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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Fodidos pela arte. E pela linguagem. (Ítalo Puccini)

"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".
Esse Eduardo Galeano, no texto "Celebração das contradições/ 2", no "Livro dos abraços", leva-me à palavra. Que por si só contradiz. E consequentemente acontece com quem dela faz uso. E que bom que assim é. Perfeição de entendimento tornaria o mundo mais caótico do que já é, acredito.
Existimos pela incompletude da linguagem. Não nos há como fugir disso.
Há uma passagem da peça "Passport", da Companhia Rústicos Teatral, em que um dos policiais diz ao outro algo mais ou menos assim (porque toda transcrição de fala é imperfeita por natureza): "O que me tranquiliza, chefe, é saber que nessa vida estamos todos fodidos".
E não é assim?
A sinopse da peça diz: "Tudo acontece em alguma cidade, algum país esquecido. O Oficial e o Soldado exercem suas funções cotidianas sob a ordem dada em outro tempo. E em eterno presente, o Cidadão se vê em alguma cidad, algún país olvidado. Mesmo falando a mesma língua, Cidadão e Soldado não conseguem se entender quando chegam ordens do Oficial (o chefe). O Cidadão é preso como um suposto terrorista e é na cela que, segundo o diretor da peça, Samuel Kühn, os personagens são envolvidos “em situações absurdas desencadeadas, sobretudo, pelo conflito linguístico, em que são abordadas questões como a incomunicabilidade e a perda de sentido". A peça, baseada em um texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott, explora os limites da linguagem, a incapacidade de comunicação entre as pessoas, mas não só. Ela inquieta o leitor que assiste a ela porque não há o que ser feito numa situação em que duas vozes dialogam cada uma em uma dimensão própria, podemos chamar assim. Nós que a assistimos alcançamos essas duas dimensões (quem sabe?), mas não nos cabe intervir. Talvez se tornaria, a nossa, apenas uma terceira voz se perdendo entre as outras duas. Quanto mais alto o barulho, menos se ouve dele.
Mas voltando à frase presente na peça, desde que assisti a ela duas vezes, não me sai da cabeça. E eu vivo a repetindo, às vezes em alto e bom som. Como que para internalizá-la mais e mais. E para me sentir mais leve também. Porque haja mania grandioloquente de nossa parte em tornar maior aquilo que é tão pouco, não é mesmo?
Eu escrevo personagens por aí. Dia sim, outro também. Vários personagens, às vezes. Noutras, grudo-me em um só. Sinto-me sempre acompanhado. Não só ouço, como também falo. Dividimos pedaços de vida. Compartilhamos felicidades e frustrações. Trilhamos caminhos separados, sim, mas unidos de alguma forma. Pela fala. E acreditamos num entendimento mútuo do que falamos entre nós. É melhor assim. Por mais que saibamos que entender mesmo a gente continua entendendo só o que queremos dizer e o que queremos ouvir. E o nosso querer não é nosso, no sentido de ser de dois. É um querer de cada um. Compartilhados. Misturados. Mas não tornado um só.
Então que ter essa ciência, de que estamos fodidinhos - graças a deos - no mesmo barco alivia muito a vida.
É uma forma de nos abraçarmos, talvez.


Ítalo Puccini

domingo, 20 de novembro de 2011

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Caixão pro Billy (Fernando Bastos)


Estávamos eu e um amigo conversando sobre gírias de nossa época, isto é, do século passado. Concluímos que a maioria das expressões, antigas ou atuais, não tem origem na região - foi importada de outras terras, de modo que os haoles que gostam de tirar uma palha de nosso jeito de falar, não sabem que muitas vezes nossas gírias vieram de outros lugares. É isso aí papudo.


A antológica Caixão pro Billy, usada quando algo deu errado é própria do manezinho de Florianópolis. É mole pro gaiteiro só podia ser dos gaúchos. Há no entanto, algumas gírias criadas aqui. Por exemplo, “não é vasel” – homenagem a antigo político jaraguaense - significa que algo não é fácil. Não achamos a origem de outra famosa de nossa época: “meu pau do Lelo”, que se referia a algo espantoso. Expressão sem nenhum teor de malícia ou que fizesse uma senhorinha de 80 anos ficar corada.


Por curiosidade, escrevi para meus contatos solicitando que me enviassem gírias conhecidas entre nós e, para meu espanto, saltaram em minha caixa de e-mail mais de 50 expressões “jaraguaenses”.


Eis algumas: Susse no musse - vamos ir - meu caneco! - fica frai, não descabelai – foi lá pra caixa prego - tomá no óschla – uh, seu corno! - é o demonho mesmo – vai caximbar formiga - eu dii (eu dei) - vai toda vida reto – pega asisquerda e depois asdireita – todo mundo xunto reunido – tem xente, uma veiz - capaiz! – meu bonje (forma sincopada de Meu Bom Jesus) – do tempo do Epa...


Quanto a minha conversa com o amigo em questão, uma dúvida nos corroeu. Até agora não sabermos se Billy e Lelo existiram. O que ficou foi que concordamos: caçoar do modo de um povo falar é não entender que cada região tem sua maneira peculiar de dizer as coisas, e sem dúvida, nosso Vale tem um rico e saboroso menu de expressões graças aos imigrantes que aqui desembarcaram e aos “estrangeiros” que fazem dessa terra um lugar especial de se viver.


Fernando Bastos, cartunista e escritor

sábado, 20 de novembro de 2010

O que estamos?! (Adriana Niétzkar)

Quarta
Quinta
Sexta
Em e sem feiras
Cem feiras
Sem fim?!
História
Em plurais
Que foram
Que serão
Singular
que está sendo
fagulha
faísca
fogo
incêndio
em histórias
(estórias ?!)
com
sem
cem
feiras
quarta...
sexta...
singular pluralizado
plural em singularidade
por conta
do sinônimo-coração
da palavra
história