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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Sotaque Italiano (Marcelo Lamas)

A minha namorada é cinco centímetros mais alta do que eu. Ela nega e diz que são apenas dois. Esta diferença a favor dela nunca foi desconforto para mim.
Percebi que, com o tempo, ela foi gradativamente reduzindo o tamanho dos seus saltos. Hoje, costuma sair praticamente ao nível do mar.
Você já deve ter visto aquela situação em que o homem vai a algum lugar sem a sua respectiva e, ao voltar, é recebido com ironias do tipo: “Onde você estava tão arrumadinho assim?” ou “Pra que tanto perfume?”.
Comigo o problema é outro. Posso aparecer vindo do futebol, do trabalho, da academia, de uma viagem ou de um evento social que exija traje alinhado. Não serei alvo de alfinetadas por causa de vestes ou odores.
O meu drama é outro, uma variável distinta: “Topetinho alto, hein?!” ou “Sim, colocou o topete lá no teto, né?!”.
E tudo se potencializa com um sotaque que aparece repentinamente, fazendo-a parecer uma imigrante italiana recém saída do navio.
E se eu tiver usando meu sapato com salto interno que dá um ganho de seis centímetros a coisa piora muito pro meu lado.
Se eu aparecer na casa dela com um moicano no estilo do Neymar é demissão na certa.
Se bem que ela disse que acha o camisa 11 bonito. Ela também elogia muito o Zezé di Camargo, vai entender.

Marcelo Lamas, autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sigilo (Marcelo Lamas)

Já fazia um bom tempo que ele estava à procura de alguém para ter um relacionamento definitivo. Recentemente até tinha ficado com algumas meninas, mas quando as conhecia de perto, a coisa não andava, sempre aparecia alguma incompatibilidade de gênios ou, simplesmente, não rolava a química.
Mas naquela noite ele saiu sem expectativa alguma, com uma turma de amigos. Nem de carro ele foi, descolou uma carona.
No barzinho, com música ao vivo, o clima era bom, com proporção altamente favorável com muitas mulheres por metro quadrado. Ele percebeu uma cruzada de olhares com uma morena. Mas descartou de cara qualquer possibilidade, pois com tantas opções, ele menosprezou seu instinto apontando para a morena, pensou que não seria a primeira abordagem que iria vingar. E, afinal, ele não tinha saído para procurar alguém.
Com o decorrer da festa, ele percebeu que a morena despachara supostos interessados durante toda a noite e continuava por ali. Assim, ele resolveu fazer uma aproximação e puxou conversa. No meio do assunto, ele questionou:


- O que você faz?
- Sou daqui mesmo.
- O som está muito alto, acho que você não entendeu minha pergunta, o que você faz?
- Ah! Sou funcionária pública.
- Legal, eu sou engenheiro, trabalho numa indústria.
- Poxa, engenheiro! Você deve ser bom em matemática, né?
- Bom, tive que estudar bastante. Mas, você faz o que especificamente? Indagou ele.
- Trabalho pro governo do estado.
- Na saúde?
- Não. Não sou enfermeira. Vou pedir mais uma bebida.


Chamaram o garçon, tomaram mais uns drinks, voltaram a conversar descontraidamente.
Ele perguntou:


- Como você veio para a festa?
- Vim de carro.
- Você pode me dar uma carona?


Ela desconversou, aproveitou que uma amiga vinha passando, enfiou o braço nela, deu um tchau apressadamente e vazou da festa.
Na semana seguinte, falaram-se por telefone e combinaram encontro num bar.
Ele estava encucado. Por que ela tinha ido embora daquele jeito acelerado, fugindo? Por que ela não disse qual profissão exercia?
No fundo ele estava com medo que ela fosse professora de educação física. Pois ele já tivera um affair com uma professora no passado e o namoro não emplacara devido ao ciúme, pois além de trabalhar em uma escola pública, aquela professora também era personal traineer numa academia “cheia de homens se exibindo”, como ele dizia. Será que o filme se repetiria?
Depois da enrolada inicial, ele indagou:


- Em qual área você trabalha?
- Segurança Pública.
- Você é escrivã?
- Não sou delegada.
- Delegada?! Que legal. Por que você não falou antes?
- Porque a profissão exige que eu seja discreta. Aproveitando, quero pedir-lhe desculpas, naquela noite eu estava a fim de ficar com você, mas prefiro agir com mais parcimônia. E Também fiquei com medo de lhe dar uma carona logo na primeira vez, pois a gente nem se conhecia direito.


Até o fechamento desta edição as histórias dos dois permaneciam cruzadas.


Marcelo Lamas, escritor e autor de “Mulheres Casadas têm Cheiro de Pólvora”.
marcelolamas@globo.com