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terça-feira, 16 de julho de 2013

O milionário e o Mendigo (Sônia Pillon)

Anderson fixou os olhos nos lençóis brancos de seda, preguiçosamente. A claridade da janela e o movimento suave das cortinas de voil cor de marfim deixavam os raios solares invadirem o seu luxuoso quarto. Sendo o filho do banqueiro e único herdeiro, se sentia à vontade para esticar um pouco mais o sono, em plena manhã de domingo.


A certeza de que era um milionário o fazia sentir poderoso, acima dos demais. Enquanto o mundo enfrentava uma grave crise econômica, especialmente na Europa, ele estava ali, seguro em sua mansão, rodeado de criados e cercado de mimos. Enquanto muitos contavam as moedas para sobreviver, ele não precisava se preocupar. Mesmo com as taxas menores, por causa da concorrência com outras instituições bancárias, seu pai Nestor, aquela velha raposa, sabia como garantir os lucros.


Ao pensar nos negócios do pai, Anderson resolveu pular da cama e se dirigiu ao armário. Escolheu um terno italiano e um sapato de pelica que combinavam perfeitamente com a camisa e a gravata. Precisava estar bem alinhado para a recepção de 50 talheres no Royal Hotel. A high society, alguns emergentes espalhafatosos e a imprensa estarão lá, à sua espera.  - Não posso decepcioná-los, disse para si mesmo, em frente ao espelho.


Enquanto dava os últimos retoques no nó da fina gravata, sorria por dentro. Tinha 28 anos, um corpo bem distribuído em 1,92 de altura, e tinha plena consciência de que era um dos solteiros mais cobiçados do país. Se olhou mais uma vez de alto a baixo em todos os ângulos e finalmente se sentiu pronto para brilhar, mais uma vez. Se reconhecia um homem vaidoso e gostava de sentir que despertava a admiração e a inveja das pessoas.


Pegou a chave da Ferrari vermelha e se dirigiu à garagem da mansão. Ao virar a chave da ignição, ouviu uma forte buzina e a voz de um homem, que gritava em direção a ele.
– Sai daí, ‘seu’ vagabundo!
– O que??? Como se atreve? O senhor sabe com quem está falando?!, retruca Anderson, indignado.


De repente, o cenário muda completamente. Anderson abre os olhos e vê um homem de terno e gravata saindo de uma Ferrari vermelha, avançando em sua direção. Para seu desespero, agora Anderson volta a se ver como realmente é: envolto em roupas rasgadas, deitado em um colchão velho, cabelos desgrenhados, sujo e descalço. Envergonhado, se apressa em se levantar, de cabeça baixa, enquanto lágrimas tomam conta de seu rosto. Desde que perdeu tudo na jogo, naquele maldito cassino de Las Vegas, essa era a sua rotina diária. A barriga roncava e doía de fome.


Decidiu se juntar aos outros mendigos da rua, excluídos sociais como ele, mas solidários na miséria.
– Pelo menos eles dividem o pão e a cachaça, pensou. O maior temor de Anderson era ser queimado vivo, como o Galdino, aquele índio pataxó, assassinado covardemente por jovens de classe média, em Brasília...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um choque de realidade (Patrícia Grah)



Um dia desses, sai à trabalho um tanto apressada rumo ao banco. Para percorrer este trajeto sempre passo pela escola onde estudei quando criança, desde a pré escola. Neste dia, em especial, fui impedida de passar pelas crianças que atravessavam a rua, todas enfileiradas e de mãos dadas, exatamente como era feito no meu tempo.

Lembro como se fosse ontem, dos carros parados, alguns angustiados por prosseguir, outros olhando e sorrindo, achando "bonitinho". Esqueci minha pressa e por alguns minutos voltei no tempo. Sorri.

Comecei a refletir sobre a enorme simultaneidade relacionando aquelas crianças à mim, quando, naquele tempo, o país encontrava-se sob um momento histórico: o Impeachment do presidente Collor. Lembro que a professora deu uma aula explicando o que isto significava, afinal ouvíamos falar disso na TV mas não conseguíamos compreender ao certo o que significava. Eu entendi, mas nem me importei. Não poderia fazer nada! Eu não entendia nada! Eu era somente a criança que precisava de direcionamento até pra atravessar a rua! Os adultos é quem deveriam se importar com isto! Meu futuro estava nas mãos deles.

Agora, novamente nosso país encontra-se em um momento delicado e de muitas transformações, boas, por sinal!

Mas e eu? Mas e eu?

Pois é...

Pois é.

O tempo passou e tudo mudou. Não posso não mais me importar.


Agora sou eu a motorista do carro.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Realizando Sonhos (Elianete Vieira)

para blog[1]


Muitos diziam que não chegaríamos ao ano 2000, que não viveríamos para ver a passagem do século porque o mundo acabaria justamente na virada de 1999 para 2000. Mas nós chegamos sim, vivenciamos este raro momento com muita festa e muitos fogos de artifícios.


Em um momento em que a era digital já invadia as nossas vidas, seja através da novela, gravada e transmitida de forma digital, seja pelas fotografias tiradas em câmeras digitais e impressas em papel por opção, seja pelos exames que antes eram chapas escuras com imagens mais claras e hoje são fotos impressas em papel ou até mesmo gravadas em DVD, se torna complicado para algumas pessoas que de repente se vem excluídas de um mundo que até então não lhe fazia falta, mas que filhos, sobrinhos e netos vêm agora lhes cobrando pelo aprendizado. Mas chegou o ano 2000 e logo em seguida como um passe de mágica chegou o ano 2001 quando de fato entramos no século XXI.


Quando eu era criança e as pessoas com mais de 50 anos já eram vistas como velhos, vi meu pai e tios se aposentarem aos 50 anos, eu pensava em 2001 como algo tão longínquo e não me ima­gina que ainda estaria viva para ver tudo o que ocorreria num mo­mento tão grandioso.


Quando chegou, eu trabalhava como suporte à operação em uma companhia de telefonia celular, e o medo girava em torno dos vírus que poderiam ser ativados nesta virada de ano e ainda no que poderia ocorrer quanto aos programas de computador que até então consideravam ano com apenas duas casas: 95, 96, 97, 99... 00


Eis que por meses a fio, programadores do mundo inteiro viraram noites e noites para alterar o código de cada programa para considerar o ano como variável de quatro casas: 1995, 1996, 1997, 1998, 1999 e finalmente 2000.


Trabalhamos super atentos para garantir que nada falharia e que as centrais continuariam comutando as chamadas de boas fes­tas e feliz ano novo que seus assinantes certamente fariam, pois tradicionalmente é a noite do ano quando mais realizamos ligações telefônicas, não é mesmo?


Bem, o ano 2000 começou e passou voando, vieram 2001, 2002 e eis que chegamos a 2010. Ano que ao menos para mim posso afirmar que foi o ano de mudanças diversas. Uma delas estava na resolução de Ano Novo: escrever um livro!


Mas sobre o que escrever? Um livro de ficção ou técnico? Criar cenários, personagens, tramas, escrevendo uma estória? Escre­ver sobre meus conhecimentos e vivências compartilhando com os futuros leitores? Por onde começar? Qual deveria a primeira linha a se escrever? Eram muitas as idéias e me sentia perdida em meio às indecisões, indefinições e ao mesmo tempo à ânsia de começar.


Em meio aos e-mails não autorizados que recebo diariamente veio uma dica: um workshop que me orientaria em como escrever um livro. Enviei o e-mail, marquei minha presença e fiz. Foi um sába­do mágico em meio a uma turma heterogênea de conhecimentos, vi­vências, praticas e objetivos, ouvimos alguém que passou pelo mes­mo momento e pelas mesmas dúvidas. Ele nos contou seus medos, preocupações, dúvidas e suas pesquisas. Fizemos exercícios práticos e ali, naquele momento, tive a certeza de que eu conseguiria sim escrever meu primeiro livro!


Mas as semanas se passaram e não vinha a inspiração criati­va e a dúvida ainda persistia: sobre qual tema escrever? Até que o desejado e inesperado aconteceu. Dirigindo para casa pensei numa introdução. Cheguei em minha casa e escrevi: Introdução. A partir daí fluiu um texto sobre um tema por mim bastante conhecido pois faz parte da minha vida estudantil e profissional.


Foram duas páginas rapidamente redigidas. Enviei para minha sobrinha que perguntou: “quem escreveu?” E eu respondi orgulho­sa: “fui eu!”


Como sou uma pessoa técnica iniciei o projeto pela formatação: escolhi o formato da página, tipo de letra e tamanho, texto para capa, agradecimentos e dedicatória. No dia seguinte parti para o conteúdo e ao completar 20 paginas, enviei para minha irmã e uma amiga lerem para sentir a reação delas. Percebi então que as havia surpreendido!


Neste ponto, as idéias já fluíam rápidas, os dedos ficaram ner­vosos para digitar mais e mais... e o livro crescia!


Que bom! Fui votar e voltei correndo para casa, queria escre­ver mais, já eram 94 páginas! Conforme escrevia, voltava, revisava, inseria imagens.


Até que me dei por satisfeita. Acabei o meu primeiro livro. 128 páginas, 116 imagens! Escolhi a editora, aguardei ansiosamente pela diagramação, capa, registro, até que num belo dia recebi em casa uma caixa com os 100 exemplares encomendados.


Meu Deus! Um sonho descongelado, materializado, quenti­nho saindo do forno!


Uma realidade palpável!


Hoje, um ano após o início do livro, estou aqui lhe contando como é possível superarmos adversidades, persistirmos em nossos planos, realizá-los e depois compartilhá-los como ensinamento e ex­periência para outra pessoa que ainda virá e passará por todos esses passos, como a água do rio que passa e gira a roda d água da vida.


Nunca é tarde para aprendermos algo novo!


Nunca é tarde para recomeçarmos!


Nunca é tarde para realizarmos nossos sonhos!


Elianete Vieira


Esta crônica foi escrita em final de 2011 e publicada no Volume II da Antologia Nossa História, Nossos Autores, lançada durante a 22ª Bienal Internacional do Livro de 2012 em São Paulo pelo Grupo Editorial Scortecci.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Olhe pra trás e ai sim, siga em frente! (Patrícia Grah)




Poucas são as pessoas que olham suas próprias fotos antigas e percebem que não mudaram, ou que mudaram muito pouco. Pode ser a cor do cabelo ou comprimento, o aumento de peso, o modo de se vestir, as amizades, o antigo carro ou a antiga casa. O certo é que muitas coisas sempre mudaram e sempre mudarão.


Assim como a aparência, é certo que nossa personalidade, nossos gostos, nossos sonhos também mudam e vão se moldando com o passar do tempo. Todos nós somos frutos de nossas escolhas e é comum que muitas delas não deem certo. Não é raro que depois de muitas desilusões e decepções, decidirmos “apagar o passado”, porque assim sofreremos menos e assim também teremos aquela sensação de que “não foi eu quem fez isto, “foi a pessoa que eu era”.


Dói menos, mas desta forma estamos apenas mentindo para nós mesmos, e ai? Se somos frutos das nossas escolhas, devemos agradecer ao nosso passado por ter nos mostrado o que é bom e certo para nosso bem estar e felicidade.


Sabe, eu mesma já me crucifiquei demais, já me cobrei demais, mas não, não sejamos assim! A questão é que é muito mais fácil olhar pra trás agora e se arrepender do  que você sabe que não deu certo, do que no momento em que você tomou as decisões sem saber à qual rumo iriam te levar.


Devemos nos libertar do nosso passado buscando não repetir os mesmos erros também buscando conhecer novos horizontes, mas sem aquela sensação de culpa, sem aquele medo de olhar pra trás. Dane-se o que/quem não deu certo. 
Porque uma pessoa de coragem precisa primeiramente não ter medo de conhecer a si mesma!




Patrícia Grah.