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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Esse cara...é o Christian Grey (Marcelo Lamas)

50tonsc


O primeiro chegou comentando: “Ela só fica lendo aquele livro. Eu posso sair pra fazer qualquer coisa que ela não ‘dá falta’ de mim”. Eu tinha lido uma nota sobre o fenômeno editorial da trilogia “Cinquenta tons de cinza”, logo que o primeiro livro de sucesso da inglesa, E.L. James, chegou ao Brasil, classificado como pornô soft, erótico, entre outros.
Certa feita, num curso para escritores, uma colega perguntou para a professora:
– Qual a diferença entre livro erótico e pornô?
A tiazinha PhD respondeu:
– Filha, o livro erótico você lê segurando-o com as duas mãos. O pornô com uma só.
Vi mulheres lendo no aeroporto, no shopping e na biblioteca, logo, consegui classificar os 50 tons.
Fui procurado incontáveis vezes pela gurizada. Sendo o “amigo escritor”, eu tinha obrigação moral, no inconsciente deles, de ter informações confiáveis e, até, exclusivas sobre os livros. E eu gosto de opinar – sobre qualquer assunto – na informalidade, depois do futebol, lá no boteco, na hora do almoço. Pra não decepcionar, fui atrás das leitoras vorazes e elas foram unânimes em dizer que os homens também deveriam ler. Li opiniões em revistas dos dois gêneros. Fucei nos livros.
Quem está fazendo o mundo girar ao contrário é o protagonista, Christian Grey, que seduz uma virgem estudante. Ele jovem, empresário, rico, tem e pilota um helicóptero, gasta três horas nas preliminares (descritas em três páginas), gosta de ficar conversando depois do sexo e deu-lhe todos os presentes possíveis e, ainda, a convenceu a assinar um contrato como “submissa”. Uma grande ficção.
Mas o que interessa é que as pessoas estão lendo e, também, que a nossa classe masculina não poderá ser acusada friamente de ser pervertida só porque estes assuntos são – ou eram – mais frequentes nas nossas conversas, afinal nossos temas são mais restritos (sem bolsas, manicures, vestidos balonês organização da casa, ou qualidade do serviço da diarista).
A partir desta revolução estaremos mais livres para propor coisas diferentes e as nossas parceiras não ficarão preocupadas com o que vamos pensar sobre o conhecimento delas acerca das propostas. O importante é que tudo valha para os dois lados: as sugestões, os consentimentos e os prazeres.


Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

domingo, 9 de setembro de 2012

O começo que nasce para morrer (Ítalo Puccini)




As coisas só começam porque um dia terminarão.
Eu gosto desta frase, apesar de não gostar da palavra coisa. Penso-a (a frase, não a coisa) apontando para direções que são várias: início, fim e meio do mundo; início, fim e meio da vida; início, fim e meio de um relacionamento; início, fim e meio de um livro. Há um meio depois do começo e do fim, assim como entre.
A tendência de um começo é a morte instantânea.
Linkando com a literatura, temos: o começo de um texto é aquilo que mais é renegado pelo escritor. É a substância que brota para ser jogada fora. É o apêndice. Nascido para morrer. E mesmo aquele começo – de texto ou qualquer outro começo - que se apresenta a todos como definitivo, aquele começo que ficou definido como o começo de algo, está entregue à mudança constante. Não à morte, mas à mudança. Pois ele nem sempre será lido como o começo que se propôs a ser. Por que não ser lido como uma possibilidade de final, então? Será daí que todo fim é um começo?, uma vez que cada nova leitura pode ser a morte e o enterro da leitura anterior, sugada antes de não mais existir.
Um começo de livro marcante pode ser este: "Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel". É do livro "A casa de papel", do argentino Carlos Maria Domínguez. Ou este: "Nu e cru, eis o facto: apareceu um pénis decepado, em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram-se em face do achado. Vieram todos, de todo lado. Uma roda de gente se engordou em redor da coisa. Também eu me cheguei, parada nas fileiras mais traseiras, mais posto que exposto. Avisado estou: atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la". Do livro “O último voo do flamingo”, do moçambicano Mia Couto. Dois simples começos como estes, que apresentam ações pontuais em tão poucas linhas, que delineiam uma miríade de caminhos na cabeça do sujeito-leitor – que poderão ser alcançados ou não, afinal, cada leitura é uma leitura.
Há, ainda, o começo de “Bonsai”, do chileno Alejandro Zambra: “No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:”.
Dois pontos. Como que dizendo ‘agora vou contar a história’. E que o leitor deixe de lado a birra infantil de ‘ah, por favor, não me conte o final’. Há literaturas que se sustentam pelo seu durante. Há literaturas que encantam só pelo começo. Há literaturas que decepcionam principalmente no final.
[Um bom começo também pode ser um caminho para o abismo da decepção].
O começo como morte é a oportunidade de não se estranhar muito o novo começo, o recomeço. E de não sentir muito aquele que não mais existe, porque nada nem ninguém vem para substituir algo ou alguém, mas para acrescentar, para existir a partir daquilo/daquele que não mais.


ítalo puccini
professor de língua portuguesa, literatura e redação.
escritor nos blogs:
www.um-sentir.blogspot.com
www.rabiscosfutebolisticos.blogspot.com


 

 

 

domingo, 15 de julho de 2012

O livro mágico (Sônia Pillon)

Angelina abriu os olhos e se virou em direção à vidraça do quarto, iluminado pela lua cheia. As cortinas com babados balançavam com a brisa da noite, e a menina sentiu uma vontade irresistível de pular a janela e ir para o jardim. Olhou para as bonecas de pano enfileiradas na estante:
- Vocês não podem sair daí, mas eu posso!


Ela queria ouvir de perto o coaxar dos sapos, o som dos grilos... Ver os vaga-lumes e sentir o aroma das flores. Olhou para o relógio de cabeceira. Passava da meia-noite e o silêncio reinava na casa.


Ela se levantou decididamente, calçou os tênis, abriu a janela e pulou. Caiu sentada na grama úmida, molhou um pouco o pijama cor-de-rosa, mas não se machucou. Ficou rindo por dentro. Se sentia vivendo uma das aventuras da Narizinho, do Sítio do Picapau Amarelo...


Toby, o cachorro da vizinha, começou a latir logo que ouviu o ruído da queda da menina, mas parou, quando a reconheceu. Ao longe, pássaros cantavam, enquanto Lola, a gata de estimação, miava no telhado. No céu, estrelas cintilavam.O coração de Angelina parecia que ia saltar pela boca e os sentidos estavam cada vez mais aguçados.


Foi quando ela avistou um grande livro com capa dourada na escada da varanda. Curiosa, se aproximou e o abriu. Feixes de luzes coloridas saltaram em todas as direções e um grande portal de abriu. Corajosamente, ela atravessou o portal.


Fadas, duendes, faunos, centauros e ninfas pulavam e dançavam alegremente na mata iluminada pelo luar. Um sátiro tocava a Flauta de Pan, atraindo mais e mais dríades em suas vestes esvoaçantes. Ao verem a fascinada Angelina, a convidaram para fazer parte da festa, e ela passou a dançar também.


O Chapeleito Louco, Alice, Branca de Neve e os Sete Anões apareceram em seguida. Zangado preferiu ficar parado, com os braços cruzados e ar de reprovação, como sempre... Cinderela chegou com as fadas madrinhas. Mogli, o Menino Lobo, Aladim e sua Lâmpada Maravilhosa e Saci Pererê, com seu cachimbo, chegaram lado a lado. Mais e mais personagens da literatura universal se integraram àquela festa bizarra! Encantada, Angelina esfregava os olhos, sem acreditar no que via...
- Angelina! Angelina! Vamos, filha, acordaaa!
- Ai, mãe! Só podia ser sonho, mesmo! Era bom demais para ser verdade...


* Sônia Pillon é jornalista e escritora, nascida em Porto Alegre e radicada em Jaraguá do Sul desde 1996.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

No ginecologista (Marcelo Lamas)

Há tempo que a visita estava prometida. Por duas vezes recebi de presente livros escritos pelo Dr. Lori Krusser. O médico renomado no pampa gaúcho é daqueles que merecem ser chamados de doutor. Da escola antiga, em que o médico ia à casa do paciente e que as consultas não eram relâmpagos. O médico olhava no olho do doente. Especialista em seres humanos, o Dr. Lori fazia todo tipo de atendimento e cirurgias.

Depois de ler os livros do Dr. Lori, cheios de causos de cidades do interior, escrevi-lhe uma carta comentando sobre a riqueza da sua literatura. De alto nível, ambos: “Prosa à sombra do cinamomo" e “Gado da mesma marca”, com pleno teor de sentimento em suas linhas, coisa que só os grandes escritores conseguem fazer, como Erico Verissimo. E este não é um pensamento isolado meu, pois o senhor de cabelos grisalhos foi convidado para participar da Academia Sul-Brasileira de Letras. Recusou o convite, acreditando modestamente que, com apenas duas obras, não era digno de ocupar uma cadeira de imortal.

Assim, procurei o Dr. Lori para termos uma conversa sobre a arte de escrever. Ele marcou no seu consultório, às três e meia da tarde, depois da última consulta.
Quando cheguei, antecipado, li na porta: DR. LORI KRUSSER — GINECOLOGISTA.
Pensando no mico de entrar num consultório daquele, lembrei do provérbio popular: “Já que estamos no inferno, o que custa dar um abraço no diabo?” Entrei e fiquei lá no meio da mulherada, que aguardava consultas com ele, sua filha e seu genro, todos médicos de senhoras.
Algumas me olharam estranhamente, mas graças à modernidade globalizada, logo me senti invisível, tudo normal.
Mas, quando a recepcionista me chamou pelo nome, todos, digo, todas, riram.


O homem septuagenário me recebeu feliz, por conhecer alguém que admirava seu trabalho de contador de histórias.
Entre muitos, me contou um causo da época em que era jovem e visitava sua cidade natal de Santaninha, no centro do RS, onde uma mulher grávida estava com muita hemorragia. O médico fez o primeiro atendimento e seguiu numa carroça junto com a paciente para o hospital, onde conseguiu controlar a perda de sangue, salvando a mãe, mas o bebê infelizmente não teve a mesma sorte.
Com a mesma modéstia de quem não aceitou a homenagem das letras, disse: “Não fui eu quem salvou a mulher. Foi o Homem lá de cima. Ele “apenas” me utilizou como instrumento”.





Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com