Estou completando 18 anos neste “ofício de juntar palavras”, como disse Drummond. Começou cedo minha admiração pelos impressos. Não havia o Google, achei importante manter uma fonte de informações e comecei a colecionar jornais. Consegui convencer minha mãe a gastar o salário integral de um mês de trabalho para comprar minha primeira máquina de escrever – um instrumento no qual você batia na tecla e a impressão saia automaticamente: “Marcelo, tu vais usar esta máquina? Só vale a pena comprar se tu fores usar bastante”. Usei e muito.
Ainda adolescente iniciei escrevendo para as seções de opinião, no RS. Quando mudei para Jaraguá do Sul tive dificuldade para publicar minhas ideias. Fiz uma pesquisa e quase não apareciam opiniões femininas. Pensei em escrever usando um pseudônimo de mulher. Depois, decidi que tinha que ter um “cargo”. Então, fundei uma “entidade”, que nem estatuto tinha, era o presidente. Hoje entendo que os espaços eram mais restritos e que os jornais não eram diários.
Um dia uma menina de onze anos sugeriu que escrevesse as histórias engraçadas que contava. Procurei aprimoramento, fiz cursos e oficinas para escritores e passei a dedicar-me às crônicas. Participei de antologias e publiquei um livro solo. Ainda está viva no meu DNA a obrigação social da época das opiniões. Fico imaginando ter um calçadão exclusivamente para pedestres – como o nome sugere – e deixar todos os semáforos “piscando” depois das 23h. É muito estranho ficar parado esperando um assalto às 2h da madrugada.
Por outro lado sou um contador de histórias por causa da Susana, era o babá da minha irmã. Quero ressaltar que só escrevo porque existem os leitores, senão guardava meus manuscritos num armário.
Meus amigos confidentes concordam comigo quando digo que as melhores histórias – ou trechos – são aquelas que não posso escrever. Não faltam transgressões, vindas de muitas direções, querendo descer pela ponta da minha caneta. Sigo a doutrina de Mario Quintana: “Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”.
sábado, 6 de julho de 2013
Motivos para escrever (Marcelo Lamas)
domingo, 9 de setembro de 2012
O começo que nasce para morrer (Ítalo Puccini)
As coisas só começam porque um dia terminarão.
Eu gosto desta frase, apesar de não gostar da palavra coisa. Penso-a (a frase, não a coisa) apontando para direções que são várias: início, fim e meio do mundo; início, fim e meio da vida; início, fim e meio de um relacionamento; início, fim e meio de um livro. Há um meio depois do começo e do fim, assim como entre.
A tendência de um começo é a morte instantânea.
Linkando com a literatura, temos: o começo de um texto é aquilo que mais é renegado pelo escritor. É a substância que brota para ser jogada fora. É o apêndice. Nascido para morrer. E mesmo aquele começo – de texto ou qualquer outro começo - que se apresenta a todos como definitivo, aquele começo que ficou definido como o começo de algo, está entregue à mudança constante. Não à morte, mas à mudança. Pois ele nem sempre será lido como o começo que se propôs a ser. Por que não ser lido como uma possibilidade de final, então? Será daí que todo fim é um começo?, uma vez que cada nova leitura pode ser a morte e o enterro da leitura anterior, sugada antes de não mais existir.
Um começo de livro marcante pode ser este: "Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel". É do livro "A casa de papel", do argentino Carlos Maria Domínguez. Ou este: "Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo lado. Uma roda de gente se engordou em redor da coisa. Também eu me cheguei, parada nas fileiras mais traseiras, mais posto que exposto. Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la". Do livro “O último voo do flamingo”, do moçambicano Mia Couto. Dois simples começos como estes, que apresentam ações pontuais em tão poucas linhas, que delineiam uma miríade de caminhos na cabeça do sujeito-leitor – que poderão ser alcançados ou não, afinal, cada leitura é uma leitura.
Há, ainda, o começo de “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:”.
Dois pontos. Como que dizendo ‘agora vou contar a história’. E que o leitor deixe de lado a birra infantil de ‘ah, por favor, não me conte o final’. Há literaturas que se sustentam pelo seu durante. Há literaturas que encantam só pelo começo. Há literaturas que decepcionam principalmente no final.
[Um bom começo também pode ser um caminho para o abismo da decepção].
O começo como morte é a oportunidade de não se estranhar muito o novo começo, o recomeço. E de não sentir muito aquele que não mais existe, porque nada nem ninguém vem para substituir algo ou alguém, mas para acrescentar, para existir a partir daquilo/daquele que não mais.
ítalo puccini
professor de língua portuguesa, literatura e redação.
escritor nos blogs:
www.um-sentir.blogspot.com
www.rabiscosfutebolisticos.blogspot.com
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Fodidos pela arte. E pela linguagem. (Ítalo Puccini)
"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".
Esse Eduardo Galeano, no texto "Celebração das contradições/ 2", no "Livro dos abraços", leva-me à palavra. Que por si só contradiz. E consequentemente acontece com quem dela faz uso. E que bom que assim é. Perfeição de entendimento tornaria o mundo mais caótico do que já é, acredito.
Existimos pela incompletude da linguagem. Não nos há como fugir disso.
Há uma passagem da peça "Passport", da Companhia Rústicos Teatral, em que um dos policiais diz ao outro algo mais ou menos assim (porque toda transcrição de fala é imperfeita por natureza): "O que me tranquiliza, chefe, é saber que nessa vida estamos todos fodidos".
E não é assim?
A sinopse da peça diz: "Tudo acontece em alguma cidade, algum país esquecido. O Oficial e o Soldado exercem suas funções cotidianas sob a ordem dada em outro tempo. E em eterno presente, o Cidadão se vê em alguma cidad, algún país olvidado. Mesmo falando a mesma língua, Cidadão e Soldado não conseguem se entender quando chegam ordens do Oficial (o chefe). O Cidadão é preso como um suposto terrorista e é na cela que, segundo o diretor da peça, Samuel Kühn, os personagens são envolvidos “em situações absurdas desencadeadas, sobretudo, pelo conflito linguístico, em que são abordadas questões como a incomunicabilidade e a perda de sentido". A peça, baseada em um texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott, explora os limites da linguagem, a incapacidade de comunicação entre as pessoas, mas não só. Ela inquieta o leitor que assiste a ela porque não há o que ser feito numa situação em que duas vozes dialogam cada uma em uma dimensão própria, podemos chamar assim. Nós que a assistimos alcançamos essas duas dimensões (quem sabe?), mas não nos cabe intervir. Talvez se tornaria, a nossa, apenas uma terceira voz se perdendo entre as outras duas. Quanto mais alto o barulho, menos se ouve dele.
Mas voltando à frase presente na peça, desde que assisti a ela duas vezes, não me sai da cabeça. E eu vivo a repetindo, às vezes em alto e bom som. Como que para internalizá-la mais e mais. E para me sentir mais leve também. Porque haja mania grandioloquente de nossa parte em tornar maior aquilo que é tão pouco, não é mesmo?
Eu escrevo personagens por aí. Dia sim, outro também. Vários personagens, às vezes. Noutras, grudo-me em um só. Sinto-me sempre acompanhado. Não só ouço, como também falo. Dividimos pedaços de vida. Compartilhamos felicidades e frustrações. Trilhamos caminhos separados, sim, mas unidos de alguma forma. Pela fala. E acreditamos num entendimento mútuo do que falamos entre nós. É melhor assim. Por mais que saibamos que entender mesmo a gente continua entendendo só o que queremos dizer e o que queremos ouvir. E o nosso querer não é nosso, no sentido de ser de dois. É um querer de cada um. Compartilhados. Misturados. Mas não tornado um só.
Então que ter essa ciência, de que estamos fodidinhos - graças a deos - no mesmo barco alivia muito a vida.
É uma forma de nos abraçarmos, talvez.
Ítalo Puccini
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Livro (Marcio Erino Ochner)
Depois de um turbilhão de ar,
Somente me restaram algumas palavras,
Estavam tão desconcertadas, que nem amara alguma deixou...
Foi o vento, que carregou consigo algumas palavras dele...
O texto, totalmente desconcertado e interrogativo pairou no ar.
Sem perguntas, as palavras apontavam somente o desprendimento do texto.
Na grafia desconcertada pelo evento, havia sentimentos a serem preenchidos.
Dentre outros modos encontrei alguns pedaços de fita em minha mente,
Então resolvi colar, envolvi-os com se fossem tinta sobre o papel...
Devolvendo-lhes a vida que o vento havia levado.
Adormecido entre a pena e o papel,
Num sonho onde minhas visões eram palavras,
Preto e branco, mais que voavam em liberdade numa folha de papel,
Nelas, o colorido nos olhares, daqueles que se detinham ao absorvê-las.
domingo, 20 de novembro de 2011
Reforma Ortográfica (Fred Paiva)
O trema caiu.
Marginalizado,
anda com o ponto nas esquinas
se fazendo de reticências.
POR FRED PAIVA.
sábado, 13 de novembro de 2010
pede licença o poema (Ítalo Puccini)
o lápis e o papel se encontram
em outro espaço-tempo.
como fazer, então?
como fazê-lo?,
o poema?
porque de repente,
sem adeus dizer,
o poema segue seu ritmo
e não mais possível se torna
acompanhá-lo.
porque o que caracteriza
o poema
é a brevidade;
nasce para ser fugaz.
ítalo puccini