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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Metrô (Inacio Carreira)

O olhar bate em um livro diferente. Formato fora do padrão de best-seller. Capa alaranjada. No miolo, partituras. Observo o título. La bohème... Quem segura tal livro? Um jovem ma non troppo... Olhos grandes, cabelos rareando, echarpe protegendo o pescoço. Cantor? Sim, talvez, nunca vi músico protegendo a garganta. Lembram do Pavarotti? Sempre com suas echarpes em volta do pescoço, agasalhando sua voz privilegiada e dando-lhe um ar de Prima Donna, ou melhor, Primo Uomo, que de Donna ele não tinha nada... E esse aqui, do metrô?


Nas mãos, o livro e uma lapiseira. Pentel. Amarela. Que, ao virar a página, segura entre os lábios. Ao achar o local desejado, resgata a lapiseira e escreve, faz marcações. Específicas. Talvez em suas árias, quando terá que praticar o staccato, o allegro, adagio... Tanta coisa... Quanto conhecimento! Estava com um blusão da Accademia Europea di Firenze, fizera lá um curso? Ou era professor em intercâmbio, trazendo o conhecimento milenar da música clássica aos nossos jovens? Sim, olhando bem, prestando atenção na atenção que o homem dedicava ao seu livro, onde aparentava estudar com afinco La bohème, ópera de Giacomo Puccini, com libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, baseado no livro de Henri Murger, Scènes de la vie de bohème: estreou no Teatro Regio de Turim a 1º de fevereiro de 1896, sob a regência de Arturo Toscanini. Como eu sei tudo isso? Google, cara, Google... E, no Google, a Wikipédia.


De repente apagam-se as luzes, as rodas guincham nos trilhos (como guincham as rodas do metrô, já ouviu? Sim, metrô é um trem, mas é bem mais rápido e mais leve, talvez esse o motivo do grande barulho). Não cheguei a cair (estava de pé), segurava nos apoios do teto e perpendicular ao chão, foi minha sorte. Muita movimentação, choro, o cheiro de excremento de cavalo começou a tomar conta do ambiente.


A iluminação era pouca, tochas, pareciam, velas, luzes bruxuleantes. Do chão, eu tentava apoio para colocar-me na vertical, posição que deu, ao homem, status privilegiado sobre os outros animais, além de deixar as mãos livres para outros afazeres: carregar objetos, lutar, perscrutar, amparar... Consegui, enfim, e por pouco não sou pisoteado por uma carruagem puxada por quatro cavalos... – Não olha por onde anda? (Nem sabia por onde andava, como ia olhar? Ai, o olhar estava baço, onde estava?) À sua frente, imponente edifício. Vem à mente a informação de que “as origens do teatro (o Teatro Regio, de Turim, as coisas começam a fazer sentido) datam do início do século XVIII, quando Vittorio Amedeo II decidiu encomendar ao arquiteto Filippo Juvarra o projeto e a construção de um grande e novo teatro, dentro do desenvolvimento urbano da Praça Castello”... Êpa, seria eu, agora, um receptor de informações? Teriam instalado um chip em meu cérebro e estava, então, em contato direto com a World Wide Web – www?


O apagão no metrô... O homem com a partitura de La boèhme... Sim, ele desce da carruagem, quase pisa em minha mão, está acompanhado por várias pessoas tão bem vestidas quanto ele... Ao pisar na plataforma de madeira, à guisa de calçada, que separa a rua – imunda, coberta de excrementos -, antes de entrar no Teatro, é ovacionado.


Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, em sua Saudação a Walt Whitman, de 1915, brada: “Bebamos isto como um remédio amargo / E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida / Por quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão”...


Mas não é disso que estou querendo dizer. Ou melhor, eu pensava, agora, qual a razão dos atores desejarem, ao invés de Sorte, ou Boa Sorte, Merda... Que inclusive é título e tema de uma canção de Caetano Veloso, gravada ao vivo em 1986, com a parceria de Chico Buarque...


Novo curto-circuito cerebral e vi, em tecnologia 3D (sem óculos, só a força de vontade, ou seja lá o que seja) três justificativas à saudação, sendo que a primeira veio dos palcos, mesmo: segundo minha diretora de teatro dos tempos de colégio, no Instituto de Educação Canadá, em Santos, a expressão teve origem na Grécia Antiga. Segundo ela, “naquela época os atores se apresentavam em anfiteatros e suas peças, por serem bem críticas, afetavam os políticos ou alguma classe social. Enfim, se eles não gostassem das críticas representadas naquele fenômeno que era o teatro, atiravam merda nos atores. Por ironia do destino, os atores não ficavam por baixo com isso, porque quanto mais merda era atirada neles significava que mais repercussão teria o espetáculo. Afinal, eles tinham conseguido seu objetivo. Eles estavam lá era pra incomodar mesmo!”...


Acordei com saudades daquele tempo, em que os políticos tinham vergonha na cara. Hoje dizem, simplesmente, que ignoram os fatos... Ou seja, que são ignorantes! Depois da Lei da Ficha Limpa, que venha a Lei da Ficha Inteligente, urgente...


Inacio Carreira

segunda-feira, 12 de março de 2012

O sêmen desperdiçado de Onã (Fernando Bastos)

Adaptado de Gênesis 38,9

O casamento de Judá com Sué, filha de um cananeu, foi comemorado com bom vinho, dança e muita música. Em menos de um ano, nascia Her, um lindo menino, saudável e de choro forte. Logo depois vieram outros dois meninos, Onã e Sela.
Quando Her já estava em idade de se casar, Judá escolheu para o filho primogênito uma bela mulher de nome Tamar. Por causa das iniquidades e vida licenciosa de Her, o deus dos hebreus o castigou tirando-lhe a vida. Passado o período de luto, Judá levou Onã ao campo, e, enquanto passeavam observando bois e ovelhas, disse, Meu filho, deve observar a lei do Levirato, de modo que tomará Tamar, mulher de nosso querido e muito amado Her, para gerar a posteridade de seu irmão morto. Meu pai, respondeu com tristeza Onã, O senhor sabe que os filhos não serão meus, portanto, não gostaria de me unir a Tamar. Além do mais, amo outra mulher, chamada Ana, e é com ela que gostaria de me casar.
O pai não gostou da novidade e disse com firmeza, Filho, eu repito, deve obedecer a lei de nosso povo. Não queira desobedecer ao Senhor; veja o que aconteceu com Her, ser irmão. Por causa de seus pecados, deus o tirou de nós...
Naqueles tempos, imaginava-se que deus era um Ser que tanto podia trazer a bonança, como a morte. Temia-se a divindade mais do que a amava, como muitos filhos ainda hoje a seus próprios pais.
Por favor, pai, lamentou Onã em prantos, Deixe essa tarefa ao meu irmão mais novo, Sela; tenho certeza que ele não se malogrará em recebê-la como esposa. Já os vi conversando diversas vezes, e, não há quem, tendo os visto juntos, em risinhos e trocando segredos ao pé do ouvido, pense em mais nada senão que foram feitos um para o outro. Judá balançou a cabeça em desagrado e disse, Não seja a desonra de sua casa, Onã. Não basta a vida que seu irmão levou, agora vem você querendo afrontar nosso deus e Senhor?
O casamento de Onã com a cunhada realizou-se menos de seis meses depois dessa conversa. No entanto, ambos não pareciam felizes. Onã amava Ana, e Tamar morria de amores pelo cunhado mais novo. Levou algum tempo para que ambos decidissem cumprir a Lei. Em uma noite de calor abrasante, quando haviam chegado em casa após uma festa promovida por um conhecido da família, Tamar, bastante alterada pelo vinho, desceu a túnica de algodão, na frente do marido, e parou de pé a sua frente, com os pés ligeiramente afastados um do outro, queixo erguido, numa posição de forte apelo sensual, revelando seu corpo trigueiro e ardente de desejos atrasados. Onã ficou paralisado diante de tanta beleza, e desejou logo unir sua carne àquele corpo perfeito.
Em segundos, ambos estavam entrelaçando seus corpos, e Tamar deu seguidos gemidos de prazer quando sentiu o membro de Onã, rígido como uma lança, penetrando sua viscosa gruta. A mulher pressentiu a chegada do orgasmo do marido, de modo que o abraçou com mais força ainda. Encha-me com sua semente, Onã, implorou ela. Como uma janela aberta abruptamente deixando a luz entrar, a mente de Onã se iluminou e no mesmo instante lembrou-se que o fruto daquela relação não pertenceria a ele, mas ao irmão morto. Apoiando-se com as mãos na beirada da cama, Onã soergueu-se num movimento brusco e retirou-se de dentro dela, a tempo de ejacular na palha ao lado da cama.
Espantada, Tamar perguntou, Por que fez isso, marido? Onã respondeu, Não posso deixar minha semente em você, mulher. A criança que nasceria não seria minha, mas de meu irmão. Não conhece a Lei? Que se dane a lei, rosnou a mulher, Quero que me dê um filho, Onã. Terá que pedir a outro, menos a mim, respondeu o homem. Tamar, cheia de ódio, praguejou, Está me rejeitando, Onã. Deus o castigará. Onã vestiu a túnica, calçou as sandálias e deixou a casa, indo perambular pelos campos. Talvez Tamar tivesse razão, e sua recusa em engravidá-la pudesse despertar a cólera do Senhor.
Para amainar o pavor de um encontro com o Anjo da morte, antes de sair de casa, Onã pegou um jarro de vinho recém fabricado. Embebedou-se a noite inteira. De manhã, quando os primeiros raios de sol tingiam de dourado os montes de Odolão, alguns pastores encontraram o corpo. Não havia nenhum sinal de violência. O coração de Onã já não batia mais.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O PECADO DE SARA (Fernando Bastos)

Em algum lugar da Palestina. Três séculos antes de Cristo. A lei mosaica imperava, e o Senhor abençoava quem a seguia, e amaldiçoava quem se desviasse dela.
Sara era a moça mais linda que Josias já vira. Usava um gracioso diadema na cabeça, caminhava como as filhas de Sião, olhando com o canto dos olhos, de pescoço erguido, balançando colares, brincos e argolas nos tornozelos, chamando a atenção para seus pés, dentro de sandálias feitas de couro. A túnica de linho que Sara usava ia até um pouco abaixo dos joelhos, de modo que as panturrilhas, bem torneadas e morenas, luziam ao brilho do sol, atiçando olhares desavergonhados dos homens da congregação israelita.
A hebreia tinha dezesseis anos, e já estava prometida em casamento a Josias, um honrado artesão que confeccionava lindas peças de bronze e metal para embelezar as mulheres de Israel. Ora, ninguém desconhecia a fama de vaidosa da mulher israelita. E, além de vaidosas, eram belíssimas. Josias aguardava ansioso a noite de núpcias. Sonhara várias vezes com a noite em que romperia sua gruta virginal e beberia seu mel. Quando pensava nisso, lembrava dos poemas sobre o amor, escritos séculos antes por Salomão, muitos dos quais, ele próprio já declamara para sua amada.
O casamento foi animado, embalado ao som de pandeiros, tamborins e flautas. Todos estavam felizes. Especialmente o noivo. Não, todos não; havia alguém muito preocupada, como se soubesse que uma grande torrente estava para chegar. Josias percebeu o olhar tenso da noiva e pensou, deve estar imaginando como será sua primeira noite, coitadinha, nunca conheceu homem.
À noite, quando se encontravam nus, sobre a cama forrada de palha, Josias foi paciente com sua pombinha que gemia baixinho e suava como uma camponesa numa tarde quente de sol. Ele estranhou. Entrou com muita facilidade naquele corpinho. Estocou várias vezes, no começo devagar, depois com rapidez, chegando a ser até um pouco agressivo.
- Tu não vais sentir dor? – gritou o noivo.
Ela enrubesceu.
Não havia marcas vermelhas no lençol.
Na manhã seguinte, ela foi levada às Autoridades. A denúncia foi confirmada. Só restava cumprir a lei de Javé, o deus hebreu. Sara foi levada até a frente da casa de seus pais. O primeiro a levantar o braço com a pedra na mão foi Josias, um pouco relutante, não conseguindo evitar uma lágrima que rolava pela face. Depois voou sobre ela uma saravaiada de pedras. Ela caiu e se encolheu como um feto. O sangue melou a terra. A moça ainda levantou um braço num último pedido de clemência, mas não adiantou.
O braço caiu ao lado do corpo.
Deu um último suspiro.
A lei de deus havia sido cumprida.


“...Se, porém, o fato for verídico e não se tiverem comprovado as marcas de virgindade da jovem, esta será conduzida ao limiar da casa paterna, e os habitantes de sua cidade a apedrejarão até que morra, porque cometeu uma infâmia em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim, tirarás o mal do meio de ti.” (Deuteronômio 22,20)