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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Eles chegaram! (Sônia Pillon)

O dia mal tinha amanhecido, mas o pequeno vilarejo já estava acordado. Na feira livre, os vendedores já gritavam as pechinchas do dia, desde o peixe fresco até as verduras, legumes e frutas mais viçosas. Donas de casa de lenço na cabeça e sacolas de pano examinavam atentamente a qualidade dos produtos, comentando as ofertas umas com as outras.


De repente, um grupo imenso de pessoas adentra o vilarejo, numa espécie de invasão silenciosa. Homens e mulheres, velhos, jovens e crianças de cabelos negros e lisos e tez amorenada caminhavam de cabeça baixa, andar arrastado, mas contínuo. Eram indígenas, expulsos de suas terras pelos posseiros, mineradores capazes de matar ou morrer por uma pepita de ouro!... O sofrimento está estampado em seus rostos, assim como a desesperança no olhar. Muitos não conseguem segurar as lágrimas...


À medida em que se aproximam, uma onda de medo toma conta da população. Eles estão sujos, com roupas rasgadas, e há muito feridos entre a multidão de retirantes... Muitos os olhavam com repulsa. Ao descerem na cidade, uns poucos separam moedas para alimentar as crianças famintas, mas não há muito que possam comprar, tampouco leite...


Em poucos minutos eles se espalham pelo vilarejo, pela feira, pelos poucos restaurantes e padarias. Muitos sentam nas calçadas e choram copiosamente e falam em uma língua desconhecida, elevando as mãos aos céus, como se não entendessem o porquê de tudo aquilo...


Alguns comerciantes abrem suas portas, mas outros os espantam como cães sarnentos, lançam pragas... As mães imploram por comida para seus filhos, mas a população local como que some por encanto, correndo para suas casas, apavoradas, puxando os filhos pelas mãos... “Eles chegaram! Depressa, fechem as janelas e portas! Bando de vagabundos!”, vocifera uma velha aldeã, insensível à tragédia.


A jovem Maria, que chegou à vila para comprar legumes e chás, sente um aperto no peito ao ver tanto sofrimento. Lágrimas escorrem sem que ela se dê conta. De repente, ela vê um menino de uns cerca de quatro anos no colo de uma mãe aflita e pergunta o que aconteceu. “Mataram o meu homem! Mataram o meu homem! Homem branco acabou com aldeia, queimou tudo, até criança viva! Um horror!!! Não temos mais casa, nem comida, nem nada! O que vai ser da gente?!”, pergunta a índia, num português quase ininteligível.


Maria estendeu as mãos em solidariedade, e os levou para o chalé simples onde morava com os avós. Uma sopa quente, um banho e umas roupas limpas é tudo o que eles precisam agora, pensou. Eles ficaram por lá uns 15 dias, e depois a índia se foi com o filho, com um sorriso de agradecimento. Maria nunca mais os viu... Já se passaram mais de 30 anos, mas a imagem daquele dia terrível nunca mais saiu da sua memória...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Reticências (Adriana Niétzkar)



[caption id="attachment_52" align="aligncenter" width="300" caption="http://www.juniorflor.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Sil%C3%AAncio-nas-palavras.jpg"][/caption]


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-Tu já percebeu como as palavras perdem seus significados? Tava vendo lá o significado da palavra maracutáia; acredita-se - sim porque cada vez se tem menos certeza nessa vida... pelo menos isso – que mara é uma palavra de índio, que significa confusão. Aí, passados os quinhentos anos de desapropriação o sujeito mostra lá a reserva indígena e fala que pro índio é tudo mara. Se bem que nesse caso pode até ter muito significado pro índio, não com o nosso português, nessas gírias ai que faz muito gramático torcer o nariz, mas no significado tupi. Mas a partir daí ninguém mais se entende, porque pra cada um a palavra tem outro sentido. É como os ministérios do George Orwell, o ministério do amor cuidava para que as pessoas não se apaixonassem, o do pensamento que as pessoas não pensassem. Tava tudo mara? Em qual sentido?
Já penso nas conversas sobre o tempo? é uma não conversa de quem não quer dizer nada mas não suporta o constrangimento do silencio, ficar ao lado de alguém sem nada dizer, no entanto se fala e nada diz.
É, to querendo dizer que há muito tempo você nada diz, mas eu também não digo muita coisa, parecemos estar falando sobre o tempo ou coisas que tem outro significado. Não, não quero dizer nada com isso, só estive pensando, que tudo que dizemos são contrários do que fazemos, talvez o que queremos também sejam.
Não pense que quero culpar alguém, a culpa é de nossos medos, de nossas acomodações, da nossa incapacidade de estarmos dispostos a perder tudo, a desmontar tudo para começar tudo de novo. Cada vez se tem menos certeza das coisas e todas essas incertezas tem confundido o sentido das nossas palavras, das suas para mim e também das coisas que digo para você. Não, eu não minto, mas logo que digo, mudo de idéia. E você fica sem saber o que sou., por mais que eu não queira que seja assim... Você também tem mudado depois de dizer? Minhas palavras estão fazendo confusão? Estão sendo mara? Em qual sentido? Como não sabe? Você ta querendo me confundir? É eu sei, a minha cabeça ta uma confusão, talvez seja por falta de pratica.
Tenho pensado pouco, tenho que exercitar o pensamento. Essa confusão sobre o significado das minhas palavras tem me tirado o sono. Eu quero entender o que digo.
Tenho me sentido dentro dos ministérios do Orwell, na realidade criada por ele não tinha outra realidade, será que na nossa tem? Será que podemos voltar a amar e pensar? Temos que tomar cuidado com a policia do pensamento, com os apreciadores de iguarias cerebrais, não esquece do aviso do Raul... Cuba? Não, não quero beber, quero entender as mensagens das musicas, não das que temos ouvido, que são conversas sobre o tempo, mas das músicas que foram pensadas, precisamos procura-las, elas ainda estão por aí...
O que você esta procurando? Psiquiatra?! Ah não! Você não!!! Você tem de desistir do controle, preciso que você desista do controle... da TV?! Também! de achar que controla porque aperta o botão, todos os canais pertencem ao controle. Pare de falar um pouco e me escuta; tudo bem, não precisa pensar agora, achar por hora basta, a gente resolve isso com o tempo. É que é bom pensar na solidão, mas amar...
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