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segunda-feira, 25 de março de 2013

Paz e amor (Inacio Carreira)

 Tendo mandado à multidão que se assentasse sobre a relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, deu graças e, partindo os pães, entregou-os aos discípulos, e os discípulos entregaram-nos à multidão.




Mateus 14:19



 Este é seu sonho de consumo: multiplicar pães e peixes. Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede. Ainda que não pense em termos bíblicos, mas reais, humanos. Movido pela compaixão, às vezes ele era mal interpretado. Pagar um prato de comida àquela mulher com cara de fome? Comprar um sanduíche para o jovem que, aparentemente drogado, pedia dinheiro e dizia estar com larica?


Não, ele não vivia para os outros, embrenhava-se no trabalho e amealhava alguma reserva financeira. Que, sozinho, não lhe servia de muita coisa. Não era dado a festas, bebidas, mulheres. Prezava a família, a amizade, o calor humano. Via nas pessoas como Madre Teresa de Calcutá, Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela – e tantas outras – exemplos a serem seguidos. Lista à qual, recentemente, juntara o nome de Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal, relator do julgamento do chamado Mensalão, apontado nas redes sociais como futuro presidente do Brasil (embora assolado por dores crônicas na região lombar, o ministro não se deixava abater e continuava sua sanha de Cavaleiro da Justiça. Solitário, infelizmente).


Embora não desprezasse, que isto não fazia o seu feitio, era contra os apresentadores de televisão, elevados ao patamar de deuses, ou semideuses, ainda mais quando usavam do prestígio para doar utensílios e gêneros, bens e serviços aos menos favorecidos pela sorte, tendo como troco a permanência nos programas dominicais, ou em outros horários nobres. Alguns se aventuravam a cargos políticos, às vezes com sucesso na votação, mas, com evidente insucesso na vida pública...


Também os jogadores de futebol e outras modalidades... Embora no século 21, a plebe praticava costumes que remontam à Grécia Clássica e suas Olimpíadas, quando os vencedores ganhavam, em praça pública, estátua e culto. Sim, semideuses. Os nossos são diferentes? Alguns desses (poucos, ainda bem) extrapolam esses poderes e vão até a atribuição da morte, seja por acidentes de trânsito, armas de fogo ou outros instrumentos!


Inspirado por tantos movimentos pró e contra tudo, tanta sede de verdade, tanta busca de compensação financeira por danos sofridos, armou-se de coragem e, vestindo branco da cabeça aos pés saiu caminhando no meio da avenida principal de sua cidade, de porte médio, trânsito privilegiando os apaniguados e seus importados... A cena remetia ao filme Forrest Gump, o Contador de Histórias. Lembram? Foi juntando gente, gente...


Se os primeiros sentiam-se ameaçados pelos veículos, a multidão ocupou todo o espaço da via pública, a massa caminhava e perguntava-se o porquê daquilo, quem era aquela figura alva, as pessoas queriam saber o que fazia aquela figura branca caminhando contra a corrente de trânsito (que agora se colocava à margem da pista), buzinas chamando a atenção para tentar tirá-lo do caminho. Não podiam deixá-lo sozinho: pensavam ser um protesto contra o uso abusivo da mata ciliar, a invasão de escorpiões em Varginha (que antes fora famosa pela invasão de ETs – eita cidade mais invadida), a falta de delegacias especiais para mulheres, para crianças, para idosos, para portadores de necessidades especiais, para pessoas com síndrome de pânico...


Era bonito de ver tanta união. Não foi isso que Gandhi fez, na Índia, com sua Resistência Pacífica contra a dominação inglesa, em 1947? Martin Luther King, com seu famoso discurso I have a dream, contra a discriminação racial, em Washington D.C., em 1963? Embora Nelson Mandela contrarie os dois exemplos, sendo braço forte na luta armada contra o apartheid, na África do Sul, presidiu essa nação de 1994 a 1999, não sem antes receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1993.


Dividir pães e peixes. Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede. Ainda que não pensasse em termos bíblicos, mas reais, humanos. Movido pela compaixão, às vezes ele era mal interpretado. Este é seu sonho de consumo: assim como tantos outros, ele tem um sonho. Ver o mundo todo de mãos dadas, saber-se parte de uma congregação de irmãos, sentar na relva para comer pão e peixe, dividir a água, saborear o ar da manhã, a brisa do final do dia, a alegria de sentir-se vivo após mais uma jornada. Vivo e produtivo, produtivo e participante... tentando fazer história, querendo mudar a história.


 “...somos todos iguais, braços dados ou não” foi o que martelou em sua mente quando, percebendo um ardor no peito, olhou e viu o sangue tingindo sua roupa, sentiu sua vida esvaindo-se, chocou-se contra a aridez do asfalto.

domingo, 10 de março de 2013

Torcedor Camaleão (Ítalo Puccini)

            Aprendi a torcer por um time por influência de meu pai e de meu avô. Por dois times, na verdade. Pelo Flamengo e pelo Caxias, este de Joinville, Bicampeão Estadual em 1954/55. Time campeão no qual meu avô, Vilmar Puccini, foi goleiro por dez anos. Eu e pai até escrevemos livro contando a vida vitoriosa do vô (84 anos recém-completados), no futebol e no trabalho de longos anos na Tigre S/A – publicamos “A trajetória de Puccini” em março de 2009 –, afinal, naquela época jogador de futebol também trabalhava ‘normalmente’ 8 horas por dia em uma empresa. Treinos eram artigos de luxo. Não existia essa mordomia de hoje, em que os jogadores treinam a semana inteira para errar o mais elementar dos passes durante o jogo. Enfim.

            São dois modos diferentes de torcer. O Flamengo joga todo ano, o ano todo. Tem mídia excessiva e qualquer espirro vira epidemia. Já o Caxias não joga todo ano, muito menos o ano todo, quando joga. Tem pouca mídia na cidade de Joinville, e nem um caso de Gripe A acho que faz virar notícia. O Flamengo eu pouco assisto ao vivo. Mas estive no jogo mais importante dos últimos anos para o clube, a final do Brasileirão de 2009, no Maracanã: o jogo do hexa. Já o Caxias, quase sempre que joga, eu assisto no Ernestão. Dois estádios muito diferentes. Dois times muito diferentes. O torcer, da mesma forma, diferente.

            O fato é que gosto muito de estar em uma arquibancada acompanhando um jogo. Agrada-me tanto que este ano, morando em Joinville, tornei-me sócio do Joinville Esporte Clube para acompanhar os jogos da Série B ‘in loco’. Não tenho apreço nenhum pelo JEC, assim como não tenho desgosto. Aproveito o lugar do time na segunda divisão para ver de perto times rodados do país. E para sentir novamente o que é estar em um estádio. Baita sensação!

            E não há nada mais gostoso do que não torcer para nenhum dos dois times aos quais você está assistindo. E ainda por cima observar as reações dos torcedores – estes, sim – apaixonados pelo clube da cidade. Uma diversão e tanto. Sem contar as ‘peças’ com as quais você se depara numa arquibancada: o velhinho sem dentes – mas que consegue como poucos gritar, a favor ou contra; a criança com menos de dez anos que já sabe a escalação do time e reconhece cada jogador; o senhor com o fone nos ouvidos, que a cada cinco minutos informa o tempo do jogo a quem está por perto; e o tio da bebida, que berra em alto e bom som “cerveja só pra mim. Quem quer água e refri?”. E eu sou bom nisso de interpretar, futebolisticamente falando: sei falar bem do time “Tá jogando bonito hoje, hein? Que orgulho!”, assim como sei xingar com propriedade “Que time de bosta mesmo! Levanta daí, seu vadio!”. Ainda recebo abraços entusiasmados no momento de um gol, nos dias de ‘casa cheia’.

            Aprendi, nisso de torcer, a gostar de times que buscam o ataque, que criam oportunidades de gol, que envolvem o torcedor na esperança do grito de gol. Torço sempre por jogos em que os times se predisponham a isso. Sou muito camaleão. (Aliás, quem não é? Isso de secar o rival torna qualquer torcedor muito camaleão. Troca de camisa de time semanalmente. Mas não admite). Eu torço pra saírem muitos gols, dos dois lados, sendo bastante discreto, é claro. Aprendi também que a coisa mais importante numa partida de futebol é o gol. Tanto que é declarado vencedor o time que mais vezes faz gol, não importando o desempenho em si dentro de campo. Infelizmente, o futebol ainda permite a um time abdicar do ataque e, ainda assim, vencer com um ‘gol espírita’, um contra-ataque, uma única chance em 90 minutos. Questão de oportunismo. O mundo é oportunista, etcetal. Não sei se um dia me acostumarei com isto. Até lá, permanecerei no meu método: torcer um pouco pr’um time, um pouco pr’outro.

 

ítalo. (também publicada aqui).

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Profissões (Marcelo Lamas)

Já dizia um amigo, filósofo de bar: “Toda profissão tem seu drama”. Geralmente os pedidos de consultoria acontecem em todos os setores, como alguém que chega pro veterinário e diz: “Podes dar uma ‘olhadinha’ no meu cachorro?”. Esses pedidos começam com um prenúncio, seguido de um predicado elogioso: “Tu que és um escritor moderno, sabes se ‘paraquedas’ tem hífen?”.
Certa vez recebi um telefonema de uma desconhecida:
- Oi tudo bem? Sou amiga da fulana, ela te indicou pra me ajudar. Tu que és professor, podes me ajudar a resolver um problema?
- Opa, se eu puder te ajudar.
- Eu mandei uma sandália pro conserto e fiquei sem grana pra buscar. Quando arrumei o dinheiro, já haviam se passado três meses e eles venderam pelo preço do serviço para outra pessoa. É correto isso?
Depois de sugerir que ela procurasse o Procom pra se aconselhar, a conversa seguiu e ela perguntou: “De que mesmo que tu és professor?”. Futuramente ela cursou e formou-se naquela faculdade.
Outro dia, passando pela mesa de uma novata, no meu outro trabalho, a guria me chamou:
- Me disseram que tu também és professor. É verdade ou é pegadinha?
- Ah, sim, é verdade.
- Podes me explicar como funciona esse negócio de série A e rebaixamento?
Bem, a jovem estava mergulhada num ambiente excessivamente masculino e estava tentando entender o assunto das horas vagas. Tentei ajudar:
- São quatro séries. Os últimos da série A são rebaixados para a B e assim por diante. Os primeiros vão pra Libertadores.
Eu precisei de um papel, pois não consigo explicar nada sem escrever. Uma limitação minha, não da menina. Ela seguiu:
- Quem faz mais gols, faz mais pontos? O que é “pontos corridos”?
Expliquei que a vitória vale três e o empate um. Que todos jogam contra todos, duas vezes.
Naquela altura, a menina já estava com o jornal aberto na tabela de classificação.
Foi aí que eu perguntei:
- Pra qual time você torce?
- Como eu faço pra escolher?
Surpreso, respondi:
- Torça para o Grêmio.
- Ah! É? Qual é o critério pra escolha?
Fiquei sem resposta, falei que depois eu lhe explicava e voltei a trabalhar, afinal era para aquele fim que eu estava lá.



Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sombra e destino (Marcelo Lamas)

Desde menino fui perseguido pela sombra do meu sobrenome no futebol da cidade que nasci. E este virou nome de guerra, pois havia uma safra muito grande de Marcelos no colégio – na mesma sala éramos 9 – e assim, desde cedo fui chamado pela alcunha originada entre a Galícia, no interior da Espanha e Portugal. Como o meu pai e os meus tios tinham sido futebolistas conhecidos, quando algum transeunte ouvia meu sobrenome, me questionava: “Tu és filho do Lamas? Jogas futebol como ele?”.


Relutante, eu evitava participar dos jogos temendo não corresponder às expectativas. Só aceitei entrar no time da sala para jogar a Gincana de 1985, porque não tinha goleiro. Dali para frente passei a ser o arqueiro da escola e ficava na reserva da equipe da empresa que meu pai trabalhava.


Depois de alguns anos, tive que mudar de posição, pois a minha estatura era bem menor que as dos outros goleiros. Então passei a jogar de zagueiro e até hoje jogo futebol com meus amigos na retaguarda.


No final do ano passado fui assistir a um treino do Museu EC, clube de veteranos que meu pai frequenta e que tem maioria sexagenária. Como estava muito quente, faltou gente para jogar e fui escalado para ficar de goleiro.


Consegui a proeza de tomar 10 gols, sendo o último por cobertura.


Ao longo da minha carreira esportiva tive derrotas, aprendizados e fiz inúmeras amizades.


Também tive boas vitórias, inclusive naquela Gincana do colégio em 1985, que teve a minha modesta participação. Ao final daqueles jogos ocorreu um inesperado empate na somatória dos pontos das várias modalidades (corrida do saco, cabo de guerra, corrida do ovo, caçador, futebol, vôlei, entre outros). Às pressas, pois a noite chegava rapidamente naquele inverno do extremo-sul do país, os professores acharam um jeito de definir a sala campeã.


E eu fiz a redação que desempatou a gincana.

Desde lá, não sei definir qual dos dois esportes é o meu favorito.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A parceria com o pai (Marcelo Lamas)




[caption id="attachment_64" align="aligncenter" width="223" caption="http://paulojales.files.wordpress.com/2006/12/futebol.jpg"][/caption]


Na infância tínhamos um time de futebol que era gerido pelo sistema sócio-atleta, expressão para dizer que todas as despesas eram bancadas por nós, os jogadores. E não havia interferência de adultos na nossa instituição.
O nome do time tinha vindo escrito nas costas do uniforme que compramos de segunda-mão: Americano FC. O negócio foi feito às pressas, com o dinheiro que um colega tinha ganhado no jogo do bicho, antes do Torneio Dia da Criança, que viria a ser o nosso primeiro troféu.
Com o passar do tempo, aquele uniforme verde, de tamanho adulto, enorme para uns magrelos de 12 anos, estava muito feio, desbotado.
Numa noite, sonhei que nosso time estava jogando com um uniforme novo, personalizado com nossos nomes nas costas.
Falei com o Julinho, que era da loja de esportes da cidade e ele fez um orçamento. Reuni a turma para ver se a soma das mesadas seria suficiente. Em cinco meses dava para pagar tudo. O sonho começava a tomar forma.
Houve um problema. Crédito. Como o valor era alto, fiquei com medo de que meu credor paterno se recusasse a fazer a compra.
Na época, um negócio lucrativo era guardar dólares. Eu sabia onde era o depósito no guarda-roupa.
Para cometer um “meio-delito”, contei pra mãe uma parte da história:
- Oh! Mãe! Será que tem problema se eu pegar uns dólares emprestados lá do armário pra comprar “coisa” de jogo, os guris vão me pagar depois.
Como a minha mãe tinha uma vida agitada de mãe, doméstica, estudante e enfermeira, não perguntou qual era o valor e nem “quando era o depois” e respondeu:
- Acho que não tem problema filho, eles sempre pagam direitinho.
Entendi como autorizado.
Alguns dias depois, cheguei em casa com a camisa número 5 e empolgado fui mostrar pro pai. Como ele já tinha doado parte do pagamento da inscrição de um campeonato praiano, era sabedor da situação financeira do nosso clube. Nem elogiou a camisa:
- Com que dinheiro vocês compraram essas camisas?
Desportista, ele tinha noção do preço dos artigos esportivos e a galera não tinha sido modesta na escolha da marca.
Depois da cara de espanto e da longa gaguejada, expliquei a origem dos recursos.
- Levei um sermão enorme, proporcional ao crime doloso e também pela tentativa e acerto ao ludibriar a mãe. Ainda bem, que logo chegou a hora do pai sair pro trabalho e o discurso terminou.
Fiquei com a consciência pesadíssima e envergonhado.
No meio da tarde o telefone tocou. Eu tava escondido no quarto, quando minha mãe me chamou. Era o pai no telefone.
Eu estava certo que o assunto seria um aumento sumário na penitência. Sem rodeios, ele falou:
- Marcelo, onde vocês compraram as camisas?
- Na loja do Julinho, pai.
- Liga pra ele e pergunta se dá pra fazer mais uma camisa, no meu tamanho e com o meu nome.
A intenção dele era ser apenas um torcedor uniformizado, mas recebeu um convite especial para ser o primeiro adulto a jogar no time, quando começamos a enfrentar adversários maiores.
Jogava melhor do que eu e a pegação no pé era grande.
Ano passado, consegui resgatar a camisa que tinha meu nome nas costas. De doação em doação, tinha passado por vários primos e tava guardada na casa de um deles.
Não tenho pretensão de ter um museu com as minhas relíquias, mas aquela camisa faço questão de guardar e é a preferida da minha modesta coleção.

Marcelo Lamas, escritor.

marcelolamas@globo.com