de uma nova era? Pois, não fosse assim, ele não estaria agora ruminando sua desdita e ouvindo, ao longe, sons de civilização, o famoso ruído branco que deu nome ao livro de Don Delillo. Ruído branco. “Som sempre presente do tráfego da autoestrada” ou “almas ... balbuciando nas margens de um sonho”?

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Hipocondria (Inacio Carreira)

“Dar nome a uma doença é apressar-lhe os avanços."
Stendhal



Seu pai sempre contava para todos, não sem uma ponta de orgulho, que o primeiro remédio que o filho tomou na vida foi o ácido acetilsalicílico. Talvez por ignorância, talvez por poder, com seu dinheiro suado, ajudar a manter a saúde do rebento, que quase arrebentou a mãe quando nasceu. O que pode, muito bem, ter sido o “pomo da discórdia” entre o casal, que seguiu se alfinetando pelos quase 50 anos que viveram juntos, antes que Tânatos os reunisse num longo sono: cada qual a seu tempo foi dormir, como se acostumaram em vida, talvez um tentando evitar a presença do outro.


Uma das primeiras músicas que chamou sua atenção, diferente das cantigas de roda, das marchinhas de carnaval, das paradas de sucesso extemporâneas, das danças da garrafa e outros tchans foi “O pulso”, de Arnaldo Antunes, ainda no tempo dos Titãs.


“O pulso ainda pulsa / O pulso ainda pulsa...”


A mãe, leitora anual do almanaque O Pensamento, preocupada com a saúde, sua e do rebento, que agora então arrebentava as roupas com o rápido crescimento, arrebentava os chinelos, tamancos, sapatos, parecia o Pé Grande (aliás, apelido que ganhou na rua, fazendo-o ficar irado e chorar como um bezerro desmamado, atrás da porta, porque “homem não chora”), saía vez em quando com pérolas como “O sofrimento é o melhor remédio para acordar o espírito” (Émile Zola); “A medicina fez, desde há um século, progressos sem parar, inventando aos milhares doenças novas” (Louis Scutenaire) e Uma grande invenção para humanidade não é criar vacinas ou descobrir curas de doenças termináveis, mas sim, acabar com a ignorância” (Andre Rachel): sabe como é, filosofia de almanaque, literalmente.


“Peste bubônica / Câncer, pneumonia / Raiva, rubéola / Tuberculose e anemia /”


Mas fez, essa filosofia, o jovem rebento arrebentado (caía muito, estava sempre com os joelhos esfolados, parece que excesso de falta de coordenação motora) pensar, cada vez mais, na preservação da vida. Na contrariedade que as doenças causavam. Nas dificuldades advindas de procurar médicos, hospitais, pronto-socorros, injeções, pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, linimentos... E o paradoxo: tem que comer bem para ter saúde, tem que evacuar bem para ter saúde. Mas uma atividade não é o oposto da outra? Se o alimento custa caro, dá trabalho para o preparo, exige mil e uma operações porque, depois, num abrir de nádegas, despejar tudo – ou quase?


“Rancor, cisticercose / Caxumba, difteria / Encefalite, faringite/ Gripe e leucemia...”


Adolescente, ainda acompanhado por seus fantasmas, começou a pedir para a mãe que desse remédio para dormir. O mesmo que ela tomava quando o marido ainda não tinha chegado a casa e ela queria, quando de sua chegada, que a visse dormindo o “sono da morte”.


“E o pulso ainda pulsa / E o pulso ainda pulsa”


Não, onde já se viu um pirralho como você já viciando em remédio? Toma essa maracugina, que o homem da farmácia disse que não tem problema... Estava ele preocupado com vício? Queria era dormir sem lembrar o avô, morto ano passado; das péssimas notas no curso médio (que não estavam na média); das dúvidas sobre as poluções noturnas (ainda não as sabia com esse nome); das ereções na condução, quando lotada... Depois, em casa, o velho jogo do cinco contra um, quando resolvia suas crises existenciais à mão, no horário que devia estar preparando a lição de casa.


“Hepatite, escarlatina / Estupidez, paralisia / Toxoplasmose, sarampo / Esquizofrenia”


Quando, aos 16, começou a trabalhar, estafeta num hotel duas estrelas, sentia dor nas pernas de tanto corre-corre. Às vezes, acompanhada de dor de cabeça. Ou dor nos pés, pelos longos períodos que passava sem sentar-se. A moça da copa arrumava um comprimidinho, que ele completava assaltando a farmacinha da mãe, quando chegava à casa. Para escapar da dor de corno, pior que a de cabeça, dá-lhe analgésico. Desenvolvera tolerância medicamentosa à substância e, em vez de um, tomava dois, três comprimidos, dependendo se aquela que pensava ser a pior dor do mundo fosse acompanhada da não menos famosa “dor de cotovelo”, ambas sem referência na farmacopeia internacional.


“Úlcera, trombose / Coqueluche, hipocondria / Sífilis, ciúmes / Asma, cleptomania...”


Aos 18 anos, primeiro emprego sério após a dispensa do serviço militar, quando entrou no centro de educação de jovens e adultos para complementar o estudo médio e, quem sabe, candidatar-se a uma vaga no curso superior (teria que pagar, pois não tinha a sorte de ser diferente, era o mais comum dos comuns dos jovens. Nada que o colocasse na lista das benesses do governo populista, mais preocupado com perpetuar-se no poder do que em fomentar a educação).


“E o corpo ainda é pouco / E o corpo ainda é pouco / Assim...”


Com o salário, embora pouco, não tendo que dar quase nada em casa (o pai continuava com o mesmo orgulho idiota de quase duas décadas antes: ser o provedor da família), abriu uma conta na farmácia da esquina. Ficou o melhor freguês, bajulado pelo farmacêutico de plantão e as mocinhas, solícitas, sempre oferecendo o melhor antiácido, o lançamento em supositórios e suas várias utilidades (analgésicos, antiasmáticos, antieméticos, antigripais, anti-reumáticos, broncolíticos, cardiovasculares, espasmolíticos, estomacais, expectorantes, laxantes, psicotrópicos, sedantes e urológicos, entre outras). Tônicos para aperitivo (abrir o apetite) e hepáticos (para facilitar a digestão), vitaminas B, C, D..., enfim, todo o alfabeto latino, às vezes incluindo o cirílico, conforme a necessidade.


“Reumatismo, raquitismo / Cistite, disritmia / Hérnia, pediculose / Tétano, hipocrisia /”


Daí a comprar por atacado (quase levando à falência a antiga farmacinha da esquina, que agora parecia um shopping “da saúde”, o que fez com que os farmacêuticos, os estagiários em farmácia, as mocinhas do balcão e os moços da reposição do estoque, antes seus melhores amigos, virassem o rosto à sua passagem, na iminência de perderem o emprego) foi um pulo.


“Brucelose, febre tifóide / Arteriosclerose, miopia / Catapora, culpa, cárie / Câimbra, lepra, afasia...”


Foi quando o patrão, preocupado (ele, afinal, era um bom funcionário, salvo as idas constantes ao bebedouro, para ajudar a engolir o comprimido, ou diluir o extrato) pediu que ele procurasse ajuda profissional, psicólogo ou psiquiatra, pois ele deveria ser hipocondríaco. Hipo o quê? H i p o c o n d r í a c o, cara... Estado mental em que há depressão e doentia preocupação com a própria saúde, ou seja, o seu caso... Eu não sou médico nem nada, mas tá na cara. Outro dia passou no Fantástico, eu disse pra minha mulher: Já vi este filme.


“O pulso ainda pulsa / E o corpo ainda é pouco / Ainda pulsa / Ainda é pouco / Assim...”


O psiquiatra, o psicólogo e a enfermeira do posto de saúde do bairro aconselharam-se a abandonar os remédios. Procurar um grupo de apoio, algo como o A.A., talvez o N.A., ou o H.A. – Hipocondríacos Anônimos –, que ele poderia fundar, se não existisse. Mas como, agora, aprender a viver sem suas muletas, seus amigos, suas terapêuticas? Alopatia ou homeopatia, não importava o sistema, o importante era o método, os efeitos, as sensações que lhe proporcionavam. Na sua angústia, experimentou pela última vez – pois iria seguir à risca a orientação dos diferentes conselheiros – cada um de seus “agentes de cura”, cada um com sua particularidade, especificidade, cor, forma física, dureza, viscosidade, sabor...


Entre a depressão e a euforia repetia as doses, que eram replicadas depois, até que caiu, desacordado, ou quase. Um fundo de consciência deixava entrever, no fim do túnel, uma luminescência azulada, com sabor indefinido, de uma substância que ele precisava, ainda que lhe valesse a vida, experimentar. Pela última vez.


“Pulso / Pulso / Pulso / Pulso”



terça-feira, 3 de maio de 2011

Quase um santo (Inacio Carreira)

O Zé ficou triste quando ouviu a notícia. Morrera um grande homem.

- Poxa, disse consternado para o Jão, o vice morreu.

- Pena que não foi o titular, retrucou o outro, puteado.

- Diz isto não, cara... Quantas vezes o Zé lutou contra a morte e venceu? É um herói. Até que a marvada levou ele, que aqui ninguém fica mermo.

- Venceu porque tinha grana. Lembra da dona Zica, da vendica? Foi de primera, não teve escolha. E a Lindinha, do Tonhão? Ficou mesmo foi na fila de espera. Agora, esses bacana, vão em tudo que é médico do mundo, são mais bem tratado que cavalo de corrida... Acha que eu vou ficá triste? Foi tarde... O que ele fez enquanto tava lá? Reclamou dos juros alto, que interessava pra ele, como gente grande dos panos...

- Fala assim, não... Sofreu tanto...

- E o povão, sofre não? Esse aí se juntou ao barbudo “dos trabalhador” pra usar o poder e ganhar mais. Que nem aquela mulherzinha da fábrica de sabão, como é mesmo? A suplício...

- Suplicí... aquela que mandava os ôtro gozá... Bem relaxada, ela...

- Sim, relaxados são eles todo, e a gente ainda sustenta essa máquina de fazê corrupto.

- Mas ele foi perseguido, como todo mundo que se destaca na vida. Lembra aquela uma que diz que é filha dele?

- ... e que ele foi no programa do gordo pra dizer que era filha da puta? Bem sacana ele... Foi ganhá a simpatia do povo dizendo que ia em putero que nem todo mundo... Todo mundo não, que eu nunca fui dado a essas coisa, ficava mesmo no cinco contra um enquanto não arrumei a Zefa pra trepá... Deus mandou cresce e multiplicá, não ficá indo em putero dá dinheiro pra vagabunda...

- Olha o preconceito, cara, isso dá cadeia. Puta agora é profissão.

- Sim, hoje tudo dá cadeia, menos metê a mão no bolso do cara honesto. Vê o salário mínimo? Eles brigam pra aumentar cinco real mas o deles não tem limite. E ainda ganha até telefone de graça, de graça não, nós paga...

- Quanta revolta, cara, fala assim não. É verdade, mas não precisa falá. Resolve?

- E aí vem a televisão e mostra o povo chorando porque um ricaço morreu. Tu já ouviu falá de uma tal de revolução da francesa? Aquela, quando eles derrubaram um negócio lá na França. Negócio de bartira, pastilha, bastilha, acho que é isso...

- Ouvi não, fugi da escola...

- Eu também fugi, quer dizer, nem fui. Modo de dizê, só... Mas escutei uns velho falando... Passaram o facão em tudo que era ricaço. Não que a gente devesse fazê isso aqui, não, que sou contra violência, mas e a violência que fazem com a gente? Esse negócio de doença, cara...

- É, nisso concordo contigo, continua a lei do “sabe com que tá falano”... do “quem pode mais chora menos”, do “salve-se quem puder”... A lei da selva.

- Tu tá vendo muita novela, cara... Papo estranho, esse teu.

- Novela nada. Eu tenho tempo pra isso? Vez em quando vejo o jornal, ou o futebol na TV do barzinho da esquina, ou em alguma loja no centro. Mas em casa... Quando não está estragada a gurizada só quer saber de ver aqueles programa de perseguir bandido, parece a suáti... Mas a gente sabe que é tudo encenação, teatro, não é assim que diz?

- E enquanto isto o povão otário chora a morte do ricaço. Comeu do bom e do melhor, correu o mundo todo, foi tratado como otoridade na vida e na morte, e eu vou ficá com pena? Quem tem pena é galinha, sô... Do jeito que a coisa tá, só falta agora fazê feriado, ou dia santo, pra homenageá o home...

- Talvez fosse bão, sim... Nós temo o Padim Ciço, mas é só no norte... E essa madre, mas é no sul. Tinha que tê um santo de todos os brasilero, que nem a Cidinha, mas essa é maior...

- Santo brasileiro? Só se for protetor das casa de luz vermelha... O santo das putas. Que nem aquele bandido, também da luz vermelha, quase um herói. Tem até filme. Vítima da sociedade, como eles diz.

- Credo em cruz! Arreda...

Inacio Carreira