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sábado, 19 de janeiro de 2013

Mulher Ideal (Vana Comissoli)

mulher ideal

A noite estava vazia e ainda assim eu caminhava entre os espasmos do sono. Procurava por que a insônia da busca não me permitia dormir. Atravessava as madrugadas implorando ao cansaço que me levasse embora.

Ela também caminhava. Somos bobos, quando alguém faz alguma coisa que fazemos, imaginamos que o objetivo é o mesmo, que buscamos as mesmas respostas. Ledo engano!Mas só fiquei sabendo disso depois. Acreditei que era um sinal dos deuses e que seria o encontro da minha vida.

Exatamente igual aos meus sonhos secretos e inconfessáveis, ela apareceria do nada, despida de todo conformismo e aceitação, mas me sujeitando um pouco a um aparente distanciamento de modo que eu a quisesse além do perturbador e definitivo primeiro olhar.

Paramos no mesmo sinal fechado e a noite vazia permitiu que eu sentisse seu cheiro que passou a ser todos os cheiros para mim e grudou na minha pele como tatuagem. Deixei que começasse a travessia à minha frente para poder reconhecer suas pernas que se não eram perfeitas, eu não vi. O balanço de seus quadris que lembravam uma cobra deslizando na água imersa em seu habitat, mentirosamente desatenda.

Não sei se choveu ou eu me acordei inteiramente suado quando o dia atrapalhou tudo e dormiu a noite em mim.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer a não ser caminhar pelas ruas desertas, com o vento uivando gemidos de prazer através de mim enquanto a buscava em outra esquina e esperando outro sinal vermelho.

Foram longos dias arrastados, sonhando, imaginando até meu mundo se esvaziar ainda mais do que estava, recém-saído de um casamento estéril e sem colorido algum. Essa era a mulher que me buscava enquanto eu a buscava também, sem sabermos que as vias estavam prestes a se cruzar para todo o sempre, costurava em meus pensamentos.

Afinal ela disse que não podia mais lutar contra o destino e que havia lido nas cartas, nos oráculos, nas vias biliares que deste destino não poderíamos fugir. Minha vida se encheu de todos os saborosos e jamais antes provados desatinos da paixão.

Não havia canto, ou esconderijo que não tivéssemos usado, nem posições que não tivéssemos experimentado, para me convencer definitivamente que estaríamos indissoluvelmente ligados para sempre.

Eu queria a paixão, a loucura da espera e o telefone sugando minha fala e audição sem parar. Descobria que, antes dela, eu não sabia exatamente o que desejava. Entreguei meu corpo, minha mente e todo meu ser, era minha jura de casamento fiel até para além da morte.

Ela correspondia em abraços escorregadios, em risadas de jogar a cabeça para trás, expondo o pescoço que me fazia desejar ser vampiro e transformá-la em escrava minha. Sanar a despudorada solidão, os gemidos noturnos e sombrios que haviam habitado sob meu teto.

Planos e planos foram tecidos pelas mãos dadas, pelos beijos que se enfiavam em minha boca sempre sedenta, e podia penetra-la me escondendo do mundo e de mim mesmo, mas jamais dela.

Poderia até mesmo compor versos que falassem as bobagens do amor e do vinho tinto sob o corpo batendo no copo e se derramando, quando a tive por sobre os pratos de comida cheia dos meus apetites infindáveis. Talvez se devesse ao fato de há muito tempo ter deixado de ser jovem e ter decidido que poderia sonhar a vinda da mulher ideal, caminhando lenta e suavemente para mim, seu único porto de chegada.

Foram duas semanas de plenitude e realização. Eu era eu e ela, isso me dava uma nova dimensão de mim mesmo. A unidade da junção secreta e prometida, afinal.

Quando ela se ausentava eu cheirava suas roupas e me embriagava de visões de nossos corpos rolando na grama alta e desajeitada, ou sobre o piso frio e úmido da cozinha. Corria ao telefone, que se tornou fiel escudeiro e dizia que se apressasse por que estava sufocando sem seu hálito para respirar. Ela apenas sorria e despejava mais sedução que eu bebia avidamente, sedento de insanidades.

Duas semanas...

Assim, como quem acha tudo muito natural, escudada em explicações metafísicas e outras muito racionais, ela virou as costas batendo a porta, enquanto eu urrava a minha dor seiscentas mil vezes aumentada. Ficou apenas um buraco parado e grudado na entrada que se transformara em saída.

Deixou para trás seus pedaços em panos coloridos e cremes com a maciez de sua pele.Acreditei que eram pedrinhas demarcadoras do caminho de mim e que voltaria quando a noite novamente a levasse a procurar.

Voltei a caminhar pelas madrugadas sem som e de tacões duros. Ali a tinha encontrado e voltaria a encontrar. Realmente aconteceu. De longe percebi seu perfume de fêmea e o meneio dos quadris de serpente. Corri, na certa estaria esperando abrir o sinal vermelho para atravessar a rua. Estava.Ao seu lado, com olhos desvairados de paixão havia um homem que jamais vira e que, com certeza não era eu. Saiu de braço com ele, de vez em quando se pendurando em seu pescoço e eu podia quase sentir o gosto de seu hálito fora do meu.

Ao meio dia, com o sol a pino me torrando os miolos quase fritos por pensamentos circulares, compreendi que definitivamente tinha encontrado a minha mulher ideal, por que sofrer e não ter era tudo que eu realmente desejava.

Contei os dias e os intermináveis minutos do meu desespero, fingindo que não a buscava e que não passava de uma vadia qualquer que caçava macho escondida na noite. O louco era eu idealizando coisas inverossímeis dentro de um corpo de mulher.

Ela entrou como se nunca tivesse saído e jurei que não a abraçaria e nem comeria de sua boca. Disse algumas grandes e figurativas verdades sobre os humores oscilantes dela e a xinguei de mil impropérios enquanto arrancava sua blusa e mergulhava em seu ventre famélico.

Mais duas semanas e a porta foi aperta para o recorte negro de seu corpo indo embora. Desta vez para sempre, jurei amaldiçoando meus sonhos realizados. Procurei todos os castigos e focos de tortura possíveis para me certificar que descobrira a verdade: eu não a amava, apenas buscava alguém que satisfizesse minha interminável vontade de sofrer e de me sentir miserável.

Uma mulher que não caminhasse como cobra, não cheirasse como fêmea de olhos fugidios e vacilantes, que ficasse ao meu lado todos os dias na comunhão rotineira do pão sobre a mesa jamais seria minha mulher ideal.

Aprendi que o ideal se toca com a ponta dos dedos e deixa de ser, quando se enconcha nas mãos. O ideal é aquilo que sempre foge, sempre corre e volta quando começamos a esquecer de sua face. Mas comigo não. Eu seria muito melhor e maior do que um sonho nascido na adolescência,que não pudera tocar nem com a ponta dos dedos no tempo certo de fazê-lo. Eu amadurecera neste cadinho de mulher. Eu estava curado.

Contei os dias e os miseráveis minutos para saber quanto faltaria para as próximas duas semanas.

Vana Comissoli

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carência (Marcelo Lamas)

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para
resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma
mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e
da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com
admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de
casal na parede.


Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-
se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu
marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no
face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.


Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser
cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era
do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e
bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.


Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a
situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa
cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia
muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana
remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de
pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No
estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.


Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer
que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.


Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil
esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.


Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de
Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”. 


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A ferocidade da beleza (Vana Comissoli)


             Eu a conheci de uma maneira tão prosaica que jamais poderia imaginar que se tornaria parte de mim e que sem sua presença em minha vida eu seria sempre metade.


            Era um dia quente, monótono, do tipo que eu denominava tirânico, seu único objetivo era me obrigar a viver. Nesses dias em que sair da cama, acordar, trabalhar, comer, eram atos desgastantes que levavam embora minha paciência e habitual acomodamento à respiração automática. Não havia nada que eu pudesse fazer com ela, simplesmente existia e eu me submetia a contragosto, mas nunca me passara pela cabeça, nem nas noites mais insones, que eu pudesse simplesmente abortar o movimento sistêmico dos pulmões.


            Era meio dia e não me restava outra coisa a não ser fugir do sol a pino me escondendo sob as marquises por duas quadras até chegar ao restaurante mais próximo. Para meu azar era o mais caro, mas estes dias são sempre sem sorte e por isso não me cansei reclamando. Agora ter todas as mesas ocupadas foi demais!


            No fundo do restaurante, perto dos eflúvios gordurosos e odientos da cozinha tinha uma mesa com uma mulher de costas para a entrada. Dane-se, pensei contra minha solidão arraigada, sentarei lá mesmo. Dispus-me a caminhar como quem tem que andar muito rápido sobre areia movediça, senão afunda.


            Pelo tamanho da cabeleira já vi que a mulher deveria ter uns vinte centímetros a mais do que eu, tinha cabelo para dar e vender. Poderia cobrir facilmente minha careca incipiente com a qual eu brigava todos os dias. Já não bastava ter cara de fuinha, boca de chupar ovo e um nariz a la Gerard Depardieu?


            Adoro cinema. É minha grande oportunidade de viver, posso mergulhar num filme com muito mais facilidade do que mergulharia numa piscina e então ser quem eu quiser e ter as mulheres que desejar. Viver o que jamais me seria permitido. Não estou reclamando de nada, apenas pensando no meu perfil que acabei aceitando: uns são favorecidos, outros não. Assim é e brigar só faz tudo se tornar ainda mais difícil.


            Esta minha paixão me deu conhecimento sobre todos os atores e atrizes, meus verdadeiros e fiéis amigos, uma fidelidade bem próxima da real, já que mudavam de nome, histórias e sentimentos, com o mesmo desprendimento com que meus amigos de carne e osso me deixaram para trás. Eu não era uma companhia muito agradável, fazer piadas para compensar seria uma humilhação que não me facilitaria em nada. Me deixaria humilhado. Ser o engraçadinho da turma me traria apenas vergonha e medo do ridículo. Eu já era ridículo o bastante.


            Aquela mulher era a encarnação perfeita da desaparecida Sophia Loren. É eu também tinha disso, gostava das antigas. Era como se o tempo as tivessem levado embora e não a minha palidez de espírito. Enfim, era a minha Sophia. Pedi licença e sentei à sua frente.


            Foi difícil levantar-me e servir um prato no bufê farto. Fiquei pensando qual comida a Sophia julgava conveniente para um almoço que tivesse um pouco de refinamento que eu não tinha. Era um artigo que não precisava me dar ao luxo de conquistar, nunca repartia minha mesa.


            Quando voltei ela levantou uns olhos de Elizabeth Taylor, juro que eram lilases, e sorriu. Não sei como consegui me sentar e muito menos segurar o tremor das mãos. Fiquei sabendo que seu nome era Darlene e que era médica. Viera fazer um atendimento especial numa pessoa querida, não costumava frequentar aquela zona da cidade. E passou o almoço todo tagarelando, contando coisas, piscando os olhos e me deu uma alucinação, só podia ser isso, por que imaginei que me olhava de forma a me enxergar. Mulher alguma até esse dia fizera isso, meus problemas sexuais eu resolvia chamando um Sex Delivery e mal acabava descartava a sem nome com uma gorjeta gorda que a fizesse voltar sem bater boca com a dona do cafetinagem.


            Mas Maura me enxergou. Ao se despedir me estendeu seu cartão e pediu que eu ligasse para ela, gostaria de me conhecer melhor por que era muito simpático. Um homem natural que não tentou me seduzir foram suas últimas palavras.


            O sol não me torrou, as horas deslizaram e os colegas não foram tão distantes. Tudo se coloriu e eu não podia acreditar que aquilo acontecera comigo, alguma coisa estava errada e tinha certeza que Maura não era cega e nem surda.


            Depois de tomar três vidros de Rescue, esse abençoado floral que era meu socorro, eu liguei. Nem sequer fiquei mudo como via nos filmes, falei alto e forte. A convidei para jantar e ela aceitou.


            Eu nunca fora à mãe de santo fazer trabalho e nem acendera vela para santo, então aquilo só podia ser uma paranoia que tomara conta de mim a tal ponto que eu misturava verdade com imaginação. Só o filé Chateaubriand à minha frente e o caldo delicioso rolando na minha língua me deu certeza que estava acontecendo realmente. Maura entrava na minha vida com seu maravilhoso perfume de folha de limoeiro.


            Foi tudo muito rápido, logo sabia o quanto era desesperançada do amor, como fora usada por sua aparência que odiava e me encontrar fora um recado dos céus que confiar em alguém ainda era possível. Ser feliz também era. Fui estonteantemente feliz.


            No fim de ano, pela primeira vez, fui à festa oferecida pela empresa onde trabalhava na gerência administrativa. Quando apareci de braços com meu mulherão, todos os olhos caíram sobre mim, as bocas ficaram entreabertas e teve gente deixando o queixo cair no chão.


            Maura estava deslumbrante. Até o diretor veio me cumprimentar e pedir que apresentasse minha companheira. Não tive dúvidas:


            - Dr. Gonçalo, lhe apresento minha noiva.


            O homem não soube o que responder e Maura depois de lhe apertar a mão, beijou-me no rosto, me fazendo um carinho na face. Era a glória. Eu estava redimido de todos os miseráveis anos passados de minha vida.


            Naturalmente ela se transformou no centro de tudo. Nada havia sem Maura, nem mesmo eu existia. Eu era ela. Passei a caminhar com sua firmeza, a colocar opiniões como quem acredita no que diz, sair à noite sem medo e conduzi-la pela cintura na frente de todos. Pelos ombros seria bem complicado, então pulei este impedimento.


            Após três meses ela propôs se mudar para minha casa. Não podia acreditar, ela me queria de verdade e nem sequer a deixei carregar a menor das caixas, se pudesse até a ela eu carregaria.


            Fui promovido, perdi o medo de mostrar que não era o parvalhão que pensavam, eu entendia do meu trabalho e o fazia bem, muito bem. Meus colegas passaram ir em nossa casa e tínhamos belas noitadas de conversa inteligente e música de primeira qualidade. Maura preparava jantares estupendos e aprendi a comer, a beber bons vinhos e a degustar um verdadeiro Tiramisu, feito com mascarpone legítimo. Se Maura queria mascarpone, ela teria mascarpone. As estrelas, os sapatos, as roupas, as grifes e as férias na Tailândia, pode pedir, eu dizia enquanto ela cortava minhas unhas.


            O sexo foi uma viagem espacial até que Maura resolveu que melhor seria vir por cima de mim. Eu não conhecia luta livre até este momento. Nem grito, tapas e socos na cara. Mas se a fazia feliz... Quem era eu, um quase anão de jardim a contrariar? Não perderia a mulher de minha vida nem que precisasse rastejar.


            Não devia ter pensado isso por que eu rastejei. Ela engordou 10 quilos nos poucos meses seguintes e seus seios me sufocavam, enormes e famintos por comer minha boca. Seu apetite era insaciável e gozava apertando meu membro até me fazer chorar. Ria desbragadamente me chamando de fracote e inútil.


            Mas era Maura...


            Minha casa foi fechada aos meus medíocres colegas e infestada de gente pernóstica que se dizia cult para cheirar cocaína e trepar uns com os outros enquanto eu me enrodilhava no sofá sem saber quem eu era, ou o que eu era.


            Deveria ser miseravelmente banal, não entendia estes rebuscados encontros de prazer, não falava pornografia em francês, não usava o banheiro de portas escancaradas.


            E Maura engordava. Tornou-se imensa, pelo menos era como eu a via, mas os homens na rua, continuavam se voltando para olhá-la. Isso ainda me gratificava. O sacrifício não era em vão e eu tinha Maura.


            Não muito lentamente o sexo acabou, as unhas cresceram, os cabelos caíram mais rápido e voltei a ser calado e distante. Eu tivera Sophia, virou obsessão saber onde ela se escondera. Comprei todos os presentes caros e finos que eu imaginava que a agradassem, os jogava num canto até sair com as joias penduradas nas orelhas e nos dedos para lugares e reuniões onde eu não era admitido.


            À noite eu sonhava com a Maura sentada na mesa do restaurante me dizendo como eu era simpático e quanto queria estar comigo. Deixei que esses sonhos me sustentassem até que se tornaram pesadelos. Ela estendia os braços sobre a mesa, tirava nacos de minha carne e me engolia enquanto um fio de sangue escorria do canto dos lábios.


            Em algum lugar minha culpa deveria estar me espiando e precisava acha-la, me ajoelhar e pedir perdão. Então Maura voltaria para mim com seu riso cheirando a folhas de limoeiro.


            A cama está vazia nesta manhã chuvosa, a chuva bate na vidraça como lágrimas caindo nos óculos. Procurei Maura por tudo, quem sabe a vontade de me trazer café retornara e ela estava na cozinha preparando as torradas do jeito que gosto? Quem sabe escovando os dentes? Quem sabe lendo na sala? Quem sabe? Quem sabe onde ela está?


            A porta do cofre onde guardava as joias estava aberta e ele era uma boca de lobo vazia e escura. Os armários estavam pelados, as sapateiras descalças e eu... Eu estava à poucos centímetros da loucura.


            Fui à sacada sentindo o peito respirando como sempre, naquele mesmo ritmo que não podia mudar apenas permitir. Olhei para baixo e ainda pude ver o carro, último presente que dera à Maura, dobrando a esquina.


            Mudei de emprego, de cidade, procurei a mais obscura que pudesse me engolir e sumi de mim mesmo. Não via televisão, não lia jornais, comia feijão com arroz e um naco de carne sem gosto num boteco qualquer que me obrigava a viver.


            Foi sem querer, foi um relance que me fisgou. No jornaleiro, um periódico aberto puxou meus olhos. Lá estava ela, linda, grande, a cabeleiras lustrosa refletindo sol de piscina. Na cadeira ao lado um homenzinho ridículo, meio careca, meio gordo, de idade a meio, sorria feito um boi de presépio.


Vana Comissoli

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mensagem (Thiago Daniel*)

Eu queria dizer a ela, mas o tempo é o bote de uma cobra peçonhenta.

Sempre fui um cara “na minha”, falo pouco, jogo pouco, e, em jogos de coração, sempre fui o mais cabação.

Ela sentava ao meu lado, na sala da 6ª série 02. Terceira cadeira.

Acho que ela nunca olhou para mim. Eu queria chamar atenção, juro, sempre quis, mas nunca tive sequer coragem. Não havia santo fazedor de olhares, que a fizesse voltar sua atenção a mim.

Dessa vez era diferente, questão de honra, estava convicto que agora ela me olharia. Precisava disso. Pensei ser discreto, com leves estalos de dedos, uma tossezinha falsa. Nada.

Bolei planos. Era preciso enviar minha mensagem de qualquer jeito. Pensei no Código Morse e comecei a bater compassadamente com minha caneta na carteira. Eu não sabia como funcionava tal código, então logo percebi que não surtiria efeito, e mesmo que eu soubesse tal mensagem, duvido muito que ela atentasse ao meu comunicado. Desisti.

Lembrei de outro velho código dos índios americanos, descoberto pela minha pessoa, assistindo filmes de faroeste com meu pai, os sinais de fumaça. Logo pensei em pedir para o professor licença para ir ao banheiro, assim procuraria algo pra colocar fogo do lado da janela da nossa sala. Ela olharia e pronto, nosso amor estaria a salvo. Logo desisti da ideia, primeiro porque o professor não me deixaria sair da sala em meio a uma prova, segundo que se alguém me visse colocando fogo, dentro da escola, em qualquer coisa que seja eu seria expulso.

Não havia mais tempo. Peguei um pedaço de papel e decidi escrever nele. Em velocidade desumana, pelo menos para mim que sempre escrevi muito lentamente, rabisquei o que eu tinha a dizer. Foram os cinco segundos mais intensos da minha vida. Lembrei das festas juninas, alguém sempre entregava os bilhetinhos de amor para o destinatário, mas agora era diferente, não havia esse tempo, não havia ninguém entre nós. Nem pombos correio. Amassei o bilhete e joguei aos pés dela torcendo para ela ver e catar o papel.

Tarde demais, o papel rolou entre os pés do professor. Estava de costas para mim e de frente para ela. Ele pegou a prova dela, ela se levantou e foi embora.

Estava acabado. Se ao menos eu fosse um tanto mais corajoso.

Ao fim da prova, peguei o bilhete debaixo da cadeira dela. Ele a faria olhar para mim pela primeira vez, talvez até arrancasse um sorriso de seu rosto. Um sorriso dela só para mim.

Abri o bilhete para ler uma última vez antes de jogar no lixo. Li, rasguei e o joguei fora, mas as palavras ecoariam na cabeça por um longo tempo. Aquelas que salvariam o meu amor.

“Guarda esse livro, o professor está te vendo colar”.

sábado, 8 de setembro de 2012

Eu aceito (Thiago Daniel)

Eles se olharam
Por algum tempo
Depois se beijaram

Logo se encontraram
Em um estado
Nada esperado
Era como o céu e o seu lindo sol
E o anel que ele lhe deu
Brilhava
Enquanto na mão dela ele colocava
Então começou
Uma bela canção
Ele a pegou pela mão
Como não devia deixar de fazer

“Vamos dançar”

Eles dançaram a noite toda
Mesmo sem saber
Dançar direito
Ele dava um passo
Ela dava um, dois
Pisavam nos pés
Ambos sem jeito
Mas se quer saber
Levar pisão no pé
Se for pra ser feliz
Até eu aceito

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Bloody Mary (Fernando Bastos)

Se o simples bater de asas de uma borboleta causa modificações no ar, podendo gerar uma tempestade no Pacífico, imagina o que poderá acontecer à Humanidade se eu me aproximar daquela mesa e me declarar?


Não, não estou louco. O “efeito borboleta” existe, e se você olhar para trás, verá que talvez o que o levou a estar onde está, foi motivado por um evento aleatório, independente de suas aptidões ou carências. Um mendigo que lhe pediu uns trocados, evitando que atravessasse a rua e fosse atropelado por um motorista bêbado; uma discussão tola que o fez mudar de emprego, e assim se tornar o dono do próprio negócio; um esbarrão no supermercado com aquela mulher que anos depois se tornaria a mãe de seus filhos. Se Alois Schicklgruber, um funcionário austríaco de alfândega não tivesse conhecido Klara Poezl, ele jamais a teria contratado para trabalhar como doméstica, não teria casado com ela, e jamais teria feito um filho nela que seria chamado Adolf Hitler.


De modo que não posso errar. Tenho que decidir enquanto há tempo. Um cristão crê no “livre arbítrio”, que temos a liberdade para escolher entre o bem e o mal. Já um budista acredita no “carma”, somos resultado de ações em uma vida passada. Há quem acredita em destino, de modo que nada que eu fizer tem importância, pois assim como as Moiras fiavam o destino dos deuses e dos homens, o meu também já está traçado. Façam suas apostas. Não sou cristão nem budista, não acredito em destino, sou um “sem religião”, e, se de fato existe um Deus, que nos deu liberdade de escolha, bem que ele poderia ter nos programado para apertar o botão certo sempre que estivéssemos diante de uma encruzilhada, como estou agora, de sorte que nunca olhássemos para trás arrependidos.


Seria bem mais fácil.


Tudo bem, se deve ser assim, vou em frente. A decisão é minha, estou a menos de dois metros da mesa encimada por garrafas, copos de cerveja e taças de batidas; há poucos obstáculos entre mim e ela. Vejo seus dedos longos e finos tamborilarem a taça com um líquido verde. Ela sorve deliciosamente a bebida pelo canudo, fazendo biquinho, e de perfil, seus lábios formam um coração perfeito. Quase morro ali mesmo. Para forçar a passagem, minha mão afasta um blazer escuro, meu braço raspa numas costas brancas, dentro de um vestido de decote generoso. Não sei se terei êxito; se ela se interessará por mim. Tomara que  goste de Blood Mary.


Estou entorpecido. O som do bar é um zunido de abelhas, só lembro que antes tocava “Wish you were here”, parecia dedicada a nós, meu amor, agora o som das conversas se esvaece como bolhas de sabão, não ouço mais a banda tocando, não ouço mais nada, só vejo você, sorrindo, ladeada por imagens foscas, corpos que tremeluzem e dançam semelhantes a fantasmas.


Sento ao lado dela. Ainda bem que havia uma cadeira vazia. Coração a mil.


- Oi, aceita um gole desse Blood Mary?


Ela olha assustada, quem é esse maluco que senta ao meu lado sem mais nem menos? Mais um bêbado perdido, deve ter pensado.


Eu me aprumo, já que comecei vou até o fim.


- Estou aqui por causa de seus olhos. Sonho com eles todas as noites, e nem a conhecia. Ou melhor, sonho com você inteira. Você é quem me visitava nos sonhos, por isso vim aqui para dizer que finalmente a encontrei.


Ela bebe mais um pouco do líquido verde, limpa com um guardanapo o canto da boca, olha para a amiga da direita, ri sem entender nada. Eu continuo: - Faremos um filho que mudará o mundo; ou descobrirá um remédio para a cura do câncer ou será o presidente que irá acabar com as guerras. - Agora eu falava quase gritando, e penso que talvez eu a tenha assustado um pouco, porque ela inclinou o corpo para trás, quase caindo da cadeira. Segurei-a para evitar o tombo. - Viu? O destino da Humanidade está em nossas mãos, somos borboletas prestes a mudar os rumos do planeta.


Ela ouvia-me com a boca levemente aberta, de modo que os dentes que apareciam, muito brancos, contrastavam com os lábios vermelhos, numa expressão que não identifiquei se era de medo ou de pena. Um fantasma ergueu-se da mesa, levantou o braço e chamou alguém. Dois gigantes de ternos pretos me levantaram da cadeira como se eu fosse um saco de lixo e fui jogado para fora, na calçada. Em seguida, levei um chute no meio da boca de um sapato que não sei de onde veio. Tive a impressão de ouvir alguém dizer: “namorada”... “ tirar as mãos dela”...


O sangue jorrou da minha boca, enquanto eu tentava desentortar meus óculos e apanhar um dente. Foi melhor assim. Vai que ela aceita, e nosso filho se torna outro genocida.



Fernando Bastos

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

URUBUSERVANDO (Vana Comissoli)

Uma sensação vaga, imprecisa, urubu adivinhando carniça pelo cheiro. Eu senti.
Ele era alto, moreno, de grandes e estarrecidos olhos negros. O cheiro de carniça estava soterrado sob um excitante Mont Blanc que devia custar quase, ou mais, do que um salário da plebe.
Eu sobrevoava os campos primaveris de minha fácil vida. Gostava de encantar, mais precisamente de seduzir, sem saber dos riscos servidos nos canapés de caviar com que me lambuzava nessa promessa de retornos jamais vindos.
Quando cheguei à festa o aroma me alcançou nos olhares famintos de minhas amigas, no ti ti ti que rapidamente foi confirmado ao enxergá-lo. Era ele, tive certeza. Vinha montado no cavalo branco e eu esperava seu beijo fingindo adormecida. Não era fingimento.
Envolvê-lo foi fácil, eu tinha todos os ingredientes necessários da receita de princesa. Flores, bombons, mimos... Princesas são tão bobas! Ouvem uma única melodia tocada em cravo secular onde a letra, canto-chão repete: Felizes para sempre...
Assim que pousei sobre ele a carniça exalou. Acontecia nas brincadeiras do amor. Amor, rosa, vermelha, cálice de vinho tinto... Cálice de vinho tinto... Cálice de vinho tinto... branco, uísque, vodka, caipirinha caipira de cachaça, cálice... cálice,,, cálice. Copos... copos... copos... “Pai, afaste de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue”.
No princípio culpei o vizinho que fedia e todos sabíamos, depois meu nariz osfrésico. Pulei para o alerta, deixei rastros de perfume de todos os tipos: reportagens, livros, avisos. Efeitos dos perfumes daninhos. Meu príncipe amava o odor afrodisíaco, hipnotizante, acostumara-se e não via mais a diferença, ou se a via, apaixonara-se por ele, acostumara os sentidos e se encharcava cada vez mais.
Por fim decidi que meu amor soberano o envolveria se eu o exercesse à exaustão. Desenvolvi aromas de carinho, entusiastas, chorosos, lamentosos, impediriam que ele se inebriasse do cheiro de desespero e infâmia.
Fomos deixando os duques e duquesas de lado, tinham começado a respirar fundo quando chegávamos, embora disfarçando, para logo em seguida passarem a usar máscaras protetoras descaradamente.
O príncipe já era quase um sapo disforme e coaxava noites a dentro transformando meu sono de pós prazer numa vigília de temor constante numa guerra ímpia e injusta como ouço no hino de minha terra.
Eu tinha que desistir. O urubu em mim crocitava não. Dizia que carniça tinha lá seu encanto, seu prazer. Quem sabe encontraria vida sob as carnes sanguinolentas, embaixo da aparência pútrida das olheiras. Quem sabe eu...
Não, por mais que ele me mostrasse as delícias de aspirar o odor branco das nuvens eu não podia, não conseguiria me habituar a ele.
Urubus comem carne morta, mas não apreciam se transformar em pasto de seus iguais. Exatamente para manterem a sua, linda e fresca ingerem a repugnante refeição. Eu fazia isso? Era isso que eu era? E a princesa, o castelo, o cavalo branco?
Eu voava, planava sobre tudo, além das nuvens e não me vinha coragem de abandonar a paisagem ruandense de 1994. Era a isso que assemelhava minha visão: facões cortando corpos, sonhos, planos. Cortando e estripando meu príncipe.
Os amigos dele tomaram o lugar daqueles que escolhem melhor seus perfumes e eu planava sobre eles também, cada vez mais alto e durante mais tempo, era a maneira de acreditar horizontes.
O príncipe tomou banho, sentou-se todo príncipe branco com o perfume nas mãos, acreditei em renascimento como uma entrega ao santo da devoção. Havia incenso queimando. Orei a ele que era meu tudo, meu deus particular:
- É tão importante? Mais importante que eu que te amo tanto? Te dou minha vida e meu ar? – Não mais chorosa, perguntei amassada, minha própria pele se desfazendo.
Ele jogou aquele olhar comprido e doloroso que sempre fisgava o perdão dentro de mim. Vi alguma coisa verde dentro dele, muito rápido e logo branqueou. Ronaldo abaixou a cabeça extremamente concentrado, fechou suas cortinas estendendo-me meu aviso de demissão e cheirou a primeira das cinco carreiras enfileiradas como soldados mercenários.

Vana Comissoli

domingo, 4 de setembro de 2011

Necessário (Tiago Nascimento)

Eu só preciso de um instante
tenho tanto pra falar
nada de importante.
Eu só preciso de um romance
que embeveça o olhar
de todos os passantes.

Triste vida burocrática;
muito a se dizer
poucas as palavras.
Doce agonia monossilábica;
saudades de ser
infante, adolescente ou nada!

Eu só preciso de uma chance!
Quero respirar e ter
prazer de novo.
Eu até aceito um novo romance
ou ao menos ver você
de volta ao jogo...

Tiago Carpes do Nascimento; jesuscristohumano@gmail.com