quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Joana do Querer (Thiago Daniel)
Chorou até não querer mais
Quando cansou
Fechou o zíper
Joana cheia de querer
Chorou até querer mais ar
E quando suspirou
Lavou as mãos
Joana cheia de querer
Chorou até amanhecer
Quando viu o sol
Os olhos choveram
Joana cheia de querer
Chorou até o anoitecer
E quando os olhos tocaram o luar
Sentiu a mesma dor
Joana cheia de querer
Não queria mais chorar
Quando viu sangue no ventre
Chorou até morrer
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Mar (Thiago Daniel)
Cobriu seus pés cheios de areia
A colcha
de três gerações
Pensou na infância
os tapas das ondas
nos quadris
o beijo
no primeiro namorado
o filho
do único marido
o cesto de roupas no ombro
o pássaro roubando peixe
a ruga nos olhos do filho
que aos sete pediu um irmão
do pai falecido
Um sorriso brotou da lágrima
E quando o céu encheu de flores
Fez-se mar
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Poema da vida (Elianete Vieira)
Poetisa, Iza me conquistou pela doçura. Com 74 anos, cheia de energia, preparou a festa de 80 anos do marido. Amiga virtual, descreveu os docinhos que fez ao me convidar para nos conhecermos.
Dia de comemorar a vida, a saúde, a família. Como é bom ver as pessoas chegando cada vez mais longe - semana passada, o tempo contou 5 anos da partida do meu pai a menos de 4 meses de completar 80 anos.
Me sentindo honrada com o convite, convidei o GPS para me acompanhar e lá fui eu desbravar as ruas desconhecidas de uma cidade vizinha.
No caminho, havia não uma pedra Drummond, mas um vale. Uma rua que desce íngreme e logo sobe mais íngreme ainda. Lá no final, um semáforo segurava os carros prestes a entrar na rodovia. No inicio da subida existe um semáforo que mede a velocidade máxima: 40 km/h.
Independente deste controle os carros nem saíam da 1a marcha. Motoristas sabidos mantinham distância de segurança uns dos outros. Subidona à vista.
Eu, parada, olhando o entorno, vi algumas senhoras bem arrumadas, com Bíblia na mão, caminhando juntas e conversando. Distraídas, atravessaram a rua sem perceber que estávamos em movimento lento parando dois metros depois.
Eu sai e logo parei. Continuei olhando pelo retrovisor. O carro que vinha atrás, havia deixado um espaço de um carro entre o meu e o dele, talvez imaginando que eu poderia dar uma "descidinha" porque foi isso o que ele fez ao iniciar o movimento.
O que ele não previu e uma das senhoras também não, foi que no exato momento da "descidinha", ela ainda estivesse passando por trás do carro.
Ela talvez não tenha sido motorista ou não seja tão ágil agora com seus belos cabelos prateados.
Eu, parada, aguardando o momento de andar 2-3 metros novamente, vi a senhora sumir atrás do carro. A "descidinha" do carro ao engatar a primeira, derrubou a vovó.
Imediatamente saíram do carro três homens que acudiram a senhora, levando-a nos braços para a segurança da calçada, enquanto o motorista procurava encostar e liberar o tráfego.
Até onde pude ver, a vovó conseguiu ficar em pé, já na calçada. Foi atendida prontamente e as amigas logo a rodearam.
Eu segui em paz, feliz em ver que o pequeno incidente não ficou sem atendimento.
Ah sim, e a festa? Foi maravilhosa.
Com o octogenário feliz cumprimentava a todos, no mundo dele, pois o Alzeimer lhe tira aos poucos a consciência presente, deixando apenas o passado na lembrança. O pastor a todos abençoou. A poetisa contou como eles se conheceram e citou momentos da vida deles em quase 50 anos de casamento.
Ela declamou um lindo poema de amor e confiança, dedicado ao seu príncipe e filha, emocionando os presentes. E assim, poetando a vida, ela comemorará seu aniversário em dezembro com o lançamento do livro que está no prelo.
Elianete Vieira
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Vida (Marcio E. Ochner)
perfeição existencial,
de conceito defeituoso,
com áurea definida,
por números e de fins práticos.
Perfeição grega ,
com olhos materializados,
conjunto de linhas harmônicas,
uma canção matemática,
densidade areada,
perfeição singular.
Vento de captura sem defeito,
penhasco da arquitetura atemporal,
ofuscação comparada,
Paradoxal.
Marcio E. Ochner
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Amor Eletrônico (Marcio E. Ochner)
não ouço mais o seu digitar
sua voz, em pensamentos cala-se ,
crio o seu ser em mim,
mais vivo que a própria vida...
vida, você,
eletrônicamente.
Pensamentos...
Memória que foge as pressas,
nem mesmo dispersa,
em mim,
você cintila e dorme...
e eu te observo pixeladamente...
Marcio E. Ochner
sábado, 13 de abril de 2013
Cavidade (Marcio E. Ochner)
sai e não retoma...
paralisado,
pouca coisa se vê,
quinhão prolífero,
fragmenta-se em cores,
tomam corpo,
nada dizem...
Arremessa-se a desistência,
Causam dor,
Troca repentina de foco,
rende-se a inércia...
Convulsão muscular,
atalho acidentado,
foca sua extremidade,
no bolso outra superfície
amontoado de matéria,
corre a lingueta ,
abre caminho,
indolente momento,
nasce a lembrança,
atrasado...
peça que se fecha,
dispara...
Marcio E. Ochner
domingo, 7 de abril de 2013
Meus Olhos, Teus Olhos (Thiago Daniel)
Meus olhos de anúncio
Estacionados na tua prateleira
Brincam de silêncio
E te deixam passar
Teus olhos de águia
Navegando em papel veludo
Dobram troncos de Araçá
E me deixam ficar
Meus olhos de chamar sonhos
Deixam-te acordada
E não lembram mais de nada
Teus olhos código de barra
Não leem os meus
Caixa automático
quinta-feira, 14 de março de 2013
Beijo (Marcio E. Ochner)
Em todo espaço
Algo que prende-se a pele
Que enlaça-se
Anda de cá pra lá
de sabor agradável
Florescência corporal
Que nos priva do calor visceral
Que nos freia ao ar
Como beija-flor
Que deflora
Que beija e permanece
Consciência íntima
Casualidade interior.
Marcio E. Ochner
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Labiríntico (Inacio Carreira)
Quando ligou o computador, naquela tarde fria de final de outono, prenúncio de inverno, teve uma surpresa e uma constatação. Então era por isso que os contatos terminaram? O que queria, então, aquela figura que se desmanchava em gentilezas toda vez que nos encontrávamos na sala virtual, para trocar confidências e programar encontros que nunca aconteceram, para comentar o filme agraciado com o Oscar do ano ou o próximo livro do nosso autor preferido?
Não, eu não acalentava ilusões, não, mas ser bloqueado assim, sem mais nem menos, faça-me o favor... Tudo falsidade, então? Tudo blá-blá-blá inútil? Não que eu esperasse um mar de rosas, uma vie en rose (ah, saudades das interpretações da fantástica Edith Piaf e, particularmente, de sua La vie en rose), um sei lá o quê mais... Indignação, frustração, vergonha, culpa pelo tempo que roubei à família para passar com um miasma extrovertido, uma figura de ficção criada a cada dia, um jogo em que eu sabia das chances (muitas) de insucesso.
Entretanto, mesmo acreditando que nunca seria lido, compus um poema a ser remetido, via e-mail, para o endereço conhecido. Não teria mais interlocutor no Messenger diário, não, mas quem sabe ele conseguiria incomodar um pouco, se o objetivo fosse alcançado, isto é, se a leitura fosse realizada. De qualquer forma, precisava extravasar, tirar a mão que me apertava a carótida e tirava meu ar, já rarefeito pela emoção.
Escrevi e formatei.
Segue abaixo, como registro dessa loucura desmesurada:
Ariadne
Tu me deste uma ilusão
e eu agarrei-me a ela
como se fosse verdade. Não era,
e a descoberta dessa realidade
fez-me cair em mim e,
dada a altura, machucou.
Muito.Como era bonita a ilusão:
nós a alimentávamos
várias vezes ao dia,
via mensagens no celular e,
à noite, invariavelmente,
no MSN, via internet, horas a fio,
ficávamos vendo-a crescer.Ficou maior que nós, essa ilusão...
E tão grande foi que morreu de inanição,
não a podíamos mais alimentar,
estava roubando-nos, comendo-nos,
tirando nosso sossego,
tínhamos que tratá-la, fazê-la bonita,
dar-lhe ares de Realidade.E agora, quando enfim morre,
quase me enterra junto.
Eu que a pensava também tua
não sei o que nela vias,
mas sendo isto ou aquilo,
o melhor dela era o seu poder
de nos tirar da vida real ou criar
uma outra existência, estranha realidade,
onde vivíamos com a ilusão que alimentávamos,
horas a fio, até que o fio da vida nos trouxe de volta,
ou não, caso contrário estaria fazendo coisa
mais produtiva do que escrevendo sobre ela.11 jun 2008
Talvez para mostrar desespero, num simbolismo à Van Gogh, colori a página de amarelo, amarelo berrante, amarelo que expressasse um uivo, um grito, uma risada de escárnio. As letras ficaram em preto, mesmo, para efetivar o contraste. Que acentuei aplicando um estilo Negrito. Li e reli, pensei na possibilidade de recepção, no entendimento (ou não) do que escrevi, da fantasia de ser, a comunicação via Messenger, reabilitada. Eu aceitaria? E o tão falado amor-próprio, fadado ao limbo? Quantas vozes na cabeça: faz – não faz, vai – não vai, manda – não manda...
Deletei.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Poema Pelo Mundo (Adriana Niétzkar)
sábado, 13 de novembro de 2010
pede licença o poema (Ítalo Puccini)
o lápis e o papel se encontram
em outro espaço-tempo.
como fazer, então?
como fazê-lo?,
o poema?
porque de repente,
sem adeus dizer,
o poema segue seu ritmo
e não mais possível se torna
acompanhá-lo.
porque o que caracteriza
o poema
é a brevidade;
nasce para ser fugaz.
ítalo puccini
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
eu sempre quis escrever um poema com sapatos (Ítalo Puccini)
vesti-los
e andar por aí a amaciá-los,
como que fazendo brotar dali um poema.
porque o poema, quando brota,
traz consigo um susto,
um estranhamento,
como de quem veste sapatos
para fazê-los,
ou usá-los,
poema e sapato.
mesmo que incompleto,
mesmo que sem sola,
eu sempre quis escrever um poema com sapatos.
ítalo puccini.
vesti-los
e andar por aí a amaciá-los,
como que fazendo brotar dali um poema.
porque o poema, quando brota,
traz consigo um susto,
um estranhamento,
como de quem veste sapatos
para fazê-los,
ou usá-los,
poema e sapato.
mesmo que incompleto,
mesmo que sem sola,
eu sempre quis escrever um poema com sapatos.