Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Duplicidades (Inacio Carreira)

Na aula de História o tema, por incrível que pareça, foi Gêmeos. Numa parceria com Biologia, Geografia e Língua Portuguesa, numa tal de transdisciplinaridade, o professor de História, que teve a ideia, falou sobre Castor e Pollux, irmãos gêmeos da mitologia greco-romana, filhos de Leda com Tíndaro e Zeus, respectivamente, irmãos de Helena de Tróia e Clitemnestra, e meios-irmãos de Timandra, Febe, Héracles e Filónoe. No mito, os gêmeos partilham a mesma mãe, porém têm pais diferentes – o que significa que Pólux, por ser filho de Zeus, era imortal, enquanto Castor, não. Com a morte do irmão, Pólux pede ao pai que deixasse seu irmão partilhar da mesma imortalidade: teriam sido transformados na constelação de Gêmeos e são tidos como padroeiros dos navegantes, a quem aparecem na forma do Fogo de Santelmo. Esse fogo-de-santelmo é, na realidade, uma descarga eletroluminescente provocada pela ionização do ar num forte campo elétrico provocado pelas descargas elétricas. Entendeu? Eu não, ainda...


Já Rômulo e Remo, na mitologia romana, também são irmãos gêmeos: Rômulo fundou a cidade de Roma e foi seu primeiro rei. Conta a lenda que Rômulo e Remo eram filhos do deus grego Marte e da mortal Rhea Silvia, filha de Numitor, rei de Alba Longa. Reza a lenda que Amúlio, irmão de Numitor, após golpe de estado, apoderou-se da coroa e fez Numitor prisioneiro. Rhea foi confinada à castidade, para que Numitor não viesse a ter descendência. Entretanto, Marte desposou Rhea Silvia, que deu a luz a Rômulo e Remo. Ao saber do nascimento das crianças, Amúlio jogou-as no rio Tibre: a correnteza os arremessou à margem e foram encontrados por uma loba (prostituta?), que os teria amamentado e cuidado até que foram achados pelo pastor Fáustulo, que junto com sua esposa os criou. Na Itália, as prostitutas são chamadas de Lobas, daí o nome de lupanar ao prostíbulo, o que muda um pouquinho a história acima.


E Cosme e Damião? Alguns relatos atestam que eram originários da Arábia, de pais cristãos. Seus nomes verdadeiros seriam Acta e Passio. Eles foram martirizados na Síria, sendo desconhecida a forma como morreram. Perseguidos por Diocleciano, foram trucidados e fiéis transportaram seus corpos para Roma. Das várias versões, uma explica que eram irmãos, bons e caridosos, que realizavam milagres. Outros relatos afirmam que foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e inimigos dos deuses romanos. Em outro, na primeira tentativa de morte foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, foram degolados e morreram. Depois de mortos, apareceram materializados ajudando crianças que sofriam violências. A partir do século V, os milagres de cura atribuídos aos gêmeos fizeram com que passassem a ser considerados médicos, pois, quando em vida, exerciam a Medicina na Síria, em Egeia e Ásia Menor. Mais tarde, foram escolhidos patronos dos cirurgiões. Muito esforço foi despendido para mostrar que Cosme e Damião não existiram de fato, que é apenas a versão cristã dos filhos gêmeos de Zeus, pagão.


Alguém lembrou do filme Gêmeos, Mórbida Semelhança, que tinha assistido em casa, e pediu para a professora de Artes entrar no circuito da transdisciplinaridade. Ela disse que não, que esse filme é muito forte para nossa idade. Curioso, juntei-me a um grupelho e assistimos ao mesmo em minha casa. Dirigido por David Cronenberg, “explora os mais estranhos medos, entre os cantos mais inquietantes da psicologia humana e da sexualidade”, diz a sinopse. Mais ainda, informa que é a história de gêmeos, médicos e ginecologistas, que são tão próximos que “suas identidades parecem interligadas em uma espécie de ´consciência conjunta`. Eles se aproveitam da aparência idêntica para trocar de lugar um com o outro à vontade, seja em aparições públicas, na realização de cirurgias e, até mesmo, compartilhando as mulheres que se envolvem com um deles. Quando um se apaixona por uma estrela de cinema, Claire, o elo íntimo é rompido, as coisas começam a dar errado. “O filme é um estudo sobre o pesadelo da dependência psicológica, das obrigações entre as pessoas saudáveis (simbolizado pelo sonho horrível em que um se imagina unido ao outro por um cordão umbilical de carne, que Claire tenta morder)”. Embora inusitada, o filme é baseado em fatos reais, quando os gêmeos e também ginecologistas de 45 anos, Stewart e Marcus, foram encontrados mortos em seu apartamento, em 1975 (o filme é de 1988). À época das mortes, os médicos se tornaram viciados em barbitúricos.


Vivos, alegres e comunicativos deveriam ser todos os gêmeos, desde os verdadeiros (pois já nascem acompanhados, não devem nunca sentir solidão) até os do signo. Entretanto, as histórias são trágicas, falando de terror, morte, desolação. O que eu faria se este fosse o meu signo? Gêmeo não sou, sei de cor, embora tenha uma pesquisa no Google que informa de estudos realizados com gêmeos separados ao nascer e criados em lugares diferentes, para ver se o DNA ou a criação, o ambiente, influenciam na pessoa. Deu 10 a zero para o DNA, deixou todo mundo intrigado.


Acho que os professores vão ter muito trabalho conosco. Depois de toda esta pesquisa não vai ter pra ninguém. Vamos subir ao firmamento, descer os despenhadeiros, degolar, criar cidades. Em sala de aula ou em algum jogo das redes sociais, onde podemos viver novamente.


Viver novamente?

domingo, 17 de março de 2013

Salomão, o homem mais sábio do mundo (Fernando Bastos)


 “Tomou o sacerdote Sadoc no tabernáculo o chifre de óleo e ungiu com ele Salomão. A trombeta soou e todo o povo pôs-se a gritar: Viva o rei Salomão!” (I Reis 1,39)


 Século 10 a.C.


 O velho rei jazia febril em seu leito, sob o olhar atento e piedoso de Abisag, uma virgem de dezessete anos que foi escolhida pela beleza e modéstia para lhe fazer companhia e aquecê-lo. Mas o sangue real havia enfraquecido, a carne mole não dava sinal de vida, de modo que ele não a tocou nenhuma vez.


Sabendo que não viveria muito tempo, o rei Davi mandou chamar seu filho Salomão, fez um sinal com a trêmula mão para se aproximar e disse,


- Seja corajoso: porte-se como homem. Guarda os preceitos do Senhor, seu Deus; anda em seus caminhos, observa suas leis, seus mandamentos, seus preceitos e seus ensinamentos, tais como estão escritos na lei de Moisés. Desse modo será bem sucedido em tudo o que fizer e em tudo o que empreender...


Salomão perguntou,


- Que meu pai quer que eu faça com Joab, filho de Sarvia? O rei moribundo respondeu,


- Não deixe que seus cabelos brancos desçam em paz à mansão dos mortos. Quanto a Semei, filho de Gera, você bem sabe como ele me insultou quando fui a Maanaim. Que ele tenha o mesmo fim de Joab. – O gosto pela vingança e crueldade, que esteve presente ao longo da vida de Davi, logo após ter perdido o amado Jônatas e ser coroado rei, não o abandonaria nem no leito de morte.


- Tem minha palavra, meu pai. Assim procederei - garantiu Salomão.


 Dias após a essa conversa, Davi foi para o sheol, se juntar aos seus pais. O sepultamento foi acompanhado por milhares de judeus, que se cobriam de cinzas em sinal de luto e batiam com as mãos sobre a cabeça, como doidos em um manicômio.


Salomão foi empossado novo rei de Israel. Já de início, mostrou sua real personalidade, matando o próprio irmão Adonias. Parece que Salomão temia que o irmão, mais para frente, engendrasse alguma manobra para subir ao  trono, e resolveu tirá-lo do caminho. De fato, quando sua mãe Betsabeia, a pedido de Adonias, veio falar com o rei, para que este concedesse ao irmão a mulher Sunamita, Salomão entrou em estado de fúria e respondeu ironicamente,


- Por que deseja que Abisag, a sunamita, seja dada a Adonias? Pede também para ele o reino, já que é meu irmão primogênito, assim como para o sacerdote Abiatar e para Joab, filho de Sarvia. E, fulminando o olhar em direção a sua mãe, concluiu - Que Deus me açoite com todo o rigor, se Adonias não pagar estas palavras com a própria vida!


- Oh não, filho, - Implorou a mãe do rei -, Não suje suas mãos com o sangue de Adonias, ele é seu irmão. - Suas lágrimas não me comovem, mulher, rosnou entre os dentes Salomão. - Adonias será morto hoje mesmo.


 Seguindo as ordens do rei, Banaías, comandante dos cereteus e feleteus, cravou um punhal no peito de Adonias, que agonizou mais alguns minutos antes de morrer. A mando de Salomão, Banaías, o que hoje chamaríamos de pistoleiro de aluguel, cometeria mais dois assassinatos: no tabernáculo, encontrou Joab, que havia assassinado dois homens de confiança de Davi – Abner e Amasa, ambos generais de exército -  escondido e o trespassou com sua espada.  Três anos depois foi a vez de Semei, morto por ter feito mal e insultado Davi, antigo rei de Israel.


 Com estes três assassinatos, o poder se consolida nas mãos de Salomão. Esse início duro de governar não foi obstáculo para receber o carinho do Senhor, que em uma noite, lhe apareceu em sonhos e prometeu lhe dar o que quisesse. O jovem rei respondeu,


- Não passo de um adolescente e ainda não sei como me conduzir. Dê, portanto, ao seu servo um coração sábio, capaz de julgar o povo e discernir entre o bem e o mal; pois sem isso, quem poderia julgar o povo de Israel, tão numeroso?  


O Senhor se alegrou com a humildade do jovem rei e disse,


- Não me pediu nem ouro, nem vida longa, nem morte aos teus adversários, mas somente inteligência para julgar seu reino com justiça, de modo que atenderei seu pedido: dou-lhe um coração tão sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de você e nem haverá depois. Além disso, lhe darei também o que não me pediu: ouro e glória, de tal modo que não haverá quem lhe seja semelhante entre os reis durante toda a tua vida. E, se andar em meus caminhos e observar os meus preceitos e mandamentos como o fez Davi, teu pai, prolongarei a tua vida por muitos anos.


 Na sequência dos atos do rei, o que percebemos é um acúmulo de erros, violência contra os fracos, castigos de escravos e superstições. Mas Javé não era onisciente? Não teria previsto esses deslizes de seu protegido? Por que mesmo assim colocou no trono um fratricida? A essa altura, depois de ter castigado a Humanidade com um dilúvio, por não ter previsto que seus filhos cometeriam iniquidades; pedido o sangue do filho de Abraão, porque não tinha certeza se o patriarca lhe era fiel, e tantos outros exemplos claros de ausência de clarividência, fica difícil ao mais seguro devoto de Javé, concordar que esse deus tinha super poderes, a ponto de prever o futuro. Não tinha.


 Insaciável, Salomão montou um harém sem precedentes na história. Teve setecentas princesas como esposas, além de trezentas concubinas. Tirando os exageros, tão comum ao povo do Oriente - sejamos honestos: o número foi superfaturado para exaltar o poder de Deus para com um de seus eleitos – ele, sendo rei, teve provavelmente muitas mulheres, muitas das quais eram moabitas, amonitas, edomitas, e de outras terras estrangeiras, que o senhor Javé tinha severamente admoestado para que os israelitas não tivessem relações sexuais com elas, para que não se corrompessem indo adorar seus deuses. Salomão não se importou com a proibição e desejou para si aquelas mulheres de corpos perfeitos e olhos que possuíam ímãs.


Impelido pelas suas esposas, o velho Salomão prestou culto a Astarte, deusa dos sidônios, e ao deus Melcom dos amonitas. O rei ainda mandou construir altares para Camos, divindade de Moab e a Moloc, um deus amonita, que apreciava o sacrifício de bebezinhos e meninas virgens.


Enquanto Salomão derrubava seus oponentes a golpe de espada, inclusive irmãos, e mandava açoitar os estrangeiros que trabalhavam em seus palácios e templos, o Senhor nada falou; talvez achasse isso normal. Mas só foi cometer o sacrilégio de desposar estrangeiras e adorar deuses vizinhos, para que a ira de Javé se manifestasse com a violência de um leão faminto,


- Você me traiu, disse Javé, ao agora decrépito rei. De sorte que por não ter respeitado minhas leis e minha aliança, tomarei de volta o trono e darei a seu servo.


 Salomão reinou por quarenta anos, em Jerusalém, e foi sepultado na cidade de Davi. Roboão, seu filho, ascendeu ao trono em seu lugar. De nada adiantou o Senhor presentear Salomão com sabedoria e fazê-lo o mais sábios entre todos.


Ora, sabemos que seu reinado foi repleto de atos criminosos, tornou-se um obcecado pela riqueza, a ponto de construir imponentes palácios. Para dar conta das construções que se erguiam, submeteu a trabalho escravo todos os estrangeiros. E só perdeu em maldade para o filho Roboão, que o substituiu. Jeroboão foi ter com o novo rei e disse,


- Salomão, seu pai, foi muito duro conosco. Alivia o jugo que seu pai nos impôs, e seremos seus servos.


 Depois de consultar seus sequazes, Roboão declarou, Meu pai os impôs um jugo pesado? Pois eu o tornarei ainda mais pesado. Meu pai os castigou com açoites? Pois eu os castigarei com escorpiões.


 A vida dos israelitas continuaria um tormento por mais um longo tempo. 

terça-feira, 20 de março de 2012

Descrença (Tiago Nascimento)

Uma noite os homens olharam para cima e perceberam que não podiam explicar as estrelas, o céu, as nuvens nada. Então criaram a mitologia.

Um dia um homem olhou para dentro de si e viu que tinha todas as respostas e também perguntas que ninguém formulara. Estava criada a filosofia.

E hoje eu olho pra Terra, pros seus habitantes, com meu crítico olhar de pessimismo e descrença; para onde é que essas pessoas estão a nos levar?





quinta-feira, 12 de maio de 2011

Caixão pro Billy (Fernando Bastos)


Estávamos eu e um amigo conversando sobre gírias de nossa época, isto é, do século passado. Concluímos que a maioria das expressões, antigas ou atuais, não tem origem na região - foi importada de outras terras, de modo que os haoles que gostam de tirar uma palha de nosso jeito de falar, não sabem que muitas vezes nossas gírias vieram de outros lugares. É isso aí papudo.


A antológica Caixão pro Billy, usada quando algo deu errado é própria do manezinho de Florianópolis. É mole pro gaiteiro só podia ser dos gaúchos. Há no entanto, algumas gírias criadas aqui. Por exemplo, “não é vasel” – homenagem a antigo político jaraguaense - significa que algo não é fácil. Não achamos a origem de outra famosa de nossa época: “meu pau do Lelo”, que se referia a algo espantoso. Expressão sem nenhum teor de malícia ou que fizesse uma senhorinha de 80 anos ficar corada.


Por curiosidade, escrevi para meus contatos solicitando que me enviassem gírias conhecidas entre nós e, para meu espanto, saltaram em minha caixa de e-mail mais de 50 expressões “jaraguaenses”.


Eis algumas: Susse no musse - vamos ir - meu caneco! - fica frai, não descabelai – foi lá pra caixa prego - tomá no óschla – uh, seu corno! - é o demonho mesmo – vai caximbar formiga - eu dii (eu dei) - vai toda vida reto – pega asisquerda e depois asdireita – todo mundo xunto reunido – tem xente, uma veiz - capaiz! – meu bonje (forma sincopada de Meu Bom Jesus) – do tempo do Epa...


Quanto a minha conversa com o amigo em questão, uma dúvida nos corroeu. Até agora não sabermos se Billy e Lelo existiram. O que ficou foi que concordamos: caçoar do modo de um povo falar é não entender que cada região tem sua maneira peculiar de dizer as coisas, e sem dúvida, nosso Vale tem um rico e saboroso menu de expressões graças aos imigrantes que aqui desembarcaram e aos “estrangeiros” que fazem dessa terra um lugar especial de se viver.


Fernando Bastos, cartunista e escritor

sábado, 20 de novembro de 2010

O que estamos?! (Adriana Niétzkar)

Quarta
Quinta
Sexta
Em e sem feiras
Cem feiras
Sem fim?!
História
Em plurais
Que foram
Que serão
Singular
que está sendo
fagulha
faísca
fogo
incêndio
em histórias
(estórias ?!)
com
sem
cem
feiras
quarta...
sexta...
singular pluralizado
plural em singularidade
por conta
do sinônimo-coração
da palavra
história