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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Castelo de areia (Sônia Pillon)

É inverno.
Chove e faz frio.
Tempestade.
Raios.
Trovão.
Dia que se faz noite.
Vento forte que sacode a aldeia.
Choro.
Castelo de areia desaba no chão.

domingo, 4 de setembro de 2011

Necessário (Tiago Nascimento)

Eu só preciso de um instante
tenho tanto pra falar
nada de importante.
Eu só preciso de um romance
que embeveça o olhar
de todos os passantes.

Triste vida burocrática;
muito a se dizer
poucas as palavras.
Doce agonia monossilábica;
saudades de ser
infante, adolescente ou nada!

Eu só preciso de uma chance!
Quero respirar e ter
prazer de novo.
Eu até aceito um novo romance
ou ao menos ver você
de volta ao jogo...

Tiago Carpes do Nascimento; jesuscristohumano@gmail.com

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O dragão de cera (Sônia Pillon)

Mar revolto. Barcos multicoloridos que balançam com as ondas. 



Dragão de cera na areia mágica dos ancentrais. O frio e a chuva não atingem a quentura do meu coração.

Mar que traz, mar que leva... Mar que enleva...

Sopro de saudade carregado pelo vento. Pisadas na areia que a onda dilui. Momento mágico gravado na memória que transcende o tempo e o espaço. Agradecimento profundo da alma.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sou como a chuva que vem (Marcio Erino Ochner)

O vento sopra em direção

Ao intenso céu azul... escuro...

Distingue o verde das folhas balançantes,

Telhados sujos pelo barro leve,

Sobe num formato de cone,

Que segue notando outras folhas secas caídas ao chão,

Num giro... levanta voos extraordinários,

correm sem direção, lambendo o chão como vassoura...

limpa a sujeira do tempo,

pega carona num voo sem volta, e se vão...

Sabe-se lá pra onde, somente passam...

Seguem.

E o que resta, é sombra de um reflexo tardio,

De um sol que se foi...

embora outras vezes também...

Esconde-se ao longe da montanha minúscula.

Nuvens negras baixam com cara de trovão

Que brilham em gotas de água que cai, arrastando-se nas corredeiras,

Purificando a vida fétida.

De cursos passados, deixadas às moscas.

Chuva esta, que rasga o chão em sinuosas linhas, salpicam folhas,

Arrancam impurezas e levam ao respirar da natureza.

Como um sopro, mudam o ar rarefeito por um frio agitado,

De olhar aguçado, de alma perdida no gotejar chiante...

Chuva, que reviva cores, que lava pensamentos...

Mas que logo passa...

Nesta vida de terra idosa que, ainda suporta fenômenos,

de ordem determinada, mesmices...

Mudanças que aliviam, que revivem...

Afogando a poeira quente...

Refrescando ânimo, repetindo memórias...

de cheiro agradável.

Autor: Marcio Erino Ochner

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sobrevivente (Inacio Carreira)

Lembrava de nada. Um vazio na cabeça, parecendo desmiolado, mas era falta de memória mesmo. Mau contato nas sinapses. Zinabrou, diriam os antigos. Curto circuito. O clarão... O clarão! O clarão e um estrondo ensurdecedor toldaram-lhe os sentidos. Deve ter sido isto, então. Um lampejo de consciência, tirada não sabe de onde, fez com que refletisse. Onde estão todos? Onde estava com todos? Quem seriam esses todos?


A luz é difusa, confusa... Muitas sombras formam grandes áreas que não consegue vislumbrar. Não distingue quase nada. Nada, nada, nada... Como repete esta palavra. Como definir o nada, descrever o nada, pensar o tudo em presença do nada? Longe ou perto? Raso ou fundo? Suave ou agudo? Reto ou redondo? Firme ou movediço? Só dúvidas, dúvidas...


Louco não está ou, seguindo vaga e remotíssima lembrança, acharia tudo 10. Vinte. Mil.


Parece postado contra um encosto de pedras áspero, frio. Dor nas costas, as pernas teimam em não obedecer. Nem os braços. Sente-se uma coisa grudada à pedra. Mas não. Não? E se fosse? Que coisa seria? Uma lesma, perereca, indivíduo em uma colônia de fungos, uma ameba? Viagem, viagens... Pareceria com o ser que Kafka, em A Metamorfose, deixa que percebamos como uma barata? Bem, ele não deixa nada, a maior parte das pessoas é que veem o ser como uma barata. Que pode ser real ou metafórica, dependendo do entendimento de cada um. Ao menos estaria “barateando” por aí, andando, meio que rastejando, sentindo o ambiente com as longas antenas. Menos, menos...


Não se sentia metamorfoseado, apenas dormente. Uma dormência gostosa, como ao acordar de um sono reparador e o sangue, seguindo os impulsos vegetativos, começasse a ser bombeado com mais pressão para o organismo, oxigenando o cérebro e todo o sistema. Vivificando.


Era bonito o mundo apesar da poluição que às vezes o escondia:


Tinha sol, e crianças sorrindo para ele, e mulheres com tangas escondendo quase nada,


E barcos que se faziam ao mar: faziam até músicas, compunham-se poemas,


Falava-se de amor que, embora às vezes pago, era bom...


 Era bonito o mundo: as gentes se encontravam pela rua, ao que, às vezes,


Davam o nome de “trombada” (seriam eles como elefantes?);


E se fazia comercial até para vender o óbvio.


 Era bonito o mundo e hoje, tantos sóis quase nada iluminando a Terra.


Era bonito o mundo, antes do fim...


Como um bebê principiando o explorar do ambiente, tentou mexer os dedos. Conseguiu! Quase festa, não fosse a dor. Lancinante. Lacerante. Cortante. Num esforço sobre-humano, elevou a mão esquerda para perto dos olhos, enquanto buscava aproximar o conjunto da luz. Estava no lugar. Ou melhor, o que sobrara dela estava no lugar, na ponta do braço, com as enervações ligando seus trocentos ossos (exagero, na verdade são 17, lembrou). A pele... Ai, a pele... Meu reino por um antisséptico e bandagens, ousou pensar, mesmo sabendo do surreal da situação. Com o outro braço e respectiva mão o trabalho foi o mesmo, a dor foi a mesma, a expectativa foi menor. Sabendo das condições, embora precárias, de seus membros superiores, pensou em levantar-se. Não sem antes testar a movimentação das pernas. Somente testar, porque não conseguia vislumbrar nem silhueta das mesmas... Aparentemente estão em ordem. Agora sim. Como a alavanca de Arquimedes (eita, desde sempre acontece empulhação: Arquimedes não inventou a alavanca, mas explicou o princípio envolvido no processo de alavancagem), usa a perfeita combinação de ossos, músculos e nervos para tentar levantar. Não é fácil. São ativados os músculos tibial anterior, sóleo, gastrocnêmio, quadríceps, isquiotibiais, glúteo máximo, abdominais, paravertebral lombar, trapézio e esternocleidomastóideo... Ué, de onde apareceu tanta informação? Nunca foi atento nas aulas de Ciências, Biologia e congêneres. Inconsciente coletivo, diria Jung. Inconsciente talvez, ele estava morre-não morre, a vontade de continuar deitado entorpecia os membros, embora deles precisasse para voltar à condição de primata. Como estava, grudado à pedra, faria parte dos répteis? Dos batráquios? Das assombrações?


Era bonito o mundo antes do fim. Aparecem no fundo de sua memória, borradas, enevoadas, as visões do terremoto / tsunami / vazamento nuclear que prenunciou o final dos tempos. Final dos tempos ou início de uma nova era? Pois, não fosse assim, ele não estaria agora ruminando sua desdita e ouvindo, ao longe, sons de civilização, o famoso ruído branco que deu nome ao livro de Don Delillo. Ruído branco. “Som sempre presente do tráfego da autoestrada” ou “almas ... balbuciando nas margens de um sonho”?

sábado, 23 de julho de 2011

“Ô Trem que nunca para” (Marcio Ochner)

Pensamento que não me deixa,
Lembrança que provoca insanidade,
Apontamento de frações indivisíveis,
intelecto desordenado,
Anda igualmente a um trem,
Que nunca para,
Nem por razão alguma...
Atropela e mata,
Maldito órgão de transporte carregado.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Acróstico Paterno (Tiago Nascimento)



meus pensamentos buscam
a minha mente imagina: você
rabisco esses miniversos e escuto
imperceptíveis sons prenunciam-te
ao acordar não podia imaginar ser hoje
cataclismaticamente nesse peculiar momento
longe de condições favoráveis (cadê o aumento?)
a chegada tua nesse ruidoso silêncio que ora ouves
recolho-me a essa instintiva condição existencial rara
amanhã; no mais tardar, serei seu pai minha Maria Clara...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Carta de divórcio (Tiago Nascimento)

Depois de deduzidos os impostos;
pagas as duas prestações;
feitas as compras do mês;
pago o aluguel do mês passado,
quem sabe ainda falte dinheiro
para encerrar a luz, a água
e o telefone.
É. Ser classe média é uma dureza...

Depois de enjoar da minha cara,
talvez. você vai embora sem que
eu possa ao menos entender
o tipo de mulher episódica que era você.
Quem sabe eu ainda consiga
juntar os cacos e recomeçar.
É. Ser abandonado é uma tristeza...

Sei lá, a gente não pensou bem,
só acho que se eu soubesse que ia ser assim
eu teria pedido o divórcio muito
antes de ontem a tarde.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Solidão (Marcio E. Ochner)

Cansada da espera
Juntava-se ao álcool do copo sobre a mesa,
Acreditava que a libertava de algo.

Desmemórias existiam naquele instante...

A única coisa que restava dar cabo, era a sua própria vida,
Na falta de um amor,
Da vida sem amigos,
Desejava insistentemente,
Dar cabo naquele instante...
Afogava-se no álcool do copo sobre a mesa.

Largava seus pensamentos na esperança de um vestígio vital,
Devaneios empoeirados,
Variava entre idéias do copo sobre a mesa...
Mais seu único e inseparável companheiro, era a solidão.

Corria em seus pensamentos...
Desnuda de insanidade...
Numa rua obscura de densidade rasteira,
Seu coração encontrava-se cansado...
De amor que nada obteve...
Morreria sem a palavra correta para descrevê-la.

Desenhava seu sentimento de alusões sobre a mesa.

Corria entre os dedos...
De olhos apurados,
Deparava-se com as mãos ao joelho,
Chuva...
Escorria-lhe as lágrimas ante seu olhar pintado,
Aguardava,
Seu amor que já partiu,
Novamente a solidão,
Num copo,
Que quebra,
morre.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Confusão (Tiago Nascimento)

Eu confundi Tom Cruise e cruz-credo
Eu confundi Jesus com Genésio
Eu confundi tudo,
xadrez com ludo
confundi, fiquei confuso.

Eu confundi butterfly com Buddy Gay
Confundi Confúcio e Cesar Augusto
Eu confundi nada,
sopa com salada
Me confundi e fiquei na sala.

Eu confundi princesa e tristeza
Confundi o que houve com love
Eu confundi ao quadrado,
Medina com Medrado
Me confundi e fiquei parado...

sábado, 4 de junho de 2011

Gatossapato (Fred Paiva)

fiz do meu gato rajado

um sapato sem brilho

fosco batido

um nó no cadarço

prum lado pro outro

rosnando largado

com fome de terra

ração de sapato

calçado calçada

e ele descalço

pisando a poeira

arisco correndo

ralo sem som

tocaia bem feita

e calo + calo

me calo de arrasto

com dor na canela

apunhala o piso

furando lajota

rola na areia

desce que sobe

equilibra a carcaça

do alto um salto

e pousa de pé

pra mãe não morrer

de barriga no chão

no meio do quarto

jogada com os outros

preguiça vírgula

friagem no pé

- Vai botar um chinelo, menino!

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Fred Paiva

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Acessão (Marcio Ochner)

Muita água corre,
logo ali, abaixo da ponte.
Rio que sorri em suas curvas,
a cessação da vida...
de Ph vazio e sujo...
Escória mortal...
Sedento por morte...
Então, cospe a penas secas...
Não, não da para obtê-la,
Há moléculas mortais,
Borra sorvida em água...
Sedenta por filtro humano,
Molecular sustento excremental,
Que desliza, move-se sobre a água...
Onde a visão novamente alcança...
um pouco mais de coisa mal feita,
correspondência navegante...
Que alivia somente o que o vento transporta,
Alimentando voantes ovíparas pretas,
de carniceiros bicos e fome mortal...
Da morte natural que flutua ao abrigo dela.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Greve

Responsabilidade.
São goteiras que pingam em livros que nenhuma criança tem vontade de ler.


Culpabilidade.
É uma menina que sonhava ensinar mas crescendo já não sabe mais o que ser.


Inteligência.
Negligência.
Gengivas tostadas ao sol.

domingo, 15 de maio de 2011

Seus Olhos (Vilson Rafael Riegel)

Chuva na janela.
Vidro vira vitral.
Seus olhos no lampejo
do raio
na janela.


Seus olhos
no espelho
vidrados
nos olhos meus
fitam também a chuva
no fundo,
no reflexo ,
no vitral.


No lampejo,
refletido
nos olhos seus.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Caminhar II (Tiago Nascimento)



Caminhar.
Nada mais faz o homem do que isso.
O que acontece entre um passo e outro são detalhes, não importam.
Viver é caminhar.
Viver é se mover.

Por vezes lento por vezes lépido.
Às vezes com medo em outras vezes intrépido.
Por vezes em silêncio, em outras com estrépito.

Caminhar. Caminhar.
Se movimentar de lá pra cá, de cá a acolá.
Andar. Andar. Andar.
Viver é nunca parar.
Morrer é nunca mais andar.

Por isso levante-se, vá!
Caminhe.
"Caminhando o caminho se faz"...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Inversamente proporcional (Fred Paiva)

Andava por aí,
meio mulher, meio retângulo,
despreocupada,
parassimpática...
lambendo seu sorvete espiral,
enrijecendo meio mundo
sem nem perceber
um tico da intenção
pingada do todo
antônimo a si,
assintótica aos picos...

(Fred Paiva)

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Dicionário (Marcio Ochner)

Polarização invertebrada,
ponto nuclear,
expansão gráfica,
elementos ultravocabulares.

embrulho sintático,
de função demolitiva.

decapitação maciça,
peça de pressão erudita,
mecanismo expansivo...
Aliteração.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Caminhar I (Tiago Nascimento)

O homem caminha.
Não tem certeza de onde vai, nem de onde veio, nem mesmo de porque caminha.
Apenas caminha.
Um pé, depois o outro, mais uma vez o um, outra vez o outro.
Andar.
Existe sentido na vida? Ele não sabe, nem se preocupa. Só caminha.
Da casa para o trabalho, do trabalho para o barzinho, do barzinho pra outro lugar, de outro lugar a outro e assim todos os dias, todas as semanas, os meses, os anos, os séculos. Até milênios talvez…
O homem caminha desde que seu mais antigo ancestral desceu das árvores.
Aos domingos pra igreja, as terças pra feira, aos sábados pra casa da sogra, nas férias pra praia, nas quartas pro estádio, e uma vez ou outra ao médico.
E no fim, na última caminhada, caminha-se deitado. Acompanhado. Outros homens ao seu lado. Caixão de mogno encerado. São sete palmos descampados. Et omnis motus finem

caminhar

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Por que está tão triste? Vilson Rafael Riegel

...mas agora já está tarde

- lamenta um sonho desperto -

Cometemos o mesmo pecado

recebemos a mesma punição

auto-destruindo

incompletando

um abraço sem abraço

Descalço em um campo minado

canto desafinado,

lamento,

desabafo...

Mergulhado em um raso lago

tarde, muito tarde

retine o alarme falso.

 

Autor: Vilson Rafael Riegel

 

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Ser e o Viver (Tiago Nascimento)

Viver é isso

Partir e chegar

Encontrar e deixar

Sentir saudade, fome, medo e frio

 

Viver é pensar

Desenhar um futuro

Planejar

Construir castelos na areia do mar

 

Viver é preciso

Sentir pena também

E amar, e sorrir, e ficar

Ser o que faz alguém sonhar

Ser o que faz alguém deixar de chorar

Ser.