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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Quem Matou O Senador? ( Sônia Pillon)


Cena 1 –
Um homem morto de meia idade, cabelos grisalhos, de paletó e gravata na cor cinza, está deitado de bruços no alto da escadaria do Senado. Ele está com o corpo encharcado pelo sereno e envolto em uma poça de sangue. A área está isolada pelos policiais, que fazem anotações, recolhem evidências e registram em fotos a cena do crime.
Por fora da área isolada, repórteres de televisão, rádio e jornal, fotógrafos e cinegrafistas de todo o país e correspondentes estrangeiros fazem a cobertura e especulam o que levou ao assassinato.
“O senador Demóstenes Robalho foi encontrado morto na manhã de hoje, no alto da escadaria do Senado, com o corpo encharcado e envolto em uma poça de sangue. Nesse momento, policiais buscam pistas para o autor do crime. Por enquanto, se sabe apenas que ele foi morto com um tiro no peito. A Polícia trabalha com as hipóteses de crime passional, político, ou queima de arquivo.
Nos últimos meses, Robalho estava sendo investigado por supostas ligações com o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Também existiam rumores de que estaria se separando da mulher, supostamente por ter uma relação extra-conjugal com a secretária do gabinete.”
“Alô, ouvintes da Rádio Planaltina do Norte! Estamos aqui na porta do Senado Federal, onde ainda se encontra o corpo do senador Demóstenes Robalho, encontrado morto por volta das 6h de hoje, com um tiro certeiro no coração. A Polícia investiga as possíveis causas e a autoria do crime. Nos últimos meses ele foi acusado de corrupto e haviam rumores de que o senador estaria mantendo um caso com a secretária do gabinete. Só o que se sabe, por enquanto, é que não foi um assalto, porque a carteira e os documentos de Robalho estavam intactos.”


Cena 2
(O senador aparece em cena sendo arrastado por um homem alto e forte, encapuzado e que usa luvas. Ele joga o morto no chão e retira rapidamente o lençol. O carrasco olha para os lados e pega o celular).
Carrasco - Alô! O serviço tá feito, “doutor”! Esse aí não incomoda mais! Não, não, ninguém ouviu nada, não, “doutor”! Não tinha ninguém por perto... Tudo susse... Certo, certo, já tô vazando daqui!


Cena 3
(Em um bar, na penumbra, o senador conversa sorrateiramente com um homem que usa chapéu “panamá”, camisa de estampa florida, óculos escuros, pulseiras, anelão de ouro, e fuma um charuto. Os dois estão tomando uma cerveja).
Senador - A situação não está nada fácil! O povo está pressionando! Estou lutando para que a votação seja secreta. O senhor sabe que somos parceiros, uma mão lava a outra...
(O homem de chapéu pega uma maleta e entrega ao senador).
Homem do chapéu - Pode abrir e conferir, tá tudo aí... Não me decepcione! Gastei um dinheirão na última campanha e espero que não tenha sido em vão... Você me conhece e sabe que fico nervoso com quem me trai!
Senador - Não se preocupe, conte comigo sempre! (Sorri, pega e abre a maleta, confere as notas, depois a fecha, a segurando com as duas mãos).
Homem do chapéu - Mas hoje eu vim também fazer um outro pedido... Preciso que dê um emprego para a Valdinete...
Senador - Infelizmente, essa vaga já é ocupada pela Irene... O senhor sabe, aquela mulher é a minha perdição...
Homem de chapéu - Você tá me dizendo que não vai atender um pedido meu?! Coloca só na folha de pagamento e pronto!
Senador – Vou tentar, mas não sei se posso fazer isso, a imprensa está no meu pé... E o pior é que também andaram falando que a Irene é minha amante! Publicaram uma foto nossa jantando naquele restaurante da lagoa, e a minha mulher ficou furiosa... Neguei tudo, é claro, mas ela parece desconfiada...
Homem de chapéu – A sua mulher é problema seu, não tenho nada a ver com isso! Ok, você é que sabe! O aviso foi dado. Depois não diga que eu não avisei!...
(O homem de chapéu se levanta abruptamente, faz um sinal apontando o dedo para o rosto do senador, vira as costas e vai embora. O senador arregala os olhos e olha em direção ao homem de chapéu).


Cena 4
(Em uma mesa com toalha rendada, uma taça, uma garrafa de vinho, prato e talheres cruzados está o senador, comendo uma sobremesa, quando o celular toca).
Senador – Alô, boa noite! Estou terminando o jantar no restaurante chinês. O que? Pois é, infelizmente não consegui encaixar a sua menina no meu gabinete... Até tentei, mas... Sinto muito!...
Hã? Sim, eu entendo, mas a votação foi aberta, como é que eu poderia votar contra?!... O senhor entende, né?... Mais uma vez me desculpe, não foi dessa vez...
Ah, esse documento está no meu gabinete, posso providenciar amanhã para o senhor... Mas... Ah!... Sei... Bom, nesse caso, eu vou voltar agora mesmo para o meu gabinete, antes da sua viagem... Sim, sim, estou indo lá! Não, não, não vou comentar com ninguém... Até daqui a pouco!


Sônia Pillon

terça-feira, 16 de outubro de 2012

No mundo da lua: Dom Quixote contemporâneo (Sônia Pillon)


Ele levanta acordado pelo despertador do celular. Corre contra o tempo para se arrumar e fica matutando como esticar o dia. Tanta coisa para fazer! Fica imaginando como transformar aquela peça de teatro em um sucesso nacional. Já está até vendo a cena: os anúncios na mídia, os outdoors espalhados pela cidade, as críticas favoráveis, o teatro lotado, o público aplaudindo de pé... E ele lá no meio, junto ao elenco... Bravo! Bravo!


Lágrimas de alegria escorrem pela sua face, enquanto imagina a realização do seu sonho. Seu coração bate acelerado e ele mantém um sorriso de genuína alegria...


Enquanto dilui o café solúvel e mastiga um pão dormido com manteiga, ele abre rapidamente o notebook. Confere as principais manchetes, a previsão do tempo, os escândalos de Brasília, a cotação do dólar... Eita, mundo cão!...


Olha um anúncio de brinquedos eletrônicos e lembra daquele roteiro infantil que criou 10 anos atrás, uma releitura erotizada dos personagens “Chapeuzinho Vermelho” e “Lobo Mau”, transformados em uma “Lolita” do século 21 e em uma espécie de “Dom Juan de Marco” à brasileira, à la Nelson Rodrigues... A vida como ela é... – Bando de provincianos! Não sabem o que é arte!


Quase 10 horas! Desce as escadas correndo em direção ao portão. – Não posso me atrasar na entrevista com o tubarão! E se ele patrocinar o projeto? Amanhã mesmo vou poder reunir o elenco, retomar os ensaios, planejar a temporada, a turnê nacional...


Na saída, vê a caixa de correio entupida de contas, contas e mais contas para pagar... E “santinhos” de políticos, que de santos não tem nada... - Haja estômago!, pensa em voz alta, fazendo uma careta.


Ele apressa o passo. Chega suado e esbaforido até a antessala do diretor presidente. A secretária executiva o olha por baixo dos óculos e pede que espere até o final da reunião. E ele espera... 10, 15, 30 minutos, até que a porta se abre e os executivos deixam a sala do tubarão-todo-poderoso. – Pode entrar, diz a secretária.


Finalmente o roteirista entra, segurando a pasta, frente a frente com o tubarão...


- Li atentamente o seu projeto. Bem interessante. Mas infelizmente já fechamos o orçamento deste ano. Decidimos associar a nossa marca a um cantor sertanejo que está bombando e vendendo que é uma beleza! Lamento. Fica para a próxima!


Ao sair da empresa, ele decide que não vai desistir. Afinal, é o que sabe fazer e não está disposto a entregar os pontos. – Amanhã é outro dia! De algum lado o sol tem que sair!


E lá vai o heroico e idealista Dom Quixote contemporâneo, pronto para enfrentar seus moinhos de vento, mais uma vez...


Sônia Pillon é jornalista e escritora, autora residente dos sites de literatura Letras et Cetera e Cooperativa de Letras.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Terra de Ninguém (Inacio Carreira)

Antes da Terra tornar-se quase nada, após anúncios de hecatombes ecológicas e o choque de um cometa contra nosso planeta, quase colisão final, big bang às avessas, um Ninguém se abriga em uma caverna (cave, restos de habitações, abrigos improvisados) buscando reter na memória o pouco do que lembra ou o que – pelos exercícios compulsivos – não consegue esquecer.
Repete incansavelmente antigas fórmulas, junta pó – das estrelas? –, do pinga-pinga faz sua fonte de vida: a água continua imprescindível à permanência da espécie, Ninguém – intuitivamente – sabe disso, sente isso, sua lembrança, aliada da biologia, lembra-o que o precioso líquido é, foi e será sagrado.
Reconstrói suas memórias com o que arrebanha aqui e ali, do pouco que sobrou no que restou de terra... Faz nesta faina um bric-a-brac, um mercado de pulgas, uma enciclopédia do que existiu, em parte, em algum local desse planeta. Saudades no resplandecer das imagens em meio às letras que já esqueceu como interpretar. Mas as imagens... As imagens! São aterradoras, lindas, mágicas...
Enquanto está no afã de orar, amealhar, beber, reverenciar a Caixa – ah, essa caixa que esconde mistérios – Ninguém volta ao primitivo do ser... Ter, ter, ter... Medo que falte, como pode faltar a energia elétrica que aprendeu a produzir na mini-usina, como pode faltar água, que resgata gota a gota e utiliza num ritual transformador, pacificador, benfazejo...
Não vê a chegada de um ser lindamente disforme: duas pernas, quatro braços, duas cabeças... meio macho, meio fêmea... A porção fêmea desprende-se e adere ao piso, inerte, perdeu sua referência ao soltar-se do suporte vivo que a transportava. Já o macho, homem/felino, fruto de experiências genéticas dos últimos tempos... últimos dias? De onde tirou essa ideia? Agora percebe formas parecidas com a sua: Ninguém está maravilhado, unge Het tentando trazê-la da imobilidade, da passividade... Há quanto não via semelhante, parece real, tem articulações... É preciso restaurar suas funções vitais, buscar seus pontos de equilíbrio, energizar seus chacras...
He fuça por ali, vigiando sua preciosa carga, sua protetora, mentora, líder... A água lhe é negada, o que o torna irascível. Inquieto, o espaço é pequeno para tanta curiosidade, que recai sobre a Caixa, objeto de culto de Ninguém que, primitivo mas não ingênuo, passa a dar atenção redobrada ao relicário. Amarras, correntes, braços protegem noite e dia aquela que, parece, contém seu destino.
Com suas formas delicadas e supostamente frágeis, águas-vivas preenchem os espaços, disputando as águas – quase mortas – com outras formas de vida, eliminando-as. Atormentam os sonhos de Ninguém, que de todas as maneiras tenta livrar-se delas, expediente que se torna, para ele, como um decreto de morte.
A história é relembrada. Desde o princípio do fim – ou de um novo recomeço, Kali ancestral da transformação – Het, em sua aparente doçura e tranquilidade, entrega a He o instrumento de morte: o destino de Ninguém está selado. Vermelho, dor, sangue... Estertores ante o inevitável. Retomada a figura quase mitológica, a Caixa muda de dono e vai conhecer outras terras, outros ninguéns, energias. Sangue! Objetos são testemunhas de uma história de espera: na Terra de Ninguém o ser continua – como sempre o fez, desde o princípio dos tempos – aguardando a hora da morte. Amém.
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Dandara Mendes, Maykon Junkes e Tiago Novo, sob a direção de Fred Paiva, intrigaram públicos diversos na montagem – itinerante – do espetáculo Terra de Ninguém. Em 2012, caso o texto volte a ser montado, não perca.