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terça-feira, 29 de outubro de 2013

Escritor Convidado (Marcos Santos)


Calisto

 

Da escotilha superior pude observar a olho nu, o módulo de exploração distanciando-se da nave mãe, que pairava numa órbita segura. Fiquei observando-a até tornar-se apenas um ponto brilhante no espaço.

Lá estava a minha única ligação com a Terra e a partir de agora eu estava só.

Meu destino? Calisto, terceira maior lua do Sistema Solar e segunda maior de Júpiter.

 

Durante a descida pude observar o planeta gigante nascendo no horizonte. Diferentemente do que observamos na Terra, ao nascer da Lua e no alvorecer do Sol, Júpiter ocupa um espaço muito maior no céu "calistiano", nos dando a impressão de que o satélite será tragado a qualquer momento pelas gigantescas tempestades do planeta.

 

Com um controle totalmente automatizado e inteligente, o módulo de descida favorece as observações obtidas visualmente por seu piloto. Pena que devido ao reduzido espaço interno, apenas um tripulante possa usá-lo por vez, o que causa uma certa depressão devido ao isolamento.

Eu não sei bem como cheguei a esse ponto em minha vida, mas acredito que essa perturbação mental possa ser um efeito colateral da proximidade com um planeta tão grande como Júpiter (sua massa é 318 vezes à da Terra), o que restringe minhas lembranças antigas...mas consigo manter-me focado em meus afazeres de piloto e é isso que importa no momento.

Vejo o solo aproximando-se rapidamente. Sinto um forte sacolejo e finalmente alunizo em Calisto.

 

É muito boa a experiência de pisar num mundo nunca antes pisado por alguém. Dá uma certa angústia, mas a sensação é única.

Durante o dia, que dura cerca de oito dias terrestres, posso ver nosso Sol, de brilho tênue devido à maior distância da Terra, mas que ainda consegue iluminar todo o hemisfério gelado de Calisto.

Aproveito essa claridade para instalar os equipamentos de exploração e observação. Faço toda parte exploratória enquanto faltam 48 horas para a noite. Noto uma superfície tremendamente irregular e seu imenso número de crateras indicam que em algum período de sua existência, Calisto foi duramente bombardeada por asteroides, cometas, meteoros, meteoritos e todo tipo de precipitações cósmicas.

Finalmente a noite chega novamente e não consigo tirar os olhos de Júpiter, o planeta gigante que paira lindo no céu noturno de Calisto. Meu objetivo é tentar explicar a influência gravitacional de Júpiter no aquecimento do núcleo do satélite, daí a importância em aguardar a chegada da noite, pois é o período em que o planeta gigante eclipsa totalmente o Sol...mas...espere...há algo errado comigo.

 

Subitamente sinto uma ardência na testa, acima do olho direito. Fito com os olhos e vejo uma pequena fissura na lente de meu traje espacial. Provavelmente o incômodo seja efeito da atmosfera gelada de dióxido de carbono entrando no capacete...mas a ardência aumenta e instintivamente tento tocar o local com o dedo médio. Sinto um pequeno estalar de uma microbolsa na ponta do dedo, de onde saiu algo úmido e viscoso. Em seguida abro os olhos. Meu dedo está com a digital suja de sangue e...

 

...O mosquito filho da puta que me acordou estava morto. Calisto era coisa do passado.

 

Marcos Santos


Rio de Janeiro

 

Pequena Biografia

 

Sou Marcos José dos Santos, o José não é nome composto mas sobrenome, pois meu avô português materno veio para o Brasil apenas como Antônio José. O que ele fez com o resto do nome...não me pergunte.

Sou Engenheiro Mecânico, mas não exerço a função há muitos anos. Desde 1992 trabalho no comércio, tenho uma empresa distribuidora de laticínios por atacado.

Nasci em 31 de março de 1962 no Rio de Janeiro, quando aqui ainda era o Estado da Guanabara.

Comecei a escrever por acaso, após presenciar uma cena forte que tive que descrevê-la no papel.

Escrevo eventualmente, quando sonho ou vejo algo que mereça alguma crônica ou comentário.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Poema da vida (Elianete Vieira)

Poetisa, Iza me conquistou pela doçura. Com 74 anos, cheia de energia, preparou a festa de 80 anos do marido. Amiga virtual, descreveu os docinhos que fez ao me convidar para nos conhecermos.
Dia de comemorar a vida, a saúde, a família. Como é bom ver as pessoas chegando cada vez mais longe - semana passada, o tempo contou 5 anos da partida do meu pai a menos de 4 meses de completar 80 anos.
Me sentindo honrada com o convite, convidei o GPS para me acompanhar e lá fui eu desbravar as ruas desconhecidas de uma cidade vizinha.
No caminho, havia não uma pedra Drummond, mas um vale. Uma rua que desce íngreme e logo sobe mais íngreme ainda. Lá no final, um semáforo segurava os carros prestes a entrar na rodovia. No inicio da subida existe um semáforo que mede a velocidade máxima: 40 km/h.
Independente deste controle os carros nem saíam da 1a marcha. Motoristas sabidos mantinham distância de segurança uns dos outros. Subidona à vista.
Eu, parada, olhando o entorno, vi algumas senhoras bem arrumadas, com Bíblia na mão, caminhando juntas e conversando. Distraídas, atravessaram a rua sem perceber que estávamos em movimento lento parando dois metros depois.
Eu sai e logo parei. Continuei olhando pelo retrovisor. O carro que vinha atrás, havia deixado um espaço de um carro entre o meu e o dele, talvez imaginando que eu poderia dar uma "descidinha" porque foi isso o que ele fez ao iniciar o movimento.
O que ele não previu e uma das senhoras também não, foi que no exato momento da "descidinha", ela ainda estivesse passando por trás do carro.
Ela talvez não tenha sido motorista ou não seja tão ágil agora com seus belos cabelos prateados.
Eu, parada, aguardando o momento de andar 2-3 metros novamente, vi a senhora sumir atrás do carro. A "descidinha" do carro ao engatar a primeira, derrubou a vovó.
Imediatamente saíram do carro três homens que acudiram a senhora, levando-a nos braços para a segurança da calçada, enquanto o motorista procurava encostar e liberar o tráfego.
Até onde pude ver, a vovó conseguiu ficar em pé, já na calçada. Foi atendida prontamente e as amigas logo a rodearam.
Eu segui em paz, feliz em ver que o pequeno incidente não ficou sem atendimento.
Ah sim, e a festa? Foi maravilhosa.
Com o octogenário feliz cumprimentava a todos, no mundo dele, pois o Alzeimer lhe tira aos poucos a consciência presente, deixando apenas o passado na lembrança. O pastor a todos abençoou. A poetisa contou como eles se conheceram e citou momentos da vida deles em quase 50 anos de casamento.
Ela declamou um lindo poema de amor e confiança, dedicado ao seu príncipe e filha, emocionando os presentes. E assim, poetando a vida, ela comemorará seu aniversário em dezembro com o lançamento do livro que está no prelo.


Elianete Vieira

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

E a primeira semana do ano chega ao fim! (Elianete Vieira)

texto


Podemos estudar sobre culturas diferentes, nos aprofundar na religião que acreditamos, podemos ser lógicos e racionais, mas existem certos detalhes culturais que persistem com o passar das décadas e estão sempre presentes em nossas vidas.
Um novo ano se inicia e com ele as crenças, as dúvidas, as esperanças e, por maior que seja a religiosidade de cada um, o misticismo está presente em pequenos detalhes que, mesmo por brincadeira, muitos de nós seguimos como ritual de Ano Novo: como usar o branco (paz), um item amarelo (dinheiro), o vermelho (paixão) e por que não, o rosa para o amor.
Comer lentilhas, bolinhos de arroz, sobremesas brancas, evitar aves na ceia, pular sete ondas, guardar sementes de sete uvas ou três tâmaras na carteira, banho perfumado para o amor, flores brancas, espelho e perfumes para Iemanjá, etc. são formas de acreditarmos que algo possa ser feito em busca do amor, do novo trabalho, de mais dinheiro, da tão desejada paz que todos queremos para o mundo inteiro.
Não sei se os países que necessitam mais dessa paz possuem essa mesma crença, esse misticismo do branco e da pomba branca que representa Jesus e a paz. Mas nós brasileiros pensamos em todos quando comemoramos usando o branco.
Hoje, é primeira sexta-feira do ano e no Rio de Janeiro, muitos fiéis buscam pela tradicional bênção de São Sebastião, padroeiro da cidade, na Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca. Pedem proteção para o ano inteiro numa tradição que começou em meados do século XIX, quando a igreja ainda ficava no Morro do Castelo (demolido em 1922).
É ainda o último dia útil de uma semana curta. Período de folga para aqueles que puderam emendar e curtir o final do feriado prolongando em pequenas férias, para viajar e curtir a família em algum lugar paradisíaco ou apenas tranquilo. No dia 1º e no dia 2, noticias de estradas lotadas mostraram que muitos retornaram aos seus lares enfrentando horas de cansaço, fome, crianças chorando, chuva em SP ou sol quente no Rio, para então retornarem ao trabalho e estão desejosos que esta 6ª feira termine rapidamente, agora sem transito na volta para casa, e curtir mais um final de semana em ritmo de férias.
Crianças em férias escolares é alegria na casa. Famílias aproveitando para curtir os baixinhos ao máximo. Por outro lado, cidades vazias com menos transito, rodizio suspenso na cidade paulista, facilitam a vida daqueles que deixaram as férias para outro período do ano, como eu!
E assim, um novo ano se inicia, com simpatias e orações para dias melhores. Esperanças que algo diferente ocorrerá esse ano. Sonhos que se realizarão neste 2013 que, de azar não tem nada, pois o jeitinho brasileiro fará destes 361 dias que faltam para o ano acabar, o ano de maior sorte de todos anteriores, com muitas realizações superando as tristezas e doenças que enfrentaremos, com saldo positivo de mais um ano muito bem vivido!
Um 2013 abençoado para todos!
Elianete

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carência (Marcelo Lamas)

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para
resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma
mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e
da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com
admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de
casal na parede.


Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-
se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu
marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no
face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.


Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser
cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era
do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e
bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.


Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a
situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa
cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia
muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana
remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de
pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No
estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.


Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer
que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.


Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil
esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.


Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de
Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”. 


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 16 de outubro de 2012

No mundo da lua: Dom Quixote contemporâneo (Sônia Pillon)


Ele levanta acordado pelo despertador do celular. Corre contra o tempo para se arrumar e fica matutando como esticar o dia. Tanta coisa para fazer! Fica imaginando como transformar aquela peça de teatro em um sucesso nacional. Já está até vendo a cena: os anúncios na mídia, os outdoors espalhados pela cidade, as críticas favoráveis, o teatro lotado, o público aplaudindo de pé... E ele lá no meio, junto ao elenco... Bravo! Bravo!


Lágrimas de alegria escorrem pela sua face, enquanto imagina a realização do seu sonho. Seu coração bate acelerado e ele mantém um sorriso de genuína alegria...


Enquanto dilui o café solúvel e mastiga um pão dormido com manteiga, ele abre rapidamente o notebook. Confere as principais manchetes, a previsão do tempo, os escândalos de Brasília, a cotação do dólar... Eita, mundo cão!...


Olha um anúncio de brinquedos eletrônicos e lembra daquele roteiro infantil que criou 10 anos atrás, uma releitura erotizada dos personagens “Chapeuzinho Vermelho” e “Lobo Mau”, transformados em uma “Lolita” do século 21 e em uma espécie de “Dom Juan de Marco” à brasileira, à la Nelson Rodrigues... A vida como ela é... – Bando de provincianos! Não sabem o que é arte!


Quase 10 horas! Desce as escadas correndo em direção ao portão. – Não posso me atrasar na entrevista com o tubarão! E se ele patrocinar o projeto? Amanhã mesmo vou poder reunir o elenco, retomar os ensaios, planejar a temporada, a turnê nacional...


Na saída, vê a caixa de correio entupida de contas, contas e mais contas para pagar... E “santinhos” de políticos, que de santos não tem nada... - Haja estômago!, pensa em voz alta, fazendo uma careta.


Ele apressa o passo. Chega suado e esbaforido até a antessala do diretor presidente. A secretária executiva o olha por baixo dos óculos e pede que espere até o final da reunião. E ele espera... 10, 15, 30 minutos, até que a porta se abre e os executivos deixam a sala do tubarão-todo-poderoso. – Pode entrar, diz a secretária.


Finalmente o roteirista entra, segurando a pasta, frente a frente com o tubarão...


- Li atentamente o seu projeto. Bem interessante. Mas infelizmente já fechamos o orçamento deste ano. Decidimos associar a nossa marca a um cantor sertanejo que está bombando e vendendo que é uma beleza! Lamento. Fica para a próxima!


Ao sair da empresa, ele decide que não vai desistir. Afinal, é o que sabe fazer e não está disposto a entregar os pontos. – Amanhã é outro dia! De algum lado o sol tem que sair!


E lá vai o heroico e idealista Dom Quixote contemporâneo, pronto para enfrentar seus moinhos de vento, mais uma vez...


Sônia Pillon é jornalista e escritora, autora residente dos sites de literatura Letras et Cetera e Cooperativa de Letras.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A escrita como tentativa de preservação: de um lugar, de muitas vidas (Ítalo Puccini)

             Eis o que é possível encontrar no filme “Narradores de Javé”, dirigido por Eliane Caffé, vencedor de melhor filme no VII Festival Internacional de Cinema de Punta Del Este (2004) e no 5º Festival de Cinema des3Ameriques (2004, Quebec, Canadá). Produção nacional de 2003 que aborda o sumiço da cidade de Javé, a ser submersa pelas águas de uma represa.


            Taí um filme que procuro trabalhar em sala de aula com turmas do Ensino Médio, abordando não somente a desagradável situação da tomada de terras alheias, mas também a importância da escrita, e sua distância para a oralidade. São conversas que transitam pela trama, pela importância que adquirem a memória e a oralidade na história, e pelos caminhos através dos quais o filme nos leva à literatura.


Tudo acontece a partir do drama que enfrentam os moradores de Javé: a instalação de uma usina elétrica no vilarejo vai levá-lo a não mais existir no mapa. E a solução que lhes resta é uma só: registrar por escrito o vilarejo, tornando-o de valor histórico e científico, conforme falam. É preciso contar a história de Indalécio, o fundador de Javé.


Eis, então, o momento em que surge o personagem AntonioBiá, o salvador dos habitantes de Javé, aquele que em anos anteriores fora expulso de lá pelo motivo que agora o trazia de volta: a escrita de histórias. Biá é chamado para escrever a história de Javé, por ser o único ali que sabe escrever (Biá trabalhava na agência dos correios em Javé. Como ninguém fazia uso da escrita e da leitura, ele passou a inventar histórias dos moradores da localidade, como forma de tornar a agência movimentada, e assegurar seu emprego. Justamente por isto foi expulso pelos moradores quando descobriram o que ele inventava). 


No momento em que Biá passa a ouvir as histórias dos moradores de Javé é que passamos nós, telespectadores, a percebermos como a memória oral de cada um privilegia aspectos e detalhes que ninguém conhece, e que jamais serão registrados como de fato aconteceram. Passamos a perceber o quanto a escrita não dá conta daquilo que é da oralidade. E também o quanto toda escrita fica marcada por aquele que a produz, o que nos leva a pensarmos na isenção do historiador no momento de registrar uma história.


Biá vai ouvindo as versões de cada habitante de Javé. Cada um "puxando a sardinha" para o seu lado, apresentando algum detalhe que antes não havia. Como já dizem os ditados, quem conta um conto, aumenta um ponto. E existem sempre três verdades: a minha, a sua, e a que de fato existe. E Biá deixava claro aos moradores: Uma coisa é o fato acontecido. Outra, o fato escrito. E as verdades produzidas pelos moradores do vilarejo são compostas de memória. De uma memória mítica, onde se encontra com a fala. Uma memória que é feita de fala, que é produzida pela narração. 


            Diante disso, algumas pontes que podemos estabelecer com a literatura fazem referência a dois aspectos textuais apresentados pelo teórico Mikhail Bakhtin, a polifonia (as várias vozes de um discurso, uma vez que a coexistência de inúmeros narradores, narrativas e formas de narração compõem uma heterogeneidade discursiva, que é o que observamos no filme, nas várias narrativas que o compõem) e o dialogismo, a partir de uma citação do próprio Bakhtin: "Tudo se reduz ao diálogo. Tudo é meio, o diálogo é o fim. Uma só voz nada termina, nada resolve. Duas vozes são o mínimo de vida". 


            Além disso, importante lembrar das várias leituras que podem e devem ser feitas de uma mesma história. A história de Javé é, na verdade, as histórias de Javé. A história de cada morador é a leitura que cada um deles faz da localidade em que vive, o que prova que não existe uma só maneira de se ler algo, e sim maneiras de se ler. E de se escrever.


 Ítalo Puccini

sábado, 6 de outubro de 2012

No motel (Marcelo Lamas)

Numa noite quente – e caliente – o casal de namorados foi para o motel. Depois de um bom tempo por lá, surgiu um imprevisto: faltou energia elétrica. A princípio nem deram bola, pois estavam distraídos e o calor demorou até tomar conta do ambiente escuro.
Na hora de sair, Eric foi até o carro e acendeu as luzes, assim conseguiram pegar as coisas que estavam espalhadas. Ele lembrou que ainda haveria um problema a ser resolvido: só tinha levado cartão de crédito. Estaria a maquininha funcionando? Samantha também não carregava dinheiro consigo.
Eric ligou para a recepção e o atendente disse que havia usado a máquina o dia todo apenas com a bateria e que esta acabara de ficar totalmente descarregada com as saídas anteriores – como de hábito, o movimento na hora do almoço tinha sido intenso naquele dia.
O atendente disse que estava à procura de uma bateria reserva que talvez tivesse alguma carga, mas a escuridão estava dificultando a tarefa.
Eric pensou em chamar alguém para socorrê-los, mas Samantha achou que seria muita “pagação de mico”. Tempos depois o recepcionista ligou:
- Alô, moço, vamos dar um jeito aqui. Achei a bateria.
- Ah! Legal. E como eu faço pra abrir este portão da garagem?
- Estamos fazendo manualmente senhor. Até por segurança. A gente manda o pessoal abrir um portão por vez. Sabe como é, né? Sem luz e sem câmera a gente não pode deixar ficar uma fila de carros aqui na saída.
Depois de mais espera, o homem ligou de novo e disse que era a vez deles. O casal entrou no carro. Pelo canto do portão dava pra ver duas tiazinhas vestidas de copeiras tentando destravar o mecanismo com uma chave de fenda, que caía a toda. Eric não podia ajudar pois a operação era do lado de fora.
Chegando à recepção, tava lá o sujeito com uma lanterninha de 1,99 na mão e evitando olhar para o casal. Depois de algumas tentativas, a operação foi completada. E lá vieram as duas tiazinhas de cabeça baixa para abrir o portão principal.
Quando o casal saiu, deu de cara com um ponto de ônibus lotado e um “mercedes” amarelo bem cheio, recolhendo o pessoal. E o povo olhando pra ver quem tava saindo do lugar, e todos se viram, pois no carro de Eric não tinha película. Todo o profissionalismo do pessoal do motel foi por água abaixo. Se fosse um casal “ilícito”, o crime não teria dado certo. Como diz o provérbio: “Em cidade pequena o inferno é grande”.


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

sábado, 15 de setembro de 2012

Festa na Grécia Antiga (Sônia Pillon)

 




Sempre fui fascinada por Mitologia Grega! Desde a infância, através da genialidade de Monteiro Lobato, viajei pelos mistérios da Grécia Antiga, com suas divindades com características muito mais humanas do que celestiais, mergulhadas em paixões terrenas e contradições tão conhecidas por nós, seres mortais e imperfeitos por natureza.


Pois ontem resolvi tirar aquele livro empoeirado da prateleira e reviver o fascínio que sentia ao conhecer as estórias de Zeus. Ah, o deus supremo dos gregos, amoroso e vingativo ao mesmo tempo, com seu séquito de divindades e sempre oscilando entre o Céu e a Terra!...


Lembrei de Pallas Atena, a deusa da sabedoria, de Hermes, o mensageiro dos deuses, incansável viajante a levar e a trazer notícias, de Afrodite, a deusa do amor...


Tinha também Prometeu, que como o próprio nome já diz, prometeu e levou o fogo aos homens e foi condenado por Zeus a ter seu fígado bicado por uma grande ave, todos os dias... Poseidon, o deus dos mares, Hades, o deus dos mortos, levados pelo barco de Caronte até as profundezas do oceano... De Ícaro, o audacioso homem que sonhou em voar e ingenuamente construiu um par de asas, com cera e penas, derretidas pelos escaldantes raios de Apolo, o deus do sol.


Nesse universo também tinha Héracles ( Hércules, para os romanos), símbolo da força masculina, filho de Zeus com uma mortal, meio deus, meio humano, condenado a 12 trabalhos de bravura. E Eros, com suas flechas certeiras, Dionísio, o deus do Vinho e o “Pai do Carnaval”...


Ah, e não dá para esquecer Narciso, que se apaixonou por si mesmo ao ver sua imagem refletida na água...  As amazonas, temidas guerreiras, as suaves ninfas, as discretas dríades, os espalhafatosos centauros, os assanhados faunos com suas flautas, a assustadora Medusa, com serpentes na cabeça e seu olhar petrificante... e tantos outros...


De repente, comecei a visualizar uma festa bizarra e multicolorida, com todos eles presentes, em uma grande clareira da floresta. Em noite de lua cheia, eram embalados por Dionísio, ao som das flautas de Pan...


Afrodite chegou exuberante, enquanto Narciso apareceu no esplendor de sua beleza. As amazonas apearam de seus cavalos rapidamente e também foram chegando. O mesmo aconteceu com os centauros, ninfas e dríades... Logo todos estavam ali, dançando sem cansar e rindo sem parar, na fantástica e inusitada festa pagã, que com certeza jamais teria sido esquecida por nenhum dos participantes, se realmente tivesse acontecido...


Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e radicada em Jaraguá do Sul (SC) desde 1996.


 

 

 

 

domingo, 9 de setembro de 2012

O começo que nasce para morrer (Ítalo Puccini)




As coisas só começam porque um dia terminarão.
Eu gosto desta frase, apesar de não gostar da palavra coisa. Penso-a (a frase, não a coisa) apontando para direções que são várias: início, fim e meio do mundo; início, fim e meio da vida; início, fim e meio de um relacionamento; início, fim e meio de um livro. Há um meio depois do começo e do fim, assim como entre.
A tendência de um começo é a morte instantânea.
Linkando com a literatura, temos: o começo de um texto é aquilo que mais é renegado pelo escritor. É a substância que brota para ser jogada fora. É o apêndice. Nascido para morrer. E mesmo aquele começo – de texto ou qualquer outro começo - que se apresenta a todos como definitivo, aquele começo que ficou definido como o começo de algo, está entregue à mudança constante. Não à morte, mas à mudança. Pois ele nem sempre será lido como o começo que se propôs a ser. Por que não ser lido como uma possibilidade de final, então? Será daí que todo fim é um começo?, uma vez que cada nova leitura pode ser a morte e o enterro da leitura anterior, sugada antes de não mais existir.
Um começo de livro marcante pode ser este: "Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel". É do livro "A casa de papel", do argentino Carlos Maria Domínguez. Ou este: "Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo lado. Uma roda de gente se engordou em redor da coisa. Também eu me cheguei, parada nas fileiras mais traseiras, mais posto que exposto. Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la". Do livro “O último voo do flamingo”, do moçambicano Mia Couto. Dois simples começos como estes, que apresentam ações pontuais em tão poucas linhas, que delineiam uma miríade de caminhos na cabeça do sujeito-leitor – que poderão ser alcançados ou não, afinal, cada leitura é uma leitura.
Há, ainda, o começo de “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:”.
Dois pontos. Como que dizendo ‘agora vou contar a história’. E que o leitor deixe de lado a birra infantil de ‘ah, por favor, não me conte o final’. Há literaturas que se sustentam pelo seu durante. Há literaturas que encantam só pelo começo. Há literaturas que decepcionam principalmente no final.
[Um bom começo também pode ser um caminho para o abismo da decepção].
O começo como morte é a oportunidade de não se estranhar muito o novo começo, o recomeço. E de não sentir muito aquele que não mais existe, porque nada nem ninguém vem para substituir algo ou alguém, mas para acrescentar, para existir a partir daquilo/daquele que não mais.


ítalo puccini
professor de língua portuguesa, literatura e redação.
escritor nos blogs:
www.um-sentir.blogspot.com
www.rabiscosfutebolisticos.blogspot.com


 

 

 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O imaginário e a vingança delas (Marcelo Lamas)




Não era pra ter vazado. Mesmo tendo o maior cuidado, o sigilo foi quebrado e a informação veio à tona.
Começou num final de sexta-feira, no escritório. Procurando uma distração momentânea, o sujeito tirou os olhos do monitor e olhou para a menina que estava ao lado, imaginou alguma coisa proibida, pensou, riu e comentou baixinho, com um colega:
– Jaime, como tu achas que é o estilo do corte - apontando para a região pubiana - da Cláudia?
– Máquina zero com certeza! Respondeu ele, controlando o riso.
E a Selminha?
– Moicano. E a Dona Mércia, consegues imaginar?
– Cláudia Ohana.
– Cláudia Ohana?
– É Claudia Ohana. Mata Atlântica, entendeu?
– Entendi.
Muito pró-ativo, o Jaime pegou um cartão de apresentação e no verso fez uma coluna com as iniciais ou os apelidos das mulheres. Ao lado, listou as alternativas, onde aparecia também a opção bigode do Hitler.
Em seguida passou a cédula única entre os mais chegados, com QI mais alto, que seriam discretos. Antes do sinal do expediente tocar, os dados estavam compilados e 68% disseram que a “Ajeitada” seguia o tipo moicano.
Mas como sempre acontece, a informação de que uma pesquisa do gênero havia sido feita chegou até o clube da luluzinha.
Elas deixaram transparecer que eram sabedoras da enquete. Pareceram ter levado na esportiva. Uma delas comentou: “Com esse meu cabelão, sem chapinha, o que será que não pensaram?”.
Outra indagou: “O ‘que que deu’ meu resultado na pesquisa de vocês, hein?”.
A intimidade que ela cultivava com o grupo até permitia que o resultado fosse revelado. Mas ela não fez parte da enquête. Não estava na repartição na hora do pleito. Foi esquecida. Não acreditou na versão. Tem certeza que houve um veredito e  que não foi poupada da análise. Ficou brava duas vezes, primeiro por estar na lista e depois por, talvez, não estar.
Numa outra reunião, realizada em um chá-de-panela, o clube decidiu retribuir a gentileza. Assim, foram coletadas informações com todas as participantes femininas.
O resultado foi impresso em fonte 18. Havia uma coluna com o nome de batismo de todos os colegas. Os percentuais estavam apontados embaixo das fotografias de uma garrafa de Coca-Cola, um sacolé, um pepino em conserva, um chocolate Baton e um oriental, entre outros.
Elas deram jeito de fazer a folha ofício passar na mesa de todo mundo. Neste caso, o sigilo, de fato, era mesmo para ser quebrado.


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com


 

 

 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

No mundo da Lua - Crônica da tristeza (Sônia Pillon)




Tristeza é o nome de um bairro nobre de Porto Alegre, cidade onde nasci e passei a juventude. Lá, tristeza para mim só existe no nome, porque é também o bairro que carrego boas lembranças. Da última vez que lá estive, junto com meu pai, passei a associar tristeza a uma visita calorosa e portanto, repleta de alegria...


Tristeza é irmã gêmea da melancolia, prima da desolação e do desânimo. Nos casos mais graves, vira depressão... Lembra uma árvore no outono, quando as folhas amarelam e caem, tingem a terra de cinza, para depois se transformarem em adubo... E é aí que acontece o milagre da natureza, quando o adubo vai fortalecer a árvore que formará novas folhas...


Algumas vezes a tristeza vem precedida de uma angústia inexplicável, de um aperto no peito, uma dor que não dói exatamente, mas que incomoda, silenciosa... Muitas vezes, vem junto com lágrimas involuntárias, quase inseparáveis... É aquela sensação inexplicável de desconforto, de querer ficar enrolada no cobertor por mais tempo, de não querer ouvir, nem ver ninguém...


Todavia, em outras vezes a tristeza vem sem avisar, através de um fato, ou mesmo de situações ruins que se repetem... e repentem e repetem e repetem sem solução visível... Como se a luz no fim do túnel demorasse infinitamente para iluminar a face da gente...


A vida é feita de momentos, em que a alegria e a tristeza se intercalam como crianças na gangorra. Faz parte.


Grandes expectativas, planos frustrados, aquela tão sonhada viagem adiada, os investimentos que não renderam o esperado, decepções... Que esse mundo não é um mar de rosas, todo mundo sabe. O difícil é estar preparado para o inesperado, para aquela certeza de que é preciso matar um leão por dia para sobreviver nessa selva chamada “Civilização”.


O ser humano bem que poderia ser mais humano, não é mesmo?... Menos egoísta, mais solidário, mais gente. Mais engajado. Mais interessado em fazer a diferença no mundo e fazer a sua parte para mudar o inaceitável, o inconcebível.


A chuva cai e o vento uiva lá fora, sacudindo as vidraças e as portas. Já é madrugada. Olhando da janela, dá para ver a Sombreira de folhas verdes envernizadas pela água, sacudida pelo vento, para lá e para cá, continuamente, como que se debatendo...


Mas se a alegria é caprichosa e nem sempre está presente, o jeito é buscar forças no recôndito da alma e buscar motivos para sorrir. Para espantar a tristeza de vez! Em um tapete mágico, ou no cauda de um cometa... Nas asas da imaginação, a gente levita pelo céu, com a lua e as estrelas, e cria um outro mundo onde tudo é possível, num piscar de olhos...


Sônia Pillon é jornalista e escritora, autora residente dos sites de literatura Letras et Cetera e Cooperativa de Letras.


 

 

 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Tipologia de Leitores (Ítalo Puccini)

‘Tava eu lendo umas coisitas teóricas sobre práticas de leitura e sobre a questão dos professores serem, ou não, sujeitos-leitores, quando me deparei com um texto em que a autora, com um embasamento teórico bem apresentável, indica uma “tipologia de leitores”, na qual ela classifica os professores participantes da pesquisa dela em “grupos de leitores”. Algo bem interessante de se pensar, nos tipos de leitores que somos. Porém, com a relevância de não nos limitarmos a essas categorias, uma vez que a leitura – e consequentemente os leitores – não pode ser pensada somente dentro de categorias.


Identifiquei-me em três das tipologias apresentadas pela autora (inclusive, preciso fazer referência a ela, ora pois: Ângela da Rocha Rolla, Doutora em Teoria Literária/PUCRS). E importante ressaltar que as descrições dessas tipologias apresentam como fundamento as vozes dos professores por ela entrevistados para a pesquisa.


Vamos lá:


1. Leitor compulsivo: É eclético: da história em quadrinhos ao último lançamento de um escritor valorizado pela crítica, tudo lhe desperta a curiosidade. Lê o que lhe cai nas mãos, mas mostra um espírito crítico em relação aos textos, emitindo opiniões a respeito de autores e obras. Tem livro espalhado por toda a casa, a leitura está em primeiro plano: são pilhas de livros que compra ou pede emprestado. Adora frequentar bibliotecas ou tem a sua própria. Lê de tudo a toda hora, lê no ônibus, no banheiro, lê na hora de dormir. Qualquer minuto livre que tem, ocupa nessa atividade. Às vezes até esquece que tem corpo, embriaga-se com a leitura.


(Já fui mais compulsivo. Mas a essência não se perde).


2. Leitor profissional: Não é um leitor ingênuo, ele lê para analisar estilos, buscando o valor estético das obras. A leitura literária e a produção de textos fazem parte de seu cotidiano profissional, são o instrumento do seu trabalho. Suas leituras constituem-se de obras técnicas sobre teoria literária e obras literárias de autores clássicos e modernos. Frequenta livrarias e círculos de leitores, tem um apreço especial por livros, que adquire com frequência, na medida de suas condições financeiras. Lê ficção para fundamentar as atividades voltadas ao ensino de literatura, oficinas de leitura, redação de artigos, projetos de pesquisa e também para seu lazer. A produção de textos é exigência do trabalho profissional, que apresenta oportunidades de realização de palestras, conferências, defesas de tese, publicações, etc. Faz leituras informativas, técnicas e literárias. É um iniciado em estudos literários. A leitura é prioritária na sua vida, constituindo-se não em trabalho penoso, mas em atividade realizadas com prazer.


3. Leitor escolar: Lê com um objetivo principal: indicar obras literárias para os alunos. Há uma preocupação com o trabalho didático, que absorve toda a sua disponibilidade para a leitura. Esta se reveste de obrigatoriedade, com a finalidade única de desenvolver seu trabalho docente, que consiste na análise e no comentário das obras solicitadas, cujo assunto não diz respeito aos seus interesses, nem ao seu gosto literário, principalmente quando se trata de literatura infantojuvenil. Por força da necessidade imediata e do pouco tempo disponível, realiza leituras rápidas, sem fruição. As leituras escolares não são consideradas leituras de lazer, para as quais na há espaço no cotidiano desse leitor.


Há, ainda:


Leitor Diletante: É um leitor ingênuo, que lê sem conhecimento prévio, por puro prazer. Tem um livro de ficção na cabeceira. Lê obras de autores consagrados ou popularmente conhecidos. Prefere literatura de consumo fácil: histórias de amor e de suspense, enredos de folhetim. Os critérios de escolha para ler são aleatórios, ao sabor do momento.


Leitor apressado: Caracteriza-se por ser um sujeito dinâmico, muito ocupado com o trabalho, que lhe deixe poucas horas diárias de lazer. Lê para se informar dos acontecimentos recentes e para se atualizar em assuntos diversos como política, religião, pedagogia, psicologia, espiritismo, etc. Não lê ficção ou lê eventualmente.


Leitor superficial: Lê eventualmente, sem privilegiar um tipo de leitura. Não manifesta preocupação com o valor estético das obras, nem mesmo as avalia. Escolhe os textos ao acaso, o que lhe cai nas mãos, geralmente a literatura de massa ou gêneros já consagrados, como o romance romântico. Não costuma realizar leituras para aprimoramento profissional, preferindo as de caráter utilitário e informativo.


            Leitor técnico: Faz leituras para estudo do trabalho docente ou de algum curso de especialização que está realizando. São leituras técnicas que versam sobre assuntos relativos às disciplinas que está cursando como aluno ou para aprofundamento teórico no campo profissional. As leituras informativas se reduzem a uma rápida olhada no jornal do dia, sem espaço para as reportagens de revistas. A leitura literária está ausente, raramente lê ficção, porque a leitura científica lhe toma todo o tempo disponível.


Não-leitor: Com uma história de vida distante dos livros, sem valorização da família na primeira infância, o não-leitor apresenta um comportamento avesso à leitura literária. Tem um contato esporádico com periódicos, que lê para se informar dos acontecimentos recentes e não consegue acompanhar um texto ficcional até o fim. Não dispõe de uma biblioteca, estando a leitura como lazer distante do seu cotidiano, que também dispensa hábitos culturais como cinema, teatro, músicas, esporte e outros.


E eu lanço aqui a proposta de que os leitores desta croniqueta possam registrar com quais tipologias se identificam, em que tipos de leitores acreditam que se encaixam. Enfim, que possamos pensar um pouco nos leitores que somos, ou que ainda podemos ser. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

As palavras que (não) devem ser ditas ou escritas?! (Adriana Niétzkar)

Os meninos vasculham os livros da sala de leitura, os folheiam e deparam-se com um do Tezza, pois encontraram ,o único, palavrão no livro: "Deus é um filho da puta!". A frase impressa os perturba, correm ao meu auxilio para ouvir uma reprovação, digo para lerem o livro e eles se afastam incompreendidos. Pois são recriminados ao dizer, mas não ouvem recriminação à escrita. Tento explicar o que o cinema brasileiro não conseguiu. A ficção imita a vida e a vida tem palavrões, ainda que os tradutores substituam todos os “!fuck you” por “filho da mãe”.
Algumas coisas nunca mudam, como na primeira semana da aula de inglês. Ano após ano, eles sempre procuram o embaraço do professor ao pedir a tradução: “O que quer dizer fuck you?” Querem tirar o palavrão de minha boca e eu os inquiro;“então já perceberam que cinema estadunidense também tem muito palavrão?! “Eles não resistem a oportunidade e o teste - “é vai se foder né professora?” - pois é umas das poucas vezes que "podem" dizê-los em sala. No entanto, a escola é um laboratório deles, usa-se toda hora.
Fazer intensivo de palavrão? procure um grupo de adolescentes, eles são quase uma linguagem própria, e esqueça os “filho da puta”, “vai te foder.”.. isso é ultrapassado, de outra geração, eles são muito mais elaborados e “criativos”que misturam vários gêneros em uma única frase incompreensível, mas “dolorida”, pelo acúmulo de “besteirois”.
Aliás, “vai tomar no cu” era o que minha amiga do segundo grau (agora ensino médio - outra época) falava, cada vez que precisava de uma interjeição. Os meninos adoravam dar tapas nas suas costas só para ouvi-la. As meninas cobravam; “olha o palavrão”. Mas o vai tomar no cu fazia parte da linguagem dela, ninguém conseguia explicar de onde, o irmano não falava os pais eram educados. A verdade é que pra ela era palavra como outra qualquer. Eu que nunca os dizia interessava-me pela sua naturalidade. E, depois, mais próximas nunca a vi xingar ninguém, mas falava “vai tomar no cu” pra tudo.
E quem as vezes não tem vontade de dizer? E quantos não usam de habilidades elaborando frases polidas que agridem e ferem, humilhando até a alma?
Criatividade eu admirava em um colega da sétima série, que decorava nomes científicos para xingar os que o perturbavam: "seu sistosoma mansone!"Funcionavam pela sua sonoridade e incompreensão, mas não feriam.
Tem outras palavras consideradas “incompreensivelmente” como palavrões; preto, viado, retardado, animal... Aliás, nunca entendi como essas palavras podem funcionar com xingamento. Meu avó era polaco, alguns mais velhos, sempre me corrigem a frase; “polonês!” - porquê o seu sinonimo é ofensa?!
Trocar besta por desprovido de intelectualidade também não modifica o que penso e parece que quanto mais “enfeitamos as palavras” mais elas “vestem” nossos preconceitos, mas não os retraem. É como a famosa frase: “ eu trato ele com gente igual a mim”. Por essas e outras que eu gostava das interjeições “diferentes” daquela minha amiga.
E na escola, há também os corajosos, que desafiam a “merda” da redação escrevendo alguns palavrões, sugiro os textos marginais e não entendo porque os palavrões não retornam nas redações seguintes.
De qualquer modo, "uma frase a lá Nelson Rodrigues” ainda gera fascínio ou repulsa, dependendo do que o freguês procura em suas leituras. E fazem estilo de transgressores para os leitores mais rebeldes que os amam por seus retratos e linguagens marginais. Ainda que muitos destes textos nada tenham de discussões novas a arte tem tido forte tendência marginal, porque retrata essa geração desestimulada que quer mandar tudo à PQP e manda! Mas continua se fodendo, gozando ou não.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Fodidos pela arte. E pela linguagem. (Ítalo Puccini)

"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".
Esse Eduardo Galeano, no texto "Celebração das contradições/ 2", no "Livro dos abraços", leva-me à palavra. Que por si só contradiz. E consequentemente acontece com quem dela faz uso. E que bom que assim é. Perfeição de entendimento tornaria o mundo mais caótico do que já é, acredito.
Existimos pela incompletude da linguagem. Não nos há como fugir disso.
Há uma passagem da peça "Passport", da Companhia Rústicos Teatral, em que um dos policiais diz ao outro algo mais ou menos assim (porque toda transcrição de fala é imperfeita por natureza): "O que me tranquiliza, chefe, é saber que nessa vida estamos todos fodidos".
E não é assim?
A sinopse da peça diz: "Tudo acontece em alguma cidade, algum país esquecido. O Oficial e o Soldado exercem suas funções cotidianas sob a ordem dada em outro tempo. E em eterno presente, o Cidadão se vê em alguma cidad, algún país olvidado. Mesmo falando a mesma língua, Cidadão e Soldado não conseguem se entender quando chegam ordens do Oficial (o chefe). O Cidadão é preso como um suposto terrorista e é na cela que, segundo o diretor da peça, Samuel Kühn, os personagens são envolvidos “em situações absurdas desencadeadas, sobretudo, pelo conflito linguístico, em que são abordadas questões como a incomunicabilidade e a perda de sentido". A peça, baseada em um texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott, explora os limites da linguagem, a incapacidade de comunicação entre as pessoas, mas não só. Ela inquieta o leitor que assiste a ela porque não há o que ser feito numa situação em que duas vozes dialogam cada uma em uma dimensão própria, podemos chamar assim. Nós que a assistimos alcançamos essas duas dimensões (quem sabe?), mas não nos cabe intervir. Talvez se tornaria, a nossa, apenas uma terceira voz se perdendo entre as outras duas. Quanto mais alto o barulho, menos se ouve dele.
Mas voltando à frase presente na peça, desde que assisti a ela duas vezes, não me sai da cabeça. E eu vivo a repetindo, às vezes em alto e bom som. Como que para internalizá-la mais e mais. E para me sentir mais leve também. Porque haja mania grandioloquente de nossa parte em tornar maior aquilo que é tão pouco, não é mesmo?
Eu escrevo personagens por aí. Dia sim, outro também. Vários personagens, às vezes. Noutras, grudo-me em um só. Sinto-me sempre acompanhado. Não só ouço, como também falo. Dividimos pedaços de vida. Compartilhamos felicidades e frustrações. Trilhamos caminhos separados, sim, mas unidos de alguma forma. Pela fala. E acreditamos num entendimento mútuo do que falamos entre nós. É melhor assim. Por mais que saibamos que entender mesmo a gente continua entendendo só o que queremos dizer e o que queremos ouvir. E o nosso querer não é nosso, no sentido de ser de dois. É um querer de cada um. Compartilhados. Misturados. Mas não tornado um só.
Então que ter essa ciência, de que estamos fodidinhos - graças a deos - no mesmo barco alivia muito a vida.
É uma forma de nos abraçarmos, talvez.


Ítalo Puccini

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Mario, o gênio (Marcelo Lamas)


O recordista de citações nos meus escritos é o poeta Mario Quintana (1906-1994). Pesquisei sua vida e obra em livros, artigos, biografias, entrevistas e documentários. Fiquei alguns dias “ilhado” no centro de Porto Alegre, em museus, bares, cafés, na rua da Praia e na praça da Alfândega, seu habitat.
O poeta foi um solteirão convicto e sempre morou em hotéis. Antes de falir, o Majestic hospedou Mario por 12 anos. O prédio imponente foi recuperado e re-inaugurado, em 1990, como Casa de Cultura Mario Quintana (www.ccmq.rs.gov.br) e o poeta pôde ver seu sonho realizado.
Ao longo da vida, foi tradutor de telégrafo e da Editora Globo (Proust, Balzac, Voltaire e outros), além de jornalista. O escritor fora alcoólatra. Um médico alertou: “Se o senhor não parar de beber, nunca ficará famoso!”. Submeteu-se ao tratamento e livrou-se do vício na década de 50.
Aos 60 anos, rompeu as divisas do sul e tornou-se nacionalmente conhecido. Conseguiu, definitivamente, colocar a conta do hotel em dia. Recebeu a titulação de Doutor Honoris Causa de várias universidades. Escreveu 20 livros (5 de poesia infantil) e 14 antologias. Na coluna Caderno H — que virou livro da Editora Globo —, no Correio do Povo, do Rio Grande do Sul, publicou infinitas máximas universais, como: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o Homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda” e “A morte não iguala ninguém: há caveiras que possuem todos os dentes”.
Mario tinha um humor sarcástico. Certa vez, uma jovem repórter, usando um jargão jornalístico que estava na moda, indagou-o esperando uma autodefinição: Quem é Mario Quintana? Com a ironia habitual respondeu: “Sou eu mesmo, minha filha!”.


marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Água de chuva (Inacio Carreira)

Realidade é alguma coisa na qual, quando
você deixa de acreditar, não vai embora.
Philip K. Dick


Vontade de tomar água de chuva. Água destilada, dizia meu pai, boa para colocar na bateria do carro. Faz tempo, sim. Que, hoje, as baterias – ao menos a maioria delas – vêm blindadas, o vivente não pode colocar nem tirar nada, nada... Porque água de chuva? E se essa chuva for a decantada “chuva ácida” do filme Blade Runner – O caçador de andróides? Filmado em 1982, virou cult ao retratar Los Angeles do ano 2019 (pertinho de nós, agora). Aliás, novembro de 2019. Eu nasci em novembro... Será uma premonição? Serei andróide? Não, sou muito estúpido, andróides são – seriam – programados para a excelência.


Voltando à chuva ácida, que parece ficção científica, vou à rede e leio que é um dos problemas ambientais mais sérios da contemporaneidade, causada pelos gases tóxicos liberados na queima de combustíveis fósseis, carvão ou petróleo. Após a sujeira da combustão ganhar a atmosfera, parte dela reage com o vapor d’água e outros componentes em suspensão, quando os gases poluentes transformam-se em ácidos, caindo por ocasião de tempestades, neblinas e nevoeiros. Embora expressa na ficção filmada em 1982, o livro que deu origem ao roteiro, de autoria de Philip K. Dick, foi lançado em 1968 com o título Do Androids Dream of Electric Sheep? Entretanto, o problema é pesquisado na Europa desde o século 17, ganhando fama na década de 60 (do século 20), com o declínio do número de peixes em lagos daquele continente: tem – a chuva ácida - o poder de destruir florestas, acabar com os nutrientes do solo, matar a vida aquática e, lógico, prejudicar a saúde humana.


Será essa vontade, de tomar água de chuva, uma necessidade de ligar-me aos elementos da natureza, numa inconsciência holística, numa comunhão telúrica, numa vontade de esvair-me com a água, de descer aos infernos (as regiões subterrâneas) e renascer, fênix pós-moderna, replicante inconformado com a mesmice amém?


Preciso tomar água, muita água. Os rins não funcionam direito, pedreira, causa ou efeito da abstenção aquosa, ou líquida no geral... Se fosse água da chuva o líquido ingerido, faria tão bem quanto às baterias de minha infância? Mas, se essa chuva for ácida, ficarei mais empedrado, contaminado, modificado, células multiplicando-se desordenadamente, organismos buscando romper a barreira da pele, ossos esfarelando-se, olhos cegos, tapete de pelos e cabelos forrando a habitação?


A água, então, pode ser droga, também. Alterar as funções do organismo. Em vez de ajudar, contaminar. O que, aliás, não precisa ser esperado de todo esse processo poluição / ascensão da mesma / descida em forma de chuva: reza a lenda que não existe nem uma gota d’água livre de contaminação após as bombas atômicas que arrasaram Hiroshima e sua irmã no horror... Nem o famoso Aquífero Guarani, subterrâneo, escapa a esta sina. Hodierna e hedionda.


Já não tenho vesícula biliar; meus dentes foram substituídos paulatinamente, ao longo da vida; por conta de duas hérnias inguinais ganhei uma tela de metal na região subcutânea abdominal; meus olhos são protegidos por lentes, por hora em armações, mais um pouco e colocadas diretamente no globo ocular; meus ouvidos apitam diuturnamente, em breve requerendo intervenção cirúrgica; minhas pernas cambaleiam, exigindo pesquisa de labirintite, meus... deixa pra lá.


Melhor colocar um chip, ou mais, e transformar minha ficção em realidade, andróide também, ou semi-andróide, a trabalhar mais um pouco, a aproveitar o que foi armazenado no cérebro (que teima também, o safado, em negar informações). Eu, new-andróide, ao contrário da história contada em Eu, Robô, parto do humano para o quase humano, na esperança de vivenciar o ano 2019, se as profecias catastróficas não se concretizarem...


........


Pesadelo. Acordou sem saber mais quem era, se o Eu da voz narrativa ou se alguma outra voz, daqui ou de lá, nascido de mulher ou criado em laboratório. Admirável mundo novo...

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Lupanar (Marcelo Lamas)

Na época do cursinho pré-vestibular fui com um amigo numa festa. Dentro da balada, perto do bar, havia um grupo de mulheres. De belas mulheres. Uma delas era sósia de uma atriz que era a bola da vez da Globo, hoje seria uma Isis Valverde. Eu fiquei observando e fiz uma aproximação. Fiquei um tempo ali perto, ouvi algumas coisas que elas falavam em alto tom. Aparentemente estavam ali só para curtir a festa. Puxei conversa, falei pra sósia que ela era a mais bonita ali presente. Ela agradeceu e retribuiu com um beijo no meu rosto. O meu amigo ficou espantado. Queria saber o que eu tinha dito e, quem sabe, repetir aquele golpe certeiro com outrem. Eu não respondi. Idiotice de adolescente. Mas, falei pra ele que, pelas evidências, aquelas meninas trabalhavam em alguma casa de tolerância.
A minha desconfiança virou certeza numa noite que cheguei num lupanar, numa despedida de solteiro - hoje em dia as despedidas não acontecem mais. Mal entrei, já vi a sósia sendo o centro das atenções, cercada por um monte de admiradores. Depois que diminuiu o assédio, me dirigi a ela chamado-a pelo nome, que eu deduzira ser ‘o de guerra’. Foi como se eu tivesse dito uma senha. Ela saiu do meio dos elementos e veio conversar comigo, rapidamente, pois ela estava a trabalho e eu não tinha cara e nem jeito de quem pudesse pagar pelo seu tempo.
E assim aconteceu noutras vezes que fui noutras despedidas de solteiros - como o pessoal casava naquela época, acho que nem tinha tanta igreja pra dar conta. Eu chegava, a sósia vinha me cumprimentar, trocava umas palavras e depois voltava ao seu trabalho de dançarina, performista e atendente sentimental.
Como eu sempre chegava com algum amigo, estes achavam muitíssimo estranha aquela minha intimidade com a sósia. Queriam saber detalhes daquela amizade. Acredito que muitos do nosso meio achavam que eu era namoradinho da meretriz. Acontece que eu era já um universitário e como tal, não teria como manter um relacionamento com uma profissional, que vivia da arte de amar, o que quebraria uma antiga lei da economia.
Mas a desconfiança deles aumentou, numa vez que chegamos lá, a sósia cumpriu o protocolo de sempre, mas pegou a minha comanda e devolveu-me com um carimbo de PAGO e ainda trouxe uma Coca-Cola com gelo. E aí a imaginação deles foi longe. Que tratamento VIP era aquele? E justo da profissional mais famosa de Springfield do Sul? Eu só ficava me esquivando. Nunca disse a verdade.
Todo aquele tratamento começou numa noite de pouco movimento em que ela me entregou seu número de celular num guardanapo. Vez por outra, quando vinha algum forasteiro e me perguntava sobre a vida noturna, eu passava o contato da acompanhante.
Aquele comportamento dela nada mais era que um singelo agradecimento pela indicação dos seus serviços. Se eu contasse, os meus parceiros iriam me acusar de cafetinagem, que até crime é.
Por esse motivo, até hoje tenho relutância em usar qualquer botão da camisa aberto e também me recuso a usar qualquer tipo de pulseira ou corrente de metal no pescoço.


Por Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Sotaque Italiano (Marcelo Lamas)

A minha namorada é cinco centímetros mais alta do que eu. Ela nega e diz que são apenas dois. Esta diferença a favor dela nunca foi desconforto para mim.
Percebi que, com o tempo, ela foi gradativamente reduzindo o tamanho dos seus saltos. Hoje, costuma sair praticamente ao nível do mar.
Você já deve ter visto aquela situação em que o homem vai a algum lugar sem a sua respectiva e, ao voltar, é recebido com ironias do tipo: “Onde você estava tão arrumadinho assim?” ou “Pra que tanto perfume?”.
Comigo o problema é outro. Posso aparecer vindo do futebol, do trabalho, da academia, de uma viagem ou de um evento social que exija traje alinhado. Não serei alvo de alfinetadas por causa de vestes ou odores.
O meu drama é outro, uma variável distinta: “Topetinho alto, hein?!” ou “Sim, colocou o topete lá no teto, né?!”.
E tudo se potencializa com um sotaque que aparece repentinamente, fazendo-a parecer uma imigrante italiana recém saída do navio.
E se eu tiver usando meu sapato com salto interno que dá um ganho de seis centímetros a coisa piora muito pro meu lado.
Se eu aparecer na casa dela com um moicano no estilo do Neymar é demissão na certa.
Se bem que ela disse que acha o camisa 11 bonito. Ela também elogia muito o Zezé di Camargo, vai entender.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Para os que amam gatos (Sônia Pillon)

Nem todos gostam de gatos. Há os que os
detestam e não suportam a ideia de ter um
bichano por perto. Alguns chegam ao extremo de
odiar os felinos, a ponto de maltratar, torturar
e até matar, de fome, a pauladas, afogados... O
grau de crueldade e as insanidades humanas são
inúmeras, e não cabe nesse momento enumerar.


Afinal, o papo aqui não é para os que odeiam
felinos, mas sim, para os que amam gatos! Sim,
porque não existe meio termo quando se trata
desses animaizinhos de pelo macio e miados
manhosos. Isso porque dificilmente um gato
provoca sentimentos de indiferença nas pessoas.


Poucos conseguem manter o olhar de um
gato por muito tempo. Geralmente as pessoas
desviam o olhar primeiro, desconcertadas. Pode
ser perturbador ser olhado de uma forma tão
penetrante, como a desvendar mistérios...


Os antigos egípcios consideravam o gato uma
divindade, de tanto que admiravam suas
qualidades de estrategista, raciocínio rápido e
agilidade, até para eliminar os ratos. No tempo
dos faraós, gato era sinônimo de extrema boa sorte.


Na Idade Média, durante a “Santa Inquisição”
dos católicos, os felinos eram associados às
feitiçarias. E portanto eram queimados, como
as bruxas. Mas eles seguiram em frente e se
proliferaram pelo mundo...


A altivez característica de um gato aparenta
nobreza, com um toque de segurança. Seus
movimentos estratégicos e seu porte transpiram
independência. E mesmo que você o alimente e
o mantenha com você, não se engane: ele estará
sempre no comando!


Egocêntricos, manhosos, dorminhocos,
preguiçosos, traiçoeiros... Não faltam definições!
Gatos adoram se adonar de um canto da casa que
você considera seu, como um sofá, ou a cadeira
mais cobiçada da sala. Mas não fique chateado.
É uma característica deles. Eles não tem como
evitar...


Apesar de parecerem tão mimados e birrentos
-com suas unhas afiadas, sempre prontas para
darem o bote, se forem contrariados - eles
também podem ser adoráveis, afetuosos e fiéis
com seus donos, reconhecidos pela casa, comida,
banhos, pet shops e tudo o mais... Ou seriam eles
os “donos do pedaço”?...


Outra dica: assim como os cães, se você adotar
um gato abandonado, tratá-lo, alimentá-lo,
cuidar de sua saúde e higiene, der toda a atenção
e carinho, ele certamente saberá retribuir! Pode
ser a companhia ideal para quem vive sozinho,
por opção, ou não.


E nunca se esqueça que ter um gato de verdade
não é como ter um bicho de pelúcia! E que
adotar um animal de estimação implica em
responsabilidade. Você não pode simplesmente
acordar um belo dia e decidir jogar o seu gato
fora, como se fosse lixo, caso se canse dele ou
decida viajar... Nesse caso, melhor deixá-lo livre
para procurar outro lar. Sempre haverá alguém
que adorará ter a companhia dele por perto. Para
os que amam gatos, sempre haverá um lugar
reservado, na casa e no coração.


Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC), Brasil.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sigilo (Marcelo Lamas)

Já fazia um bom tempo que ele estava à procura de alguém para ter um relacionamento definitivo. Recentemente até tinha ficado com algumas meninas, mas quando as conhecia de perto, a coisa não andava, sempre aparecia alguma incompatibilidade de gênios ou, simplesmente, não rolava a química.
Mas naquela noite ele saiu sem expectativa alguma, com uma turma de amigos. Nem de carro ele foi, descolou uma carona.
No barzinho, com música ao vivo, o clima era bom, com proporção altamente favorável com muitas mulheres por metro quadrado. Ele percebeu uma cruzada de olhares com uma morena. Mas descartou de cara qualquer possibilidade, pois com tantas opções, ele menosprezou seu instinto apontando para a morena, pensou que não seria a primeira abordagem que iria vingar. E, afinal, ele não tinha saído para procurar alguém.
Com o decorrer da festa, ele percebeu que a morena despachara supostos interessados durante toda a noite e continuava por ali. Assim, ele resolveu fazer uma aproximação e puxou conversa. No meio do assunto, ele questionou:


- O que você faz?
- Sou daqui mesmo.
- O som está muito alto, acho que você não entendeu minha pergunta, o que você faz?
- Ah! Sou funcionária pública.
- Legal, eu sou engenheiro, trabalho numa indústria.
- Poxa, engenheiro! Você deve ser bom em matemática, né?
- Bom, tive que estudar bastante. Mas, você faz o que especificamente? Indagou ele.
- Trabalho pro governo do estado.
- Na saúde?
- Não. Não sou enfermeira. Vou pedir mais uma bebida.


Chamaram o garçon, tomaram mais uns drinks, voltaram a conversar descontraidamente.
Ele perguntou:


- Como você veio para a festa?
- Vim de carro.
- Você pode me dar uma carona?


Ela desconversou, aproveitou que uma amiga vinha passando, enfiou o braço nela, deu um tchau apressadamente e vazou da festa.
Na semana seguinte, falaram-se por telefone e combinaram encontro num bar.
Ele estava encucado. Por que ela tinha ido embora daquele jeito acelerado, fugindo? Por que ela não disse qual profissão exercia?
No fundo ele estava com medo que ela fosse professora de educação física. Pois ele já tivera um affair com uma professora no passado e o namoro não emplacara devido ao ciúme, pois além de trabalhar em uma escola pública, aquela professora também era personal traineer numa academia “cheia de homens se exibindo”, como ele dizia. Será que o filme se repetiria?
Depois da enrolada inicial, ele indagou:


- Em qual área você trabalha?
- Segurança Pública.
- Você é escrivã?
- Não sou delegada.
- Delegada?! Que legal. Por que você não falou antes?
- Porque a profissão exige que eu seja discreta. Aproveitando, quero pedir-lhe desculpas, naquela noite eu estava a fim de ficar com você, mas prefiro agir com mais parcimônia. E Também fiquei com medo de lhe dar uma carona logo na primeira vez, pois a gente nem se conhecia direito.


Até o fechamento desta edição as histórias dos dois permaneciam cruzadas.


Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com