Quando estamos juntos aflora a energia que nos une
Tentamos dissimular, emular energias impossíveis
ou possíveis, sei lá, mas energias
e afloram, com floras, flores, florais de Bach
e música suave barrocamente invade o ar...
Plantar, semear, regar e esperar germinar. Paciência bovina. Ou taurina, embora esta imagem esteja mais aliada à impaciência. Com mais de 2.600 anos, a Lira de Tomb, suméria, de Ur, apresenta harpa decorada por uma cabeça de touro de madeira, coberto com ouro e barba em lápis-lazúli, que integra o acervo do Museu Britânico. Mais tarde, surge o mito do Minotauro na ilha de Creta, governada pelo rei Minos: cabeça e cauda de touro num corpo de homem, povoou o imaginário dos gregos, levando medo e terror. Habitava um labirinto e nasceu em função do desrespeito do marido de sua mãe ao deus dos mares, Poseidon. O rei Minos pediu ao deus que o deixasse tornar-se o rei de Creta. Poseidon aceita o pedido, porém pede em troca que, em sua homenagem, o rei sacrificasse um touro branco, lindo, que sairia do mar. Ao receber o animal, o rei ficou tão impressionado com sua beleza que resolveu sacrificar outro no lugar, esperando que o deus não percebesse. Muito bravo com a atitude do rei, Poseidon resolve castigar o mortal: Pasífae, esposa de Minos, se apaixona pelo touro, ficando grávida do animal, união da qual nasce o Minotauro. Desesperado e com muito medo, Minos solicitou a Dédalos que fizesse um labirinto gigante para prender a criatura: foi construído no subsolo do palácio de Minos, na cidade de Cnossos, em Creta. Após vencer e dominar, numa guerra, os atenienses, que haviam matado Androceu, seu filho, o rei de Creta ordenou que fossem enviados todo ano sete rapazes e sete moças de Atenas para serem devorados pelo Minotauro. Após o terceiro ano de sacrifícios, Teseu, herói grego, apresenta-se voluntariamente para matar o Minotauro. Ao chegar na ilha, Ariadne, filha de Minos, apaixona-se pelo herói e resolve ajudá-lo, entregando-lhe um novelo de lã para que pudesse marcar o caminho na entrada e não se perdesse no grandioso e perigoso labirinto. Tomando todo cuidado, Teseu escondeu-se entre as paredes do labirinto e atacou o monstro de surpresa. Usou uma espada mágica, que também havia recebido de Ariadne, colocando fim àquela terrível criatura. O herói ajudou a salvar outros atenienses que ainda estavam vivos no labirinto. Saíram do local seguindo a guia formada pelo novelo de lã. O mito do Minotauro foi um dos mais contados na época da Grécia Antiga. Passou de geração em geração, principalmente de forma oral. Era uma maneira de ensinar o que poderia acontecer àqueles que desrespeitassem ou tentassem enganar os deuses.
O argentino Julio Cortázar, em sua peça Os Reis, mostra-nos um Minotauro meigo, humano, que encanta e busca, nos jovens que chegam todo ano, somente carinho e companhia. Conquista-os, fazendo com que não queiram voltar à terra natal.
Por sua característica de força e poder, a figura do touro sempre foi reverenciada pelo ser humano. Mais recentemente, artistas como o espanhol Francisco de Goya, com sua Tauromaquia, série de 33 gravuras publicada em 1816, e Pablo Picasso, também espanhol, com no mínimo cem trabalhos – desenhos e gravuras, na maioria – dedicadas ao tema, motivo recorrente na obra picassiana desde a infância, na casa dos pais, em Málaga, até a década de 1960, tiveram importantes exposições pelo mundo.
Informação, informação... Que não fazia acabar seu pavor, medo, pânico pela simples lembrança de um touro. Um boi, que fosse. Trauma adquirido na pequena cidade do interior paulista, família morando perto do matadouro. Chegavam, semanalmente, boiadas para o abate, vinham a pé, passavam pelo meio da cidade, única rua ligando diretamente a estrada com o abatedouro. As mulheres recolhiam as crianças para as casas, pois a rua era o quintal onde brincavam, todas, numa época em que o trânsito era, na sua maior parte, feito a pé ou a cavalo. Charretes, carroças, carroções iam e vinham, modorrentamente, não perturbando a paz dos viventes. Mas, naquela tarde, inesperado, um grito de desespero rasga o silêncio da tarde: Estouro! Sua mãe, heroicamente, só teve tempo de jogá-lo contra a parede da casa e jogar-se sobre seu corpo. O corpo da mãe ficou irreconhecível, pisoteado e chifrado pela passagem do cortejo assustador, irado.
Sabe, ele, que prender-se ao passado traz nostalgia, não ajuda nada o viver. Mas, se a história ficou para trás, a lembrança está viva em sua mente. Precisa aprender ousadia e o prazer de experimentar, embora não goste de arriscar sua segurança. Ao atravessar ruas olha para os dois lados, fazendo-o também para cima e para baixo, num tic, ou TOC, nervoso, que ele não pode evitar. Ritual, cerimonial, medo... A Tauromaquia marcou sua vida. Marcará sua morte?