Mostrando postagens com marcador mulheres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mulheres. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Arrumadinhas (Marcelo Lamas)

Sempre preferi as princesinhas. Aquelas que iam arrumadas para a escola, que combinavam o prendedor do cabelo com a estampa da blusa. Se entrar a Miss Brasil desarrumada e uma outra “normal”, mas ajeitadinha, eu só vejo a não titulada.


Quando eu tinha uns nove anos cometi um delito grave com uma guria dessas. Ela era uma índia muito linda. Eu fui lá e passei a mão nos glúteos dela. Acho que eu não era um tarado precoce. Devo ter imitado os líderes mais velhos da gangue. Ela e uma amiga foram até a minha casa e fizeram uma reclamação formal. Recebi punição severa. Eu tinha uma irmã, então eu deveria respeitar as outras meninas e por aí foi a reunião, que cancelou mesada, futebol, televisão e audição de música no carro. O problema é que a morena cresceu e virou a número um do colégio. Segundo os outros eu tinha chance com ela – será que ela preferia os caras de óculos? –. Mas eu, eternamente envergonhado, não tinha coragem de olhar para a guria.


Na faculdade de engenharia, bem escassa de mulheres, apareceram duas retardatárias no final do curso. Eu só enxergava uma. A outra não se ajeitava. Um colega me corrigia: “Cara, tu tá loco! Ela é gata. Olha o corpo dela!”. No dia da formatura eu vi que ele estava certo. A falsa-magra toda produzida deixou aquela que eu admirava no chão.


A minha namorada treina kickboxing, assiste ao canal Combate, gosta de futebol e anda de skate, mas outro dia ela me confidenciou que não consegue mais ficar sem esmalte, de tanto que eu falo da minha admiração pelas meninas vaidosas. Certa vez, em Buenos Aires, um argentino tentou ver as horas no relógio dela e curioso, perguntou-me se havia fuso entre nossos países. Aí eu percebi que o relógio dela estava parado. A pilha tinha terminado, mas ela levou-o porque combinava com a roupa. Recentemente, numa viagem de três dias que fizemos, ela levou cinco relógios pra garantir os looks.


Quando eu ventilei que escreveria estas passagens, ela disse que me mataria. Bem, supondo que ela “apenas” termine o relacionamento, se eu tiver que procurar outra namorada o perfil da pretendida já está bem definido. Desde sempre.


Por Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 17 de julho de 2012

A queda (Fernando Bastos)

Chegaram ao Pronto Socorro antes da aurora. Ela, de camisola branca de algodão, com manchas roxas nos braços e coxas, e fortes dores nas costelas. Ele a esperou no pátio, fumando nervosamente alguns cigarros. Ela explicou ao médico de plantão que caíra no banheiro. Praguejou contra a labirintite.


Voltaram para casa e fizeram amor. Com cautela, por causa dos ferimentos.


No meio da semana, lá estava ela, na recepção do hospital. Dessa vez, um galo na cabeça. Na queda, batera no vaso sanitário. O noivo, lá fora, aguardava a amada, devorando um cigarro atrás do outro.


No mês seguinte, foram mais quatro idas ao hospital. Hematomas na bacia, pulso fora do lugar, seios doloridos, um olho roxo, resultado da batida contra o box do banheiro. O remédio contra labirintite parecia não resolver o problema da tontura. As últimas gotas de paciência do noivo precipitavam como coquetel molotov sobre a equipe de enfermagem. Foi preciso chamar um segurança para conter a fera. Responsabilizava o médico e dizia que procuraria outro hospital. Queria a saúde da amada de volta.


À noite, fizeram amor como se tivessem se conhecido há meia hora. Juras de amor eterno a fez se sentir a mais desejada das mulheres. No domingo foram à missa, caminharam no parque, lançaram migalhas de pão a um bando de pombos na pracinha. Ao observarem as crianças nos balanços e no escorregador, sonharam com um filho, que teria o nome do pai, e a beleza da mãe. Ela não precisaria mais trabalhar fora, pois ele não achava decoroso para uma mulher passar a madrugada atrás de um balcão. Ela sorriu, maneou a cabeça e disse que gostava daquele trabalho.


No fim do dia a ambulância chegou. Outra queda. Mas dessa vez não resistiu. Dos olhos da mãe, lágrimas rolavam com gosto de ausência. A enfermeira lamentou que os remédios para a labirintite não a ajudaram, e ficou sem chão ao saber pela mãe da jovem, que ela nunca sofrera de tal doença.


 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O sexo evoluído (Marcelo Lamas)

No ano passado, assisti a um filme nacional com o roteiro composto de depoimentos reais interpretados por atores. Num deles, o ator diz: “Admiro as mulheres. Elassão mais evoluídas, decididas. Os homens são diferentes. São fechados. Têm que estar bêbados para dizer o que pensam. Alguns precisam procurar um analista para dizer ‘doutor, acho que sou meio gay, mas não tenho certeza’. Por isso há uma enormidade de revistas para mulheres, onde elas dizem tudo o que pensam e para quem quiser ouvir (ler)”.


Outro dia, numa turma de amigos, um sujeito referiu-se a uma modelo famosa, cujo outro não lembrava. Na tentativa de ajudá-lo, falei:


- É aquela que está na capa da revista Gloss.


Pegou mal. Na hora começou a gozação da galera:


- Ihhhh! O cara sabe quem tá na capa... De qual revista mesmo, hein?


Outro emendou:


- O cara deve saber o nome daquelas quinze “cor vermelha” de batom.


E ficaram me olhando com aquele olhar paterno atravessado, no qual ficou explícita a necessidade de uma explicação, sob pena de ser expulso da mesa. O mais exaltado era o Pinheiro, que não é sobrenome e sim alcunha, devido a sua semelhança com a árvore: “Quanto mais o tempo passa, mais grossa fica”.


Esclareci:


- Olha, eu vi a revista na gôndola do supermercado. Como eu sou colaborador da Blush, preciso saber do que as mulheres estão falando, no que elas pensam. O que agrada e o que as irrita.


Sempre gostei de ver as beldades que estampavam as revistas que a minha mãe comprava. Depois passei a ler as reportagens e a tentar entender – só tentar – aqueles pontos de vista. Naquela época, sem internet banda larga e com um militar na presidência as informações eram bem restritas para um pré-adolescente perguntativo como eu.


Vez por outra compro revistas femininas para a minha namorada, e dou uma olhada depois. Aliás, não sou muito seletivo com relação à leitura ocasional, qualquer jornalzinho promocional de loja me interessa, o lixo de papéis lá de casa tá sempre cheio. Ela vive me chamando de Bratz.


Mas quando vou à banca começo comprando as revistas masculinas e de futebol, depois dou uma olhada no resto.


E foi numa dessas que li a melhor frase de 2011:


Um homem não deve pedir desculpas por estar olhando para um decote, a não ser que seja uma parenta de primeiro grau”.


Não adianta, o instinto age sempre primeiro.


 


 


Marcelo Lamas, escritor. Autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com