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terça-feira, 3 de maio de 2011

Quase um santo (Inacio Carreira)

O Zé ficou triste quando ouviu a notícia. Morrera um grande homem.

- Poxa, disse consternado para o Jão, o vice morreu.

- Pena que não foi o titular, retrucou o outro, puteado.

- Diz isto não, cara... Quantas vezes o Zé lutou contra a morte e venceu? É um herói. Até que a marvada levou ele, que aqui ninguém fica mermo.

- Venceu porque tinha grana. Lembra da dona Zica, da vendica? Foi de primera, não teve escolha. E a Lindinha, do Tonhão? Ficou mesmo foi na fila de espera. Agora, esses bacana, vão em tudo que é médico do mundo, são mais bem tratado que cavalo de corrida... Acha que eu vou ficá triste? Foi tarde... O que ele fez enquanto tava lá? Reclamou dos juros alto, que interessava pra ele, como gente grande dos panos...

- Fala assim, não... Sofreu tanto...

- E o povão, sofre não? Esse aí se juntou ao barbudo “dos trabalhador” pra usar o poder e ganhar mais. Que nem aquela mulherzinha da fábrica de sabão, como é mesmo? A suplício...

- Suplicí... aquela que mandava os ôtro gozá... Bem relaxada, ela...

- Sim, relaxados são eles todo, e a gente ainda sustenta essa máquina de fazê corrupto.

- Mas ele foi perseguido, como todo mundo que se destaca na vida. Lembra aquela uma que diz que é filha dele?

- ... e que ele foi no programa do gordo pra dizer que era filha da puta? Bem sacana ele... Foi ganhá a simpatia do povo dizendo que ia em putero que nem todo mundo... Todo mundo não, que eu nunca fui dado a essas coisa, ficava mesmo no cinco contra um enquanto não arrumei a Zefa pra trepá... Deus mandou cresce e multiplicá, não ficá indo em putero dá dinheiro pra vagabunda...

- Olha o preconceito, cara, isso dá cadeia. Puta agora é profissão.

- Sim, hoje tudo dá cadeia, menos metê a mão no bolso do cara honesto. Vê o salário mínimo? Eles brigam pra aumentar cinco real mas o deles não tem limite. E ainda ganha até telefone de graça, de graça não, nós paga...

- Quanta revolta, cara, fala assim não. É verdade, mas não precisa falá. Resolve?

- E aí vem a televisão e mostra o povo chorando porque um ricaço morreu. Tu já ouviu falá de uma tal de revolução da francesa? Aquela, quando eles derrubaram um negócio lá na França. Negócio de bartira, pastilha, bastilha, acho que é isso...

- Ouvi não, fugi da escola...

- Eu também fugi, quer dizer, nem fui. Modo de dizê, só... Mas escutei uns velho falando... Passaram o facão em tudo que era ricaço. Não que a gente devesse fazê isso aqui, não, que sou contra violência, mas e a violência que fazem com a gente? Esse negócio de doença, cara...

- É, nisso concordo contigo, continua a lei do “sabe com que tá falano”... do “quem pode mais chora menos”, do “salve-se quem puder”... A lei da selva.

- Tu tá vendo muita novela, cara... Papo estranho, esse teu.

- Novela nada. Eu tenho tempo pra isso? Vez em quando vejo o jornal, ou o futebol na TV do barzinho da esquina, ou em alguma loja no centro. Mas em casa... Quando não está estragada a gurizada só quer saber de ver aqueles programa de perseguir bandido, parece a suáti... Mas a gente sabe que é tudo encenação, teatro, não é assim que diz?

- E enquanto isto o povão otário chora a morte do ricaço. Comeu do bom e do melhor, correu o mundo todo, foi tratado como otoridade na vida e na morte, e eu vou ficá com pena? Quem tem pena é galinha, sô... Do jeito que a coisa tá, só falta agora fazê feriado, ou dia santo, pra homenageá o home...

- Talvez fosse bão, sim... Nós temo o Padim Ciço, mas é só no norte... E essa madre, mas é no sul. Tinha que tê um santo de todos os brasilero, que nem a Cidinha, mas essa é maior...

- Santo brasileiro? Só se for protetor das casa de luz vermelha... O santo das putas. Que nem aquele bandido, também da luz vermelha, quase um herói. Tem até filme. Vítima da sociedade, como eles diz.

- Credo em cruz! Arreda...

Inacio Carreira

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ninguém sabe... Ninguém viu (Vana Comissoli)

Coitadinho, falou Maria das Dores espremendo uma lágrima seca. Benzeu-se e seus lábios se moveram num Pai Nosso meio torto.

Maria tinha um apelido na comunidade, Maria Povão, apelido mais comum do que a merda que volta e meia aparecia insistentemente nas vielas. Gostava de feijão com arroz e macaxeira, novela das seis porque a das oito despertava sensações proibidas pelo pastor. Desde que começara a freqüentar a igreja não ia mais ao bailão e nem arrebitava a bunda quando passava na frente do homario que estacionava no bar do Zeca. Estava meio chato, mas fé é fé e ela se esforçava. Quem sabe assim Deus olhava para baixo e mandava um salariozinho melhor e um homem crente e sério? Não custava tentar... Pelo menos um ano apostaria no Senhor. Tinha aquela escapadela da cervejinha do sábado, mas também, ninguém é de ferro. Hoje era diferente, o homem tinha morrido e o povo todo estava consternado, rolava a cerveja da tristeza que todo mundo sabe que alivia o coração. Até o pastor perdoava e mandava a sua.

“Que alegria para nós chegarmos ao fim de nossa vida com a mesma certeza do dever cumprido.” Ai que bonito que foi ouvir estas palavras na TV enquanto o caixão desfilava todo pimpão com aqueles guardas bonitos como santos perfilados ao lado. Santa mãe! Só mesmo um homem bom de verdade para merecer aquilo tudo. Quem me dera um soldado desses! Sargento então... Seria a sorte grande. Ouviste, Senhor? UM SARGENTO ESTÁ DE BOM TAMANHO!

Combinou com as amigas que iriam à avenida se despedir. Seria uma choradeira daquelas, também com uma alma deste prumo passando na frente! Seria choro bom, de devoção. Ainda bem que era da terra do homem, do contrário só na TV mesmo. Era bonito do mesmo jeito, mas a emoção, os lenços brancos não ficam tão encantadores.

Sempre se podia ouvir umas barbaridades porque estes políticos se julgam o máximo e falam mal até de morto bem aventurado. Acredita que teve um, querendo ser presidente e fingindo que não, que teve a coragem de falar rindo com aquela carona de macho enchendo a tela: "Uma hora tem que morrer!” Cruz credo, sacrilégio falar mal de morto, dá azar. E se vira alma penada e vem puxar os pés de noite? Eu, hein? Melhor enaltecer, eta palavra bem chique essa, mas foi o que o repórter usou para falar do homem. Enaltecer... O que era mesmo? Acho que é crescer prá cima, foi isso que o homem fez, cresceu assim ó, num zapt! Mentira, cresceu devagarinho, definhando na frente dos olhos da gente.

Ficou ouvindo a trajetória do santinho até de madrugada, nesta noite nem fiscalizou o filho que estava andando em má companhia. Lutou como um mouro, o Willian Bonner disse...O que será mouro? Se tivesse amansa burro nesta hora até que tentava procurar, embora seja bem difícil mexer naquele livrão pesado que só ele. Pena que não deu tempo do homem fazer um montão de coisa que disse que se empenharia em fazer, mas também, coitadinho, demorou anos nessa tal luta de mouros. O Olavo da Lucinda é que foi ligeirinho da mesma doença. Também esses Estados Unidos que curam todo mundo é caro de ir. Porque será que não curaram o homem? Bem bom que o Olavo foi rápido. Prá que sofrer? Bobagem, a hora bate e ninguém vira semente.
“Aparentemente parece uma contradição alguém que está com seu quadro de saúde tão debilitada dizer que a situação está tão boa, que não tem como melhorá-la. Mas quando se tem a consciência tranqüila do dever cumprido, ou pelo menos fez tudo o que podia, dando o melhor de si, a morte se apresenta como um pódio onde os melhores são premiados.”

Já pensou dizerem isso da gente depois de morto? Ai, que lindeza! Não é como a gente da comunidade que o caixão nem foi comido ainda e já estão contando todos os podres. Pobre da Neusali ficou mal falada que só ela e olha que dava um duro danado no tanque para sustentar o filho drogado e maluco. Porque será que o homem nunca veio na comunidade para ajudar o Sergionor? Quem sabe ele deixava a porcaria se tivesse uma escola igual a do homem, nessas é que se aprende coisas boas. Mas... É a vida. Tá morto, tá na boca do povo, prá bom, ou prá ruim. Mas este, este era bom, o pessoal graúdo, metido a entendido é que gosta de malhar, só para parecer melhor do que é. Depois Maria não entendia mesmo de juros altos, mensalão, guindado a alguma coisa que dava uma grana preta. Então podia ficar com a verdade verdadeira: era santo, ninguém fica com aquele sorriso de novela saindo do hospital depois de um mundaréu de operação em tudo que é canto se não for santo. Maria chorou quando ele apareceu na cadeira de rodas, pediu aos santos que o pastor disse que não existiam e que ela concordava, mas no segredo da alma sabia que eles valiam a gente na hora do aperto e também chamou os anjos de asas lindas para cobrirem a cabeça do homem.

Imagina se seria ela, Maria Povão, que ia discutir alegando que o homem tinha lá suas pendengas e até filha de prostíbulo tinha embaixo dos panos. Ai, bem que ela queria ser filha deste lugar em vez de ficarem dizendo que a mãe deu para o leiteiro e por isso ela nasceu com esses olhos verdes luzindo na pele mulata... Ah, seus tempos! Eles fizeram sucesso. Era boa de bunda e de peito também, saía na escola na frente de ala. Nossa! Sai diabo, pensando essas coisas enquanto o homem nem esfriou. Será que não passarão a novela hoje? Seria uma pena, o capítulo seria de lascar. Luto é luto, tem que se ajoelhar. O homem até subia a tal rampa do Planalto que devia ser uma beleza de encerada, bem que gostava de ser a limpadeira daquele espação todo, garanto que pagam bem melhor que a dona Judite, mão de vaca. Eta pensamento teimoso, toda hora fugindo do defunto. Rico é legal, é defunto e não presunto. Não reclama Maria, disse para si mesma, até que é meio igual, tudo termina em “unto”.

Pensando bem, todo mundo acaba embaixo da mesma terra, claro que a dele é mais transada, até tem casinha em cima, ou será que vão queimar o homem? Deus me livre, tomara que não inventem isso que é coisa do diabo, o pastor disse, só para a gente não encontrar o caminho de Sião. Gente malvada essa.

Claro que o homem era bom, teve político de todos os partidos emocionado, vi com esses olhos na TV, falando maravilhas dele e olha que estes caras gostam bastante de um descalabro em cima uns dos outros. Tudo uma corja de sem vergonhas, menos este, o morto era bom demais. Filho legítimo do bom povo de Minas, igual ela. Ai que emoção, vinha lágrimas aos olhos só em pensar que era mineiro igual ela. O presidente, opa, ex presidente, a gente esquece que tem aquela sapatão agora lá em Brasília, pois ele chorou, enxugou os olhos que eu vi na TV e até visitava o doentinho no hospital. Dava umas entrevistas de apertar o coração, mas nunca perdeu a esperança da vivença eterna do companheiro. Vem cá... Todo mundo morre, né? Até Jesus morreu, foi matado tá certo, mas se foi do mesmo jeito. Na cruz ainda por cima, ainda bem que acabaram com essa covardia de pregar pessoas senão metade da comunidade já estaria espetada pelos pregões. Deus nos livre e guarde!

Maria saiu ao pátio, chamou a vizinha por cima da cerca torta:

- Cinara! Cinara! Aparece mulher!

Lá veio a amiga balançando as coxas troncudas com as varizes de um dedo fazendo aqueles desenhos de estrada.

-Que foi Maria? Tá desavisada? O homem morreu! Não aguento a dor no coração.- Cinara segurou os peitos no sufoco.

- Claro que sei. Acha que sou por fora? Não tem um canal da TV que fale outra coisa. É que eu queria segredar.

- Desembucha criatura, tem coisa melhor que esta? – Cinara se entusiasmou.

- Não, é que já estou meio de saco cheio de ouvir esta lengalenga, dói demais, até parece que eu via o homem todo o dia.

- Isso é mesmo, mas não te amofina quem sabe amanhã acontece outra coisa bem legal e os repórteres mudam de saco prá mala.

Algumas semanas depois um esquizofrênico deu tiro para todo lado dentro de uma escola e morreu criança de dar dó. Que nem o dó que Maria teve daquela menina, como era mesmo o nome? Esqueci, mas eu sei que o pai atirou da janela e teve aquele outro, como era mesmo? Foi arrastado pelos bandidos pendurado no carro. Nossa! Tanta desgraça que a gente esquece.

Quem era mesmo o homem? Zé era o Zé. E agora José?

domingo, 20 de março de 2011

Big Besteirol Brasil (Tiago Nascimento)

Taquicardia, ansiedade e sudorese
Uma mistura de emoções a flor da pele
Gritos alucinados quando sai o resultado
Revolta se não lhe for do seu agrado

É o primeiro filho que acaba de nascer?
Quem dera. Nem ao menos o primeiro irmão.
É então apuração da eleição presidencial?
Nem de longe se parece. É apenas programa de televisão.

É amigo, aceitaria até copa do mundo.
Mas um reality show na telinha da TV?
Agora eu entendo o porquê de o fim de tudo
Estar chegando, anunciado e ninguém ver...

É o nascimento dos astros do medíocre
Miopia coletiva engolindo a população
Cada povo tem os heróis que merece
E o BBB vem com tudo e com razão...

 

Prof. Tiago Nascimento
jesuscristohumano@gmail.com