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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carência (Marcelo Lamas)

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para
resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma
mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e
da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com
admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de
casal na parede.


Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-
se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu
marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no
face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.


Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser
cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era
do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e
bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.


Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a
situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa
cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia
muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana
remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de
pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No
estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.


Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer
que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.


Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil
esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.


Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de
Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”. 


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Onde está teu irmão? (Inacio Carreira)

Abel, a primitiva vítima


 “Não sei, sou eu tutor de meu irmão?” Chorei quando ouvi essas palavras. Eu já as havia ouvido, mas não nesse contexto. Não depois que meu irmão resolveu abandonar a casa de nossos pais. No que ele era diferente? Ou melhor, vendo de outro ângulo, no que eu era diferente dele? Filhos do mesmo pai e da mesma mãe, criados sob o mesmo teto. Com diferença de dois anos frequentamos a mesma escola (ele nasceu primeiro), fomos às mesmas festinhas de família, dos filhos dos amigos de nossos pais, éramos como agulha e linha, como falavam os mais velhos. Inseparáveis.


Até que mudou. Eu ou ele mudamos? Ambos, decerto. Mas foi uma mudança radical. Enquanto eu continuei com as aulas de violino, ele abandonou o piano para tocar lata, ou quase: entrou para um programa de música experimental em uma associação de periferia, furou as orelhas (alargador, disse ele, para arejar as ideias), começou a fumar coisas que não são vendidas nos bares, usava incenso em demasia (para espantar os maus fluídos, justificava), banho só vez em quando, cabelos seguindo moda dos etiópicos. Será que ele sabia disso?


Não importa. Quantas vezes meu pai ou minha mãe perguntaram, tal qual o Senhor: “Onde está teu irmão?”. E eu não sabia dizer, ou não queria, na maior parte das vezes. Não podia? Ia mudar alguma coisa?


Ele, por ser mais novo, meio adoentado, foi cercado de gentilezas. Talvez, por isso, sem querer parecer psicologístico, cresceu em um mundo irreal. Onde o estudo, a carreira, o casamento, o futuro não tinham papel. Ou ele não tinha papel nessas funções. Não se via responsável, somente tutelado. Passou sua infância mimado por três pessoas embora eu, a pessoa mais nova dessa tríade, não gostasse muito do que era obrigado a fazer. Escondido, mostrava minha verdadeira face, talvez com isto afastando meu Abel de estimação. Matando, nele, o que de carinho pudesse haver por nossos pais e por mim próprio.


Será? Não sinto culpa, creio que se fosse essa a hipótese eu teria. Sim, teria, tenho certeza.


Mas não tenho nada a ver com isso. Continuei meus estudos de música clássica, corro o mundo e vejo, em cada jovem à beira da calçada, quer na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo, a meu irmão. Ou a um ser parecido com ele, que desistiu de lutar neste mundo onde a lei do mais forte prevalece. Que não tem espaço para culpados. Para covardes. Para os que vão morrer e saúdam, saúdam, saúdam... Não sei quando vi meu irmão pela última vez, mas sei, que logo depois deste fato, ele passou a viver somente em minhas lembranças. Que eu tentava manter o mais saudável quanto possível. Éramos, então, dois irmãos brincando de orquestra, eu o maestro, ele o spala, um prestando reverência ao outro, um tentando ser melhor que o outro. Ele conseguiu?


 Inacio Carreira

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Espelho, Espelho Meu (Vana Comissoli)


Margaerith mirou-se no espelho e sentiu o “Não” ordenando que parasse. Vacilou, mas não deixou de fitar o belo, translúcido rosto. Nunca vira olhos tão amendoados e profundos de um verde esmeralda camuflado num debruado de cílios longos e macios, negros como na noite mais fechada onde, a custo, a lua rasga espaços prateados.
A boca era cheia, sedimentada em rochas sensuais que se derretiam quando sorria. Balançou os cabelos negros, macios e salpicados de brilhante purpurina onde a luz incidia. Nem Vênus de Samotrácia teria um nariz tão perfeito e indiscutivelmente divino. Talvez o de Perséfone pudesse lhe fazer frente.
Tinha que reconhecer embora a modéstia lhe negasse esse direito: era linda. A mulher mais linda que o espelho já fixara.
Espelhos não são mesmo confiáveis por que um risinho de Silvana rosnou em sua boca e Margaerith se esfumaçou torcendo a boca cheia de escárnio onde os lábios afinaram em dois traços duros e os olhos fixaram um ponto que era nada e enegreceram em fundos poços. Os cabelos mostraram as pontas queimadas e duplas onde um creme ou condicionador poderia fazer milagres, mas não fazia.
A ira entonteceu os sentidos e levantou a mão para agredir a imagem tão verdadeira ou nem tanto, ou qual era a verdadeira face em meio à distorção que se oferecia quase prazerosamente aos desavisados? Golpeou sem muita força. Bem no fundo sabia que o sangue traria junto uma aguda dor de corte e de novo teria a ferida aberta por meses a fio sem que cicatrizante algum pudesse sanar o problema enosado no soco.
Lembrou que em algum lugar distante, perdida numa floresta onde tudo era pequeno demais e as cavernas lustravam diamantes que ninguém usaria, vivia uma princesa que esquecera o caminho de casa ou fora largada lá para viver uma vida que não deveria ser sua. Uma princesa deveria sempre se mirar em espelhos de cristal onde a imagem não acataria o peso dos anos e não haveria bruxas a espiar do outro lado para ver a pele se desmanchando.
Talvez se houvesse alguma mágica que lhe permitisse atravessar o espelho e enxergar pelo outro lado não sendo bruxa, pudesse perceber enfim a face que trouxera ao mundo para construir alguma coisa que esquecera por completo de tanto procurar a imagem dentro do espelho.
Quando chagava neste repetido ponto era hora do espelho falar e lhe dizer coisas ocultas que não queria ouvir e insistiam em bater à porta. Nesta noite ele se manteve quieto como todos os outros seus semelhantes, fossem feitos de água, prata ou vidro. Incrivelmente todos os príncipes que tivera saíram a cavalgar seus cavalos brancos pela sala pequena demais para tanta gente. Maçãs envenenadas se trincavam entre seus dentes e sentia o gosto acre da cicuta escorrendo pela garganta enquanto apertava forte na mão o vidro repleto de comprimidos fatais.
Alguns buscavam o beijo de Margaerith e outros mergulhavam incansavelmente na vagina de Silvana sem que nelas houvesse prazer por um ou por outro. Quem sabe aquele menino que, lá atrás, onde o tempo já esqueceu, pudesse fazer algum milagre e trazê-la de volta deste sonho real que vivia já há mais de quarenta anos e do qual não conseguia acordar.
Muita gente se pôs a chorar.Ela estava irremediavelmente morta dentro do vidro onde uma camada de prata, alumínio ou amálgama de estanho, se depositava quimicamente coberta com uma substância protetora.Ou era prisioneira das duas imagens dúbias? Ou de si mesma que não desabrochava nunca?
Se existem diversos tipos de espelhos, por que não encontrava nunca um do tipo plano que produzisse uma imagem virtual e simétrica dela mesma? Afinal a imagem dada por um espelho plano é do mesmo tamanho que o objeto, é virtual, uma vez que não se pode projetar num alvo, é direita e é simétrica, ou seja, invertida lateralmente. E real por refletir o que havia de concreto dentro do rosto espelhado, com olhos, boca, nariz e cabelos que não se torcessem ou distorcessem ao bel prazer em figuras que se sobrepunham conforme o latejar do coração e da mente.
Escapou da imagem misturada e antropomorfa e o olhar escorregou pelas paredes onde, pendurada por um prego desajeitado, uma menina se equilibrava instavelmente numa foto preto e branco. Era quase engraçado reconhecer que era bonitinha, mas não era a menina mais linda do mundo e talvez nem sequer uma princesa e não era também uma bruxa ou mulher malvada. Era apenas uma menina meio assustada com doces olhos expectantes que balbuciou algo em seu ouvido.
A mão se abriu e os comprimidos se misturaram aos cacos do frasco estilhaçado no chão. Em seguida, um raio flutuante entrou pela janela atravessando a grossa chuva e fez com que o espelho arrebentasse em mil pedaços. Um velho pensamento supersticioso escreveu rápido na lembrança: espelho quebrado são sete anos de azar. Estranhamente seriam seus sete anos de novas possibilidades já que azar significa o contrário de tudo que já aconteceu. Depois disso talvez não houvessem mais Margaerith e nem Silvanas a embaçar imagens. Por fim aparecesse a Maria das Marias, esse nome de batismo que misturou todas as imagens num enroscado sabor de desconhecimento.
Buscou a vassoura e recolheu os cacos assobiando pela primeira vez na vida. Uma imagem nunca é o que mostra, é apenas reflexo de algo que se transforma conforme a luz e o movimento e talvez fosse mesmo essa coisa cambiante, mas entre uma e outra haveria a si mesma num desfecho que não importa saber qual é, basta que se saiba que mostrará não mais imagens, mas uma pessoa real.


Vana Comissoli

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Revolta cipeira (Marcio E. Ochner)

Cansado de chamar a atenção dos funcionários, revoltado, o chefe da fábrica solta: “Do jeito que estão fazendo cagada, terei que exigir que os Cipeiros coloquem no mapa de risco desse setor um círculo enorme, para Risco Biológico”.


Saiu falando alto para todos ouvirem. Mesmo com toda aquela barulheira das máquinas trabalhando no pavilhão, conseguia-se ouvi-lo até na Recepção. Novamente, enquanto chamava a atenção de mais alguns que por ali seguiam, andava apressadamente de uma máquina a outra... “Tá errado aqui, tu não está vendo?... Afrouxa lá, porra, vai arrebentar a maldita máquina...”


Beneto, cansado, seguia novamente para sua sala, nervoso, resmungando. Ainda estava tentando digerir aquelas conversar dos Cipeiros, que se reuniam na sala ao lado. Ele os escutava entre os biombos: naquela conversa tratavam de um tal Plano de Emergência... Beneto pensava: “Que merda é essa?” Permanecia ouvindo os discursos, cujo clamor adentrava a parede de plástico. Ele, quase que colado ao forro, escutava o plano. Nisso vê um de seus funcionários seguir para o refeitório, segue logo atrás, aproveitando para apanhar o maço de cigarros, fumando um no mesmo instante. Acompanha-o até fora da fábrica, deu suas baforadas e falou: “Que é isso, Zequinha, é café, não coca-cola, pega um copo menor, rapais... Já terminou o que tinha para fazer”? Nisso responde o Zequinha: “Não, Beneto, mas o novato ta cuidando da máquina...” Irritado, larga: “Tu deve ta ficando doido, se ele fizer merda lá, tu é que vai levar a comida de rabo, rapais!  Deixa pra toma isso depois, vá cuidar da máquina...” E o Zequinha abandona o copo e sai apressadamente. Chegando lá, conversa com seu companheiro de trabalho e aguarda mais ou menos uns 10 minutos na máquina, quando então a desliga. Zequinha chama seu companheiro para tomar um café.


Beneto, ainda no lado de fora, saboreando um café fresco que acabara se sair do coador, logo após o terceiro cigarro, vê os dois seguindo na direção dele, observa atentamente. Largou um e tirou o quarto cigarro, acendendo. Comenta, baforando: “Ta bom o café? Parece que ta, né? Vocês dois devem achar que pago vocês pra ficar tomando café, não é? Estão esperando o quê, ai parados, o final do mês pra receber? Já pro trabalho vocês dois, tenho que entregar aquela encomenda até sexta-feira. Vamos lá...”


Saem em disparada para a linha de produção os dois funcionários da fábrica que nunca para, nem para café, muito menos para conversas aleatórias.


Beneto ainda reclamando: “Não sei para que o Plano de Evacuação! Vivem aqui fora tomando café. E quando estão nas máquinas, fazem a melhor função retilínea que eu já vi na história, só cagada, uma atrás da outra!”

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O tubinho preto (Fernando Bastos)



- Não adianta negar – disse Antônio, com a voz embargada – O professor Benetti me contou, todos viram.

Corria o ano de 1981, Clarice era sua primeira namorada, e Antônio, então com vinte anos, já experimentava o sabor da traição. Algo tão comum na vida dos casais, em todos os tempos, mas que sempre deixa um rastro de dor, revolta e por quês. Junto do choro, veio o pedido de desculpas - Eu errei, juro que isso não vai mais acontecer. Foi a bebida...

Na cabeça dele, ela era a pior das putas. Nem bem completara quinze anos e já o traía. Logo ele, que lhe era tão fiel. Mas ela sucumbira à “luxuriae”, um dos sete pecados capitais. O outro tinha CB 400 – raríssima naquela época -, caminhonete moderna, apartamentos e até uma chácara com piscina, em que ela se banhava nua, ao lado do amante, enquanto o trouxa trabalhava duro, guardando grana para um dia levá-la ao altar.  

Mentira tem pernas curtas e logo descobriu tudo. A festa de Amigo Secreto não fora apenas confraternização de fim de ano. Sua namorada fora flagrada na cama com aquele filho de uma meretriz, os dois copulando freneticamente como dois discípulos de Dionísio. Todos viram, e, mesmo assim, ninguém lhe disse nada por três semanas a fio. Passavam por ele nos corredores do colégio, onde ela fazia o primeiro e ele o terceiro ano do segundo grau, com risos dissimulados. Talvez ele repetisse de ano voluntariamente, só para não perdê-la de vista. Quando ele perguntou como tinha sido a festa, ela se esquivava com respostas evasivas.

Um professor de Antônio, que esteve na tal festa, mais tarde lhe revelou, durante o intervalo de uma aula, que a dupla de adúlteros trepava feito um sátiro e uma bacante. Antônio não entendeu nada à época, mas ficou pensando como seria um sátiro comendo uma bacante. Deviam fazer coisas mais indecorosas do que ele fazia com sua doce garota. E repetia, quase sentindo prazer naquelas palavras: “ba-can-te...Ela é uma bacante”, e as imagens que inventava à noite, antes de dormir, da namorada dando para o amante, estranhamente lhe excitavam, de sorte que a ereção não tardava, e o gozo melava  a cueca, que não tirava devido ao cansaço.

Antônio engolia suas mentiras junto com as lágrimas. Sabia que não fora nem uma nem duas vezes. Aquela prostituta precoce se aninhava nos braços de outro homem, pelo menos o dobro da idade dela. Ainda por cima, era seu chefe, o dono da empresa onde trabalhava.

- Não adianta mentir, Clarice. Já sei de tudo.

A garota passou a semana toda pedindo perdão, enchendo-lhe a boca com seus seios juvenis e ouvidos com o canto das sereias, esfarrapadas desculpas, foi um ato impensado, e botava a culpa na bebida.

- Alguém colocou droga naquele copo.

Como era cínica! Agora se fazia de vítima. Todo pecador quando vê seu ato descoberto, finge arrependimento. Mas viveria em eterno delito, caso conseguisse manter sua funesta ação oculta dos olhos alheios. Nesse momento, não há uma viva alma que não esteja envolvida em algum pecado, que descoberto, lhe poria uma corda no pescoço, porém, mesmo assim, segue adiante crente que nunca será apanhada. E, por causa da força hercúlea em manter o crime incógnito, a dita alma viverá em constante tensão, de sorte que o envenenamento do corpo será questão de tempo.

Entretanto, ele a amava e a perdoou. Clarice o encheu de beijos e até fez um felatio antes de se deixar penetrar. Sua “eterna menina” fez juras de amor e prometera que seria somente dele, até que a morte os separasse. Antônio limpou as partes, vestiu-se, e combinou de ir buscá-la sábado, às 4 horas, para o casamento de um amigo dele.

Chegou às três. E foi logo entrando, eufórico. Queria mostrar o presente que comprara para ela ir ao casamento: um tubinho preto, justo e sexy, que realçaria as curvas daquele corpo adolescente. Naquela noite, todos o invejariam.

Disse “oi” à Cleonice, irmã da namorada, que via TV na sala e foi para o quarto dela. A moça ainda gritou:

- Não entre lá, Antônio, ela acabou de sair do banho e...

Ele voltou quieto e cabisbaixo. O presente, deixou escorregar no colo da cunhada.

- Use, é pra você.

 Fernando Bastos, cartunista e escritor.

 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Epifânia (Vana Comissoli)

Simplesmente virou estátua enquanto as palavras assaltavam seus ouvidos e roubavam a compreensão bem debaixo do nariz. Depois que a porta bateu ainda permaneceu quieta, alguma coisa não encaixava na bagunça restante no apartamento. O que as pobres plantas tinham a ver? Elas nem precisam levar tiro, ou facada, basta que as deixe à míngua ou ponha o vaso no lixo. Plantas são frágeis e dependentes. Quase sentiu as folhas murcharem em seu próprio caule lerdo e ingênuo.
Um grande amor quando acaba... Grande amor acaba? Um médio amor quando acaba... Médio amor não tem que levar um médio tempo para acabar?
Quando um amor de qualquer tamanho acaba sai com delicadeza, fechando a porta sem ruído, deixando sobre a mesa um ramo de flores semi-murchas, ousemivivas, como um ato falho que a gente faz de conta que entendeu e a intenção não era aquela, mas abemos que era. Fica possível a generosidade de imaginar a ausência como uma volta que não aconteceu.
Não foi assim. Foi uma acusação atrás da outra e nem sabia mais quem era o bandido, ou talvez fosse mesmo ela e não havia percebido o roubo, sendo uma cleptomaníaca disfarçada até para si mesma.
Depois a maravilhosa massa carbonara que ainda respingava de aroma a sala, fora jogada na pia. “Dá para o gato! Bicho é que se prende pela barriga!” Teria errado na dose de bacon? Tinha provado, estava uma delícia, isso antes de recolher uma porção da pia mesmo por que afinal não era de jogar comida fora. Um desperdício enquanto tanta gente passa fome. Deu-se conta que não tinha gato e nem cachorro para dar o que se molhara na cuba. Como daria ao gato então? Estava tudo do avesso e ela devia ter atravessado o Equador e tomado champanhe demais, bem que a avisaram que faria besteira se abusasse. Talvez o vestido de alças fosse mesmo uma saia de ula-ula.
Havia também a cama arrumada e gastara seu melhor perfume jogando gotas nos lençóis. Outro desperdício, esse não havia como recuperar e ela não dormiria em cima deste aroma nem morta. Muito menos morta, deve ser horrível chegar do outro lado da ponte com cheiro de quem queria se deitar com um homem e não deitou.Caronte não aceitaria nem 30 moedas!
Resolveu anotar os desperdícios por que estavam ficando muitos, seriam necessárias várias sessões psicanalíticas para resolver este lesa poupança. Mas foi a merda do psicanalista que mandou arranjar um namorado! É o que dá ouvir estes babacas que veem pena em todo ovo. Às vezes um charuto é apenas um charuto mesmo que mate o pai da psicanálise de câncer depois, donde se conclui que um charuto sempre é um charuto cheio de recheio que não enxergamos.Sempre. Não fálico, talvez, não sabia bem, mas com certeza tendo consequência, o que era uma merda por que ninguém é radar para fiscalizar o tempo todo.
Onde é que ficaram mesmo os talheres? Escondera, no meio da refega lembrara-se da mulher assassinada pelo amante com a pazinha de lixo, talheres seriam ainda mais perigosos. Ficaria horrorosa na primeira página com um garfo enfiado na jugular. A maquiagem já estaria derretida e teria aqueles riscos pretos de rímel escorrendo pela cara..
O problema maior era ter uma vizinha de 78 anos, nem um pouco surda e de nome Assuntina. Na certa não confundiria “vai à merda” com “aurevoir”. Tinha 5 gatos e todos com cara de felinos selvagens. Só pelos gatos que odiava, teria motivos suficientes para uma saída elegante e não este escarcéu de fim-de-linha.
Como poderia adivinhar que o tal namorado... Como era o nome mesmo? Droga!Sempre trocava o nome do sujeito, por isso resolveu dar um apelido carinhosos: Bimbo. Ia adivinhar que o cara tivera um cachorro com esse nome, que enlouquecera e deixara aquela marca escura e redonda na bunda dele?
Livre associação - ouviu a voz rubicunda do analista, mostrando o quanto ela era idiota.Não sabia muito bem o significado de rubicunda, mas era assim que sentia a voz e era uma palavra horrorosa que caía à perfeição na ascendência germânica que o deixava de bochechas vermelhas fosse inverno ou verão, portanto a voz devia seguir a mesma linha.
E como poderia saber que chama-lo de filhinho não seria considerado carinho, mas um desejo oculto de ter filho e isso o apavorava? Ela por acaso queria filho? Claro que não! Estes monstrinhos tão fofinhos e cheirosos, falando que é um amor, mas bagunçando tudo e provavelmente seriam alérgicos ao gato que pretendia ter para nunca mais jogar comida fora. Filho? O que é isso? Já ia para os 35 anos e logo seria fruta passada e filho é uma invenção dos hormônios malucos que adoram choro de criança e o maldito sorriso engraçadinho. Como são mornos de se por no peito! Amamentar? Nem pensar! Tinha posto um silicone a fuzel, não faria este desperdício de jeito nenhum. Mas eles são um amor e quando começam a falar tlocandoasletlas, então...
Olhou pela janela desperdiçando o olhar e deu-se conta que o sol ia alto.Também estas lâmpadas modernas dão a impressão que é diaquando ainda é noite. Dentro de casa nem se vê mais o dia chegando, a menos se estiver de olhos fechados no bom do sono de todas as noites, esquecido lá pelos 28 anos.
Deu uma vontade enorme de pão quente e, conscientemente, é claro, resolveu desperdiçar o integral que guardava muito bem guardado na geladeira. Pegou a bolsa e foi à padaria.
No meio da rua lembrou que nem sequer sabia se tinha padaria no bairro, só comprava no supermercado para agilizar tudo e não jogar gasolina fora. Ir a pé era a solução sensata, perguntaria a alguma mulher com cara de quem leva pão para casa todas as manhãs, com certeza teria filho esperando de bico aberto. Filho? Argh! Argh? Não teria posto o macarrão fora se tivesse filho e nem teria confundido o cara com Bimbo, seu cachorro da infância. Olha só! Que coincidência! Lembrou que também tivera um Bimbo em sua vida e era uma graça de pelo acinzentado igual ao cabelo do cara que não sabia dizer good bye.
As pessoas colocam cada coisa fora! Que desperdício! Olha o cachorro de pelúcia tão fofinho e da cor do Nescau que adorava, jogado na lixeira como se não servisse para mais nada. Nem faltava olho ou focinho igualzinho aos de verdade.
Enquanto o tanque enchia de água com sabão líquido que era mais cheiroso e rendia mais, ela preparou um sanduiche de pão integral, afinal não descobriria nunca onde era a padaria e o Bimbo era grande, uns 60 cm, estava sujo o coitado, precisava de banho urgente.
Quando o telefone tocou pelo meio da manhã, logo que conseguira dormir depois de colocar o Bimbo para secar e energizar sob o sol, não entendeu direito quando pelo fio avisaram: É o Bimbo.
- Que Bimbo? O da infância, o de pelúcia no varal ou o animalão idiota que não sabe dizer nem aurevoire nem good bye?
Sentiu um furioso prazer ao se despedir antes de quebrar o telefone:
- Tschüss.

Vana Comissoli

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Alice... Quem foi que disse? (Vana Comissoli)



Alice não era do tipo que aparece, marca presença, pelo contrário, passava despercebida, ausente estando ali o tempo todo. Treino para quando virasse fantasma, ninguém vê, nem ouve, mas está ali. As pessoas comentando, fazendo de conta que ela não escutaria. Só ela sabia que escutava numa considerável distância, uma linguagem bem pouco conhecida e sem significado.
“Como a Alice é boazinha!”, “A Alice é um doce de pessoa”. Pontualmente a velha arrematava: “E é muito prendada.” Essa era a parte mais irritante. Ficava imaginando se dissessem: “A Alice é uma boba, dá palpite até no que não sabe”. A velha diria: “É, mas muito prendada”. Sabe-se lá por que ela fazia uma associação dos infernos, prendada era prenda atada. Ela era uma prenda atada a não sabia o que. Melhor treinar para fantasma. Distanciava-se do mundo brilhante demais, barulhento demais, incompreensível demais.
Será que fantasma, espírito, ou coisa que o valha também ouviria comentários? Os espíritas diziam que sim, mas não importava, ela via fantasmas de vez em quando, assustavam, se acostumou aos poucos, agora passavam e só. Luzes, brilhos, sons.
O que diriam dela? Uma folha morta? Um cogumelo de pernas? Se fosse surda em vida, talvez fosse surda depois da morte também, pelo menos não ouviria comentários nem que era muito prendada. Quais seriam as prendas de um fantasma? Teceria teias voláteis como os pensamentos? Vestidos de gaze tecidos com o orvalho da manhã que viram sonho ao sol? Essas elucubrações não preocupavam Alice, nem as tinha, mas enchiam de dúvidas a cabeça da mãe dela.
Vieram as férias, sabia que eram férias por que entraram no carro e andaram... Andaram... Não chegava nunca e é desassossegado ficar tanto tempo sentada sem uma linha nas mãos, sem espaço. As estradas são barulhentas e desconhecidas, um medo alucinado tomava conta dela obrigando-a a gritar, espernear a ponto de sua mãe prendê-la no banco, ou ampará-la no colo até que dormisse. Chegaram, após muitos cafés e pastéis. Essa era parte boa, ninguém tirava a comida de sua mão, podia brincar com ela jogando no chão e voltar a pegá-la engolindo sofregamente. A mãe olhava para o lado e fazia de conta que não via nada. Ficava mais complicado entender razões, no momento era bom.
Teve certeza que eram férias embora não entendesse o que deixava os pais tão sorridentes se tudo era igual, pelo menos para ela, nem sabia bem o que eram férias, coisa aérea e que não se pode tocar, nem por na boca. As linhas não muito coloridas estariam ao alcance da mão e podia, como sempre, fazer longas e frouxas tranças com elas. Depois a mãe inventava usos secundários como por na cintura ou prender os cabelos. Era quando a velha espiava e dizia: A Alice é tão prendada! Não era bom vê-la revirando os olhos enquanto falava, podiam saltar e fugir chão a fora até trombarem com a porta..
Respirou fundo por que o cheiro do ar vinha volitando sal, gostava desse odor ardido embora no início machucasse um pouco. Olhou a casa abrindo primeiro um olho e depois o outro, não dava para fazer tanta coisa de uma só vez, amedrontava. A casa onde estacionaram tinha porta de sorriso e janelas tremendo, o portão grunhia, outro fantasma a enfrentar, até que se acostumasse.
Não saiu no dia seguinte, não podia e não esperavam isso dela. Tudo tem que ser aos poucos, a caixa de Pandora, se aberta abruptamente solta perigosos monstros, mas tem fadas e duendes se nos acostumarmos às frestas. Ela se acostuma aos poucos com tudo, na estrada se anda passo a passo.
Foram à praia, o mar é aquele engolidor terrível que ruge até na calmaria, o pai deu a mão e, lentamente foi aprendendo que não seria engolida de supetão. Cuidado, um pé, depois o outro e o mar se acalma, embala, refresca os tremores.
Começou a sair sozinha, as férias criaram essa qualidade, podia ir para onde quisesse e não a barravam, foi assim...
O rapazinho estava sentado navegando o mar com os olhos. Não mexia nem um dedo, por isso Alice não teve medo, ia caminhando sem pressa e tiquetaqueou vontade de compartilhar a silenciosa espera dele. Esperaria a coragem chegar como ela esperava ou estava se acostumando com o mar? Não tinha respostas por não ter perguntas. Tampouco sabia se podia sentar ao lado dele ajudando na espera, então sentou. O rapazinho não se incomodou, não disse o nome, nem perguntou nada, a velha estava longe, sem observações sobre como Alice era prendada. Provavelmente o jovem não se encantaria com isso, tornou-o mais próximo.
Ia todas as tardes sentar-se ao lado dele, na convivência calada de navegar o mar, acostumar-se com a imensidão do céu, sabiam as mesmas coisas e por isso as palavras eram confetes desnecessários. No silêncio não há medo, o sorriso do rapaz dava certeza de que ele também sabia disso. Com ele aprendeu a defender-se do sol: a mão em aba olhando as águas sem que o movimento a perturbasse.
Nunca estivera tão confortavelmente próxima de alguém, alguma parte adormecida de sua alma acordou e ela balbuciou a primeira palavra. Já ouvira tantas vezes, mas ninguém entenderia se tentasse dizê-la: mar. Todas as formas muito grandes passaram a ser mar. Ninguém compreendeu de onde saíra, mas aprenderam que era enorme. O que parecia grande diminuiu e seu mundo se ampliou com isso.
Logo aprendeu outras coisas no silêncio tão fácil de se aprender. Um estranho prazer no peito que fazia sorrir. O rapazinho sorria e ela também. Segredos foram ditos alheios de sons. O primeiro amor desabrochou na areia desenhada pelas águas em ondas suaves.
No recôndito do peito, sem que nem por que uma vez desnecessário, bateu emoção que cavalgou sentimento. Os dias se tornaram um só, sentada ao lado daquele que tomara o espaço de todos em sua vida. Quando o sol procurava casaco para a brisa da noite não se acomodar nos ombros, ela se despedia gentilmente: mar. E ia embora navegando por dentro na grande descoberta.
Chegou à casa e assustou-se com os barulhos e movimentos, mexiam em tudo, trouxeram para o meio da sala as mesmas caixas de guardar que antes tinham desguardado. No dia seguinte, entre fúria e arrastos embarcaram no carro. Andaram... Andaram. Desta vez os pastéis não aliviaram a cansativa e desnorteante prisão, de alguma forma sabia que o menino não se afastaria do mar para segui-la. Como poderia encontrá-lo depois que o caminho do mar se tornasse desconhecido?
Esperou nos dias, sonhou nas noites, mas ele não veio lhe dizer que esperava pelo encontro. Se esquece tudo, Alice também esqueceu. Novamente houve aquela quebra na calmaria conhecida e novamente, roupas e tralhas foram escondidas nas malas. Novamente veio a estrada longa, cheia de pastéis. Deu-se conta que iam ao mar, ficou quieta, esperou. Voltaria ao encontro marcado de todos os dias, nem sequer titubeou na dúvida que ele não estaria sentado a navegar o mar. Era o destino do rapaz e ninguém foge ao seu destino.
Não esperou por nada, fugiu com força da mão que a segurava, correu para a praia, seu pensamento não se esquecer do lugar e nem de como chegar. Lá estava ele sorrindo, navegando sem barco, sonhando estrelas, a mão resguardando os olhos da luz e do rocio. Tem momentos que cumprimentos se tornam vazios de sentido, sabemos que não houve ausência, apenas saudade.
Queria ficar ali, sentada ao lado do rapaz, cuidando que a água não os levasse para aquele ponto onde tudo deixa de ser visto. Teve coragem mar e passou o braço pelas costas dele que não se furtou. A decisão foi tomada sem pensar sobre ela, pensamentos não existem quando a gente quer de verdade. Como faria para permanecer também não se questionou, ficaria e era assim.
Os pais se preocuparam, foi um corre-corre e vizinhos ajudando. Caíra a noite e Alice com seu medo do escuro não aparecia. Espanto, grave preocupação. Foi Gabriel, o velho pescador que conhecia aquelas paragens desde garoto que encontrou. Como contar? Melhor no ligeirão antes das lágrimas fazerem rios na sua cara.
- Ela está lá... Fria e sorrindo, abraçada na estátua do menino do mar.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Conto para esquecer (Inacio Carreira)

Para Yasunari Kawabata e
Gabriel Garcia Márquez,
de felizes memórias


Pensando bem, no final das contas o fato de ter visto tanta coisa neste mundo de meu deus fez com que ele como se não houvesse captado nada do entorno e permanecesse agora, nesse fim de viagem, quase virgem. Seu cérebro, tal qual nascituro. Vazio.


Mas de uma coisa ele não esquecia: a particularidade anatômica, íntima, de uma mulher. Toda vez que a via – e viam-se pouco, embora morando na mesma e pequena cidade – vinha à sua memória, gasta pelos anos [ele sentindo algo semelhante a pudor, vergonha?, procurando desviar os olhos do olhar da dona. Que talvez nem o conhecesse, ou nem o reconhecesse, apesar de bem mais nova e, com toda certeza, não sofrendo dos lapsos que o atingem]. Mas, se os olhos não se cruzam, ele não pode impedir que seu próprio olhar, entre matreiro e dissimulado, dirija-se ao ponto X.


Não que tivesse intimidades com ela, não. Intimidades: mesmo com a memória gasta, vêm à mesma sensações, texturas, sabores. Mas em massa, genericamente. A não ser por duas outras lembranças, de namorantes, sobre particularidades capilares íntimas (uma pela falta, outra pelo excesso), que não podem jamais cair no olvido. Ambas fogosas, até onde lembra, o relacionamento com elas era diferente. Com a, digamos assim, careca, ele era mais o alvo da paixão, servindo acertadamente aos jogos de cama que, grosso modo, seriam comparáveis às pugnas de Olímpia. Nada de joguinhos estaduais, campeonatos abertos, melhor de três: não! Olimpíadas é a palavra que melhor aponta para aqueles jogos comandados por Eros, onde o pomo de Vênus fazia-se caça e caçador e, ao final, as medalhas eram distribuídas entre os contendores, não havendo vencidos: como sói acontecer nas boas pelejas motivadas pelos instintos que, quanto mais baixos, melhor o jogo, onde a regra é não tê-las.

Mas essa particularidade referente à pilosidade, quanto à falta ou excesso, não é nada perto daquela primeira, que afinal perdeu-a (a particularidade, diga-se bem) por desdenhar, por não querer mostrar-se ao parceiro, ou parceiros, que isso era lá problema daquela senhora... fosse ele um dos escolhidos em sua versão original e teria dito que não, não fizesse aquela mutilação, mais é menos quando se trata de intimidades.

Se nós, homens, e cada vez mais no caso dele, apesar dos aditivos, temos que saber conviver com a máquina que, eventualmente, falha; com o motor que vez em quando nem no tranco pega, porque uma jovem tem que submeter-se aos ditames da moda íntima? Existe essa expressão? Acredito que sim, com o privado mais e mais tornado público, com cenas [iguais às especialidades dos ocupantes dos lupanares romanos] expostas nas paredes, posters pré-vesuvianos, mostrando suas preferências, hoje à vista nas bancas de revista, videolocadoras e, santa invasão da inocência, até nos chamados mercadinhos, partilhando conosco na escolha de repolhos, batatas, iogurtes...

Outra aventura ressalta, aflora à sua consciência agora que nisso pensa – são profundos os arquivos da mente -, pois não conseguia outra dona abrir-se ao ato, compartilhar do jogo. Mesquinharia, egoísmo, talvez, o não querer doar-se ao parceiro. Não conseguir relaxar a guarda e acolher, em seu castelo, tão nobre cavaleiro, de cuja armadura ela apreciava o toque, mas não baixava a proteção, não descia a ponte levadiça, não franqueava seus países baixos.

Porém estão todas no passado, e foi rico seu passado. Pena que já não tem pena, por esquecido estar. Com breves lampejos de lucidez, as lembranças ficaram no Grande Nada oposto ao Big Bang gerador de matéria: todas, menos a da mulher de particularidade anatômica que, se revelada fosse, seria digna de figurar no Guiness Book. As outras particularidades? Bah, esqueçam, diria.