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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Cálice de vinho (Marcelo Lamas)

Desde sempre tenho que me explicar por causa da abstinência alcoólica. Não posso por a culpa nos interlocutores, pois parte de mim a ansiedade de dar o motivo de não beber, antes que haja alguma expressão de estranheza do outro.
Meu pai tem um pouco disso. Quando criança eu o via tendo que explicar que não bebia porque sempre andara com o pai dele, o vô Chico “Lama”, que só tomava refrigerante. Uso sempre o mesmo expediente.
Já fui indagado: “você toma remédio?” ou “você é religioso?”. Sempre deixo claro que também não é questão ideológica familiar.
A minha avó Alice, esposa do Chico, a vida toda teve garrafas de vinho quase vazias na geladeira. Quando a questionávamos, ela explicava que era recomendado que se tomasse um cálice de vinho por dia. Só que o cálice dela era um generoso copo de requeijão, com volume 3 vezes maior! Nunca vamos saber se era “portuguesisse” dela (Martins Euzébio, seus sobrenomes) ou malandragem para escapar das piadinhas. A velha dormia tardes inteiras. Minha irmã e eu temos esta habilidade também, sem precisar do líquido.
Mas essa mania de ficar achando motivos é coisa da minha cabeça, a necessidade humana de sentir-se socializado. Certa vez fui numa festa que os copos eram escuros e achei o máximo que ninguém estava vendo que eu tomava água. Em férias no Caribe, fiquei maravilhado com o bar que fazia todos os drinks coloridos, com a opção: sem álcool.
Acho que simplesmente é uma questão de paladar, apenas não me cai bem. Outro dia vi um artigo de um cara que não bebe e ele dizia sentir-se “com a habilidade noturna de um leopardo, vendo mais do que os outros e lembrando de tudo depois”. A memória é a substituta da caneta na vida do cronista, não dá pra mandar parar o filme e acender a luz no cinema para pegar aquela frase emprestada.
Ainda vou escrever uma crônica com todos os convites que ouvi e recebi para festas, programas e eventos em turmas já divertidamente “embaladas”, que logicamente nunca aconteceram.
Posso garantir que jamais me aproveitei de presas embriagadas. Uma questão de princípio. Com algumas exceções, eu acho, não lembro bem.
Tenho inveja daqueles que podem usar a desculpa da canção do Kleiton e do Kledir Ramil:


“Depois do terceiro ou quarto copo
Tudo que vier eu topo.
Tudo que vier, vem bem.
Quando bebo perco o juízo.
Não me responsabilizo
Nem por mim, nem por ninguém”.


Marcelo Lamas, autor de “Arrumadinhas”.
marcelolamas@globo.com

domingo, 6 de outubro de 2013

Noivado e casamento (Marcelo Lamas)




E o Roberval chegou de mansinho na minha mesa e me intimou:

- Agora só falta a tua parte!

Fiquei pensando em alguma pendência profissional que eu tivesse com ele. Não lembrei de nada e questionei:

- Desculpa, não tô lembrando. O que estou te devendo?

- Não! Não é que tu estejas devendo. Mas é o seguinte...já encomendei o jantar e as flores e despistei a Luzmarina.

- E tu precisas de mim pra quê?

- Ora, pra quê? Tu não é o escritor?

- E o que isso tem a ver?

- Vou pedir a Luzmarina em casamento hoje à noite e agora só falta tu ‘escrever’ o cartão.

- Como assim?

- Ué!? Vou te dar o cartão que comprei e ai tu escreve o pedido de noivado por mim.

- Como eu vou fazer isso?

- Bem, aí é contigo né? Tu és escritor, deves saber o que escrever.

Além de obituário, estatuto de time, carta para antecipar passaporte, eu tinha um certo histórico no segmento “amor”, pois fazia cartinhas pra uma namoradinha do colégio – mas a prima dela que fazia o papel de carteiro foi quem apaixonou-se – e também participei de uma tentativa frustrada de fazer uma guria voltar pra um amigo meu.

Como o Roberval era bem parceiro e eu torcia pelo casal, fiz o texto pro caboclo. Ele disse que apenas transcreveu e assinou. E o bolo já foi encomendado.

Noutra ocasião, a Gertrudes aprochegou-se:

- Oh! Lamas, tenho um convite pra te fazer...aceitas ser o comentarista do meu casamento?

- Claro que sim, respondi prontamente.

- Não queres pensar com calma e responder depois?

- Já tá confirmado!

Dei a resposta de bate-pronto por causa da consideração pela guria, que mesmo sendo de uma família religiosa, convidou a mim, um colega de trabalho, impossível recusar.

Somente na véspera do enlace, fui entender o porquê dela ter oferecido “um tempo pra pensar”. Ela entregou-me uma “apostila” com as minhas falas e de vez em quando eu passava a bola para o padre. No dia que aceitei o convite achei que seria apenas para ler um versículo.

Fiquei com a consciência pesada, pois embora eu tenha amigo padre, tenha jogado futebol no time dos seminaristas de Corupá e o hábito de  preencher cadastro atestando ser católico, eu NUNCA me confessei e mesmo assim tava lá em cima do altar, no meio dos graduados.

Em contrapartida, eu li a Bíblia três vezes. Coisas da vida de escritor.
Marcelo Lamas, autor de Arrumadinhas.



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Arrumadinhas (Marcelo Lamas)

Lançamento do novo livro de crônicas do escritor Marcelo Lamas:

Quarta-feira.
Horário: 19:00
Local: Biblioteca Pública Municipal Rui Barbosa.

[caption id="attachment_1190" align="aligncenter" width="221"]By Fernando Bastos By Fernando Bastos[/caption]

E aqui o link para a crônica-título: http://cooperativadeletras.wordpress.com/2012/11/06/arrumadinhas-marcelo-lamas/

sábado, 6 de julho de 2013

Motivos para escrever (Marcelo Lamas)

Estou completando 18 anos neste “ofício de juntar palavras”, como disse Drummond. Começou cedo minha admiração pelos impressos. Não havia o Google, achei importante manter uma fonte de informações e comecei a colecionar jornais. Consegui convencer minha mãe a gastar o salário integral de um mês de trabalho para comprar minha primeira máquina de escrever – um instrumento no qual você batia na tecla e a impressão saia automaticamente: “Marcelo, tu vais usar esta máquina? Só vale a pena comprar se tu fores usar bastante”. Usei e muito.
Ainda adolescente iniciei escrevendo para as seções de opinião, no RS. Quando mudei para Jaraguá do Sul tive dificuldade para publicar minhas ideias. Fiz uma pesquisa e quase não apareciam opiniões femininas. Pensei em escrever usando um pseudônimo de mulher. Depois, decidi que tinha que ter um “cargo”. Então, fundei uma “entidade”, que nem estatuto tinha, era o presidente. Hoje entendo que os espaços eram mais restritos e que os jornais não eram diários.
Um dia uma menina de onze anos sugeriu que escrevesse as histórias engraçadas que contava. Procurei aprimoramento, fiz cursos e oficinas para escritores e passei a dedicar-me às crônicas. Participei de antologias e publiquei um livro solo. Ainda está viva no meu DNA a obrigação social da época das opiniões. Fico imaginando ter um calçadão exclusivamente para pedestres – como o nome sugere – e deixar todos os semáforos “piscando” depois das 23h. É muito estranho ficar parado esperando um assalto às 2h da madrugada.
Por outro lado sou um contador de histórias por causa da Susana, era o babá da minha irmã. Quero ressaltar que só escrevo porque existem os leitores, senão guardava meus manuscritos num armário.
Meus amigos confidentes concordam comigo quando digo que as melhores histórias – ou trechos – são aquelas que não posso escrever. Não faltam transgressões, vindas de muitas direções, querendo descer pela ponta da minha caneta. Sigo a doutrina de Mario Quintana: “Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”.



quinta-feira, 6 de junho de 2013

UFC Jaraguá: Ainda bem que eu não falei (Marcelo Lamas)

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Sou um cara que fala demais. Quando começou o boato de que o UFC
poderia ser na nossa latitude, passei a ser indagado pelos meus amigos: “É sério esse negócio do UFC?”.
Informalmente, eu respondia: “É claro que não! Aqui não tem aeroporto”. Outra característica minha: Sou lógico demais. Faria sentido que o evento fosse numa capital. Eu ouvira boatos de que Porto Alegre queria o evento na Arena do Grêmio, não saiu. Curitiba, que é a base brasileira de vários lutadores não teve.


Cheguei a pensar em escrever (falar) publicamente sobre esta utopia
que entorpecia os amantes do esporte. Eu tinha certeza de que não ia
acontecer. Só não escrevi porque a Fernanda, minha namorada, pratica artes marciais desde criança, junto com o irmão, o Mestre Xitão. Logo, por questão de respeito, eu só manifestava o meu ceticismo conversando com eles.


Você já ouviu falar na cidade de Melo, no Uruguai? Não, né? Na década de 80, o Papa João Paulo II visitou a cidade. Até hoje, ninguém sabe o porquê!


Ainda quando não acreditava, falei pra namorada: “Quem trabalha com isso tem que ficar com o nariz colado no octagon!”. Me ferrei. Meses depois tive que comprar um ingresso deste, para acompanhá-la. E o destino me faria trabalhar de fotógrafo a noite toda, fazendo fotos dela com as celebridades das lutas.


Quando entrei na Arena, e vi a estrutura montada, entendi tudo. Realmente, o nosso cartão postal tinha mesmo uma caraterística diferenciada do que se vê pelo país. E foi projetada pelo pessoal daqui, hein!


Onde o “multiuso” ficou escondido nos últimos cinco anos?
Pois bem, se a Arena Jaraguá foi o atrativo inicial para este evento, agora temos a comprovada capacidade que a nossa população tem de superar -se. Só ouvi elogios dos forasteiros. Nunca imaginaria que poderia chegar num restaurante de Jaraguá do Sul, às 2h da madrugada e pedir um jantar. Ainda bem que eu não escrevi sobre isso também, teria que me retratar duas vezes.


Marcelo Lamas, engenheiro e escritor. Autor de “Arrumadinhas ”, livro em trabalho de parto.
marcelolamas@globo.com

quarta-feira, 6 de março de 2013

Escapadas (Marcelo Lamas)

Acontece vez por outra do pessoal dizer que vai pra um lado e ir pro outro.
Em muitos casos, não se caracteriza um adultério propriamente dito, tratando-se apenas de uma tentativa de evitar rusgas entre o casal.
Com o Rodrigão foi assim. Como a namorada dele morava no RS, era hábito um telefonema por volta das 22h, antes de dormir. Sabedores disso, os parceiros dele passaram lá no apartamento mais tarde e o convenceram a ir numa balada em Joinville. Quando estavam na altura das arrozeiras de Guaramirim, o inesperado: o celular do Rodrigão tocou. Como ele estava no banco de trás, jogou-se no colo dos outros, deitando-se. Para um sujeito homem e hetero, esta situação não é muito agradável, mas o amor pela gaúcha falou mais alto. Estando ele na horizontal, sua voz sairia idêntica à do quarto. Se tivesse um cobertor no carro, seguramente ele teria jogado por cima, só para garantir a legitimidade do sono:
- Oi amor! (bocejo forçado)
- Tava dormindo querido?
- Sim! Tava vendo um filme e peguei no sono. (com voz sonolenta e bocejo forçado)
- E que filme estavas vendo?
Pausa
- Reféns. (bocejo forçado)
O Rodrigão esqueceu que a guria era cinéfila:
- Ué, amor! ? O ‘Reféns’ nem chegou no cinema!
Pausa
- Ahh! Acho que o nome era parecido com isso... já tinha começado quando liguei a tevê. (voz normal, com gagueira e esqueceu do bocejo forçado)
A ligação acabou normalmente, mas ele ficou apreensivo. Teria ela percebido algo estranho? Uma mulher com raiva é capaz de qualquer coisa.
Num outro caso, outra mentira. Tenho dois amigos cujas esposas têm
restrição que um saia com o outro. Ambas acham que o outro não é boa companhia. Mas uma não sabe que a outra tem o mesmo sentimento. O cara até pode sair com a galera, mas se “aquele um” estiver lá, vai ter DR depois.
Os dois comparsas tiveram uma ideia para poder tomar uma cervejinha juntos: criaram um amigo imaginário. E com o “Valdir” tá liberado, ele é ficha limpa.
Depois, eu descobri que o tal Valdir existe. É primo de terceiro grau de um deles. Só que o cara mora lá na Tifa da Pólvora e trabalha como representante comercial. Ele nunca está na cidade, não tem namorada conhecida e nem perfil nas redes sociais.
Por ora a mentira está colando.
A intuição está para elas, assim como a malandragem está para eles. Até nisso elas levam vantagem, pois a malandragem é possível aprender.


Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Esse cara...é o Christian Grey (Marcelo Lamas)

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O primeiro chegou comentando: “Ela só fica lendo aquele livro. Eu posso sair pra fazer qualquer coisa que ela não ‘dá falta’ de mim”. Eu tinha lido uma nota sobre o fenômeno editorial da trilogia “Cinquenta tons de cinza”, logo que o primeiro livro de sucesso da inglesa, E.L. James, chegou ao Brasil, classificado como pornô soft, erótico, entre outros.
Certa feita, num curso para escritores, uma colega perguntou para a professora:
– Qual a diferença entre livro erótico e pornô?
A tiazinha PhD respondeu:
– Filha, o livro erótico você lê segurando-o com as duas mãos. O pornô com uma só.
Vi mulheres lendo no aeroporto, no shopping e na biblioteca, logo, consegui classificar os 50 tons.
Fui procurado incontáveis vezes pela gurizada. Sendo o “amigo escritor”, eu tinha obrigação moral, no inconsciente deles, de ter informações confiáveis e, até, exclusivas sobre os livros. E eu gosto de opinar – sobre qualquer assunto – na informalidade, depois do futebol, lá no boteco, na hora do almoço. Pra não decepcionar, fui atrás das leitoras vorazes e elas foram unânimes em dizer que os homens também deveriam ler. Li opiniões em revistas dos dois gêneros. Fucei nos livros.
Quem está fazendo o mundo girar ao contrário é o protagonista, Christian Grey, que seduz uma virgem estudante. Ele jovem, empresário, rico, tem e pilota um helicóptero, gasta três horas nas preliminares (descritas em três páginas), gosta de ficar conversando depois do sexo e deu-lhe todos os presentes possíveis e, ainda, a convenceu a assinar um contrato como “submissa”. Uma grande ficção.
Mas o que interessa é que as pessoas estão lendo e, também, que a nossa classe masculina não poderá ser acusada friamente de ser pervertida só porque estes assuntos são – ou eram – mais frequentes nas nossas conversas, afinal nossos temas são mais restritos (sem bolsas, manicures, vestidos balonês organização da casa, ou qualidade do serviço da diarista).
A partir desta revolução estaremos mais livres para propor coisas diferentes e as nossas parceiras não ficarão preocupadas com o que vamos pensar sobre o conhecimento delas acerca das propostas. O importante é que tudo valha para os dois lados: as sugestões, os consentimentos e os prazeres.


Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

domingo, 6 de janeiro de 2013

Mundo em equilíbrio (Marcelo Lamas)

Naquela época Jaraguá do Sul era uma cidade bem menor e as opções de educação eram restritas. Eu estudava engenharia elétrica e para isso, tinha que ir à noite para Blumenau.


A nossa turma foi a pioneira em utilizar uma van que nos levava direto ao campus tecnológico e tínhamos um super-motorista, o “Percebes”, que conhecia uns atalhos e que conseguia nos entregar na hora da prova, mesmo quando chovia.


Para participar da na nossa van o cara tinha que gostar de futebol, pois os nossos treinos iniciavam às 23h30min nas quintas. Também tinha que gostar de música, pois montamos um grupo: Os sobreviventes.


Cada um que graduava-se formava indicava um amigo que passava pelo crivo da galera.


Mas o ambiente na faculdade era inóspito. Havia pouquíssimas mulheres, o que nos fazia enxergá-las como princesas, sem exceção. Após um tempo, a Universidade resolveu transferir outros cursos, com maioria feminina. E aí a coisa ficou meio a meio.


Junto com o curso de moda veio uma loira jaraguaense. As antigas altezas torciam os narizes para ela. Mas vez por outra elogiavam a passada, o cabelo, as dimensões. Com cara de nojo, mas elogiavam. E a guria era bonita indo e vindo. As outras se referiam à loira como Suzana Werner, que na época namorava o Ronaldo Fenômeno: “Aquela Suzana Werner tá toda de azul hoje, vocês viram?”.


Eu conhecia a “Suzana” de vista, lá do bairro. Numa noite, no intervalo, ela me chamou:


- É você que organiza a van da engenharia, não é?


Dei uma engasgada, e respondi:


- Sou eu mesmo.


- Eu quero ir com vocês. Já liguei pra empresa, me disseram que tem alguém saindo. Não aguento mais aquele ônibus.


Bem, eu fiquei sem acreditar na hora. Mas enrolei, falei que ia confirmar se já não tinha alguém acertado e que conversava com ela depois. Na verdade eu tinha medo da reação de todos nós, ogros, com uma modelo na convivência diária. Ela tinha sido miss, com participação em concursos nacionais como o Garota de Ipanema.


Comentei com os meus colegas. Ameaçaram me matar caso ela tivesse desistido. Mandaram-me fechar um contrato com ela. Prometeram que iriam controlar as brigas no campeonato de “truco-móvel” e os palavrões, entre outros.


Passamos a ter uma rainha, além de futebol, bebidas e música ao vivo. A chamávamos de rainha, mais isso nunca lhe subiu à cabeça.


Depois a regra mudou. Cada vez que saia um engenheiro, entrava uma beldade. O nosso mundinho em equilíbrio ficou muito melhor.


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carência (Marcelo Lamas)

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para
resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma
mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e
da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com
admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de
casal na parede.


Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-
se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu
marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no
face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.


Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser
cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era
do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e
bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.


Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a
situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa
cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia
muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana
remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de
pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No
estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.


Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer
que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.


Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil
esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.


Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de
Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”. 


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Arrumadinhas (Marcelo Lamas)

Sempre preferi as princesinhas. Aquelas que iam arrumadas para a escola, que combinavam o prendedor do cabelo com a estampa da blusa. Se entrar a Miss Brasil desarrumada e uma outra “normal”, mas ajeitadinha, eu só vejo a não titulada.


Quando eu tinha uns nove anos cometi um delito grave com uma guria dessas. Ela era uma índia muito linda. Eu fui lá e passei a mão nos glúteos dela. Acho que eu não era um tarado precoce. Devo ter imitado os líderes mais velhos da gangue. Ela e uma amiga foram até a minha casa e fizeram uma reclamação formal. Recebi punição severa. Eu tinha uma irmã, então eu deveria respeitar as outras meninas e por aí foi a reunião, que cancelou mesada, futebol, televisão e audição de música no carro. O problema é que a morena cresceu e virou a número um do colégio. Segundo os outros eu tinha chance com ela – será que ela preferia os caras de óculos? –. Mas eu, eternamente envergonhado, não tinha coragem de olhar para a guria.


Na faculdade de engenharia, bem escassa de mulheres, apareceram duas retardatárias no final do curso. Eu só enxergava uma. A outra não se ajeitava. Um colega me corrigia: “Cara, tu tá loco! Ela é gata. Olha o corpo dela!”. No dia da formatura eu vi que ele estava certo. A falsa-magra toda produzida deixou aquela que eu admirava no chão.


A minha namorada treina kickboxing, assiste ao canal Combate, gosta de futebol e anda de skate, mas outro dia ela me confidenciou que não consegue mais ficar sem esmalte, de tanto que eu falo da minha admiração pelas meninas vaidosas. Certa vez, em Buenos Aires, um argentino tentou ver as horas no relógio dela e curioso, perguntou-me se havia fuso entre nossos países. Aí eu percebi que o relógio dela estava parado. A pilha tinha terminado, mas ela levou-o porque combinava com a roupa. Recentemente, numa viagem de três dias que fizemos, ela levou cinco relógios pra garantir os looks.


Quando eu ventilei que escreveria estas passagens, ela disse que me mataria. Bem, supondo que ela “apenas” termine o relacionamento, se eu tiver que procurar outra namorada o perfil da pretendida já está bem definido. Desde sempre.


Por Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

sábado, 6 de outubro de 2012

No motel (Marcelo Lamas)

Numa noite quente – e caliente – o casal de namorados foi para o motel. Depois de um bom tempo por lá, surgiu um imprevisto: faltou energia elétrica. A princípio nem deram bola, pois estavam distraídos e o calor demorou até tomar conta do ambiente escuro.
Na hora de sair, Eric foi até o carro e acendeu as luzes, assim conseguiram pegar as coisas que estavam espalhadas. Ele lembrou que ainda haveria um problema a ser resolvido: só tinha levado cartão de crédito. Estaria a maquininha funcionando? Samantha também não carregava dinheiro consigo.
Eric ligou para a recepção e o atendente disse que havia usado a máquina o dia todo apenas com a bateria e que esta acabara de ficar totalmente descarregada com as saídas anteriores – como de hábito, o movimento na hora do almoço tinha sido intenso naquele dia.
O atendente disse que estava à procura de uma bateria reserva que talvez tivesse alguma carga, mas a escuridão estava dificultando a tarefa.
Eric pensou em chamar alguém para socorrê-los, mas Samantha achou que seria muita “pagação de mico”. Tempos depois o recepcionista ligou:
- Alô, moço, vamos dar um jeito aqui. Achei a bateria.
- Ah! Legal. E como eu faço pra abrir este portão da garagem?
- Estamos fazendo manualmente senhor. Até por segurança. A gente manda o pessoal abrir um portão por vez. Sabe como é, né? Sem luz e sem câmera a gente não pode deixar ficar uma fila de carros aqui na saída.
Depois de mais espera, o homem ligou de novo e disse que era a vez deles. O casal entrou no carro. Pelo canto do portão dava pra ver duas tiazinhas vestidas de copeiras tentando destravar o mecanismo com uma chave de fenda, que caía a toda. Eric não podia ajudar pois a operação era do lado de fora.
Chegando à recepção, tava lá o sujeito com uma lanterninha de 1,99 na mão e evitando olhar para o casal. Depois de algumas tentativas, a operação foi completada. E lá vieram as duas tiazinhas de cabeça baixa para abrir o portão principal.
Quando o casal saiu, deu de cara com um ponto de ônibus lotado e um “mercedes” amarelo bem cheio, recolhendo o pessoal. E o povo olhando pra ver quem tava saindo do lugar, e todos se viram, pois no carro de Eric não tinha película. Todo o profissionalismo do pessoal do motel foi por água abaixo. Se fosse um casal “ilícito”, o crime não teria dado certo. Como diz o provérbio: “Em cidade pequena o inferno é grande”.


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O imaginário e a vingança delas (Marcelo Lamas)




Não era pra ter vazado. Mesmo tendo o maior cuidado, o sigilo foi quebrado e a informação veio à tona.
Começou num final de sexta-feira, no escritório. Procurando uma distração momentânea, o sujeito tirou os olhos do monitor e olhou para a menina que estava ao lado, imaginou alguma coisa proibida, pensou, riu e comentou baixinho, com um colega:
– Jaime, como tu achas que é o estilo do corte - apontando para a região pubiana - da Cláudia?
– Máquina zero com certeza! Respondeu ele, controlando o riso.
E a Selminha?
– Moicano. E a Dona Mércia, consegues imaginar?
– Cláudia Ohana.
– Cláudia Ohana?
– É Claudia Ohana. Mata Atlântica, entendeu?
– Entendi.
Muito pró-ativo, o Jaime pegou um cartão de apresentação e no verso fez uma coluna com as iniciais ou os apelidos das mulheres. Ao lado, listou as alternativas, onde aparecia também a opção bigode do Hitler.
Em seguida passou a cédula única entre os mais chegados, com QI mais alto, que seriam discretos. Antes do sinal do expediente tocar, os dados estavam compilados e 68% disseram que a “Ajeitada” seguia o tipo moicano.
Mas como sempre acontece, a informação de que uma pesquisa do gênero havia sido feita chegou até o clube da luluzinha.
Elas deixaram transparecer que eram sabedoras da enquete. Pareceram ter levado na esportiva. Uma delas comentou: “Com esse meu cabelão, sem chapinha, o que será que não pensaram?”.
Outra indagou: “O ‘que que deu’ meu resultado na pesquisa de vocês, hein?”.
A intimidade que ela cultivava com o grupo até permitia que o resultado fosse revelado. Mas ela não fez parte da enquête. Não estava na repartição na hora do pleito. Foi esquecida. Não acreditou na versão. Tem certeza que houve um veredito e  que não foi poupada da análise. Ficou brava duas vezes, primeiro por estar na lista e depois por, talvez, não estar.
Numa outra reunião, realizada em um chá-de-panela, o clube decidiu retribuir a gentileza. Assim, foram coletadas informações com todas as participantes femininas.
O resultado foi impresso em fonte 18. Havia uma coluna com o nome de batismo de todos os colegas. Os percentuais estavam apontados embaixo das fotografias de uma garrafa de Coca-Cola, um sacolé, um pepino em conserva, um chocolate Baton e um oriental, entre outros.
Elas deram jeito de fazer a folha ofício passar na mesa de todo mundo. Neste caso, o sigilo, de fato, era mesmo para ser quebrado.


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com


 

 

 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Profissões (Marcelo Lamas)

Já dizia um amigo, filósofo de bar: “Toda profissão tem seu drama”. Geralmente os pedidos de consultoria acontecem em todos os setores, como alguém que chega pro veterinário e diz: “Podes dar uma ‘olhadinha’ no meu cachorro?”. Esses pedidos começam com um prenúncio, seguido de um predicado elogioso: “Tu que és um escritor moderno, sabes se ‘paraquedas’ tem hífen?”.
Certa vez recebi um telefonema de uma desconhecida:
- Oi tudo bem? Sou amiga da fulana, ela te indicou pra me ajudar. Tu que és professor, podes me ajudar a resolver um problema?
- Opa, se eu puder te ajudar.
- Eu mandei uma sandália pro conserto e fiquei sem grana pra buscar. Quando arrumei o dinheiro, já haviam se passado três meses e eles venderam pelo preço do serviço para outra pessoa. É correto isso?
Depois de sugerir que ela procurasse o Procom pra se aconselhar, a conversa seguiu e ela perguntou: “De que mesmo que tu és professor?”. Futuramente ela cursou e formou-se naquela faculdade.
Outro dia, passando pela mesa de uma novata, no meu outro trabalho, a guria me chamou:
- Me disseram que tu também és professor. É verdade ou é pegadinha?
- Ah, sim, é verdade.
- Podes me explicar como funciona esse negócio de série A e rebaixamento?
Bem, a jovem estava mergulhada num ambiente excessivamente masculino e estava tentando entender o assunto das horas vagas. Tentei ajudar:
- São quatro séries. Os últimos da série A são rebaixados para a B e assim por diante. Os primeiros vão pra Libertadores.
Eu precisei de um papel, pois não consigo explicar nada sem escrever. Uma limitação minha, não da menina. Ela seguiu:
- Quem faz mais gols, faz mais pontos? O que é “pontos corridos”?
Expliquei que a vitória vale três e o empate um. Que todos jogam contra todos, duas vezes.
Naquela altura, a menina já estava com o jornal aberto na tabela de classificação.
Foi aí que eu perguntei:
- Pra qual time você torce?
- Como eu faço pra escolher?
Surpreso, respondi:
- Torça para o Grêmio.
- Ah! É? Qual é o critério pra escolha?
Fiquei sem resposta, falei que depois eu lhe explicava e voltei a trabalhar, afinal era para aquele fim que eu estava lá.



Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Mario, o gênio (Marcelo Lamas)


O recordista de citações nos meus escritos é o poeta Mario Quintana (1906-1994). Pesquisei sua vida e obra em livros, artigos, biografias, entrevistas e documentários. Fiquei alguns dias “ilhado” no centro de Porto Alegre, em museus, bares, cafés, na rua da Praia e na praça da Alfândega, seu habitat.
O poeta foi um solteirão convicto e sempre morou em hotéis. Antes de falir, o Majestic hospedou Mario por 12 anos. O prédio imponente foi recuperado e re-inaugurado, em 1990, como Casa de Cultura Mario Quintana (www.ccmq.rs.gov.br) e o poeta pôde ver seu sonho realizado.
Ao longo da vida, foi tradutor de telégrafo e da Editora Globo (Proust, Balzac, Voltaire e outros), além de jornalista. O escritor fora alcoólatra. Um médico alertou: “Se o senhor não parar de beber, nunca ficará famoso!”. Submeteu-se ao tratamento e livrou-se do vício na década de 50.
Aos 60 anos, rompeu as divisas do sul e tornou-se nacionalmente conhecido. Conseguiu, definitivamente, colocar a conta do hotel em dia. Recebeu a titulação de Doutor Honoris Causa de várias universidades. Escreveu 20 livros (5 de poesia infantil) e 14 antologias. Na coluna Caderno H — que virou livro da Editora Globo —, no Correio do Povo, do Rio Grande do Sul, publicou infinitas máximas universais, como: “A preguiça é a mãe do progresso. Se o Homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda” e “A morte não iguala ninguém: há caveiras que possuem todos os dentes”.
Mario tinha um humor sarcástico. Certa vez, uma jovem repórter, usando um jargão jornalístico que estava na moda, indagou-o esperando uma autodefinição: Quem é Mario Quintana? Com a ironia habitual respondeu: “Sou eu mesmo, minha filha!”.


marcelolamas@globo.com

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Lupanar (Marcelo Lamas)

Na época do cursinho pré-vestibular fui com um amigo numa festa. Dentro da balada, perto do bar, havia um grupo de mulheres. De belas mulheres. Uma delas era sósia de uma atriz que era a bola da vez da Globo, hoje seria uma Isis Valverde. Eu fiquei observando e fiz uma aproximação. Fiquei um tempo ali perto, ouvi algumas coisas que elas falavam em alto tom. Aparentemente estavam ali só para curtir a festa. Puxei conversa, falei pra sósia que ela era a mais bonita ali presente. Ela agradeceu e retribuiu com um beijo no meu rosto. O meu amigo ficou espantado. Queria saber o que eu tinha dito e, quem sabe, repetir aquele golpe certeiro com outrem. Eu não respondi. Idiotice de adolescente. Mas, falei pra ele que, pelas evidências, aquelas meninas trabalhavam em alguma casa de tolerância.
A minha desconfiança virou certeza numa noite que cheguei num lupanar, numa despedida de solteiro - hoje em dia as despedidas não acontecem mais. Mal entrei, já vi a sósia sendo o centro das atenções, cercada por um monte de admiradores. Depois que diminuiu o assédio, me dirigi a ela chamado-a pelo nome, que eu deduzira ser ‘o de guerra’. Foi como se eu tivesse dito uma senha. Ela saiu do meio dos elementos e veio conversar comigo, rapidamente, pois ela estava a trabalho e eu não tinha cara e nem jeito de quem pudesse pagar pelo seu tempo.
E assim aconteceu noutras vezes que fui noutras despedidas de solteiros - como o pessoal casava naquela época, acho que nem tinha tanta igreja pra dar conta. Eu chegava, a sósia vinha me cumprimentar, trocava umas palavras e depois voltava ao seu trabalho de dançarina, performista e atendente sentimental.
Como eu sempre chegava com algum amigo, estes achavam muitíssimo estranha aquela minha intimidade com a sósia. Queriam saber detalhes daquela amizade. Acredito que muitos do nosso meio achavam que eu era namoradinho da meretriz. Acontece que eu era já um universitário e como tal, não teria como manter um relacionamento com uma profissional, que vivia da arte de amar, o que quebraria uma antiga lei da economia.
Mas a desconfiança deles aumentou, numa vez que chegamos lá, a sósia cumpriu o protocolo de sempre, mas pegou a minha comanda e devolveu-me com um carimbo de PAGO e ainda trouxe uma Coca-Cola com gelo. E aí a imaginação deles foi longe. Que tratamento VIP era aquele? E justo da profissional mais famosa de Springfield do Sul? Eu só ficava me esquivando. Nunca disse a verdade.
Todo aquele tratamento começou numa noite de pouco movimento em que ela me entregou seu número de celular num guardanapo. Vez por outra, quando vinha algum forasteiro e me perguntava sobre a vida noturna, eu passava o contato da acompanhante.
Aquele comportamento dela nada mais era que um singelo agradecimento pela indicação dos seus serviços. Se eu contasse, os meus parceiros iriam me acusar de cafetinagem, que até crime é.
Por esse motivo, até hoje tenho relutância em usar qualquer botão da camisa aberto e também me recuso a usar qualquer tipo de pulseira ou corrente de metal no pescoço.


Por Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Sotaque Italiano (Marcelo Lamas)

A minha namorada é cinco centímetros mais alta do que eu. Ela nega e diz que são apenas dois. Esta diferença a favor dela nunca foi desconforto para mim.
Percebi que, com o tempo, ela foi gradativamente reduzindo o tamanho dos seus saltos. Hoje, costuma sair praticamente ao nível do mar.
Você já deve ter visto aquela situação em que o homem vai a algum lugar sem a sua respectiva e, ao voltar, é recebido com ironias do tipo: “Onde você estava tão arrumadinho assim?” ou “Pra que tanto perfume?”.
Comigo o problema é outro. Posso aparecer vindo do futebol, do trabalho, da academia, de uma viagem ou de um evento social que exija traje alinhado. Não serei alvo de alfinetadas por causa de vestes ou odores.
O meu drama é outro, uma variável distinta: “Topetinho alto, hein?!” ou “Sim, colocou o topete lá no teto, né?!”.
E tudo se potencializa com um sotaque que aparece repentinamente, fazendo-a parecer uma imigrante italiana recém saída do navio.
E se eu tiver usando meu sapato com salto interno que dá um ganho de seis centímetros a coisa piora muito pro meu lado.
Se eu aparecer na casa dela com um moicano no estilo do Neymar é demissão na certa.
Se bem que ela disse que acha o camisa 11 bonito. Ela também elogia muito o Zezé di Camargo, vai entender.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sigilo (Marcelo Lamas)

Já fazia um bom tempo que ele estava à procura de alguém para ter um relacionamento definitivo. Recentemente até tinha ficado com algumas meninas, mas quando as conhecia de perto, a coisa não andava, sempre aparecia alguma incompatibilidade de gênios ou, simplesmente, não rolava a química.
Mas naquela noite ele saiu sem expectativa alguma, com uma turma de amigos. Nem de carro ele foi, descolou uma carona.
No barzinho, com música ao vivo, o clima era bom, com proporção altamente favorável com muitas mulheres por metro quadrado. Ele percebeu uma cruzada de olhares com uma morena. Mas descartou de cara qualquer possibilidade, pois com tantas opções, ele menosprezou seu instinto apontando para a morena, pensou que não seria a primeira abordagem que iria vingar. E, afinal, ele não tinha saído para procurar alguém.
Com o decorrer da festa, ele percebeu que a morena despachara supostos interessados durante toda a noite e continuava por ali. Assim, ele resolveu fazer uma aproximação e puxou conversa. No meio do assunto, ele questionou:


- O que você faz?
- Sou daqui mesmo.
- O som está muito alto, acho que você não entendeu minha pergunta, o que você faz?
- Ah! Sou funcionária pública.
- Legal, eu sou engenheiro, trabalho numa indústria.
- Poxa, engenheiro! Você deve ser bom em matemática, né?
- Bom, tive que estudar bastante. Mas, você faz o que especificamente? Indagou ele.
- Trabalho pro governo do estado.
- Na saúde?
- Não. Não sou enfermeira. Vou pedir mais uma bebida.


Chamaram o garçon, tomaram mais uns drinks, voltaram a conversar descontraidamente.
Ele perguntou:


- Como você veio para a festa?
- Vim de carro.
- Você pode me dar uma carona?


Ela desconversou, aproveitou que uma amiga vinha passando, enfiou o braço nela, deu um tchau apressadamente e vazou da festa.
Na semana seguinte, falaram-se por telefone e combinaram encontro num bar.
Ele estava encucado. Por que ela tinha ido embora daquele jeito acelerado, fugindo? Por que ela não disse qual profissão exercia?
No fundo ele estava com medo que ela fosse professora de educação física. Pois ele já tivera um affair com uma professora no passado e o namoro não emplacara devido ao ciúme, pois além de trabalhar em uma escola pública, aquela professora também era personal traineer numa academia “cheia de homens se exibindo”, como ele dizia. Será que o filme se repetiria?
Depois da enrolada inicial, ele indagou:


- Em qual área você trabalha?
- Segurança Pública.
- Você é escrivã?
- Não sou delegada.
- Delegada?! Que legal. Por que você não falou antes?
- Porque a profissão exige que eu seja discreta. Aproveitando, quero pedir-lhe desculpas, naquela noite eu estava a fim de ficar com você, mas prefiro agir com mais parcimônia. E Também fiquei com medo de lhe dar uma carona logo na primeira vez, pois a gente nem se conhecia direito.


Até o fechamento desta edição as histórias dos dois permaneciam cruzadas.


Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 17 de abril de 2012

Epitáfio (Marcelo Lamas)

O meu relacionamento com a “morte” começou cedo demais. Quando a minha mãe teve as dores do parto, foi um tio da funerária que nos levou pro hospital. Porém, só quando eu já tinha passado dos trinta, alguém do meu círculo mais íntimo veio a falecer, a minha avó. Meus pais tomaram o cuidado de marcar o enterro para um horário bem adiante, de modo que houvesse tempo de pessoas como eu, que estava a 900 km, pudessem chegar. Mas houve estranheza por parte dos presentes na cerimônia, pois eu não apareci.

Eu tinha um contrato apalavrado com a velha, que me liberou do compromisso, pois, logo que começaram a morrer os amigos e parentes contemporâneos, ela passou a tocar no assunto: qualquer hora chegaria a vez dela; da turma do colégio só tinha sobrado ela; e dos fundadores do clube de futebol, ela era a única com vida.

Foi numa visita aqui em SC que conversamos sobre o caso. Perguntei se ela fazia questão que eu estivesse na cerimônia, argumentei que o importante era estar por perto quando a pessoa estivesse viva e que eu, modéstia à parte, nunca me furtara de acompanhá-la nas viagens a trabalho, pois ela vendia roupas à domicílio em lugares remotos. Também fui o seu par em eventos sociais, que não eram poucos. Perdi a conta das vezes que fui o motorista para levá-la para tomar café com as amigas ou que fui buscar as mesmas amigas para tomar café com ela. A minha irmã me substituiu nesta tarefa quando mudei de cidade. E desde sempre, a avó Alice contou com o primo Wellington, este sim, guerreiro, que era o seu acompanhante oficial em eventos fúnebres, conhecesse ele o defunto ou não.

Com bom humor costumeiro, minha avó dizia que levantaria do caixão para me defender, caso alguém cobrasse a minha presença na sua hora final. A propósito, toda vez que eu lhe mostrava alguma novidade ela dizia: “Morrendo e aprendendo”. Até hoje não sei se ela havia entendido mal o provérbio ou se era um trocadilho proposital, por causa das suas nove décadas.

Numa palestra, o biógrafo Ruy Castro comentou que no dia seguinte da morte do Tom Jobim, uma editora americana entrou em contato para contratá-lo. Ele negou o serviço, pois, segundo ele, logo depois de morto qualquer um vira perfeito por um tempo e o biografado ideal é aquele que morreu há pelo menos dez anos, o que seria tempo suficiente para aparecerem todas as histórias que ainda não eram públicas, boas e ruins.

Quando eu morrer não quero velório. Não quero que amigos, parentes, conhecidos e inimigos cruzem histórias e que possíveis verdades e segredos sejam revelados a poucos metros de mim, sem que eu possa inventar uma desculpa.

Só peço que a poesia de Mario Quintana seja escrita e identificada na lápide: "Essa vida é uma estranha hospedaria, De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas, E a nossa conta nunca está em dia..."

Por Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com





sábado, 18 de fevereiro de 2012

O sexo evoluído (Marcelo Lamas)

No ano passado, assisti a um filme nacional com o roteiro composto de depoimentos reais interpretados por atores. Num deles, o ator diz: “Admiro as mulheres. Elassão mais evoluídas, decididas. Os homens são diferentes. São fechados. Têm que estar bêbados para dizer o que pensam. Alguns precisam procurar um analista para dizer ‘doutor, acho que sou meio gay, mas não tenho certeza’. Por isso há uma enormidade de revistas para mulheres, onde elas dizem tudo o que pensam e para quem quiser ouvir (ler)”.


Outro dia, numa turma de amigos, um sujeito referiu-se a uma modelo famosa, cujo outro não lembrava. Na tentativa de ajudá-lo, falei:


- É aquela que está na capa da revista Gloss.


Pegou mal. Na hora começou a gozação da galera:


- Ihhhh! O cara sabe quem tá na capa... De qual revista mesmo, hein?


Outro emendou:


- O cara deve saber o nome daquelas quinze “cor vermelha” de batom.


E ficaram me olhando com aquele olhar paterno atravessado, no qual ficou explícita a necessidade de uma explicação, sob pena de ser expulso da mesa. O mais exaltado era o Pinheiro, que não é sobrenome e sim alcunha, devido a sua semelhança com a árvore: “Quanto mais o tempo passa, mais grossa fica”.


Esclareci:


- Olha, eu vi a revista na gôndola do supermercado. Como eu sou colaborador da Blush, preciso saber do que as mulheres estão falando, no que elas pensam. O que agrada e o que as irrita.


Sempre gostei de ver as beldades que estampavam as revistas que a minha mãe comprava. Depois passei a ler as reportagens e a tentar entender – só tentar – aqueles pontos de vista. Naquela época, sem internet banda larga e com um militar na presidência as informações eram bem restritas para um pré-adolescente perguntativo como eu.


Vez por outra compro revistas femininas para a minha namorada, e dou uma olhada depois. Aliás, não sou muito seletivo com relação à leitura ocasional, qualquer jornalzinho promocional de loja me interessa, o lixo de papéis lá de casa tá sempre cheio. Ela vive me chamando de Bratz.


Mas quando vou à banca começo comprando as revistas masculinas e de futebol, depois dou uma olhada no resto.


E foi numa dessas que li a melhor frase de 2011:


Um homem não deve pedir desculpas por estar olhando para um decote, a não ser que seja uma parenta de primeiro grau”.


Não adianta, o instinto age sempre primeiro.


 


 


Marcelo Lamas, escritor. Autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sombra e destino (Marcelo Lamas)

Desde menino fui perseguido pela sombra do meu sobrenome no futebol da cidade que nasci. E este virou nome de guerra, pois havia uma safra muito grande de Marcelos no colégio – na mesma sala éramos 9 – e assim, desde cedo fui chamado pela alcunha originada entre a Galícia, no interior da Espanha e Portugal. Como o meu pai e os meus tios tinham sido futebolistas conhecidos, quando algum transeunte ouvia meu sobrenome, me questionava: “Tu és filho do Lamas? Jogas futebol como ele?”.


Relutante, eu evitava participar dos jogos temendo não corresponder às expectativas. Só aceitei entrar no time da sala para jogar a Gincana de 1985, porque não tinha goleiro. Dali para frente passei a ser o arqueiro da escola e ficava na reserva da equipe da empresa que meu pai trabalhava.


Depois de alguns anos, tive que mudar de posição, pois a minha estatura era bem menor que as dos outros goleiros. Então passei a jogar de zagueiro e até hoje jogo futebol com meus amigos na retaguarda.


No final do ano passado fui assistir a um treino do Museu EC, clube de veteranos que meu pai frequenta e que tem maioria sexagenária. Como estava muito quente, faltou gente para jogar e fui escalado para ficar de goleiro.


Consegui a proeza de tomar 10 gols, sendo o último por cobertura.


Ao longo da minha carreira esportiva tive derrotas, aprendizados e fiz inúmeras amizades.


Também tive boas vitórias, inclusive naquela Gincana do colégio em 1985, que teve a minha modesta participação. Ao final daqueles jogos ocorreu um inesperado empate na somatória dos pontos das várias modalidades (corrida do saco, cabo de guerra, corrida do ovo, caçador, futebol, vôlei, entre outros). Às pressas, pois a noite chegava rapidamente naquele inverno do extremo-sul do país, os professores acharam um jeito de definir a sala campeã.


E eu fiz a redação que desempatou a gincana.

Desde lá, não sei definir qual dos dois esportes é o meu favorito.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com