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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Poema da vida (Elianete Vieira)

Poetisa, Iza me conquistou pela doçura. Com 74 anos, cheia de energia, preparou a festa de 80 anos do marido. Amiga virtual, descreveu os docinhos que fez ao me convidar para nos conhecermos.
Dia de comemorar a vida, a saúde, a família. Como é bom ver as pessoas chegando cada vez mais longe - semana passada, o tempo contou 5 anos da partida do meu pai a menos de 4 meses de completar 80 anos.
Me sentindo honrada com o convite, convidei o GPS para me acompanhar e lá fui eu desbravar as ruas desconhecidas de uma cidade vizinha.
No caminho, havia não uma pedra Drummond, mas um vale. Uma rua que desce íngreme e logo sobe mais íngreme ainda. Lá no final, um semáforo segurava os carros prestes a entrar na rodovia. No inicio da subida existe um semáforo que mede a velocidade máxima: 40 km/h.
Independente deste controle os carros nem saíam da 1a marcha. Motoristas sabidos mantinham distância de segurança uns dos outros. Subidona à vista.
Eu, parada, olhando o entorno, vi algumas senhoras bem arrumadas, com Bíblia na mão, caminhando juntas e conversando. Distraídas, atravessaram a rua sem perceber que estávamos em movimento lento parando dois metros depois.
Eu sai e logo parei. Continuei olhando pelo retrovisor. O carro que vinha atrás, havia deixado um espaço de um carro entre o meu e o dele, talvez imaginando que eu poderia dar uma "descidinha" porque foi isso o que ele fez ao iniciar o movimento.
O que ele não previu e uma das senhoras também não, foi que no exato momento da "descidinha", ela ainda estivesse passando por trás do carro.
Ela talvez não tenha sido motorista ou não seja tão ágil agora com seus belos cabelos prateados.
Eu, parada, aguardando o momento de andar 2-3 metros novamente, vi a senhora sumir atrás do carro. A "descidinha" do carro ao engatar a primeira, derrubou a vovó.
Imediatamente saíram do carro três homens que acudiram a senhora, levando-a nos braços para a segurança da calçada, enquanto o motorista procurava encostar e liberar o tráfego.
Até onde pude ver, a vovó conseguiu ficar em pé, já na calçada. Foi atendida prontamente e as amigas logo a rodearam.
Eu segui em paz, feliz em ver que o pequeno incidente não ficou sem atendimento.
Ah sim, e a festa? Foi maravilhosa.
Com o octogenário feliz cumprimentava a todos, no mundo dele, pois o Alzeimer lhe tira aos poucos a consciência presente, deixando apenas o passado na lembrança. O pastor a todos abençoou. A poetisa contou como eles se conheceram e citou momentos da vida deles em quase 50 anos de casamento.
Ela declamou um lindo poema de amor e confiança, dedicado ao seu príncipe e filha, emocionando os presentes. E assim, poetando a vida, ela comemorará seu aniversário em dezembro com o lançamento do livro que está no prelo.


Elianete Vieira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Retrovisão (Vana Comissoli)

O jornal abria-se como um escudo à frente de Almira, sempre que almoçava nos restaurantes em torno de sua casa usava essa tática para que ninguém a perturbasse.Atravessasse a fronteira estreita entre ela e o mundo. Não era preciso muito para evitar a intromissão, bastava o olhar carregado, a boca fechada dizendo “não” ininterrupto.
Virou a página pronta para nem relancear as manchetes, era dia do artigo de David Coimbra e não gostava dele e de nada que escrevesse. Na verdade era a mais genuína implicância, nem sabia o que o sujeito realmente escrevia, ou sequer pensava, mas uma amiga muito da atirada gostava dele então... Estava fora do seu círculo de admiração. Um dia o ouvira no rádio e comprara o livro comentado, gostou tanto que escreveu uma nota para o jornal. Teve um dia de ataque crônico de boa vontade, era sua justificativa toda vez que cometia a heresia de se agradar de algo que não fosse eleito única e exclusivamente por ela. Ou talvez de se agradar de algo tão somente.
- As pessoas têm a péssima mania de achar que sabem mais do que nós o que é bom para nós. Nesse engodo eu não caio, sei muito bem o que quero e sou feliz assim. - Afirmava para quem quisesse ouvir, embora a plateia fosse reduzida. O círculo de amigos era reduzido: os distantes colegas de trabalho; companheiros da igreja com que abria o peito e cantava embevecida Hosanas a Jesus, os companheiros de grupo de autoajuda. Estes últimos eram um segredo guardado a sete chaves, juramentados a se desconhecerem caso o maldito acaso os pusesse frente a frente mesmo na mais ingênua ou sisuda situação.
Quando entrou para o grupo resolveu que fazer benemerência era uma ótima pedida para se sentir em paz com a humanidade, depois, aos poucos, foi fisgada e chegou a pensar em ir mascarada, inclusive mimetizando a vez. Para sua surpresa e alívio o grupo votara favoravelmente para o Desconhecimento extra grupo e isso resolveu os problemas todos. Pontualmente comparecia, com chuva torrencial ou preguiça desmesurada, saia como quem sai do banho e evitava qualquer explicação, brincava no play ground, um pouco de lazer era necessário à saúde. A palavra mental aliada à saúde não fazia parte de seu dicionário pessoal, era inerente, é óbvio, não carecia investigações, veja-se como vivia tranquila consigo mesma sem intervenções incômodas e sem propósito. Serviriam apenas para interromper sua sessão de DVD contínuo de seus finais de semana. Gabava-se de ser uma excelente garimpadora de bons filmes e o espelho concordava sorrindo.
Voltou a atenção ao jornal, não era de seu feitio divagar assim, esse Coimbra não devia prestar mesmo, não era a primeira vez que lhe provocava desconcentração. O título a fisgou por que ainda ontem lera uma reportagem na VEJA que o tema acabava se assemelhando. A revista especulava a vida depois da morte, assunto que a fascinava nem sabia muito bem a razão. Às vezes pensava que sua vida era uma merda seca tão grande que a possibilidade ter outra era um conforto estimulante, ou uma esperança. Não gostava dessa palavra e menos ainda do sentimento. Esperar... Esperar e nunca nada, para sempre... Isso era a tal esperança dos trouxas.
A questão se tornou bastante incômoda e a cadeira ficou dura e desconfortável. Teria alguma coisa espetante no assento que não percebera? Almira disfarçou daqui e dali, deixou cair o guardanapo de papel que normalmente ignoraria, embora seus guardanapos jamais tivessem vida própria para se jogarem dessa forma deseducada ao chão.Empurrou-o para uma distância adequada com o pé. Era obrigada a levantar-se para recolhê-lo. Decididamente era uma malabarista por que a mão foi em direção ao descuido e o olho ficou para trás analisando a cadeira. Nada, estava limpinha. Ao sentar-se passou a mão na saia de cima a baixo. Nada.
“Os Cinco Maiores Arrependimentos à Beira da Morte é o título do livro escrito por uma enfermeira australiana que trata pacientes em estado terminal.” Mas que assuntinho indigesto, pensou Almira enquanto esquecia o escudo e apoiava o jornal diretamente sobre a mesa bem diante de seu prato onde a comida esfriava serenamente.
No hábito olhou o relógio tamanho cebolão, como se assim pudesse se fazer ainda mais presente na vida dela, ou na dos outros. Não se atrasava nunca e, se acontecesse de se atrasarem com ela os olhos,franzidos em estreitas frestas, grudariam nos mostradores que em vez de ponteiros tinham duros dedos ossudos. Estava em cima da hora. Olhou para os lados em busca de nem sabia o que até se dar conta que ninguém neste Brasil trabalha numa terça feira de carnaval e ela odiava a TV nesta época. Um despropósito aquela insinuação sexual toda embaixo de narizes que se torciam para isso. Chegava a sentir o cheiro dos corpos suados e pegajosos e o nojo lhe dava quase vertigem. Imaginava aqueles loucos todos se roçando antes e depois da avenida e o embrulho no estômago aumentava consideravelmente.
“A pergunta feita (escrevia mal este tal de David, repetindo verbos sem necessidade, o jeito era ler traduzindo para seu português seco e acadêmico) pela enfermeira aos pacientes foi: o que eles queriam ter feito na vida e não fizeram?”
Travou os dentes, era quase insuportável o jeito coloquial displicente deste cara. Ousadia imaginar que poderia escrever como se estivesse em sua sala escarrapachado no sofá. Tal pessoa devia ser muito deselegante e usar a sala dos outros como sua. Gente que se dizia à vontade e natural e eram mesmo mal educados e insolentes.
“Cinco itens que mais apareceram pela ordem:
1. Ter vivido a vida que eu desejava, não a que os outros esperavam de mim.
2. Não ter trabalhado tanto.
3. Ter tido mais coragem de expressar meus sentimentos.
4. Ter estado mais perto dos meus amigos.
5. Ter me feito mais feliz.”
Mas que respostas ridículas! Jamais teriam sido as dela. Mais viagens, mais dinheiro, mais demonstração de erro dos outros. As pessoas são superficiais e irresponsáveis, vão fazendo as coisas assim, no “ora, veja”. O que tem de mais o trabalho? É salutar e demonstra dignidade. Que droga de mal estar no estômago! Nem comi quase... O prato intocado, com um contorno de gordura amarelada e fria testemunhava.
O Coimbra se meteu a sabido, como sempre e analisou a análise da enfermeira que devia ter tido um trabalhão em analisar. Valha-me Deus! Foi desfiando uma sequência de situações onde as pessoas juram amor eterno bem na horinha que a Maluca Negra já estava com as garras na garganta delas. Talvez nem tão maluca.Este mundo está mesmo uma bagunça, poderia chama-la de Sábia Peneiradora, peneirava mal a donzela. Seria donzela? Enfim, também dizem que vaso ruim não quebra e por isso os bonzinhos se vão cedo e as pestes restolheiam por aqui mesmo.Se morre de qualquer jeito e nem valia pena examinar o acerto ou erro da peneira.
Mas o Coimbra não perdoa e as palavras continuaram indigestamente sendo escritas e agora estavam ali, gravadas num jornal que não se esfumaçava no ar e ao qual ela segurava com força sem perceberas articulações dos dedos estarem esbranquiçadas e uma dorzinha dura pegava na nuca como um colarinho muito apertado.
Até o famoso 11 de setembro ele desenterrou. Por que tinha que ser no meu aniversário? Nem os malditos anos podem sussurrar? Tem que gritar até os 50 serem atravessados a ferro e fogo com tudo desabando no meio de uma poeira que não há aspirador que sugue? Pois é, ele foi lembrando de quantos e quantos tinham usado o celular (agora todo mundo tem, até eu, mas felizmente não toca nunca, é mesmo para emergências) para dizer uma coisa besta que não tinham tido tempo de dizer: “eu te amo”.
No fundo, bem fundo da alma, o vômito ressuscitado vociferou e ela se levantou nem sabe como. Neste dia fatídico nunca sabia nada sobre nada do que fazia, parecia mais estar possuída e seria bem confortável que estivesse, mas não acreditava nesta coisa de espírito.A Veja que o confirmara cientificamente para não ficarem falando essas asneiras deslavadas.
E o cara não calava a digitação enchendo a coluna de coisas maciças e pesadas como bigornas quentes:
“Aqueles que buscaram a imortalidade gritando “eu te amo” ao morrer e os que se arrependeram de não ter dito mais “eu te amo” enquanto viviam compreenderam, no último instante, que qualquer coisa que se vá realizar durante a vida, só pode ser realizada com as outras pessoas. Seja por egoísmo vão, seja por amor abnegado, seja por prazer vulgar, seja pelo que for, as pessoas só se realizam com as outras pessoas. Pena que, muitas vezes, essa verdade só apareça quando é tarde demais.”
Ufa! Ponto final! E nem era um artigo tão grande assim. Olhou o relógio estilo cebolão que marcava pontualmente 18 horas.
O restaurante vazio e as mesas nuas de toalhas e pratos, garçons com caras desconhecidas, por que os do almoço conhecia todos, começando a se movimentar diligentemente enchendo novamente os galheteiros e o balcão das saladas já atulhado de travessas de folhas frescas e verdes dava uma sensação que o tempo não passou passando.
Não passou passando... Não passou passando...
Pagou a conta mecanicamente com o cartão de crédito cheio de créditos jamais gastos e recebeu o sorriso da caixa também desconhecida, não era a mocinha aguada que sorria todos os dias às 13horas. Ela também tinha passado. O que mais teria passado?
Não passou passando... Não passou passando... Tem alguma coisa errada com essa construção e não sei o que é, resmungou Almira enquanto saía louca para ser invisível. Peguei uma virose e devo estar com tanto frio embora o termômetro beire os 40° devido a uma febre terçã em início de carreira.
Não passou passando... Não passou passando...
O que tem de errado aqui?
O ruído de freios guinchando deu uma clareza insuspeita e enquanto adentrava no túnel estreito e claro com os parentes todos ali velando por ela, a lucidez deu um solavanco e gritou:
- Passou não passando!
Acidentes atraem olhares mesmo os acostumados, mas o descostume tomou a todos quando a ferida, ou já morta, ou quem sabe, gritou num só golpe:
- Eu te amooooo!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O homem sem braço (Sônia Pillon)

Enquanto capinava vigorosamente e retirava as ervas daninhas que insistiam em nascer no pátio, com o único braço de que dispunha, o direito, João ficou lembrando do tempo em que podia tudo, sem restrições.

A alta estatura e o porte atlético sempre garantiram o seu sucesso com as mulheres. Ele completava os atributos físicos com um largo sorriso e constante bom humor.

Foi aos 28 anos que conheceu Valdete, moça bonita, tímida e de boa família, e se apaixonou. Não demorou muito e eles começaram a fazer planos para o futuro. Em menos de um ano se casaram, e o primeiro filho, Leandro, nasceu sete meses depois.

João era respeitado na fábrica. Sua força física e dedicação ao trabalho o faziam um dos melhores operários do setor de auto-peças. Era um dos que mais produzia na seção onde trabalhava, e para ele não tinha tempo ruim. Tudo isso até o dia em que prendeu o braço esquerdo na máquina e quase perdeu a vida. A partir daí, tudo mudou. Foi aposentado por invalidez e teve de aceitar esse trabalho, de auxiliar de serviços gerais na associação, com direito a moradia.



Desde o acidente, seu sorriso desapareceu dos lábios. Passou a ser introvertido e desconfiado de tudo e de todos. Mas o que mais o revoltava era o olhar de piedade das pessoas, que o atingia como uma flecha certeira no peito. Nessas horas, levantava a cabeça, virava o rosto para o outro lado e fazia um esforço supremo para não chorar.

Mas o que mais o incomodava eram as crianças, que cochichavam e riam entre si quando o viam passar, aguçadas pela curiosidade e pelo espanto. Se sentia uma atração de circo.

Mesmo assim, procurava seguir com a vida. Valdete teve mais um filho, dessa vez uma linda menina, Lara, o que confirmava que ele continuava sendo um homem vigoroso, que não negava fogo. Mas ele não acreditava mais em si mesmo. Sua auto-estima tinha caído a zero.

Certa vez uma das adolescentes da vizinhança o viu com a mulher e os filhos, e chegou a comentar com uma amiga:

- Olha só, faltando um braço, mas continua fazendo filhos... Sinal de que para outras coisas ele ainda está inteiro, disse, e as duas sorriram, maliciosas. João continuava um homem bonito e atraente, mas não se dava conta disso. Tanto que naquele momento, o riso das duas pareceu apenas um deboche cruel pela sua condição de deficiente físico. E ele as odiou profundamente!... Seus olhos chisparam, e foi só aí que as duas garotas se deram conta do que tinha acontecido.

Em vão tentaram se desculpar cumprimentando-o outras vezes, com seriedade e respeito. A partir daquele dia, toda vez que via as garotas, ele as virava a cara, demonstrando um profundo ressentimento.

Passou a se isolar mais ainda das pessoas. Evitava ao máximo sair de casa, e em família, passou a ser um pai e marido frio. Começou a evitar a mulher na intimidade. Valdete realmente amava o marido, fazia de tudo para agradá-lo, mas ele via em sua dedicação apenas uma manifestação de piedade, nada mais.

Até que um dia o inevitável aconteceu. João pegou suas coisas e foi embora, sem se despedir de ninguém. Valdete ainda ficou mais uns meses na casa, mas depois também se mudou do bairro, triste e cabisbaixa Dizem que voltou para a casa dos pais com os dois filhos.

Quanto a João, ninguém sabe, ninguém viu...Uns dizem que ele foi ser jardineiro em outra cidade, outros que tinha sido internado numa clínica para tratar de depressão. Mas a verdade é que nunca mais se soube do paradeiro de João por aquelas bandas. Nem se tinha morrido, ou se ainda estava vivo.

Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre e há 14 anos radicada em Jaraguá do Sul. Texto publicado na revista eletrônica literária Letras et Cetera, em 19 de fevereiro de 2011.