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domingo, 23 de dezembro de 2012

Natal, a época das ostentações (Patrícia Grah)

Cartão-de-Presépio-de-Natal-12


Mais um natal que se aproxima e um ano se finda. Data propícia para aquelas manifestações amorosas e calorosas. Nesta época todo mundo quer ser melhor no próximo ano e, principalmente ser mais bem sucedido financeiramente. Acontece que, o mais comum de se ver por ai, são algumas pessoas se endividando com coisas supérfluas, gastando o dinheiro que não tem ou não poderiam, esbanjando horrores para ostentar um status que não é seu. Aí, ao contrário do que sonham – ter dinheiro – já começam o ano cheio de dívidas que não podem pagar e prejudicando o comerciante que contava com aquele dinheiro a receber para poder pagar suas contas. Penso eu que se queremos mudanças e alcançar algum sonho, devemos começar fazendo somente aquilo que nosso ordenado permite, mas infelizmente vivemos em uma sociedade (e uma cidade) gigantemente capitalista, aonde somos julgados por nossa condição social e financeira, sendo assim, o status é o mais importante, por isto algumas pessoas não estão nem ai – “Deixa ir pro SPC!”. Confesso que este comportamento fútil e desmoralizado é algo que me deixa bastante insatisfeita com o ser humano. Nada do que eu digo aqui é pessoal. Também vou à praia, compro coisas caras quando posso e presentes nesta época. O que coloco aqui é meu ponto de vista como comerciante, perante o que vejo e já vi acontecer durante anos. Penso eu que quem pode, tem mais é que aproveitar a vida mesmo! Mas devemos usufruir das coisas de acordo com nossas vontades e necessidades, e não querer levar uma vida que não se pode somente para ser engradecidos perante aos olhos da sociedade. Este é meu último texto deste ano aqui no blog e a mensagem que eu gostaria de deixar é a seguinte: Sempre há tempo pra mudar, colocar tudo em dia e ser alguém mais íntegro. Não adianta idealizarmos um futuro brilhante enganando o próximo. Só conseguiremos chegar a algum lugar com muito trabalho honesto, pois nada tem mais valor nesta vida que o nosso caráter e a integridade!


PS:  Feliz natal, cheio de paz e harmonia para todos e um 2013 repleto de realizações.
 Até o próximo ano! Bjus, Pathy Grah.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Menino Jesus Gaudério (Vana Comissoli)

Lembrava uma dessas tardes de inverno pampeano, o céu empedrado, sem um ventinho, sinal de geada braba. Mal dera o Ângelus e não se encontrava viv’alma na rua, frio de renguear cusco.


A china vinha embuchada de nove meses. Agarrava-se nas rédeas quase deitada sobre o cavalo mancarrão, único que conseguira exatamente por não valer nada. O caborteiro, responsável pela empreitada, sumira na perdição da vida, desconhecendo que a repontada trazia piá gaudério para esse mundão sem porteira.


Quando sentiu o primeiro garroteamento no baixo ventre, apertou os calcanhares na ilharga do animal que estucou o passo. Olhasse para todo o lado e não enxergaria nem uma taperita de consolo. Fez a curva da estrada já agarrada na reza para Nossa Senhora do Bom Parto, única fidalguia de que se podia valer.


Despontou, lá no longe, um bolicho guaipéca, desses perdidos no meio do nada. É o Deus dará e o bolicheiro. Acelerou a montada mais uma vez.


Sem querer, apertou os pés na ferroada da parição e o animal respondeu, o bicho bagual, embora macho, entendia dessas coisas de botar cria no mundo. Na frente do bolicho apeou-se devagar, a barriga era um escorrego só.


Apesar do frio, ou por isso, a indiada estava firme na canha do fim-de-dia. A rapariga, embora china embuchada, era bonitaça. A homarada se virou para especular, enquanto ela perguntava ao dono do bochinche onde podia encontrar pousada que o piá estava querendo olhar a querência pelo lado de fora.


O bagual coçou a cabeça dizendo que não tinha acomodação, mas a umas quadras dali ficava a Estância da Ramada, gente boa que só ela, haviam de lhe dar guarida. “Acha que aguenta o piazito até lá?”


Há de agüentar, assegurou a mãe, pois se não tem outro jeito, arreglado está.


Tocou-se a passito que os sacolejos do cavalo lhe provocavam repuxos imediatos.


Apeou para abrir a porteira e segurou-se um pouco no moirão da cerca. A alameda que levava à fazenda era ladeada por tarumãs antigos, provocava medo aquele corredor escurecido pela galharia, mas impunha-se atravessá-lo. Se foi de manso, a segurar a barriga como se pudesse impedir o nascimento soflagrante.


Não chegara à casa grande e já o capataz vinha encontrá-la num zaino guapo. Marilena foi pedindo pousada, explicando o parto eminente e mostrando o rocim em que vinha.


− Minha dona, bem que lhe queria fazer os préstimos, mas nem o patrão, nem a patroa estão na moradia, foram para cidade passar o Natal com os filhos. – Esclareceu o homem.


Abombada, não se agüentando mais, a chinoca se desacorçoou, grossas lágrimas rolaram enquanto puxava as rédeas a retomar o trilho por donde viera.


Mais três quilômetros e tu encontrarás a Estância do Caverá, te dão guarida. Ouviu, nas costas, a indicação.


Tocou a montaria na precisão, já ia tironeada das idéias, era chão a não se acabar nessa emergência. O frio entrava pelo poncho, a gelar-lhe os ossos. Era breu, o céu e o suspiro da noite molhava-lhe os cabelos. Nossa Senhora do Bom Parto, me dá uma boa hora, pedia, desesperada, uma taperita qualquer onde eu possa apear de vez, uma alma que não seja maleva prá recolher meu rebento.


De longe, enxergou as luzes e a esperança voltou a seu coração. Ai, que me emendo, minha Nossa Senhora, saio da vida, crio raiz e amagava em cima do pingo como se isso o adiantasse.


As luzes vinham do galpão de onde desencantava um som de acordeona bonito de se ouvir, difícil de prestar atenção nesse momento. A casa tinha todas as janelas fechadas, alguns fiapos de luzeiro escapavam das venezianas. Escolheu o galpão para apresentar-se.


− Buenas, estou procurando asilo, para mim e para cria que já está apontando.


O chiru tirou devagar o pito da boca, empurrou para traz o chapéu, largou a acordeona encastada num tripé brilhoso de uso. Era certo que esses movimentos, muito lentos, lhe permitiam avaliar a chinoca e pensar numa resposta.


A mulher vestia uma chita muito da molambenta, umas botas masculinas maiores do que os pés que guarneciam e o poncho estava esticado pelo tamanho da barriga. Era china, se via de longe.


− Cuê-pucha! Como que vem embarrigada desse jeito!? Há de gunir um pocado, minha prenda.


− Ai, senhor, não havia maneira de ficar naqueles pagos, a dona do arranchado que eu servia, não fica com piá guaxo, entrega tudo para o padre. Sou china por percisão, apertei a cincha o quanto deu para não mostrar a cria. Solita passei na treva da espera, depois não deu mais. Não havia recau que segurasse o guri. Dei com os costados na rua. Eu fiz por gosto, pelo homem, vou parir e vou criar. Me ajude, senhor, só um canto para largar o corpo, uma mão para aparar.


O chiru mediu o bucho, viu a cria despontando como vaca no pasto, era haragano, mas não era jerivá. A dor do sangue do Rio Grande bateu nele e as peleias se insurgiram, pois que venha, se arresolveu.


− Pois comigo morocha não fica no desprotejo, assunto tu e a cria. Vou encilhar meu cavalo que o teu não serve nem para mais uma quadra. Está estropiado. E me chame José.


Pegou a china pelo braço para que apeasse. Chamou a peonada a arreglar pouso. Os gaúchos se olharam, entrecoçaram as pernas na bombacha solta e se puseram a serviço.


− Meu nome é Marilena, mas pode me chamar Maria como todo mundo faz.


Saíram montados no mesmo animal, passaram por detrás da casa grande esparramada no meio do terreiro e perderam-se na noite do campo através do assobio do vento nesses dezembros que às vezes assolam o Rio Grande. Depois de meia hora, já em pleno pasto, avistaram uma choupana onde os homens já tinham alumiado o fogo. Apearam.


José prendeu o cavalo e abriu a porta sem trinco. Lá dentro os peões aguardavam trovando. Tenho mulher pronta para dar cria, foi avisando José com cenho franzido, a mão no relho trançado que pendia ao lado do facão, a traíra presa na cinta. Os empregados, conhecedores da severidade do capataz, apertaram os ponchos ao corpo e postaram-se em guarda ao redor da casa coberta de quincha. Falavam baixo e não levantaram os olhos para assuntar a dona que se enfiava às pressas na salvação.


Amontoada e já afofada num canto uma porção de palha cheirando a mofo, esperava.


− Se ajeite moça que é por aqui mesmo o nascedouro. – Tirou o poncho e estendeu por cima da cama improvisada mais para bicho do que para gente.


Maria deitou-se gemendo, as pernas apertadas para segurar a cria e as dores agudas do parto em ferroadas.


− De buraco apertado não sai Bem-te-vi. Afrouxa dona. Minhas mãos são de vaqueano e nessa hora lhe hão de servir.


Viram-se os dois a forcejar para trazer ao mundo mais um filho de Deus.


O piá berrou estapiado no recavem.


−É gadelhudo o Chico, Maria, gadelhas negras como as suas. – José sorria, a sisudez de gaudério se perdendo diante do choro de recém-nascido. Com peito já incendiado falou mais para si mesmo:


− Pois não há de ver que é diferente de ver vaca e égua nascendo? É filho de gente.


Correu ao cavalo e trouxe um pala para enrolar o pimpão.


Maria segurou o filho, beijou-o enquanto colocava no seio a boca buscadeira.


Os homens à espera entraram, o choro fora o sinal da permissão, os chapéus rodando nas mãos duras. Agacharam-se olhando mãe e filho como quem olha santinho bento. Por trás, José fiscalizava os modos dos bagual.


Um se levantou e disse muito solene:


− O menino vai crescer, precisará de defesa. Dou meu punhal de empunhadura de prata. Muito lhe há de servir.


O segundo chirú não se fez de rogado, tirou a guaiaca e depositou diante de Maria:


− Dinheiro ele há de percisar, dou lugar para ter onde guardar.


O terceiro se levantou e meio envergonhado declarou:


− De valor nada tenho: nem punhal, nem guaiaca, mas colhi essas macelas que hão de perfumar. − Largou as flores douradas ainda com aroma da frescura da terra gaúcha, seu brio e suas lutas.


− Como há de se chamar o guri? Já basta que não tenha pai, nome há de ter. − Atreveu-se o primeiro.


− Tome tenência. − rugiu José.− Acha que sou algum alarife? Estou amansionado. É meu guri, para o que der e vier, trouxe o guri pro mundo, o filho é meu.


Maria olhou o homem, o filho e pensou na Virgem e na promessa que fizera no caminho.


− Pois se o pai se agradar se chamará Gesuíno.


Lá no céu, acima de tudo, a luzeira cintilou.


Vana Comissoli

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

FÉRIAS

Prezados leitores e "cooperados", quero agradecer o apoio constante recebido dos senhores, através das suas leituras, seus comentários e seus textos enviados e comunico que o blog entra em férias a partir dessa data voltando em meados de janeiro.


Deixo aqui meu agradecimento pela companhia constante dos leitores do blog, dos colaboradores e deixo também votos de felicidades nesse ano que vem chegando e um desejo de que no 2012 continuemos juntos a compartilhar esses textos de alta qualidade e os comentários precisos e preciosos.



Obrigado
e Boas Festas!


De vosso amigo Tiago.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Cheiro de infância (Inacio Carreira)

Não sei se naquela época já conhecia as histórias do descobrimento e das caravelas que vieram de Portugal. Mas aquela lata, que chegava pontualmente às vésperas do Natal, ele conhecia bem. Ela o intrigava. Era promessa de risos de alegria e lágrimas de lembranças e saudades. Uma tia-avó da "terrinha" mandava, pontualmente, aquela insólita embalagem contendo cartas, panos de prato, às vezes um corte de tecido, um xale, bolachas caseiras e balas, divinas balas... Divididas entre os muitos netos, as poucas balas eram iguarias divinais. Saboreá-las era transformado num ato às vezes cerimonioso, quase sagrado: só depois da janta ou após beber um gole do copo de água que a avó depositava todo santo dia, na frente do rádio, para ser bento desde Aparecida do Norte. Daquelas balas ele sempre se lembra, mesmo agora que a variedade de guloseimas nos supermercados, padarias e lojas de conveniência oferecem, ao olfato e ao paladar, até odores e sabores que não existem na natureza. Mas tinham um cheiro e um gosto peculiares aquelas balas anuais, embrulhadas em papel manteiga por mãos que ele nunca viu, nem veria; com certeza, feitas de forma artesanal em algum tacho de cobre, num fogão à lenha, numa pequena aldeia com ruas estreitas, medievais, casas de três andares erguidas de pedra e madeira, embranquecidas àquela época pela neve que ele só conhecia por devaneios e sonhos, as pegadas e os uivos longínquos dos lobos arrepiando a alma... A memória guardou a lembrança do gostar do gosto e do olor daquelas balas natalinas, mas não o próprio gosto e cheiro. E ele tenta recordar e associa - talvez erroneamente - com cheiro/gosto de cabo de guarda-chuva (que só bem tarde da vida acreditou ser o gosto/cheiro da cola de madeira); cheiro de São Jorge na lua; de bolinhas de gude; de seixos rolados; de nuvens formando figuras; de asas de borboleta nos quadros da sala de estar daquela tia rica; de borracha de areia; de pedra sabão; de sabonete no lavabo daquela casa bonita onde não passou do hall; de hóstia de primeira comunhão... Gosto/cheiro de selo de antes, quando a cola era molhada na língua; de mão com o zinabre dos pegadores dos bondes abertos; do beijo no rosto daquela tia que a mãe falava à boca pequena ser doente, "não podia passar sem homem"; de chuva de verão misturado ao forte cheiro da terra quente, molhada; de grama sendo cortada nos quaradores que ladeavam o caminho de chegada a casa. Cheiro de saudade, de flores misturadas ao odor dos pavios queimando nos velórios... Nas balas, cujo cheiro e gosto ele não lembrará jamais, um cheiro de infância, de inocência, da alegria de um dia talvez poder conhecer aquelas gentes que faziam aquelas balas naquela terra de onde ele veio (como semente genética não transgênica) e para onde só irá, tem certeza, quando misturado à terra e aos demais elementos, contribuindo algures para formar cheiros e gostos de outras infâncias, em outros tempos, outras crianças.



--



inacio carreira

associação beneficente novo amanhã / comunidade terapêutica

fones 47 3371 6670 / 8812 8099

domingo, 19 de dezembro de 2010

Feliz Natal (Tiago Nascimento)

Noite alta

A estrela d'alva

Três reis mag(r)os

Alguém nascendo

Logo ali...

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Um forte abraço aos leitores e aos amigos escritores. Que o amor pregado pelo Cristo contagie a todos.

 

Vídeo Indicado pela Cristina Pretti:





domingo, 21 de novembro de 2010

O órfão e o almoço de Natal (Sônia Pillon)

A vidraça quebrada da janela do orfanato mal conseguia conter a água da chuva que invadia o alojamento dos meninos. Os pingos se confundiam com as lágrimas de Ângelo. O mundo lá fora causava uma inquietação indefinível para ele, misto de esperança e medo. Ângelo sempre ficava imaginando como seria ter o carinho de uma mãe e um pai, longe da rispidez dos monitores, que mais pareciam generais comandando suas tropas.


Lembra também do pavor que desde os quatro anos o acompanha, toda vez que atravessa os corredores escuros do orfanato, ou quando está dormindo no beliche.


Já haviam se passado seis anos, mas parece que foi ontem que viu seu amigo José ser atacado por um monitor no meio da noite. Não consegue esquecer a visão terrível do amigo, que gemia baixinho e se debatia inutilmente enquanto era violentado, enquanto imperava o mais completo silêncio no alojamento.


Desconfia que todos fingiam nada ver, seja por covardia, indiferença, medo, ou por uma espécie de consolo cruel, por já terem passado pela mesma situação. Também não tira da cabeça a cena do pequeno José que continuou a chorar baixinho, de dor e humilhação, enquanto o encardido lençol se tingia de sangue e ele desmaiava em seguida.


Pouco depois o alerta foi dado. José foi levado às pressas para a enfermaria, e nunca mais foi visto. Nem o monitor. Disseram que seu amigo foi para um hospital porque estava doente, com hemorróidas, e que depois foi transferido para outro orfanato. Todos foram proibidos de falar sobre o assunto, e o caso foi abafado.  - Onde ele está agora?, se perguntava.


Ângelo continua olhando para fora das grades do orfanato. É madrugada e está com sono, mas sabe que não conseguirá mais dormir. Todas as noites tem o mesmo pesadelo, em que vê o cruel monitor chegando de mansinho para perto de sua cama. Nessas horas, acorda sobressaltado, suando muito, e fica olhando a rua lá fora, rezando para a maioridade chegar logo, para começar uma vida nova, ou até antes, se for adotado por alguma família.


Ângelo fica se imaginando, andando livre por aquela rua, trabalhando como cheff de cozinha, em um restaurante ou grande hotel, seu grande sonho. Aliás, estar na cozinha é o que mais gosta de fazer. Gosta de ver o corre-corre das cozinheiras, cortando legumes, verduras, temperando e cozinhando a comida que será servida no refeitório.


Os aromas dos temperos e do cozimento fazia sua imaginação voar para fora dos portões daquele cinzento orfanato. Era como se o cheiro dos alimentos, levado pelo ar, levasse também seu espírito, voando livre e cheio de esperanças.


Nunca apreciou estudar, mas quando a nutricionista Alva disse a ele que se estudasse, o ajudaria a se tornar um grande mestre-cuca, viu nessa oportunidade a única saída para fugir da marginalidade, ou da pobreza.


- Um dia eu vou voltar aqui como um cheff , e vou distribuir comida boa, “papa fina”, para esses órfãos todos!


Dez anos se passaram desde aquela noite chuvosa. Alva cumpriu a sua promessa de ajudar Ângelo, que ao sair do orfanato foi indicado para trabalhar num restaurante, inicialmente como auxiliar, e depois como cozinheiro e chefe. Trabalhava de dia e era aluno bolsista de gastronomia à noite. Se tornou um cheff respeitado, apesar de ainda muito jovem.


- Finalmente chegou a hora!...


Nesse momento, Ângelo olha atentamente para o refeitório recém-reformado, para as toalhas impecavelmente brancas, para os sorrisos e os olhos das crianças, que brilham de alegria enquanto saboreiam os pratos preparados por ele.


- Senhor Ângelo, as crianças querem agradecer o almoço e os presentes de Natal cantando uma música de Natal, diz a diretora do orfanato.


Lágrimas incontidas escorrem pelo rosto do jovem cheff , que falou com voz embargada.


- Vocês não precisam me agradecer, gente! Eu já fui como vocês, e prometi a mim mesmo que um dia voltaria aqui... Acreditem em vocês mesmos, estudem, escolham uma profissão que gostem, e nunca desistam de seus sonhos!... Ano que vem eu volto aqui!...


O almoço terminou. Os presentes foram abertos com euforia pelos órfãos, que cantaram hinos natalinos em agradecimento àquele homem tão bom, que para surpresa deles também já fora um interno do orfanato... Chegou a hora das despedidas, dos abraços, e de ver olhares de esperança naqueles meninos e meninas.


- Hoje exorcizei os meus fantasmas!, disse baixinho para si mesmo, enquanto lançava um último olhar para aquele prédio cinzento, que naquele momento deixou de ser assustador para ele, definitivamente.


Sônia Pillon é jornalista e escritora em Jaraguá do Sul, Santa Catarina.