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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A inglória busca da Felicidade (Fernando Bastos)

Há pelo menos três necessidades imprescindíveis para nossa existência: beber água, comer e dormir. Alguém conseguiria ser feliz apenas tendo essas necessidades satisfeitas? Talvez alguns eremitas e os sadhus do hinduísmo. No entanto, não creio que existam pessoas que consigam ser felizes somente com essas três necessidades básicas, se forem visitadas ao longo da vida por dores e doenças.
De forma que chegamos à primeira conclusão: para nosso bem estar, precisamos de água, alimento, noite de sono e saúde. Se alguns conseguem isolar-se, a maioria necessita viver em grupo, pois o homem é um ser social. Assim, precisa de gente ao lado.
Segunda conclusão: para nosso bem estar, precisamos de água, alimento, noite de sono, saúde e ter amigos por perto. Mas e a moradia? É certo que há pessoas felizes vivendo na rua, e tendo alguns amigos, mas creio que são raras. O ser humano precisa de uma casa, que o abrigue dos humores do tempo. Casa é um bem material, para consegui-la, você deve trabalhar, a não ser que seja criança, viva sob favor de alguém, ganhou herança ou na loteria.
Terceira conclusão: para nosso bem estar, precisamos de água, alimento, noite de sono, saúde, ter amigos por perto e um trabalho que nos permita ter uma casa onde possamos nos abrigar. Parece que isso bastaria para o ser humano ser feliz. E claro, há os que garantem sê-lo, mas são poucos. A biologia moldou nossos cérebros para nos acasalarmos. O sexo é um fator essencial para a felicidade humana. É verdade que alguns vivem sem ele, mas para a maioria é difícil. E mesmo para religiosos que escolheram a vida celibatária, sabemos o quão penoso é se manterem castos.
Quarta conclusão: para nosso bem estar, precisamos de água, comida, noite de sono, saúde, ter amigos por perto, um trabalho que nos permita ter uma casa onde possamos nos abrigar e sexo. Talvez o que foi exposto acima, mais o acréscimo de alguns prazeres fundamentais, como acesso ao conhecimento e algumas diversões bastaria para sermos felizes. Matérias em revistas e jornais mostram a existência de milhares de solteiros que vivem sozinhos e estão de bem com a vida. O problema é que o ser humano, diante do dilema “liberdade ou segurança”, geralmente escolhe o segundo. Essa segurança ele acredita ser possível apenas ao lado de outra pessoa, que seja somente dele, que lhe faça juras de amor eterno e o honre com fidelidade. Então, casa. Mas casamento sem procriação não é natural, pelo menos para a maioria. Portanto, fazemos filhos.
Quinta conclusão. Para nosso bem estar, precisamos de água, alimento, noite de sono, saúde, ter amigos por perto, um trabalho que nos permita ter uma casa onde possamos nos abrigar, sexo, acesso ao conhecimento, um pouco de diversão, uma esposa ou marido e filhos. Mas esperem. O número de divórcios no Brasil em 2011 cresceu 45,6% em relação ao ano anterior. Para cada quatro casamentos, há um divórcio. Os especialistas garantem que teríamos mais dissoluções do contrato conjugal se não houvesse as complicações de uma separação. O que falta ainda? Muitos argumentarão que falta o mais importante, a crença em um ser sobrenatural, que nos conforte espiritualmente. E ele é Deus.
Sexta conclusão: para nosso bem estar completo, precisamos, além do que já foi dito, acreditar em Deus. Entretanto, será verdade que a crença em Deus faz as pessoas felizes? Alguns dirão que sim. Mas olhando bem de perto, notaremos sem dificuldade que mesmo as pessoas mais fervorosas têm suas chagas para soprar. Paradoxalmente, muitas vezes é a própria crença religiosa a causadora da infelicidade, como atestam muitos especialistas em mente humana. Se pesquisarmos a vida de grandes nomes da Igreja, veremos que muitos padeceram com fortes crises existenciais, e morreram infelizes, apesar da fé que diziam possuir. Agostinho de Hipona lutou desesperadamente a vida inteira contra as tentações da carne; na obra “Confissões” revela como fora na juventude, um rapaz com gosto pela vida devassa. Lutero, em seus delírios, vociferava contra Satã, que nunca o deixou em paz.
Afinal, o que pode nos fazer felizes? Parece claro que a felicidade absoluta não existe; nossa vida é permeada por estados mentais em que nos sentimos muito alegres ou muito tristes, com variações que dependem de como lidamos com as mensagens externas que recebemos. O que parece não haver dúvida é que toda inquietação tem uma origem. Vem de dentro da pessoa, de seu cérebro, seu próprio eu. Como disse Buda, são seus desejos (fabricados pela mente, pelo seu eu) que o inquietam, e trazem sofrimento.
Todo ser humano deseja, logo, sofremos. Devemos, portanto, para diminuir nosso sofrimento, e aumentar o tempo de bem estar, ter equilíbrio e inteligência para lidar com nossos desejos, não sendo reféns deles, mas usando-os a nosso favor. Uma regra simples, mas por ser simples, tão difícil de ser seguida.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Por que as pessoas se casam? (Fernando Bastos)


No Best seller A cama na varanda, Regina Lins informa: “Numa pesquisa feita pelo IBGE com pessoas casadas, cerca de 80% dos entrevistados se declararam decepcionados com o casamento. Daí podermos estimar um percentual ainda maior se considerarmos a dificuldade de se aceitar e declarar a falência de algo em que tantas expectativas foram depositadas. Por que, então, as pessoas continuam querendo casar?” Em seguida ela tenta uma resposta: “Assim como na nossa cultura acredita-se que só é possível estar bem vivendo uma relação amorosa, o casamento por amor passou a ser sinônimo de felicidade e, por conseguinte, uma meta a ser alcançada por todos.”


Além do desejo em ser feliz, casa-se a meu ver, por outros fatores:


1 - As mulheres, em especial, casam para ter filhos. Como bem disse Nietzsche, “Para a mulher, o homem é um meio: o objetivo é sempre o filho.” De fato, a mulher em geral, casa já de olho na prole que virá. Raras são as mulheres que casariam com um homem que não desejasse ter um filho. Experimente dizer a uma mulher que não deseja filho e ela o abandonará no caminho para o altar. A mulher, mais do que o homem, acredita que um filho vai dar significado a sua vida; é a garantia de que, quando ficar velha, alguém ainda vai amá-la. Ficaríamos espantados se fizessem uma pesquisa apontando o número de homens que aceitou ter filhos por livre e espontânea pressão (da mulher). Para a mulher, um homem que não deseja filho é visto como egoísta, insensível e indesejável, em uma palavra, um pária da sociedade.


2 - A maioria das mulheres teme ficar para titias.


3 - Sair da casa dos pais e buscar “independência”.


4 - Ter maior controle sobre o companheiro. O homem (ou mulher) casado (a) é mais fácil de vigiar do que um namorado (a). Muitos homens e mulheres, conscientes ou não, tentam logo amarrar seu objeto de amor porque assim ele não vai mais poder se divertir e gastar seu dinheiro com outros que não seja com ele (ela). Essa atitude decorre do ciúme que faz com que as pessoas não desejem compartilhar a pessoa amada com o mundo. Muitos ciumentos simplesmente não suportam que seu par amoroso se divirta e seja feliz sem a sua presença; a felicidade do ser amado sem ele (ela) por perto seria sinal de que ele já não o (a) ama como antes.


5 - E ainda poderíamos pensar no fator segurança. Muitos casam visando alguém que vai lhes amparar para o resto da vida. De fato, poucos não se sentem angustiados com a possibilidade de solidão na velhice.


Se as pessoas desejam tanto casar, por que passado certo tempo, as brigas se tornam rotina e o desejo de separação fica estampado em seus rostos? O aumento de separações não ocorre exatamente porque o casamento seja mau; é o formato perverso, que aperta como uma camisa de força, que obriga exclusividade e impõe regras que é injusto. E geralmente, tudo que é obrigatório gera infelicidade. O casamento convencional é semelhante a uma prisão, da qual cada um é impedido de sair e respirar outro ar de vez em quando. O casamento ainda se assemelha a uma ilha, onde apenas o casal convive, e ambos são proibidos de nadar até as ilhas próximas. Podem vê-las, admirá-las, mas não podem chegar perto. Isso é tedioso, cruel, desumano.


Alguns poucos casais que conseguiram dominar o ciúme, estão se aventurando em formas alternativas de casamento, como morar em casas separadas, praticar o casamento aberto, suingue ou poliamor. Mas não vi pesquisas que comprovem que estes casais são mais felizes do que os tradicionais.