segunda-feira, 1 de julho de 2013
Labirinto do Tempo (Robert Brotzke)
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Um choque de realidade (Patrícia Grah)
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Realizando Sonhos (Elianete Vieira)
Muitos diziam que não chegaríamos ao ano 2000, que não viveríamos para ver a passagem do século porque o mundo acabaria justamente na virada de 1999 para 2000. Mas nós chegamos sim, vivenciamos este raro momento com muita festa e muitos fogos de artifícios.
Em um momento em que a era digital já invadia as nossas vidas, seja através da novela, gravada e transmitida de forma digital, seja pelas fotografias tiradas em câmeras digitais e impressas em papel por opção, seja pelos exames que antes eram chapas escuras com imagens mais claras e hoje são fotos impressas em papel ou até mesmo gravadas em DVD, se torna complicado para algumas pessoas que de repente se vem excluídas de um mundo que até então não lhe fazia falta, mas que filhos, sobrinhos e netos vêm agora lhes cobrando pelo aprendizado. Mas chegou o ano 2000 e logo em seguida como um passe de mágica chegou o ano 2001 quando de fato entramos no século XXI.
Quando eu era criança e as pessoas com mais de 50 anos já eram vistas como velhos, vi meu pai e tios se aposentarem aos 50 anos, eu pensava em 2001 como algo tão longínquo e não me imagina que ainda estaria viva para ver tudo o que ocorreria num momento tão grandioso.
Quando chegou, eu trabalhava como suporte à operação em uma companhia de telefonia celular, e o medo girava em torno dos vírus que poderiam ser ativados nesta virada de ano e ainda no que poderia ocorrer quanto aos programas de computador que até então consideravam ano com apenas duas casas: 95, 96, 97, 99... 00
Eis que por meses a fio, programadores do mundo inteiro viraram noites e noites para alterar o código de cada programa para considerar o ano como variável de quatro casas: 1995, 1996, 1997, 1998, 1999 e finalmente 2000.
Trabalhamos super atentos para garantir que nada falharia e que as centrais continuariam comutando as chamadas de boas festas e feliz ano novo que seus assinantes certamente fariam, pois tradicionalmente é a noite do ano quando mais realizamos ligações telefônicas, não é mesmo?
Bem, o ano 2000 começou e passou voando, vieram 2001, 2002 e eis que chegamos a 2010. Ano que ao menos para mim posso afirmar que foi o ano de mudanças diversas. Uma delas estava na resolução de Ano Novo: escrever um livro!
Mas sobre o que escrever? Um livro de ficção ou técnico? Criar cenários, personagens, tramas, escrevendo uma estória? Escrever sobre meus conhecimentos e vivências compartilhando com os futuros leitores? Por onde começar? Qual deveria a primeira linha a se escrever? Eram muitas as idéias e me sentia perdida em meio às indecisões, indefinições e ao mesmo tempo à ânsia de começar.
Em meio aos e-mails não autorizados que recebo diariamente veio uma dica: um workshop que me orientaria em como escrever um livro. Enviei o e-mail, marquei minha presença e fiz. Foi um sábado mágico em meio a uma turma heterogênea de conhecimentos, vivências, praticas e objetivos, ouvimos alguém que passou pelo mesmo momento e pelas mesmas dúvidas. Ele nos contou seus medos, preocupações, dúvidas e suas pesquisas. Fizemos exercícios práticos e ali, naquele momento, tive a certeza de que eu conseguiria sim escrever meu primeiro livro!
Mas as semanas se passaram e não vinha a inspiração criativa e a dúvida ainda persistia: sobre qual tema escrever? Até que o desejado e inesperado aconteceu. Dirigindo para casa pensei numa introdução. Cheguei em minha casa e escrevi: Introdução. A partir daí fluiu um texto sobre um tema por mim bastante conhecido pois faz parte da minha vida estudantil e profissional.
Foram duas páginas rapidamente redigidas. Enviei para minha sobrinha que perguntou: “quem escreveu?” E eu respondi orgulhosa: “fui eu!”
Como sou uma pessoa técnica iniciei o projeto pela formatação: escolhi o formato da página, tipo de letra e tamanho, texto para capa, agradecimentos e dedicatória. No dia seguinte parti para o conteúdo e ao completar 20 paginas, enviei para minha irmã e uma amiga lerem para sentir a reação delas. Percebi então que as havia surpreendido!
Neste ponto, as idéias já fluíam rápidas, os dedos ficaram nervosos para digitar mais e mais... e o livro crescia!
Que bom! Fui votar e voltei correndo para casa, queria escrever mais, já eram 94 páginas! Conforme escrevia, voltava, revisava, inseria imagens.
Até que me dei por satisfeita. Acabei o meu primeiro livro. 128 páginas, 116 imagens! Escolhi a editora, aguardei ansiosamente pela diagramação, capa, registro, até que num belo dia recebi em casa uma caixa com os 100 exemplares encomendados.
Meu Deus! Um sonho descongelado, materializado, quentinho saindo do forno!
Uma realidade palpável!
Hoje, um ano após o início do livro, estou aqui lhe contando como é possível superarmos adversidades, persistirmos em nossos planos, realizá-los e depois compartilhá-los como ensinamento e experiência para outra pessoa que ainda virá e passará por todos esses passos, como a água do rio que passa e gira a roda d água da vida.
Nunca é tarde para aprendermos algo novo!
Nunca é tarde para recomeçarmos!
Nunca é tarde para realizarmos nossos sonhos!
Elianete Vieira
Esta crônica foi escrita em final de 2011 e publicada no Volume II da Antologia Nossa História, Nossos Autores, lançada durante a 22ª Bienal Internacional do Livro de 2012 em São Paulo pelo Grupo Editorial Scortecci.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Cansaço (Fred Paiva)
"Estou cansado", repetia diversas vezes ao dia, indiscriminado, descompassável, entrelinhas 1,5. Nem sei se realmente estava cansado ou se estava acostumado a dizer que estava ou se estava acostumado a se sentir assim, cansado. Ou a vida lhe cansava mesmo, pode ser. Tantas responsabilidades. Todos os compromissos marcados. Outlook, celular, agenda. Tudo. Queria um tempo disso tudo. Precisava dar um tempo disso tudo. Manter-se só, ermitão. Uns dias, que fosse. Agorafóbico em si. Pisar a terra descalça, tomando a brisa fresca, pouco úmida da manhã. Ver o tempo-espaço passar-ruindo. Sem devidas providências. Em off. O2. CO2. O2. CO2. Até cansar-se disso também. Esgotar.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Tempo (Marcio E. Ochner)
Nas horas que cabiam, observava as paredes perdidas ao movimento do tempo, desconcretavam-se virando areia...
Das folhas verdejantes que se abriam ali em caminhos fissurosos, desconstruíam o homem, sem ele mesmo notar.
Cada tijolo vibrava ao novo dia, perdendo sua cor majestosa, pela imponência solar.
Cada vivente que passava ali, nem o viam-no passar...
Pois o tempo estava ocupado, trabalhando na massa nuclear.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Instantâneos (Marcelo Lamas)
Dentro do envelope havia um bilhete dobrado ao meio, que eu só vi depois de ler a carta. Ali naquele bilhete ela já informava o resultado da consulta, pois antes de colocar a carta nos Correios, ela foi ao médico e, em tempo, despachou o diagnóstico pela caixa coletora amarela, que ficava junto a um orelhão:
“Marcelo fui ao médico.
Graças a Deus não vou precisar operar o olho.
Só enxergar é que não vou mais.
Fiquei feliz, pois do outro olho eu ainda enxergo muito bem.
Beijo desta que muito te estima.
Doralice Lamas”
Agora, neste século XXI, mais precisamente na semana passada, uma amiga recebeu um convite de um pretendente para ir a uma festa. Como toda mulher, ela resolveu contar para uma outra, por e-mail:
“Oi Lu,
Vou sair com o Pedro amanhã.
Vamos lá naquela festa.
Eu odeio aquele lugar, mas fazer o que né?
Ele me convidou...vou lá fazer uma social com ele.
Pior, acho que ele só me convidou porque na quinta-feira a entrada é de graça kkkk
Bjus.”
Na hora de enviar o e-mail a guria enganou-se e mandou para o Pedro.
Ela ficou desesperada, tentou cancelar várias vezes, mas não conseguiu.
Educado, o rapaz respondeu sugerindo outro lugar.
O mundo está mais instantâneo do que antes.
M
Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
O menino que queria mudar o mundo (Tiago Nascimento)
um menino pequeno de sorriso "facinho"
tinha um sonho, um belo sonho esse menino.
Queria mudar a ordem estabelecida,
mexer com o status quo da vida.
Era um sonho e tanto, imagina...
Mas o tempo passou, como sempre
e o menino mudou, ficou doente
adoeceu da doença maturidade
formou família, entrou pra faculdade.
E o sonho foi perdendo em detalhes,
foi sobrando nas listas de prioridades
e de tão ínfimo, o menino o perdeu.
A vida tal como é, outra vez a um rebelde venceu...
domingo, 27 de março de 2011
A árvore centenária (Sônia Pillon)
Quando chovia, as folhas verdes ganhavam uma aparência envernizada, de tão brilhantes, e as gotas de água mais pareciam pedras preciosas. A cada outono, o número de folhas amarelecidas se misturava com as verdes. E quando a enxurrada inundava a rua e arrastava tudo o que via pela frente, algumas folhas caíam como cascata e cobriam o chão. Mais parecia um tapete bicolor a contornar o grande tronco.
Eram nesses momentos que Sofia ficava acompanhando a ação da chuva e do vento, que sacudia os galhos para lá e para cá. Os galhos sempre conseguiam segurar a maior parte das folhas.
O ruído lembrava o farfalhar de um vestido de seda, “daqueles que as mulheres usam em eventos de gala”, imaginava a menina.
O que mais a impressionava era a energia que a árvore transmitia para ela, com suas fortes raízes fincadas no chão e seu tronco largo e maciço. Se sentia tão frágil, em comparação com a grande árvore! Magra, tímida e introvertida, a adolescente sempre se sentia intimidada ao avistar a grande árvore, ao longe...
Não era do tipo que passava as tardes no shopping com as amigas, muito menos nas baladas. Vivia para os estudos, e seu isolamento, muitas vezes interpretado como arrogância e altivez, nada mais era do que fruto de sua própria insegurança.
Ela já tinha lido em algum lugar que para recobrar as energias, bom mesmo era abraçar uma árvore e absorver um pouco da força emanada do tronco, mas nunca teve coragem de atravessar a rua para conferir isso.
Aquela árvore, que sempre atraía lindos pássaros em sua copa, era abrigo do sol e da lua, e também de casais que buscavam privacidade. “Ah, se essa árvore falasse!”, pensou, em voz alta. Até em dia de trovoada, mesmo com os raios, havia os que preferiam se arriscar e ficar embaixo de seu tronco. A centenária sempre transmitia segurança a quem passava.
Em vários momentos, Sofia lembrava da ótica espiritualista, da “árvore da vida”, associando sua estrutura ao corpo humano. E que na Índia, as árvores bodhi são chamadas de “árvores da felicidade”...
Hoje, a maior parte do dia foi quente, e o sol cobriu a árvore com seus raios. O poente se foi há poucos minutos. Ainda há luz do dia.
Como que impulsionada por uma força invisível, Sofia se encheu de coragem, levantou, caminhou até o portão, atravessou a rua e foi de encontro à grande árvore. Ela colocou as mãos no tronco rugoso, sentindo a textura, fechou os olhos e o abraçou, com toda a força. Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto, mas dessa vez não eram de tristeza Queria receber toda a energia possível, para se sentir tão forte quanto a grande árvore centenária...
Enquanto abraçava o largo tronco, uma força indescritível tomou conta de todo o seu corpo, e um sorriso finalmente começou a surgir em seus lábios. Sofia ficou por longos minutos ali, agarrada à grande árvore, até que decidiu voltar para casa e tirar a cadeira da varanda, para espanto dos vizinhos. Estava decidida a não ser mais uma mera espectadora na vida!
Lembrou que suas colegas de escola iam assistir uma comédia no cinema, e decidiu confirmar que iria, para surpresa geral. Se sentia forte e pronta para enfrentar a vida, enfim...
Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre e há mais de 14 anos radicada em Jaraguá do Sul.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Ela vai viajar... (Inacio Carreira)
Para Lily Farias
Acordou com um pressentimento estranho... E se não desse certo? Vái-te, coisa ruim, afasta esse pensamento medonho... Afinal, que mal tem sair um pouco de casa? Ver o mundo? Ela, apesar dos 45 anos bem vividos (dentro de suas perspectivas de mundo), nunca saíra de sua cidade natal. Seu torrão querido e mais todos os lugares comuns com que normalmente designamos o “marco geodésico” onde fomos colocados no mundo, dados à luz, o que também são lugares comuns.
Quarenta e cinco anos... 45 anos... Os dez primeiros foram ocupados em aprender a colocar o corpo em equilíbrio, movimentá-lo, fazer dos tartamudeios um discurso inteligível, no mínimo para as gentes que com ela conviviam, que as demais não contavam; cheirar, provar, ingerir o maior número possível de coisas ao alcance das mãos, aprovando e reprovando as texturas e sabores, conforme o acúmulo de suas experiências sensoriais. Conseguiu. Com muito custo. Depois, dos 11 aos 20, mais ou menos, aprendeu a desenhar o nome, ler de “carreirinha” e fugir dos meninos e “dessa gurizada fidamãe” que queriam, a toda força, torná-la mulher. Muitos conseguiram, por vezes ela se deixava pegar, fazendo parte do jogo e tirando, sim, embora negasse ao padre, algum prazer do resultado. Graçasadeus nunca ficou prenhe, isto ninguém podia lhe jogar na cara. Não era como umas e outras que, a partir dos 12, 13 anos, colecionavam filhos, um de cada cor, conforme o grupo de turistas ou caminhoneiros que passavam pela sua pequena Miraflor. Elas, as moças miraflorenhas (somente depois dos 40 soube que as chamavam assim) eram bonitas, fruto da miscigenação (até hoje ela não sabe o significado desta palavra) entre noruegueses, chineses e mamelucos. Não, não vou explicar como se juntaram gentes tão diferentes nesse pedaço de mundo, daria um livro desse tamanho, nem te conto... Essa beleza exótica, que misturava pele alva, cabelos lisos e olhos claros, na maioria das vezes, era estonteante. Quantas promessas, a quanta proposta ela fez ouvidos moucos, pensando no seu “pedacinho de chão”, como dizia, fazendo graça e deixando os convidadeiros com mais vontade de fazer propostas, de levar “recuerdos de Miraflor”. Mas ela não! Tanto que, quase aos 21, juntou pertences, esperanças e “uns arrepios que começavam no alto da espinha e iam até onde nem te conto” com um tal Jão, que veio de algum lugar, filho de quem com ninguém sabe. Apesar das credenciais pouco atrativas, Jão era diferente. Viera de outros lugares, andara por outros mundos, tinha um quê de sedutor que fazia com que ela se esquecesse de tudo, até que havia coisas a serem descobertas, coisas a serem nominadas, saberes a serem sabidos. Ela ficou sendo, a partir de então e durante 25 anos seguintes, a mulher do Jão. E seus dias resumiam-se a arranhar a terra para depositar sementes, arranhar a terra para expulsar ervas daninhas, arranhar a terra para buscar, das entranhas, as raízes que alimentavam a ela e aos seus. Mas, em primeiro lugar, ao Jão. Até que ele (com quem também não procriou, talvez culpa dela, talvez dele, que nunca se soube tivesse deixado mulher cheia) um dia não voltou. Veio o feitor dizer de sua queda, de sua desdita, de seu sumiço na terra que ela tanto arranhava, e que feriria tanto na busca de seu Jão até que o sangue regasse as raízes, suas unhas transformadas em goivas, seus olhos transmudados em cascatas, seu pensamento somente lá. Na terra de Jão. Sacudiu a cabeça, mandando os pensamentos para outro canto, e fez-se bonita, tanto quanto podia, tanto quanto ele a elogiava. Meias ¾, rasteirinha (pode ser longe, fica cansativo ir de saltinho), a saia de pregas que a vizinha, quando engordou, doou para ela, a camiseta do time do coração de Jão e o boné da empresa. Sim, o boné da empresa é que a identificaria no ponto de ônibus, onde depois de uma viagem de mais de 30 minutos, quando descesse, um ex-colega de seu defunto preferido a esperaria, para levar ao campo santo. A terra do Jão. Para onde ela ia agora, visitar o lugar onde depositaram os despojos, chorar sua saudade, levar – talvez – uma de suas raízes para plantar bem onde ele estava, e que as raízes encontrassem seu homem e dele se nutrissem. Ela voltaria no próximo ano, e no outro, e até quando tivesse vida, para nutrir-se indiretamente da seiva daquele que a fizera tão feliz.
Quarenta e cinco anos sem sair do lugar onde nascera. Esperava retornar breve, o mais breve possível, talvez naquela mesma noite, que ficar no mundo tanto tempo não é fácil, não.
Inacio Carreira
associação beneficente novo amanhã / comunidade terapêutica
www.novoamanha.org.br
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Mielinização (Tiago Nascimento)
Os processos de mielinização estão quase se encerrando.
Meus anos passam lentamente, mas parece que fazem várias eras que não vejo o meu amor.
Preciso do seu carinho, do seu beijo, do seu leite.
Vem.
Preciso aprender a te reconhecer nos rostos diferentes que pouco a pouco vem me visitar.
Não precisa ter 50 anos pra começar a esquecer.
As brigas melhores que participei, eu perdi...
E dizem: Necessário se faz
saber ser o que você é.
Mas quem sou eu?
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Cheiro de infância (Inacio Carreira)
Não sei se naquela época já conhecia as histórias do descobrimento e das caravelas que vieram de Portugal. Mas aquela lata, que chegava pontualmente às vésperas do Natal, ele conhecia bem. Ela o intrigava. Era promessa de risos de alegria e lágrimas de lembranças e saudades. Uma tia-avó da "terrinha" mandava, pontualmente, aquela insólita embalagem contendo cartas, panos de prato, às vezes um corte de tecido, um xale, bolachas caseiras e balas, divinas balas... Divididas entre os muitos netos, as poucas balas eram iguarias divinais. Saboreá-las era transformado num ato às vezes cerimonioso, quase sagrado: só depois da janta ou após beber um gole do copo de água que a avó depositava todo santo dia, na frente do rádio, para ser bento desde Aparecida do Norte. Daquelas balas ele sempre se lembra, mesmo agora que a variedade de guloseimas nos supermercados, padarias e lojas de conveniência oferecem, ao olfato e ao paladar, até odores e sabores que não existem na natureza. Mas tinham um cheiro e um gosto peculiares aquelas balas anuais, embrulhadas em papel manteiga por mãos que ele nunca viu, nem veria; com certeza, feitas de forma artesanal em algum tacho de cobre, num fogão à lenha, numa pequena aldeia com ruas estreitas, medievais, casas de três andares erguidas de pedra e madeira, embranquecidas àquela época pela neve que ele só conhecia por devaneios e sonhos, as pegadas e os uivos longínquos dos lobos arrepiando a alma... A memória guardou a lembrança do gostar do gosto e do olor daquelas balas natalinas, mas não o próprio gosto e cheiro. E ele tenta recordar e associa - talvez erroneamente - com cheiro/gosto de cabo de guarda-chuva (que só bem tarde da vida acreditou ser o gosto/cheiro da cola de madeira); cheiro de São Jorge na lua; de bolinhas de gude; de seixos rolados; de nuvens formando figuras; de asas de borboleta nos quadros da sala de estar daquela tia rica; de borracha de areia; de pedra sabão; de sabonete no lavabo daquela casa bonita onde não passou do hall; de hóstia de primeira comunhão... Gosto/cheiro de selo de antes, quando a cola era molhada na língua; de mão com o zinabre dos pegadores dos bondes abertos; do beijo no rosto daquela tia que a mãe falava à boca pequena ser doente, "não podia passar sem homem"; de chuva de verão misturado ao forte cheiro da terra quente, molhada; de grama sendo cortada nos quaradores que ladeavam o caminho de chegada a casa. Cheiro de saudade, de flores misturadas ao odor dos pavios queimando nos velórios... Nas balas, cujo cheiro e gosto ele não lembrará jamais, um cheiro de infância, de inocência, da alegria de um dia talvez poder conhecer aquelas gentes que faziam aquelas balas naquela terra de onde ele veio (como semente genética não transgênica) e para onde só irá, tem certeza, quando misturado à terra e aos demais elementos, contribuindo algures para formar cheiros e gostos de outras infâncias, em outros tempos, outras crianças.
--
sábado, 20 de novembro de 2010
O que estamos?! (Adriana Niétzkar)
Quinta
Sexta
Em e sem feiras
Cem feiras
Sem fim?!
História
Em plurais
Que foram
Que serão
Singular
que está sendo
fagulha
faísca
fogo
incêndio
em histórias
(estórias ?!)
com
sem
cem
feiras
quarta...
sexta...
singular pluralizado
plural em singularidade
por conta
do sinônimo-coração
da palavra
história
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Estava esperando por você (Sônia Pillon)
Hoje acordei com essa sensação estranha de paz. O sol de outono que entrou pela janela, sacudindo as cortinas, e o canto dos pássaros no cinamomo me fizeram muito bem. Pela primeira vez, depois de tantos anos, não senti aquela angústia cortante, aquele desânimo de ter que enfrentar mais um dia interminável, empurrada pela enfermeira nessa cadeira de rodas pelos frios corredores desse asilo “cinco estrelas”. Podem dizer o que quiserem, mas para mim esse lugar nunca passou de um depósito de velhos à espera da morte.
Dez anos!... Não dá para acreditar que o Ernesto morreu daquele jeito, de ataque cardíaco... Pensando bem, até que faz sentido, porque ele tinha um coração de ouro, mesmo. Todo mundo dizia isso. Eu é que era a megera! Só um homem como ele para aguentar o meu mau humor, o meu temperamento explosivo, a minha arrogância, durante quase 50 anos... Mas na época, aquela calma toda dele me irritava! Como eu fui cega e ingrata, por não saber retribuir a dedicação do amor da minha vida...
Só depois que ele morreu e que a nossa única filha me jogou aqui, e se apoderou de todos os meus bens, é que eu entendi o quanto ele me amava! Mas a culpada disso tudo sou eu mesma, que sempre ensinei à ela que o mais importante nessa vida era ter status e dinheiro. Deter o poder, acima de tudo! Estou pagando o preço da minha própria soberba.
No começo, até que a Carmem vinha aqui fazer o papel de filha prestimosa, mas foi só eu passar a procuração para ela tocar os negócios da empresa que as visitas começaram a rarear, até cessarem totalmente. Me deixou uma enfermeira particular e crédito para tudo o que precisasse aqui dentro. Quanta bondade!...
Desde que eu tive o derrame e fiquei condenada a não andar nunca mais, pouco tempo depois da viuvez, sempre amaldiçoei essa cadeira! Odiava ver essas minhas pernas atrofiadas e cobertas com esse cobertor xadrez. Era insuportável ver o olhar de compaixão das pessoas quando me viam. Quem diria, a poderosa e temida dona Gertrudes, entrevada para sempre! Com certeza muitos devem ter dito que era castigo, e deve ter sido mesmo.
Estranhamente, hoje toda a minha revolta parece ter perdido o sentido. O abandono, a minha paralisia irreversível, a solidão, nada disso parece mais importar. Pela primeira vez, desde que vim para cá, essas lágrimas não são de tristeza. Estou me sentindo tão feliz! Inexplicavelmente, sinto um alívio que vem do fundo da alma. Solto um longo suspiro e parece que toda a dor se dissipa.
- Bom dia, dona Gertrudes! Hora de levantar! Dormiu bem a noite?, perguntou a enfermeira, ao entrar subitamente no quarto, com sincera preocupação no olhar.
- Sim, Ângela, dormi muito bem, não senti dores nem tive pesadelos essa noite. Acordei com o sol e com os som dos passarinhos...
- A senhora está chorando?! O que aconteceu?...
- Está tudo bem. Eu estava me lembrando do meu velho. Esse mês fazem dez anos que ele me deixou. Ele era um homem muito bom...
- É, ouvi falar dele, sim. O pessoal aqui do ancionato diz que ele era um homem muito querido, até pelos empregados... Mas agora está na hora de tomar o seu remédio, dona Gertrudes. Isso. Agora vamos trocar esse fraldão e depois tirar esse camisolão... Daqui a pouco vão servir o café no refeitório.
- Ângela, hoje eu quero que você me coloque aquele vestido de veludo verde e arrume o meu cabelo. Quero ir bem arrumada para o café. E depois quero passear um pouco no jardim, aproveitar esse sol da manhã.
- Boa ideia, dona Gertrudes! Essa história de ficar trancada o tempo todo dentro desse quarto não estava certo! A partir de hoje, vamos sempre passear lá fora, a não ser que chova, é claro. Vai lhe fazer muito bem para a saúde. Eu sempre lhe disse isso, lembra?
- Quero o meu cabelo bem penteado. Assim. Agora me traz aquela necessaire ali. Estou precisando de uma base e de um batom suave. Isso mesmo. Obrigada. Não dá para fazer milagre com 80 anos nas costas, mas sempre ajuda...
- Ora, ora, a senhora está ótima! Vamos então que o café já está na mesa... Sorriso no rosto, isso mesmo...
- Quanta gente por aqui... A Filomena também?! Foi minha comadre... Éramos tão amigas, antes do meu casamento... Ela ainda deve estar magoada comigo...
- Ela tem Mal de Alzheimer, não reconhece mais ninguém... Tem um filho que a visita toda a semana, mas ela fica sempre assim, com o olhar perdido...
- Que pena... Gostaria de conversar com ela, lembrar da nossa juventude... Olha, Ângela, tem cuca de banana com farofa, que eu adoro... Eu devia ter vindo mais vezes fazer as refeições com os outros... Teria me sentido menos só...
- Aproveite que o café de domingo é especial... Ué? Já terminou?...
- Sim... Agora pode me levar para o jardim, debaixo daquele cinamomo lá, perto do portão... Tem uma sombra gostosa, e assim posso ver as flores e respirar um pouco de ar puro...
- Pronto. Chegamos. Precisa de mais alguma coisa, dona Gertrudes?
- Sim. Tenho um pedido especial para você.Quero que me perdoe por ter sido sempre tão grosseira com você, Ângela. Você sempre foi muito dedicada e eu nunca agradeci por isso...
- O que é isso?... Eu entendo... Não se preocupe... Claro que eu desculpo, esqueça isso, dona Gerturdes... O importante é que a senhora está se sentindo bem e que a partir de hoje vai passear mais, ficar mais alegre...
- Eu sempre fui muito perfeccionista. Exigia demais de mim mesma e dos outros. Humilhava as pessoas que não eram da mesma classe social. Se pudesse voltar atrás... Ângela, será que você pode conseguir uma câmara para fotografar esse jardim? Está tão bonito...
- Claro, vou buscar o meu celular, já volto... Qualquer coisa, dê um grito para a Claudete, que está limpando o salão de visitas...
- Não se preocupe comigo, eu estou bem, Ângela... Vai... Hoje o céu está tão azul... Não tem nenhuma nuvem... E essas rosas vermelhas... Lindas!... As borboletas estão fazendo a festa... O gramado parece mais verde do que de costume. Ah, finalmente!... Meu amado!... Senti tanta saudade!... Estava esperando por você...
Texto produzido em 2 de agosto de 2010.
Sônia Pillon, jornalista e escritora
soniapillon@gmail.com