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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Jesus, sob dois olhares (Fernando Bastos)

Os dois nasceram no mesmo dia, 25 de dezembro, mas tomaram rumos diferentes na vida; a mãe, adepta do crack e da vida fácil, não sabia quem era o pai, largou-os num orfanato e sumiu. O que nasceu antes entrou num lar cristão, foi batizado e ganhou o nome de Salvador. Aos seis anos lia a Bíblia, rezava o terço. O outro, recebeu as simpatias de um casal estrangeiro e o nome Darwin, com o tempo saberia que o homem que o recolheu das mãos da madre e a quem chamaria pai trabalhava em meio a tubos de ensaio, microscópios, pipetas e livros de biologia molecular; a mulher dele, uma respeitada professora de mitologias, dava aulas e escrevia livros sobre civilizações antigas.
Os gêmeos cresceram amados, cada um em seu canto; Salvador fez catequese, ajudou o padre na missa, respirou a fumaça perfumada de olíbano que saía em forma de arabescos do turíbulo que sacolejava nas pequeninas mãos no momento da consagração, comeu hóstia na sacristia, formou-se em contabilidade, namorou, leu e releu os Evangelhos, casou, encheu a casa de santos e crucifixos, um sinal da cruz cada vez que passava por um deles, teve filhos católicos como ele e como seus pais adotivos, o que era de se esperar. Tivesse sido criado num kibutz, seria judeu; estudado numa madrassa, islâmico, e por aí vai. Darwin aos dez anos interessava-se por dinossauros, genética, neurociência, deuses gregos. Adulto, foi dar aulas de filosofia, apaixonou-se por uma aluna, casaram, tiveram um filho.
Poucos dias para completarem 33 anos, os gêmeos se veem pela primeira vez, desde que foram separados com poucos meses de vida. Seria o primeiro Natal juntos, e de quebra, comemorariam juntos seus aniversários. O que morava fora, veio ao Brasil com mulher e filho especialmente para reencontrar o irmão. Os dois deixaram as famílias em casa e saíram bem cedinho para andar pela praia, queriam exclusividade do momento. Caminharam abraçados, chutaram a água gelada que vinha lamber a areia, riram e choraram a dor dos anos longe um do outro.
Então, Salvador disse: irmão, gostaria que fosse comigo hoje à igreja, quero lhe mostrar o presépio; eu ajudei a montá-lo. Podemos aproveitar e confessar; não vai ter muita fila. Darwin sorriu e perguntou: confessar pra quê, Salvador? Ora, espantou-se o outro, todo mundo confessa seus pecados, assim Deus nos perdoa e temos as portas do céu abertas. O filósofo questionou mais uma vez: e se eu não me confessar, o que Deus fará comigo? Infelizmente você irá para o inferno, respondeu o beato, e seria muito triste para mim separar-me pela eternidade do único irmão que tenho e tanto amo. Darwin, você não é cristão, não teme a Deus?
Por que devo temer a Deus, Ele não é bom e misericordioso? Não creio nesse negócio de inferno, assegurou o que viera de longe. E explicou: é um mito inventado há muito tempo pelos sacerdotes mesopotâmicos, uma boa sacada pra manter o povo quieto e obediente. Todas as culturas que vieram depois emularam esse conceito, criando seus próprios infernos: egípcios, gregos, romanos...o cristianismo apenas o pintou com cores mais fortes. O zoroastrismo pelo menos dava oportunidade ao condenado se purificar numa espécie de purgatório de onde poderia sair a fim de se juntar aos outros no céu. O cristianismo não; fez vocês acreditarem que o inferno, além de ser um lugar real, onde haverá choro e ranger de dentes, é eterno, assim como o sofrimento dos infelizes que o conhecerem. Ora, um deus assim, que lava as mãos ao lhe da o livre arbítrio para amá-lo ou rejeitá-lo, mas se escolher a opção errada, aquela que ele não quer, o trancará num lugar de infinito suplício, se assemelha ao marido ciumento que diz à esposa que ela é livre para sair, mas se o trocar por outro, a encherá de pancadas até o fim de sua vida. Salvador, você é inteligente, piedoso, mas devia ler sobre mitologias pré-cristãs, para separar o mito da realidade. Desolado, e já prevendo o irmão sendo lançado às chamas do inferno, o católico perguntou: por acaso não crê em Jesus, acha Ele uma invenção como andam falando por aí?
Ele não é um mito, disse o outro, pois temos evidências do Jesus histórico. Mas sua biografia, ah essa meu irmão, essa ganhou retoques no Concílio de Niceia, organizado por Constantino. Jesus não podia ficar abaixo dos deuses romanos, tinha que superá-los. O galileu foi um professor da moral, como o foram Sócrates, Confúcio e Buda. Teve muitos acertos dignos de aplauso, mas cometeu alguns deslizes.
Darwin estava indo longe demais ao criticar o próprio Deus; o que teria aprendido naquela família secular a ponto de se tornar tão cego diante da única Verdade? Agarrando-se à piedade cristã, Salvador tentou trazê-lo de volta à Luz e convertê-lo: Jesus é perfeito, nunca encontrei uma falha em tudo que pregou...O filósofo escolheu as melhores palavras, pois não queria magoar o irmão, mas sabia que às vezes, para remover as chagas do obscurantismo, é necessário empregar remédio amargo. Parou de andar e convidou Salvador para sentar sobre uma pedra no final da enseada. O sol já despontava no horizonte, os barcos dos pescadores voltavam com suas redes cheias da valiosa mercadoria que logo seria vendida. Os primeiros compradores assomavam ao local onde os homens do mar desembarcariam. Rememorando um trecho bíblico, Darwin disse: Jesus falou à multidão que o seguia, se é mesmo que falou ou se colocaram em sua boca mais tarde, que ninguém vai ao Pai, isto é, chega ao céu, senão por ele. Nunca me conformei com essa frase, Salvador, pois demonstra acima de tudo arrogância, pois ignora que o mundo é habitado por judeus, hindus, muçulmanos, taoístas, agnósticos, ateus, que têm suas próprias crenças, dúvidas ou descrenças. Seguindo essa obtusa ótica cristã, os mais de cinco bilhões de seres humanos de hoje já estão condenados. Sem falar em todos que nos antecederam e morreram sem abraçar a fé cristã. O que é incrível e assustador, é que a teologia cristã ensina que um estuprador e assassino de dez crianças merece o céu, caso se arrependa, confirme a fé em Cristo e se confesse no último minuto de vida. Mas um judeu honesto, bom pai de família, vai para o inferno. Isto é, segundo essa visão desvirtuada, a crença é mais importante que o ser-no-mundo. Salvador, você consegue compreender a magnitude dos problemas que essa crença tem causado à humanidade? Não importa o quão honesto for o indivíduo, se não crer nessa Igreja que se julga a detentora da verdade, tem o passaporte carimbado para o fogo da Geena. Desculpa, mas isso é bem humano, demasiadamente humano.
Os gêmeos ficaram em silêncio por longos minutos, observando os barcos que atracavam à praia. Os peixes pulavam dentro das embarcações, reluzentes ao sol, impregnando o ar com seu característico cheiro, braços nus e bronzeados os colocavam em enormes cestos, pesavam-nos em balanças enferrujadas e os embrulhavam em jornais velhos, sob vigilância atenta dos compradores e das aves negras que voavam em círculos esperando alguma sobra para o almoço. Ali, naquela pedra, dois homens assistiam a tudo, mas suas mentes estavam distantes, remoendo o debate daquele início de manhã. Num acordo tácito, pois embora todo o tempo afastados um do outro, parecia que falavam telepaticamente, não teceram mais conjecturas metafísicas naquele dia. Levantaram-se e foram escolher algumas sardinhas e corvinas para o almoço.
O irmão católico não perdeu a fé, Jesus ainda é seu ídolo, mas não acha mais necessidade em se confessar. Desde que aprendeu sobre como as religiões exercem poder sobre a vida das pessoas, para o bem e para o mal, dispensou os intermediários entre ele e Deus. Agora, a conversa é direta com o Criador; se faz bem a ele, não serei eu quem irá julgá-lo.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Duplicidades (Inacio Carreira)

Na aula de História o tema, por incrível que pareça, foi Gêmeos. Numa parceria com Biologia, Geografia e Língua Portuguesa, numa tal de transdisciplinaridade, o professor de História, que teve a ideia, falou sobre Castor e Pollux, irmãos gêmeos da mitologia greco-romana, filhos de Leda com Tíndaro e Zeus, respectivamente, irmãos de Helena de Tróia e Clitemnestra, e meios-irmãos de Timandra, Febe, Héracles e Filónoe. No mito, os gêmeos partilham a mesma mãe, porém têm pais diferentes – o que significa que Pólux, por ser filho de Zeus, era imortal, enquanto Castor, não. Com a morte do irmão, Pólux pede ao pai que deixasse seu irmão partilhar da mesma imortalidade: teriam sido transformados na constelação de Gêmeos e são tidos como padroeiros dos navegantes, a quem aparecem na forma do Fogo de Santelmo. Esse fogo-de-santelmo é, na realidade, uma descarga eletroluminescente provocada pela ionização do ar num forte campo elétrico provocado pelas descargas elétricas. Entendeu? Eu não, ainda...


Já Rômulo e Remo, na mitologia romana, também são irmãos gêmeos: Rômulo fundou a cidade de Roma e foi seu primeiro rei. Conta a lenda que Rômulo e Remo eram filhos do deus grego Marte e da mortal Rhea Silvia, filha de Numitor, rei de Alba Longa. Reza a lenda que Amúlio, irmão de Numitor, após golpe de estado, apoderou-se da coroa e fez Numitor prisioneiro. Rhea foi confinada à castidade, para que Numitor não viesse a ter descendência. Entretanto, Marte desposou Rhea Silvia, que deu a luz a Rômulo e Remo. Ao saber do nascimento das crianças, Amúlio jogou-as no rio Tibre: a correnteza os arremessou à margem e foram encontrados por uma loba (prostituta?), que os teria amamentado e cuidado até que foram achados pelo pastor Fáustulo, que junto com sua esposa os criou. Na Itália, as prostitutas são chamadas de Lobas, daí o nome de lupanar ao prostíbulo, o que muda um pouquinho a história acima.


E Cosme e Damião? Alguns relatos atestam que eram originários da Arábia, de pais cristãos. Seus nomes verdadeiros seriam Acta e Passio. Eles foram martirizados na Síria, sendo desconhecida a forma como morreram. Perseguidos por Diocleciano, foram trucidados e fiéis transportaram seus corpos para Roma. Das várias versões, uma explica que eram irmãos, bons e caridosos, que realizavam milagres. Outros relatos afirmam que foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e inimigos dos deuses romanos. Em outro, na primeira tentativa de morte foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, foram degolados e morreram. Depois de mortos, apareceram materializados ajudando crianças que sofriam violências. A partir do século V, os milagres de cura atribuídos aos gêmeos fizeram com que passassem a ser considerados médicos, pois, quando em vida, exerciam a Medicina na Síria, em Egeia e Ásia Menor. Mais tarde, foram escolhidos patronos dos cirurgiões. Muito esforço foi despendido para mostrar que Cosme e Damião não existiram de fato, que é apenas a versão cristã dos filhos gêmeos de Zeus, pagão.


Alguém lembrou do filme Gêmeos, Mórbida Semelhança, que tinha assistido em casa, e pediu para a professora de Artes entrar no circuito da transdisciplinaridade. Ela disse que não, que esse filme é muito forte para nossa idade. Curioso, juntei-me a um grupelho e assistimos ao mesmo em minha casa. Dirigido por David Cronenberg, “explora os mais estranhos medos, entre os cantos mais inquietantes da psicologia humana e da sexualidade”, diz a sinopse. Mais ainda, informa que é a história de gêmeos, médicos e ginecologistas, que são tão próximos que “suas identidades parecem interligadas em uma espécie de ´consciência conjunta`. Eles se aproveitam da aparência idêntica para trocar de lugar um com o outro à vontade, seja em aparições públicas, na realização de cirurgias e, até mesmo, compartilhando as mulheres que se envolvem com um deles. Quando um se apaixona por uma estrela de cinema, Claire, o elo íntimo é rompido, as coisas começam a dar errado. “O filme é um estudo sobre o pesadelo da dependência psicológica, das obrigações entre as pessoas saudáveis (simbolizado pelo sonho horrível em que um se imagina unido ao outro por um cordão umbilical de carne, que Claire tenta morder)”. Embora inusitada, o filme é baseado em fatos reais, quando os gêmeos e também ginecologistas de 45 anos, Stewart e Marcus, foram encontrados mortos em seu apartamento, em 1975 (o filme é de 1988). À época das mortes, os médicos se tornaram viciados em barbitúricos.


Vivos, alegres e comunicativos deveriam ser todos os gêmeos, desde os verdadeiros (pois já nascem acompanhados, não devem nunca sentir solidão) até os do signo. Entretanto, as histórias são trágicas, falando de terror, morte, desolação. O que eu faria se este fosse o meu signo? Gêmeo não sou, sei de cor, embora tenha uma pesquisa no Google que informa de estudos realizados com gêmeos separados ao nascer e criados em lugares diferentes, para ver se o DNA ou a criação, o ambiente, influenciam na pessoa. Deu 10 a zero para o DNA, deixou todo mundo intrigado.


Acho que os professores vão ter muito trabalho conosco. Depois de toda esta pesquisa não vai ter pra ninguém. Vamos subir ao firmamento, descer os despenhadeiros, degolar, criar cidades. Em sala de aula ou em algum jogo das redes sociais, onde podemos viver novamente.


Viver novamente?