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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Poema da vida (Elianete Vieira)

Poetisa, Iza me conquistou pela doçura. Com 74 anos, cheia de energia, preparou a festa de 80 anos do marido. Amiga virtual, descreveu os docinhos que fez ao me convidar para nos conhecermos.
Dia de comemorar a vida, a saúde, a família. Como é bom ver as pessoas chegando cada vez mais longe - semana passada, o tempo contou 5 anos da partida do meu pai a menos de 4 meses de completar 80 anos.
Me sentindo honrada com o convite, convidei o GPS para me acompanhar e lá fui eu desbravar as ruas desconhecidas de uma cidade vizinha.
No caminho, havia não uma pedra Drummond, mas um vale. Uma rua que desce íngreme e logo sobe mais íngreme ainda. Lá no final, um semáforo segurava os carros prestes a entrar na rodovia. No inicio da subida existe um semáforo que mede a velocidade máxima: 40 km/h.
Independente deste controle os carros nem saíam da 1a marcha. Motoristas sabidos mantinham distância de segurança uns dos outros. Subidona à vista.
Eu, parada, olhando o entorno, vi algumas senhoras bem arrumadas, com Bíblia na mão, caminhando juntas e conversando. Distraídas, atravessaram a rua sem perceber que estávamos em movimento lento parando dois metros depois.
Eu sai e logo parei. Continuei olhando pelo retrovisor. O carro que vinha atrás, havia deixado um espaço de um carro entre o meu e o dele, talvez imaginando que eu poderia dar uma "descidinha" porque foi isso o que ele fez ao iniciar o movimento.
O que ele não previu e uma das senhoras também não, foi que no exato momento da "descidinha", ela ainda estivesse passando por trás do carro.
Ela talvez não tenha sido motorista ou não seja tão ágil agora com seus belos cabelos prateados.
Eu, parada, aguardando o momento de andar 2-3 metros novamente, vi a senhora sumir atrás do carro. A "descidinha" do carro ao engatar a primeira, derrubou a vovó.
Imediatamente saíram do carro três homens que acudiram a senhora, levando-a nos braços para a segurança da calçada, enquanto o motorista procurava encostar e liberar o tráfego.
Até onde pude ver, a vovó conseguiu ficar em pé, já na calçada. Foi atendida prontamente e as amigas logo a rodearam.
Eu segui em paz, feliz em ver que o pequeno incidente não ficou sem atendimento.
Ah sim, e a festa? Foi maravilhosa.
Com o octogenário feliz cumprimentava a todos, no mundo dele, pois o Alzeimer lhe tira aos poucos a consciência presente, deixando apenas o passado na lembrança. O pastor a todos abençoou. A poetisa contou como eles se conheceram e citou momentos da vida deles em quase 50 anos de casamento.
Ela declamou um lindo poema de amor e confiança, dedicado ao seu príncipe e filha, emocionando os presentes. E assim, poetando a vida, ela comemorará seu aniversário em dezembro com o lançamento do livro que está no prelo.


Elianete Vieira

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Vida (Marcio E. Ochner)

Poço lamacento,
perfeição existencial,
de conceito defeituoso,
com áurea definida,
por números e de fins práticos.

Perfeição grega ,
com olhos materializados,
conjunto de linhas harmônicas,
uma canção matemática,
densidade areada,
perfeição singular.

Vento de captura sem defeito,
penhasco da arquitetura atemporal,
ofuscação comparada,
Paradoxal.

Marcio E. Ochner

sábado, 25 de maio de 2013

Tauromaquia (Inacio Carreira)

Quando estamos juntos aflora a energia que nos une
Tentamos dissimular, emular energias impossíveis
ou possíveis, sei lá, mas energias
e afloram, com floras, flores, florais de Bach
e música suave barrocamente invade o ar...

Plantar, semear, regar e esperar germinar. Paciência bovina. Ou taurina, embora esta imagem esteja mais aliada à impaciência. Com mais de 2.600 anos, a Lira de Tomb, suméria, de Ur, apresenta harpa decorada por uma cabeça de touro de madeira, coberto com ouro e barba em lápis-lazúli, que integra o acervo do Museu Britânico. Mais tarde, surge o mito do Minotauro na ilha de Creta, governada pelo rei Minos: cabeça e cauda de touro num corpo de homem, povoou o imaginário dos gregos, levando medo e terror. Habitava um labirinto e nasceu em função do desrespeito do marido de sua mãe ao deus dos mares, Poseidon. O rei Minos pediu ao deus que o deixasse tornar-se o rei de Creta. Poseidon aceita o pedido, porém pede em troca que, em sua homenagem, o rei sacrificasse um touro branco, lindo, que sairia do mar. Ao receber o animal, o rei ficou tão impressionado com sua beleza que resolveu sacrificar outro no lugar, esperando que o deus não percebesse. Muito bravo com a atitude do rei, Poseidon resolve castigar o mortal: Pasífae, esposa de Minos, se apaixona pelo touro, ficando grávida do animal, união da qual nasce o Minotauro. Desesperado e com muito medo, Minos solicitou a Dédalos que fizesse um labirinto gigante para prender a criatura: foi construído no subsolo do palácio de Minos, na cidade de Cnossos, em Creta. Após vencer e dominar, numa guerra, os atenienses, que haviam matado Androceu, seu filho, o rei de Creta ordenou que fossem enviados todo ano sete rapazes e sete moças de Atenas para serem devorados pelo Minotauro. Após o terceiro ano de sacrifícios, Teseu, herói grego, apresenta-se voluntariamente para matar o Minotauro. Ao chegar na ilha, Ariadne, filha de Minos, apaixona-se pelo herói e resolve ajudá-lo, entregando-lhe um novelo de lã para que pudesse marcar o caminho na entrada e não se perdesse no grandioso e perigoso labirinto. Tomando todo cuidado, Teseu escondeu-se entre as paredes do labirinto e atacou o monstro de surpresa. Usou uma espada mágica, que também havia recebido de Ariadne, colocando fim àquela terrível criatura. O herói ajudou a salvar outros atenienses que ainda estavam vivos no labirinto. Saíram do local seguindo a guia formada pelo novelo de lã. O mito do Minotauro foi um dos mais contados na época da Grécia Antiga. Passou de geração em geração, principalmente de forma oral. Era uma maneira de ensinar o que poderia acontecer àqueles que desrespeitassem ou tentassem enganar os deuses.
O argentino Julio Cortázar, em sua peça Os Reis, mostra-nos um Minotauro meigo, humano, que encanta e busca, nos jovens que chegam todo ano, somente carinho e companhia. Conquista-os, fazendo com que não queiram voltar à terra natal.
Por sua característica de força e poder, a figura do touro sempre foi reverenciada pelo ser humano. Mais recentemente, artistas como o espanhol Francisco de Goya, com sua Tauromaquia, série de 33 gravuras publicada em 1816, e Pablo Picasso, também espanhol, com no mínimo cem trabalhos – desenhos e gravuras, na maioria – dedicadas ao tema, motivo recorrente na obra picassiana desde a infância, na casa dos pais, em Málaga, até a década de 1960, tiveram importantes exposições pelo mundo.
Informação, informação... Que não fazia acabar seu pavor, medo, pânico pela simples lembrança de um touro. Um boi, que fosse. Trauma adquirido na pequena cidade do interior paulista, família morando perto do matadouro. Chegavam, semanalmente, boiadas para o abate, vinham a pé, passavam pelo meio da cidade, única rua ligando diretamente a estrada com o abatedouro. As mulheres recolhiam as crianças para as casas, pois a rua era o quintal onde brincavam, todas, numa época em que o trânsito era, na sua maior parte, feito a pé ou a cavalo. Charretes, carroças, carroções iam e vinham, modorrentamente, não perturbando a paz dos viventes. Mas, naquela tarde, inesperado, um grito de desespero rasga o silêncio da tarde: Estouro! Sua mãe, heroicamente, só teve tempo de jogá-lo contra a parede da casa e jogar-se sobre seu corpo. O corpo da mãe ficou irreconhecível, pisoteado e chifrado pela passagem do cortejo assustador, irado.
Sabe, ele, que prender-se ao passado traz nostalgia, não ajuda nada o viver. Mas, se a história ficou para trás, a lembrança está viva em sua mente. Precisa aprender ousadia e o prazer de experimentar, embora não goste de arriscar sua segurança. Ao atravessar ruas olha para os dois lados, fazendo-o também para cima e para baixo, num tic, ou TOC, nervoso, que ele não pode evitar. Ritual, cerimonial, medo... A Tauromaquia marcou sua vida. Marcará sua morte?

sábado, 20 de abril de 2013

O choro é livre (Vana Comissoli)

choro 


            Impossível olhá-lo sem parar a observar. O homem chorava copiosamente no meio da rua e não se incomodava nem um pouco com o olhar intrigado dos transeuntes. Eu não tinha nada a fazer, situação de aposentado que sai a esquentar a vida debaixo do sol sonhando calores que não tem mais.


            O sujeito começou a andar meio trôpego e pensei que podia estar embriagado, só alguém fora de seu juízo com a idade que aparentava ter, lá pelos trinta e vários, daria aquele espetáculo sem pejo. Passou-me pela cabeça que ele poderia cair, tropeçar, ser atropelado por algum idiota que não se perturba com a dor alheia. Digo dor porque aquele pranto esparramado só podia carregar um sofrimento desmedido. Seria algum resultado de exame maligno que trazia nas mãos? Ou um obituário de jornal?


            Fui atrás dele sem me preocupar com o percurso e nem se estava me afastando muito do meu próprio caminho, há algum tempo não ficava distante de casa. Vá que tivesse uma síncope, ou um AVC? Dizem que é sem aviso e eu não tinha preferência por cair duro na rua, daria tremendo trabalho a meus filhos me recolher, mandar para o IML, prestar depoimento... Não, eu não faria isso com eles.


            Não faria? Dobramos uma esquina e outra e outra. Será que este sujeito sabe para onde vai? E agora essa! Está soluçando. Preciso falar com ele, não me lembrava de ter visto alguém envolto em tanto sentimento! É triste, mas é lindo. Agora a moda é mais filosofar sobre os entraves da vida do que senti-los e isso é mais triste ainda.


            A natureza toda parece concordar comigo por que abriu um céu mais azul do que o azul que o céu tem. Posso até sonhar que são os anjos que espiam um sentimento andando pela rua a soltar faíscas de existência.


            Ele sentou! Meu herói descobriu uma acolhedora mureta dura para sentar. Seus ombros sacodem com o desamparo do pranto. Não vacilo: sento-me ao seu lado.


            ─ Amigo, me conta o que te faz sofrer tanto?


Perguntei na coragem, acreditando que me mandaria catar coquinho. Olhou-me como quem estivesse esperando que lhe fizessem essa urgente e necessária pergunta.


─ Mataram, mataram ela!


─ Ela! Quem morreu?


─ A Valéria. A moça amiga, caridosa. Ela cuidava dos meninos de rua como uma mãe e eles a adoravam. Não tinha nojo de abraça-los, sentir seu cheiro. Nada que um bom banho não resolva, deveria ter dito aos seus ouvidos.


Fiquei procurando na minha memória que andava dando umas falhadas cretinas, quem era a Valéria. Pensei em todas as novelas, nos noticiários e não me lembrei de nem uma, já andava mesmo desconfiado que o alemão me visitava, o tal Alzheimer com quem não quero intimidades. Precisava desesperadamente lembrar por que só podia ser uma celebridade. Muito respeitoso perguntei e afirmei, tudo ao mesmo tempo:


─ Sinto muito, não estou reconhecendo qual das Valérias... Aquela? Ou a outra?


Ele me olhou desalentado. Senti uma faca no peito, eu era mesmo um asno vestido, como podia ferir com minha ignorância alguém que devia estar sofrendo por um amor? Fosse lá de que tipo fosse este amor. O coitado voltou a chorar, desta vez ainda mais alto. Entrecortada por soluços eu ouvia a explicação:


─ Ninguém sabe quem é a Valéria, isso é desalentador. Como uma vida pode passar assim em branco? Quando eu morrer também não se lembrarão de mim? Não suporto esta ideia, não suporto esta mania que a vida tem de andar de braços dados com a morte. Prá que? Prá que isso? A Valéria... Pobre e querida Valéria.


Torci os miolos, não tinha a menor chance de sair bem da situação. Chorar... Não conseguiria fingir. Eu o feriria mais se desse um fora no reconhecimento da querida moça. Felizmente ele se pôs a contar.


            “Gosto de puta. Gosto mesmo. São carinhosas, só cobram o que foi combinado, não pedem para ir ao shopping, não atrapalham o futebol do domingo, não deixam rastros de limpeza pela casa. Fazem tudo que pedes sem ficar arranjando desculpas, não têm dor de cabeça e muito menos discutem a relação.”


            Eu concordava, era bem verdade o que ele estava dizendo, senti uma pontada de culpa por tê-las desprezado um pouco e ter resolvido que casada era bom. Resultou que dei com os burros n’água e gastei os tubos, além de ter que criar dois filhos durante meus melhores anos. Não que os amasse pouco, mas, pensando bem, é uma troca insana quando se percebe, como agora, que não pudera fazer muitas e muitas coisas por causa deles e teria que ir embora chupando o dedo. Na obrigação de achar muito bom eles conseguirem mais do que eu. Eles fariam, mas eu não tinha a menor chance de nada, deveria agradecer se o alemão não levasse embora até as lembranças do pouco que tive. Uma puta é consideravelmente boa vista deste ângulo. Ele continuou.


            ─ Meus amigos não entendem. Não sou um cara feio.


            Examinei-o pela primeira vez. Não era mesmo. Tinha olhos acinzentados, talvez fossem até azuis sem as lágrimas, um nariz reto que se poderia chamar de grego e a insustentável beleza dos maravilhosos 30 anos. Uma boa altura, qualquer mulher poderia se aninhar em seus braços e se sentir satisfeita.


            ─ Puta, igualmente às santas, merece homem bem apanhado. É o que eu acho. Porque deveriam andar sempre com uns pelegos velhos? Quem gosta de puta de verdade, como eu, respeita o trabalho duro que elas têm, sabem que muito homem é nojento e maltrata. Acabam ficando amigos delas. Não tem amiga mais fiel do que amiga puta. Não falam mal de ti por que sabem quanto dói ser difamado, não inventam desculpas para escapar de ti por que sempre és bem-vindo. Enfim, tive muitas amigas. O melhor é não virem com a história de que não se trepa com amiga. Puta trepa com amigo numa boa  e até acha melhor, sabe com quem está. Passam a te beijar na boca, coisa que não dão para qualquer um. Te tornas uma espécie de escolhido, de ser especial.


            Eu estava bem interessado na explanação, quem sabe puta gosta de velho e tem paciência. Seria bom relembrar como é ter uma mulher, mesmo que fosse puta. Já estava convencido da útil feminilidade das meninas.


            ─ É preciso entrar no mundo delas e nunca arrepiei de fazer isso. É um universo multicolorido, cabe todo tipo de gente dentro dele, o mais legal é que não estão preocupados com aparência, verniz social e estas coisas que fazem as pessoas se tornarem hipócritas. Foi assim que conheci os travestis que circulam nos arredores das putas. Troca de freguesia, uma questão de negócio, nada pessoal. Tem alguns insuportáveis, mas não por serem gays, mas por ser gente de má índole. Nunca confunda as coisas: quem é bom, é bom de qualquer lado do campo. O inverso é verdadeiro, seja lorde ou vagabundo é abjeto do mesmo jeito se vem de raiz torta.


            Estava aprendendo o que não tinha aprendido a vida toda. Deu um arrepio maior do que eu estava acostumado quando olhava minha vida. Este homem chorando pela Valéria que devia ser puta, é claro, me mostrava que minha passagem rápida por este mundo doido, tinha sido pobre, mais pobre do que o pobre que eu achava dela. Era bom e melancólico aprender, se tivesse sido uns dez anos atrás ainda daria tempo de dar uma guinada no timão, mas agora... Era outra mágoa para arrastar.


            ─ Foi assim que simpatizei com a Valéria logo de cara, entendes? A gente percebe uma alma pura trazendo luz para a Terra. Se sente dentro do peito.


            Agora eu entendia tudo, até o que nem remotamente me passara pela divagação. Parei de lamentar as perdas, era uma maneira de usufruir vivendo de ouvido. Na minha imaginação cenas de submundo, nem tão sub assim, aprendia, desfilavam envoltas em todas as cenas que assistira em filmes, lera nos jornais e espiara na noite. Nada era o que me diziam ou enfiavam na minha mente sobre este mundo. Ele era feito de gente pelo jeito bem mais honesta do que as conhecidas por mim. Tinha visto tanta sacanagem envolta em sorriso! Se neste desvão atropelado por impropérios existia roubo, ou fraude, elas eram parte do negócio e não uma traição deliberada. Eu poderia sonhar que existia uma fatia de humanidade mais parecida com a que se deseja que haja. Gente emocionalmente decente.


            ─ Agora vem essa notícia que a Valéria foi esfaqueada por um desgraçado lá na praia de Copacabana.


            Estranhei. Então isso tudo era no Rio de Janeiro?


            ─ Moraste por lá, amigo?


            ─ Não, nunca estive no Rio. Qualquer hora dessas eu vou, quero ver de perto o lugar onde o sangue da Valéria avermelhou a areia branca.


            Realmente o quadro era terrível. A areia pura, quase brilhante... O sangue saindo em cascata por buracos do corpo de Valéria. O desgraçado fugindo, com certeza encapuzado. As marcas dos saltos ainda marcando o chão mole. Os olhos abertos surpreendidos pela avalanche da violência. Policiais que não deviam ter investigado o suficiente por que afinal era apenas um homossexual doente de luxúria esparramado na praia. Só restava chorar a dor dos mal paridos.


            ─ Ela estava toda linda, sabia se maquiar a Valéria. Tinha posto o vestido rosa pink e arrumado o cabelo daquele jeito que fica preso só de um lado. E não era peruca não, era de verdade. Essa vantagem temos hoje em dia, os pobres travestis podem deixar o cabelo crescer quanto quiserem. E o batom! O batom era demais, exatamente da cor do vestido.


            Meu companheiro sabia demais. O que interessa à observação de um homem uma coerência entre batom e vestido? Fiquei com um pé atrás. Seria ele mesmo gay? E se fosse? Que raio de preconceito enraizado dentro da gente! Fiquei com raiva de mim mesmo por ter permitido tal reação vinda sei lá de que fogo do inferno através das palavras de quem eu nem conhecia, mas que queimavam minha recente descoberta. Não sei se ele percebeu ou foi casualidade, mas explicou:


            ─ A gente aprende a observar e sabe que é bom? Adquire-se uma acuidade estética que ajuda muito a entender a beleza de uma mulher, por que travesti é uma mulher que errou de corpo, apenas isso e muitas vezes mais feminina do que várias que eu conheço que não se entregam nunca, ficam se digladiando com a gente em nome de uma estúpida concorrência de sexo. Com isso ficam sem sexo gostoso algum.


            Olhei o relógio, há algum tempo já deveria estar em casa me preparando para a chegada da noite, não tinha mais o hábito de me atrasar, qualquer vacilo poderia por a perder a disciplina que o médico jurara, prolongaria minha miserável vida. Mas me afastar do sujeito ainda descomposto? Não tinha coragem, ele me dera tanto.


            ─ Tomei uma decisão. ─ Ele se levantou num salto. ─ A morte da Valéria me abriu os olhos. Vou me casar.


            Eu não podia acreditar no que dizia, acabara de me convencer que viver livre e aberto era o máximo e agora vinha com essa de casar?


            ─ Relutei bastante, a Sarita é puta, mas não vou ligar mesmo. Somos namorados há três anos e há dois não aceita dinheiro de mim. Namorado não paga e sou fiel, assim como ela. Não transo com mais ninguém, nem ela, apenas trabalha, é diferente, é o comércio que ela conseguiu abrir. Se fosse uma loja todos bateriam palmas e elogiariam.


Pensei que era muito justo e casar com puta deveria ser bem melhor do que casar com moça de família, até por que as diferenças entre uma e outra não eram lá tão grandes assim. Conhecia muita casada que corneava o marido e não se mandava só para ficar no bem bom de ser sustentada. E puta trabalha firme, com pausa só três ou quatro dias por mês, não tem salário fixo, nem férias, muito menos 13º. Não é para qualquer um.


Esse amigo de rua era mesmo um estrondo, sua sabedoria e jogo de cintura com a vida me deixavam embasbacado. Talvez, se pintasse o cabelo, desse um trato na cara, eu conseguisse conquistar uma puta jeitosa como a dele. Não seria nada mal um casamento de primeira categoria agora que os sinos da véspera batiam à minha porta. Chegaria lá em cima, na frente do tal de deus que não tinha me mostrado essas possibilidades e teria o que agradecer em vez de dizer que era um cretino me aprontando uma vidinha de merda.


─ Não te convido para padrinho por que a turma vai achar ruim trazer amigo recente quando tem tantos que acompanham meu romance desde o princípio, mas te deixo meu telefone, quero que vás ao casamento. Pelo menos na igreja. A Sarita sonha com vestido de noiva e ela tem a alma mais pura que conheço.


Aceitei prontamente, não podia perder este cara de vista. Também estava contente, tinha parado de chorar e uma energia nova e luminosa me garantiu que os olhos eram mesmo azuis.


─ Amigo, irei com prazer. Será que as colegas da Sarita vão ao casamento? Antes que me esqueça. A Valéria, fiquei sabendo tudo, menos tua história com ela. Como a conheceste e tal...


─ Valéria? Ah, ela é personagem do livro que terminei de ler. Que autor! O livro se desenvolve em torno da morte trágica da moça e não revela quem a matou. Não dá uma pena danada?


                                                        Vana Comissoli

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Diversidade cultural (Elianete Vieira)

Brasileiros, americanos, franceses, latinos, alemães, ingleses, asiáticos, as mais diferentes culturas, gostos, línguas, religiões,  raças, jovens, idosos, casais, amigos, famílias, uma enorme diversidade cultural. 

O que todos eles tem em comum? O gosto pela novidade, pela descoberta de novas culturas e o desejo de viajar.

Alguns escolhem lugares que já conhecem ou que frequentam, buscam pelo conhecido.

Outros buscam pela novidade, pelo improviso, pelo desconhecido.

Todos se guiam pelas bandeirinhas nos uniformes dos tripulantes em busca de informações em sua própria língua. Todos estão ali com um objetivo comum, conhecer as mesmas cidades turísticas por onde passarão.

Seja pelo lazer, pelo trabalho, pela comida, shows, ou mesmo pelas compras de lembrancinhas ou itens mais requintados, bebidas, perfumes, couro, cachemere, artesanato. Itens mais baratos ou apenas por serem importados, típicos, diferentes.

Alguns usam a piscina, outros buscam pela academia ou SPA. Outros comem o dia inteiro. Muitos deitam confortavelmente numa espreguiçadeira para ler um bom livro. 

Outros preferem tomar sol, com sua melhor roupa de banho, posando para fotos, porque neste momento todos são modelos, eternizando nas memórias digitais as cenas que os olhos se maravilham. 

Toda excursão tem guia e monitores de eventos. Alguns possuem monitores infantis, liberando os pais para curtirem suas ferias. Esses monitores são treinados para movimentar, divertir, são criativos e fazem com que o tempo deixe de ser monótono para passar rápido de tão bom.

Restaurantes e shows reservados. Camareira sempre deixando tudo arrumado e limpinho. Bagagem sempre à mão. 

Férias.  Nada a fazer a não ser curtir o momento, esquecer os compromissos de trabalho, desligar o celular (quando estão com sinal). Desconecte-se do dia a dia corrido e da internet também.

 Jogar. Arriscar. Experimentar um drink novo ou um prato exótico. 

Gastar em algo que normalmente não pagaria, mas em férias tudo vale a pena.

Solte-se. Viva. Saboreie. Não se permita arrepender-se depois.

Libere a criança que ainda vive dentro de você. 

Seja feliz!!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Fodidos pela arte. E pela linguagem. (Ítalo Puccini)

"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".
Esse Eduardo Galeano, no texto "Celebração das contradições/ 2", no "Livro dos abraços", leva-me à palavra. Que por si só contradiz. E consequentemente acontece com quem dela faz uso. E que bom que assim é. Perfeição de entendimento tornaria o mundo mais caótico do que já é, acredito.
Existimos pela incompletude da linguagem. Não nos há como fugir disso.
Há uma passagem da peça "Passport", da Companhia Rústicos Teatral, em que um dos policiais diz ao outro algo mais ou menos assim (porque toda transcrição de fala é imperfeita por natureza): "O que me tranquiliza, chefe, é saber que nessa vida estamos todos fodidos".
E não é assim?
A sinopse da peça diz: "Tudo acontece em alguma cidade, algum país esquecido. O Oficial e o Soldado exercem suas funções cotidianas sob a ordem dada em outro tempo. E em eterno presente, o Cidadão se vê em alguma cidad, algún país olvidado. Mesmo falando a mesma língua, Cidadão e Soldado não conseguem se entender quando chegam ordens do Oficial (o chefe). O Cidadão é preso como um suposto terrorista e é na cela que, segundo o diretor da peça, Samuel Kühn, os personagens são envolvidos “em situações absurdas desencadeadas, sobretudo, pelo conflito linguístico, em que são abordadas questões como a incomunicabilidade e a perda de sentido". A peça, baseada em um texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott, explora os limites da linguagem, a incapacidade de comunicação entre as pessoas, mas não só. Ela inquieta o leitor que assiste a ela porque não há o que ser feito numa situação em que duas vozes dialogam cada uma em uma dimensão própria, podemos chamar assim. Nós que a assistimos alcançamos essas duas dimensões (quem sabe?), mas não nos cabe intervir. Talvez se tornaria, a nossa, apenas uma terceira voz se perdendo entre as outras duas. Quanto mais alto o barulho, menos se ouve dele.
Mas voltando à frase presente na peça, desde que assisti a ela duas vezes, não me sai da cabeça. E eu vivo a repetindo, às vezes em alto e bom som. Como que para internalizá-la mais e mais. E para me sentir mais leve também. Porque haja mania grandioloquente de nossa parte em tornar maior aquilo que é tão pouco, não é mesmo?
Eu escrevo personagens por aí. Dia sim, outro também. Vários personagens, às vezes. Noutras, grudo-me em um só. Sinto-me sempre acompanhado. Não só ouço, como também falo. Dividimos pedaços de vida. Compartilhamos felicidades e frustrações. Trilhamos caminhos separados, sim, mas unidos de alguma forma. Pela fala. E acreditamos num entendimento mútuo do que falamos entre nós. É melhor assim. Por mais que saibamos que entender mesmo a gente continua entendendo só o que queremos dizer e o que queremos ouvir. E o nosso querer não é nosso, no sentido de ser de dois. É um querer de cada um. Compartilhados. Misturados. Mas não tornado um só.
Então que ter essa ciência, de que estamos fodidinhos - graças a deos - no mesmo barco alivia muito a vida.
É uma forma de nos abraçarmos, talvez.


Ítalo Puccini

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Água de chuva (Inacio Carreira)

Realidade é alguma coisa na qual, quando
você deixa de acreditar, não vai embora.
Philip K. Dick


Vontade de tomar água de chuva. Água destilada, dizia meu pai, boa para colocar na bateria do carro. Faz tempo, sim. Que, hoje, as baterias – ao menos a maioria delas – vêm blindadas, o vivente não pode colocar nem tirar nada, nada... Porque água de chuva? E se essa chuva for a decantada “chuva ácida” do filme Blade Runner – O caçador de andróides? Filmado em 1982, virou cult ao retratar Los Angeles do ano 2019 (pertinho de nós, agora). Aliás, novembro de 2019. Eu nasci em novembro... Será uma premonição? Serei andróide? Não, sou muito estúpido, andróides são – seriam – programados para a excelência.


Voltando à chuva ácida, que parece ficção científica, vou à rede e leio que é um dos problemas ambientais mais sérios da contemporaneidade, causada pelos gases tóxicos liberados na queima de combustíveis fósseis, carvão ou petróleo. Após a sujeira da combustão ganhar a atmosfera, parte dela reage com o vapor d’água e outros componentes em suspensão, quando os gases poluentes transformam-se em ácidos, caindo por ocasião de tempestades, neblinas e nevoeiros. Embora expressa na ficção filmada em 1982, o livro que deu origem ao roteiro, de autoria de Philip K. Dick, foi lançado em 1968 com o título Do Androids Dream of Electric Sheep? Entretanto, o problema é pesquisado na Europa desde o século 17, ganhando fama na década de 60 (do século 20), com o declínio do número de peixes em lagos daquele continente: tem – a chuva ácida - o poder de destruir florestas, acabar com os nutrientes do solo, matar a vida aquática e, lógico, prejudicar a saúde humana.


Será essa vontade, de tomar água de chuva, uma necessidade de ligar-me aos elementos da natureza, numa inconsciência holística, numa comunhão telúrica, numa vontade de esvair-me com a água, de descer aos infernos (as regiões subterrâneas) e renascer, fênix pós-moderna, replicante inconformado com a mesmice amém?


Preciso tomar água, muita água. Os rins não funcionam direito, pedreira, causa ou efeito da abstenção aquosa, ou líquida no geral... Se fosse água da chuva o líquido ingerido, faria tão bem quanto às baterias de minha infância? Mas, se essa chuva for ácida, ficarei mais empedrado, contaminado, modificado, células multiplicando-se desordenadamente, organismos buscando romper a barreira da pele, ossos esfarelando-se, olhos cegos, tapete de pelos e cabelos forrando a habitação?


A água, então, pode ser droga, também. Alterar as funções do organismo. Em vez de ajudar, contaminar. O que, aliás, não precisa ser esperado de todo esse processo poluição / ascensão da mesma / descida em forma de chuva: reza a lenda que não existe nem uma gota d’água livre de contaminação após as bombas atômicas que arrasaram Hiroshima e sua irmã no horror... Nem o famoso Aquífero Guarani, subterrâneo, escapa a esta sina. Hodierna e hedionda.


Já não tenho vesícula biliar; meus dentes foram substituídos paulatinamente, ao longo da vida; por conta de duas hérnias inguinais ganhei uma tela de metal na região subcutânea abdominal; meus olhos são protegidos por lentes, por hora em armações, mais um pouco e colocadas diretamente no globo ocular; meus ouvidos apitam diuturnamente, em breve requerendo intervenção cirúrgica; minhas pernas cambaleiam, exigindo pesquisa de labirintite, meus... deixa pra lá.


Melhor colocar um chip, ou mais, e transformar minha ficção em realidade, andróide também, ou semi-andróide, a trabalhar mais um pouco, a aproveitar o que foi armazenado no cérebro (que teima também, o safado, em negar informações). Eu, new-andróide, ao contrário da história contada em Eu, Robô, parto do humano para o quase humano, na esperança de vivenciar o ano 2019, se as profecias catastróficas não se concretizarem...


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Pesadelo. Acordou sem saber mais quem era, se o Eu da voz narrativa ou se alguma outra voz, daqui ou de lá, nascido de mulher ou criado em laboratório. Admirável mundo novo...

terça-feira, 20 de março de 2012

Descrença (Tiago Nascimento)

Uma noite os homens olharam para cima e perceberam que não podiam explicar as estrelas, o céu, as nuvens nada. Então criaram a mitologia.

Um dia um homem olhou para dentro de si e viu que tinha todas as respostas e também perguntas que ninguém formulara. Estava criada a filosofia.

E hoje eu olho pra Terra, pros seus habitantes, com meu crítico olhar de pessimismo e descrença; para onde é que essas pessoas estão a nos levar?





sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Seres Humanos (Tiago Nascimento)

Já nasce, Já chora, Já mama, Já olha
Já sorri, engatinha, Já grunhe, balbucia
Já anda, Já morde, Já fala, Já corre
Já brinca, De bola, Já brinca, Lá fora
Já sabe mentir e amor sentir.

Já estuda, Já aprende
Já lê, escreve E entende
Já telespecta, Já namora
Mas o que gosta mais: jogar bola.
Já sabe sentir amor, mas prefere mentir.

Já mente, Já enrola, Já foge Da escola
Já procura liberdade, Não corta o cabelo
Já ouve Rock E demora no chuveiro
Já fuma, Já bebe E palavrões Escreve
Já se alista E trabalha E como adulto Fala.
Se sente amor, não sabe fingir.

Já namora, Se casa E quer Casa
Já trabalha Na fábrica E acha a vida: Muito lógica
Já é pai, Já educa, Se estressa, Machuca
É duro, É forte, Tem medo Da morte
Já comprou Um carro E mudou De trabalho
Já briga Com a esposa, E bebe -Que coisa!
Já casa Os filhos E anda Nos trilhos.
Já se aposenta Já para E nos “findis” Embaralha
Já reclama Da política, Sente medo De polícia
Ainda sabe mentir, mas prefere não mais iludir... ninguém.

Já tem riffs De nostalgia, É avô, Sofre de embolia
Já de muitos males Outros adoece
Já logo porém Reestabelece-se

Só observa A vida E manera A bebida
Já usa Peruca E caduca -Velho biruta!
Já adoece, Já morre, E no céu a Divindade o acolhe.
Já não pode fingir nem tampouco amor sentir.

Já conheceu Deus e pediu pra voltar
Pros seus Pro lado de cá.

Então nasce outra vez E chora de novo
Já mama outra vez, Já olha de novo
Já sorri outra vez, Já engatinha de novo
Já grunhe outra vez, Já balbucia de novo
Já anda outra vez, Já morde de novo
Já fala outra vez, Já corre de novo
Já brinca outra vez, De bola, de novo
Já brinca outra vez, Lá fora de novo
Já sabe mentir e amor sentir mais uma vez.

Já estuda outra vez E aprende de novo
Já lê, escreve outra vez E entende de novo
Já telespecta outra vez Já namora de novo
Mas ainda gosta mais De jogar bola... no play 2.
Já sabe sentir amor, mas prefere mentir mais uma vez.

Já mente de novo E enrola outra vez
Já foge de novo, Da escola outra vez
Já procura liberdade de novo, Não corta o cabelo outra vez
Mas não existem bons Rocks dessa vez...
Ainda se demora no chuveiro outra vez
Fuma maconha agora, E bebe outra vez
E palavrões novamente Escreve outra vez
Já se alista de novo E trabalha outra vez
E como adulto de novo Fala outra vez.
Novamente se estiver a sentir amor, não saberá fingir.

Já namora novamente, Já casa outra vez
E quer como sempre: Casa outra vez
Já trabalha novamente, Noutra fábrica dessa vez
E acha a vida novamente Muito lógica outra vez
Já é pai de novo, Já educa outra vez
Se estressa como sempre, Machucando os seus
E é duro novamente Sendo forte outra vez
Tem medo somente De morrer sem poder
Comprar novamente Um carro. Que belez...a.
Já mudou novamente De emprego outra vez
E briga de novo Com a esposa e as outras três
E bebe novamente - Que coisa! Outra vez?
Já vai casar novamente outros filhos dessa vez
E anda sorridente Nos trilhos outra vez
Já se aposenta novamente Parando aos 53
E nos feriados geralmente Joga damas ou xadrez
Já reclama novamente: De política, mais uma vez
E seu medo premente: Ficar demente de vez
Continua ainda sabendo mentir, mas prefere não iludir... ninguém.

Sofre crises de choro Por ser idoso outra vez
Então de novo vira avô E novos netos amenizam a viuvez
De muitos males novamente Outras vezes adoece
Já logo, porém, de novo, Tudo passa, se reestabelece.
Já usa mais de uma vez Pílulas azuis pro dormente
E caduca de vez. - Velho biruta! E indecente.
Não adoece de novo Mas morre outra vez
Pro túmulo vai seu corpo Mas sua alma, meu Deus!

Já não nasce outra vez
Nem chora, mama, olha ou sorri
Não engatinha, não morde
Não fala ou corre
Não brinca de bola ou re-brinca lá fora.
Não soube viver, melhor nem renascer.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Caminhar II (Tiago Nascimento)



Caminhar.
Nada mais faz o homem do que isso.
O que acontece entre um passo e outro são detalhes, não importam.
Viver é caminhar.
Viver é se mover.

Por vezes lento por vezes lépido.
Às vezes com medo em outras vezes intrépido.
Por vezes em silêncio, em outras com estrépito.

Caminhar. Caminhar.
Se movimentar de lá pra cá, de cá a acolá.
Andar. Andar. Andar.
Viver é nunca parar.
Morrer é nunca mais andar.

Por isso levante-se, vá!
Caminhe.
"Caminhando o caminho se faz"...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Caminhar I (Tiago Nascimento)

O homem caminha.
Não tem certeza de onde vai, nem de onde veio, nem mesmo de porque caminha.
Apenas caminha.
Um pé, depois o outro, mais uma vez o um, outra vez o outro.
Andar.
Existe sentido na vida? Ele não sabe, nem se preocupa. Só caminha.
Da casa para o trabalho, do trabalho para o barzinho, do barzinho pra outro lugar, de outro lugar a outro e assim todos os dias, todas as semanas, os meses, os anos, os séculos. Até milênios talvez…
O homem caminha desde que seu mais antigo ancestral desceu das árvores.
Aos domingos pra igreja, as terças pra feira, aos sábados pra casa da sogra, nas férias pra praia, nas quartas pro estádio, e uma vez ou outra ao médico.
E no fim, na última caminhada, caminha-se deitado. Acompanhado. Outros homens ao seu lado. Caixão de mogno encerado. São sete palmos descampados. Et omnis motus finem

caminhar

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Palavras únicas: Dissabores (Marcelo Lamas)

Há palavras na língua portuguesa que são mágicas e sem tradução digna da sua magnitude, o substantivo no plural "dissabores" é um deles. Outro dia, um amigo sexagenário me disse: "Tome cuidado para não causar dissabores aos outros". Eu já conhecia o verbete, mas nunca tinha analisado a sua profundidade. Neste cotidiano em que tentamos acelerar a rotação do planeta, vivemos jogando palavras pra fora, sem medir seu impacto.
O mesmo amigo de cabelo branco, me advertiu com um provérbio antigo: "Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida".
Sempre gostei da síntese. Se ao invés de usarmos pensamentos completos junto ao nick do msn, colocássemos uma única palavra, não seríamos mais autênticos?


A propósito:
Dissabor: 1 Desgosto, desprazer. 2 Acontecimento incômodo ou desagradável. 3 Contratempo. 4 Mágoa.

Marcelo Lamas escreve artigos e crônicas para jornais, revistas, blogs e livros há 16 anos. É engenheiro e professor universitário. marcelolamas@globo.com

domingo, 27 de março de 2011

A árvore centenária (Sônia Pillon)

Todos os dias, quando chegava a noite, Sofia se sentava de frente para a grande árvore, do outro lado da calçada. Da varanda da casa, ela admirava a imponência daquele ser vivo, tão altivo, corajoso e saudável em meio à selva de pedra. “Com certeza, tinha sido plantada há mais de 100 anos!”, pensava. Gerações chegaram e se foram, e lá estava ela, grandiosa, firme, impávida...

Quando chovia, as folhas verdes ganhavam uma aparência envernizada, de tão brilhantes, e as gotas de água mais pareciam pedras preciosas. A cada outono, o número de folhas amarelecidas se misturava com as verdes. E quando a enxurrada inundava a rua e arrastava tudo o que via pela frente, algumas folhas caíam como cascata e cobriam o chão. Mais parecia um tapete bicolor a contornar o grande tronco.

Eram nesses momentos que Sofia ficava acompanhando a ação da chuva e do vento, que sacudia os galhos para lá e para cá. Os galhos sempre conseguiam segurar a maior parte das folhas.

O ruído lembrava o farfalhar de um vestido de seda, “daqueles que as mulheres usam em eventos de gala”, imaginava a menina.

O que mais a impressionava era a energia que a árvore transmitia para ela, com suas fortes raízes fincadas no chão e seu tronco largo e maciço. Se sentia tão frágil, em comparação com a grande árvore! Magra, tímida e introvertida, a adolescente sempre se sentia intimidada ao avistar a grande árvore, ao longe...

Não era do tipo que passava as tardes no shopping com as amigas, muito menos nas baladas. Vivia para os estudos, e seu isolamento, muitas vezes interpretado como arrogância e altivez, nada mais era do que fruto de sua própria insegurança.

Ela já tinha lido em algum lugar que para recobrar as energias, bom mesmo era abraçar uma árvore e absorver um pouco da força emanada do tronco, mas nunca teve coragem de atravessar a rua para conferir isso.

Aquela árvore, que sempre atraía lindos pássaros em sua copa, era abrigo do sol e da lua, e também de casais que buscavam privacidade. “Ah, se essa árvore falasse!”, pensou, em voz alta. Até em dia de trovoada, mesmo com os raios, havia os que preferiam se arriscar e ficar embaixo de seu tronco. A centenária sempre transmitia segurança a quem passava.

Em vários momentos, Sofia lembrava da ótica espiritualista, da “árvore da vida”, associando sua estrutura ao corpo humano. E que na Índia, as árvores bodhi são chamadas de “árvores da felicidade”...

Hoje, a maior parte do dia foi quente, e o sol cobriu a árvore com seus raios. O poente se foi há poucos minutos. Ainda há luz do dia.

Como que impulsionada por uma força invisível, Sofia se encheu de coragem, levantou, caminhou até o portão, atravessou a rua e foi de encontro à grande árvore. Ela colocou as mãos no tronco rugoso, sentindo a textura, fechou os olhos e o abraçou, com toda a força. Lágrimas começaram a escorrer de seu rosto, mas dessa vez não eram de tristeza Queria receber toda a energia possível, para se sentir tão forte quanto a grande árvore centenária...

Enquanto abraçava o largo tronco, uma força indescritível tomou conta de todo o seu corpo, e um sorriso finalmente começou a surgir em seus lábios. Sofia ficou por longos minutos ali, agarrada à grande árvore, até que decidiu voltar para casa e tirar a cadeira da varanda, para espanto dos vizinhos. Estava decidida a não ser mais uma mera espectadora na vida!

Lembrou que suas colegas de escola iam assistir uma comédia no cinema, e decidiu confirmar que iria, para surpresa geral. Se sentia forte e pronta para enfrentar a vida, enfim...

Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre e há mais de 14 anos radicada em Jaraguá do Sul.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ruídos (Tiago Nascimento)

Caminhou rapidamente em direção ao inferno astral. Depois verificou o GPS do seu IPOD e corrigiu a rota: sudoeste. Seguiu feliz assoviando um tango de Carlos Gardel. Pensou na ironia da vida e sorriu. Não estava pronto pro céu.


Luzes na cidade ao seu redor. Pessoas concentradas em si mesmas. Vitrines repletas de felicidades instantâneas. Cães vadios no pátio de lugar nenhum. Algazarra, fogos, folia, paixões, tangos e desilusões. O calendário avançou; o que mudou?


Sorriu enquanto abria o portão. Bom dia minha flor. Boa noite manjericão. Tropeçou na mesinha de centro. Derrubou uma revista no chão. Pensou na brevidade da vida. Lembrou da sua separação. Deitou com os sapatos ainda e dormiu. Feliz dois mil e...




Tiago Nascimento é professor. jesuscristohumano@gmail.com

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Libertação (Sônia Pillon)

A vida é muito estranha, às vezes. Acho até que as pessoas esperavam que
eu chorasse,vestisse roupas escuras e me sentisse profundamente triste. Deus que me
perdoe, mas fazia tempo que não me sentia tão aliviada! Parece que tirei
um enorme peso das minhas costas! E pensar que eu quase não reparava
mais no pomar lindo dessa casa! A goiabeira está lotada.


Aquele cinamomo antes me parecia tão escuro, tão assustador, que me
dava arrepios!...Como é que eu não tinha reparado essas folhas tão verdes,
esse cheiro de mato molhado em volta?! E o pé de pitanga, que coisa mais
linda!... Como a natureza é sábia! Ah, como é bom fechar os olhos e ouvir
o ruído do vento e das folhas, e lembrar do colorido das flores rasteiras! E
as rosas do jardim? Hoje estou me sentindo com 20 anos de novo!...


Quantas vezes eu estive aqui, andando automaticamente por esse pomar,
reclamando que os passarinhos estavam comendo as frutas, a sujeira que
faziam por tudo... as folhas que caíam e eu precisava limpar... Sempre
ligada no piloto automático, como diz a minha filha... Sim, ela tem toda a
razão!... A minha vida era tão vazia de emoção que até a beleza desse lugar
passava despercebida para mim.


Mas hoje tudo parece diferente, porque meus olhos voltaram a enxergar
cores onde antes eu só via em preto e branco
Quantos passarinhos! Eles adoram as minhas frutas, que maravilha! Eu não
vou poder comer tudo, mesmo. Só assim eu sempre vou ser acordada pelos
passarinhos na janela...


Preciso trocar aqueles lençóis e esvaziar um lado do armário. Não faz
sentido mais guardar aquelas roupas. Melhor ainda, vou comprar uma
cama e um armário novos, e comprar roupas novas também! Vou dar uma
repaginada nesse visual, é isso que vou fazer!
Alô! É da agência de viagens? Quero reservar uma passagem para aquele
cruzeiro de final de ano pela costa brasileira. Sim, aquele que o Roberto
Carlos se apresenta. Ainda tem vaga? Sim, só para uma pessoa. Ótimo!
Obrigada! Tchau!
A vida é mesmo muito estranha, às vezes...



Texto originalmente produzido em fevereiro de 2008, e adaptado em agosto de
2010.