quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Noites de Sábado (Robert Brotzke)
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Aulas de Culinária: Ah!... Família... (Vana Comissoli)
A casa ficava a sombranceiro do morro. De longe, ao subir a lomba, já se avistava suas aconchegantes formas brancas: o arco da varanda, as duas janelas alegres, sempre abertas para as hortências, que no verão coloriam tudo de azul alilasado. A porta das visitas também era oval e a campainha estrilava num som de sino, agudo e divertido. De perto, seu reboco, lembrando glacê de bolo, despertava desejo de criança: dedo roubando porção para lamber.
Havia um estreito corredor ao lado da casa por onde se chegava à entrada íntima. Sua pequena área estava invadida pela pitangueira carregada de frutos vermelhos e cheirosos. Impossivel passar sem roubar uma folha e masserá-la até que sua seiva enchesse a mão de perfume intenso, obrigando a gente a cheirar as pontas dos dedos até terminar o alento. Era desta porta que eu mais gostava. Meu passaporte de importância, de aconchego, eu fazia parte da família, nem me importava de não retinir campanhia.
A casa pertencia aos meus tios, onde costumava passar as férias. Construída num bairro distante e pouco habitado, chegar lá dava sensação de viagem a outra cidade. Balançava em dois ônibus para vencer a distância de chegar. O bastante para sentir-me em outro país.
Saía do apartamento silencioso de filha única e penetrava na ruidosa vivência com meus quatro primos: duas meninas e dois meninos. Todos mais velhos do que eu, mas não tanto que me fizesse sentir ameaçada.
Em casa, empregada arrumando meu café, almoço pronto quando chegava da escola; roupa passada e cama feita na hora de dormir. Lá, no lar de verão, lavando a louça com as meninas, aprendendo incipiências de culinária, varrendo o chão e tirando o pó. Dias pares na limpeza, com a prima Ana; dias ímpares, com Suzana no preparo das refeições . De noite sempre sopa, e, às sete em ponto, que o tio era severo e chegava cansado do trabalho. Só mais tarde vim a compreender que era também machista e autoritário. Na época o víamos apenas o pai.
Dezembro se aproxima. Os exames do fim de ano exigem muita atenção, se passar em todas as matéria (agora são muitas, pois estou com quinze anos e adiantada na escola) irei gozar as férias na casa da tia Zuleica. Termino tudo muito bem.
Lá me vou, maleta em punho, sacolejando no ônibus amigo. O ponto de descida é um pouco além da casa, por isso, da janelinha, vejo meus primos em festivos abanos de boas-vindas.
Beijos, risos, tudo a que tenho direito, me recebe. Meu coração pula de alegria. Alguém me toma a bagagem das mãos e vamos entrando pela porta do lado, mão esticada para arrancar a folha de pitanga. A cachorra vem latindo e abanando o rabo,faço um carinho rápido no pelo hirsuto. Vontade de entrar logo na ampla cozinha, a maior peça da casa, onde a família se reúne para comer, brigar e fazer planos. Onde passarei a maior parte do meu tempo nos próximos dois meses.
Ah, que bom ver de novo os dois fogões: um a lenha, onde a chaleira nunca esfria e outro a gás, para modernizar as lides. A grande geladeira branca, com seu logotipo GE, bonito nas letras douradas. O paneleiro e suas panelas de espelho, orgulho da prima Suzana. Nos armários de aço, pintados de branco, guardam-se as louças com suas pinturas de rosas e junquilhos. As prateleiras laderais, de flancos arredondados, suportam, com orgulho os objetos preciosos: chaleira antiga, peças de porcelana desparceiradas e o maravilhoso bule de chá inglês, todo azul com figuras brancas: cenas de caça.
Na mesa redonda, onde sentamos espaçados, largo minha bolsa novinha. Vontade danada de distribuir os presentes: lenço de cambraia com um Z bordado à mão para a tia, brincos dourados para Ana e prateados para Suzana; par de meias azuis para Humberto e marrons para Roberto. O tio não precisa.
Meu primo Roberto é o mais velho, sorriso mestiço, movimentos calmos, voz que se ouve em raro. Meio burro, não conseguiu terminar os estudos, por isso dedicou todos os cuidados ao corpo que desenvolveu pendurado na barra do quintal.A pele foi amorenada no trato do jardim e num sangue índio perdido nos ancestrais, -até negro tem na família- informava a avó no desacerto de seus olhos azuis de origem francesa.
Humberto puxou a mãe: uma barata meio descascada, cabelo sem cor, ou cor de areia, se um elogio fôsse necessário. Humor fácil, riso solto, um nome feio sempre na ponta da língua. Namorador e apaixonado. Cada festa um porre e uma declaração de amor para quem estivesse mais próximo.
Ana, a mais velha das irmãs, retrato escarrado do primogênito, até no comportamento resguardado. Contrário de Suzana, a caçula, rabo quente, mentirosa e matreira. O problema da família, com sua predileção por namoros nos cantos escuros e dança de rosto colado. Rindo de sacudir toda ao enganar o avô cego e conseguir uns trocos para comprar um cigarro que seria fumado escondido, atrás das laranjeiras carregadas.
Todos de férias. Tempo de sobra para traquinagens. Nós, meninas, na obrigação do levantar cedo, sempre prontas para uma brincadeira sacana com os rapazes que dormiam até mais tarde. Eles, correndo atrás, em vinganças de cócegas, ou de nos pegar desprevenidas estourando ovo nos nossos cabelos sedosos.
A manhã nasce ensolarada. Preparamos os paus de fósforos queimados até o limite, ainda com a brasa viva. Eu serei a agente do dia.
Entro no quarto dos primos. Roberto dorme na cama mais próxima, será a vítima. O lençol mais descobre do que esconde o corpo, só de cuecas devido ao calor. O pé está na posição correta, virado para cima, dedos na espera do mosquitinho ardido. Com todo cuidado implanto o fósforo em brasa. Meus olhos escorregam pelas pernas de músculos proeminentes, tão diferentes das minhas e um segredo dentro da pequena peça do vestuário, não sei porquê, se avoluma em minha direção. Saio rápida. As meninas me esperam no corredor, em risos seguros pelas mãos em concha sobre a boca. Meu coração está assanhado dentro do peito. Será medo que o primo me pegue na ação diariamente esperada?
Um grito, um - merda, guria sacana ─ nos põe a correr. Logo o vulto, com calções ao meio das pernas vai crescendo sobre nós.
─Cada uma para um lado.
Corro o mais que posso procurando o abrigo seguro das laranjeiras. Uma mão me pega pela saia e me puxa, dois braços de ferro me levantam do chão e eu grito um socorro cheio de risos. Demoro a sentir a terra sob os pés, o abraço parece-me que afroxou, mas, porque não me larga? Enfim posso fugir. Olho sobre o ombro verificando a solidez da distância. Roberto não me segue. Está parado me olhando.
Os dois rapazes sentam-se à mesa, Humberto bate no tampo e com voz de tio exige:
─ Café, suas lerdas, minhocas de aquário, antas velhas.
Prestativas colocamos as xícaras servidas e fumegantes ao máximo, já bem açucaradas com sal. A vingança, bem sabemos, será cruel.
Hoje é terça-feira.
Suzana abre a GE. Tira um tatu de bom tamanho, linguiça, ovos, tempero verde, cebolas e muitos tomates. Eu observo.
─ Corta esta cebola, bem miúda, Angela, enquanto ponho a panela de ferro para esquentar.
Obedeço. Na cozinha é o que me resta.
Minha prima faz um furo na carne com uma faca pontuda e comprida. Penso nas notícias de morte que, às vezes, ouço meu pai comentar enquanto lê o jornal. O ovo ferve em cima do fogão à lenha e a panela, se esquenta na boca de gás. A linguiça é introduzida na carne. Olho fascinada. A carne é vermelha e Suzana a segura com firmeza, enche-lhe a mão. O recheio da linguiça, carne guisada, estica a pele que o contém, entra sem medo no túnel escuro que aguarda.
─ O que foi, guria, está de mandrake? Pega os tomates e pica bem picado, mas antes escalda para tirar a casca.
Obedeço, sem deixar de olhar a linguiça entrando no tatu e depois um ovo duro e mais outro.
O cheiro da banha quente satura o ar. Alho amassado e derramado sobre ela, uma fumaceira sobe da panela. A cebola que vai a seguir, perfuma tudo.
Suzana fecha o buraco da carne com o pedaço que tirou dela e prende tudo através de palitos.
Sinto um movimento nas minhas costas quando me viro recebo em cheio, na cara, um punhado de farinha de trigo e um copo d’água. Roberto ri, tanto que precisa se agarrar nos meus ombros para não cair e encosta a cabeça na minha enquanto esperneio e dou socos flácidos no seu peito.
Preciso de um banho, trocar as roupas. Suzana continua sozinha o trabalho. Liga o rádio no máximo e, do banheiro que divide parede com a cozinha, acompanho pelo cheiro, a carne ser posta na panela e ir dourando. O aroma se aprimora na lentidão do fogo. Os tempêros caem um a um e percebo o alecrim, a pimenta do reino, pouquinho de orégano. Afinal dimunem de intensidade quando a tampa recolhe todos eles. O sal não senti, que perfume não tem nenhum.
Volto a tempo de ver o molho italiano ao suggo ser preparado.Muita cebola frita, alho de companheiro. O tomate, que piquei, avermelha sobre tudo, chiando no calor. Depois a folha de louro, a pimenta do reino, o sal; em seguida uma prova na palma da mão . Suzana faz um volteio, sacode o corpo ao rítmo do samba-canção que canta a saudade do amor longíncuo. A mexida da colher-de-pau na grande panela cheia de água , sal e um tanto de azeite, medido no olho, acompanha o começo do Roberto Carlos falando em botões da blusa se abrindo. A moça-cozinheira abre a própria roupa e eu fico hipnotizada, olhando. Em vez de seios em soutiens, enxergo pernas e volumes em cuecas.
O molho ferve, a carne dourada cozinha no próprio suco e o macarrão entra duro, se amolecendo aos poucos na água fervente. Espaghetti.
Almoçamos com voracidade. Tia Zuleica foi ao médico, o tio, como todo dia, voltará apenas à noite. Temos festa, coca-cola e malícia. Humberto senta-se ao meu lado e fala da namorada Telma, uma gata para ninguém por defeito, uma paixão de arromba - definitiva. Ana sacode a cabeça em desaprovação e gira no dedo o anel de promessa que o namorado, quase noivo, lhe deu. Suzana come e mais nada. Pensa apenas na ambrosia amarela e doce esperando na geladeira. Roberto, na minha frente, olha o macarrão se enrolando no garfo, o molho vermelho que pinga e crava os dentes com força na carne macia. De espaço em espaço, espia por cima do garfo, bem na hora que o espio também e baixamos rápido a cabeça. A comida cai como uma pedra no meu estômago.
O Natal se aproxima, a família toda virá festejar aqui. Dias antes estamos no preparo da cera esticada no chão, a árvore de puro brilho e lâmpadas montada na sala, a cozinha cheirando a calda, ovo, passas de frutas e pães crescendo no forno.
Sempre ajudei meu primo mais velho a arrumar o pinheiro que quase alcança o teto. Quantas vezes ele me levantou no colo para que eu pudesse colocar a estrela-guia no galho mestre? Estou muito pesada, mesmo assim ele tenta me erguer, meu corpo tem que colar-se ao dele. Estendo os braços em direção à árvore enquanto sua mãos me pegam pela cintura:
─ Ligeiro, prima, que não te aguento.
─ Mais um pouco, mais um pouco. Ah!
Caímos os dois. A cadeira aonde subimos desaba junto. Rolamos no tapete e eu o abraço, nossas bocas se buscam numa ânsia que cresceu dia a dia. Sinto seu peito chato apertando meus seios incipientes e seu sexo pressionando o meu. Ele é tão grande, tão quente. Me liberto, saio correndo para o banheiro. Choro de frustração, desejo intenso e impossibilidade.
Os dias que faltam para a grande festa passam normais: nenhuma palavra estranha é trocada, nenhum comentário incômodo é feito. O silêncio é muito mais rico que o falar. As brincadeiras de cócegas se tornam longas, as vinganças terriveis, abraços poderosos e os mosquitinhos da manhã são colocados com técnica mais aprimorada, exigindo uma demora na consecução do feito.
Roberto deitado, olhos acesos, espera a chegada da terrivel agressão ígnea. As mãos ásperas seguram a prima traidora e fazem revanche passeando pelos ombros, audaciosamente, indo aos seios. arrepiando os mamilos. Sem poder escapar Ângela se estica na cama e permite. Faz parte da guerra: atacar e ser atacado.
A festa enche a casa de tios, avós, primos, primas. Hoje é Natal, todo mundo pode beber um pouco mais. Isto dá chance que, os que estão de mal, por motivos justos ou não, se abracem e confessem um bem-querer imorredouro. Lá está Humberto, o campeoníssimo do perdão de Natal, pendurado no tio, ouço sua voz tropeçando nas consoantes:
─ Eu prometo, pai, volto a estudar, tu sabes como te amo, mas não sou teu filho predileto, gostas mais do burro do Roberto. Vai ver, por isso preciso rodar, aquela história de chamar atenção.
─ Filho, besteira, eu que te amo. Tu vais fazer o melhor, tu és o melhor.
As lágrimas se misturam, trocam de cara e saem os dois abraçados a tomar a fresca da noite enquanto a turma jovem canta a plenos pulmões:
Noite feliz, noite feliz.
O Senhor, Deus de amor...
Vejo Alceu, o quase-noivo de Ana, puxá-la para a varanda.
─ Ana, meu bem, eu te amo.
─ Eu também te amo, Alceu.
─ Morzinho, a gente vai casar. Já compramos fogão e geladeira.
─ Que bom!
Alceu abraça a quase-noiva, sua mão anda nas costas, no pescoço. Enquanto seus lábios calam sua boca, a mão toca a ponta do seio por sobre a blusa.
O pensamento de Ana corre também, atrapalhado:
─ Alceu é meu quase noivo, a gente vai casar, ele disse. Nos amamos... No seio, só no seio pode; ou não pode?
Suzana levanta-se do sofá, larga na mesinha de centro o cálice com um resto de vinho branco, demora para se aprumar, parece que o corpo está muito pesado. Retoma a caminhada rumo ao corredor, erra a porta, bate com o ombro no batente. Pára e enfim desaparece.
─ Puta que pariu, estou bêbada. Preciso chegar no banheiro, está me dando uma ânsia, ai, que vem tudo para fora. Anselmo, desgraçado, filho de uma égua, não vieste e comprei abotoadura cara de presente. Eu arrumo logo outro, idiota, brocha, fresco. Cadê o banheiro? Mudou de lugar, merda?
Eu continuo cantando, mas não deixo de ver quando Roberto sai da sala. Sinto sede, tenho urgência de beber um refrigerante, a champanhe me deixou tonta. Fumei um cigarro que me deu uma bobeira na cabeça.
Ao chegar na cozinha encontro meu primo. Não tem ninguém no fundo da casa, ele me abraça:
─ Ainda não te dei feliz Natal, prima. Desculpa o esquecimento.
─ Foi nada.
Ele me beija na boca e fico mole, devagarinho vamos indo para a churrasqueira, às escuras na falta de utilidade nesta noite. Roberto se deita no sofá e me puxa sobre ele, suas mãos procuram lugares que quero entregar. Sua voz, distante como as estrelas, soa lambendo o meu ouvido:
─ Nunca faça isso com mais ninguém. Não vão cuidar de ti. Só eu vou cuidar, só eu...
Não quiz ficar na casa da tia Zuleica até a chegada de março. Minhas amigas estavam me procurando, disse minha mãe. Depois cresci, nunca mais passei férias lá, mas não perdi a amizade pelo meu primo Roberto, nós crescemos juntos, difícil esquecer, mesmo depois de casada.
A esse tempo devo o fato de ser excelente cozinheira, meu marido que o diga!
Vana Comissoli
segunda-feira, 15 de abril de 2013
A ponte invisível (Sônia Pillon)
“No meio do caminho tinha uma ponte. Tinha uma ponte no meio do caminho.” Sim! Trata-se de uma paródia do poema de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do caminho tinha uma pedra...” A verdade é que essa ponte não era de concreto, nem de madeira, nem de metal, nem de corda, como as do Exército... Seria bem mais fácil se fosse uma ponte com materialidade, que pudesse ser tocada com as mãos, e com uma superfície sólida. Mas tinha uma ponte, ah se tinha!
A ponte a que me refiro é uma ponte invisível, construída através da imaginação e dos sentidos, atravessada todos os dias, com a velocidade da luz, de duração variável. Porque era através dessa ponte que Mary Anne se comunicava com Leroy. O vilarejo de Mary Anne ficava no Ducado de York, na sombria Bretanha da Idade Media.
Era um lugar cercado de montanhas e cortado por rios. A família de Mary Anne era numerosa: seis irmãos para controlá-la...
Um dia, faltou farinha na aldeia e ela teve de viajar, camuflada de homem, para buscar o produto. Atravessou o rio de barco e, depois de muito navegar, chegou ao seu destino. Foi no mercado da aldeia distante que ela conheceu Leroy, o mercador de queijos. Conversa vai, conversa vem, sorrisos, olhares trocados, desejos inconfessáveis...
Mas ela não podia se demorar, e portanto prometeram se reencontrar. Como a jornada era longa e nenhum dos dois podia encurtar a distância, pelo menos naquele momento, se reencontrariam todas as noites, durante os sonhos... Criariam uma ponte invisível...
Durante o sono profundo, os dois se posicionavam de um lado e do outro da ponte e acenavam seus lenços. Aí eles a atravessavam... À sua volta, seres fantásticos de asas sobrevoavam o local, com densa vegetação, iluminado pela tênue luz da lua...
Uma noite, um forte temporal atingiu a aldeia de York, o que obrigou os moradores a ficaram alertas com a altura do rio. Havia o risco de inundar os casebres... A situação se repetiu por sete dias e sete noites.
Nesse período, sempre no mesmo horário, Leroy se posicionou do outro lado da ponte com seu lenço, noite após noite, mas Mary Anne não apareceu...
Aturdido, ficou conjeturando o que teria acontecido: O que será que aconteceu com ela? Estaria doente? Teria morrido? Ou simplesmente teria se cansado dele e outro estaria tomando conta de seus sonhos? Acordava sempre angustiado, sem saber o que pensar...
Mas foi na oitava noite, quando já não tinha mais esperanças, que Mary Anne reapareceu e contou tudo a ele... Foi então que os dois combinaram um novo encontro, dessa vez no mundo real...
Ao acordar, Mary Ann olhou em direção ao rio e sorriu... A ponte invisível, finalmente, deixaria de ser imaginária. Mas até quando?
- O passado já passou, o presente é uma dádiva e o futuro ainda não chegou... Se beliscou para ver se estava acordada. Depois ajeitou os longos cabelos castanhos, com um sorriso à la Mona Lisa. Iria começar os preparativos para a longa viagem...
Sônia Pillon
domingo, 3 de março de 2013
Herança da guerreira Tonha (Elianete Vieira)
Conheceu seu príncipe ainda criança. Viviam na mesma fazenda onde os pais de ambos trabalhavam. Cresceram e brincaram juntos. Brasilino, filho de italianos, não chegou num cavalo branco, mas juntos lutaram muito para mudar o rumo da vida, sempre em busca de melhoria para eles e os filhos.
Na roça nasceram, na roça se casaram, na roça criaram os filhos quando ainda pequenos. Tunica, como era chamada, contava que havia carpido pés de café até o final da luz do dia, naquele 25/09, caminhado quilômetros de volta para casa, e pouco depois de chegar, começou a sentir as dores do parto, nascendo uma bonequinha a quem batizou de "Erza", que só descobriu que seu nome de fato era Elza, em seu 1º dia de aula, aos sete anos.
Nascida e criada no mato, analfabeta e convivendo com lavradores italianos, possivelmente analfabetos também, Antonia não sabia a grafia e pronuncia correta de algumas palavras, nem sabia ela que falava italiano misturado ao português.
Mas uma coisa ela sempre teve forte dentro de si: - meus filhos estudarão e serão mais do que fui. - E assim fez. Quando chegou o momento dos filhos, cinco, estudarem, ela arrumou a mudança para a cidade, Espirito Santo do Pinhal, arranjou emprego na Votorantim e colocou os filhos na escola. De lavradora passou a operária, rapidamente aprendendo o novo ofício. Trabalhou até os 42 anos quando seu 6º filho, uma menina, nasceu morta.
Os filhos mais velhos dividiam o tempo entre a escola e a fábrica. A Elza, sua 4a filha, com 10 anos era a "dona de casa". Limpava, lavava e cozinhava para todos. Subia num caixote para alcançar a pia e fogão. Mas dava conta do recado. O irmão caçula teve mais sorte, pois teve mais tempo para brincar e estudar. Mas era mais rebelde e fugia da escola para brincar.
E assim, Antonia, analfabeta continuou, mas viu seus filhos aprenderem a ler e a escrever. Eles se diplomaram na 4a série primária, como era chamada na época essa primeira fase escolar. Mas ela já se sentia vencedora. Havia dado para seus filhos mais do que havia recebido de seus pais. Filhos operários e "com leitura".
Os 5 se casaram. Deram-lhe 17 netos que puderam estudar antes de começar a trabalhar. Com orgulho vó Tonha, como os netos a chamavam, viu suas primeiras netas se formarem na faculdade. Viu algumas netas se casarem. Viu os primeiros bisnetos nascerem.
Seu orgulho e realização eram gigantescos, porque sua meta havia sido superada pelos filhos que herdaram sua força e honestidade para o trabalho e multiplicaram seus feitos, dando-lhe mais conforto e estudos para seus filhos.
Tonha dizia aos filhos:
- Eu não tive nada. O pouco que lhes dei é muito para mim. Vocês tem que dar o dobro para os filhos de vocês. E eles o dobro também para os filhos deles. Sempre o dobro.
Quando uma neta foi trabalhar no estrangeiro, ela estava doente e chegou a ser internada. Ela dizia ao médico e aos enfermeiros que ela precisava viver para ver a neta chegar do estrangeiro e contar sobre a neve que ela não fazia ideia de como seria.
A neta ao chegar dos EUA após passar o mês de janeiro em treinamento em pleno inverno de Boston, foi visitá-la com dezenas de fotos e muitas histórias, além de um filme. Nos dias 13 e 14 ela ouviu atentamente as histórias, olhou e comentou cada foto, com olhinhos brilhando de felicidade e admiração, pela neta que mais uma vez a tinha feito superar mais um limite com sua viagem ao "estrangeiro", como ela dizia.
Ao despedir da neta no final da tarde de domingo, a neta lhe disse que ia trabalhar em Curitiba mas voltaria no sábado para vê-la. Ela respondeu informando que aquela seria a última despedida, pois ela estava partindo e não estaria ali no próximo final de semana. E ela estava certa. No dia seguinte, 15/02/1993, Antonia durante o banho disse para a filha: - "Erza estou partindo." - Tombou sua cabeça e dormiu para sempre.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Lágrimas de crocodilo (Inácio Carreira)
Saiu de casa. Pela última vez, dizia. Nem que chore lágrimas de sangue (bonita figura, apreendida na infância e que algum escaninho mental, aberto agora com toda essa emoção, deixava vir à luz da consciência). Não via vantagem alguma em estar atrelado a uma instituição que dava, a ele, somente casa, comida e roupa lavada. Cobrando, pensando não exigir nada em troca, o que de mais importante ele prezava nessa vida: a liberdade.
Liberdade de ir e vir, de ficar na rua até altas horas com os amigos, de não lavar a louça do café da manhã atrasado, de deixar seus pertences por toda a casa (afinal, diziam sempre que a casa é dele, que ele faz parte da família, que todos o amam!)...
A partir desse amor apontavam seu futuro: teria que ser médico, detetive, advogado, escritor ou qualquer outra coisa que a mãe vivia escarafunchando naqueles sites de horóscopo e consultando tudo que era vidente que aparecia na cidade. Controle remoto. Sim, era assim que ele sentia-se: manipulado por controle remoto.
Que amor é esse que cobra pedágio, ágio, explicações? Deixassem que vivesse sua vida em paz e ele ficaria ali, sendo o exemplo (mau?) para os pequenos, para os vizinhos, para os filhos das ex professoras. “Veem o Zé? Deu pra nada, não... Virou chupim”... Chupim o catso... Ele tem dois ovos, mas não os colocou no ninho de ninguém para serem chocados... Aproveitador?... Passa... Ele não pediu pra nascer, pediu? Teria, agora, que entrar nessa de provedor do capitalismo selvagem e virar escravo de empresas internacionais, de rede de computadores, de nomes absurdos de empresas telefônicas que disputam os ouvidos dos incautos com as mais absurdas ofertas, fazendo o infeliz (que se acha feliz) esquecer que pode estar adquirindo um tumor pela proximidade das ondas eletromagnéticas com seu cérebro?
Sempre procurei ser social, cortês, observador, colocar meu senso crítico a serviço do próximo, tentava justificar-se. Do que valeu? Nada, nada, nada, repetindo o refrão do “Você não soube me amar”... Valorizava a amizade, colocando no freezer os traíras. Sem piedade.
“Sexo, drogas e rock n’roll”, sua máxima, somente dele, ninguém mais entende. No começo sexo era tudo para ele, espírito e matéria. Além dos Beatles e dos Rolling Stones amava de corpo e alma suas parceiras em relacionamentos profundos, mágicos, trágicos. Trágicos? Sim. O rock foi substituído pelo funk, o sexo foi substituído pelas drogas, o funk foi substituído pelas drogas. “Zé, sai dessa vida, vai estudar, trabalhar, ser gente!”, diziam, como se ele não fosse gente. Gente e respeitado no pedaço de beco em que cada pedrinha é disputada às vezes na mão grande, às vezes no tapa, mesmo...
Aquela camisa laranja vai ser seu amuleto: no sábado escapou de uma batida policial, deu sorte, os homens entraram quebrando tudo, ele soube pela zinha...
Inácio Carreira. CONTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NO LIVRO TRAMAS, MOLESKINE EDITORA, NOVEMBRO DE 2012.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Onde está teu irmão? (Inacio Carreira)
Abel, a primitiva vítima
“Não sei, sou eu tutor de meu irmão?” Chorei quando ouvi essas palavras. Eu já as havia ouvido, mas não nesse contexto. Não depois que meu irmão resolveu abandonar a casa de nossos pais. No que ele era diferente? Ou melhor, vendo de outro ângulo, no que eu era diferente dele? Filhos do mesmo pai e da mesma mãe, criados sob o mesmo teto. Com diferença de dois anos frequentamos a mesma escola (ele nasceu primeiro), fomos às mesmas festinhas de família, dos filhos dos amigos de nossos pais, éramos como agulha e linha, como falavam os mais velhos. Inseparáveis.
Até que mudou. Eu ou ele mudamos? Ambos, decerto. Mas foi uma mudança radical. Enquanto eu continuei com as aulas de violino, ele abandonou o piano para tocar lata, ou quase: entrou para um programa de música experimental em uma associação de periferia, furou as orelhas (alargador, disse ele, para arejar as ideias), começou a fumar coisas que não são vendidas nos bares, usava incenso em demasia (para espantar os maus fluídos, justificava), banho só vez em quando, cabelos seguindo moda dos etiópicos. Será que ele sabia disso?
Não importa. Quantas vezes meu pai ou minha mãe perguntaram, tal qual o Senhor: “Onde está teu irmão?”. E eu não sabia dizer, ou não queria, na maior parte das vezes. Não podia? Ia mudar alguma coisa?
Ele, por ser mais novo, meio adoentado, foi cercado de gentilezas. Talvez, por isso, sem querer parecer psicologístico, cresceu em um mundo irreal. Onde o estudo, a carreira, o casamento, o futuro não tinham papel. Ou ele não tinha papel nessas funções. Não se via responsável, somente tutelado. Passou sua infância mimado por três pessoas embora eu, a pessoa mais nova dessa tríade, não gostasse muito do que era obrigado a fazer. Escondido, mostrava minha verdadeira face, talvez com isto afastando meu Abel de estimação. Matando, nele, o que de carinho pudesse haver por nossos pais e por mim próprio.
Será? Não sinto culpa, creio que se fosse essa a hipótese eu teria. Sim, teria, tenho certeza.
Mas não tenho nada a ver com isso. Continuei meus estudos de música clássica, corro o mundo e vejo, em cada jovem à beira da calçada, quer na Europa ou em qualquer outro lugar do mundo, a meu irmão. Ou a um ser parecido com ele, que desistiu de lutar neste mundo onde a lei do mais forte prevalece. Que não tem espaço para culpados. Para covardes. Para os que vão morrer e saúdam, saúdam, saúdam... Não sei quando vi meu irmão pela última vez, mas sei, que logo depois deste fato, ele passou a viver somente em minhas lembranças. Que eu tentava manter o mais saudável quanto possível. Éramos, então, dois irmãos brincando de orquestra, eu o maestro, ele o spala, um prestando reverência ao outro, um tentando ser melhor que o outro. Ele conseguiu?
Inacio Carreira