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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Poema Pelo Mundo (Adriana Niétzkar)



Chove,


mas é verão.


Escuta Raul!


Eu sempre gostei da chuva...


mas tinha medo!




O céu muda de cor


e continua sendo o mesmo céu


ainda que de ponta cabeça.




A alma não altera com o corpo;


As pessoas não mudam.


Há pessoas que perdem o medo


de ser-ver.




Quanto mais terras se pisa


mais se descobre a si


não importam os hábitos das mãos


ou as cores nos olhos.


Importa o que faz com sua alma


e a do próximo


e nos próximos.




Sedas não saciam sedes


ou a falta de luz.


Que importa o calor no escuro?!


Com a luz, há sombras.


Mas elas acolhem em dias de sol.




Há sim


meus olhos tem mudado de cor....

domingo, 11 de novembro de 2012

Perspectivas para uma segunda (Adriana Niétzkar)

- Você poderia cortar os galhos da sua árvore?
O vizinho se aproxima do outro até o limite do muro alto:
- Bom dia! o que disse?
- Sua árvore. As folhas dela estão sujando meu quintal.
O vizinho olha as britas através do muro alto, sufocando um pensamento


                                                                                               "quintal?!":


- Folhas... Ah sim, as flores do ipê!
O outro pensa,


                                                                                        "Flores?! mas a árvore está toda amarela..."
E por fim diz:





- Certo. Passei a tarde de ontem limpando meu quintal e hoje está tudo assim de novo, você poderia cortar o galho?




                                                          "Ou eu mesmo posso encostar uma escada"

- Sim. Posso, mas ainda assim o vento pode carregar algumas flores...
- E cortar a árvore?

                                                                                        " Cortar meu ipê? Vou plantar um pé de manga pra cheirar no seu quintal..."


- ahhh... bem, ela logo para de florescer e essas flores são lindas, não são?! passei a manhã admirando elas... eu as deixo sobre meu gramado, veja?!


o vizinho estica o pescoço a contragosto para ver o verde-amarelo do outro:
- Sim, estou vendo...


E lhe dá as costas em um último pensamento.


                                                                                      "Vizinhos"


- Tenha um bom dia!!!
Grita o outro antes de seguir para seu trabalho,


                                                                                       "vizinhos!"


e vai sorrindo para as flores sob seus pés no gramado e em sua calçada antes de caminhar no cimento friu.

                                                      " Que mal ha em ter um pouco de vida nessa cidade tao sem terrra e cor?!"


O vizinho despede-se com um braço meio levantado, sem olhar pra trás, evitando olhar sua brita, mas logo caminha sobre flores na calçada, mal humorado, as pressas para chegar ao lado limpo. Vê o varredor na outra esquina, quando voltar o serviço dele já terá desaparecido.


                                                                                    "Qual a dificuldade em se deixar a vida no campo?"


Alguns pássaros cantantes pousam sobre os galhos amarelos. A rua povoa-se com o frenesi de carros de todas as cores.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Coisas de meninos e medos (Adriana Niétzkar)

Os dois meninos brincavam enquanto anoitecia, um ruído estranho os despertou para os perigos da escuridão:
Melhor ir pra casa...
Por quê? Você tá com medo de fantasmas? 
Sim... 
Você já viu um?
Não... mas existe sim! 
Existe fantasma e medo de fantasma. Quando você tem medo é porque não é fantasma. Quando é fantasma de verdade você não tem medo. Minha mãe que disse!
E daí?!
E dai que se minha mãe disse é porque é verdade.
Não sei não, porque a gente não tem medo de fantasma de verdade, se tem medo de fantasma de mentira?!
Eu perguntei isso pra ela.
E o que ela disse?
Que a nossa imaginação é muito pior que um fantasma de verdade.
humm..
E na hora do sono o segundo menino, iniciado nas artes do mistério, da sua cama, ouvia portas rangerem e janelas sendo batidas. Enfim lembrava-se do que ensinou o amigo e voltava a respirar fora das cobertas.
E, talvez, irritada por seus ruídos não serem suficiente, uma imagem translúcida apareceu. O menino tremia de medo, mas quanto mais o fantasma o apavorava mais ele o negava:
Fantasmas não existem, não exitem..
Menino... você não me engana, se não existo porque tem medo?!
 Para ter certeza de que você não é um fantasma.

sábado, 11 de agosto de 2012

Só caminhando ou, também, cantando. (Adriana Niétzkar)

Não se encantar por quem não se encanta por você. Repete a mente, o mantra que criou. É simples, é saudável,é racional. O coração não é. O coração é um cavalo selvagem atrelado a carruagem da mente. Pode-se segurar as rédias com firmeza e seguir a direção em que se quer. Mas se o condutor-mente se distrai, se olha a paisagem, o cavalo dispara. Alguns aprendem cedo, com o primeiro feitiço a como guiar a carruagem do amar e até desviar os olhos do caminho sem perder o controle; a direção. Mas sempre há sons e sabores que fazem esquecer das rédias deslizando das mãos, enquanto o cavalo dispara. Quando aquele que conduz, sem pensar para que lado o galope o levará, sente o vento nos cabelos vive um instante que é só coração. E quando o cavalo para, por um instante mente e coração, homem e garanhão, se reconhecem pelos olhos. Até o condutor, com mãos firmes, retomar o caminho racinalizado, ignorando o desejo de soltar as cordas e montar em pelo; em galope contra o vento. Mas quando isso acontece, quando a mente deixa-se levar na disparada do coração, nasce um poeta.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

As palavras que (não) devem ser ditas ou escritas?! (Adriana Niétzkar)

Os meninos vasculham os livros da sala de leitura, os folheiam e deparam-se com um do Tezza, pois encontraram ,o único, palavrão no livro: "Deus é um filho da puta!". A frase impressa os perturba, correm ao meu auxilio para ouvir uma reprovação, digo para lerem o livro e eles se afastam incompreendidos. Pois são recriminados ao dizer, mas não ouvem recriminação à escrita. Tento explicar o que o cinema brasileiro não conseguiu. A ficção imita a vida e a vida tem palavrões, ainda que os tradutores substituam todos os “!fuck you” por “filho da mãe”.
Algumas coisas nunca mudam, como na primeira semana da aula de inglês. Ano após ano, eles sempre procuram o embaraço do professor ao pedir a tradução: “O que quer dizer fuck you?” Querem tirar o palavrão de minha boca e eu os inquiro;“então já perceberam que cinema estadunidense também tem muito palavrão?! “Eles não resistem a oportunidade e o teste - “é vai se foder né professora?” - pois é umas das poucas vezes que "podem" dizê-los em sala. No entanto, a escola é um laboratório deles, usa-se toda hora.
Fazer intensivo de palavrão? procure um grupo de adolescentes, eles são quase uma linguagem própria, e esqueça os “filho da puta”, “vai te foder.”.. isso é ultrapassado, de outra geração, eles são muito mais elaborados e “criativos”que misturam vários gêneros em uma única frase incompreensível, mas “dolorida”, pelo acúmulo de “besteirois”.
Aliás, “vai tomar no cu” era o que minha amiga do segundo grau (agora ensino médio - outra época) falava, cada vez que precisava de uma interjeição. Os meninos adoravam dar tapas nas suas costas só para ouvi-la. As meninas cobravam; “olha o palavrão”. Mas o vai tomar no cu fazia parte da linguagem dela, ninguém conseguia explicar de onde, o irmano não falava os pais eram educados. A verdade é que pra ela era palavra como outra qualquer. Eu que nunca os dizia interessava-me pela sua naturalidade. E, depois, mais próximas nunca a vi xingar ninguém, mas falava “vai tomar no cu” pra tudo.
E quem as vezes não tem vontade de dizer? E quantos não usam de habilidades elaborando frases polidas que agridem e ferem, humilhando até a alma?
Criatividade eu admirava em um colega da sétima série, que decorava nomes científicos para xingar os que o perturbavam: "seu sistosoma mansone!"Funcionavam pela sua sonoridade e incompreensão, mas não feriam.
Tem outras palavras consideradas “incompreensivelmente” como palavrões; preto, viado, retardado, animal... Aliás, nunca entendi como essas palavras podem funcionar com xingamento. Meu avó era polaco, alguns mais velhos, sempre me corrigem a frase; “polonês!” - porquê o seu sinonimo é ofensa?!
Trocar besta por desprovido de intelectualidade também não modifica o que penso e parece que quanto mais “enfeitamos as palavras” mais elas “vestem” nossos preconceitos, mas não os retraem. É como a famosa frase: “ eu trato ele com gente igual a mim”. Por essas e outras que eu gostava das interjeições “diferentes” daquela minha amiga.
E na escola, há também os corajosos, que desafiam a “merda” da redação escrevendo alguns palavrões, sugiro os textos marginais e não entendo porque os palavrões não retornam nas redações seguintes.
De qualquer modo, "uma frase a lá Nelson Rodrigues” ainda gera fascínio ou repulsa, dependendo do que o freguês procura em suas leituras. E fazem estilo de transgressores para os leitores mais rebeldes que os amam por seus retratos e linguagens marginais. Ainda que muitos destes textos nada tenham de discussões novas a arte tem tido forte tendência marginal, porque retrata essa geração desestimulada que quer mandar tudo à PQP e manda! Mas continua se fodendo, gozando ou não.

sábado, 20 de novembro de 2010

O que estamos?! (Adriana Niétzkar)

Quarta
Quinta
Sexta
Em e sem feiras
Cem feiras
Sem fim?!
História
Em plurais
Que foram
Que serão
Singular
que está sendo
fagulha
faísca
fogo
incêndio
em histórias
(estórias ?!)
com
sem
cem
feiras
quarta...
sexta...
singular pluralizado
plural em singularidade
por conta
do sinônimo-coração
da palavra
história

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Traços em letras sobre historias vivas (Adriana Niétzkar)

CRIO!
o inexistente
IGNORO!
o real


Fecho os olhos
para povoar meu mundo
ACREDITO!
eles não têm livre arbitrio
IGNORO
crescem sozinhos
minhas letras são apenas mais um traço
acima de linhas vivas
nasceram de mim
crescem em mim
terra que dá os nutrientes
que não comanda
o crescimento
e a morte...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Reticências (Adriana Niétzkar)



[caption id="attachment_52" align="aligncenter" width="300" caption="http://www.juniorflor.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/07/Sil%C3%AAncio-nas-palavras.jpg"][/caption]


- ...

-Tu já percebeu como as palavras perdem seus significados? Tava vendo lá o significado da palavra maracutáia; acredita-se - sim porque cada vez se tem menos certeza nessa vida... pelo menos isso – que mara é uma palavra de índio, que significa confusão. Aí, passados os quinhentos anos de desapropriação o sujeito mostra lá a reserva indígena e fala que pro índio é tudo mara. Se bem que nesse caso pode até ter muito significado pro índio, não com o nosso português, nessas gírias ai que faz muito gramático torcer o nariz, mas no significado tupi. Mas a partir daí ninguém mais se entende, porque pra cada um a palavra tem outro sentido. É como os ministérios do George Orwell, o ministério do amor cuidava para que as pessoas não se apaixonassem, o do pensamento que as pessoas não pensassem. Tava tudo mara? Em qual sentido?
Já penso nas conversas sobre o tempo? é uma não conversa de quem não quer dizer nada mas não suporta o constrangimento do silencio, ficar ao lado de alguém sem nada dizer, no entanto se fala e nada diz.
É, to querendo dizer que há muito tempo você nada diz, mas eu também não digo muita coisa, parecemos estar falando sobre o tempo ou coisas que tem outro significado. Não, não quero dizer nada com isso, só estive pensando, que tudo que dizemos são contrários do que fazemos, talvez o que queremos também sejam.
Não pense que quero culpar alguém, a culpa é de nossos medos, de nossas acomodações, da nossa incapacidade de estarmos dispostos a perder tudo, a desmontar tudo para começar tudo de novo. Cada vez se tem menos certeza das coisas e todas essas incertezas tem confundido o sentido das nossas palavras, das suas para mim e também das coisas que digo para você. Não, eu não minto, mas logo que digo, mudo de idéia. E você fica sem saber o que sou., por mais que eu não queira que seja assim... Você também tem mudado depois de dizer? Minhas palavras estão fazendo confusão? Estão sendo mara? Em qual sentido? Como não sabe? Você ta querendo me confundir? É eu sei, a minha cabeça ta uma confusão, talvez seja por falta de pratica.
Tenho pensado pouco, tenho que exercitar o pensamento. Essa confusão sobre o significado das minhas palavras tem me tirado o sono. Eu quero entender o que digo.
Tenho me sentido dentro dos ministérios do Orwell, na realidade criada por ele não tinha outra realidade, será que na nossa tem? Será que podemos voltar a amar e pensar? Temos que tomar cuidado com a policia do pensamento, com os apreciadores de iguarias cerebrais, não esquece do aviso do Raul... Cuba? Não, não quero beber, quero entender as mensagens das musicas, não das que temos ouvido, que são conversas sobre o tempo, mas das músicas que foram pensadas, precisamos procura-las, elas ainda estão por aí...
O que você esta procurando? Psiquiatra?! Ah não! Você não!!! Você tem de desistir do controle, preciso que você desista do controle... da TV?! Também! de achar que controla porque aperta o botão, todos os canais pertencem ao controle. Pare de falar um pouco e me escuta; tudo bem, não precisa pensar agora, achar por hora basta, a gente resolve isso com o tempo. É que é bom pensar na solidão, mas amar...
- ...






sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Gosto dos cachorros?! (Adriana Niétzkar)

Eu não gostava mais de cachorros, era o que parecia, era o que percebia em mim, dia após dia, com o passar do tempo... Eu olhava para o Toby pulando na janela, na porta, pedindo atenção, eu queria dar atenção, mas quando estendia a mão ele pulava e eu me irritava. Há muito tempo minha mãe conversava com minha vizinha - “ ela gosta tanto de bichos e quase morre pedindo um cachorro” minha vizinha diminuía meu desejo insano - “ depois ela cresce e perde o interesse” eu duvidava. Até a chegada do Toby.


Eu olhava para o Toby e o achava bonito, queria brincar com ele, ele aprendia truques com facilidade, mas eu não gostava do modo como ele pulava em cima de mim cada vez que eu abria a porta, a agitação dele perturbava meu sossego. Os latidos de madrugada não impediam meu sono, não era isso, eu só não sentia prazer em brincar com ele. E conclui que não gostava mais de cachorros.


Como nos conhecemos pouco, como nos entendemos pouco... Eu gosto de brincar com os cães dos meus amigos, não me irrito com acidentes em meus sapatos e roupas, mas não gostava de brincar com o Toby. Conclui que gosto de cachorros para ver de vez em quando, em alguns dias, mas que no meu canto era melhor ser só.


Fiquei do cuidar do Duque por duas semanas, as duas semanas já se passaram, continuo não tendo paciência para os acessos de euforia do Toby ao me ver, mas continuo gostando de brincar com o Duque. Ele pula, ele late, é um cão, não é muito diferente do Toby. Mas gosto de quando ele pula em mim, gosto de quando ele late, gosto dele no meu colo.


Sinto pelo Toby e pela vontade que tenho de brincar com o Duque dou a mesma atenção aos dois, mas eu gosto mesmo de brincar com o Duque. Já passaram as duas semanas, não quero que o Duque vá embora, vou sentir sua falta, um dia ele vai, posso prolongar algumas semanas nada mais. Quando ele se for continuarei a não ter paciência com o Toby, não é justo com ele ficar com alguém que não da atenção que ele merece, ele é um bom cachorro, é bonito, inteligente, adora brincar de pegar gravetos, sei que muitas pessoas seriam muito felizes com ele.


Talvez você seja... Se você quiser levar ele para casa, se você gostar de brincar com ele, ele merece alguém que goste dele como eu estou gostando do Duque. Estranho, eu pensei que gostava de cachorros eu cheguei a pensar que tinha deixado de gostar. Como a gente leva tempo... foi tempo pra eu entender, eu queria um cachorro, mas não qualquer cachorro. O Toby não é qualquer cachorro, mas pra mim é como se fosse. O Duque é um cachorro, mas pra mim não é só um cachorro. E eu tenho que respeitar esse meu gostar... Quando o Duque se for não ficarei com o Toby para ter um cachorro porque eu descobri que eu gosto de cachorros, mas não de todos os cachorros.