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segunda-feira, 12 de março de 2012

O sêmen desperdiçado de Onã (Fernando Bastos)

Adaptado de Gênesis 38,9

O casamento de Judá com Sué, filha de um cananeu, foi comemorado com bom vinho, dança e muita música. Em menos de um ano, nascia Her, um lindo menino, saudável e de choro forte. Logo depois vieram outros dois meninos, Onã e Sela.
Quando Her já estava em idade de se casar, Judá escolheu para o filho primogênito uma bela mulher de nome Tamar. Por causa das iniquidades e vida licenciosa de Her, o deus dos hebreus o castigou tirando-lhe a vida. Passado o período de luto, Judá levou Onã ao campo, e, enquanto passeavam observando bois e ovelhas, disse, Meu filho, deve observar a lei do Levirato, de modo que tomará Tamar, mulher de nosso querido e muito amado Her, para gerar a posteridade de seu irmão morto. Meu pai, respondeu com tristeza Onã, O senhor sabe que os filhos não serão meus, portanto, não gostaria de me unir a Tamar. Além do mais, amo outra mulher, chamada Ana, e é com ela que gostaria de me casar.
O pai não gostou da novidade e disse com firmeza, Filho, eu repito, deve obedecer a lei de nosso povo. Não queira desobedecer ao Senhor; veja o que aconteceu com Her, ser irmão. Por causa de seus pecados, deus o tirou de nós...
Naqueles tempos, imaginava-se que deus era um Ser que tanto podia trazer a bonança, como a morte. Temia-se a divindade mais do que a amava, como muitos filhos ainda hoje a seus próprios pais.
Por favor, pai, lamentou Onã em prantos, Deixe essa tarefa ao meu irmão mais novo, Sela; tenho certeza que ele não se malogrará em recebê-la como esposa. Já os vi conversando diversas vezes, e, não há quem, tendo os visto juntos, em risinhos e trocando segredos ao pé do ouvido, pense em mais nada senão que foram feitos um para o outro. Judá balançou a cabeça em desagrado e disse, Não seja a desonra de sua casa, Onã. Não basta a vida que seu irmão levou, agora vem você querendo afrontar nosso deus e Senhor?
O casamento de Onã com a cunhada realizou-se menos de seis meses depois dessa conversa. No entanto, ambos não pareciam felizes. Onã amava Ana, e Tamar morria de amores pelo cunhado mais novo. Levou algum tempo para que ambos decidissem cumprir a Lei. Em uma noite de calor abrasante, quando haviam chegado em casa após uma festa promovida por um conhecido da família, Tamar, bastante alterada pelo vinho, desceu a túnica de algodão, na frente do marido, e parou de pé a sua frente, com os pés ligeiramente afastados um do outro, queixo erguido, numa posição de forte apelo sensual, revelando seu corpo trigueiro e ardente de desejos atrasados. Onã ficou paralisado diante de tanta beleza, e desejou logo unir sua carne àquele corpo perfeito.
Em segundos, ambos estavam entrelaçando seus corpos, e Tamar deu seguidos gemidos de prazer quando sentiu o membro de Onã, rígido como uma lança, penetrando sua viscosa gruta. A mulher pressentiu a chegada do orgasmo do marido, de modo que o abraçou com mais força ainda. Encha-me com sua semente, Onã, implorou ela. Como uma janela aberta abruptamente deixando a luz entrar, a mente de Onã se iluminou e no mesmo instante lembrou-se que o fruto daquela relação não pertenceria a ele, mas ao irmão morto. Apoiando-se com as mãos na beirada da cama, Onã soergueu-se num movimento brusco e retirou-se de dentro dela, a tempo de ejacular na palha ao lado da cama.
Espantada, Tamar perguntou, Por que fez isso, marido? Onã respondeu, Não posso deixar minha semente em você, mulher. A criança que nasceria não seria minha, mas de meu irmão. Não conhece a Lei? Que se dane a lei, rosnou a mulher, Quero que me dê um filho, Onã. Terá que pedir a outro, menos a mim, respondeu o homem. Tamar, cheia de ódio, praguejou, Está me rejeitando, Onã. Deus o castigará. Onã vestiu a túnica, calçou as sandálias e deixou a casa, indo perambular pelos campos. Talvez Tamar tivesse razão, e sua recusa em engravidá-la pudesse despertar a cólera do Senhor.
Para amainar o pavor de um encontro com o Anjo da morte, antes de sair de casa, Onã pegou um jarro de vinho recém fabricado. Embebedou-se a noite inteira. De manhã, quando os primeiros raios de sol tingiam de dourado os montes de Odolão, alguns pastores encontraram o corpo. Não havia nenhum sinal de violência. O coração de Onã já não batia mais.