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domingo, 17 de março de 2013

Salomão, o homem mais sábio do mundo (Fernando Bastos)


 “Tomou o sacerdote Sadoc no tabernáculo o chifre de óleo e ungiu com ele Salomão. A trombeta soou e todo o povo pôs-se a gritar: Viva o rei Salomão!” (I Reis 1,39)


 Século 10 a.C.


 O velho rei jazia febril em seu leito, sob o olhar atento e piedoso de Abisag, uma virgem de dezessete anos que foi escolhida pela beleza e modéstia para lhe fazer companhia e aquecê-lo. Mas o sangue real havia enfraquecido, a carne mole não dava sinal de vida, de modo que ele não a tocou nenhuma vez.


Sabendo que não viveria muito tempo, o rei Davi mandou chamar seu filho Salomão, fez um sinal com a trêmula mão para se aproximar e disse,


- Seja corajoso: porte-se como homem. Guarda os preceitos do Senhor, seu Deus; anda em seus caminhos, observa suas leis, seus mandamentos, seus preceitos e seus ensinamentos, tais como estão escritos na lei de Moisés. Desse modo será bem sucedido em tudo o que fizer e em tudo o que empreender...


Salomão perguntou,


- Que meu pai quer que eu faça com Joab, filho de Sarvia? O rei moribundo respondeu,


- Não deixe que seus cabelos brancos desçam em paz à mansão dos mortos. Quanto a Semei, filho de Gera, você bem sabe como ele me insultou quando fui a Maanaim. Que ele tenha o mesmo fim de Joab. – O gosto pela vingança e crueldade, que esteve presente ao longo da vida de Davi, logo após ter perdido o amado Jônatas e ser coroado rei, não o abandonaria nem no leito de morte.


- Tem minha palavra, meu pai. Assim procederei - garantiu Salomão.


 Dias após a essa conversa, Davi foi para o sheol, se juntar aos seus pais. O sepultamento foi acompanhado por milhares de judeus, que se cobriam de cinzas em sinal de luto e batiam com as mãos sobre a cabeça, como doidos em um manicômio.


Salomão foi empossado novo rei de Israel. Já de início, mostrou sua real personalidade, matando o próprio irmão Adonias. Parece que Salomão temia que o irmão, mais para frente, engendrasse alguma manobra para subir ao  trono, e resolveu tirá-lo do caminho. De fato, quando sua mãe Betsabeia, a pedido de Adonias, veio falar com o rei, para que este concedesse ao irmão a mulher Sunamita, Salomão entrou em estado de fúria e respondeu ironicamente,


- Por que deseja que Abisag, a sunamita, seja dada a Adonias? Pede também para ele o reino, já que é meu irmão primogênito, assim como para o sacerdote Abiatar e para Joab, filho de Sarvia. E, fulminando o olhar em direção a sua mãe, concluiu - Que Deus me açoite com todo o rigor, se Adonias não pagar estas palavras com a própria vida!


- Oh não, filho, - Implorou a mãe do rei -, Não suje suas mãos com o sangue de Adonias, ele é seu irmão. - Suas lágrimas não me comovem, mulher, rosnou entre os dentes Salomão. - Adonias será morto hoje mesmo.


 Seguindo as ordens do rei, Banaías, comandante dos cereteus e feleteus, cravou um punhal no peito de Adonias, que agonizou mais alguns minutos antes de morrer. A mando de Salomão, Banaías, o que hoje chamaríamos de pistoleiro de aluguel, cometeria mais dois assassinatos: no tabernáculo, encontrou Joab, que havia assassinado dois homens de confiança de Davi – Abner e Amasa, ambos generais de exército -  escondido e o trespassou com sua espada.  Três anos depois foi a vez de Semei, morto por ter feito mal e insultado Davi, antigo rei de Israel.


 Com estes três assassinatos, o poder se consolida nas mãos de Salomão. Esse início duro de governar não foi obstáculo para receber o carinho do Senhor, que em uma noite, lhe apareceu em sonhos e prometeu lhe dar o que quisesse. O jovem rei respondeu,


- Não passo de um adolescente e ainda não sei como me conduzir. Dê, portanto, ao seu servo um coração sábio, capaz de julgar o povo e discernir entre o bem e o mal; pois sem isso, quem poderia julgar o povo de Israel, tão numeroso?  


O Senhor se alegrou com a humildade do jovem rei e disse,


- Não me pediu nem ouro, nem vida longa, nem morte aos teus adversários, mas somente inteligência para julgar seu reino com justiça, de modo que atenderei seu pedido: dou-lhe um coração tão sábio e inteligente, como nunca houve outro igual antes de você e nem haverá depois. Além disso, lhe darei também o que não me pediu: ouro e glória, de tal modo que não haverá quem lhe seja semelhante entre os reis durante toda a tua vida. E, se andar em meus caminhos e observar os meus preceitos e mandamentos como o fez Davi, teu pai, prolongarei a tua vida por muitos anos.


 Na sequência dos atos do rei, o que percebemos é um acúmulo de erros, violência contra os fracos, castigos de escravos e superstições. Mas Javé não era onisciente? Não teria previsto esses deslizes de seu protegido? Por que mesmo assim colocou no trono um fratricida? A essa altura, depois de ter castigado a Humanidade com um dilúvio, por não ter previsto que seus filhos cometeriam iniquidades; pedido o sangue do filho de Abraão, porque não tinha certeza se o patriarca lhe era fiel, e tantos outros exemplos claros de ausência de clarividência, fica difícil ao mais seguro devoto de Javé, concordar que esse deus tinha super poderes, a ponto de prever o futuro. Não tinha.


 Insaciável, Salomão montou um harém sem precedentes na história. Teve setecentas princesas como esposas, além de trezentas concubinas. Tirando os exageros, tão comum ao povo do Oriente - sejamos honestos: o número foi superfaturado para exaltar o poder de Deus para com um de seus eleitos – ele, sendo rei, teve provavelmente muitas mulheres, muitas das quais eram moabitas, amonitas, edomitas, e de outras terras estrangeiras, que o senhor Javé tinha severamente admoestado para que os israelitas não tivessem relações sexuais com elas, para que não se corrompessem indo adorar seus deuses. Salomão não se importou com a proibição e desejou para si aquelas mulheres de corpos perfeitos e olhos que possuíam ímãs.


Impelido pelas suas esposas, o velho Salomão prestou culto a Astarte, deusa dos sidônios, e ao deus Melcom dos amonitas. O rei ainda mandou construir altares para Camos, divindade de Moab e a Moloc, um deus amonita, que apreciava o sacrifício de bebezinhos e meninas virgens.


Enquanto Salomão derrubava seus oponentes a golpe de espada, inclusive irmãos, e mandava açoitar os estrangeiros que trabalhavam em seus palácios e templos, o Senhor nada falou; talvez achasse isso normal. Mas só foi cometer o sacrilégio de desposar estrangeiras e adorar deuses vizinhos, para que a ira de Javé se manifestasse com a violência de um leão faminto,


- Você me traiu, disse Javé, ao agora decrépito rei. De sorte que por não ter respeitado minhas leis e minha aliança, tomarei de volta o trono e darei a seu servo.


 Salomão reinou por quarenta anos, em Jerusalém, e foi sepultado na cidade de Davi. Roboão, seu filho, ascendeu ao trono em seu lugar. De nada adiantou o Senhor presentear Salomão com sabedoria e fazê-lo o mais sábios entre todos.


Ora, sabemos que seu reinado foi repleto de atos criminosos, tornou-se um obcecado pela riqueza, a ponto de construir imponentes palácios. Para dar conta das construções que se erguiam, submeteu a trabalho escravo todos os estrangeiros. E só perdeu em maldade para o filho Roboão, que o substituiu. Jeroboão foi ter com o novo rei e disse,


- Salomão, seu pai, foi muito duro conosco. Alivia o jugo que seu pai nos impôs, e seremos seus servos.


 Depois de consultar seus sequazes, Roboão declarou, Meu pai os impôs um jugo pesado? Pois eu o tornarei ainda mais pesado. Meu pai os castigou com açoites? Pois eu os castigarei com escorpiões.


 A vida dos israelitas continuaria um tormento por mais um longo tempo. 

sábado, 17 de novembro de 2012

Davi e Jônatas (Fernando Bastos)

 

Israel era governado pelo rei Saul, mas ele fizera o que era mal aos olhos do Senhor, de modo que o profeta Samuel fora chamado para escolher um substituto. Em Belém, ele ungiu um jovem de bela aparência, de cabelos ruivos, chamado Davi. A partir desse dia, o garoto foi tomado pelo espírito de deus, que o acompanhava a todo instante.


Conhecendo a fama de bom músico, Saul mandou chamar Davi, o belemita, para perto dele. Todas as vezes que um espírito maligno se apoderava do rei, Davi tocava a harpa e Saul se acalmava, de maneira que o filho de Jessé ganhava cada vez mais pontos a seu favor, tornando-se escudeiro do rei. Quando Davi lutou contra o gigante Golias e o derrotou com uma simples funda, todos o temeram, pois sabiam que deus estava com ele. Como prêmio pelo ato de bravura, o rei o convidou para morar em seu palácio. Jônatas, filho de Saul, no mesmo instante em que viu Davi, apaixonou-se pelo belemita. Quando Davi saiu da reunião com o rei, Jônatas chamou-lhe num canto e disse, Davi, filho de Jessé, eu o amo como minha própria alma, façamos um pacto para nunca nos separarmos!


Após um carinhoso abraço, Jônatas presenteou Davi com seu manto, dando-lhe também armadura, espada, arco e cinto. Davi foi nomeado chefe dos guerreiros. A cada nova batalha crescia sua fama de grande líder, a ponto das israelitas cantarem, “Saul matou aos milhares, Davi, às dezenas de milhares”.  Aos poucos, a admiração do rei Saul pelo jovem belemita se transformava em ódio. O rei ardia em uma inveja que lhe corroía as entranhas, e logo começou a maquinar um plano para matar Davi.


Um dia, enquanto Davi tocava cítara para o rei, Saul arremessou duas vezes a lança contra ele, mas lépido que era, Davi saiu incólume do ataque. Saul pensou consigo mesmo, Esse filho de uma vaca é protegido do Senhor; então , que não seja a minha mão que o ferirá, mas a dos filisteus.


Saul mandou chamar Davi e lhe disse, Filho de Jessé, em troca de seu êxito nas batalhas, vou lhe dar por mulher minha filha mais velha, contanto que continue a ser um filho valoroso e destemido nas guerras do Senhor. Davi não quis aceitar a mão da filha do rei, julgando-se não merecedor de tão elevada honraria; essa foi a desculpa, mas o motivo da recusa foi que já estava ligado até a medula  ao amor de Jônatas. Entretanto, acabou aceitando depois de ouvir os rogos de Saul.


Como não tinha dote para pagar pelo casamento, Davi foi engenhosamente mandado à linha de frente na luta contra os filisteus, para, segundo imaginava o rei Saul, fosse morto em campo de batalha. No entanto, além de voltar vivo, Davi ainda trouxe duzentos prepúcios de soldados mortos em batalha. Era o dote que Saul pedira.


Conforme o trato, Mical foi entregue como mulher a Davi, mas a ira de Saul pelo tocador de cítara aumentava dia após dia. Numa reunião de emergência, em que chamara seus melhores generais e o filho Jônatas, o rei disse, Matem o belemita! Jônatas saiu correndo e avisou seu amado, Meu pai deseja sua morte. Fuja, querido, enquanto há tempo. Davi fugiu e foi morar em Ramá, junto ao profeta Samuel.


Numa noite, enquanto jantavam, o rei disse, Hoje é o segundo dia que Davi não aparece para cear conosco; onde ele está? Jônatas respondeu, Ele pediu-me para ir a Belém realizar um sacrifício em família e eu deixei. Mas o rei já suspeitava da relação proibida de ambos, e grande foi a explosão de fúria do monarca de Israel, atirando pratos e jarra de vinho contra o chão. Então, mirando a cara de Jônatas, gritou, Seu filho de uma cadela, todo o povo sabe que você escolheu Davi para sua vergonha e vergonha da sua mãe. Enquanto Davi estiver vivo, você não estará seguro, nem seu trono. Agora, parta e traga-me a cabeça dele.


Jônatas foi ao encontro do amado, e quando Davi avistou a figura do filho do rei, saiu de seu esconderijo e o beijou. Dependendo da versão bíblica, foi apenas um abraço, mas de qualquer modo, a essa altura, por mais que os defensores da tese de que o amor entre Davi e Jônatas era como de dois irmãos, se deixarmos os preconceitos tolos de lado, veremos que sim, havia entre eles um amor homoafetivo, do qual ninguém pode negar. Muitos, de fato, se mostram contrários às provas desse amor homossexual, pois pelos padrões da moral homofóbica da Bíblia, não pegaria bem que gerações mais tarde, o Messias cristão seria descendente de um gay, ou bissexual, como preferem alguns autores, o que, para os conservadores, isso abalaria profundamente a reputação do filho de deus.


Tempos depois, os filisteus atacaram Israel, e mataram Saul e seu filho Jônatas. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Davi, ele compôs um cântico fúnebre em honra de Saul e Jônatas, o verdadeiro amor de sua vida. À noite, ao redor da fogueira, sob olhar dos companheiros de luta, o belo filho de Jessé se cobriu de cinzas, rasgou as vestes e, com a alma enlutada, cantou num brado dolorido,


“Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas; muito querido me eras! Maravilhoso me era o teu amor, ultrapassando o amor de mulheres.” (Segundo livro de Samuel 1,26).


 Fernando Bastos, cartunista, ilustrador e escritor.

segunda-feira, 12 de março de 2012

O sêmen desperdiçado de Onã (Fernando Bastos)

Adaptado de Gênesis 38,9

O casamento de Judá com Sué, filha de um cananeu, foi comemorado com bom vinho, dança e muita música. Em menos de um ano, nascia Her, um lindo menino, saudável e de choro forte. Logo depois vieram outros dois meninos, Onã e Sela.
Quando Her já estava em idade de se casar, Judá escolheu para o filho primogênito uma bela mulher de nome Tamar. Por causa das iniquidades e vida licenciosa de Her, o deus dos hebreus o castigou tirando-lhe a vida. Passado o período de luto, Judá levou Onã ao campo, e, enquanto passeavam observando bois e ovelhas, disse, Meu filho, deve observar a lei do Levirato, de modo que tomará Tamar, mulher de nosso querido e muito amado Her, para gerar a posteridade de seu irmão morto. Meu pai, respondeu com tristeza Onã, O senhor sabe que os filhos não serão meus, portanto, não gostaria de me unir a Tamar. Além do mais, amo outra mulher, chamada Ana, e é com ela que gostaria de me casar.
O pai não gostou da novidade e disse com firmeza, Filho, eu repito, deve obedecer a lei de nosso povo. Não queira desobedecer ao Senhor; veja o que aconteceu com Her, ser irmão. Por causa de seus pecados, deus o tirou de nós...
Naqueles tempos, imaginava-se que deus era um Ser que tanto podia trazer a bonança, como a morte. Temia-se a divindade mais do que a amava, como muitos filhos ainda hoje a seus próprios pais.
Por favor, pai, lamentou Onã em prantos, Deixe essa tarefa ao meu irmão mais novo, Sela; tenho certeza que ele não se malogrará em recebê-la como esposa. Já os vi conversando diversas vezes, e, não há quem, tendo os visto juntos, em risinhos e trocando segredos ao pé do ouvido, pense em mais nada senão que foram feitos um para o outro. Judá balançou a cabeça em desagrado e disse, Não seja a desonra de sua casa, Onã. Não basta a vida que seu irmão levou, agora vem você querendo afrontar nosso deus e Senhor?
O casamento de Onã com a cunhada realizou-se menos de seis meses depois dessa conversa. No entanto, ambos não pareciam felizes. Onã amava Ana, e Tamar morria de amores pelo cunhado mais novo. Levou algum tempo para que ambos decidissem cumprir a Lei. Em uma noite de calor abrasante, quando haviam chegado em casa após uma festa promovida por um conhecido da família, Tamar, bastante alterada pelo vinho, desceu a túnica de algodão, na frente do marido, e parou de pé a sua frente, com os pés ligeiramente afastados um do outro, queixo erguido, numa posição de forte apelo sensual, revelando seu corpo trigueiro e ardente de desejos atrasados. Onã ficou paralisado diante de tanta beleza, e desejou logo unir sua carne àquele corpo perfeito.
Em segundos, ambos estavam entrelaçando seus corpos, e Tamar deu seguidos gemidos de prazer quando sentiu o membro de Onã, rígido como uma lança, penetrando sua viscosa gruta. A mulher pressentiu a chegada do orgasmo do marido, de modo que o abraçou com mais força ainda. Encha-me com sua semente, Onã, implorou ela. Como uma janela aberta abruptamente deixando a luz entrar, a mente de Onã se iluminou e no mesmo instante lembrou-se que o fruto daquela relação não pertenceria a ele, mas ao irmão morto. Apoiando-se com as mãos na beirada da cama, Onã soergueu-se num movimento brusco e retirou-se de dentro dela, a tempo de ejacular na palha ao lado da cama.
Espantada, Tamar perguntou, Por que fez isso, marido? Onã respondeu, Não posso deixar minha semente em você, mulher. A criança que nasceria não seria minha, mas de meu irmão. Não conhece a Lei? Que se dane a lei, rosnou a mulher, Quero que me dê um filho, Onã. Terá que pedir a outro, menos a mim, respondeu o homem. Tamar, cheia de ódio, praguejou, Está me rejeitando, Onã. Deus o castigará. Onã vestiu a túnica, calçou as sandálias e deixou a casa, indo perambular pelos campos. Talvez Tamar tivesse razão, e sua recusa em engravidá-la pudesse despertar a cólera do Senhor.
Para amainar o pavor de um encontro com o Anjo da morte, antes de sair de casa, Onã pegou um jarro de vinho recém fabricado. Embebedou-se a noite inteira. De manhã, quando os primeiros raios de sol tingiam de dourado os montes de Odolão, alguns pastores encontraram o corpo. Não havia nenhum sinal de violência. O coração de Onã já não batia mais.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O PECADO DE SARA (Fernando Bastos)

Em algum lugar da Palestina. Três séculos antes de Cristo. A lei mosaica imperava, e o Senhor abençoava quem a seguia, e amaldiçoava quem se desviasse dela.
Sara era a moça mais linda que Josias já vira. Usava um gracioso diadema na cabeça, caminhava como as filhas de Sião, olhando com o canto dos olhos, de pescoço erguido, balançando colares, brincos e argolas nos tornozelos, chamando a atenção para seus pés, dentro de sandálias feitas de couro. A túnica de linho que Sara usava ia até um pouco abaixo dos joelhos, de modo que as panturrilhas, bem torneadas e morenas, luziam ao brilho do sol, atiçando olhares desavergonhados dos homens da congregação israelita.
A hebreia tinha dezesseis anos, e já estava prometida em casamento a Josias, um honrado artesão que confeccionava lindas peças de bronze e metal para embelezar as mulheres de Israel. Ora, ninguém desconhecia a fama de vaidosa da mulher israelita. E, além de vaidosas, eram belíssimas. Josias aguardava ansioso a noite de núpcias. Sonhara várias vezes com a noite em que romperia sua gruta virginal e beberia seu mel. Quando pensava nisso, lembrava dos poemas sobre o amor, escritos séculos antes por Salomão, muitos dos quais, ele próprio já declamara para sua amada.
O casamento foi animado, embalado ao som de pandeiros, tamborins e flautas. Todos estavam felizes. Especialmente o noivo. Não, todos não; havia alguém muito preocupada, como se soubesse que uma grande torrente estava para chegar. Josias percebeu o olhar tenso da noiva e pensou, deve estar imaginando como será sua primeira noite, coitadinha, nunca conheceu homem.
À noite, quando se encontravam nus, sobre a cama forrada de palha, Josias foi paciente com sua pombinha que gemia baixinho e suava como uma camponesa numa tarde quente de sol. Ele estranhou. Entrou com muita facilidade naquele corpinho. Estocou várias vezes, no começo devagar, depois com rapidez, chegando a ser até um pouco agressivo.
- Tu não vais sentir dor? – gritou o noivo.
Ela enrubesceu.
Não havia marcas vermelhas no lençol.
Na manhã seguinte, ela foi levada às Autoridades. A denúncia foi confirmada. Só restava cumprir a lei de Javé, o deus hebreu. Sara foi levada até a frente da casa de seus pais. O primeiro a levantar o braço com a pedra na mão foi Josias, um pouco relutante, não conseguindo evitar uma lágrima que rolava pela face. Depois voou sobre ela uma saravaiada de pedras. Ela caiu e se encolheu como um feto. O sangue melou a terra. A moça ainda levantou um braço num último pedido de clemência, mas não adiantou.
O braço caiu ao lado do corpo.
Deu um último suspiro.
A lei de deus havia sido cumprida.


“...Se, porém, o fato for verídico e não se tiverem comprovado as marcas de virgindade da jovem, esta será conduzida ao limiar da casa paterna, e os habitantes de sua cidade a apedrejarão até que morra, porque cometeu uma infâmia em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim, tirarás o mal do meio de ti.” (Deuteronômio 22,20)