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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Nostalgia parte I (Patrícia Grah)

Mais um verão se aproxima, sempre acompanhado de uma estranha e inexplicável nostalgia que ela sentia. Aquele vento gelado trazia consigo uma mistura de medo com uma “coisa boa”.


Já passaram-se anos e é sempre a mesma coisa, a toda troca de estação ela fica assim, estranha. Quando era solteira, este sentimento se agrupava ao de solidão, agora que tem companhia, ela sempre lembra de agradecer à Deus por ter alguém do lado, não somente na troca de estação, quando surge este estranho sentimento, mas em todos os dias, a questão é que esta nostalgia lhe traz de volta o tenebroso passado, mas ela não consegue entender exatamente o quê.


O que passou,  ela procura não lembrar, não pensar, mas também não esquecer, afinal de contas, foi ele quem à ensinou a ser quem ela é, como ela é, agir como ela age. Talvez no futuro ela mude de ideia, mas por enquanto prefere pensar/agir/ser assim.


Não que sua vida tenha sido sem graça, mas alguns problemas na adolescência refletiram em seu jeito de ser mais tarde, algumas pessoas más apareceram no caminho e lhe deixaram cicatrizes muito profundas, então sempre que alguém remexe em seu passado,Tata procura desconversar, afinal de contas seu passado amargo hoje lhe faz dar mais valor à quem ela tem ao seu lado.


Abre a janela, vem aquele vento frio se misturando ao ar quente. Ela prefere fechá-la e deitar, vai pesquisar em sua mente algo que ela saiba explicar o por quê, afinal tudo aquilo que não se explica é sempre muito estranho...


terça-feira, 29 de março de 2011

Fechando o Verão... (Inacio Carreira)

“Amou daquela vez como se fosse a última”, alerta a música popular. Foi o que ele fez, sempre fazia isto, tanto porque nesta vida não se tem certeza de nada quanto por, sempre, procurar dar o melhor de si. Fazer com que sua companheira quisesse repetir a experiência mais uma vez, e outra, e ainda mais tantas. Muitas. Um sorriso malicioso iluminou seu rosto.


Não fosse essa danada chuva e tudo ficaria melhor. Ainda é março, mas o verão já foi, hoje é outono e o tempo não sabe disso? Ou Tom Jobim é que ignorou, dando-se licença poética para escrever a letra? “Águas de março fechando o verão...” que nada. Parece que estão, sim, essas águas, abrindo a temporada de resfriados, pneumonias, maruins, dengue... e da venda dos baratos e efêmeros guarda-chuvas de 4,99 real.


Sim, sim, a terra precisa ser molhada, o historiador grego Heródoto dizia que o Egito - um longo e estreito oásis - é (era) uma dádiva do Nilo. Agora viajei longe... Egito... As coisas para eles não estão bem, também. Nem no Japão. Nem... porra, o mundo todo está uma merda... Com tendências a piorar. Será que foi mesmo a última vez que fiz amor? Tem séria possibilidade de ser, sim... Afinal, saio para a rua e tenho que enfrentar enchentes, trânsito parado, assaltos, enxurradas, barreiras... Não só o homem está em guerra, a natureza também está em guerra contra o homem.


Desvia daqui, pula ali, escorrega, levanta... Parece que estava sendo filmado numa dessas abomináveis pegadinhas que infestam tudo, da televisão à internet. Pegadinhas... Ele gosta de pegadinhas, sim, mas de outro tipo. Novamente a lembrança da mulher, que tem a felicidade de poder ficar um pouco mais na cama, ninho que ainda deve conservar o calor que irradiaram: trabalha somente à tarde, se voltar cedo passa pelo serviço dela. Passa? Já não sabe mais.


Das ruas sobe um cheiro nauseante, misto de cemitério e latrina, água parada e esgoto, lixão e beira de linha de trem. De que adiantou tomar banho? Essas partículas vão grudar em sua roupa, seu cabelo, entrar em seus pulmões mais do que as partículas subatômicas que os técnicos insistem não apresentarem perigo à vida.


Viajou novamente. Mais longe, ainda. Que bom seria “erguer no patamar quatro paredes sólidas”, com o perdão de Chico Buarque, isolar-se do mundo e esperar a poeira baixar. Mas não dá. A vida é pra ser vivida, será que alguém disse isto? Se não disse, ele inaugura a frase. Parece boa. Divagar, divagar... Ter que andar rápido e, ainda assim, divagar. Para não pirar. Não marear. Não chorar. Não voltar correndo e se enfiar embaixo da cama, talvez o único lugar na casa, se não cair muita coisa em cima.


Porque foi pensar isso agora? Não consegue prosseguir, volta correndo para verificar. Lembrou que perto, bem perto, viu viaturas da Defesa Civil. Bombeiros. Mutirões. Os versos do “amou daquela vez como se fosse a última” não saíam de sua cabeça. Premonição. Pesadelo. Peste de coisa ruim que é pensar, pensar, pensar...


Ao chegar ao que fora sua casa, entra nos escombros em busca da companheira, é difícil se orientar, tudo fora do lugar, lugar fora do lugar, lutar contra o quê? Buscava, demente, a lógica dos desenhos dos tijolos, dos blocos, dos azulejos... No que fora o quarto do casal, um ruído seco desvia. Busca-se no avesso do espelho e não se vê.

sexta-feira, 4 de março de 2011

NOITE (ou AO VIVO DE UM QUARTO QUENTE E ABAFADO) (Fred Paiva)

enfim
nem tomei banho ainda
só de manhã
e to de sapato desde de manhã
comecei a assistir cinema, aspirinas e urubus
mas não gostei, lento
mas vou terminar de assisti-lo
depois
na real queria tomar uma cerveja
e dançar um pouco
e ver gente
e sentir a brisa fresca do ar condicionado nas costas
me resfriando
as narinas, claro
---
pulei
pronto
e caí de cabeça
num cocozão de cachorro, fumegante
um cocozão de cachorro quente
aqui tá quente e tá foda
vou abrir a janela
e derrubar água na goela
você me mata e uma súbita inspiração bateu na porta
era o amigo chato
do namorado
do vizinho
do andar de cima
numa hora dessas?
isso me mata
me rala a paciência e mói os miolos
no sábado à noite sem nada
sem nata sem pão

- Não, não tenho açúcar!
nem sal
nem saco de aguentar mais uma madrugada no msn
com a cam desligada
ponto final