Dormira até mais tarde no dia 21. A se confirmar as previsões seria o último dia de existência do mundo. Por que não esticar a derradeira manhã de vida?
Mas o mundo não acabou. Ele ficou feliz. A despeito dos temores da véspera, ao amigo que encontrou logo cedo no dia 22 confessou: nunca levei muito a sério essa possibilidade.
Alegre, planejava comemorar a sobrevivência na balada no sábado à noite. Mas não chegou lá. Cem metros antes o carro derrapou, saiu da pista, atropelou um poste e dois pedestres.
Os pedestres passam bem. Ele e o poste nem tanto.
Uma bela maneira de se começar um mundo novo...
sábado, 22 de dezembro de 2012
Sobrevivente do Fim do Mundo (Tiago Nascimento)
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
COMUNICADO
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Há três dias do fim do mundo (Fernando Bastos)
Uma pesquisa realizada pela Ipsos Global Public Affairs, com sede em Nova York, mostra que cerca de 10% da população mundial acredita na previsão Maia sobre o fim do mundo para esse ano.
A NASA, preocupada com o pânico das pessoas – que ligam, mandam e-mail e cartas perguntando se é verdade que o mundo vai acabar dia 21 -, divulgou um vídeo explicando porque o mundo não vai acabar nessa data. Todos os argumentos dos que acreditam nas previsões maias são derrubados com elegância pelas explicações cientificas (http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI299017-17770,00CIENTISTA+DA+NASA+EXPLICA+POR+QUE+O+MUNDO+NAO+VAI+ACABAR+EM.html).
Há casos de pais que disseram estar decididos a cometer suicídio junto com os filhos, para poupá-los de ver o fim do mundo. Segundo a pesquisa, os mais crentes de que o mundo vai de fato acabar, estão os jovens abaixo dos 35 anos, as crianças e as pessoas com menor grau de instrução.
É impossível saber quantas previsões de fim do mundo já foram feitas desde que o ser humano olhou para o céu e começou a questionar a existência. Mas há registros em quase todas as culturas antigas que já tentavam predizer quando tudo iria acabar. Como tais previsões sempre falham, logo tratam de inventar uma nota data. O ser humano gosta de ver o circo pegar fogo. No último dia do ano 999, igrejas ficaram lotadas na Europa, e houve grande número de suicídios, ricos doando seus bens aos pobres, genros fazendo as pazes com as sogras, etc.
Isso se repetiu recentemente, no último dia de dezembro de 1999. Com menos pânico, pois o ser humano evoluiu bastante e já não é tão crédulo como há mil anos.
Mas uma previsão que eu faço você pode acreditar: assim que amanhecer o dia 22 de dezembro desse ano e o mundo ainda estiver de pé, alguns profetas já estarão esfolando os cotovelos pensando em uma nova data para o próximo fim do mundo.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Sobrevivente (Inacio Carreira)
Lembrava de nada. Um vazio na cabeça, parecendo desmiolado, mas era falta de memória mesmo. Mau contato nas sinapses. Zinabrou, diriam os antigos. Curto circuito. O clarão... O clarão! O clarão e um estrondo ensurdecedor toldaram-lhe os sentidos. Deve ter sido isto, então. Um lampejo de consciência, tirada não sabe de onde, fez com que refletisse. Onde estão todos? Onde estava com todos? Quem seriam esses todos?
A luz é difusa, confusa... Muitas sombras formam grandes áreas que não consegue vislumbrar. Não distingue quase nada. Nada, nada, nada... Como repete esta palavra. Como definir o nada, descrever o nada, pensar o tudo em presença do nada? Longe ou perto? Raso ou fundo? Suave ou agudo? Reto ou redondo? Firme ou movediço? Só dúvidas, dúvidas...
Louco não está ou, seguindo vaga e remotíssima lembrança, acharia tudo 10. Vinte. Mil.
Parece postado contra um encosto de pedras áspero, frio. Dor nas costas, as pernas teimam em não obedecer. Nem os braços. Sente-se uma coisa grudada à pedra. Mas não. Não? E se fosse? Que coisa seria? Uma lesma, perereca, indivíduo em uma colônia de fungos, uma ameba? Viagem, viagens... Pareceria com o ser que Kafka, em A Metamorfose, deixa que percebamos como uma barata? Bem, ele não deixa nada, a maior parte das pessoas é que veem o ser como uma barata. Que pode ser real ou metafórica, dependendo do entendimento de cada um. Ao menos estaria “barateando” por aí, andando, meio que rastejando, sentindo o ambiente com as longas antenas. Menos, menos...
Não se sentia metamorfoseado, apenas dormente. Uma dormência gostosa, como ao acordar de um sono reparador e o sangue, seguindo os impulsos vegetativos, começasse a ser bombeado com mais pressão para o organismo, oxigenando o cérebro e todo o sistema. Vivificando.
Era bonito o mundo apesar da poluição que às vezes o escondia:
Tinha sol, e crianças sorrindo para ele, e mulheres com tangas escondendo quase nada,
E barcos que se faziam ao mar: faziam até músicas, compunham-se poemas,
Falava-se de amor que, embora às vezes pago, era bom...
Era bonito o mundo: as gentes se encontravam pela rua, ao que, às vezes,
Davam o nome de “trombada” (seriam eles como elefantes?);
E se fazia comercial até para vender o óbvio.
Era bonito o mundo e hoje, tantos sóis quase nada iluminando a Terra.
Era bonito o mundo, antes do fim...
Como um bebê principiando o explorar do ambiente, tentou mexer os dedos. Conseguiu! Quase festa, não fosse a dor. Lancinante. Lacerante. Cortante. Num esforço sobre-humano, elevou a mão esquerda para perto dos olhos, enquanto buscava aproximar o conjunto da luz. Estava no lugar. Ou melhor, o que sobrara dela estava no lugar, na ponta do braço, com as enervações ligando seus trocentos ossos (exagero, na verdade são 17, lembrou). A pele... Ai, a pele... Meu reino por um antisséptico e bandagens, ousou pensar, mesmo sabendo do surreal da situação. Com o outro braço e respectiva mão o trabalho foi o mesmo, a dor foi a mesma, a expectativa foi menor. Sabendo das condições, embora precárias, de seus membros superiores, pensou em levantar-se. Não sem antes testar a movimentação das pernas. Somente testar, porque não conseguia vislumbrar nem silhueta das mesmas... Aparentemente estão em ordem. Agora sim. Como a alavanca de Arquimedes (eita, desde sempre acontece empulhação: Arquimedes não inventou a alavanca, mas explicou o princípio envolvido no processo de alavancagem), usa a perfeita combinação de ossos, músculos e nervos para tentar levantar. Não é fácil. São ativados os músculos tibial anterior, sóleo, gastrocnêmio, quadríceps, isquiotibiais, glúteo máximo, abdominais, paravertebral lombar, trapézio e esternocleidomastóideo... Ué, de onde apareceu tanta informação? Nunca foi atento nas aulas de Ciências, Biologia e congêneres. Inconsciente coletivo, diria Jung. Inconsciente talvez, ele estava morre-não morre, a vontade de continuar deitado entorpecia os membros, embora deles precisasse para voltar à condição de primata. Como estava, grudado à pedra, faria parte dos répteis? Dos batráquios? Das assombrações?
Era bonito o mundo antes do fim. Aparecem no fundo de sua memória, borradas, enevoadas, as visões do terremoto / tsunami / vazamento nuclear que prenunciou o final dos tempos. Final dos tempos ou início de uma nova era? Pois, não fosse assim, ele não estaria agora ruminando sua desdita e ouvindo, ao longe, sons de civilização, o famoso ruído branco que deu nome ao livro de Don Delillo. Ruído branco. “Som sempre presente do tráfego da autoestrada” ou “almas ... balbuciando nas margens de um sonho”?