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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A festa de Wilfred (Sônia Pillon)

Os portões do Parque Municipal de Eventos se abriram. Era a primeira noite da Schützenfest, a tão esperada festa de outubro de Jaraguá do Sul. Era o momento máximo em que os alvos e a tradição do tiro passa a atrair os visitantes. Integrantes dos clubes e sociedades de tiro que resgatam a cultura trazida pelos exímios guerreiros e caçadores germânicos estavam todos lá. Garbosos em seus trajes típicos, com o peito estufado de orgulho e emoção, eles desfilavam e acenavam para a plateia, segurando bandeiras. Eles ostestavam faixas e medalhas.


Alguns sorriam e respondiam os chamamentos dos parentes e amigos, outros se mantinham solenes. Majestades do tiro e da beleza, eles eram seguidos pela banda alemã.


No palco do pavilhão principal estavam as autoridades e aqueles que nos bastidores prepararam a solenidade, com cobertura da imprensa catarinense. Até um canal vindo especialmente da Alemanha apareceu para conferir o que aquela cidade, encravada em um vale no Sul do Brasil, era capaz de fazer. Eles faziam um documentário para mostrar o que os descendentes dos imigrantes, que há dois séculos atravessaram o oceano para criar o Novo Mundo, foram capazes de empreender.


Em meio à rainha e às princesas, o sorridente personagem “Wilfred” esbanjava simpatia, sempre segurando a arma que, ao contrário do que inicialmente se poderia imaginar, só buscava atirar em cheio na alegria, levando a concórdia e a confraternização durante os 11 dias da festividade.


Um documento pela autoridade máxima do município foi assinado e lido. Era de para as majestades e todos os demais presentes, decretando que a partir daquele momento, apenas a alegria, o o entretenimento e o entendimento deviam imperar.


Ao circular pelos pavilhões, Wilfred observava os atiradores dos estandes de tiro, de artesanato, os deliciosos pratos da culinária típica germânica, assim como os boxes de batata recheada, crepes, do tão procurado chope gelado...


Casais de todas as idades rodopiavam na pista de dança, enquanto outros pulavam e seguiam a coreografia comandada pela banda... Wilfred olhava tudo e mantinha o permanente sorriso enquanto percorria os pavilhões, sempre muito festejado pelos participantes. Ele prometeu para si mesmo que iria distribuir alegria durante todo o decorrer da Festa dos Atiradores de Jaraguá do Sul!

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Noites de Sábado (Robert Brotzke)

Jaraguá do Sul possui uma mistura de gostos, de culturas, de sotaques, de preferências por estilos musicais, e todas elas possuem o seu espaço, e os ambientes em que os amantes de cada estilo se reúnem para se divertir nos fins de semana.

Há aqueles lugares que tocam apenas samba, trazendo um pouco da cultura carioca juntamente com suas músicas e cervejas; tem os ambientes que tocam música mais pesada, tanto do rock nacional quanto internacional; tem as baladas de musica eletrônica, e aquelas que tocam um pouco de tudo, mas especialmente sertanejo universitário e funk, com a vinda de artistas de renome nacional.

Em partes, casa estilo vive muito bem, sem precisar entrar em conflito com o outro, e todos aproveitam o seu merecido descanso se divertindo e bebendo, como todas as juventudes anteriores também fizeram. Porém, devido a sugestão de cada uma das músicas, o ambiente toma um lugar de mais ou de menos sedução, libido e desinibição. Quem nunca presenciou ou participou de uma balada em que nos pequenos corredores que haviam para circulação, as garotas foram descaradamente assediadas, com tapas e apertões na bunda? (algumas vão com shorts bem curtinho, justamente pra isso).

Quando os pais dessas garotas que começaram a sair para a noite há pouco tempo, pediam como ia ser, e pra onde iriam, recebiam a notícia de que todo o pessoal da escola e da faculdade estaria lá, para tranquilizá-los. Um único pedido dos pais, é pra filha jamais ir ao lugar que só toca rock, pois segundo eles, não é um ambiente de família, onde (no ponto de vista deles) só é frequentado por pessoas que bebem, se drogam e que não respeita garota nenhuma.

Duas irmãs, diferentes uma da outra por capricho da natureza, saíram juntas numa determinada noite, mas tomaram rumos diferentes: uma foi pro Pirata, e a outra em uma festinha "open bar" para elas, até a meia noite. No lugar que só toca rock, ela recebe uma fita de maior de idade para poder comprar bebidas, assim como a irmã que foi para a outra balada; Chegando lá, observa um ambiente estilo bar americano de filmes de faroeste, com um rock n' roll tocando ao fundo, algumas mesinhas redondas em frente ao bar, mesas de sinuca distribuídas pelo espaço, e ao canto esquerdo o palco, com os instrumentos musicais de uma banda que se apresentara em seguida.

A outra irmã foi surpreendida logo na entrada por um gogo boy vestido de sunga preta, e uma gravata de garçom, que puxava as garotas mais tímidas (e ainda sóbrias) para o palco, fazendo-as sentar numa cadeira reclinável, onde ela foi vendada e segura por uma mão, que alisava o corpo do indivíduo enquanto o mesmo preparava o drink de Tequila, para deixá-la "enturmada".

Enquanto isso, a primeira garota foi convidada a jogar sinuca com um rapaz cabeludo que se ofereceu pra fazer companhia, e meia hora depois, foram para a direção do palco, onde já começava o solo de guitarra da banda. Ela colocou um pé no palco, com mais ou menos 40 centímetros de altura, e agitava a cabeça sem parar, embalada pelo som distorcido da primeira música da banda. Um pouco atrás dela, uma "roda punk" começa a ser formada, inclusive com as garotas mais revoltadas com este sistema social podre, tornando o ambiente por três minutos, num divino caos organizado.

No outro lugar, a garota já tinha descido pra pista, quando começa uma sequência de músicas nacionais, do novo cenário musical, e ela começa a dançar sozinha. Não demora muito pra perceber que está dentro de uma rodinha formada por alguns rapazes, que passam a dançar colados com ela, e a oferecer bebidas sem parar. Quando ela se cansa e a música de torna chata, ela vai ao banheiro. Na volta é surpreendida por um dos rapazes da roda, que oferece todas as bebidas que ela quiser naquela noite, e em troca, ela teria que aceitar uma carona pra casa. Ela por um instante evita-o, encarando nos olhos com um sorriso congelado, mas acaba aceitando quando ele é surpreendido por uma das amigas de balada dele, que quando vai dar um beijo no rosto, quase acerta a boca; assim que essa garota se afasta, ela toma de sua mão o copo de caipirinha, e caminha até a mesa do rapaz. Ele se aproxima das escadas que dá acesso à área VIP, e informa aos seguranças que ela pode passar "de boa", e assim ela vai até a mesinha, onde os dois trocam ardentes carícias, e antes que a festa terminasse, vão para o motel.

Acha que a outra irmã não se deu bem na noite? claro que sim! o garoto cabeludo que estava acompanhando-a, também fez a mesma proposta, e ela aceitou também, porque independente do lugar, as duas queriam mesmo é aproveitar a noite da melhor forma possível. A diferença é que pra primeira, o ambiente do Pirata não era tecnicamente sedutor, muito pelo contrário, ali as pessoas vão pra curtir a noite, os casais ficam juntos o tempo todo, sem se preocupar com um bêbado folgado que venha a mexer com a sua parceira. O cabeludo a convenceu após uma longa conversa e fichas de sinuca, e têm tudo pra iniciar um namoro, já que ambos estavam cansados da mesmice que o mundo se transformou... e para a outra irmã, estava em um ambiente propício para a libido e a luxúria, e a ida pro motel foi apenas resultado do álcool no sangue.

No dia seguinte, a irmã que foi curtir um rock contou que não foi junto com a outra, na festa "open bar", e foi duramente criticada pelos seus pais, que falaram que lá não era lugar de moça direita. A outra, apenas sorriu e foi caminhar no parque no domingo a tarde, como o "bom exemplo" da família.


Robert Brotzke

quinta-feira, 6 de junho de 2013

UFC Jaraguá: Ainda bem que eu não falei (Marcelo Lamas)

belfortxrockhold


Sou um cara que fala demais. Quando começou o boato de que o UFC
poderia ser na nossa latitude, passei a ser indagado pelos meus amigos: “É sério esse negócio do UFC?”.
Informalmente, eu respondia: “É claro que não! Aqui não tem aeroporto”. Outra característica minha: Sou lógico demais. Faria sentido que o evento fosse numa capital. Eu ouvira boatos de que Porto Alegre queria o evento na Arena do Grêmio, não saiu. Curitiba, que é a base brasileira de vários lutadores não teve.


Cheguei a pensar em escrever (falar) publicamente sobre esta utopia
que entorpecia os amantes do esporte. Eu tinha certeza de que não ia
acontecer. Só não escrevi porque a Fernanda, minha namorada, pratica artes marciais desde criança, junto com o irmão, o Mestre Xitão. Logo, por questão de respeito, eu só manifestava o meu ceticismo conversando com eles.


Você já ouviu falar na cidade de Melo, no Uruguai? Não, né? Na década de 80, o Papa João Paulo II visitou a cidade. Até hoje, ninguém sabe o porquê!


Ainda quando não acreditava, falei pra namorada: “Quem trabalha com isso tem que ficar com o nariz colado no octagon!”. Me ferrei. Meses depois tive que comprar um ingresso deste, para acompanhá-la. E o destino me faria trabalhar de fotógrafo a noite toda, fazendo fotos dela com as celebridades das lutas.


Quando entrei na Arena, e vi a estrutura montada, entendi tudo. Realmente, o nosso cartão postal tinha mesmo uma caraterística diferenciada do que se vê pelo país. E foi projetada pelo pessoal daqui, hein!


Onde o “multiuso” ficou escondido nos últimos cinco anos?
Pois bem, se a Arena Jaraguá foi o atrativo inicial para este evento, agora temos a comprovada capacidade que a nossa população tem de superar -se. Só ouvi elogios dos forasteiros. Nunca imaginaria que poderia chegar num restaurante de Jaraguá do Sul, às 2h da madrugada e pedir um jantar. Ainda bem que eu não escrevi sobre isso também, teria que me retratar duas vezes.


Marcelo Lamas, engenheiro e escritor. Autor de “Arrumadinhas ”, livro em trabalho de parto.
marcelolamas@globo.com

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Caixão pro Billy (Fernando Bastos)


Estávamos eu e um amigo conversando sobre gírias de nossa época, isto é, do século passado. Concluímos que a maioria das expressões, antigas ou atuais, não tem origem na região - foi importada de outras terras, de modo que os haoles que gostam de tirar uma palha de nosso jeito de falar, não sabem que muitas vezes nossas gírias vieram de outros lugares. É isso aí papudo.


A antológica Caixão pro Billy, usada quando algo deu errado é própria do manezinho de Florianópolis. É mole pro gaiteiro só podia ser dos gaúchos. Há no entanto, algumas gírias criadas aqui. Por exemplo, “não é vasel” – homenagem a antigo político jaraguaense - significa que algo não é fácil. Não achamos a origem de outra famosa de nossa época: “meu pau do Lelo”, que se referia a algo espantoso. Expressão sem nenhum teor de malícia ou que fizesse uma senhorinha de 80 anos ficar corada.


Por curiosidade, escrevi para meus contatos solicitando que me enviassem gírias conhecidas entre nós e, para meu espanto, saltaram em minha caixa de e-mail mais de 50 expressões “jaraguaenses”.


Eis algumas: Susse no musse - vamos ir - meu caneco! - fica frai, não descabelai – foi lá pra caixa prego - tomá no óschla – uh, seu corno! - é o demonho mesmo – vai caximbar formiga - eu dii (eu dei) - vai toda vida reto – pega asisquerda e depois asdireita – todo mundo xunto reunido – tem xente, uma veiz - capaiz! – meu bonje (forma sincopada de Meu Bom Jesus) – do tempo do Epa...


Quanto a minha conversa com o amigo em questão, uma dúvida nos corroeu. Até agora não sabermos se Billy e Lelo existiram. O que ficou foi que concordamos: caçoar do modo de um povo falar é não entender que cada região tem sua maneira peculiar de dizer as coisas, e sem dúvida, nosso Vale tem um rico e saboroso menu de expressões graças aos imigrantes que aqui desembarcaram e aos “estrangeiros” que fazem dessa terra um lugar especial de se viver.


Fernando Bastos, cartunista e escritor