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segunda-feira, 15 de abril de 2013

A ponte invisível (Sônia Pillon)

“No meio do caminho tinha uma ponte. Tinha uma ponte no meio do caminho.” Sim! Trata-se de uma paródia do poema de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do caminho tinha uma pedra...” A verdade é que essa ponte não era de concreto, nem de madeira, nem de metal, nem de corda, como as do Exército... Seria bem mais fácil se fosse uma ponte com materialidade, que pudesse ser tocada com as mãos, e com uma superfície sólida. Mas tinha uma ponte, ah se tinha!


A ponte a que me refiro é uma ponte invisível, construída através da imaginação e dos sentidos, atravessada todos os dias, com a velocidade da luz, de duração variável. Porque era através dessa ponte que Mary Anne se comunicava com Leroy. O vilarejo de Mary Anne ficava no Ducado de York, na sombria Bretanha da Idade Media.


Era um lugar cercado de montanhas e cortado por rios. A família de Mary Anne era numerosa: seis irmãos para controlá-la...


Um dia, faltou farinha na aldeia e ela teve de viajar, camuflada de homem, para buscar o produto. Atravessou o rio de barco e, depois de muito navegar, chegou ao seu destino. Foi no mercado da aldeia distante que ela conheceu Leroy, o mercador de queijos. Conversa vai, conversa vem, sorrisos, olhares trocados, desejos inconfessáveis...


Mas ela não podia se demorar, e portanto prometeram se reencontrar. Como a jornada era longa e nenhum dos dois podia encurtar a distância, pelo menos naquele momento, se reencontrariam todas as noites, durante os sonhos... Criariam uma ponte invisível...


Durante o sono profundo, os dois se posicionavam de um lado e do outro da ponte e acenavam seus lenços. Aí eles a atravessavam... À sua volta, seres fantásticos de asas sobrevoavam o local, com densa vegetação, iluminado pela tênue luz da lua...


Uma noite, um forte temporal atingiu a aldeia de York, o que obrigou os moradores a ficaram alertas com a altura do rio. Havia o risco de inundar os casebres... A situação se repetiu por sete dias e sete noites.


Nesse período, sempre no mesmo horário, Leroy se posicionou do outro lado da ponte com seu lenço, noite após noite, mas Mary Anne não apareceu...


Aturdido, ficou conjeturando o que teria acontecido: O que será que aconteceu com ela? Estaria doente? Teria morrido? Ou simplesmente teria se cansado dele e outro estaria tomando conta de seus sonhos? Acordava sempre angustiado, sem saber o que pensar...


Mas foi na oitava noite, quando já não tinha mais esperanças, que Mary Anne reapareceu e contou tudo a ele... Foi então que os dois combinaram um novo encontro, dessa vez no mundo real...


Ao acordar, Mary Ann olhou em direção ao rio e sorriu... A ponte invisível, finalmente, deixaria de ser imaginária. Mas até quando?


- O passado já passou, o presente é uma dádiva e o futuro ainda não chegou... Se beliscou para ver se estava acordada. Depois ajeitou os longos cabelos castanhos, com um sorriso à la Mona Lisa. Iria começar os preparativos para a longa viagem...


Sônia Pillon

quarta-feira, 6 de março de 2013

Escapadas (Marcelo Lamas)

Acontece vez por outra do pessoal dizer que vai pra um lado e ir pro outro.
Em muitos casos, não se caracteriza um adultério propriamente dito, tratando-se apenas de uma tentativa de evitar rusgas entre o casal.
Com o Rodrigão foi assim. Como a namorada dele morava no RS, era hábito um telefonema por volta das 22h, antes de dormir. Sabedores disso, os parceiros dele passaram lá no apartamento mais tarde e o convenceram a ir numa balada em Joinville. Quando estavam na altura das arrozeiras de Guaramirim, o inesperado: o celular do Rodrigão tocou. Como ele estava no banco de trás, jogou-se no colo dos outros, deitando-se. Para um sujeito homem e hetero, esta situação não é muito agradável, mas o amor pela gaúcha falou mais alto. Estando ele na horizontal, sua voz sairia idêntica à do quarto. Se tivesse um cobertor no carro, seguramente ele teria jogado por cima, só para garantir a legitimidade do sono:
- Oi amor! (bocejo forçado)
- Tava dormindo querido?
- Sim! Tava vendo um filme e peguei no sono. (com voz sonolenta e bocejo forçado)
- E que filme estavas vendo?
Pausa
- Reféns. (bocejo forçado)
O Rodrigão esqueceu que a guria era cinéfila:
- Ué, amor! ? O ‘Reféns’ nem chegou no cinema!
Pausa
- Ahh! Acho que o nome era parecido com isso... já tinha começado quando liguei a tevê. (voz normal, com gagueira e esqueceu do bocejo forçado)
A ligação acabou normalmente, mas ele ficou apreensivo. Teria ela percebido algo estranho? Uma mulher com raiva é capaz de qualquer coisa.
Num outro caso, outra mentira. Tenho dois amigos cujas esposas têm
restrição que um saia com o outro. Ambas acham que o outro não é boa companhia. Mas uma não sabe que a outra tem o mesmo sentimento. O cara até pode sair com a galera, mas se “aquele um” estiver lá, vai ter DR depois.
Os dois comparsas tiveram uma ideia para poder tomar uma cervejinha juntos: criaram um amigo imaginário. E com o “Valdir” tá liberado, ele é ficha limpa.
Depois, eu descobri que o tal Valdir existe. É primo de terceiro grau de um deles. Só que o cara mora lá na Tifa da Pólvora e trabalha como representante comercial. Ele nunca está na cidade, não tem namorada conhecida e nem perfil nas redes sociais.
Por ora a mentira está colando.
A intuição está para elas, assim como a malandragem está para eles. Até nisso elas levam vantagem, pois a malandragem é possível aprender.


Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Labiríntico (Inacio Carreira)

Quando ligou o computador, naquela tarde fria de final de outono, prenúncio de inverno, teve uma surpresa e uma constatação. Então era por isso que os contatos terminaram? O que queria, então, aquela figura que se desmanchava em gentilezas toda vez que nos encontrávamos na sala virtual, para trocar confidências e programar encontros que nunca aconteceram, para comentar o filme agraciado com o Oscar do ano ou o próximo livro do nosso autor preferido?


Não, eu não acalentava ilusões, não, mas ser bloqueado assim, sem mais nem menos, faça-me o favor... Tudo falsidade, então? Tudo blá-blá-blá inútil? Não que eu esperasse um mar de rosas, uma vie en rose (ah, saudades das interpretações da fantástica Edith Piaf e, particularmente, de sua La vie en rose), um sei lá o quê mais... Indignação, frustração, vergonha, culpa pelo tempo que roubei à família para passar com um miasma extrovertido, uma figura de ficção criada a cada dia, um jogo em que eu sabia das chances (muitas) de insucesso.


Entretanto, mesmo acreditando que nunca seria lido, compus um poema a ser remetido, via e-mail, para o endereço conhecido. Não teria mais interlocutor no Messenger diário, não, mas quem sabe ele conseguiria incomodar um pouco, se o objetivo fosse alcançado, isto é, se a leitura fosse realizada. De qualquer forma, precisava extravasar, tirar a mão que me apertava a carótida e tirava meu ar, já rarefeito pela emoção.


Escrevi e formatei.
Segue abaixo, como registro dessa loucura desmesurada:




Ariadne


Tu me deste uma ilusão
e eu agarrei-me a ela
como se fosse verdade. Não era,
e a descoberta dessa realidade
fez-me cair em mim e,
dada a altura, machucou.
Muito.


Como era bonita a ilusão:
nós a alimentávamos
várias vezes ao dia,
via mensagens no celular e,
à noite, invariavelmente,
no MSN, via internet, horas a fio,
ficávamos vendo-a crescer.


Ficou maior que nós, essa ilusão...
E tão grande foi que morreu de inanição,
não a podíamos mais alimentar,
estava roubando-nos, comendo-nos,
tirando nosso sossego,
tínhamos que tratá-la, fazê-la bonita,
dar-lhe ares de Realidade.


E agora, quando enfim morre,
quase me enterra junto.
Eu que a pensava também tua
não sei o que nela vias,
mas sendo isto ou aquilo,
o melhor dela era o seu poder
de nos tirar da vida real ou criar
uma outra existência, estranha realidade,
onde vivíamos com a ilusão que alimentávamos,
horas a fio, até que o fio da vida nos trouxe de volta,
ou não, caso contrário estaria fazendo coisa
mais produtiva do que escrevendo sobre ela.


11 jun 2008



Talvez para mostrar desespero, num simbolismo à Van Gogh, colori a página de amarelo, amarelo berrante, amarelo que expressasse um uivo, um grito, uma risada de escárnio. As letras ficaram em preto, mesmo, para efetivar o contraste. Que acentuei aplicando um estilo Negrito. Li e reli, pensei na possibilidade de recepção, no entendimento (ou não) do que escrevi, da fantasia de ser, a comunicação via Messenger, reabilitada. Eu aceitaria? E o tão falado amor-próprio, fadado ao limbo? Quantas vozes na cabeça: faz – não faz, vai – não vai, manda – não manda...


Deletei.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A ferocidade da beleza (Vana Comissoli)


             Eu a conheci de uma maneira tão prosaica que jamais poderia imaginar que se tornaria parte de mim e que sem sua presença em minha vida eu seria sempre metade.


            Era um dia quente, monótono, do tipo que eu denominava tirânico, seu único objetivo era me obrigar a viver. Nesses dias em que sair da cama, acordar, trabalhar, comer, eram atos desgastantes que levavam embora minha paciência e habitual acomodamento à respiração automática. Não havia nada que eu pudesse fazer com ela, simplesmente existia e eu me submetia a contragosto, mas nunca me passara pela cabeça, nem nas noites mais insones, que eu pudesse simplesmente abortar o movimento sistêmico dos pulmões.


            Era meio dia e não me restava outra coisa a não ser fugir do sol a pino me escondendo sob as marquises por duas quadras até chegar ao restaurante mais próximo. Para meu azar era o mais caro, mas estes dias são sempre sem sorte e por isso não me cansei reclamando. Agora ter todas as mesas ocupadas foi demais!


            No fundo do restaurante, perto dos eflúvios gordurosos e odientos da cozinha tinha uma mesa com uma mulher de costas para a entrada. Dane-se, pensei contra minha solidão arraigada, sentarei lá mesmo. Dispus-me a caminhar como quem tem que andar muito rápido sobre areia movediça, senão afunda.


            Pelo tamanho da cabeleira já vi que a mulher deveria ter uns vinte centímetros a mais do que eu, tinha cabelo para dar e vender. Poderia cobrir facilmente minha careca incipiente com a qual eu brigava todos os dias. Já não bastava ter cara de fuinha, boca de chupar ovo e um nariz a la Gerard Depardieu?


            Adoro cinema. É minha grande oportunidade de viver, posso mergulhar num filme com muito mais facilidade do que mergulharia numa piscina e então ser quem eu quiser e ter as mulheres que desejar. Viver o que jamais me seria permitido. Não estou reclamando de nada, apenas pensando no meu perfil que acabei aceitando: uns são favorecidos, outros não. Assim é e brigar só faz tudo se tornar ainda mais difícil.


            Esta minha paixão me deu conhecimento sobre todos os atores e atrizes, meus verdadeiros e fiéis amigos, uma fidelidade bem próxima da real, já que mudavam de nome, histórias e sentimentos, com o mesmo desprendimento com que meus amigos de carne e osso me deixaram para trás. Eu não era uma companhia muito agradável, fazer piadas para compensar seria uma humilhação que não me facilitaria em nada. Me deixaria humilhado. Ser o engraçadinho da turma me traria apenas vergonha e medo do ridículo. Eu já era ridículo o bastante.


            Aquela mulher era a encarnação perfeita da desaparecida Sophia Loren. É eu também tinha disso, gostava das antigas. Era como se o tempo as tivessem levado embora e não a minha palidez de espírito. Enfim, era a minha Sophia. Pedi licença e sentei à sua frente.


            Foi difícil levantar-me e servir um prato no bufê farto. Fiquei pensando qual comida a Sophia julgava conveniente para um almoço que tivesse um pouco de refinamento que eu não tinha. Era um artigo que não precisava me dar ao luxo de conquistar, nunca repartia minha mesa.


            Quando voltei ela levantou uns olhos de Elizabeth Taylor, juro que eram lilases, e sorriu. Não sei como consegui me sentar e muito menos segurar o tremor das mãos. Fiquei sabendo que seu nome era Darlene e que era médica. Viera fazer um atendimento especial numa pessoa querida, não costumava frequentar aquela zona da cidade. E passou o almoço todo tagarelando, contando coisas, piscando os olhos e me deu uma alucinação, só podia ser isso, por que imaginei que me olhava de forma a me enxergar. Mulher alguma até esse dia fizera isso, meus problemas sexuais eu resolvia chamando um Sex Delivery e mal acabava descartava a sem nome com uma gorjeta gorda que a fizesse voltar sem bater boca com a dona do cafetinagem.


            Mas Maura me enxergou. Ao se despedir me estendeu seu cartão e pediu que eu ligasse para ela, gostaria de me conhecer melhor por que era muito simpático. Um homem natural que não tentou me seduzir foram suas últimas palavras.


            O sol não me torrou, as horas deslizaram e os colegas não foram tão distantes. Tudo se coloriu e eu não podia acreditar que aquilo acontecera comigo, alguma coisa estava errada e tinha certeza que Maura não era cega e nem surda.


            Depois de tomar três vidros de Rescue, esse abençoado floral que era meu socorro, eu liguei. Nem sequer fiquei mudo como via nos filmes, falei alto e forte. A convidei para jantar e ela aceitou.


            Eu nunca fora à mãe de santo fazer trabalho e nem acendera vela para santo, então aquilo só podia ser uma paranoia que tomara conta de mim a tal ponto que eu misturava verdade com imaginação. Só o filé Chateaubriand à minha frente e o caldo delicioso rolando na minha língua me deu certeza que estava acontecendo realmente. Maura entrava na minha vida com seu maravilhoso perfume de folha de limoeiro.


            Foi tudo muito rápido, logo sabia o quanto era desesperançada do amor, como fora usada por sua aparência que odiava e me encontrar fora um recado dos céus que confiar em alguém ainda era possível. Ser feliz também era. Fui estonteantemente feliz.


            No fim de ano, pela primeira vez, fui à festa oferecida pela empresa onde trabalhava na gerência administrativa. Quando apareci de braços com meu mulherão, todos os olhos caíram sobre mim, as bocas ficaram entreabertas e teve gente deixando o queixo cair no chão.


            Maura estava deslumbrante. Até o diretor veio me cumprimentar e pedir que apresentasse minha companheira. Não tive dúvidas:


            - Dr. Gonçalo, lhe apresento minha noiva.


            O homem não soube o que responder e Maura depois de lhe apertar a mão, beijou-me no rosto, me fazendo um carinho na face. Era a glória. Eu estava redimido de todos os miseráveis anos passados de minha vida.


            Naturalmente ela se transformou no centro de tudo. Nada havia sem Maura, nem mesmo eu existia. Eu era ela. Passei a caminhar com sua firmeza, a colocar opiniões como quem acredita no que diz, sair à noite sem medo e conduzi-la pela cintura na frente de todos. Pelos ombros seria bem complicado, então pulei este impedimento.


            Após três meses ela propôs se mudar para minha casa. Não podia acreditar, ela me queria de verdade e nem sequer a deixei carregar a menor das caixas, se pudesse até a ela eu carregaria.


            Fui promovido, perdi o medo de mostrar que não era o parvalhão que pensavam, eu entendia do meu trabalho e o fazia bem, muito bem. Meus colegas passaram ir em nossa casa e tínhamos belas noitadas de conversa inteligente e música de primeira qualidade. Maura preparava jantares estupendos e aprendi a comer, a beber bons vinhos e a degustar um verdadeiro Tiramisu, feito com mascarpone legítimo. Se Maura queria mascarpone, ela teria mascarpone. As estrelas, os sapatos, as roupas, as grifes e as férias na Tailândia, pode pedir, eu dizia enquanto ela cortava minhas unhas.


            O sexo foi uma viagem espacial até que Maura resolveu que melhor seria vir por cima de mim. Eu não conhecia luta livre até este momento. Nem grito, tapas e socos na cara. Mas se a fazia feliz... Quem era eu, um quase anão de jardim a contrariar? Não perderia a mulher de minha vida nem que precisasse rastejar.


            Não devia ter pensado isso por que eu rastejei. Ela engordou 10 quilos nos poucos meses seguintes e seus seios me sufocavam, enormes e famintos por comer minha boca. Seu apetite era insaciável e gozava apertando meu membro até me fazer chorar. Ria desbragadamente me chamando de fracote e inútil.


            Mas era Maura...


            Minha casa foi fechada aos meus medíocres colegas e infestada de gente pernóstica que se dizia cult para cheirar cocaína e trepar uns com os outros enquanto eu me enrodilhava no sofá sem saber quem eu era, ou o que eu era.


            Deveria ser miseravelmente banal, não entendia estes rebuscados encontros de prazer, não falava pornografia em francês, não usava o banheiro de portas escancaradas.


            E Maura engordava. Tornou-se imensa, pelo menos era como eu a via, mas os homens na rua, continuavam se voltando para olhá-la. Isso ainda me gratificava. O sacrifício não era em vão e eu tinha Maura.


            Não muito lentamente o sexo acabou, as unhas cresceram, os cabelos caíram mais rápido e voltei a ser calado e distante. Eu tivera Sophia, virou obsessão saber onde ela se escondera. Comprei todos os presentes caros e finos que eu imaginava que a agradassem, os jogava num canto até sair com as joias penduradas nas orelhas e nos dedos para lugares e reuniões onde eu não era admitido.


            À noite eu sonhava com a Maura sentada na mesa do restaurante me dizendo como eu era simpático e quanto queria estar comigo. Deixei que esses sonhos me sustentassem até que se tornaram pesadelos. Ela estendia os braços sobre a mesa, tirava nacos de minha carne e me engolia enquanto um fio de sangue escorria do canto dos lábios.


            Em algum lugar minha culpa deveria estar me espiando e precisava acha-la, me ajoelhar e pedir perdão. Então Maura voltaria para mim com seu riso cheirando a folhas de limoeiro.


            A cama está vazia nesta manhã chuvosa, a chuva bate na vidraça como lágrimas caindo nos óculos. Procurei Maura por tudo, quem sabe a vontade de me trazer café retornara e ela estava na cozinha preparando as torradas do jeito que gosto? Quem sabe escovando os dentes? Quem sabe lendo na sala? Quem sabe? Quem sabe onde ela está?


            A porta do cofre onde guardava as joias estava aberta e ele era uma boca de lobo vazia e escura. Os armários estavam pelados, as sapateiras descalças e eu... Eu estava à poucos centímetros da loucura.


            Fui à sacada sentindo o peito respirando como sempre, naquele mesmo ritmo que não podia mudar apenas permitir. Olhei para baixo e ainda pude ver o carro, último presente que dera à Maura, dobrando a esquina.


            Mudei de emprego, de cidade, procurei a mais obscura que pudesse me engolir e sumi de mim mesmo. Não via televisão, não lia jornais, comia feijão com arroz e um naco de carne sem gosto num boteco qualquer que me obrigava a viver.


            Foi sem querer, foi um relance que me fisgou. No jornaleiro, um periódico aberto puxou meus olhos. Lá estava ela, linda, grande, a cabeleiras lustrosa refletindo sol de piscina. Na cadeira ao lado um homenzinho ridículo, meio careca, meio gordo, de idade a meio, sorria feito um boi de presépio.


Vana Comissoli

terça-feira, 17 de julho de 2012

A queda (Fernando Bastos)

Chegaram ao Pronto Socorro antes da aurora. Ela, de camisola branca de algodão, com manchas roxas nos braços e coxas, e fortes dores nas costelas. Ele a esperou no pátio, fumando nervosamente alguns cigarros. Ela explicou ao médico de plantão que caíra no banheiro. Praguejou contra a labirintite.


Voltaram para casa e fizeram amor. Com cautela, por causa dos ferimentos.


No meio da semana, lá estava ela, na recepção do hospital. Dessa vez, um galo na cabeça. Na queda, batera no vaso sanitário. O noivo, lá fora, aguardava a amada, devorando um cigarro atrás do outro.


No mês seguinte, foram mais quatro idas ao hospital. Hematomas na bacia, pulso fora do lugar, seios doloridos, um olho roxo, resultado da batida contra o box do banheiro. O remédio contra labirintite parecia não resolver o problema da tontura. As últimas gotas de paciência do noivo precipitavam como coquetel molotov sobre a equipe de enfermagem. Foi preciso chamar um segurança para conter a fera. Responsabilizava o médico e dizia que procuraria outro hospital. Queria a saúde da amada de volta.


À noite, fizeram amor como se tivessem se conhecido há meia hora. Juras de amor eterno a fez se sentir a mais desejada das mulheres. No domingo foram à missa, caminharam no parque, lançaram migalhas de pão a um bando de pombos na pracinha. Ao observarem as crianças nos balanços e no escorregador, sonharam com um filho, que teria o nome do pai, e a beleza da mãe. Ela não precisaria mais trabalhar fora, pois ele não achava decoroso para uma mulher passar a madrugada atrás de um balcão. Ela sorriu, maneou a cabeça e disse que gostava daquele trabalho.


No fim do dia a ambulância chegou. Outra queda. Mas dessa vez não resistiu. Dos olhos da mãe, lágrimas rolavam com gosto de ausência. A enfermeira lamentou que os remédios para a labirintite não a ajudaram, e ficou sem chão ao saber pela mãe da jovem, que ela nunca sofrera de tal doença.


 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

REVOLVIDA (Fred Paiva)

 
Por que
você bate no portão
sem camisa - sem noção -
com pretextos de ver a menina?

Atrapalha minha cerveja
meu domingo calmo,
de família,
pra te fazer sala.

Fico preocupada.

Você pra lá e pra cá com a criança,
falando merda,
na loucura que te fez vir aqui
de bicicleta...

Se toca.
Vaza.
Se boicota.
Me esquece.
Desfalece.
E me deixa.

Foi difícil
mas te esqueci,
você esteve aqui no meu peito
apunhalado por muitos meses
mais de ano
me danando
e enchendo a vida de vazios,
lacunas, lapsos de memória
tijolos assentados de ressentimento.

Sei que não é culpa sua,
não somente sua.
Me levei,
me deixei levar.
Foda-se,
você passou e eu fiquei
retornei à tona.

Ainda levo umas pauladas
às vezes,
mas já não é por ti,
é pelo resto de lama que me deixei afundar.

Vai melhorar,
vou passar.
E você não nunca vai mais fazer falta por aqui.
Então vai.

E para de me perturbar.



Fred Paiva