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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Ensaio sobre a monogamia (Fernando Bastos)

Em uma canção havia o emblemático verso: “Eu troco a liberdade pelo teu perdão”. A música era melosa, pegajosa como quiabo, sem graça. Um dia prestei atenção na letra e notei que ela, apesar da pobreza das rimas e versos, continha um conhecido drama existencial, a eterna dúvida entre ser livre ou se prender em alguém. Fiquei pensando que talvez as pessoas casem por não suportarem o peso da liberdade e o medo da solidão, e no final de contas, preferem ficar presas a uma pessoa do que viver livres como um pássaro. Sartre chega a dizer que "O homem é condenado a ser livre".


Penso que talvez o casamento, tal qual o conhecemos, contrato entre duas pessoas para que sejam fiéis uma a outra, seja uma espécie de prisão. O cantor quando diz que troca a liberdade pelo perdão da mulher amada, dá a entender que ao lado dela, deixará de ter liberdade. E muitas vezes é isso mesmo que acontece. Ao casar, ambos assumem um compromisso de exclusividade sexual e amorosa no qual a liberdade não tem vez. E sem liberdade, não há felicidade.


Em matéria do jornal Estadão de São Paulo, de 4 de dezembro de 2008, somos informados que no Brasil, para cada quatro casamentos, um termina em divórcio. Matéria da revista Veja de 11 de agosto de 1999, revela que “Nos Estados Unidos, 60% dos casamentos acabam em divórcio. Na Inglaterra, são 40%.


A tragédia podia ser pior se não existissem os obstáculos que dificultam a separação; aí caríssimos, o número de divórcios seria bem maior, podem apostar. Considerem que o divórcio se traduz em pensão para filhos, dividir o patrimônio se o casamento foi em regime de comunhão de bens, sem falar nos transtornos psicológicos causados pela separação.


Para os técnicos do IBGE, uma das causas para as altas taxas de divórcio é a mudança de comportamento das pessoas, que aceitam o divórcio com mais naturalidade. O humorista diria que a causa do divorcio é o casamento.


A verdade é que muitos homens e mulheres ainda praticam uma “monogamia social”, como dizem os cientistas, isto é, para a comunidade se apresentam como monógamos, mas ocultamente são polígamos, encontrando às escondidas parceiros para o sexo, sem o consentimento do parceiro.


Não creio, como aventam alguns especialistas, que a solução esteja no casamento aberto – cada um pode sair por aí transando com quem quiser. O ser humano ainda carrega o gene do ciúme, e poucos suportariam ver o cônjuge nos braços de um terceiro. De modo que um novo formato deveria ser experimentado: a “monogamia aberta”. Fui ao Google para ver se já existia essa expressão e encontrei só um resultado.


Alguns praticantes da monogamia aberta moram em casas separadas e eventualmente passam alguns dias da semana juntos na mesma casa. Na monogamia aberta, não há restrição para cada um viajar, passar férias, sair à noite em festas e baladas de vez em quando sozinhos, sem a presença do parceiro. E não há proibição para se ter amigos de ambos os sexos, onde possam se frequentar, tudo no maior respeito e confiança, sem a inclusão de sexo, claro.


Naturalmente, tanto para um relacionamento aberto (onde não existe exclusividade sexual) quanto para uma monogamia aberta (onde existe a exclusividade sexual) dar certo, o casal precisa ser emocionalmente maduro, confiar plenamente um no outro, e ter controle muito forte sobre o ciúme. E isso, poucos conseguem. Portanto, a monogamia aberta não é para qualquer um.


De modo que assim como muitos autores preveem uma mudança nos relacionamentos do futuro, onde as pessoas se distanciarão cada vez mais do casamento fechado, creio que a monogamia aberta, como foi exposta resumidamente, é a que mais terá chances de se firmar e fazer felizes os envolvidos. O que não quer dizer que o casamento aberto, o sexo a três, o suingue, o poliamor e todo tipo de casamento em que não se exija exclusividade sexual não possam também fazer os participantes felizes. Tudo vai depender da maturidade e da vontade de cada um dos envolvidos em proporcionar prazer e alegria ao outro, sem deixar-se sucumbir pelo ciúme.


Alguns especialistas reputam que daqui há umas duas ou três gerações, as pessoas terão mais de um parceiro amoroso, um para momentos românticos, um para conversas intelectuais, um para dividir as responsabilidades domésticas, um só para sexo, e assim por diante (a bem da verdade, tais formas de se relacionar já existem, sobretudo em grandes centros, mas ainda são casos esporádicos). Como será que esse morador do futuro vai olhar o casamento de seus antepassados, formado por duas pessoas, vivendo sob o mesmo teto, dormindo na mesma cama todo dia, numa união com tantas proibições, tediosa, cheia de brigas e sem muitos atrativos? Possivelmente com um olhar de espanto e pena. Muita pena.


 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Causa sine qua non (Fernando Bastos)

 








Andava sempre de olhar afundado como uma garotinha que fizera traquinagem na sala de aula. Algumas vezes cheguei a suspeitar que fora violentada na infância, ou que fosse lésbica, dado sua habitual distância que mantinha dos homens que a abordavam.


Ana Maria era o oposto de Mariana. Ela, gelo, minha mulher, fornalha. Até hoje tenho complexo de Bentinho, aquele do Dom Casmurro. Por mais que Mariana defenda a tese de que não me corneia, estou sempre com um pé atrás. Às vezes faz hora extra no escritório de advocacia, e sabe lá o que acontece nessas ocasiões. Amo Mariana, mas Aninha me incendeia. Comecei a namorar Mariana quando eu tinha 20 e ela 17. Mariana morava com a avó e uma irmã. Gêmea. No dia seguinte, da minha primeira noite com a então namorada Mariana, quando fui lavar o rosto, levei meu primeiro susto. Como Mariana podia estar no banheiro saindo de toalha, se havia dormido comigo e a deixei no quarto antes de descer as escadas?


Aninha percebeu meu espanto e, timidamente, sem me olhar na cara, disse Não sou Mariana, sou Ana Maria, a irmã gêmea dela. Mariana, para de brincadeira, falei, como conseguiu chegar aqui antes de mim? E, sem deixá-la responder, abracei-a e apertei aquele
corpo ainda molhado sob a toalha felpuda. Estou falando sério, disse ela, Por favor, vovó pode acordar e nos ver...Mariana não me falara nada sobre a gêmea. Fazia parte do jogo. Ela gostava de jogos. Eu adorava vencê-los. A cópia se afastou e foi para o quarto, segurando
a toalha de banho com as mãos rente aos seios. Quis possuí-la, mas o fiz só com os olhos. Despedi-me do tornozelo bem moldado, e da sola branquinha do pé, antes dela entrar no quarto e fechar a porta para terminar de se secar.


Casei com Mariana, a avó morreu, a gêmea ficou morando conosco, Mariana se formou em direito, e, depois de um ano de casamento, começou a fazer hora extra. Não me preocupava com os serões de Mariana. Quanto mais tarde chegava, mais eu aproveitava os momentos para saborear a visão daquele corpinho, defendido sumariamente por uma camisola de algodão que ia até a metade das robustas coxas, deitada sobre o sofá, lendo Clarice. Com o tempo, ela foi perdendo aquele medo de animalzinho selvagem, e deitava em meu colo para lhe acariciar a cabeça. Quando sentia o perigo, levantava, dizia que ia ao banheiro, depois voltava para me dar boa noite, a uma distância segura, olhando-me obliquamente.


No finalzinho do outono passado, houve um Congresso de advogados na capital. Minha mulher voltaria no domingo. Na sexta, comecei a preparar o cenário. Vinho Cabernet, a lareira acesa, um filme romântico, o convite. Hesitante, largou o livro, e sentou-se ao meu
lado no sofá. Puxei o cobertor, e nos enfiamos debaixo dele. Nem deu a metade do filme, e ela já estava bêbada. Eu sabia que estava errado, mas a carne é fraca. Os primeiros códigos de Lei já proibiam esse tipo de relação. O judaísmo, maior influenciador sobre nossa cultura, avisa em Levítico 18,18: “não tomarás a irmã de tua mulher,...descobrindo a sua nudez...”.
Mandei à merda a lei de Deus, abracei-a, sob pretexto de esquentá-la, e ela concordou. Em dez minutos, sumiram nossas roupas, e ela galopava sobre mim, no tapete da sala. Seu moreno corpo rebrilhava as cores do fogo da lareira, dando-lhe um aspecto sobrenatural. Coloquei um travesseiro sob seu quadril. Suas unhas arranhavam minhas costas, mas não me incomodei. De repente ela começou a falar obscenidades, que jamais havia sonhado que pudesse dizer. Levei-a para seu quarto, e deitamos em sua cama, na esperança de acordar antes que minha mulher chegasse da farra.


No meio da madrugada, uma réstia de luz trespassou a fresta da porta. Lentamente, um vulto de mulher assomou na penumbra, como uma hetera, que chega em casa depois dos compromissos. Cheirava a bebida e perfume masculino. Sem dizer uma palavra, deitou entre nós e me beijou.