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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Carência (Marcelo Lamas)

Transferido para a cidade do interior, Arthur precisou saber quem era o síndico para
resolver um problema de falta de água quente no apartamento. Ao descobrir que era uma
mulher, imaginou viúva, aposentada que passara seus dias pegando no pé do porteiro e
da zeladora. Quando a porta do 504 abriu, ele deu de cara com uma japa mestiça com
admiráveis nuances e percebeu que Adriana era casada, pois, viu uma enorme fotografia de
casal na parede.


Embora no trabalho as coisas estivessem indo bem, ele sentia falta de socializar-
se noutros ambientes. Foi quando cruzou com Adriana na garagem, acompanhada do seu
marido, vestido de branco. Médico ou dentista? – pensou. À noite, decidiu procurá-la no
face, pois ela certamente teria amigas, também interessantes, para lhe apresentar.


Ela o adicionou e passaram a conversar todas as noites. Acostumada a ser
cortejada pelos homens, inconscientemente, o desinteresse dele a atraia. Também não era
do feitio dele envolver-se com mulheres comprometidas. Embora fosse bonita, inteligente e
bem resolvida, sutilmente ela dava sinais de baixa auto-estima, mal-amada talvez.


Ela sugeriu que saíssem para conhecerem-se melhor. Ele perguntou como ficaria a
situação do marido. Adriana disse que já havia pensado num plano. O encontro seria numa
cidade vizinha. No dia marcado, a pedido dela, tiveram que abortar o plano, pois chovia
muito e uma viagem não seria conveniente. Ele achou que tudo seria cancelado. Adriana
remarcou para um restaurante dali mesmo e apareceu com uma amiga, fazendo o papel de
pretendente dele. Depois de uma conversa boa, saquês e afins, decidiram ir embora. No
estacionamento ela sussurrou para ele deixar a porta do apartamento aberta.


Daquele dia em diante, ela passou a desviar dele. Só dirigiu-lhe a palavra para dizer
que seu casamento tinha melhorado muito e que não queria problemas.


Seduzido, ele a procurou inúmeras vezes, mas não teve êxito. Vai ser difícil
esquecer a lingerie preta e de tudo o que aconteceu naquela noite.


Nota do autor: esta história é uma homenagem deste escriba ao centenário de
Nelson Rodrigues, o escritor que afirmava ver o mundo pelo buraco da fechadura: “Não vou para o inferno. Mas não tenho asas”. 


Marcelo Lamas
marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Clown time: A hora do palhaço (Sônia Pillon)

As arquibancadas estavam lotadas.

Especialmente pelas crianças, que se agitavam,

olhos brilhantes e sorrisos de expectativas.

Estavam acompanhadas dos pais, irmãos e

coleguinhas de escola. Algumas seguravam balões

coloridos, outras pacotes de pipoca, que comiam

avidamente, com os olhos fixos no picadeiro.

E pouco importava se parte da grande lona do

circo estava remendada e com goteiras em alguns

pontos. Eles estavam ali para assistir o palhaço,

com sua roupa espalhafatosa e desajeitada, sua

maquiagem engraçada e suas tiradas ingênuas.

Mas não eram só os pequenos que se

encantavam com as palhaçadas desse artista

de tradição milenar. Os adultos, também! Eles

voltavam à infância, ao tempo em que andavam

descalços pelas ruas e jogavam ‘pelada’ no

campinho do bairro... “Bons tempos, aqueles!”,

pensavam, num instante de nostalgia... As

obrigações do dia a dia de gente grande os levou

para caminhos nem sempre coloridos, cinzentos,

muitas vezes...


José olha para o filho João e reconhece nele

mesmo brilho no olhar de quando era moleque,

quando e o circo chegava na cidade. Na época,

era um verdadeiro acontecimento! Hoje, em

muitos momentos, a vida lhe pareceu um circo

de horrores... Mas também lembrou de uma

frase do ator brasileiro especializado na arte

de fazer sorrir, Nico Serrano, de que ‎"a alegria

de palhaço não é ver o circo pegar fogo. É ver a

alegria incendiar o picadeiro”... Pura verdade!

A música começa a tocar e o espetáculo

está prestes a iniciar. “Respeitável público!

Senhores, senhoras, senhoritas, gente pequena

e gente grande! Temos a honra de apresentar o

palhaço ‘Tagarela’, o maior mímico do Brasil!

Palmas para ele!”... A criançada entra em delírio.

Todas as atenções se voltam para o Tagarela,

que fala pelas mãos, expressões do rosto e

pelos movimentos do corpo. As palhaçadas e

trapalhadas do Tagarela arrancam gargalhadas

da plateia, que se torce de tanto rir. Sucesso

absoluto!

A apresentação do palhaço chega ao fim

e o público o aplaude de pé. Ele se despede,

sem dar as costas para a plateia e se recolhe

ao fundo do palco. Agora Tagarela está no

camarim, senta em frente ao espelho e olha

para si mesmo. Tira o nariz de palhaço e

começa a remover a maquiagem. Estava feliz. O

entusiasmo do público compensava as tristezas,


a solidão, as dívidas acumuladas, a incerteza

do futuro... “Tudo vale a pena!”, disse para si

mesmo, enquanto uma lágrima escorre pelo seu

rosto...




Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre (RS) e desde 1996 radicada em Jaraguá do Sul (SC).

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Profissões (Marcelo Lamas)

Já dizia um amigo, filósofo de bar: “Toda profissão tem seu drama”. Geralmente os pedidos de consultoria acontecem em todos os setores, como alguém que chega pro veterinário e diz: “Podes dar uma ‘olhadinha’ no meu cachorro?”. Esses pedidos começam com um prenúncio, seguido de um predicado elogioso: “Tu que és um escritor moderno, sabes se ‘paraquedas’ tem hífen?”.
Certa vez recebi um telefonema de uma desconhecida:
- Oi tudo bem? Sou amiga da fulana, ela te indicou pra me ajudar. Tu que és professor, podes me ajudar a resolver um problema?
- Opa, se eu puder te ajudar.
- Eu mandei uma sandália pro conserto e fiquei sem grana pra buscar. Quando arrumei o dinheiro, já haviam se passado três meses e eles venderam pelo preço do serviço para outra pessoa. É correto isso?
Depois de sugerir que ela procurasse o Procom pra se aconselhar, a conversa seguiu e ela perguntou: “De que mesmo que tu és professor?”. Futuramente ela cursou e formou-se naquela faculdade.
Outro dia, passando pela mesa de uma novata, no meu outro trabalho, a guria me chamou:
- Me disseram que tu também és professor. É verdade ou é pegadinha?
- Ah, sim, é verdade.
- Podes me explicar como funciona esse negócio de série A e rebaixamento?
Bem, a jovem estava mergulhada num ambiente excessivamente masculino e estava tentando entender o assunto das horas vagas. Tentei ajudar:
- São quatro séries. Os últimos da série A são rebaixados para a B e assim por diante. Os primeiros vão pra Libertadores.
Eu precisei de um papel, pois não consigo explicar nada sem escrever. Uma limitação minha, não da menina. Ela seguiu:
- Quem faz mais gols, faz mais pontos? O que é “pontos corridos”?
Expliquei que a vitória vale três e o empate um. Que todos jogam contra todos, duas vezes.
Naquela altura, a menina já estava com o jornal aberto na tabela de classificação.
Foi aí que eu perguntei:
- Pra qual time você torce?
- Como eu faço pra escolher?
Surpreso, respondi:
- Torça para o Grêmio.
- Ah! É? Qual é o critério pra escolha?
Fiquei sem resposta, falei que depois eu lhe explicava e voltei a trabalhar, afinal era para aquele fim que eu estava lá.



Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com